Por: Thiago Filla de Almeida
O futebol brasileiro sempre se orgulhou de formar bons jogadores para o mundo.
Mas talvez tenha chegado a hora de fazer uma pergunta mais incômoda:
QUEM ESTÁ CUIDANDO DA INFÂNCIA DENTRO DO FUTEBOL?
Nas últimas décadas, o mundo avançou na forma de compreender a iniciação esportiva. Organizações como a FIFA e a UEFA já consolidaram um princípio simples, mas profundo: antes de formar jogadores, é preciso formar pessoas.
Isso não é discurso. É estrutura.
Em países como a Inglaterra e a Alemanha a criança joga perto de casa, mantém vínculo com a escola, convive com a família e cresce em um ambiente que respeita o seu tempo. O clube não sequestra a infância, ele participa dela.
No Brasil, muitas vezes, acontece o contrário.
Antecipamos processos, aceleramos decisões e colocamos sobre crianças responsabilidades que não são delas. Meninos de 10, 11 anos saem de suas cidades, rompem vínculos afetivos e passam a viver em função de um sonho que, na maioria dos casos, não se concretiza.
E quando não se concretiza, o que sobra?
Essa reflexão não é contra o futebol.
É a favor da criança.
Uma proposta necessária
Se queremos que o futebol continue sendo um espaço de desenvolvimento e não de exclusão precoce, precisamos reorganizar a forma como tratamos a iniciação.
Alguns caminhos são urgentes.
QUEM VAI FALAR DA INICIAÇÂO ESPORTIVA DO FUTEBOL?
Primeiro: APROXIMAR A CRIANÇA DO JOGO, E NÃO AFASTÁ-LO DA SUA VIDA.
A “captação” precisa respeitar o território. Até os 13 anos, o futebol deve acontecer próximo da casa, da escola, da família. Não faz sentido que uma criança precise mudar de estado para continuar jogando. Oportunidade não pode significar ruptura.
Mais do que isso, é preciso valorizar o vínculo cultural e a identificação com o clube. O sentimento de pertencimento não é detalhe é base para qualquer processo formativo consistente. Clubes como o Athletic Club Bilbao mostram que identidade e formação caminham juntas.
Segundo: O JOGO PRECISA CABER NA CRIANÇA.
Campos menores, menos jogadores, mais contato com a bola, mais participação. Não é simplificar o futebol é torná-lo compreensível para quem está começando.
A própria FIFA já aponta o caminho ao incentivar jogos reduzidos nas idades iniciais.
A lógica é clara: quanto mais a criança participa, mais ela aprende.
Terceiro: COMPETIR NÃO PODE SIGNIFICAR EXCLUIR.
A competição, na iniciação, precisa ser espaço de experiência. Menos tabelas, menos rankings, mais festivais, mais jogos, mais vivências.
Na Confederação Alemã de Futebol, por exemplo, crianças participam de encontros sem classificação formal. Jogam, aprendem, convivem. E continuam jogando.
Quarto: O AMBIENTE FORMA MAIS DO QUE O TREINO.
Treinadores, pais, dirigentes. O comportamento dos adultos define o clima do processo. Por isso, é fundamental educar quem está ao redor da criança.
Ambientes seguros, acolhedores e respeitosos não são um diferencial. São uma obrigação.
Quinto: DIVERSIFICAR PARA DESENVOLVER.
Antes de especializar, é preciso experimentar. Incentivar a prática multi-esporte, valorizar o brincar, permitir que a criança viva diferentes experiências corporais e sociais.
O desenvolvimento não acontece na repetição precoce, acontece na diversidade até de experiências.
O olhar é para além do que formar somente “jogadores”, regulamentar a iniciação esportiva não é limitar o futebol é proteger aquilo que o torna possível. Criança precisa de tempo, precisa de espaço, precisa de gente por perto, precisa jogar, mas também precisa voltar para casa, encontrar os amigos, viver a escola, construir memórias que vão muito além do resultado de um jogo.
No fim, o maior erro não é deixar de formar um jogador. O maior erro é permitir que, no caminho, a criança deixe de ser criança. O futebol brasileiro sempre foi referência por aquilo que constrói dentro de campo, mas talvez tenha chegado a hora de se tornar referência também pelo cuidado com quem joga. Isso exige mudar o olhar: deixar de lado a pressa pelo tamanho e pela força e passar a valorizar o que realmente sustenta o jogo, a capacidade de entender, decidir, se relacionar, criar e participar. Porque, na iniciação, não estamos falando apenas de rendimento futuro, mas de experiências que ficam. E, quando o ambiente é mais justo e mais humano, o futebol também passa a abrir espaço para aqueles que talvez nunca teriam oportunidade. É olhar para dentro, entendendo quem joga; olhar para perto, cuidando do ambiente; e olhar para longe, respeitando o tempo de cada um. E, assim, o futebol deixa de ser apenas um caminho esportivo e passa a ser, de fato, um aprendizado para a VIDA.
Referencias:
– Alcides Scaglia
– Danilo Augusto Ribeiro
– João Batista Freire
– Wilton Carlos de Santana

Thiago Filla de Almeida é Profissional de Educação Física especializado em metodologia de base, com experiência na coordenação da iniciação esportiva do Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua no Relacionamento Institucional do Instituto Futebol de Rua, onde trabalha para ampliar o impacto do esporte como ferramenta de transformação social, conectando projetos e parcerias em todo o Brasil.
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