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Sobre os problemas do jogo ideal – e do treino perfeito

Vocês sabem que há um vídeo relativamente famoso do José Mourinho, que salvo engano meu data de 2010, no qual ele faz uma observação muito interessante sobre o planejamento de um treino, talvez até uma previsão, que transcrevo literalmente abaixo. Ali, ele defende que qualquer pessoa que quiser montar um treino de qualidade pode fazê-lo, com dois ou três cliques num computador. Ele diz o seguinte:

O conhecimento está ao alcance de todos. (…) Você é jornalista, mas se amanhã disserem que tem que dar um treino à uma equipe, você só não estrutura um bom treino (…) só não organiza, se não quiser. (…) Uma coisa é o conhecimento que está ao alcance de todos, outra é a capacidade de produzir o próprio conhecimento. O fato do conhecimento estar ao alcance de todos é uma contribuição enorme para a preguiça mental. 

Lembro de ter assistido a esse video em algumas aulas do Prof. Alcides Scaglia, há cerca de cinco anos, mas hoje, com outros olhos, também vejo a questão de uma outra forma. Mourinho, diretamente ou não, ataca um problema fundamental, especialmente no processo de organização dos nossos treinos, seja no microciclo semanal, ou mesmo no médio/longo prazo. Vamos chamá-lo de problema do jogo ideal.

Aqui, entenda jogo ideal da seguinte forma: um determinado jogo – ou exercício, aplicado dentro de um treinamento, a partir do qual o treinador espera um resultado ótimo – sendo que a expectativa pelo resultado está estritamente ligada ao jogo aplicado. Se você preferir, é uma expectativa estritamente ligada ao método  Por exemplo, um treinador viu um jogo de manutenção da posse do Jurgen Klopp, com 6×6+1 num espaço de 30x25m, ficou encantado com o resultado (eventualmente desconsiderando o nível dos jogadores que um clube do tamanho do Liverpool têm à disposição) e replicou exatamente a mesma coisa no seu próprio treino, numa equipe sub-15 do interior do Brasil. Só que, por algum motivo, o jogo não deu muito certo. Ou seja, no mundo das ideias era um jogo maravilhoso, mas na realidade não foi. A conta não fecha.

Basicamente, é um dilema pelo qual todos nós, envolvidos com o processo de treino, já passamos por diversas vezes. De fato, Mourinho tem razão quando denuncia um certo comodismo, que nos atinge às vezes, que faz com que pensemos que um certo jogo ou um certo exercício tem propriedades quase que mágicas, sendo essas propriedades coisas do próprio jogo, como se fosse um jogo universal, de modo que aquele mesmo jogo, se aplicado em qualquer outro lugar, com quaisquer outros atletas, teria rigorosamente os mesmos resultados. Só que aqui, talvez nos escapem pelo menos duas coisas importantes: vamos chamar a primeira de movimento, e vamos chamar a segunda de sentido

Quando me refiro ao movimento, penso da seguinte forma: as coisas, como as vemos, não são – elas estão. Portanto, não existe apenas um caráter de transitoriedade nas coisas – que faz com que elas possam estar de um jeito, depois de outro, como também existe um certo caráter de não-essência, o que significa que se um determinado jogo deu muito certo em um determinado treinamento, não é que a causa tenha sido o jogo em si, mas seja, talvez, a qualidade das relações que se criam dentro do próprio jogo. É disso, afinal, que falamos quando falamos de complexidade: as qualidades daquilo que é tecido junto. Se jogarmos dois jogos de 6×6+1 em 30x25m, com os mesmíssimos jogadores, a mesmíssima comissão técnica, em dois dias seguidos, vocês sabem tanto quanto eu que serão dois jogos completamente diferentes. Um jogo nunca será igual ao outro – e para isso basta lembrarmos da básica premissa da imprevisibilidade, que está no coração do jogo. 

Por isso é tão importante a segunda variável que apresento, que é a variável do sentido. Um jogo será tanto melhor – o que não significa que seja mais legal, são coisas muito diferentes – quanto mais refinadas forem as nossas capacidades de atribuir sentido ao que nos acontece. Ou seja, é preciso que tanto nós, treinadores e profissionais do futebol em geral, quanto os próprios atletas envolvidos no processo – que se alimentam da nossa capacidade pedagógica, que todos tenhamos sempre a mente a importância de refinar a nossa capacidade de dar sentido às coisas – justamente porque, como dissemos acima, as coisas não são, elas estão. O que faz com que uma jogo deixe de ser uma coisa e  passe a ser outra não é o jogo em si, mas exatamente o sentido que damos a ele. Se meu modelo de jogo está baseado na retração do meu bloco defensivo  em busca de contra-ataques, será que um jogo manutenção da posse de 6v6+1 em 30x25m, como vimos numa sessão qualquer do Klopp, pode, de fato, fazer sentido no meu processo? Veja bem, talvez até possa, mas isso está diretamente relacionado com a nossa capacidade de dar sentido – e de fazer, sutilmente ou não, com que nossos atletas deem sentido – ao processo de treino.

Assim, gostaria de propor a vocês que saíssemos um pouco, nos nossos processos de treino, dessa ideia de jogos ideais, ou mesmo dos treinos perfeitos, de modo que nós não nos demos muito ao direito de apenas reproduzir um determinado jogo ou exercício que chegou até nós, como se o segredo estivesse no jogo em si. Qual é o seu modelo de jogo? Quais são as suas filosofias enquanto treinador? Quais são os princípios e/ou os conteúdos que você gostaria de trabalhar naquela semana e naquela sessão? Para muito além do seu método, quais são as suas didáticas? Qual é, honestamente, a nossa capacidade atual de dar sentido aquilo que nos acontece? 

Pois este é um ponto realmente decisivo, sem o qual ficamos muito limitados – assim como podem ficar nossos treinamentos.

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Tite evoluindo

É sempre relativo analisar a importância da seleção brasileira no cenário doméstico e internacional. Há quem defenda que o encanto de outrora já não existe mais. Os argumentos são os mais variados: os nossos craques não jogam aqui e só ‘pensam em dinheiro’, a qualidade do jogo não é mais a mesma, faz tempo que não ganhamos uma Copa do Mundo, estamos atrasados com relação ao que se faz na Europa e etc. Porém, sempre que a seleção joga eu me esforço para acompanhar. Penso ser importante procurar entender quais as ideias do treinador e como cada jogador convocado se comporta, já que para mim faz sentido o específico clichê que diz: jogar em clube é uma coisa e na seleção é outra.

Me apego aqui mais ao treinador, porque é o que tem me chamado a atenção. Já falei inúmeras vezes que Tite é o melhor técnico brasileiro. Com o conservadorismo da CBF é impensável  termos um profissional estrangeiro, portanto a permanência de Tite se mostra mais do que coerente. E é a evolução do ex-treinador do Corinthians que mais salta aos olhos. 

Tite é hoje o ponto intermediário entre os mais competentes treinadores do mundo e a mesmice de ideias que, de maneira geral, impera no Brasil. E a cada pequeno ‘ciclo’ de jogos é possível ver melhora na seleção brasileira. E falo aqui de conceitos, de ideias. Por exemplo, se na Copa do Mundo, há dois anos, a seleção insistia em uma saída de bola com a linha defensiva de quatro ‘sustentada’, hoje vemos uma saída de três, ou até mesmo com dois jogadores dependendo da marcação do adversário. Se o Brasil antes sofria ao perder a bola, já que sem uma compactação bem feita é impossível realizar um ‘perde-pressiona’ eficaz, hoje atacando com mais gente as linhas invariavelmente estão mais próximas e uma transição defensiva acontece de maneira natural.

Brasil x Bolívia pela primeira rodada das Eliminatórias da Copa do Mundo de 2020
Tite em ação na estreia da seleção nas eliminatórias. Foto: Lucas Figueiredo/CBF

Não jogar contra as melhores seleções do mundo por conta do calendário é um problema gigante, mas de poucas, ou quase nenhuma, solução. O que está ao alcance de Tite ele está fazendo: aprimoramento tático, busca de conhecimentos do que se faz no mais alto nível e evolução profissional. E o que é mais difícil: com pouquíssimo tempo para treinar. Ao invés de criticar as circunstâncias que envolvem a seleção prefiro olhar para dentro de campo. E o que tenho visto tem me agradado cada vez mais. É garantia de vitória? Claro que não. Mas aumenta as probabilidades.

*As opiniões dos nossos autores parceiros não refletem, necessariamente, a visão da Universidade do Futebol

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Por que os clubes de futebol brasileiros devem vestir a camisa da sustentabilidade?

Futebol e Meio Ambiente, o que um tem a ver com o outro? Pode parecer que não há nada que os relacionem, mas é bem verdade que estes dois temas estão mais próximos do que podemos imaginar, afinal, nada está desconectado da sustentabilidade e a necessidade em preservar o meio ambiente e os recursos naturais.

Ademais, é importante ressaltar que o futebol não pode ser visto mais apenas na ótica da bola, do campo e dos jogadores durante a partida carecendo de uma visão abrangente – e empresarial – que compreende também as questões socioambientais.

Dessa forma, preservação do Meio Ambiente, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável, que são expressões originalmente relacionadas ao desenvolvimento socioeconômico, político e cultural, vem sendo incorporadas ao futebol quando atreladas à responsabilidade ambiental, a qual tem ganhado maior atenção dos clubes e das empresas parceiras destes, sempre na busca de manter uma imagem positiva com a torcida e o público em geral.

A preocupação com as questões ambientais no meio futebolístico é recente, tendo ganhado maior espaço com a copa do mundo de 2014 em que foram criadas diretrizes do Ministério do Esporte para construção e reforma de estádios e centros de treinamento, incluindo questões de sustentabilidade, eficiência energética, possibilidade de uso racional da água dentre outros.

Em relação a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, a sustentabilidade teve relação, inicialmente, com as próprias obras de construção e/ou reforma dos Estádios, mas o legado é visto atualmente, em alguns casos, de maneira positiva e com boas práticas ambientais, a exemplo do Estádio Mineirão em Belo Horizonte, o qual adota práticas de reaproveitamento da água da chuva, geração de energia limpa e renovável, por meio da usina solar fotovoltaica instalada na cobertura do estádio e o reaproveitamento de resíduos.

Antes disso, a Federação Paulista de Futebol criou o projeto “Eco Torcedor” em parceria com os clubes de futebol da primeira divisão do estado de São Paulo. As principais ações realizadas no âmbito da preservação ambiental do programa foram: plantio de bosques urbanos e coleta de resíduos sólidos recicláveis que teve um significativo resultado com a coleta de mais de uma tonelada de resíduos recicláveis nos eco pontos instalados nos estádios. Além disso, foram plantadas 16.260 mudas para a formação de bosques urbanos.

Muitos times brasileiros têm investido ou já investiram em ações que buscam a promoção da sustentabilidade e projetos voltados para o meio ambiente. São exemplos o Internacional e Grêmio com seus estádios sustentáveis com sistemas de aproveitamento da água da chuva para irrigação do gramado e jardins e limpeza de áreas internas e externas.

Em São Paulo, Corinthians e Palmeiras firmaram parceria com empresa do setor privado no extinto projeto de carboneutralização – captura de gases do efeito estufa por meio do plantio de árvores, chamado “Jogando pelo Meio Ambiente” – iniciado no ano de 2010 e responsável pela criação de uma reserva ambiental de árvores nativas da Mata Atlântica onde foram plantados um total aproximado de 50 mil árvores.

Outro exemplo é o clube Atlético-MG, o qual inaugurou em 2020 a “Usina do Galo”, responsável pela produção de energia fotovoltaica para abastecer a sede administrativa, o centro de treinamento e os dois clubes sociais, o que poderá gerar economia financeira e benefícios ao meio ambiente imensuráveis.

É evidente o crescente incentivo por práticas ambientais mais conscientes, aliando o desenvolvimento sustentável – e proteção ao meio ambiente – ao futebol, e possibilitando diversos benefícios relacionados a conquista de um relacionamento ético e dinâmico com os órgãos públicos e entidades de proteção ambiental e a garantia de segurança e credibilidade aos torcedores e patrocinadores quanto a execução de boas práticas ambientais, dentre outros.

Percebam que todos estes programas e ações realizadas buscam ou buscaram trazer benefícios para a sociedade e propiciar a promoção de benefícios para o meio ambiente, agregando valor à marca do próprio clube de futebol e aos patrocinadores que veem sua marca atrelada a uma entidade esportiva que valoriza princípios de Responsabilidade Social e Sustentabilidade Ambiental, ou seja, ações em consonância com os desafios a serem superados no século XXI.

Iniciativas que busquem melhorias na qualidade ambiental e utilização consciente dos recursos naturais, seja em centros de treinamento ou em estádios de futebol, têm sido valorizadas pelos torcedores e patrocinadores devido ao recente movimento de conscientização da população que de modo geral busca apoiar a sustentabilidade, fazendo-se necessário aos clubes de futebol também buscarem promover iniciativas de proteção ao meio ambiente ainda mais consistentes.

A nossa concepção é que os clubes de futebol reconhecidos por promovem melhorias ambientais e implantação de processos eficientes de controle e reaproveitamento de água e resíduos, ou seja, clubes que adotam boa gestão ambiental terão resultados financeiros mais satisfatórios quando comparados aos clubes que não fazem uma gestão ambiental preventiva em razão da valorização de suas marcas, reconhecimento da torcida e empresas parceiras.

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Desenvolvimento motor e o espaço da liberdade – é um risco não deixar as crianças se arriscarem

O desenvolvimento motor deve ser entendido como uma mudança contínua no comportamento motor ao longo da vida e que é provocado pela interação entre as exigências da tarefa motora, a biologia do indivíduo e as condições ambientais[1]. Esse conceito reforça a tese de que o movimento nada mais é do que vida.

Modelos clássicos discorrem sobre a existência de fases e estágios do desenvolvimento motor, que vão desde o movimento reflexo, passando pelos movimentos rudimentares, fundamentais, chegando à fase denominada especializada; em cada estágio descrito, há características próprias associadas aos movimentos esperados em determinadas faixas etárias.

Essas sequências não consideram aspectos culturais e sociais no desenvolvimento do indivíduo, salvaguardando marcadores padronizados de movimento. Em sua obra Educação de corpo inteiro: teoria e prática da Educação Física[2], o Professor João Batista Freire entende que, ao considerar padrões do movimento, o mundo deveria ser padronizado da mesma forma. Assim como não podemos controlar a imprevisibilidade ou os perigos presentes no mundo, em vez de padrões, deveríamos considerar a manifestação de esquemas motores, onde os movimentos são construídos pelos sujeitos, em cada situação e que levam em conta a subjetividade biológica e psicológica de cada um, além das condições ambientais.  

Quanto aos perigos do mundo, que é o tema deste artigo, dá para proteger as crianças de todos eles? Elas devem ou não correr riscos? Para responder tais questões, é interessante pontuar a diferença entre perigo e risco: enquanto o primeiro está relacionado ao agente causador, o segundo se refere à possibilidade de ocorrência do fato e depende do nível de exposição ao perigo, por exemplo: uma piscina oferece perigo para quem não sabe nadar e o risco é o afogamento. Levando em conta que tais conceitos caminham juntos e que fazem parte de todo e qualquer ambiente, não é razoável tentar eliminá-los totalmente do desenvolvimento da criança[3]

Na contramão dessa ideia, e a partir da concepção de que o risco é um fator adverso, pesquisadores da área têm estudado sobre uma cultura de aversão ao risco, ou seja, cada vez mais o ambiente que a criança brinca é controlado e, consequentemente, previsível; no ímpeto de eliminar qualquer tipo de proximidade aos perigos e riscos do mundo, estabelecendo diversas restrições, o desenvolvimento da criança acaba sendo limitado. As tentativas de controlar totalmente os aspectos ambientais – sendo uma missão (praticamente) impossível -, resultam em um repertorio motor pobre; isso porque é a interação entre os fatores ambientais, individuais e da tarefa, que balizam e influenciam diretamente o desenvolvimento humano.  

Falas como: “cuidado para não se sujar” ou “atenção para não se machucar”, ou até mesmo orientações que limitam a exploração do ambiente por parte da criança, como por exemplo, repreendê-las ao tentar subir o escorregador – sendo que essencialmente a função do brinquedo é descer -, podem parecer insignificantes, mas elas exprimem essa tentativa de moderar as ações das crianças e a de limitar o brincar. Há também a influência dos aspectos sociais, que tornou raro o jogo de rua, que foi substituído por uma “cultura de telas”, resultando num tempo livre considerado passivo e que arrebatou experiências ricas – em todos os sentidos – que a brincadeira de rua proporciona ao indivíduo. Restrições excessivas, ambientes e brinquedos previsíveis, que oferecem poucas oportunidades de interações sociais, são pouco desafiantes e não lidam com o risco, e refletem um desenvolvimento motor aquém do esperado. 

Convido-os a refletir sobre um ponto: se a essência do movimento é a vida, brincar com o risco e se desafiar é necessário, e é isso que vai trazer vitalidade no decorrer do nosso desenvolvimento. É inegável que, biologicamente, temos uma predisposição à proteção e, talvez, isso explique os comportamentos dos adultos que tentam de todas as maneiras controlar os ambientes e proteger as crianças. Mas devemos atentar para os excessos. Nossas experiências não são todas iguais e, por isso, temos que olhar para o nosso ambiente e perceber a potência que ele carrega e a influência que ele exerce sob o nosso desenvolvimento e aprendizagem. Afinal, aprendemos e nos desenvolvemos a partir da liberdade e não do controle do risco.


[1] GALLAHUE, D.L.; OZMUN, J.C.; GOODWAY, J.D. Compreendendo o desenvolvimento motor: bebês, crianças, adolescentes e adultos. Tradução: Denise Regina de Sales; revisão técnica: Ricardo D. S. Petersen. – 7. ed. – Porto Alegre: AMGH, 2013.

[2] FREIRE, JB. Educação de corpo inteiro: teoria e prática da educação física. São Paulo: Scipione, 2009.

[3] Seminário apresentado pela Professora Doutora Rita Cordovil, no III Encontro Mineiro de Comportamento Motor, disponível no link: < https://www.youtube.com/watch?v=kl3iCmMxi5M> Acesso em: 11 de setembro de 2020.

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Em defesa do bobinho: um breve ensaio

Vocês sabem que o debate sobre futebol, como o debate sobre qualquer outra coisa, é uma questão de narrativas. Quem controla a narrativa, controla o debate. Como disse certa vez o Don Draper, personagem principal dessa brilhante série que foi Mad Men: if you don’t like what’s being said, then change the conversation – se você não gosta do que está sendo dito, mude o assunto – em tradução livre.

Digo isso porque, como já escrevi aqui e aqui, muito do que se vende hoje em dia como futebol ‘moderno’ talvez não o seja de fato, ou talvez seja, na verdade, apenas reflexo de uma ou de algumas novas narrativas, a partir de outras palavras que vão se colocando no debate. Vejam o caso do rondo, por exemplo: especialmente depois dos históricos resultados esportivos obtidos pela Espanha – e repare aqui como geralmente o debate não está bem na esteira dos processos em si, mas dos resultados subjacentes a eles, nós começamos, aos poucos, a não mais falar que fazemos bobinho, ou que jogamos bobinho, como se não tivéssemos jogado bobinho a vida inteira, mas sim que fazemos rondos, que em todos os nossos treinos há rondos, e aí falamos da importância pedagógica dos rondos e etc.  

Neste texto, gostaria de defender rapidamente duas coisas: uma que, na minha modesta opinião, bobinho e rondo são coisas diferentes, o que significa que não são termos automaticamente substituíveis e que não podem ser confundidos um com o outro. Ao mesmo tempo, gostaria de falar não apenas do uso, mas de uma própria defesa do bobinho enquanto palavra, e da importância do bobinho na articulação das nossas próprias narrativas sobre futebol. 


Por várias vezes, inclusive dentro de campo como treinador, percebi um certo incômodo, ora de atletas, ora de outros atores envolvidos no processo, quando usei o termo bobinho – ao invés do termo rondo, por exemplo. Hoje, olhando com um certo distanciamento, sinto que esse incômodo tem uma origem dupla:

1) como está no diminutivo, parece que falar ‘bobinho’ significa falar de algo menor, inferior, desimportante, secundário, dispensável. Isso não deixa de ser interessante, porque como nossos processos de treino são fruto das narrativas que os alimentam, é claro que nos damos cada vez menos o direito de usar palavras supostamente menores, desimportantes, dispensáveis, porque nos nossos processos de treino, nós nos sentimos cada vez mais pressionados a aparentar – ainda que seja apenas e tão somente uma aparência – que estamos comprometidos com isso que se vende como ‘moderno’, ou mesmo com o que está associado à suposta ‘modernidade’ de determinados países europeus, e aí não surpreende que nós adotemos os nomes compostos, ou que falemos de pressing, de box-to-box, de pivotes e etc, ainda que o nosso idioma tenha palavras capazes de substituí-las. A partir da negação dos diminutivos, por exemplo, não surpreende que nos percebamos cada vez mais sisudos, com processos de treino tão sisudos que soam quase como laboratórios científicos – ainda que nem sempre fruto de ciência boa, e não por acaso também jogamos, vez por outra, um futebol sisudo, muito sério, muito ‘organizado’ – a partir de um entendimento bastante curto do que pode ser a ‘ordem’ no futebol, e que não raro se mostra contraído, pressionado, estéril, às vezes vazio. 

2) no caso do bobinho, além de um termo genuinamente nacional e no diminutivo, ele ainda faz, obviamente, referência ao bobo, ou mais especificamente a um certo sujeito que é bobo – ou, no caso do jogo, que está como bobo. Mas como estamos preocupados em nos mostrar sisudos demais, um pouco aborrecidos e às vezes mais preocupados com a letra do que com o pé, me parece que o simples fato de citarmos a palavra ‘bobo’ ou ‘bobinho’ gera um certo constrangimento, não apenas como se fosse algo menor e etc, mas também como se fosse um termo ligeiramente ofensivo, como se não pudéssemos sequer insinuar que um atleta esteja como bobo, ou possa vir a ser um bobo, o que imediatamente faz com que alguém nos advirta, explicitamente ou nas entrelinhas, que falemos dele não como bobo, mas como marcador, oponente, qualquer coisa do tipo. Repare que aqui há uma relação muito grande com o que escrevi outro dia, neste mesmo espaço, quando argumentei que o treino não existe para ser legal, e que quando nos preocupamos em fazer coisas sempre muito legais ou agradáveis demais – a partir, por exemplo, das palavras que usamos, talvez estejamos fazendo qualquer outra coisa que não educação.

O fato é que me parece claro que estamos devagarzinho negando o bobinho, que fez e faz parte de um pedacinho das nossas vidas, uma parte bonitinha de quando éramos pequenininhos – para usarmos palavras mais sofisticadas, com tons de estrangeirismo, como é o caso do rondo. O rondo é, basicamente, o jogo clássico de manutenção da posse dos espanhois, que passou a ser mais citado e cultuado, como eu mesmo já disse anteriormente, a partir dos resultados esportivos da primeira década deste século – curioso que, após tantos e tantos resultados esportivos do Brasil ao longo do tempo, não me lembro de nenhum país que tenha importado, nas suas narrativas, o bobinho – mas também a partir das práticas e dos discursos de um exímio treinador como Pep Guardiola, ou de uma geração de jogadores que dominaram a posse com maestria, como foram Xavi, Andres Iniesta, Xabi Alonso, Sergio Busquets, Cesc Fabregas, David Silva, o próprio Thiago Alcântara e etc. Mas há um ponto muito importante: na minha modesta opinião, bobinho e rondo são coisas diferentes

Em primeiro lugar, o simples fato de chamarmos o bobinho de bobinho já deixa claro que se trata de um jogo genuinamente brasileiro. Como vocês sabem, aliás, são poucos os lugares no mundo que usam termos e mesmo nomes no diminutivo, sendo o Brasil um deles. Salvo engano meu, no catedrático Raízes do Brasil, o próprio Sergio Buarque de Hollanda apresenta uma argumentação bastante particular para o fato de usarmos palavras e nomes no diminutivo, sendo uma expressão de um outro tipo de afeto que construímos por aqui. De qualquer forma, quando falamos alguma coisa no diminutivo (e falamos muitas coisas no diminutivo), basicamente falamos de um traço da nossa coletividade enquanto brasileiros. Negar o diminutivo, portanto, não deixa de ser uma negação da nossa própria cultura.

Ao mesmo tempo, o bobinho tem uma vinculação cultural muito forte para todos nós. Você, que lê este texto agora, provavelmente jogou futebol na rua, formou-se de alguma forma na rua – lembrando da rua, como já nos disse o professor João Batista Freire, como tudo aquilo que não é fruto de educação formal ou sistemática – de modo que é muito provável que todos nós tenhamos jogado bobinho. E uma das características centrais do bobinho, que sinceramente me chama muito a atenção, é que nós jogávamos o bobinho por jogar, de maneira descompromissada, nós nos sentíamos bem jogando bobinho, nós queríamos que o bobo continuasse como bobo e que nós não fôssemos o bobo, ao mesmo tempo em que nós também gostaríamos que o bobo, que às vezes estava como bobo há muito tempo, deixasse de ser o bobo e fosse para o outro lado da roda. Nós jogávamos bobinho pelo simples prazer de jogar, mesmo sabendo que o jogo tem sim um compromisso, às vezes implícito, às vezes não, com a vitória, mas nós só queríamos jogar, não queremos ser os estraga-prazeres, queríamos adversários de bom nível, queríamos jogos melhores e eventualmente mais difíceis. O ponto é que, a meu ver, jogávamos bobinho pelo prazer de jogá-lo.

O rondo, por sua vez, me parece ter uma outra natureza. O rondo me parece uma ideia muito mais utilitária do que o bobinho. Ou seja, quem joga o rondo, joga pensando em uma utilidade específica, em um certo fim, que de alguma forma se sobrepõe ao prazer do jogar. Não por acaso são tão grandes e repetidas as associações que fazemos dos rondos com a performance esportiva, justamente porque é a partir dela – e de nenhum outro lugar – que conhecemos o rondo, é ela que nos ilustra o significado do rondo, é a partir de livros de treinadores vitoriosos que lemos coisas e mais coisas sobre o rondo, por que fazê-lo, para onde eles vão, o que fazem e etc. E vejam bem, isso não é um problema: isso é fruto de uma dada cultura, em um dado tempo, com dadas intenções, e essa cultura, e esse tempo e e essas intenções não precisam – e nem querem ser – as nossas. Nós temos a nossa cultura, o nosso tempo, as nossas intenções. Não é preciso negá-las para reconhecer a cultura dos outros.

Se me permitem, reparem numa outra questão fundamental, ainda que um pouquinho mais sociológica: pelo menos para mim, é muito difícil não olhar para o rondo, tendo em conta o lugar de onde vem, sem lembrar das touradas tão características da cultura espanhola. Para muito além da questão ética das touradas, me chama a atenção que a dinâmica do rondo seja muito parecida com a dinâmica toureiro-touro, sendo este último o enganado, ludibriado, distraído, enquanto o toureiro, cuja mente não pode ser estéril e nem demasiadamente sisuda, cria armadilhas para, no último instante, enganá-lo definitivamente. Não tenho nenhum estudo mais aprofundado neste sentido, talvez nem queira ter, mas não deixo de pensar que existe alguma coisa na psicologia do sujeito espanhol que lhe faça admirar esse tipo de coisa, esse tipo de engano, essa forma mais utilitária de ludibriar que, portanto, tem um outro fim além dela própria, e talvez por isso seja, por um detalhe, bastante diferente daquilo que nos acontece por aqui. Sobre este assunto, escrevi pela primeira vez em 2018, num largo ensaio que produzi sobre a Espanha, à época treinada por Julen Lopetegui – que me parecia fazer várias touradas dentro do jogo jogado.   


Por hoje, acho que estamos conversados. Este é um assunto que me interessa muito – não por acaso me estendi um bocadinho, logo voltarei a ele. 

Seguimos nos comentários. 

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Jogar bem é jogar bonito

A beleza na vida e no futebol é algo subjetivo. Depende do modelo de mundo de cada um. As experiências prévias, as influências, o contexto e uma serie de outras coisas condicionam a maneira com que enxergamos tudo. O que é belo para mim pode não ser para você. E vice-versa. 

Entendendo essa complexidade, simplifico o ‘jogar bonito’ do futebol para ‘jogar bem’. Não são exatamente sinônimos, mas cabe para o argumento que quero defender. Isso porque jogar bonito – por mais complexo e interpretativo que seja, repito – aproxima da vitória. A proposta pode ser tanto um jogo calcado na ocupação inteligente do espaço como por ter o controle da partida por meio da posse de bola. Mas qualquer ideia sendo bem executada tem sua beleza e tudo que é eficaz tem maior probabilidade de êxito. Um jogo supostamente ofensivo e sempre com maior posse de bola não basta para ser considerado nem bonito e nem eficiente. Faça bem o que se propõe a fazer e se aproximará da vitória. Dá trabalho. É difícil. Por isso nem todos conseguem.

As glórias mais marcantes do futebol brasileiro foram obtidas com o talento individual do jogador, tendo como base sempre o jogo ofensivo. Entretanto isso não anula uma marcação elaborada e uma transição rápida em direção ao gol adversário. Até porque o jogo é uma ‘coisa’ só. Não cabe mais nos dias de jogo compartimentar uma equipe em defesa, meio de campo e ataque.

A bipolarização entre jogar bonito e jogar para vencer trata-se de uma distorção colossal. Ter uma ideia clara e executá-la com excelência tem sua estética. E isso conduz ao resultado. Não é, nunca foi e nunca será excludente.

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O futuro do sócio-torcedor e os impactos financeiros causados aos clubes em tempos de pandemia

O que já se sabe é que estamos vivendo um ano atípico, onde todo o mundo se volta para a sobrevivência, o comprometimento momentâneo, e aos detalhes que por diversas vezes passaram por ali despercebidos, passamos a valorizar ainda mais outro. E, após oito meses, tivemos que nos reinventar e readequar nossos costumes e hábitos.

Assim também acontece no meio do futebol. Os clubes brasileiros, em sua grande maioria, dependem de programas como o sócio-torcedor e da receita das bilheterias dos jogos como pilares sólidos de suas finanças. Em um estudo realizado pela empresa de consultoria Ernst & Young no ano de 2019, concluiu-se que 16% de toda receita que circula no futebol tem como origem uma dessas duas fontes.

Especificamente no ano de 2019, os clubes auferiram cerca de 20% de receita com bilheteria e programas exclusivos de sócio maiores que o ano de 2018, configurando uma crescente considerável ao ano anterior.

E assim, trilhava o cenário positivo e ascendente para o ano de 2020, até que o mundo virou de pernas para o ar. O futebol foi suspenso por um período considerável, e os clubes passaram por perdas financeiras significativas, praticamente desconsiderando as receitas com bilheteria. O cenário de evolução da pandemia promete jogos sem públicos ou com capacidade reduzida pelo menos até o final da temporada, e a consequência direta é a tendência de inadimplência ou cancelamento dos programas de sócios torcedores, afetando também os cofres das agremiações.

Existem, porém, algumas maneiras de se atenuar o impacto e a queda das receitas dos programas de sócio-torcedor com ações que deveriam ser implementadas antes mesmo da crise, mas que ainda estão em tempo de serem retomadas.

Primeira etapa, os clubes precisam entender o impacto que a diminuição das receitas com programas de sócio e bilheteria irá gerar em seus caixas – lembrando que os clubes praticamente não terão receitas com bilheteria pelo menos durante o ano de 2020. A segunda etapa consiste em conhecer os mecanismos e as vantagens que cada plano oferece ao seu torcedor para que ele continue adimplente, visto que a crise também afetou financeiramente os torcedores e, além disso, entender o que o plano poderá oferecer àqueles que ainda não são afiliados e contratem o plano em meio a pandemia.

Em outras palavras, os planos de sócios-torcedores que quiserem ter sucesso e cumprirem suas funções de manter um fluxo de caixa precisam tratar o jogo em si como mais um “detalhe”.

Hoje no Brasil, alguns clubes oferecem planos com vantagens exclusivas e até chance de se candidatar à presidência do clube. Porém, em sua grande maioria, os clubes oferecem apenas o acesso às partidas, o que provavelmente não ocorrerá em um futuro próximo, uma vez que no atual cenário não se sabe ao certo quando os portões estarão inteiramente abertos para o espetáculo.

Para a fidelização do torcedor deve ser oferecido muito mais do que se tem visto em sua grande maioria dos clubes, podemos citar alguns exemplos, como programas exclusivos de vantagens, acumulo de pontos, conteúdo exclusivo para sócios, experiencias e viagens futuras, descontos e anistias, dentre outros.

O programa “Avanti” do Palmeiras concede aos seus torcedores até 20% de desconto em redes de grandes drogarias e em mensalidades de Universidades. Já o programa de sócio do Internacional focou em descontos em serviços bastante conhecidos de streaming de músicas, filmes e séries, mas esses são exemplos de um primeiro passo a ser dado. Um segundo passo, mais ousado, costuma ser bem mais efetivo: permitir ao sócio-torcedor o direito de participar da vida política do clube, concedendo o direito ao voto e até mesmo de ser votado nas eleições para o conselho deliberativo e/ou presidência. Estudos afirmam que os planos que permitem a participação gerencial do clube tendem a ter quedas menos acentuadas.

Este é o exemplo seguido pelo Bahia: no primeiro ano de adesão ao programa de sócio você adquire o direito de voto como associado e no segundo ano poderá se candidatar ao conselho ou até mesmo a presidência do clube. Com essa e outras ações, o clube do nordeste vem se mantendo com uma média de 30 mil sócios adimplentes por mês, a despeito da pandemia.

Por outro lado, os sulistas, que têm um dos planos mais antigos e robustos do mercado, veem inclusive um certo crescimento na sua base, que gira em torno de 120 mil associados, mesmo na pandemia. É evidente que não é apenas o direito de participar da vida do clube que vem garantindo a consistência dos dois programas. Nos dois casos, há inúmeros ações fazendo a sustentação. Mas, certamente, perder a chance de ter “voz” na administração pesa na hora de se abandonar o pagamento do “carnê” no final do mês.

Avaliando os discursos e mecanismos dos clubes, torna-se cada vez mais claro que manter os benefícios do programa limitados apenas a entrada nos jogos dá pouca consistência a algo que se mostra cada vez mais vital na sobrevivência das agremiações.

Mas também é fácil concluir que são os jogos que fazem com que o torcedor decida desembolsar uma quantia que muitas vezes lhe faz falta para se associar. Por mais que vantagens, experiências, voto e voz tenham apelo, se a bola não rolar, não haverá estratégia milagrosa para assegurar a manutenção dos caixas por muito tempo.

O que não quer dizer que a “lição de casa” não precise ser feita, e que as medidas de segurança não devam ser observadas.

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Futebol e cultura – potências nacionais que podem abrir portas para o Brasil

A genial ação de marketing do Burger King, que envolveu uma equipe da 4ª divisão inglesa masculina, o Stevenage FC, videogame – FIFA – e a distribuição promocional de produtos da rede de fast-food, tomou a internet na última semana, quando foi divulgada de maneira oficial nas redes sociais do clube. Oferecendo prêmios aos jogadores virtuais que escolhessem o Stevenage como equipe no jogo, o Burger King, atingiu resultados impressionantes desde o início da campanha como os mais de 25 mil gols do clube inglês feitos pelos jogadores virtuais e compartilhados nas redes sociais, obviamente com o logo da companhia estampado na camiseta da equipe. A equipe inglesa passou a ser a mais escolhida do modo carreira do jogo e pela primeira vez na história do clube o estoque de camisas foi esgotado.

Abaixo você pode conferir o vídeo de divulgação dos resultados da campanha compartilhado nas redes sociais do Stevenage (o material está em inglês).

É possível que você não tenha notado, mas além de Neymar, temos outra presença brasileira no vídeo que é o funk. A trilha sonora do material de divulgação traz referências claras ao ritmo brasileiro, muitas vezes desvalorizado e até perseguido em sua terra natal.

Assim como o futebol, que é, provavelmente, o maior símbolo da identidade brasileira ao redor do mundo, a música, e a cultura de maneira geral, também tem um grande potencial para aproximar o país do público global. Esse poder de atração que a cultura e o futebol podem exercer no âmbito global está relacionado ao conceito conhecido nas relações internacionais como soft power. O soft power, ou poder suave, de um país consiste na capacidade daquela nação de abrir portas e atingir seus objetivos por meio da persuasão, evitando o uso da violência ou ameaça militar e até mesmo econômica. Vale aqui mencionar o livro “Clube empresa: abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol” que se aprofunda em exemplos atuais de como o futebol vem sendo utilizado como instrumento de soft power por diferentes países.

Apenas pela definição do que é o soft power talvez não fique tão claro como ele funciona na prática, um exemplo que pode ajudar a ilustrar essa dinâmica é o da Coreia do Sul e o grande investimento feito pelo país em seu setor cultural. No final da década de 90, o governo coreano, que buscava alternativas para ajudar o país a sair da crise econômica que atingia a região, decidiu investir em sua indústria criativa. Foi a partir desse movimento que o K-Pop, estilo que conquistou o mundo nos últimos anos, ganhou espaço e investimento, ganhando até um departamento próprio dentro do Ministério da Cultura do país. No longo prazo, o investimento e a valorização da música e dos artistas locais trouxe como fruto o reconhecimento internacional, e os milhões de fãs do gênero e de seus grupos musicais que vem ajudando a aquecer a economia local. O interesse pela música e suas bandas tem feito aumentar o interesse e até a simpatia pelo país, 1 a cada 13 turistas citou o BTS, o principal grupo musical do estilo como motivo de escolher visitar a Coreia do Sul, de acordo com o Instituto Hyundai. O turismo total no país triplicou em um período de 15 anos.

A admiração que ultrapassou as fronteiras do território nacional também ajuda a quebrar barreiras tidas normalmente como intransponíveis como na relação das Coreias do Sul e do Norte. Em 2018, um acordo entre os dois países permitiu que shows do gênero fossem realizadas na Coreia do Norte. Também em 2018, o BTS foi convidado para discursar na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas – ONU – durante o lançamento de um projeto que visa aumentar o investimento na melhoria de vida de crianças e jovens em todo o mundo.

O impacto econômico do fenômeno do K-Pop também é relevante para o país. Em 2018, a indústria musical local cresceu 17,9%, apenas o gênero rende mais de US$ 4,7 bilhões ao ano. Para efeito de comparação, todo o futebol brasileiro movimentou R$ 52,9 bilhões – ou US$ 13,56 bilhões considerando a cotação da época no fim de 2018, que era de cerca de R$ 3,90.

As portas que a Coreia do Sul vem abrindo por meio do investimento na cultura, com o K-Pop e também com outras manifestações como o cinema, cabe lembrar o filme “Parasita” que venceu o Oscar de melhor filme em 2019, costumam ser abertas pelo Brasil e pelos brasileiros com uma tal camisa amarela acompanhada de 5 estrelas bordadas e um número 10 nas costas. Não faltam relatos de viajantes brasileiros sobre como, quando a coisa aperta, mencionar o país de origem e o futebol pode salvar de enrascadas. Mas será que não poderíamos fazer mais? Quantas pessoas visitam o Brasil por conta da nossa música? E para conhecer algum clube? O Museu do Futebol ou da Seleção Brasileira? O Maracanã?

Grandes jogadores e jogadoras brasileiros costumam, além de desfilar um talento único pelos gramados do mundo, fazer boas tabelas com a música e cultura nacional. O último movimento de destaque foi o de Neymar e sua “JBL” nas finais da Champions League, já em 2011, a comemoração de Marcelo e Cristiano Ronaldo ajudaram a fazer bombar o hit “Ai se eu te pego” que rodou o mundo na época. Voltando para os videogames a cantora Anitta, que já há algum tempo se movimenta para conquistar o mercado internacional, ganhou espaço de destaque na mais nova versão do FIFA, sendo uma das estrelas do show de lançamento do jogo. Além disso, Anitta terá música e uniforme especial dedicado à ela dentro do jogo.

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Neymar e sua JBL nas finais da Champions League, “o pai tava on” e o Brasil e mundo foram de carona. Crédito: redes sociais/UEFA

O carisma e irreverência brasileiros conquistam o mundo sem muita força. Com ações estratégicas e a valorização do futebol e da música, assim como como K-Pop e o cinema na Coreia, esse carisma natural tem tudo para alçar voos ainda mais altos e duradoros.

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Aprendizados da “Rua Pernambuco”

Este texto se propõe contar algumas histórias vividas na rua Pernambuco, em uma cidade do litoral do Rio Grande do Sul, na década de 1990. Eu era a primeira filha de um casal recém-chegado ao local, assim como outras pessoas que foram até essa cidade em razão da urbanização e ocupação do território, durante os anos 1980. A rua era de paralelepípedos e havia alguns terrenos baldios ao redor das casas onde eu e meus vizinhos morávamos, meu irmão dois anos mais novo participava das brincadeiras, mas não gostava dos jogos de futebol. Assim, eu cresci rodeada de meninos, com a liberdade de brincar durante as tardes com eles, na rua Pernambuco e arredores.

Olhando para trás percebo o quanto aquela experiência foi importante para minha formação, como pessoa e como jogadora de futebol (não cheguei ao estágio profissional, mas pratiquei e pratico até hoje). Jogar com os meninos sempre foi desafiador, tínhamos quase a mesma idade, mas algumas questões físicas e de experiência mesmo acabavam pesando. Mas sempre nos acertávamos nas regras e nas trocas de aprendizados: por que eu sempre caía quando eles me acertavam com o famoso “carrinho”, e quando eu tentava a artimanha, eles facilmente escapavam? O jogo corria no pátio dos fundos de casa, era uma tarde cinza de inverno, até que eu perguntei qual era o segredo, a resposta veio entre risos: tu precisa levantar um pouco a perna, para o adversário não conseguir pular ou desviar. Pronto! Agora já sei, todos sabíamos.

O primeiro “campinho” foi no terreno bem em frente à minha casa, não lembro com precisão, mas algum adulto nos ajudou a construir a goleira, tinha rede e marcação da área. A parede atrás da goleira era de uma casa de pessoas conhecidas, “veranistas” que raramente apareciam no inverno, mas sabíamos que poderíamos ter problemas com as “boladas” na parede. Quantos jogos de 3 dentro, 3 fora disputamos lá! Era cada “bomba” na parede! Ela segue em pé até hoje.

Não lembro a razão, mas nosso “campinho” precisou ser transferido, acho que os “veranistas” não estavam gostando da bola pegando na parede deles, nem quando subíamos no telhado para recuperá-la. Onde seria o nosso novo espaço sagrado? Jogamos pelos pátios por um tempo (naquela época as casas não contavam com grades nem muros altos, bons tempos!) e, em seguida, encontramos o lugar ideal. Ficava mais adiante da minha casa, um espaço um tanto mais baixo que a rua, uns 30 ou 40 metros de largura, fazendo divisa com casas atrás das duas goleiras. Minha lembrança não ajuda muito, o que ficou nítido é que, quando tínhamos tempos de chuva, o jogo na lama era pura diversão, depois a gente via como limpar as roupas, a alegria e a parceria eram garantidas. Algumas pessoas mais velhas, tios, primos, amigos(as) apareciam para jogar e algumas vezes tivemos boas disputas no nosso campinho.

Eu estudava pela manhã, então às tardes podia brincar com os meninos, jogar bola, óbvio. As vezes jogávamos com a minha bola, outras vezes, com a bola do vizinho da frente. Alguém batia palmas lá na frente de casa e íamos convidando uns aos outros no caminho até o campo. Jogávamos gol a gol, driblezinho, bobinho, goleirinha de chinelo. Tudo era motivo de aprendizado, para todos um momento importante e aguardado do dia. Quando tinha alguém de castigo era uma tristeza, por que o fulano não ia brincar?

As lembranças são de um tempo divertido, de aventuras, de descobertas. Certo dia um deles comentou que começaria a jogar em uma escolinha, que máximo! O que seria isso? pensei. Ele era muito bom de bola mesmo, ia ser profissional. O pai dele e meu tio jogavam no campo da associação do bairro, meu pai e eu sempre íamos assistir. Ficava na grade observando os lances, comentando com meu pai, perguntando, ouvindo o que falavam. Como o mundo era legal!

Teve um tempo em que formamos um time de verdade. E nos sábados éramos desafiados ou desafiávamos times de outros bairros. Os jogos aconteciam nas praças que tinham campos bem grandes, com goleiras, as marcações eram definidas minutos antes do jogo: a calçada é o limite da lateral, vamos cravar essa estaca para marcar o escanteio e a linha de fundo. E assim seguia o jogo. Algumas famílias sempre acompanhavam, meu pai sempre estava junto, entusiasta do esporte (mesmo não jogando).

Não saberia dizer qual e quando foi nossa despedida dos campos da rua Pernambuco, aos poucos os temas da escola ficaram mais intensos, as demandas para ajudar em casa começaram a aparecer, os tempos de festinhas e as mudanças de interesses. O jogo acompanhou e acompanha minha vida, comecei na rua de casa, depois na escola, na “escolinha”, depois no time da empresa, e, por último, no grupo de amigas. Naquela época parece que nenhum de nós sabia dos preconceitos, e não saber que esse esporte era “proibido” às meninas me ajudou a ultrapassar as barreiras que hoje enxergo, assim como o apoio da família.

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Sobre os leitores e leitoras do bom futebol

Vocês sabem que eu estava lendo, outro dia, um pedaço de um desses livros que usei como referência na minha pesquisa de mestrado. Chama-se ‘Nietzsche & a Educação’, escrito por este brilhante filósofo que é o Jorge Larrosa – que já citei algumas vezes aqui. Num certo momento, analisando uma das passagens escritas pelo Nietzsche, Larrosa faz uma observação muito interessante, que gostaria de trabalhar com vocês. Diz ele o seguinte:

“É a vida em sua totalidade, e não só a inteligência, a que interpreta, a que lê. Mais ainda, viver é interpretar, dar um sentido ao mundo e atuar em função desse sentido. Por isso a incapacidade para ler um livro não implica tanto a falta de ‘preparação’ do leitor como a falta de uma comunidade de experiências com o livro que, em última instância, remete a uma diferença vital e tipológica. Ser ‘surdo’ a uma obra, mesmo que a tendo ‘compreendido’, supõe ter outra disposição diferente daquela que a obra expressa. Quando um livro expressa em uma linguagem inédita experiência muito pouco comuns, ou radicalmente novas, e um tipo vital fora do comum, quase ninguém poderá lê-lo.”

No ano passado, escrevi neste mesmo espaço um texto apresentando um pouco do que entendo como o jogador inteligente. Basicamente, usei a origem da palavra para defender que o jogador inteligente é aquele capaz de ler nas entrelinhas. Ou seja, enquanto os outros só conseguem enxergar o literal, o jogador inteligente enxerga além, enxerga entre, lê o que os outros não leem. Não sei se fica tão claro assim, mas podemos tirar pelo menos duas coisas daqui: a primeira é que o texto que se apresenta ao jogador inteligente é o mesmo texto que se apresenta aos outros – portanto, a diferença não está no ‘texto’ em si, mas na ‘leitura’ que se faz dele. A segunda é que isso não vale apenas para o jogador, vale também para treinadores, assistentes, analistas, fisiologistas, preparadores físicos, gestores e etc. A inteligência, enquanto capacidade de ler e de tentar compreender as entrelinhas, cabe a todos nós.

Mas repare que quando nos dispomos a assistir a um jogo de futebol, ou mesmo assistir às nossas sessões de treino, ou de outros colegas, quando nos dispomos a analisá-las e a interpretá-las, a inteligência em si não basta. O motivo por que citei aquela passagem do Larrosa é para questionar a nossa leitura do futebol, ou de qualquer outra modalidade, acontece de corpo inteiro ou não. Será que os olhos são suficientes para assistir ou analisar bem um jogo de futebol? A meu ver, não. É preciso ir além e refinar todos os sentidos, para uma educação capaz de ouvir ao jogo – para que não sejamos surdos a ele, de tocar o jogo – para que ele também nos toque, de sentir o aroma do jogo – para que saibamos reconhecer uma equipe pelo perfume, ou mesmo uma educação capaz de saborear o jogo – pois a palavra sabor, não se esqueça disso, tem a mesma origem da palavra saber. A visão, embora seja um sentido privilegiado, não basta. A inteligência também não.

Só que vocês haverão de convir comigo que nada disso é ensinado por aí, essas coisas não aparecem nos cursos de formação – pois há quem diga que não é ‘prático’. Afinal, acreditamos que o que nos faz melhores é a quantidade de conhecimento que acumularmos. Bom, isso não é um problema em si, mas basicamente significa que podemos cair facilmente no mesmo problema apresentado pelo Larrosa acima, ou seja, da ‘falta de preparação do leitor’. Porque quando nos dispomos a ler um determinado jogo, ou uma determinada metodologia, ou uma determinada sessão de treino, ou um determinado atleta, quando nos dispomos a ler a nós mesmos em relação com o mundo, não é preciso que nos defendamos – ou que nos escondamos – atrás da preparação, ou da suposta falta de preparação, ou dos saberes, ou da suposta falta de saberes, não é preciso – nem é inteligente – nos restringirmos com barreiras tão pequenas: podemos muito bem nos apoiar na comunidade de experiências que fazemos com o jogo, ou com o método, ou com o treino, ou com o atleta – e isso se faz de corpo inteiro. As coisas que precisamos saber não estão nas coisas em si, mas na qualidade das relações que estabelecemos com elas, no sentido que damos a elas, por isso cada saber é único, particular, não se repete. Não por acaso, aplicamos muitas vezes um mesmo conteúdo, de maneiras diferentes, no processo de treino: porque uma vivência apenas não basta, e quanto mais vezes voltarmos aquele conteúdo, provavelmente melhor e mais refinada será a relação que nós mesmos e os atletas estabelecemos com ele.

Para ser um bom leitor ou uma boa leitora de futebol, é preciso ler de corpo inteiro, não apenas com os olhos. E é justamente assim, lendo pela audição, pelo olfato, pelo tato, pelo paladar, lendo de corpo inteiro, que refinamos a nossa capacidade de dar sentido às coisas. Como diz o texto que citei no início: viver é interpretar. Eu realmente admiro a importância das avaliações mais objetivas e as colaborações das ciências mais duras em modalidades como o futebol, mas gostaria de pedir sinceramente a vocês que não confundam a razoabilidade dos saberes objetivos com uma completa negação da subjetividade, como ser sujeito fosse um problema e ser objeto, uma solução . Porque o sentido que eu dou ao jogo, ao método, ao treino ou ao atleta, será apenas e tão somente meu, assim como o sentido dado por você será apenas seu, assim como o sentido dado por um terceiro será apenas dele e portanto ninguém além de mim pode dar sentido às coisas como eu, ninguém além de você pode dar sentido às coisas como você – e assim sucessivamente. E é justamente nessa coisa meio plural, meio complexa, nessa coisa meio transitória, nessas contradições, nessa impureza, nessas diferenças – é nesses desencontros que eu, você e todos os outros nos fazemos únicos, nos tornarmos melhores leitores, do jogo que se joga mas não apenas dele, nos tornamos mais inteligentes. Nessas diferenças que o nosso saber contrai, relaxa, fadiga, supercompensa. Se não existem verdades próprias do jogo – me lembro aqui do Dostoieviski, tudo é possível.

E se tudo é possível, é melhor ler – e criar – de corpo inteiro.