Categorias
Sem categoria

Os bastidores da preparação para a Copa-SP

Faltam poucos dias para o término do período de inscrição para a Copa São Paulo de Futebol Junior. Apesar de a competição ter início em janeiro, acertadamente a federação antecipa a inscrição e publicação dos atletas no BID (Boletim Informativo Diário) para evitar (ou ao menos minimizar) a formação de elencos de última hora, privilegiando o planejamento e a organização dos clubes. Em novembro, a pré-lista oficial com 30 atletas define quem serão os representantes de cada equipe.

Por enquanto, antes dos trabalhos técnicos preparatórios para a primeira competição de 2014, os treinadores têm inúmeras responsabilidades.

Muitas equipes estão em meio às competições sub-20, que permitem atletas nascidos em 1993, porém que excedem a idade limite para a disputa da Copa-SP. Pensando na formação do elenco, a comissão técnica deve ter ciência das carências originárias pela saída dos jogadores mais velhos e, além disso, definir se na suplência ou na promoção de atletas da categoria sub-17 a equipe terá condições de se manter competitiva. Outras possibilidades são a de abrir espaço para avaliações, ou então, para contratações de reforços.

E como culturalmente a Copinha é vista como a maior vitrine para exposição e negociação de atletas, vários interesses influenciam o que deveria ser óbvio, no entanto ainda é utópico em nosso futebol: a composição de um elenco em que os benefícios ao clube seja a prioridade.

A aproximação dos empresários ao clube, comum durante todo o ano, fica ainda mais evidente no período de inscrição para a Copa-SP. Juntos deles estão os jogadores que são as soluções para todos os problemas do clube e que estão desempregados somente pelas injustiças do futebol. É válido destacar que existem as exceções, que indicam jogadores sem grandes alardes ou falsas promessas.

Os grupos de investimento também surgem como opção no auxílio da formação do elenco. Detentores de direitos econômicos de atletas em potencial, realmente podem reforçar a equipe. Só que para o clube ficam as despesas com o atleta (financeiras, de alimentação, de moradia, médicas e esportivas) já para o grupo de investimento, a maior fatia do retorno financeiro numa possível negociação. Estes grupos aproveitam a situação econômica/estrutural/administrativa de muitos clubes brasileiros para esta fórmula que lhes é bem conveniente.

Outro procedimento comum neste período é a chegada de jogadores mediante uma recompensa financeira. Estes atletas, sempre "bem indicados" podem chegar ao clube através dos diferentes níveis do organograma da instituição. No nível que houver desvio de conduta ocorrerá o negócio.

Esqueçam a possibilidade de ser definida a fórmula ideal para a composição do elenco. Em todas as opções (promoção da base, suplência, avaliação, indicação, contratação) podem estar as reais soluções para a equipe. O indispensável é uma estrutura técnica-administrativa que trabalhe em benefício da instituição, que analise criteriosamente o elenco atual, que não seja influenciada pelo interesse de terceiros e que unifique a linguagem num ambiente em que muitos querem distorcê-la.

Este é o melhor caminho para o legado que a Copa-SP deve deixar ao clube: uma equipe pronta para o decorrer da temporada, com atletas e equipe que tenham o perfil de jogo do futebol moderno.

E no dia a dia dos treinadores, a busca pela excelência em todas as suas obrigações que vão além de pensar e executar o treino: a solução de conflitos, os relacionamentos, os contatos, a análise de materiais de jogadores, "os inúmeros não", "os alguns sim" e a luta constante pela sobrevivência no mercado. E ainda insistem em dizer que é fácil ser treinador de futebol…

Categorias
Sem categoria

Faixas de protesto nas arquibancadas e a liberdade de expressão

Na partida entre Flamengo e Cruzeiro pela Copa do Brasil, a imprensa noticiou a ação policial que impediu torcedor de exibir faixa contra a concessionária do estádio.

O Estatuto do Torcedor em seu art. 13-A, inciso X, proíbe a utilização de bandeiras para outros fins que não o da manifestação festiva e amigável.

Penso que o fundamento para a retirada da faixa tenha sido o fato do organizador ter entendido que a seu conteúdo não seria festivo ou amigável.

Vale dizer que a Constituição Brasileira, em seu art. 5º assegura a liberdade de manifestação com fins pacíficos, ou seja, eventual ação reprimindo manifestação pacífica seria inconstitucional.

Doutro giro, uma partida de futebol corresponde a um evento de natureza privada e quando o torcedor adquire o ingresso ele firma um contrato com o organizador no qual obriga-se a cumprir seus regulamentos. Algo como adquirir um ingresso para o cinema e se comprometer a desligar o celular.

Partindo-se deste raciocínio, não haveria violação a direito constitucional.

Para apimentar ainda mais o debate, há quem defenda que, apesar de se tratar de um evento rivado, o futebol faz parte da cultura popular brasileira e todos os eventos relacionados a ele trazem interesse e relevância pública.

A questão é bastante complexa e envolve muitas variáveis e teses jurídicas.

Se de um lado eu tenho o direito do cidadão expor sua manifestação pacífica, de outro eu tenho um organizador de evento privado que estabelece regras para acesso e permanência ao seu "espetáculo".

Diante do exposto, percebe-se a complexidade das análises jurídicas e a possibilidade de haver interpretações para ambos os lados.

Sobre a minha opinião, deixarei para expô-la em outra coluna, a fim de que o leitor possa formar seu próprio convencimento.

Categorias
Sem categoria

Grandes elencos, desempenho ruim: falta motivação?!

Podemos presenciar ano a ano clubes tradicionais com fortes elencos e ao contrário do que se espera, com baixíssimos rendimentos no campeonato brasileiro de futebol, inclusive com luta para escapar do rebaixamento e em alguns casos sem conseguir escapara da degola.

Em 2013, pelo menos até o momento, podemos novamente constatar tal fenômeno se repetindo, pois as campanhas de pelo menos dois clubes considerados grandes não retratam os seus investimentos e os elencos que ambos os clubes contam para este ano, basta ver a colocação deles na tabela de classificação.

Então cabe as perguntas: será que falta motivação para estes atletas? Falta estarem genuinamente desejosos de obter o sucesso durante a competição? O que acontece com essa perceptível falta de ânimo na busca por vitórias durante as partidas?

Penso que se a motivação pode ser compreendida como um processo ativo, intencional e dirigido a uma meta, o qual depende da interação de fatores pessoais e ambientais. A partir desta definição de motivação, fornecida por Dietmar Samulski, podemos presumir que algo está faltando a estes clubes e Weinberg & Gould (1999) nos orientam quanto a complexidade dessas interações quando propõem um modelo interacional da motivação para prática esportiva, considerando os fatores pessoais dos atletas compostos pela personalidade, pelas necessidades, pelos interesses, pelos motivos, pelas metas e pelas expectativas; e pelos fatores ambientais como o estilo de liderança, as facilidades, as tarefas atrativas, os desafios e as influências sociais.

Apenas pela interação desses diversos fatores já podemos concluir que obter a motivação num grupo não é tarefa tão fácil quanto nos parece, certo?

Mas, então, como promover esta tal motivação que possa resgatar a vontade de competir em busca da vitória e consequentemente atingir as expectativas que foram colocadas nestas equipes?

Para manter o hábito vou compartilhar mais uma técnica de automotivação cognitiva chamada Group-feeling (sensação de união do grupo), na qual utilizam-se frases poderosas e que promover essa sensação de união tais como:

• "Identifico-me totalmente com o objetivo do grupo"

• "Para mim, nosso clube é como uma família"

• "Nós superamos muitos problemas através de nossa união e amizade"

Ainda, para contribuir com o desenvolvimentos dos técnicos de futebol compartilho algumas diretrizes motivacionais sugeridas por Dietmar Samulski:

• Ter sensibilidade para entender problemas de motivação no treinamento e na competição. Tentar, antecipadamente, reconhecer as causas dos problemas de motivação e conflitos, para evita-los com medidas preventivas adequadas.

• Ser capaz de se motivar diante de situações difíceis e apresentar um modelo positivo para seus atletas. Você só poderá exigir alta motivação dos seus liderados quanto estiver motivado. Um treinador que não consegue se motivar terá dificuldades para motivar seus atletas.

• Mostrar confiança nas suas ações e nas de seus atletas. Ter confiança nos fatores positivos da equipe e treinar os pontos fracos. A autoconfiança de seus atletas desenvolve-se, em primeiro lugar, a partir da confiança que você deposita neles.

• Considerar que o elogio e reconhecimento motivam mais do que declarações discriminadoras e de repreensão. Estimular seus atletas, fortalecendo-os positivamente em determinadas situações.

Existem outras diretrizes que compartilharei numa outra coluna, pois o ponto chave aqui é despertar os executivos e membros de comissão técnica da necessidade de desenvolverem suas competências como líderes de pessoas para enfim conquistarem o verdadeiro estado de motivação que possa fazer a diferença no desempenho dentro das competições esportivas.

E você amigo leitor, acredita que seu time está motivado para novas conquistas?!

Até a próxima!

Categorias
Sem categoria

A janela passou

Novamente, sobrevivemos a mais uma janela de transferências do futebol. Sobrevivemos no sentido estrito, ao invés de tê-la aproveitado melhor comercialmente e também estrategicamente para a montagem de elencos para uma temporada completa.

Mais uma vez passaremos um segundo semestre com times remendados por perdas de jogadores, embora tenha havido um repatriamento de outros há pouco mais de um mês – que não é totalmente compensável. A sensação que fica, na realidade, é que estamos na contramão do mercado.

Volta à tona a questão do calendário, que também ficou evidenciada por conta das excursões realizadas neste ano por São Paulo e Santos na Europa – e a clara perda de receitas suplementares que poderiam vir a outros clubes caso houvesse um ajustamento com o calendário global.

A reflexão sobre o desmanche de elencos serve também para ampliar o debate em torno da ocupação dos estádios no Brasil. É mais que natural que o torcedor, ao não sentir confiança nos projetos dos clubes, dê a resposta pela não fidelização ao produto entregue nos finais de semana.

Enfim, o fato é que enquanto não olharmos para o mercado do futebol a partir de uma visão holística, contemplando todos os efeitos que implicam as decisões relacionadas a governança da modalidade, continuaremos a ser o país dos jogadores de futebol ao invés de entregar efetivamente negócios consistentes para a indústria do esporte.

Categorias
Sem categoria

Marin, o comunicador

José Maria Marin, atual presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), ingressou na carreira política há 50 anos. O primeiro mandato dele como vereador começou em 1964, quando o ex-jogador de futebol tinha 31 anos de idade. Essa vivência em esferas públicas moldou o discurso que o dirigente apresenta atualmente.

Além de vereador, Marin foi deputado estadual, vice-governador e governador de São Paulo, cargo que ocupou entre 1982 e 1983. No período, o Brasil ainda vivia sob regime ditatorial.

Marin segue com perfeição o manual tácito de comunicação de políticos veteranos. São essas as regras que balizam o tom de voz, o conteúdo e até o jeito de olhar do presidente da CBF.

Em primeiro lugar, Marin cita sempre na resposta o nome de quem o inquiriu. É uma forma de mostrar que aquele conteúdo, por mais genérico, é direcionado a quem fez um questionamento.

O segundo aspecto é que Marin olha para o público enquanto responde. Uma das primeiras regras de linguagem corporal que eu aprendi foi não fixar o olhar em apenas um ponto da sala.

Quanto ao conteúdo, por mais desconfortável que fique com um tema, Marin não se exalta. É muito mais simples desviar o assunto e inserir na resposta uma auto-adulação, ainda que isso não tenha muito a ver com o tema da pergunta.

Na última sexta-feira, em evento organizado pelo grupo empresarial Lide, Marin recorreu a essas e outras técnicas. No entanto, o presidente não conseguiu esconder um desconforto ao ser questionado pelo jogador Paulo Andé e pelo e-jogador Raí.

Independente do teor da pergunta, Marin respondia com elogios a ele ou à gestão da CBF. Mesmo se isso não tiver qualquer relação com a questão inicial.

Paulo André, o primeiro a intervir, perguntou sobre a diferença técnica entre o futebol de times do Brasil e da Europa. O defensor quis saber se a CBF pensa em investir para amenizar esse desnível.

A resposta de Marin foi focada em categorias de base da seleção, o que o mandatário da CBF usou como argumento de defesa do próprio trabalho. O presidente da CBF também citou o potencial formador dos times brasileiros.

Vejam, a reposta e a pergunta têm pouco a ver. Marin podia ter reconhecido um problema. Em vez disso, aproveitou uma leve proximidade de assuntos para mostrar segurança e exaltar o próprio trabalho.

Isso foi perceptível até para o próprio Paulo André, que manteve nas questões seguintes o tom incisivo que havia adotado na pergunta inicial. Marin começou a desviar mais o olhar, com respostas que enrolavam o quanto podiam até atingir de fato um assunto.

Como manda o estereótipo de um político da velha guarda, Marin apenas tergiversou. Mesmo em situação complicada, o presidente da CBF não atacou Paulo André ou tentou minimizar o entrevistador.

No aspecto comunicação, Marin é infinitamente superior a Ricardo Teixeira, antecessor do atual mandatário na CBF e no comitê organizador local (COL) da Copa do Mundo de 2014.

O grande problema de Marin, contudo, é que falta conteúdo. O presidente da CBF pode obedecer a uma cartilha eficiente e pode ter uma série de ações engenhosas para enrolar jornalistas ou entrevistadores, mas tem dificuldade para esconder o quanto entende pouco sobre o futebol e o mundo atual.

Fazer comunicação, afinal, não é apenas seguir uma série de regras. Comunicar é transmitir mensagens, e é esse conteúdo que falta a Marin.

Não por desconhecimento, diga-se. Marin consegue citar uma série de episódios e exemplos do futebol, mas limita as histórias ao que aconteceu no século passado. Mais do que formação, o mandatário demonstra falta de atualização.

Fazer um discurso descolado da realidade é um risco muito grande. Se eficiente, o profissional pode ser apenas tradicional. Em fracassos, porém, a virtude vira resistência ao novo.

Como um político da velha guarda, Marin se comunica seguindo uma cartilha de movimentos e evasivas. Contudo, o presidente da CBF carece de conteúdo e de atualização.

Estratégias de comunicação podem até ser perenes e imutáveis. O perfil do público que consome isso, porém, é tão volúvel quanto as opiniões do presidente da CBF.

Categorias
Sem categoria

A vertente física do jogo de futebol no treinamento com Jogos – parte II

Há algumas semanas foi publicada uma coluna com o objetivo de auxiliar na elaboração de um microciclo de treino, mais especificamente na vertente física do jogo, a partir de um olhar sistêmico para a modalidade.

Para dar sequência a discussão serão apresentados alguns exemplos de quais comportamentos de jogo podem ser treinados nos diferentes tamanhos de campo e tempo de estímulo. Nesta semana, as considerações serão relativas aos Jogos de até 30” de duração (por série).

Para relembrá-los, seguem, abaixo, os dois gráficos, em que o primeiro aponta as exigências físicas predominantes nas atividades em função do tamanho do campo e do tempo de estímulo por série e o segundo mostra o metabolismo predominante, também em função do tamanho do campo e do tempo de estímulo por série:

 

Dentre as sugestões para as atividades de até ½ do campo e até 30” de duração estão: finalização, reposição do goleiro com as mãos, assistência, cruzamento, penetração, ultrapassagem, drible, mobilidade com e sem trocas de posição, 1×1, desarme, pressão, recuperação imediata da posse e retirada do setor de recuperação. Para garantir a intensidade do exercício, em que para jogar bem (vencer) serão necessárias altas velocidades de decisão e execução, algumas regras são importantes. São elas: limitação ou restrição de passes para trás, pontuação para passes diagonais e pra frente, maior pontuação para gols de contra-ataque, maior pontuação para gols de fora da área, pontuação para recuperação da posse de bola e tempo para finalizar. Saber quais e quando utilizá-las é função da comissão.

Para estas atividades, trabalhar com pequenos e médios grupos com, no máximo, 6 x 6 jogadores. De acordo com a necessidade da equipe, objetivos diferentes podem ser propostos. Exemplificando: uma equipe (de atacantes) pode ter como maior objetivo pontuar marcando gol e a outra equipe (de defensores) sair rápido do campo de defesa, retirando a bola do setor de recuperação e pontuando com passes entre gols caixote ou ultrapassagens com a bola dominada em setores delimitados.

Em relação ao mesmo tempo de estímulo e dimensões oficiais, ou então ¾ do campo, as sugestões de atividades pouco diferem das expostas acima, porém, existem algumas ressalvas: trabalhar preferencialmente com médios grupos, saber que aumentará a incidência de passes longos e diminuirá a incidência de finalização.

Com o campo maior, há a possibilidade de reposição do goleiro com os pés e também a de reunir os 22 jogadores para um jogo de bolas paradas ou jogadas ensaiadas, distribuindo os pontos para o jogo de acordo com os objetivos desejados (ataque a bola, gol de cabeça, gol direto, saída do goleiro, etc.).

É importante lembrar que mesmo com poucos jogadores a plataforma de jogo (referência estrutural que orienta a equipe para o cumprimento da lógica do jogo) não pode ser negligenciada. Por mais que seja um jogo em dimensões reduzidas e por um curto espaço de tempo, esta referência também deve nortear as ações individuais e coletivas da equipe para dar maior ordem a grande desordem que caracterizam estas atividades.

E para garantir a qualidade/intensidade das ações com o acúmulo de séries é importante respeitar o tempo de pausa que, para estas atividades, geralmente são aplicados pelo menos duas vezes o tempo do esforço. E é durante a pausa o momento ideal para os ajustes/intervenções para a qualidade do treino e que preferencialmente devem ser feitos por um profissional da comissão que não esteja conduzindo o Jogo (pois este estará com outro(s) grupo(s) em estímulo enquanto o primeiro se recupera).

Para concluir, pensando na manutenção do “estado de Jogo” durante toda a atividade, o acúmulo de pontos permite a competitividade e o treinar complexo das quatro vertentes do jogo como afirma o treinador Rodrigo Leitão, “a todo o tempo o tempo todo”.

Em outra oportunidade, a continuação do tema com as considerações para as atividades de até 5 minutos de duração.

Enquanto isso, aguardo sugestões, críticas e opiniões.
 

Categorias
Sem categoria

Punição disciplinar aos clubes por violência de torcedores

Na última rodada do campeonato brasileiro de futebol, novamente, foram transmitidas ao vivo cenas lamentáveis nas arquibancadas do Mané Garrincha envolvendo as torcidas de Vasco e Corinthians.

Em razão destes incidentes a Procuradoria do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) denunciará as duas equipes, com fulcro no artigo 213 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que trata de deixar de tomar providências capazes e prevenir ou reprimir desordens ou invasão do campo.

As penas previstas são a perda do mando de campo de uma a dez partidas, disputa dos jogos com portões fechados e multa variável de R$100 a R$100 mil reais.

Segundo o procurador-geral do STJD, Paulo Schmitt, a denúncia trará pedido para que, caso a pena seja perda do mando de campo, ela seja cumprida sem a presença da torcida do clube infrator para evitar que a punição seja cumprida em Brasília com seus torcedores.

A confusão entre os torcedores se deu no intervalo da partida entre Vasco e Corinthians quando membros das torcidas organizadas do Corinthians se aproveitaram da ausência de divisórias de separação e invadiram o setor destinado aos vascaínos. Ademais, o contingente policial era pequeno e teve muita dificuldade em conter o tumulto.

A briga terminou com alguns feridos, incluindo três policiais, e chamou a atenção o fato de terem sido identificados um vereador da cidade de Francisco Morato e um dos torcedores detidos em Oruru, pela morte do menino Kevin Espada.

Segundo o Estatuto do Torcedor, os organizadores (clube mandante se entidade organizadora) dos eventos esportivos devem, junto com o Poder Público, criar um plano de ação para garantir a segurança durante as partidas. No caso em comento caberia ao Vasco da Gama, mandante, estabelecer medidas para garantir a segurança no evento.

Diante da história rivalidade entre as torcidas (inclusive com casos de morte) o plano de ação deveria prever divisão entre elas e maior contingente policial. Destarte, durante o tumulto o que se viu foi uma imensa dificuldade dos policiais em conter a violência.

Diante disso, percebe-se que o Corinthians não dispunha de meios legais e efetivos para tomar providências capazes de impedir ou reprimir as desordens.

Se havia membros de torcidas organizadas sabidamente violentos no tumulto, isso decorre da inoperância do Estado em puni-los e, se houve negligência ou falta de planejamento para evitar e lidar com eventuais tumultos, isso se deve à falta de um plano de ação efetivo cujo a responsabilidade legal é do mandante, da CBF e do Poder Público.

De fato, os clubes devem participar da luta contra a violência sendo, inclusive punidos, mas não há que se demonizar as torcidas organizadas, punir os clubes e deixar de apontar os erros e a culpa do Poder Público e da Confederação Brasileira de Futebol.

Que sejam aplicadas punições exemplares a todos os envolvidos a fim de desestimular a falta de zelo na elaboração dos planos de ação e as práticas violentas de alguns torcedores.

Categorias
Conteúdo Udof>Colunas|Sem categoria

Como o autoconhecimento pode contribuir para uma nova carreira

Toda mudança, em geral, pode causar desconforto e elevar o nível de stress dos atletas profissionais. Mas como conseguir praticar o futebol profissional quando o atleta percebe que o final da carreira atual está próximo do fim?

As fases de uma carreira esportiva vão desde sua iniciação, passando pela fase de desenvolvimento, pela excelência e por fim chegando na fase de aposentadoria da carreira como atleta profissional.

Nesta última fase, o atleta passa a diminuir seu envolvimento com treinamentos intensos e competições oficiais. A transição desta etapa, aposentadoria, para outra atividade profissional talvez seja a transição mais conflituosa, devido ao envolvimento com ajustes sociais, físicos, pessoais, ocupacionais e financeiros. É uma fase que deve ser tomada como a principal meta do planejamento de carreira esportiva para um atleta de alto nível, mas parece que no Brasil ainda não estamos sensíveis para este planejamento.

É justamente neste campo que um Coach pode contribuir imensamente com os atletas profissionais e uma das suas grandes missões, em minha opinião.

Trata-se de contribuir com o autoconhecimento do atleta no início de seu planejamento de carreira, pois ao se conhecer o atleta terá uma visão muito mais clara e genuína acerca de sua nova atividade profissional. Costumo dizer em palestras e treinamentos que o autoconhecimento é uma oportunidade de nos olharmos no espelho da vida e podermos clarificar nossa consciência quanto ao nosso real perfil comportamental.

Existem diversas ferramentas para promover o autoconhecimento, das quais enquanto Coach destaco duas:

1.DISC
 

  • Uma ferramenta que permite que as pessoas compreendam rapidamente suas preferências de comportamento no trabalho, através de quatro tendências básicas: Dominância, Influência, Estabilidade e Conformidade. Esta ferramenta tem sido utilizada há 30 anos por mais de 45 milhões de pessoas no mundo, assim como foi traduzida e validada em mais de 25 idiomas.

    Aponto como uma grande vantagem do DISC a capacidade de interpretar a relação entre os quatro fatores (Dominância, Influência, Estabilidade e Conformidade) para traçar um perfil comportamental.

    O DISC é ideal para prever a forma como um indivíduo age e interage com os outros. Detecta suas motivações, forças e pontos que precisam ser desenvolvidos, bem como sua reação a um conjunto específico de circunstâncias.
     

2.ENEAGRAMA
 

  • Definido como um sistema preciso e profundo que descreve nove padrões de comportamento e seus diferentes níveis de consciência, ajudando, assim, as pessoas a evoluírem pessoal e profissionalmente.

    O Eneagrama já conta com validação científica e acadêmica, incluindo diversas teses de mestrado e doutorado nos EUA e na Europa. No mundo dos negócios, o Eneagrama vem sendo descoberto por alguns cursos de MBA de instituições, como Stanford e Loyola, nos EUA, e FGV e USP, no Brasil.

    Além disso, importantes organizações multinacionais também já utilizam o modelo do Eneagrama com suas equipes. Alguns exemplos são: 3M, IBM, Motorola, Boeing, Disney, Sony, Du Pont, Procter &Gamble etc. No Brasil, podemos citar ainda: Embraer, VIVO, Subsea7, COSAN, Souza Cruz, Oi, Skanska, Oracle, Perdigão, entre outras.

Bem, como disse antes, acredito plenamente no autoconhecimento como grande alavanca para um bom planejamento e uma adequada transição de carreira para os atletas profissionais no Brasil. Chegou a hora de utilizarmos o autoconhecimento com nossos atletas profissionais.

Porém, também deixo uma alerta em forma de reflexão: até quando o Brasil irá ignorar o planejamento da carreira esportiva?

Concentrar-se apenas na formação de novos atletas pode ser um contrassenso caso não tenhamos projetos adequados para o planejamento da carreira e o inevitável momento de transição para uma nova carreira profissional! Vale conhecer o trabalho realizado pela Sociedade Brasileira de Coaching Esportivo, que é pioneira no Brasil neste tipo de serviço.

Até a próxima!

Categorias
Sem categoria

Mais uma vez a violência…

Novamente, a violência das torcidas organizadas volta às manchetes e às análises de alguns especialistas do meio esportivo. Evidenciada, sobretudo, pela confusão causada por torcedores de Vasco e Corinthians no último final de semana em Brasília.

E o problema não são as leis. São, como muitas no Brasil, a aplicação delas. O Estatuto do Torcedor está aí para provar isso. E se o Estado é inoperante ou ineficiente para efetivar um controle sobre atos desta natureza, será que as entidades do futebol também devem se omitir de qualquer ação mais proativa, como o fazem hoje e historicamente?

Por outro lado, o Prof. Dr. Gustavo Pires (no livro “Agôn, Gestão do Desporto, o Jogo de Zeus”, 2007, p. 11) debate a questão da violência como uma manifestação venal da construção histórica-sociológica do homem e, portanto, ligada ao desporto. A guerra, na verdade, era controlada pela prática esportiva e assim surgiu os “Jogos e tornaram a paz gloriosa, através do prazer lúdico da violência controlada”. Em uma das passagens do livro, Pires comenta:

“Aqueles que através de um discurso pseudomoralista pretendem castrar o desporto em geral e o futebol em particular das suas origens antropológicas que têm a ver com a necessidade de extravasão [sic] da violência (geralmente virtual) que cada homem contém dentro de si, transformando o jogo numa mera recreação, em que o objetivo se resumo a curtir o deleite da destreza do gesto acrobático e da estética geométrica da progressão no terreno, que também se encontram em muitas outras atividades humanas, podem estar a fazer com que o futebol se desligue dos laços que ainda o prendem às suas verdadeiras raízes que se encontram nas origens da humanidade, fazendo com que deixe de ter a atração mágica que, semana após semana, época após época, conduz aos estádios quer direta, quer indiretamente através da televisão, dezenas de milhões de espectadores por todo o mundo, independentemente do seu estatuto social, credo, gênero ou idade”.

É bem verdade que a “violência” a qual Pires refere está relacionada à prática do esporte. Mas serve para entendermos que ela dificilmente será totalmente controlada e anulada em se tratando de esporte.

O que assusta, especialmente no caso citado no 1º parágrafo, é a inércia e a falta de um posicionamento mais firme e decisão das organizações do próprio esporte. Enquanto não entendermos que a questão da violência das torcidas deve fazer parte sim de uma pauta das entidades de administração e de prática do esporte, no sentido de perceber que um controle mínimo (ou mesmo um posicionamento mais efetivo que iniba algumas dessas práticas) contribuirá para a entrega de um espetáculo mais palatável para o consumo, não consigo enxergar uma solução consistente no curto-médio prazo.

E esta questão está longe da visão minimalista de aumentar ou reduzir o preço de ingressos. Precisamos, enfim, entregar mais e melhor para que haja efetivamente um retorno positivo dos próprios torcedores no viés do consumo ou mesmo na ampliação dos investimentos de patrocinadores privados por conta do espetáculo ímpar proporcionado nas arenas. Eis a agenda positiva que precisa ser levada a cabo nas pautas (e atitudes) dos organismos do futebol…

Categorias
Sem categoria

Legado: quando o futuro encontra o passado

Não só por razões profissionais do momento, com também pela identificação com o tema da responsabilidade social no futebol, volto a abordá-lo, após brevíssimo “período sabático” que me manteve afastado da Universidade do Futebol.

Destreinado, aos poucos pego o “ritmo de jogo” nesse contato com você, leitor.

E, como aprendi desde sempre, ritmo de jogo se adquire jogando. Ou, ao que me toca, escrevendo.

Talvez por estar, deliciosamente, mergulhado na leitura do livro “Cuentos de Fútbol”, que reúne textos de ilustres autores latinoamericanos sobre futebol e cujo organizador é Jorge Valdano – o filósofo dos gramados – salta-me a inspiração para tentar “contar uma história”.

Pois bem.

Onde você acha que Pelé disputou seu milésimo jogo?

O milésimo gol, sim, é fácil. Até as histórias de tentativas, venturas e desventuras para que o Rei, finalmente, o marcasse e acabasse com a expectativa, conhecemos.

Todos queriam estar presentes nesse momento histórico. Algo como todos os que, vivos à época, afirmarem que estavam no Maracanã na final de 1950…

1971. 26 de Janeiro. Suriname. País vizinho ao Brasil ao norte. Faz calor – mesmo porque, lá, as duas estações são “calor” e “muito calor”.

Pelé chega com o Santos para disputar um amistoso contra o Transvaal, equipe da capital do país, Paramaribo.

Um único jornalista, da revista Placar, foi incumbido de acompanhar esse pouco conhecido episódio do futebol brasileiro. A missão: entregar a Pelé uma “Bola de Prata”, prêmio recém-instituído pela revista, como homenagem ao grande ídolo pelo seu 1000º jogo.

O estádio, de dimensões acanhadas para hospedar o Rei (13 mil lugares), possuía a grandeza da solidariedade humana: o lucro da partida serviria para ajudar na construção de um viaduto que pretendia servir para a redução do número de acidentes e mortes no trânsito local.

Em meio ao Primeiro-Ministro local, representante do Reino da Holanda e de estupefatos jogadores do Transvaal, Pelé recebe as homenagens e, com o jogo correndo, Pelé, no seu milésimo jogo, faz seu gol número 1070, de pênalti.

2013. 26 de agosto. Curitiba. Frio típico da cidade, daqueles em que se faz piada que “aqui, até o verão tira férias em outro lugar”.

O maior hospital pediátrico do Brasil recebe a visita de três ídolos do Botafogo, dentre eles, um craque que, um dia, foi criança no Suriname.

Clarence Seedorf. Na visita ao Complexo Pequeno Príncipe, conversa a respeito do Programa Gols pela Vida, que tem como padrinho Pelé, e que se presta a promover o legado social do grande ídolo do futebol brasileiro, na aproximação da família do futebol junto à causa da saúde infantil por meio de um grande conjunto de iniciativas.

Seedorf também fala, com orgulho, de sua entidade “Champions for Children” e do trabalho desenvolvido junto às crianças do Suriname, tendo o futebol como vetor de educação, saúde e protagonismo juvenil.

Disse a mim que seu maior sonho e, também, desafio, é fazer com que a instituição permanece viva por muitos anos, sem dele depender, porque isso é o seu LEGADO para o futuro.

Pelé, antes mesmo de Seedorf nascer, havia feito seu milésimo gol e dedicado às crianças do Brasil, afirmando que se lhes devia dar atenção e carinho, pois sempre seriam o futuro de um grande país.

Antes mesmo de Seedorf nascer, no Suriname, Pelé também havia feito seu milésimo jogo. Quis o destino que fosse lá mesmo.

Seedorf cresceu e se tornou jogador de futebol. Mais do que ídolo, virou exemplo, daqueles que são condecorados pela Fundação Nelson Mandela com o título de “Legacy Champion”, por promover a integração e igualdade étnicas.

O futuro, hoje, visitou o passado, no encontro do sonho de dois craques da bola em torno da responsabilidade social por meio do futebol.

Um grande gol pela vida, que encontrará eco até mesmo quando não estivermos mais aqui.