um ambiente possivel para a infancia
Por: Thiago Filla de Almeida e Danilo Augusto Ribeiro
Temos pensado muito sobre o lugar que a criança ocupa dentro do esporte. Quanto mais tempo passamos nesse ambiente, mais nos convencemos de que precisamos fazer algumas perguntas que parecem simples, mas que talvez tenhamos deixado de fazer: para quem estamos fazendo esporte? Quem é a criança que está na prática esportiva? A criança que faz esporte hoje carregará quais valores para sua vida em sociedade?
Estas perguntas ganharam ainda mais sentido recentemente, quando um pai de uma categoria menor (de sub 6 a 13) questiona sobre resultados. A pergunta, por si só, é legítima. Os pais têm o direito de conhecer o projeto, saber como seus filhos estão sendo cuidados, quais são os objetivos da equipe e como a competição faz parte daquele processo. Mas aquela conversa levou a reflexão sobre até onde vai o papel dos pais e onde começa a responsabilidade dos demais adultos envolvidos no desenvolvimento esportivo de uma criança. Como estamos lidando com as expectativas parentais? Como nós, enquanto profissionais responsáveis por conduzir o processo esportivo, estamos nos posicionando frente aos questionamentos?
Pais têm um papel fundamental. São, muitas vezes, a principal referência daquela criança. São quem leva, busca, acompanha, incentiva, consola e comemora. Mas justamente por serem tão importantes, precisamos ajudá-los a compreender que ser pai ou mãe no esporte não significa ser treinador, dirigente, árbitro ou avaliador do próprio filho. Talvez o papel mais importante seja estar presente para que a criança possa ganhar sem se sentir superior, perder sem se sentir fracassada, errar sem sentir que decepcionou e, principalmente, praticar esporte sabendo que continuará sendo amada independentemente do resultado. Estamos preparados e temos consciência dos impactos que nossa conduta pode causar nas crianças?
Temos observado famílias reorganizando suas vidas inteiras em função da prática esportiva dos filhos. Pais que dividem a família para levar um menino para treinar em outra cidade; filhos muitas vezes morando longe da família, com terceiros, em busca de uma carreira esportiva incerta; crianças com agendas tomadas por treinos, jogos, viagens, campeonatos e avaliações, acompanhadas de uma expectativa cada vez mais precoce: “vai que ele vira jogador”. A lei geral do esporte (2023) e o Fifa Guardians (2026) são documentos que esclarecerão diferentes pontos sobre estas questões.
Mas e se ele só quiser jogar?
Não há nada de errado em uma criança sonhar em ser atleta. O problema começa quando o sonho deixa de ser dela e passa a ser dos adultos. Quando cada treino vira avaliação, cada jogo vira julgamento e cada resultado passa a ser uma medida do seu valor. O esporte, que deveria ampliar suas experiências, começa a ocupar toda a infância.
Também precisamos olhar para a agenda dessa criança. Ela realmente precisa de mais um treino? De personal? De academia? De atendimento individualizado? Precisa ocupar todos os espaços possíveis para não ficar “para trás”? Ou precisa de tempo para brincar, descansar, estar com a família, conviver com os amigos e simplesmente não fazer nada? Inúmeras pesquisas apontam diferentes fatores negativos quando se especializa precocemente uma criança. Para o professor Wilton Santana estamos num ponto de hiperespecialização precoce.
Fazer menos também pode fazer parte do processo de formação
Quando procuramos um engenheiro para construir uma obra, confiamos que ele sabe quanto de ferro, cimento e estrutura são necessários para que ela permaneça de pé. Quando vamos ao médico ou ao dentista, confiamos em sua formação e em seu conhecimento para orientar aquilo que precisa ser feito. Por que, quando colocamos nossos filhos em um projeto esportivo, tantas vezes temos dificuldade em confiar no profissional que estudou para trabalhar com movimento, esporte, aprendizagem e desenvolvimento?
É claro que os pais devem perguntar, acompanhar e participar. Mas precisamos recuperar uma relação que parece estar se perdendo: a confiança no conhecimento de quem conduz o processo. Perguntas aos gestores esportivos: como está sua relação com os pais/responsáveis pelas crianças que estão frequentando o seu projeto de Futebol/Futsal? Você faz reunião no início do semestre para apresentar as diretrizes metodológicas? Você promove encontros para apresentar e discutir o calendário e/ou possíveis competições a participar? O seu processo de desenvolvimento contempla encontros individuais com os pais que estão interessados em saber sobre o desenvolvimento do filho?
Se um professor permite que uma criança brinque, precisamos perguntar, antes de concluir que ele não está treinando. Se uma equipe perde uma partida, precisamos perguntar, antes de concluir que o trabalho está errado. Nem toda decisão pedagógica precisa coincidir com aquilo que o adulto gostaria. Estamos permitindo em nosso ambiente (interno e externo) que criança seja ela mesma?
É nesse ponto que precisamos falar do direito de brincar. João Batista Freire, Alcides Scaglia, Wilton Carlos de Santana e Carlos Rogério Thiengo, a partir de diferentes contribuições, nos ajudam a compreender o jogo como espaço de aprendizagem, criatividade, decisão, experimentação e autonomia.
Defender o lúdico não significa defender uma prática sem intenção pedagógica. Pelo contrário. Exige conhecimento, planejamento e uma concepção clara de infância. Brincar não é o oposto de aprender. Para a criança, jogar é perceber, decidir, errar, tentar novamente, criar e encontrar soluções. A criança vive plenamente o brincar, sem perceber o mundo à sua volta. Apenas sente e vive.
Recentemente, um aluno de licenciatura que participou de uma aula que estava participando de um curso relatou que estava tentando construir um ambiente mais lúdico, mas não conseguia sustentar essa posição dentro do projeto em que trabalhava. Isso me fez pensar: quando um professor decide defender a infância, quem sustenta esse professor? Qual é o seu propósito? Quais as referências que o guiam nessa caminho de “múltiplos” treinadores de futebol/futsal de arquibancada?
Não precisamos ser contra a competição. A competição também educa. Ensina a lidar com a vitória, a derrota, a frustração, as regras e as adversidades. Perder um jogo não é um erro pedagógico. O problema aparece quando a competição deixa de ser parte da experiência esportiva e passa a ser a finalidade da infância.
E precisamos falar sobre o erro. O jogador erra. O professor erra. O árbitro erra. Todos nós erramos. Como queremos formar jogadores criativos se não permitimos que experimentem? Como queremos ensinar autonomia se controlamos todas as decisões? E como queremos que uma criança aprenda a lidar com a frustração se os adultos não conseguem lidar com a frustração de vê-la errar? O ambiente criado pelo professor e pelo entorno esportivo deve encontrar as vontades da criança, e não afastá-las.
O recente episódio ocorrido em Santa Catarina, no qual um pai fez disparos contra o carro de árbitros, após discordar de uma decisão em uma partida de futsal infantil, nos obriga a parar. Não para transformar aquele caso em espetáculo, mas para perguntar: o que mais precisa acontecer para que decidamos agir? No carro dos árbitros poderiam estar seus filhos, também de 10 anos.
A violência extrema talvez seja a face mais visível de algo que começa muito antes: no grito, na humilhação, na desqualificação do árbitro, na cobrança excessiva e na ideia de que uma criança precisa vencer para justificar o investimento dos adultos.
Por isso, esse manifesto é principalmente aos pais.
Sejam apenas pais!
Perguntem ao filho se gostou do treino. Perguntem o que aprendeu. Perguntem se está feliz. Ou não perguntem nada, deixem que eles falem, se quiserem falar, e qualquer outra coisa. Estejam presentes quando ganhar e, mas também quando perder. Não transformem o caminho para casa depois de um jogo em um outro jogo. Não comparem seu filho com outra criança. Não preencham toda a agenda porque outro menino está fazendo mais. Conheçam o projeto, conversem com o professor e confiem no processo.
Seu filho não precisa que Você, seja também o treinador.
Ele precisa que você seja seu pai.
Não precisa que você explique cada erro depois do jogo. Precisa saber que pode contar com você depois dele. Não precisa que você resolva todas as suas dificuldades. Precisa aprender a enfrentá-las. Não precisa ganhar para fazer você feliz. Precisa saber que continuará sendo motivo de orgulho mesmo quando perder. Seja um bom ouvinte.
Aos professores, cabe defender o brincar com conhecimento e coragem. Aos gestores, construir uma cultura em que formação não seja apenas sinônimo de resultado. Às federações e organizadores, pensar competições que respeitem as diferentes etapas da infância. À arbitragem, compreender que, em uma quadra de crianças, o erro também faz parte do processo educativo. De punitiva já basta uma sociedade contraditória, quando não, hipócrita. A arbitragem deverá ser sempre educativa.
Todos somos agentes socializadores. Todos educamos pelas nossas atitudes.
Talvez seja hora de mudarmos algumas perguntas. Em vez de perguntar apenas “quem ganhou?”, perguntar “o que essa experiência produziu naquela criança?”. Em vez de perguntar “ele joga bem?”, perguntar se “ele continua gostando de jogar?”. Em vez de perguntar “ele tem futuro?”, perguntar se “está vivendo bem o presente?”. E, antes de perguntarmos que atleta queremos formar, perguntar que criança estamos ajudando a formar?
É por isso que defendemos uma ideia que consideramos cada vez mais necessária:
O TERRITÓRIO DA CRIANÇA.
Uma criança que possa brincar, experimentar, competir, errar, aprender, descansar, criar, conviver e sonhar. Que possa querer ser atleta, mas que não precise deixar de ser criança para tentar chegar lá.
O esporte pode ser um lugar de excelência sem deixar de ser um lugar de infância. Pode ensinar disciplina sem produzir medo, competição sem transformar adversários em inimigos e formar atletas sem deixar de formar pessoas.
Não permitamos que a pressa dos adultos roube o tempo da infância.
Porque a criança não precisa de uma infância mais produtiva.
Precisa de uma infância mais plena.
E talvez a pergunta que devêssemos levar para dentro dos clubes, associações, federações, escolas, universidades e arquibancadas seja:
O que mais precisa acontecer para que nós, adultos, decidamos finalmente respeitar a infância?
Referências
FREIRE, João Batista. Pedagogia do Futebol.
SCAGLIA, Alcides José. Pedagogia do Jogo.
SANTANA, Wilton Carlos de. Pedagogia do Futsal: jogar para aprender.
THIENGO, Carlos Rogério. Estudos sobre formação e currículo no futebol.
RIBEIRO, Danilo Augusto. Estudos relacionados à pedagogia, formação e esporte.

Thiago Filla de Almeida é Profissional de Educação Física especializado em metodologia de base, com experiência na coordenação da iniciação esportiva do Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua no Relacionamento Institucional do Instituto Futebol de Rua, onde trabalha para ampliar o impacto do esporte como ferramenta de transformação social, conectando projetos e parcerias em todo o Brasil.
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Danillo Augusto Ribeiro é Profissional de Educação Física com mais de 15 anos de experiência no ensino-treino de Futsal para crianças e jovens. Foi professor universitário na Universidade Norte do Paraná e coordenador técnico-metodológico da iniciação esportiva no Club Athletico Paranaense e no Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua como Analista Esportivo no Instituto Futebol de Rua, além de prestar consultoria em estruturação e reestruturação de processos em clubes, escolas e associações de futebol e futsal.
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