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Conversa

Questionado no último domingo sobre a estreia do zagueiro Antonio Carlos, que havia sido contratado do Botafogo, o técnico Paulo Autuori enfatizou a liderança do defensor.

"Isso é algo que eu venho cobrando de todo o time. Precisamos nos comunicar mais e melhor", disse o comandante do São Paulo após a vitória por 2 a 1 sobre o Fluminense.

Como na vida, a comunicação muitas vezes é subvalorizada no futebol. Não há relação que se sustente sem atenção a isso.

Ao contrário de modalidades em que as movimentações são marcadas e treinadas com base em repetição, o futebol está alicerçado em improvisos. Por isso, qualquer lance tem potencial para mudar o panorama de um jogo. Muitas vezes, falha de atenção ou erros individuais são imperceptíveis para quem apenas vê uma partida.

Em campo, portanto, os jogadores são submetidos constantemente às duas situações: há erros, falhas ou apenas adversários mais perspicazes, e eles precisam perceber isso a tempo, planejar uma estratégia contrária e comunicar isso ao time.

Exemplifico: um jogador pega a bola na direita, faz uma trajetória em diagonal e dribla três adversários. Os defensores que ainda estiverem postados precisam pensar rapidamente em meios de compensar os espaços abertos e evitar que a bola chegue ao gol.

A lista de decisões possíveis passa por "fazer a falta", "tentar o desarme individual", "tentar o desarme com dois jogadores" ou "posicionar o corpo para impedir que ele seja obrigado a mudar de direção", por exemplo. Há muitas outras hipóteses, e a decisão é sempre de quem está em campo.

Quando eu digo que o campo dá total autonomia, muita gente já questionou e citou os treinos. Por mais que a defesa seja preparada para lidar com ataques que tenham mais adversários ou lances individuais, por mais que os movimentos sejam ensaiados, o futebol sempre tem peculiaridades. É praticamente impossível que um lance no jogo seja a repetição exata de uma simulação feita durante a semana.

O que acontece no jogo pode remeter a exemplos dos treinos, e isso pode automatizar as decisões dos atletas. Para amenizar a margem de erro, contudo, o melhor é que esses atletas consigam entender o que está acontecendo e planejar soluções. Essa capacidade de resolver problemas em um espaço curtíssimo de tempo é o maior diferencial de qualquer esporte coletivo.

Tomada a decisão sobre o que fazer para interromper a jogada do adversário, cabe ao jogador comunicar isso. Não há estratégia eficiente se for totalmente individual, descolada das ações do restante do time. Se todos tiverem iniciativa ou se ninguém tiver, as chances de o lance prosseguir são igualmente grandes.

É importante que as decisões, por mais individuais que sejam, tenham reflexo no contexto. Um zagueiro pode optar por fazer a falta para interromper o lance individual do rival, mas os companheiros dele devem se posicionar para evitar a sequência do lance. E se o atleta que sofreu a infração conseguir tocar a bola, por exemplo? E se esse toque for direcionado ao espaço deixado pelo defensor que foi fazer a falta?

Não existe decisão, por mais técnica que seja, que possa ser dissociada da comunicação. E quando eu digo comunicação, não precisa ser necessariamente um estímulo verbal. Atletas podem se falar por gestos, olhares ou até pela movimentação. O corpo também fala.

Dissociar processos é um dos erros mais comuns no esporte. É como o jogador que tem excelente índice de aproveitamento de finalizações nos treinos, mas não repete isso nos jogos. Ele pode ter a mecânica certa, o movimento correto, mas precisa saber colocar isso em prática com ações dos rivais, pressão da torcida, cansaço e outros fatores.

Volto a Paulo Autuori. Depois da vitória sobre o Fluminense – o São Paulo não triunfava desde a segunda rodada do Campeonato Brasileiro – o técnico enalteceu o ambiente que tem sido criado no time do Morumbi. "Eu acredito na harmonia", afirmou o técnico.

Conheci um jogador que pedia para levar tapas na cara antes de entrar em campo, só para aumentar a motivação. O nadador Cesar Cielo faz alto parecido ao desferir fortes tapas contra o próprio peito nos momentos que precedem as provas. Comunicação é passar mensagens. Nem sempre com harmonia.

O contraexemplo de Autuori é o técnico Dunga, que tem feito boa campanha com o Internacional no Campeonato Brasileiro. Ele pode até criar um ambiente de harmonia, mas não se comunica assim.

Dunga é raiva, é explosão, é pressão. É radicalmente o inverso de profissionais como Autuori ou Oswaldo de Oliveira, que comanda o Botafogo. E existe um estilo melhor entre os dois caminhos?

Não, não existe.

Sempre que foi questionado sobre o excesso de palavrões à beira do campo, o técnico Vanderlei Luxemburgo respondeu coisas como "ali, no calor do jogo, é impossível pedir por favor". Se você vociferar um pedido a alguém na rua, dificilmente será atendido.

Comunicação é conhecimento. É conhecer o ambiente, por exemplo, e saber que a linguagem usada durante um jogo de futebol não é pertinente em outros ambientes. Mas também é conhecer o receptor da mensagem e saber como ele lida com cada tom.

Há jogadores que se assustam com gritaria e que não rendem bem com esse tipo de cobrança. Outros, como o que eu relatei, preferem tomar tapas na cara só para atingir o grau certo de adrenalina.

A comunicação eficiente em campo segue o mesmo roteiro do que acontece fora das quatro linhas. É fundamental conhecer o assunto, o ambiente e o destinatário. A grande diferença entre as duas situações é a velocidade. Em campo, além de conhecer tudo isso e lidar com a pressão, jogadores, treinadores e outros profissionais precisam tomar decisões muito mais urgentes.

Urgência só não pode ser confundida com "de qualquer jeito". A boa comunicação é a que tem estratégias prontas para lidar com esse prazo curtíssimo. É a que entende que não se pode tratar indivíduo algum com base em generalizações.

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O fator gramado: o vantajoso “não jogar futebol” vs o jogar futebol

São inúmeros os estudos e as observações estatísticas que vêm nos últimos 15 anos – mais formalmente – analisando a suposta vantagem de equipes como mandantes, jogando dentro dos seus “domínios”.

Há também pesquisas que evidenciam, por exemplo, a influência do mando de jogo nas decisões da arbitragem (especialmente na incidência de cartões amarelos e vermelhos) em determinadas competições.

Seja qual for o tipo de análise e abordagem realizada nessas pesquisas, muitos são os motivos e os apontamentos que tentam justificar as significativas diferenças observadas tendo o mando de jogo como variável independente nos estudos.

E ainda que haja evidências certeiras que mereçam nossa atenção dentro da ideia geral e concreta, de que mais do que o mando de jogo, o ambiente e a atmosfera presente nele (no próprio ambiente), são, sistemicamente falando, potencialmente determinantes para o resultado final da partida e até de um campeonato, gostaria de evidenciar neste texto algo que deveria sim, ser valorizado como variável para análise: o fator campo literalmente falando!

E do que se trata o fator campo, literalmente falando? Trata-se especialmente das condições do terreno de jogo (da grama, dos buracos, da areia, etc.) e de suas dimensões.

Claro que uma vitória ou uma derrota podem sim ser analisadas e explicadas por uma série de fatores interligados que compõe no contexto geral o resultado final de uma jogo.

Mas, como desvalorizar (como se faz inúmeras vezes) e negligenciar, por exemplo, a qualidade do terreno de jogo para analisar o desempenho de uma equipe?

No tênis, muitos grandes jogadores em um tipo de piso não são necessariamente os melhores em outro tipo – e se quiserem ser, precisarão treinar muito para que se acostumem com as nuances que um ou outro piso propiciarão à dinâmica do jogo.

Um campo de futebol com grama alta tornará o jogo mais pesado e lento. Um campo úmido, com grama fina e baixa propiciará um jogo muito veloz. Um campo de terreno duro, com muitas falhas na grama, areia e buracos, deixará a bola muito “viva”, e o jogo jogado será outro.

Quando comparamos, muitas vezes o ritmo de jogo jogado no futebol europeu com o futebol brasileiro, há de se levar muito em conta o fator campo (ou melhor, vou chamar de fator gramado). Quando comparamos, muitas vezes a qualidade técnica do jogo europeu com a do futebol brasileiro, precisamos entender o “peso” do fator gramado.

Claro, o fator gramado não é a explicação para tudo – longe disso! Mas, chamo a atenção para o fato de que ele é sim, muitíssimo importante para analisarmos ocorrências do jogo.

Muitas vezes, porém, é mais simples fugir da questão que envolve a qualidade do gramado e partir para uma análise especulativa e imaginativa – por vezes infundada – que tenta explicar êxitos e fracassos (afinal como normalmente se diz: “se o campo estava ruim, estava ruim para as duas equipes”).

E é nessa afirmação que mora um dos grandes equívocos para iniciar a análise de um jogo. O campo está ruim para as duas equipes? Depende do jogo que cada equipe se propõe a jogar.

Uma equipe acostumada a chutões, bolas longas e cruzamentos distantes até a área, pode realmente não ter grandes problemas em um campo todo esburacado, que não favoreça a troca de passes.

Mas, para uma equipe que se propõe a controlar o jogo com bola, trocar passes rápidos e elevar o ritmo do seu jogar, um campo como o descrito no parágrafo anterior não vai ser nada bom.

Então, há de se considerar que um campo bom ou ruim, não é necessariamente bom ou ruim para todas as equipes que jogam nele.

Nas categorias de base do FC Barcelona, por exemplo, mesmo nos treinos em grama artificial, o campo é levemente molhado para a bola deslizar com mais facilidade e exigir dos jogadores mais velocidade e habilidade – não por acaso a sua equipe profissional tem como hábito, em seu campo, de utilizar o mesmo procedimento durante as partidas.

Então, se queremos jogos de melhor qualidade, ritmo e intensidade devemos sim começar por uma atenção especial ao campo de jogo. E não adianta dizermos que os jogadores devem estar habituados a jogar em qualquer tipo de qualidade de gramado. Se queremos excelência no futebol não podemos negligenciar o fato!

O campo ruim, cheio de falhas e desníveis, nivela o jogo a favor das equipes de menor qualidade. O campo com gramado alto (ou muito alto), nivela o jogo à favor da equipe menos veloz e de menor ritmo.

Por que mesmo quando se está evidente a má qualidade do gramado, ao invés de nos atentarmos a isso e cobrarmos melhores condições para deixar o jogo melhor, acabamos por nos deparar muitas vezes com explicações que tentam justificar o mau desempenho de jogadores e equipes a partir de um viés por vezes distante da realidade dos fatos (coisas do tipo: faltou concentração; faltou respeito ao adversário; faltou comprometimento com a equipe)?

Claro, o bom ou mau desempenho, o bom ou o mau resultado têm explicações multifatoriais! Não estou propondo aqui que desconsideremos todas elas!

Mas, de novo, uma equipe que se prepara para jogar futebol em alto nível técnico-tático-físico vai sofrer consequências negativas de um gramado ruim; e claro ela poderá ou não se adaptar rapidamente as condições dele.

Porém, isso não desabona a grande verdade, que é a de que equipes acabam por adotar o campo de jogo como sua armadilha principal para vencer seus adversários!

Isso quer dizer então, que a invés de dirigentes, treinadores, comissões técnicas e jogadores buscarem diariamente evoluir o jogo de suas equipes para efetivamente confrontar modelos e estilos, o que vemos é um “descomprometimento” com a evolução do jogar, à favor de um pacto com um “não jogar futebol que seja vantajoso”.

Temos o dever de dar atenção a isso!!! Se queremos que nosso futebol melhore mais rapidamente, não podemos negligenciar o fator gramado!

Seja no Campeonato Brasileiro de futebol, nos Estaduais e Copa do Brasil nos quais isso é gritantemente evidente, ou ainda nas categorias de base: não podemos permitir que cada vez mais, continue ganhando espaço o desenvolvimento do “não jogar futebol que seja vantajoso”, em detrimento do realmente jogar futebol!

Por hoje é isso!!!

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O fator gramado: o vantajoso "não jogar futebol" vs o jogar futebol

São inúmeros os estudos e as observações estatísticas que vêm nos últimos 15 anos – mais formalmente – analisando a suposta vantagem de equipes como mandantes, jogando dentro dos seus "domínios".

Há também pesquisas que evidenciam, por exemplo, a influência do mando de jogo nas decisões da arbitragem (especialmente na incidência de cartões amarelos e vermelhos) em determinadas competições.

Seja qual for o tipo de análise e abordagem realizada nessas pesquisas, muitos são os motivos e os apontamentos que tentam justificar as significativas diferenças observadas tendo o mando de jogo como variável independente nos estudos.

E ainda que haja evidências certeiras que mereçam nossa atenção dentro da ideia geral e concreta, de que mais do que o mando de jogo, o ambiente e a atmosfera presente nele (no próprio ambiente), são, sistemicamente falando, potencialmente determinantes para o resultado final da partida e até de um campeonato, gostaria de evidenciar neste texto algo que deveria sim, ser valorizado como variável para análise: o fator campo literalmente falando!

E do que se trata o fator campo, literalmente falando? Trata-se especialmente das condições do terreno de jogo (da grama, dos buracos, da areia, etc.) e de suas dimensões.

Claro que uma vitória ou uma derrota podem sim ser analisadas e explicadas por uma série de fatores interligados que compõe no contexto geral o resultado final de uma jogo.

Mas, como desvalorizar (como se faz inúmeras vezes) e negligenciar, por exemplo, a qualidade do terreno de jogo para analisar o desempenho de uma equipe?

No tênis, muitos grandes jogadores em um tipo de piso não são necessariamente os melhores em outro tipo – e se quiserem ser, precisarão treinar muito para que se acostumem com as nuances que um ou outro piso propiciarão à dinâmica do jogo.

Um campo de futebol com grama alta tornará o jogo mais pesado e lento. Um campo úmido, com grama fina e baixa propiciará um jogo muito veloz. Um campo de terreno duro, com muitas falhas na grama, areia e buracos, deixará a bola muito "viva", e o jogo jogado será outro.

Quando comparamos, muitas vezes o ritmo de jogo jogado no futebol europeu com o futebol brasileiro, há de se levar muito em conta o fator campo (ou melhor, vou chamar de fator gramado). Quando comparamos, muitas vezes a qualidade técnica do jogo europeu com a do futebol brasileiro, precisamos entender o "peso" do fator gramado.

Claro, o fator gramado não é a explicação para tudo – longe disso! Mas, chamo a atenção para o fato de que ele é sim, muitíssimo importante para analisarmos ocorrências do jogo.

Muitas vezes, porém, é mais simples fugir da questão que envolve a qualidade do gramado e partir para uma análise especulativa e imaginativa – por vezes infundada – que tenta explicar êxitos e fracassos (afinal como normalmente se diz: “se o campo estava ruim, estava ruim para as duas equipes”).

E é nessa afirmação que mora um dos grandes equívocos para iniciar a análise de um jogo. O campo está ruim para as duas equipes? Depende do jogo que cada equipe se propõe a jogar.

Uma equipe acostumada a chutões, bolas longas e cruzamentos distantes até a área, pode realmente não ter grandes problemas em um campo todo esburacado, que não favoreça a troca de passes.

Mas, para uma equipe que se propõe a controlar o jogo com bola, trocar passes rápidos e elevar o ritmo do seu jogar, um campo como o descrito no parágrafo anterior não vai ser nada bom.

Então, há de se considerar que um campo bom ou ruim, não é necessariamente bom ou ruim para todas as equipes que jogam nele.

Nas categorias de base do FC Barcelona, por exemplo, mesmo nos treinos em grama artificial, o campo é levemente molhado para a bola deslizar com mais facilidade e exigir dos jogadores mais velocidade e habilidade – não por acaso a sua equipe profissional tem como hábito, em seu campo, de utilizar o mesmo procedimento durante as partidas.

Então, se queremos jogos de melhor qualidade, ritmo e intensidade devemos sim começar por uma atenção especial ao campo de jogo. E não adianta dizermos que os jogadores devem estar habituados a jogar em qualquer tipo de qualidade de gramado. Se queremos excelência no futebol não podemos negligenciar o fato!

O campo ruim, cheio de falhas e desníveis, nivela o jogo a favor das equipes de menor qualidade. O campo com gramado alto (ou muito alto), nivela o jogo à favor da equipe menos veloz e de menor ritmo.

Por que mesmo quando se está evidente a má qualidade do gramado, ao invés de nos atentarmos a isso e cobrarmos melhores condições para deixar o jogo melhor, acabamos por nos deparar muitas vezes com explicações que tentam justificar o mau desempenho de jogadores e equipes a partir de um viés por vezes distante da realidade dos fatos (coisas do tipo: faltou concentração; faltou respeito ao adversário; faltou comprometimento com a equipe)?

Claro, o bom ou mau desempenho, o bom ou o mau resultado têm explicações multifatoriais! Não estou propondo aqui que desconsideremos todas elas!

Mas, de novo, uma equipe que se prepara para jogar futebol em alto nível técnico-tático-físico vai sofrer consequências negativas de um gramado ruim; e claro ela poderá ou não se adaptar rapidamente as condições dele.

Porém, isso não desabona a grande verdade, que é a de que equipes acabam por adotar o campo de jogo como sua armadilha principal para vencer seus adversários!

Isso quer dizer então, que a invés de dirigentes, treinadores, comissões técnicas e jogadores buscarem diariamente evoluir o jogo de suas equipes para efetivamente confrontar modelos e estilos, o que vemos é um "descomprometimento" com a evolução do jogar, à favor de um pacto com um "não jogar futebol que seja vantajoso".

Temos o dever de dar atenção a isso!!! Se queremos que nosso futebol melhore mais rapidamente, não podemos negligenciar o fator gramado!

Seja no Campeonato Brasileiro de futebol, nos Estaduais e Copa do Brasil nos quais isso é gritantemente evidente, ou ainda nas categorias de base: não podemos permitir que cada vez mais, continue ganhando espaço o desenvolvimento do "não jogar futebol que seja vantajoso", em detrimento do realmente jogar futebol!

Por hoje é isso!!!

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Tratamento ao torcedor e o match day

Nesta semana foi realizada na cidade de Marília, no interior de São Paulo, a XX Semana Jurídica da Unimar dedicada totalmente ao direito desportivo. Tenho honra de ser homenageado e de lançar durante o evento, junto com o advogado baiano Milton Jordão, o livro Comentários ao Estatuto do Torcedor.

Em razão da Copa do Mundo fala-se muito em padrão Fifa. Entretanto, esta excelência na prestação de serviços ao consumidor dos eventos esportivos já está prevista no Estatuto do Torcedor desde 2003.

A Copa do Mundo significa muito mais que um grande evento esportivo, traz a possibilidade de efetivarmos o que prevê a legislação brasileira de proteção ao torcedor.

Espera-se que o torcedor passe a ser tratado e respeitado como um consumidor que paga pelo serviço e, portanto, tem direito de exigir qualidade desde o momento que estaciona seu carro, desde o momento que deixa o evento esportivo.

Tem-se a grande oportunidade de se trazer o conceito de match day para o Brasil que tem sua importância destacada pelo professor Cristiano Machado Costa, Coordenador do Centro de Estudos e Análises Econômicas da FUCAPE Business School (Vitória/ES)

"As principais fontes de receitas de um clube de futebol são venda de jogadores, patrocínio no uniforme, direitos de transmissão, publicidade estática e naming rights, quadro social, bilheteria e outros bens e serviços (copa, venda de camisetas, produtos licenciados, etc.). A ordem de importância destas fontes de receita varia de clube para clube. Mas uma combinação destas receitas é pouco explorada pelos clubes brasileiros. Essa combinação se dá a partir do conceito de Match Day".

Assim, o Match Day corresponde ao dia de jogo e todas as atividades que giram em torno da partida. Dessa forma, o evento inicia-se horas antes do jogo, ainda longe do estádio, quando o torcedor liga o rádio, vê a TV ou acessa a internet para acompanhar as notícias que antecedem à partida.

Depois, o torcedor desloca-se ao estádio horas antes para passear no museu do Clube, passar na lojinha para adquirir produtos licenciados. Depois deste tour, o torcedor almoça no restaurante temático da arena.

Ao fim do almoço, o torcedor recebe gratuitamente o guia da partida, toma um café expresso ou um sorvete antes de se dirigir à arquibancada.

Enquanto a partida não começa, o torcedor bebe uma cerveja, conversa com amigos, acompanha as notícias no rádio e no celular (conectado ao o wi-fi do estádio).

O jogo começa e o torcedor continua consumindo cervejas, cachorros-quente e pipocas e ao final, passa novamente na lojinha compra uma lembrança deste dia.

Perceba-se que o torcedor e sua família passam o dia no estádio de forma segura e confortável consumindo e gerando recursos para o seu clube.

Se os fatos aqui narrados parecem absurdos para os brasileiros, eles fazem parte da rotina do torcedor europeu. Destarte, o match day potencializa as receitas do clube abrangendo-se bilheteria e todos os outros bens e serviços conjuntamente multiplicando-se por todos os membros da família.

Portanto, não se trata de inventar a roda, mas de utilizar este intercambio internacional oportunizado pelo Mundial e aplicá-lo ao Brasil. O país tem a grande oportunidade de revolucionar o paradigma do tratamento ao torcedor, basta aproveitá-la.

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O poder das metas para o esporte

As metas são de extrema importância na vida das pessoas, pois são através delas que podemos realizar ações e materializar conquistas. A capacidade das pessoas em estabelecer suas metas é a chave-mestra do sucesso. As metas ativam nossa mente positiva, liberando ideias e energia para a consecução das realizações, sem estabelecer metas nós somos levados pelas correntes da vida.

Todos nós temos a capacidade de realizar muito mais do que pensamos, o fato de termos metas claras aumenta a nossa autoconfiança, potencializa as competências e estimula o nosso grau de motivação. Devemos compreender que nós mesmos criamos nosso próprio mundo, isso por que nós nos transformamos naquilo em que pensamos a maior parte do tempo.

Para os atletas acontece da mesma forma, o estabelecimento de metas é fundamental para a conquista dos objetivos na carreira. Mas se para todos nós, atletas ou não, é de extrema importância termos metas, porque será que muitos de nós não estabelecemos metas para nossas vidas?!

Brian Tracy credita as quatro razões abaixo, as prováveis razões pelas quais as pessoas não estabelecem suas metas.

1 – Porque acham que as metas não são importantes
A maioria das pessoas não se dá conta da importância das metas. Caso você tenha crescido numa família ou ambiente no qual as pessoas não estabelecem metas, é bem possível que chegue a idade adulta sem explorar sua capacidade de estabelecer metas.

2 – Porque não sabem como fazer
O segundo motivo pelo qual as pessoas não têm metas é que não sabem como fixa-las. Pior ainda, muitas acham que já possuem metas, quando na verdade possuem apenas uma série de sonhos ou desejos. A meta é clara, escrita e específica; pode ser mensurada e você consegue avaliar se a alcançou ou não.

3 – Porque têm medo do fracasso
O medo de fracassar impede que as pessoas evoluam, o fracasso é doloroso e angustiante tanto do ponto de vista emocional, quanto financeiro.

4 – Porque têm medo da rejeição
As pessoas temem que, se estabelecerem uma meta e não tiverem êxito, serão alvo de críticas e julgamentos. Por este motivo, devemos manter nossas metas em segredo quando começamos a estabelece-las.

Então, afinal qual o melhor caminho para liberar todo o nosso potencial e aumentar nossa capacidade de realização?!

Para ajudar na criação do hábito de estabelecer e alcançar metas e conquistar o sucesso em sua vida, seja na face pessoal como na face profissional, devemos refletir e responder as questões abaixo.

Libere seu potencial (Por Brian Tracy)

1 – Imagine que você tem a capacidade inata de alcançar qualquer meta que venha a estabelecer para si mesmo. O que você realmente quer ser, ter e fazer?

2 – Quais atividades que lhe dão maios sensação de significado e propósito de vida?

3 – Analise o lado profissional e pessoal de sua vida como está hoje e identifique como o seu pensamento criou seu próprio mundo. O que poderia e deveria modificar?

4 – Em que costuma pensar e do que costuma falar a maior parte do tempo? Do que quer ou do que não quer, para sua vida?

5 – Que preço terá de pagar para atingir as metas que são mais importantes para você?

6 – Que iniciativa deveria tomar imediatamente, tendo em vista suas respostas às perguntas anteriores?

A chave da nossa felicidade! Estabelecer metas, trabalhar diariamente para alcança-las e afinal concretizá-las é realmente a chave da felicidade para a nossa vida. Isso é tão poderoso, que apenas o fato de pensarmos sobre nossas metas nos faz mais feliz e positivo, antes mesmo de termos dado o primeiro passo na direção de sua concretização.

E você amigo leitor, também acredita que as metas são uma forma poderosa de vencer os desafios do esporte?

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A era da desinformação

Depois da era industrial, da era do conhecimento, da era digital e da era da hiperconectividade, vivemos agora a era da desinformação.

Tenho pensando nos últimos tempos no tema da desinformação e passei a pesquisar sobre seus motivos. Li artigos, participei de debates, conversei com profissionais de diversas áreas e níveis hierárquicos e fiquei atento aos acontecimentos do dia a dia para confirmar a tese.

Reunindo todas as evidencias, cheguei a uma conclusão: a era da desInformação está em curva ascendente e não vejo, pelo menos a curto prazo, um sinal de que irá desaparecer.

Antes de continuar, vamos nos alinhar sobre as definições de senso comum e informação. A maioria das pessoas imagina que o senso comum e informação são sinônimos, não são! De fato, é fácil confundir já que existem situações que podem nos levar a misturar tais definições. Para que não haja dúvidas sobre o que significa uma e outra, vamos a suas definições:

Senso comum: O senso comum descreve as crenças e proposições que aparecem como normal, sem depender de uma investigação detalhada para alcançar verdades mais profundas, como as científicas. Enfim, não pressupõe reflexão, é uma forma de apreensão passiva, acrítica e que, além de subjetiva, por vezes é superficial.

Informação: É um conjunto de dados organizados, um fato ou um fenômeno, que no seu contexto tem um determinado significado, cujo fim é reduzir a incerteza ou incrementar o conhecimento sobre algo. Enfim, é o resultado do processamento, manipulação e organização de dados, de tal forma que represente uma modificação no conhecimento.

Pode parecer antagônico, mas creio que a causa principal da desInformação, esteja justamente na abundância, no baixo custo e na facilidade em se acessar “conhecimento”.

Acessar conhecimento há alguns anos atrás era um grande diferencial e basicamente era conseguido por intermédio de grande esforço individual, sendo autodidata, sendo um aprendiz atento ou investindo em educação através de cursos e graduações.

Só para relembrar como era difícil buscar conhecimento, comprar uma enciclopédia como a Barsa, um clássico por décadas nos anos 60, 70 e 80, custava caríssimo e era uma meta de compra de pais que investiam forte na educação e no futuro de seus filhos.

Para quem nunca ouviu sobre este material, a Barsa cumpriu por décadas a função hoje exercida por portais de pesquisa como Google, Yahoo!, Bing ou Wikipédia.

Hoje temos facilidade de acesso a conhecimento em questão de segundos, com pouco esforço mental e a custo zero. Esta facilidade em acessar o conhecimento, criou o comportamento das pessoas não terem necessidade de se esforçar, assim como em se satisfazerem com conhecimentos superficiais e sem preocupação com conceitos.

Como consequência, as pessoas têm dificuldade em entender o porquê das coisas, e o efeito é não conseguirem transformar conhecimentos acessados em matéria prima, informação.

Exemplos desta realidade estão por todas as partes:

1) Manifestações no Brasil. Nenhum juízo de valor, nada contra muito pelo contrario.

Ao perguntar para manifestantes o porquê eles estão ali, uma boa maioria respondeu: “estamos reivindicando redução do preço da tarifa de ônibus”, ou seja, eles têm o conhecimento. Todavia, depois dessa primeira pergunta, todas as outras terão em 90% dos casos respostas como “Não sei”.

Vejamos algumas:

Se vocês conseguirem a redução, quais os benefícios para o consumo?
Vocês sabem se a redução nas passagens causará impactos em outras áreas?
As destruições nas ruas podem gerar algum impacto no emprego?
Quem organizou esta manifestação?
Qual foi a discussão de pauta antes de saírem às ruas?

Vemos que 10% das pessoas respondem com inteligência estas perguntas simples, a grande maioria não faz a menor ideia do motivo de estar ali, ou seja, não tem nenhum objetivo de fato e seguem, como um bando de gnus, um “líder” sem saber para onde estão indo. Aqui posso identificar que existe conhecimento, mas não existe informação.

2) Atividades e trabalhos executados nas empresas. O dia a dia da maioria dos profissionais.

Ao perguntarmos aos profissionais, de qualquer área, o que eles fazem, a maioria deles tem uma resposta pronta, por exemplo: Sou responsável pela compra de equipamentos de informática.

Mas depois dessa primeira pergunta, todas as outras terão como resposta “Não sei”, “Não avaliei isso”, “Não perguntei”.

Vejamos algumas:

Você sabe como sua atividade surgiu na empresa?
Outras empresas do segmento tem este tipo de profissional?
Seu cliente interno precisa mesmo dos equipamentos que você compra?
Que uso seus clientes fazem destes equipamentos?

Aqui também apenas 10% respondem mostrando proatividade, interesse em conhecer profundamente seu trabalho e clientes. A maioria faz o mínimo necessário, não entendem o conceito e origem de suas atividades profissionais, não são aptos a sugerir melhorias e inovações.

Citei dois simples exemplos, mas, se olharmos o cotidiano, veremos que há milhares de outros.

A boa notícia é que quem for apenas um pouco diferente, tendo vontade, pesquisando a origem das coisas, avaliando impactos de cada evento em sua atividade profissional, estudando sobre sua área de atuação e investigando formas alternativas de fazer melhor, se destacará e certamente terá sucesso garantido.

Minha sábia avó sempre repetia um ditado popular que faz todo sentido para este momento: “Em terra de cegos, quem tem um olho é Rei”. Reflitam sobre isso e se apropriem de seu cetro!

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Para quem é o espetáculo?

Há algum tempo venho debatendo com colegas ou em sala de aula as transformações que estão acontecendo na indústria do esporte, especialmente naquilo que se refere a mudanças e ajustes de algumas práticas e/ou eventos no sentido do entretenimento.

O basquete, por exemplo, tem investido bastante energia e recursos na divulgação e no desenvolvimento do basquete 3 x 3 – uma forma de prática mais leve, solta e adequada a linguagem da juventude. Nesta mesma linha, surgem adaptações ou amplo crescimento de esportes como BMX, Skate, Beach Tênis e tantos outros. O próprio futebol é recheado de adaptações, seja no tradicional futsal até as práticas na rua ou em outros cenários.

Recentemente, levantei um debate em sala de aula para abordar uma comparação simples do espetáculo proporcionado pela tradicional Ginástica Artística ante o Cirque du Soleil, que apresenta movimentos atléticos similares ao da Ginástica – inclusive, boa parte de seu corpo de artistas é formado por ginastas ou ex-ginastas, alguns deles com participações em Olimpíadas – mas com um aspecto lúdico ímpar.

E foi lendo uma breve entrevista da ex-ginasta brasileira Camila Comin (que trocou os tablados da Ginástica pelos palcos do Cirque du Soleil) na revista de bordo da Azul Linhas Aéreas que pude atestar bem essa relação em uma passagem específica: quando perguntada como era "atuar" agora dentro do circo, Comin respondeu: "Na ginástica, nosso trabalho é voltado para ignorar a torcida e se concentrar apenas na prova. No circo, preciso interagir com o público durante todo o espetáculo".

Pronto. Eis a explicação concreta. Nesses inúmeros debates sobre a ocupação e participação das torcidas em jogos e eventos esportivos, será realmente que estamos entregando um produto que permita a verdadeira interação do público com o espetáculo? Como explicar o fato de uma ex-ginasta passar a atrair um público que paga por um ingresso algumas centenas de reais enquanto, há pouco tempo, era ínfima a quantidade de fãs que pagavam poucos reais para vê-la competir em eventos oficiais de ginástica?

A recíproca e a projeção para o contexto do futebol é linearmente equivalente. Esquecemo-nos de ouvir os anseios do público e entregar um produto adequado a ele. Depois, nos assustamos com arenas vazias. Urge novos formatos para atração de público sob pena do "respeitável público" virar as costas para os nossos produtos, como, aliás, já vem ocorrendo paulatinamente.

E não basta fazer apelo com o ídolo do clube todas as vezes por meio de coletiva de imprensa. É preciso muito mais que isso!!!

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O cabelo do Pato

Substituído por Paolo Guerrero no segundo tempo do jogo contra o Coritiba, no último domingo, o atacante Alexandre Pato foi vaiado por parte dos torcedores do Corinthians que foram ao Pacaembu. Contratado pelo clube paulista no início deste ano, o camisa 7 ainda não conseguiu se firmar. A oscilação que o jogador vive em campo tem relação direta com o quanto ele claudica na comunicação.

Pato tem momentos de absoluta correção em termos de comunicação. Na semana que antecedeu o jogo contra o Coritiba, por exemplo, o atacante mudou o visual. Com isso, transformou em assunto algo totalmente trivial e alheio ao campo.

A estratégia nem é nova, aliás. O exemplo mais famoso disso aconteceu em 2002, antes da semifinal da Copa do Mundo disputada na Coreia do Sul e no Japão. Ronaldo tinha um desconforto muscular e era dúvida para o jogo contra a Turquia. Para evitar que isso dominasse o noticiário da semana, o camisa 9 cortou o cabelo e aderiu a um visual que lembrava o de Cascão, personagem criado por Maurício de Sousa.

A mudança no visual de Pato podia ter sido feita sem estardalhaço. Ele podia ter apresentado o penteado apenas no jogo. Em vez disso, o camisa 7 mostrou como um atleta tem potencial para gerar conteúdo: divulgou em redes sociais o que havia feito no cabelo, gerando notícias e dando visibilidade ao fora de campo.

Desde que chegou ao Corinthians, Pato tem sido um dos jogadores mais habilidosos do elenco alvinegro no quesito comunicação. Poucos (nenhum, talvez) jogadores de futebol que atualmente estão no Brasil têm gerado tanto conteúdo pelo que fazem quando não estão dentro das quatro linhas.

Contudo, a estratégia de comunicação de Pato tem um enorme problema: o jogador sabe aproveitar a mídia que gera, mas não tem contribuído para aumentar esse espaço e ir além do espontâneo.

O primeiro motivo para isso é a postura. Pato tem um comportamento e uma expressão que muitas vezes soam blasé. O que agrava esse aspecto é que ele defende um clube que sempre valorizou atributos como a dedicação e a raça.

Se demonstrasse mais emoções e pensasse a comunicação de forma mais ampla – linguagem corporal e comportamento, principalmente, Pato teria um pouco menos de trabalho para ganhar confiança da torcida. E isso independeria do desempenho.

Outro ponto em que a comunicação de Pato vacila é na prioridade dada ao lado “figura pública”. O atacante se comporta mais como uma estrela do entretenimento do que como um atleta. Para amenizar os efeitos da crise, seria importante a demonstração de emoções.

Por fim, falta a Pato um discurso mais incomodado. Quando não atinge uma meta, um atleta precisa mostrar que isso foi ruim para ele. Essa raiva e essa frustração ajudam a sensibilizar o público.

Em alguns aspectos, Pato tem uma comunicação perfeita. Em outros, erra em grandes proporções. A oscilação talvez seja até maior do que o que ele apresenta em campo.

Nos momentos bons, Pato mostra uma competência que falta a muitos atletas. Na última semana, isso faltou à russa Yelena Isinbayeva. Campeã mundial do salto com vara, ela se colocou no meio de uma polêmica sobre o tratamento a homossexuais.

A Rússia aprovou neste ano uma lei que combate a propaganda de “relações não tradicionais”. Isso terá efeito especialmente em 2014, quando o país vai sediar os Jogos Olímpicos de inverno de Sochi.

Por causa da legislação, atletas que disputaram o Mundial de atletismo deste ano, realizado em Moscou, fizeram um protesto e pintaram arco-íris nas unhas. Isimbayeva, em entrevista coletiva pós-título, criticou esse comportamento.

Depois, Isinbayeva disse que se enrolou no inglês, que não é a língua nativa dela. A saltadora explicou que havia tentado apenas pedir que o público respeitasse as leis de outros países.

A postura de Isinbayeva sobre a lei ou sobre os homossexuais é um problema dela. Entretanto, quando a saltadora expressa isso, sobretudo em um ambiente de competição, o problema passa a ser público.

Um atleta é uma personalidade. Portanto, tudo que ele fala reverbera. Antes de entrar em qualquer polêmica, é fundamental que essa pessoa pondere os efeitos que aquele caminho pode causar para a imagem dela.

Em diferentes mundos e com conteúdos totalmente divergentes, Pato e Isinbayeva são dois exemplos claros de como um atleta pode gerar conteúdo. Para o bem ou para o mal.

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Cavando cartões e a cova – o amarelo de Valdivia e do STJD

Alex, que um dia foi top-10 entre os camisas 10 em 100 anos de Palmeiras, disse com todos os números e letras o que acontece nos bastidores, gabinetes, tribunas de honra e controles remotos. Pagou-para-ver as contas e os contras do futebol brasileiro. Pode pagar-pelo-que-disse, embora não haja como pegá-lo.

Valdivia, que não é top-10, mas é amado como se fosse pelos palmeirenses, também foi sincero antes de a bola rolar contra o Paraná. Disse que forçaria o terceiro amarelo para cumprir a suspensão quando estivesse servindo a seleção chilena. Data que deveria ser guardada pela CBF e mídia para as seleções. Não para mais jogos dos campeonatos nacionais que só cabem nas grades das TVs.

Alex foi sincero e arca com as consequências. Valdivia foi sincero além da conta, "confessou o crime premeditado" (todas as aspas possíveis), cometeu o que provocara e prometera até de modo bizarro, e foi amarelado como queria. Como tinha de fazer o árbitro.

Como já fizeram 28362836266283825238 jogadores desde os anos 70 para zerarem cartões para não se comprometerem depois. Como já fez um centroavante de seleção para não ter de viajar a uma cidade do interior para não ter de enfrentar o ex-futuro avô de uma criança – e foram várias as vezes.

Como um dia forçou o terceiro amarelo um zagueiro de time grande para ir a um churrasco de família na cidade natal. Como muitos forçavam o amarelo para não viajar de ônibus para lugares distantes.

Como em uma manhã de sol um jogador de seleção em fim de carreira passou o segundo tempo todo forçando o terceiro amarelo por um motivo qualquer e o árbitro da Fifa não o mostrou de jeito algum. Nem quando o jogador entrou rachando no adversário.

Como outro árbitro da Fifa entrava em campo avisando que não daria amarelo para quem estava pendurado e forçasse o cartão. No máximo dava vermelho direto.

São boas histórias de gente boa. De nível. De seleção. De Fifa. Parte do folclore daquelas coisas que as crianças não podem fazer em casa. Mas que os adultos podem. E não atentam à integridade, moral e bons costumes.

Mas, Valdivia foi procurado pelo STJD. Por avisar que forçaria o cartão que tomou sem ofender e sem agredir. Tempo que gastou e que foi acrescido pelo árbitro.

O excesso de sinceridade do chileno era evitável. Mas não pode ser combatido. Muito menos julgado. E não tenho palavras para dizer qualquer coisa se "punido".

Forçar uma punição a Valdivia é mais forçado que o cartão que ele recebeu.

Mais risível que a cena que ele armou para recebê-lo. Puni-lo é tão pueril quanto no tribunal suspender treinador que joga bola no gramado em final de jogo. É como punir jogador que dá carrinho na lateral em bola perdida só pra jogar pra galera. É punir goleiro que demora um ano para bater tiro de meta. É punir jogador que sofre falta e parece ter sido esquartejado até voltar em segundos como um Wolverine com nome no BID. É punir quem te chama de "bobo e estúpido" e diz que "seu pai é coxinha e a mãe é empadinha" – embora nada seja mais coxinha que punir quem já se puniu com um cartão.

Zelar pelo bom costume, pela moral, pela ética, pelo justo, pelo correto, pelo direito, é um dever de qualquer tribunal. Dar bons exemplos esportivos e blablablá pelo qual não perderei mais tempo e paciência é mais que louvável.

Mas, evitar o "esportivamente correto" é um dever para evitar o escárnio de uma casa que já não prima por quase tudo isso. Um tribunal que não tem o respeito devido e merecido exatamente por historicamente decidir de acordo com as conveniências e inconveniências. Por julgar com a camisa por cima da toga. Por punir ou deixar o jogo seguir cavando cartões amarelos como os sorrisos dos auditores e membros com a mesma cara dura de Valdivia.

Com a mesma pena dura de quem clama "justiça" por uma malandragem que evita que o clube perca seu principal jogador por conta de uma partida marcada quando há jogo da Fifa para ser jogado.

Esse é o ponto. Que o STJD procure a CBF por simular jogos oficiais quando há outros compromissos oficiais. O que evitaria o amarelo. E todo este texto.

Valdivia errou quando avisou que erraria. Logo, devia ficar quieto e… "Errar" do mesmo jeito. Cavando a punição que, aliás, ele cava há anos no Palmeiras. Ele e Luís Fabiano deveriam ser julgados a cada 15 dias nos tribunais por cavarem cartões infantis e despropositados. Eles e mais um tanto.

Mas, daí, se Valdivia fizesse o que há décadas se faz, ele deixaria de ser notícia. De dar notícia. De cavar notícia.

Triste futebol engravatado e togado. O que cava a cova e os cartões. O do covil dos rábulas de porta de estádio e de estúdios.

 

Para interagir com o autor: maurobeting@universidadedofutebol.com.br

*Texto publicado originalmente no blog do Mauro Beting, no portal Lancenet.

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Futebol: ruídos da tomada de decisão no alto nível competitivo

Dentro de um jogo de futebol muitas decisões são tomadas o tempo todo.

A cada fração de segundo, a cada nova circunstância e a cada problema emergente, ser rápido e exato para “decidir-agir” é imprescindível.

Se em décadas anteriores não tão distantes a exigência temporal para as tomadas de decisão já era algo muito importante, no futebol atual, tornou-se condição “sine qua non” para se jogar bem em alto nível competitivo.

A velocidade de jogo tem se tornado tão grande, que além do hiato entre o decidir e o agir ter quase que desaparecido nos jogadores mais bem condicionados (condicionados sistemicamente falando), também quase que se tornou invisível o hiato entre o surgimento da circunstância-problema e a ação propriamente dita para resolvê-la.

Isso tudo quer dizer que para se jogar futebol na atual exigência do altíssimo nível competitivo, é necessário que a tomada de decisão e ação dos jogadores se condensem em uma única coisa, indistinguível e indissociável no tempo.

É necessário também que o intervalo entre o problema emergente e a decisão-ação propriamente dita seja infinitamente ínfimo, temporalmente quase que no mesmo instante.

Diversos são os fatores que podem contribuir ou atrapalhar nas boas, exatas e velozes tomadas de decisão.

Poderia enumerar ao menos uma dezena deles.

Mas nesta semana prefiro destacar apenas um – que foi tema de debates dia desses em um fórum informal sobre futebol.

Em certas ocasiões, bons jogadores e equipes podem não conseguir tomar boas decisões e conjuntamente, errar em demasia suas ações.

Um dos motivos que pode levar a isso, por exemplo, é a distorção da percepção do ambiente e das situações que se manifestam nele. Isso quer dizer que equívocos para perceber o que realmente está ocorrendo ou o que está na eminência de acontecer, desencadeia uma série de ajustes individuais e coletivos nas ações, que são potencialmente infrutíferos.

Um dos fatores mais comuns na geração de “ruídos” de percepção, e distorções na organização da ação (distorções neuro-musculares e cognitivas) é a ansiedade.

Claro, não pretendo e não vou me aprofundar, por motivos óbvios, no tema “ansiedade”.

Quero chamar a atenção apenas para o fato de que dentro de uma ideia de complexidade e de treinamento sistêmico, e dentro da possibilidade de jogadores, em ambiente propício mergulharem no “estado de jogo”, podemos e devemos contemplar situações de estresse (estresse complexo/sistêmico) nos treinamentos, que desafiem jogadores e equipes a agirem dentro de contextos de pressão que tentarão gerar “ruídos” de percepção e distorções na organização da ação.

E por mais que isso pareça óbvio, posso afirmar que há negligência no entorno desse conteúdo – ou por ignorância total sobre a necessidade de desenvolvê-lo, ou por ignorância de como fazê-lo, e/ou ainda, por dificuldades contextuais para operacionalizar seu desenvolvimento.

O tema, por si só, até mesmos para especialistas no assunto, é bastante complexo na sua aplicação.

O que temos hoje muitas vezes é quase que um “filtro” gerado espontaneamente, que ao longo dos anos de carreira dos jogadores, desde as categorias de base até o fim de suas atividades como profissionais, vem segurando pelo caminho aqueles mais “influenciáveis” pelos ruídos de percepção, e deixando passar a minoria, apta por uma série de questões (ambientais, culturais, sociais, biológicas, etc.) quase casuais (ou mais pontualmente, caóticas), e muitas vezes pouco relacionadas com o processo de treinamento desportivo propriamente dito.

Operacionalizar o desenvolvimento desse tipo de conteúdo, de maneira organizada e sistêmica, não é trivial.

Por isso, em breve trarei um texto sugerindo possibilidades de como fazê-lo nos treinamentos, na busca de um jogar de altíssimo nível.

Por ora é isso.