Categorias
Sem categoria

Organização sistêmica de jogo: existem equipes que jogam futebol de maneira desorganizada?

Em uma partida de futebol, as duas equipes que se enfrentam sempre apresentarão algum nível de organização.

Diferente do que já citaram alguns autores portugueses das Ciências do Desporto, no início dos anos 2000 – contestados pelos estudiosos da Teoria Geral dos Sistemas – o jogo de futebol, construído pelo ato de jogar dos jogadores, é um “sistema dinâmico caótico”, que para ser sistema independe da expressão declarada ou constituída conscientemente (com referências), de um Modelo de Jogo.

Então, por mais que alguns de nós possamos não concordar com o fato, a existência viva de um “sistema” pressupõe, necessariamente, organização.

Isso quer dizer, em outras palavras, que todas as ações dos jogadores dentro de um jogo respeitarão uma lógica operacional, compartilhada, intuitivamente ou não, com companheiros e adversários.

E quer dizer também que, uma aparente “bagunça” de uma equipe quando joga, não representa desorganização!

Quando olhamos para um jogo de futebol, e buscamos entendê-lo sob o ponto de vista da organização de jogo das equipes, fazemos sempre com os óculos dos parâmetros que conhecemos – e que portanto tentamos reconhecer no jogo.

O fato de não conseguirmos identificar esse ou aquele parâmetro organizacional não quer dizer que esteja ausente qualquer tipo de organização.

É óbvio que não quero dizer com isso que está então justificada toda e qualquer má elaboração organizacional que uma equipe possa vir apresentar em seu jogo.

Claro que não!

O fato número um é que jogadores reunidos para formar uma equipe, mesmo que não treinem na direção do jogar que apresentam, expressarão algum tipo de jogo – mais, ou menos elaborado (provavelmente menos) – porque o ato de jogar coletivamente é a emersão de identidades individuais e de vínculos coletivos que vão se estabelecendo conforme a relação de jogo dos jogadores vai se fortalecendo.

O fato número dois é que treinar o jogo que se quer jogar levará jogadores e equipes a uma consistência organizacional maior – ou seja, elevará seu nível de organização, e sistemicamente permitirá a ela tornar-se menos instável no confronto com outras equipes/sistemas complexos.

Mas independente dos fatos “número um” e “número dois”, há um incontestável terceiro: ao analisarmos uma equipe em um jogo, vamos sempre buscar identificar no jogo o tipo de lógica organizacional que conhecemos.

Quando não encontramos nele a lógica que buscamos, tendemos, ao invés de olharmos mais a fundo para ela (para a lógica organizacional), a considerá-la como quase “inexistente”.

O peixe não sabe menos sobre a água à sua volta do que um humano que o observa dentro dela em um aquário. Nem o humano sabe mais ou menos que o peixe. Eles sabem coisas diferentes, e é uma pena que não possam compartilhar seus conhecimentos um com o outro.

Felizmente no futebol podemos aprender mais sobre o jogo, porque além de ser possível observá-lo, podemos interagir com aqueles que jogam.

Então, se soubermos e pudermos fazer as perguntas certas, é possível que ao invés de o considerarmos desorganizado, aprendamos uma nova lógica naquilo que em princípio parecia ser ausência de organização.

Quem olha para Modelos de Jogo, só conseguirá descobrir Modelos de Jogo. Quem olha para Lógica do Jogo só poderá detectar a maneira que as equipes tentam cumpri-la. Quem olha para a ação técnica individual do jogador com bola, só será capaz de perceber organização de jogo através das ações técnicas individuais do jogador…

O que você busca no jogo? Já pensou em fazer a ele outras perguntas?

Por hoje é isso…
 

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

 

Categorias
Sem categoria

Entrevista Tática: Niander, lateral direito do Penapolense-SP

Antes de iniciar a entrevista com o referido atleta, gostaria de deixar uma breve opinião de Tostão, publicada na Folha de São Paulo, que expressa a visão do colunista sobre o desempenho da seleção brasileira na final da Copa das Confederações.

“Por causa de um excepcional jogo não se pode tirar conclusões, mudar conceitos, nem dizer que as críticas anteriores à seleção e ao futebol brasileiro eram incorretas e/ou severas. O que vimos contra a Espanha não tem nada a ver com o que a seleção jogava nem com a qualidade e a maneira de atuar da maioria das equipes brasileiras. Mas o fato mostra que, se o futebol brasileiro, a médio prazo, trabalhar com eficiência e seriedade, dentro e fora de campo, estará, de rotina, e não apenas em um momento, entre os melhores do mundo.”

Parabéns, Tostão, por mais uma valiosa opinião sobre o nosso futebol.

Obrigado, Renato Buscariolli, pelo contato para a entrevista.

1-Quais os clubes que você jogou a partir dos 12 anos de idade? Além do clube, indique quantos anos tinha quando atuou por ele.

Jockey Clube-SP (12 aos 14 anos); Ituano-SP (15 anos ); Atlético Sorocaba-SP (16 aos 22 anos ); Mineiros-GO (23 anos ); Noroeste (23 anos ); Bragantino-SP (23 e 24 anos ); Operário-MS (24 anos), São Bernardo-SP (24 aos 26 anos) e Penapolense-SP (27 aos 29 ).

2-Para você, o que é um atleta inteligente?

Um atleta inteligente tem que valorizar suas características, tentar assimilar o mais rápido possível o que o treinador pedir e ter uma conduta exemplar fora de campo.

3-O quanto o futebol de rua, o futsal ou o futebol de areia contribuiu para a sua formação até chegar ao profissional?

O futebol de rua me fez amadurecer mais cedo, aprendendo a malícia e a experiência de jogar com pessoas mais velhas.

4-Em sua opinião, o que é indispensável numa equipe para vencer seu adversário?

Fator indispensável para uma equipe vencer seu adversário é a parte física, pois bem fisicamente o atleta supera suas limitações técnicas e táticas.

5-Quais são os treinamentos que um atleta de futebol deve fazer para que alcance um alto nível competitivo?

O atleta necessita de muito trabalho técnico e muita força física.

6-Para ser um dos melhores jogadores da sua posição, quais devem ser as características de jogo tanto com bola, como sem bola?

Sou lateral e preciso apoiar muito durante os 90 minutos. Chegar sempre com qualidade na linha de fundo e ter uma ótima recuperação na marcação.

7-Quais são seus pontos fortes táticos, técnicos, físicos e psicológicos? Explique e, se possível, tente estabelecer uma relação entre eles.

Sou um atleta muito determinado na formação tática e procuro entender e fazer tudo que o treinador nos orienta durante a semana . Tenho um bom passe e hoje em dia uma boa equipe tem que valorizar ao máximo sua posse de bola. Como tenho muita força física, procuro sempre explorar minha explosão. Procuro também sempre manter o foco nas partidas.

8-Pense no melhor treinador que você já teve! Por que ele foi o melhor?

Luciano Dias. Pessoa muito inteligente taticamente e tem uma conduta exemplar.

9-Você se lembra se algum treinador já lhe pediu para desempenhar alguma função que você nunca havia feito? Explique e comente as dificuldades.

(…) Ele me pediu para atuar na lateral esquerda em um treinamento coletivo. Sou destro e acabei tendo muita dificuldade.

10-Qual a importância da preleção do treinador antes da partida?

Relembrar todo o trabalho feito na semana, pontos fortes do adversário e o principal que é a motivação.

11-Quais são as diferenças de jogar em 4-4-2, 3-5-2, 4-3-3, ou quaisquer outros esquemas de jogo? Qual você prefere e por quê?

No 4-4-2, os laterais acabam tendo uma função muito importante na marcação, já no 3-5-2, os laterais tem uma liberdade de ataque muito maior. Prefiro o 4-4-2 porque exige do lateral um bom posicionamento tático, fechando na linha dos zagueiros e sabendo apoiar no momento certo.

12-Comente como joga, atualmente, sua equipe nas seguintes situações:
•Com a posse de bola;
•Assim que perde a posse de bola;
•Sem a posse de bola;
•Assim que recupera a posse de bola;
•Bolas paradas ofensivas e defensivas.

Minha equipe valoriza muito a posse de bola, mas sem perder a agressividade. Assim que perdemos a bola o jogador mais próximo já começa a fazer a marcação pressão. Sem a posse, procuramos diminuir
o campo em 40m e sempre pressionar o atleta que está com a bola.

Quando recuperamos tentamos valorizar a posse da bola e envolver o adversário!

Nas bolas paradas defensivas marcação por setor e nas ofensivas atacar a bola.

13-O que você conversa dentro de campo com os demais jogadores, quando algo não está dando certo?

Procuramos manter a calma e o posicionamento pedido pelo treinador. Mas nós atletas precisamos ter a iniciativa de fazer algo diferente para se organizar o mais rápido possível.

14-Como você avalia seu desempenho após os jogos? Faz alguma reflexão para entender melhor os erros que cometeu? Espera a comissão técnica lhe dar um retorno?

Tenho minha autocrítica e sempre procuro analisar o que poderia ter feito de diferente para evitar os erros. A comissão técnica nos apresenta um trabalho de vídeo para observarmos onde foi que erramos e acertamos na partida.

15-Para você, quais são as principais diferenças entre o futebol brasileiro e o europeu? Por que existem estas diferenças?

A diferença do futebol europeu com o brasileiro é a condição financeira e a obediência tática. Existem estas diferenças porque o Brasil é um país muito corrupto e o atleta brasileiro se destaca na individualidade.

16-Se você tivesse que dar um recado para qualquer integrante de uma Comissão Técnica, qual seria?

Seja coerente com todos os atletas, independente da situação.

 

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

 

Leia mais:
Entrevista Tática: Almir Dias, meio-campista do Novorizontino-SP
Entrevista Tática: Oliver Minatel, atacante do Nacional da Madeira-POR
Entrevista Tática: Nei, lateral-direito do Internacional
Entrevista Tática: Dante, zagueiro do Borussia M’Gladbach-ALE
Entrevista Tática: Gilsinho, atacante do Corinthians
 

Categorias
Sem categoria

Lei Estadual contra a violência nos estádios de futebol?

Tramita na Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais o projeto de lei 1.985/2011, que dispõe sobre medidas de prevenção e repressão aos fenômenos de violência nas competições esportivas.

A referida lei autorizará a criação do Juizado Especial de Defesa do Torcedor do Estado de Minas Gerais de modo permanente, como anexo aos Juizados Especiais Cível e Criminal da Comarca da Capital e, em caráter itinerante, em todo o Estado de Minas Gerais, nos locais destinados à realização de eventos esportivos, como anexo aos Juizados Especiais Cível e Criminal da respectiva comarca.

O Juizado Especial de Defesa do Torcedor será competente para processar, julgar e executar os feitos criminais relativos a infrações de menor potencial ofensivo e aos crimes previstos nos artigos 41-C, 41-D, 41-E e 41-G, do Estatuto do Torcedor, bem como as causas cíveis de menor complexidade, assim definidas na Lei nº 9.099, de 1995, decorrentes da aplicação do Estatuto do Torcedor.

Ao Juizado Juizado Especial de Defesa do Torcedor funcionará no esquema de plantão judiciário e caberá, também, a apreciação de pedidos de natureza cautelar ou antecipatória em matéria cível, criminal e de defesa da criança, do adolescente e do idoso, desde que compreendidos no âmbito de sua competência e jurisdição.

O Juizado Especial de Defesa do Torcedor contará, ainda, com equipe multidisciplinar de atendimento à vítima, ao agressor e ao torcedor, nos termos da legislação pertinente.

Ademais, o poder público promoverá a defesa do torcedor através do órgão de defesa do consumidor estadual, ou seja, pelo Procon.

No que tange às torcidas organizadas, o projeto prevê a criação ou indicação de um órgão próprio para registro das torcidas organizadas que deverão criar um cadastro de todos os torcedores e associados na forma prevista no Estatuto do Torcedor.

Será observado o princípio da transparência e os estatutos e o quadro de associados das torcidas organizadas será divulgado na internet em sítio próprio do órgão registrador.

Na ocorrência de atos violentos nos eventos esportivos ou fora deles, sendo constatada sua participação, ficará a torcida organizada proibida de participar do evento esportivo subsequente.

O torcedor, agindo isoladamente ou em conjunto, que promover tumulto, praticar ou incitar a violência ou depredar as instalações esportivas, sejam elas do poder público ou privadas, além das sanções previstas no Estatuto do Torcedor e no Código Penal, poderá ser suspenso da participação em eventos subsequentes de mesma natureza e ao pagamento de multa.

De iniciativa do deputado Gustavo Valadares, a proposição da lei tem por justificativa prevenir e reprimir os fenômenos de violência nas competições esportivas, regulamentar o sistema de controle, monitoramento e identificação nos eventos esportivos e disciplinar as torcidas organizadas.

Segundo o parlamentar, trata-se de matéria que não oferece óbices à iniciativa parlamentar, e está motivada por constantes episódios de violência e vandalismo, envolvendo torcedores, em atividades esportivas. Este projeto busca evitar tais ocorrências com medidas rígidas e específicas de segurança e ainda possibilitar a identificação de eventuais infratores.

A justificativa se completa ao dispor que o Juizado Especial de Defesa do Torcedor objetiva-se facilitar e aproximar os meios de defesa e auxílio público imediato em episódios decorrentes dos eventos. Essa infraestrutura gerará maior segurança nos estádios e aumento na frequência das famílias e crianças em um ambiente de lazer e diversão.

Não obstante a louvável iniciativa, o referido projeto possui um vício (defeito) de inconstitucionalidade, eis que a Constituição Brasileira determina que constitui competência provativa do Tribunal de Justiça propor à Assembleia Legislativa projeto de lei que altere a organização e a divisão judiciária, como a sugerida criação do Juizado Especial do Torcedor. Inclusive, a Comissão de Constituição e Justiça concedeu parecer neste sentido.

Atualmente, o projeto de lei está aguardando inclusão de pauta para votação no plenário e o seu andamento pode ser acompanhando no sítio da Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, por meio do link http://www.almg.gov.br/atividade_parlamentar/tramitacao_projetos/interna.html?a=2011&n=1985&t=PL.

Vale destacar que tramita, ainda, na Assembleia, o Projeto de lei nº 3.095/2012 que pretende autorizar o Poder Executivo a aplicar multa às entidades de prática esportiva de qualquer natureza ou modalidade em razão de ilícitos praticados por seus torcedores, que será objeto da coluna da próxima semana.

 

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

Existe algo a aprender após uma conquista?

Hoje, quero refletir com você amigo leitor sobre o que realmente podemos levar em consideração após uma conquista, que não seja apenas comemorar e parabenizar a todos após mais uma conquista.

Se quando perdemos, a sensação de fracasso tende a impactar diretamente em nossa autoestima, quando vencemos também flertamos com os perigos que a euforia nos coloca à prova. São inúmeras armadilhas da soberba e do orgulho que podem nos fazer mergulhar em nossa própria vaidade humana e criar uma falsa percepção de alta performance.

Todas as nossas experiências são merecedoras de análise em busca de lições aprendidas que possam ser utilizadas futuramente em novos projetos ou novos ciclos de competições.

Pensando na seleção brasileira de futebol, podemos compreender que este momento logo após a conquista da Copa das Confederações deve ser dedicado a elaboração desta lista de lições aprendidas, que possibilitará uma reflexão valiosa sobre o que deu certo e pode ser mantido, quanto ao que não foi tão bem e que deve ser repensado ou ajustado.

Mas, na posse de uma importante relação de lições aprendidas como se pode aproveitá-las da melhor forma em busca da melhoria e da alta performance?!

Um coach capacitado pode promover uma contribuição valiosa neste momento, aplicando o conceito de um dos modelos de coaching mais conhecidos e desenvolvido por John Whitmore, intitulado GROW (Goals-Reality-Options-Will/Wrap-Up). Podemos compreender este modelo facilmente através da metáfora de uma viagem, na qual o Coach pretende conduzir o coachee (cliente) numa viagem em direção a sua grande meta.

Na prática da aplicação deste modelo numa equipe esportiva, o Coach conduz o processo pelos passos do GROW, conforme descrição abaixo.

GOAL (META) – Momento para acordar o objetivo, ou seja, aonde se pretende chegar. Aqui vale lembrar que uma boa formulação de objetivo deve ter como princípio ser SMART. Este acrônimo é a designação dos fatores considerados mais importantes no estabelecimento de objetivos de qualidade e corresponde a Specific (Específica), Mensurable (Mensurável), Attainable (Alcançável), Relevant (Relevante) e Time-Based (Temporal).

REALITY (REALIDADE) – Nesta etapa se define o estado atual em relação ao ponto que se deseja alcançar. É necessário avaliar as principais barreiras para o alcance das metas e verificar os recursos necessários (não apenas financeiros) para obter os resultados estabelecidos.

OPTIONS (OPÇÕES) – Aqui procura-se levantar todas as possibilidades de se alcançar o objetivo desejado e estabelecer as vantagens e desvantagens de cada uma. Logo após, verifica-se a opção que traria maior retorno e satisfação em relação às demais.

WILL / WRAP-UP (O QUE DEVE SER FEITO, QUANDO, POR QUEM, E A VONTADE DE FAZER!) – Esta última etapa é dedicada ao estabelecimento claro do que deve ser feito e o prazo de realização de cada atividade, com definição de papéis e responsabilidades. É muito importante que exista uma validação de comprometimento dos envolvidos na execução das atividades que irão contribuir com a evolução em busca da performance ideal ou desejada.

E aonde se relacionam as lições aprendidas elaboradas com o modelo citado? A resposta é: em todo processo! Pois, a utilização desta lista de lições aprendidas contribui efetivamente para enriquecer o trabalho de estabelecimento das metas, reconhecimento genuíno do estado atual, avaliação sincera das opções disponíveis e elaboração de um ótimo plano de ação.

Cabe para a nossa seleção, para outras equipes e para nossas vidas também, não acham?!

 

Para interagir com o autor: gustavo.davila@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

O alemão e o bigode

O Brasil conquistou no último domingo o quarto título na Copa das Confederações (o terceiro consecutivo). Jogando em um Maracanã lotado, a seleção sul-americana teve um desempenho irrepreensível e fez 3 a 0 na Espanha, atual campeã mundial e bicampeã da Europa.

Eram muitas as razões para que o clima pós-jogo fosse afável e festivo nos vestiários dos anfitriões. Ainda assim, o técnico Luiz Felipe Scolari teve um momento menos tranquilo.

Felipão não gostou de uma pergunta feita por Tariq Panja, da Bloomberg. O repórter tentou estabelecer um paralelo entre a alegria do Maracanã e os protestos nas ruas, que foram fortemente reprimidos pela polícia.

O técnico chegou a dizer que não responderia, mas mudou de ideia. "Eu também gostaria de perguntar aos ingleses o que aconteceu no país durante os Jogos Olímpicos de 2012".

A resposta-ataque de Felipão remete a manifestações populares realizadas nas ruas de Londres antes e durante os Jogos Olímpicos de 2012, que foram realizados na cidade. O paralelo com o cenário do Brasil neste ano é extremamente pertinente.

A questão, contudo, não é o que foi dito pelo treinador da seleção brasileira. A questão é como. Ao tergiversar sobre o assunto proposto pelo repórter inglês e responder de forma ofensiva, Scolari deu uma demonstração de um de seus maiores trunfos: a comunicação.

A comissão técnica tem muitos méritos no título que a seleção brasileira conquistou na Copa das Confederações. Scolari acertou muito na construção do time, mas pouco funcionou tão bem quanto a comunicação. E isso vale para o grupo e para fora.

Para fora, Scolari representou muito. Pediu união nacional em torno do time e adotou um discurso nacionalista exacerbado antes mesmo de o torneio começar. Isso acrescentou à seleção um diferencial competitivo, que foi a simbiose com o público presente nos estádios.

Até a forma de jogar tem relação direta com isso. Ao propor uma marcação pressão nos minutos iniciais, Scolari criou um cenário direcionado a angariar rapidamente o apoio popular. Claramente, uma das ideias era mostrar aos espectadores o interesse da equipe nacional.

"A nossa equipe representa os anseios do povo", disse Scolari, em uma das respostas na entrevista coletiva do último domingo. Se tivesse tentado tocar mais a bola e cadenciar mais o jogo, o treinador talvez não tivesse despertado no público essa centelha de orgulho.

Nas declarações, Scolari também priorizou sempre o orgulho. Uma prova clara disso foi a reação do treinador à pergunta do repórter da Bloomberg. Foi algo como uma defesa nacional. O Brasil acima de tudo.

Depois da vitória por 2 a 1 sobre o Uruguai nas semifinais, Scolari chegou a dizer que o triunfo havia sido conquistado pelo torcedor brasileiro. Ele citou como exemplo disso a reação do público ao hino nacional – os espectadores ignoraram a interrupção da música no sistema de som oficial e entoaram o trecho final da primeira parte à capela.

O hino cantado pelos torcedores virou um hit na Copa das Confederações. A cena aconteceu em praticamente todos os jogos do Brasil no torneio, e vários atletas creditaram a isso a obstinação da equipe nacional nos primeiros minutos das partidas.

Mais uma vez, mérito de Scolari. Ele soube usar uma cena bonita para fomentar o orgulho nacional no público e nos atletas. Soube criar uma história motivacional e colocá-la no contexto da proposta de jogo da equipe.

Nesse aspecto, poucos treinadores são tão eficientes quanto Scolari. O que ele construiu em termos de comunicação na Copa das Confederações de 2013 é extremamente próximo do que ele havia feito na Copa do Mundo de 2002.

Naquela época, Scolari não tinha o apoio popular tão latente. A Copa do Mundo foi realizada na Coreia do Sul e no Japão, do outro lado do planeta. Mas ele também buscou elementos de orgulho nacional, como a música e as festas que estavam sendo realizadas no país.

Quando voltou à seleção brasileira, Scolari convivia com análises de que estava ultrapassado. Isso pode até ser verdade do ponto de vista tático, mas o discurso do treinador não envelhece. E quando o ambiente inteiro é positivo, fica muito mais fácil superar problemas em algumas áreas.

Aí entra outro mérito de Scolari: a união do grupo. Não houve "família" em 2013, mas o grupo se comprometeu absurdamente com a proposta do treinador. E novamente, a causa disso é a comunicação.

Há o exemplo claro do centroavante Fred. Ele passou em branco nos dois primeiros jogos e foi substituído por Jô, que balançou as redes em ambos. Antes do início do duelo com a Itália, Scolari chamou o camisa 9 e disse, entre outras coisas, que ele ficaria o tempo todo em campo.

Fred renasceu contra a Itália. Terminou a Copa das Confederações com cinco gols, mesmo número do espanhol Fernando Torres. Marcou duas vezes na decisão do torneio. E acima de tudo isso: transformou-se em peça fundamental para as movimentações da seleção brasileira com e sem a bola.

O comprometimento de Fred é um exemplo do quanto Scolari funcionou bem com a seleção brasileira. Planejar bem e pensar em estratégias eficientes são ações importantes para um técnico, mas nada disso funciona se os atletas não "comprarem a ideia".

É isso que chamou atenção na apresentação de Pep Guardiola como técnico do Bayern de Munique, realizada neste mês. Depois de marcar época como comandante do Barcelona, o espanhol passou um período sabático antes de acertar com os bávaros. Quando iniciou o novo trabalho, chegou falando alemão.

José Mourinho, que trocou recentemente o Real Madrid pelo Chelsea, foi questionado certa vez sobre a possibilidade de trabalhar na Alemanha. O técnico português respondeu que não tinha isso como meta, sobretudo porque o idioma seria uma barreira intransponível para ele.

Ao chegar falando alemão, Guardiola deu uma demonstração de comprometimento. E isso tem um papel fundamental na primeira impressão que ele vai provocar entre os novos comandados.

Na semana passada, o ex-goleiro Gilmar Rinaldi relatou uma história que reforça isso. Contratado por um time japonês depois da Copa do Mundo de 1994, ele pediu ao intérprete que ficasse atrás da meta no primeiro treino. Além disso, solicitou que o profissional anotasse as traduções para todos os comandos que ele dava em português.

No dia seguinte, o segundo de Rinaldi no Japão, ele já conseguiu usar comandos básicos no idioma local. Isso surpreendeu os atletas locais e ajudou, segundo o ex-goleiro, na afirmação dele no país.

Guardiola e Rinaldi podiam ter usado intérpretes. Isso não seria demérito nenhum, mas o que eles fizeram demonstrou comprometimento e vontade. Tudo comunica.< /p>

Além disso, os dois criaram ambientes favoráveis. Como o caso de Scolari ensina, isso é um passo enorme para o sucesso.

Há vários fatores a serem analisados no trabalho de Scolari. Ele não é perfeito porque ganhou – nem a seleção é. No entanto, o título conquistado no último domingo mostra um caminho fundamental: é impossível liderar grupos de pessoas sem a comunicação adequada.

 

Para interagir com o autor: guilherme.costa@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

A final que pode mudar o nosso final

Brasil e Espanha: em 2011, representados por Santos e Barcelona respectivamente, a final do Mundial de clubes foi vexatória para o futebol brasileiro e ponto de partida para muitos veículos de imprensa, dirigentes, treinadores e outros profissionais do futebol apontarem o abismo entre o jogo brasileiro e o europeu.

Menos de dois anos depois, a escola brasileira e espanhola se reencontram, agora representadas pelas suas seleções, na final da Copa das Confederações disputada no Brasil.

Como a grande maioria dos atletas da escola brasileira atua no futebol do Velho Continente e estão habituados aos comportamentos de jogo por lá praticados (no onze inicial, 3 jogam na Inglaterra, 2 na Espanha, 1 na França, 1 na Alemanha e 1 na Rússia), descarta-se a hipótese de vexame semelhante ao sofrido pela equipe santista. Porém, os princípios de jogo apresentados por cada seleção podem, novamente, expor a distância entre o futebol brasileiro e o europeu.

Uma vez que o placar é a única variável considerada na análise de um trabalho e o futebol é, por característica, imprevisível, a vitória da equipe de Felipão pode mascarar diversos elementos das ideias de jogo do treinador brasileiro que, ocupando o mais alto cargo de técnico de futebol no país, representa como temos pensado a modalidade.

Para a análise do que pode ser a final, além de exercer o papel social de treinador (ainda que num cargo de pequena expressão), exerço também o papel de torcedor.

E enquanto o torcedor quer o título para o nosso país e a confiança para a Copa do Mundo que se aproxima, o treinador quer mais uma aula espanhola, de ideias para um bom e belo futebol.

O torcedor vislumbra que em pouco tempo de comando, Scolari conseguiu transformar uma equipe desacreditada em favorita. Imagina o quanto não poderá ser feito num trabalho em longo prazo? Já o treinador questiona se, mesmo com mais tempo para treinar, os princípios de jogo serão mantidos.

O torcedor vê David Luiz extremamente raçudo e marcador. O treinador o vê muitas vezes mal posicionado em um ataque à bola desordenado.

O torcedor vê Luiz Gustavo com uma precisão impecável no passe. O técnico vê um volante que escolhe preferencialmente o passe cadenciado e praticamente não pisa no campo de ataque.

O torcedor vê Neymar decisivo, exímio finalizador. O técnico, lamentavelmente, o vê como "boleirão", reclamão e pouco coletivo.

O torcedor concorda com a opinião da imprensa, que classifica o Oscar como exausto neste final de temporada. O técnico o vê isolado, com volantes distantes, num setor em que todos os adversários têm conseguido, com boa organização defensiva, neutralizar o Brasil.

O torcedor não se importa com o futuro da modalidade, com a evolução do jogo, do treino e com aquilo que é tendência no futebol mundial. O treinador sonha que o futebol praticado pelos espanhóis sirva de exemplo para nossos treinadores e dirigentes, grandes responsáveis pelo futebol do futuro (e por falar em futuro, lembram-se que nossa seleção não está no Mundial sub-20?).

Por fim, o torcedor quer gritar "É Campeão!” e o treinador bater palmas para a seleção que joga o melhor futebol da atualidade e que precisa vencer para, quem sabe, permanecer acesa a chama que em 2011 se acendeu e que alguns profissionais lutam arduamente para que assim permaneça. Uma vitória do Brasil pode atrasar este processo e apagar a chama!

Até domingo, às 19h, decido em qual papel assisto ao jogo…

Você já se decidiu? Escreva a sua opinião!

 

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

Copa das Confederações e o seu legado

Desde 2007, quando o Brasil foi escolhido como sede da Copa do Mundo de 2014 e da Copa das Confederações de 2013, um assunto, sempre recorrente nas pautas jornalísticas, políticas e conversas de boteco, foi o legado destes eventos, ou seja, o que eles deixariam para o país e seus habitantes.

Inicialmente há de se destacar o empenho do Poder Público em melhorar a mobilidade urbana e a estrutura dos estádios (agora denominados arena). Vale destacar que o país passou por anos de estagnação em investimentos em infra-estrutura e é possível que esta inércia permanecesse, caso não tivéssemos a Copa do Mundo.

Se houve ou não houve superfaturamento e corrupção, isto deve ser objeto de análise, investigação e punição dos órgãos competentes, mas, destaque-se que está havendo um esforço para melhora de vias públicas, aeroportos e estádios e isto ficará para sempre.

Outro legado importante diz respeito ao turismo. Barcelona de cidade portuária "abandonada" passou a ser o quinto destino turístico do Mundo. A Alemanha aqueceu o seu turismo pós Copa. Atualmente vemos cada vez mais menções de passeios à África do Sul.

Enfim, o Brasil pode triplicar o número de visitantes em seus mais diversos centros turísticos como Rio, São Paulo, Serras Gaúchas, Foz do Iguaçu, Pantanal, Amazônia, Nordeste, Cidades históricas de Minas, dentre uma infinidade de outros.

Ademais, estes eventos podem auxiliar o crescimento do PIB com a geração de milhares de empregos diretos e indiretos, bem como aumentar a arrecadação fiscal, afinal de contas, em cada partida movimenta-se milhões de reais.

O Brasil ainda pôde contar com um legado inesperado que foi o renascimento de movimentos populares que, com todos seus erros e atos exacerbados (e até criminosos) serviu para mostrar aos governantes que aqui há uma nação cujo sangue pulsa nas veias.

De tudo isso, imprescindível destacar o legado do aprendizado que estamos tendo na organização dos grandes eventos e no respeito aos seus torcedores.

A Fifa traz uma série de recomendações de segurança e conforto já utilizados na Europa e em outros grandes eventos como o s Jogos Olímpicos e que podem mudar definitivamente o paradigma do torcedor brasileiro. Tais recomendações são fruto de anos de estudo e experiência em grandes eventos.

Estive em alguns jogos da Copa das Confederações e, apesar de haver, ainda, muito o que ser feito, foi engrandecedor notar o respeito dos torcedores ao local de assento indicado nos bilhetes, adquirir produtos nos bares com cartão de crédito, circular nas imediações do estádio sentindo-se seguro, dentre outros.

A Copa das Confederações aproxima-se de seu fim, mas o que ganhamos com a sua realização ficará para sempre na prática e no coração de todo brasileiro.

Que venha a Copa do Mundo de 2014.

 

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

A conta da Copa

Dando continuidade ao tema iniciado na semana passada, a coluna desta semana se propõe a ampliar o debate no sentido de esclarecer qual a real conta imputada à Copa do Mundo 2014. Muito se falou sobre o excessivo dispêndio público sobre um evento de “apenas” 30 dias e o real valor que será deixado para a população.

Quanto aos estádios, é indiscutível, na minha percepção, que poderíamos ter investido o mesmo montante de maneira mais inteligente, a ponto de deixar um legado relevante para o país. Acho que isto está muito claro para todo mundo.

Contudo, importa esclarecer que a conta de pouco mais de R$ 23 bilhões que se está associando única e exclusivamente ao evento não está simplesmente relacionada aos estádios. Existem inúmeras obras, que já estavam planejadas nas cidades-sede, e que estão sendo aceleradas por conta do megaevento. É o tal efeito catalisador da Copa.

Na realidade, 72,1% do orçamento relacionado à Copa 2014 está imputado em obras e projetos para Aeroportos, Portos, Turismo, Mobilidade Urbana, Segurança e Telecomunicações. Os 27,9%, que equivalem a R$ 6,4 bilhões, são para a construção ou reforma de estádios.

Até aqui, tudo ótimo.

Temos a garantia, pelo planejado, de um legado relevante para o país, somado à construção e reforma das novas arenas para o futebol.

O grande problema é perceber a aplicação destes recursos. Olhando para a relação daquilo que foi orçado ante o que foi efetivamente contratado, vemos que os estádios captaram (contrataram) 95,2% daquilo que foi planejado (ou R$ 6,1 bilhões).

Na outra parte do orçamento, as obras e projetos contrataram somente 43,7% do que planejaram (ou R$ 7,2 bilhões). No somatório, contratamos 58,1% do orçado.

O quadro abaixo demonstra o cenário encontrado em 26-jun-2013, baseado no Portal da Transparência do Governo Federal.

Levando-se em conta que os investimentos totais planejados para a Copa 2014 terão a seguinte divisão entre os poderes:

(…) o cenário não é dos mais calamitosos como tentam pintar alguns críticos. A perspicácia de um protesto se faz com informação e inteligência. Portanto, nossa reivindicação deve partir não por negar ou boicotar a Copa que, como evento e acontecimento tem uma relevância histórica significativa para os países que a sedia. Devemos, sim (e aí incluindo a comunidade esportiva), pedir algo simples como: “CONCLUIR TUDO AQUILO QUE FOI PLANEJADO”.

Essa é, a meu ver, a bandeira justa e na medida correta. Simplesmente fazer, sem desvios ou superfaturamentos, o que prometemos e planejamos.
 

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

 

Categorias
Sem categoria

De volta ao basicão

Seja no âmbito pessoal ou profissional, observo as pessoas quebrando a cabeça em busca de soluções "inovadoras" para resolver seus problemas. Depois de muito tempo e esforço, em geral, chegam a soluções por vezes complexas e difíceis de serem implementadas. E pode ser pior, como nas vezes em que encontram a solução, mas, já se passou tanto tempo que um pequeno problema se transformou em um desastre, com sérias consequências para as pessoas ou organizações.

Ao ser consultado sobre algum problema, recomendo soluções simples, rápidas e práticas. Isso não quer dizer soluções simplistas. Percebo que durante a explanação da solução pessoas fazem anotações e no final olham como se estivessem diante de um gênio. Tenho certeza que minha vó ficaria feliz se isso fosse verdade, mas sou apenas um sujeito atento, experiente e uso a técnica de relembrar o passado, vendo se problemas semelhantes já existiram, como foram solucionados e como posso dentro de novas "combinações" propor soluções simples e de fácil realização. Enfim, faço o "basicão".

O que seria fazer o "basicão"? É buscar e aplicar soluções simples, diretas e sem rodeios. Eu pratico e estimulo minha equipe a olhar o basicão sempre, pois além de economizar tempo desmistifica a ideia de que soluções complicadas são as mais valorizadas! O termo tomei emprestado do amigo Marcos Nascimento, executivo da ManStrategy Consulting Ltda, após assistir sua palestra para um grupo de executivos sobre execução de estratégias bem sucedidas tendo como premissa "voltar a fazer o basicão".

Exemplos de situações e soluções no estilo "basicão" existem na vida pessoal e profissional, em todas as áreas e segmentos. Vejamos alguns deles:

A maioria dos adultos já teve uma DR – discutir a relação. Já imaginou ter uma DR em plena rede social? Hoje não acontece apenas com os jovens, tem muitos quarentões que, de um pequeno problema em casa, reclamam do cônjuge em pleno Facebook. Eles contam suas histórias e pedem ajuda para toda a rede de amigos.

Além de todos ficarem sabendo da intimidade do casal, os palpites vêm de todos os lados e as consequências são em alguns casos desastrosas. Como isso era resolvido fazendo o basicão?

A pessoa até pedia conselho para amigos, os mais próximos, não para os 2.807 do seu Facebook. Refletia, conversava em casa e tudo se resolvia aos poucos de maneira íntima e menos traumática.

No esporte, pequenos problemas se transformam em problemões, mesmo aqueles que seriam resolvidos aplicando a técnica do "basicão". Hoje, na maioria dos clubes de futebol, existe pouca conversa direta e reta entre o presidente e treinador, entre o treinador e atletas e entre os próprios atletas. Quando precisam falar algo, mandam recados pela imprensa ou pelos seus Twitters, entre outros. Muitos treinadores descobrem que estão desempregados pelo rádio ou nas mídias sociais. Como isso era resolvido fazendo o "basicão"?

Com uma boa conversa, olho no olho, em um local neutro e descontraído, por vezes em uma boa churrascaria, restaurante ou bar, seria mais fácil e prático discutir os conflitos e evitar as desinteligências.

Outro bom exemplo é a discussão em todo país a respeito do "apagão profissional". A falta de mão de obra e a dificuldade de reter talentos nas empresas geram reclamações do tipo:

1) Temos muitas vagas que demoram a fechar por falta de candidatos
Eu pergunto: suas vagas são bem descritas e estão bem "embaladas". Nelas, fala-se sobre oportunidades de crescimento e diferenciais da empresa. Você tem um vídeo institucional mostrando como é a cultura da empresa? A resposta é NÃO.

2) Na minha região é complicado contratar
Eu pergunto: sua empresa tem estratégias de atração nas proximidades da empresa? Tem um profissional recrutando ou pensando em estratégias de captação regional? Faz atração em agências governamentais, igrejas, templos, universidades, escolas, sindicatos regionais, feiras e eventos? A resposta é NÃO.

3) Faltam profissionais experientes e prontos
Eu pergunto: sua empresa tem um programa para contratar e formar profissionais menos experientes? Estão treinando e preparando jovens potenciais para assumir mais responsabilidades no futuro?
A resposta é NÃO.

4) O turn over está alto e custando caro. Não consigo reter meus funcionários
Eu pergunto: as vagas são oferecidas aos funcionários antes do selecionador buscar profissionais no mercado? Seus funcionários são estimulados a desenvolver-se, pois podem ser aproveitados internamente e serem promovidos ? Os líderes estão "motivados" com a causa de atração e seleção? A resposta é NÃO.

De fato, existem alguns setores com mais dificuldades em contratar funcionários, mas, após ouvir os NÃOs, os lembro de como tais problemas eram resolvidos no passado e que contratar bem e formar para o futuro sempre foram fatores cruciais de sucesso para os negócios. Por esta razão, no princípio os próprios donos de empresas eram responsáveis por contratar. Falo de estatísticas que mostram que as empresas de maior longevidade são as que contratam melhor, ou seja, novamente a solução está em olhar o passado, pensar em novas combinações e fazer o "basicão".

Arrisco uma explicação para a dificuldade em fazer o "basicão", atualmente. Em primeiro lugar, somos ensinados nas instituições educacionais a decorar coisas e seguir modelos prontos, ao invés de pensar no sentido e no porquê das coisas. Em segundo lugar, hoje se emprega pouco tempo na atividade de pensar sobre como as coisas funcionam.

As diversas distrações e facilidades tecnológicas acostumaram as pessoas a chegarem às respostas. Isso as tem levado a não usarem seu tempo para estudar e entenderem o princípio das coisas, enfim, como são feitas as coisas e quais os conceitos que dão sustentação à sua existência. Posso dar vários exemplos, o meu preferido é o da luz elétrica, então vejamos: A pessoa aperta um botão e a luz acende, e ao perguntar se a pessoa sabe porque a luz acende, a resposta é simples, porque apertei o botão.

Pois bem, de maneira simplista, posso dizer que para a luz acender é necessária uma estrutura sincronizada e organizada, que começa com a armazenagem de água, turbinas poderosas em hidroelétricas, torres de transmissão, postes de distribuição, transformadores de energia, fiação interna no estabelecimento e, por fim, o botão.

Este é um caso típico do que vemos hoje em muitas situações, a perda do contato com o básico, a origem. Graças aos avanços tecnológicos, é verdade que um toque
no botão acende a luz. No entanto, saber como as coisas acontecem e seus princípios básicos nos faz entender as diferentes variáveis que podem, quando necessário, nos levar a pensar em soluções criativas para contornar restrições, assim como imaginar novas combinações que tragam soluções inovadoras.

Reflitam sobre os problemas em seu dia a dia e pensem se fazer novas combinações do que já viram, vivenciaram ou observaram no passado é o melhor caminho para vocês solucionarem problemas e evitarem perda de tempo. Na dúvida optem por fazer o simples, o "basicão".

*Cezar Antonio Tegon é graduado em Estudos Sociais, Administração de Empresas e Direito. É presidente da Elancers e sócio-diretor da Consultants Group by Tegon. Com experiência de 30 anos na área de RH, é pioneiro no Brasil em construção e implementação de soluções informatizadas para RH

Para interagir com o autor: ctegon@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

(Des)construindo um ídolo

Ainda é extremamente cedo para rotular o que está acontecendo atualmente no Brasil. Sem um distanciamento histórico, qualquer análise pode ser tão precipitada quanto o famoso "Taison ou Messi".

No entanto, a enxurrada de manifestações populares gerou reações que podem ser deslindadas. Algumas delas, aliás, são exemplos perfeitos de como a comunicação ajuda a construir (ou destruir) ídolos.

É essa a ideia suscitada por um vídeo gravado por Pelé. Em 1min15, o "Rei" pediu que os brasileiros sejam condescendentes com a seleção que representa o país na Copa das Confederações. Além disso, sugeriu que o povo esqueça os protestos e se concentre na competição.

Pelé chega a dizer que o vídeo é um apelo de Edson Arantes do Nascimento, o torcedor. Mesmo assim, é impossível dissociar uma figura da outra. Declarações como essa, de pura alienação, demonstram falta de compromisso com o povo que moldou o ídolo. Não há como evitar que a imagem do atleta seja debelada.

O mesmo acontece com Ronaldo. Em meio aos protestos em várias cidades brasileiras, circulou em redes sociais um vídeo de 2011 em que o "Fenômeno" cobrou autoridades do país sobre a preparação para receber o Mundial de 2014. Preocupado com os atrasos em obras de estádios, ele disse que "Copa do Mundo não se faz com hospitais" e pediu maior preocupação com os palcos dos jogos.

A distância entre um atleta brilhante em um ídolo tem uma série de degraus: carisma e identificação popular, por exemplo. Quando fazem declarações assim, Pelé e Ronaldo jogam contra a imagem que construíram em campo.

A diferença é que Ronaldo demonstrou preocupação com isso. Quando percebeu a repercussão em torno da declaração, o pentacampeão mundial pediu desculpas, disse que o conteúdo foi "tirado de contexto", culpou "a edição" e usou outros subterfúgios para tentar amenizar um posicionamento extremamente infeliz.

Por tudo que fez como atleta, Pelé expressa excelência. Ronaldo simboliza superação, fé, esforço e outros atributos positivos. Tudo isso tem valor enorme para a publicidade, mas depende de aceitação popular. A preocupação do "Fenômeno" tem muito a ver com o lado comercial.

Ronaldo não demonstrou igual consideração para explicar as funções que ele acumula. O "Fenômeno" é um dos fundadores da 9ine, agência de marketing esportivo que agencia carreiras de atletas. Há clientes da empresa disputando a Copa das Confederações, torneio em que o ex-jogador trabalha no membro do comitê organizador e comentarista da TV Globo.

Na prática, Ronaldo é responsável por organizar a competição e por gerenciar carreiras de atletas que estão em campo. E depois precisa ter isenção para avaliar na principal emissora do país o andamento do torneio e o desempenho de seus clientes.

Ele pode até argumentar que tem reputação ilibada e autonomia para desempenhar todas as funções sem cair em contradição moral. Contudo, vale para Ronaldo a história da “mulher de Cesar”: não basta ser honesto…

Ao se aliar ao poder, Ronaldo empresta credibilidade a muita coisa que ele não pode controlar. E isso é um risco enorme para quem, depois de ter deixado os campos, tem na imagem a principal fonte de negócios.

Outro problema contido nesse tipo de comportamento é que Ronaldo se distancia da figura de homem humilde, que triunfou a despeito de não ter origem nobre. Ao se aproximar do poder, o “Fenômeno” compromete muito do que o conduziu até lá.

Nesse caso, porém, Ronaldo é apenas um exemplo. Não são poucos os atletas que aproveitaram a fama consolidada no esporte e emprestaram esse renome a diferentes instâncias de poder.

Para quem trabalha com comunicação, esse tipo de transição representa um desafio enorme. É fundamental criar um discurso condizente com a nova etapa da vida do atleta, mas que não abra mão de atributos que o moldaram.

As respostas de Ronaldo à disseminação da declaração dele são parte disso. Mais do que apresentar alguma justificativa plausível, o importante era não permitir que o rótulo de opositor ao movimento pespegasse no "Fenômeno". Para isso, ele precisou se posicionar.

As evasivas do ex-jogador também são parte de uma estratégia para evitar rusgas com qualquer lado. Quanto menos ele se posicionar de forma peremptória, menor o risco de aumentar seu nível de rejeição.

Por tudo isso, chamou atenção de forma muito positiva o posicionamento dos jogadores da seleção brasileira de futebol. Incitados a questionar os protestos e as manifestações populares, todos corroboraram o clamor público por uma série de mudanças no país.

Um dos mais veementes foi o atacante Neymar. Ele usou a rede social Instragram para publicar uma foto e um texto sobre a ida do povo às ruas. "Poderia parecer demagogia minha – mas não é – levantar a bandeira das manifestações que estão ocorrendo em todo o Brasil", diz um trecho da declaração do camisa 10.

Neymar foi sucinto, direto e enfático. Ainda que estivesse concentrado na Copa das Confederações, não ignorou um momento importantíssimo para a história do país.

Em campo, Neymar ainda fez pouco para ser comparado a ídolos como Pelé e Ronaldo. Nas recentes manifestações, porém, ele mostrou que já pode dar aulas de comunicação para ambos…

Para interagir com o autor: guilherme.costa@universidadedofutebol.com.br