Por: Fernando Martilis
O futebol brasileiro consolidou-se historicamente como referência mundial na produção de talentos, sobretudo pela qualidade técnica de seus atletas. Entretanto, as transformações do futebol contemporâneo ampliaram significativamente as exigências relacionadas à formação. Além dos componentes técnicos e físicos, o jogo demanda cada vez mais inteligência tática, capacidade de leitura, tomada de decisão, disciplina, autonomia e competências cognitivas, emocionais e sociais.
Esses aspectos relacionados ao comportamento do atleta em campo estão também associados ao seu processo de desenvolvimento fora dele. Nesse sentido, defende-se uma perspectiva de formação integral, compreendida como o desenvolvimento do jovem não apenas em suas capacidades técnicas e físicas, mas também em seus aspectos cognitivos, emocionais, sociais e educacionais.
A efetivação dessa perspectiva ainda encontra importantes obstáculos no contexto brasileiro. O modelo de formação permanece atravessado por concepções historicamente consolidadas que, embora naturalizadas no cotidiano do futebol, precisam ser problematizadas diante das transformações contemporâneas do esporte.
Nesse contexto, três perspectivas recorrentes são discutidas como problemáticas: a associação entre vulnerabilidade social e maior predisposição ao sucesso esportivo; a concepção da educação formal como plano secundário na trajetória do atleta; e a valorização dos resultados imediatos nas categorias de base em detrimento dos processos formativos de longo prazo.
1. A vulnerabilidade social como suposta vantagem para o sucesso
Uma ideia historicamente presente no imaginário do futebol brasileiro associa pobreza, dificuldade econômica e vulnerabilidade social a maior motivação para alcançar o sucesso esportivo. Nessa perspectiva, o atleta oriundo de contextos mais vulneráveis possuiria maior “fome de vencer”, enquanto jovens provenientes de famílias com melhores condições socioeconômicas teriam menos disposição para enfrentar as dificuldades inerentes à formação.
Essa interpretação desloca condições sociais estruturais — como desigualdade, pobreza e ausência de direitos — para o núcleo de características individuais relacionadas à motivação, determinação e capacidade esportiva.
Há, nessa concepção, uma primeira contradição: condições como boa educação, estrutura familiar, alimentação adequada, moradia e perspectivas profissionais para além do futebol correspondem a direitos que deveriam ser assegurados a todas as crianças e adolescentes. A vulnerabilidade não deveria, portanto, ser compreendida como atributo positivo ou condição necessária para a produção de grandes atletas.
A associação entre pobreza e sucesso esportivo também produz uma segunda fragilidade. Quando a principal motivação construída durante o processo formativo é a transformação da realidade financeira familiar, o próprio sucesso profissional pode retirar do atleta aquilo que funcionava como principal elemento motivador.
Ao alcançar a profissionalização e melhorar as condições socioeconômicas de sua família, o jovem necessita de novos objetivos capazes de orientar sua trajetória. Caso dimensões como educação, autonomia, projeto de vida, gestão da carreira e desenvolvimento emocional tenham sido negligenciadas, o atleta pode encontrar dificuldades para ressignificar seus objetivos e sustentar uma carreira de alto rendimento.
A responsabilidade depositada sobre crianças e adolescentes também merece atenção. Em muitas famílias, a expectativa de profissionalização reorganiza projetos familiares inteiros, com mudanças de cidade, abandono de empregos e concentração de recursos na trajetória esportiva do jovem. O atleta passa, assim, a carregar precocemente a responsabilidade de transformar as condições econômicas de sua família.
O futebol possui inegável potencial de mobilidade social, especialmente em comunidades e territórios vulneráveis. O problema surge quando a vulnerabilidade deixa de ser uma condição que precisa ser enfrentada e passa a ser interpretada como vantagem competitiva ou combustível necessário à formação.
2. A educação como “plano B”
Outra perspectiva recorrente consiste em compreender a educação formal como alternativa para o caso de fracasso na carreira esportiva. Nessa lógica, estudar seria importante principalmente porque a maioria dos jovens das categorias de base não chegará ao futebol profissional.
Embora aparentemente valorize a educação, essa compreensão a posiciona de maneira secundária no processo formativo.
No cotidiano das categorias de base, a relação entre escola e futebol é frequentemente marcada por conflitos. Treinos, jogos e viagens competem com horários escolares, enquanto competições realizadas durante a semana podem provocar vários dias consecutivos de ausência. A expansão do Ensino Médio em Tempo Integral acrescenta novos desafios à compatibilização entre formação esportiva e escolar.
Além disso, o talento esportivo pode produzir diferentes níveis de tolerância institucional em relação ao desempenho acadêmico. Quanto maior a expectativa esportiva depositada sobre determinado atleta, maior pode ser a tendência de relativizar suas dificuldades educacionais.
Entretanto, as lacunas da formação escolar não afetam apenas aqueles que deixarão o futebol.
O futebol contemporâneo tornou-se progressivamente mais complexo. O desenvolvimento tático exige capacidade de interpretar espaços, compreender funções, antecipar comportamentos e tomar decisões rapidamente. Fora de campo, o atleta precisa lidar com alimentação, sono, contratos, recursos financeiros, comunicação, redes sociais, planejamento de carreira e, em muitos casos, adaptação a outras culturas e idiomas.
A excelência técnica isoladamente já não garante a capacidade de responder a todas essas exigências.
Nesse sentido, educação e formação esportiva não deveriam ser compreendidas como trajetórias concorrentes. A educação não constitui apenas uma preparação para uma eventual carreira fora do futebol, mas dimensão relevante para o próprio desenvolvimento do atleta de alto rendimento.
Experiências internacionais demonstram diferentes possibilidades de integração. Alemanha, Espanha e França desenvolveram modelos que, embora distintos, articulam em diferentes níveis formação esportiva, educação formal, desenvolvimento cognitivo e acompanhamento psicossocial. Na Alemanha, por exemplo, a reformulação realizada após os resultados insatisfatórios do início dos anos 2000 envolveu centros regionais de desenvolvimento e escolas de futebol de elite integradas à formação educacional.
Não se trata de reproduzir modelos estrangeiros de forma acrítica. A cultura futebolística brasileira possui características próprias e historicamente relevantes, como criatividade, improvisação e qualidade técnica. Entretanto, preservar essa identidade não significa permanecer preso a processos que já não respondem plenamente às exigências do futebol contemporâneo.
3. O resultado imediato como medida do sucesso da formação
A terceira perspectiva problemática refere-se à valorização excessiva dos resultados competitivos nas categorias de base.
A competição constitui parte importante da formação esportiva. O problema ocorre quando vencer campeonatos passa a orientar decisões que deveriam priorizar o desenvolvimento dos atletas no médio e longo prazo.
Nesse contexto, as categorias de base acabam reproduzindo algumas das pressões características do futebol profissional sem possuir necessariamente a mesma estrutura de suporte. A necessidade de resultados imediatos favorece substituições constantes de atletas, liberações, contratações de jogadores considerados mais prontos e redução do tempo disponível para adaptação e desenvolvimento.
Como não existem períodos específicos para admissão e liberação de atletas nas categorias de base, mudanças podem ocorrer em diferentes momentos da temporada. Para crianças e adolescentes, essas decisões podem significar retorno à cidade de origem, nova mudança de domicílio, interrupções escolares, ruptura de vínculos e posterior ingresso em outro clube.
Assim, processos institucionais aparentemente simples podem produzir impactos significativos na trajetória dos jovens.
A lógica do resultado também interfere nas transições entre categorias, sobretudo nas etapas próximas ao futebol profissional. Em vez de respeitar processos individuais de maturação e adaptação, clubes podem optar por atletas mais preparados para responder imediatamente às necessidades competitivas.
Entretanto, estabelecer processos capazes de preparar jogadores para chegar ao futebol profissional nas melhores condições possíveis deveria constituir o principal objetivo das categorias de base. Nessa perspectiva, a quantidade e a qualidade dos atletas desenvolvidos, sua capacidade de adaptação ao alto rendimento e a sustentabilidade de suas trajetórias são indicadores tão ou mais relevantes que a conquista de competições durante o processo formativo.
A transição para o profissional também exige atenção especial. O sucesso pode produzir mudanças abruptas na vida de um jovem: aumento expressivo de renda, exposição pública, crescimento nas redes sociais, assédio de diferentes agentes e novas responsabilidades. Um atleta que não tenha desenvolvido recursos emocionais, sociais, educacionais e comportamentais suficientes pode enfrentar dificuldades justamente no momento em que alcança aquilo para o qual foi esportivamente preparado.
Repensando o modelo de formação
As três perspectivas analisadas convergem para uma mesma questão: o modelo brasileiro ainda apresenta dificuldades para compreender a formação esportiva como processo multidimensional e de longo prazo.
A formação integral pressupõe oferecer condições para que crianças, adolescentes e jovens desenvolvam suas capacidades esportivas sem negligenciar dimensões educacionais, sociais, emocionais e familiares. Isso exige estruturas adequadas de moradia e alimentação, acompanhamento escolar, suporte médico, psicológico e social, educação financeira e cidadã, planejamento de carreira e fortalecimento dos vínculos familiares.
Também exige equipes multiprofissionais integradas à rotina das categorias de base. Assistentes sociais, psicólogos e pedagogos não devem atuar exclusivamente na resolução de situações emergenciais de natureza comportamental, disciplinar ou sociofamiliar. Sua participação deve alcançar o planejamento e as decisões estratégicas relacionadas ao processo formativo.
Em fevereiro de 2026, a Confederação Brasileira de Futebol instituiu, por meio da Portaria PRE nº 02/2026, um Grupo de Trabalho destinado a avaliar e propor melhorias no modelo de formação das categorias de base. Entre seus objetivos estão a reorganização de calendários e faixas etárias, integração entre desenvolvimento esportivo e educação, definição de critérios mínimos de infraestrutura e qualificação e construção de mecanismos de acompanhamento e proteção dos atletas.
A iniciativa demonstra que a necessidade de revisão do modelo já alcançou a agenda institucional do futebol brasileiro. Entretanto, mudanças efetivas demandam participação qualificada das diferentes áreas relacionadas à formação integral e capacidade de ultrapassar uma perspectiva centrada predominantemente nas dimensões esportiva e competitiva.
Nesse sentido, iniciativas locais também podem indicar possibilidades. No Estado do Ceará, encontra-se em desenvolvimento uma articulação entre o Ceará Sporting Club e a Secretaria da Educação do Estado para o reconhecimento da formação em futebol como formação técnico-profissional no âmbito do Ensino Médio. A proposta busca aproximar a formação esportiva da carga horária escolar, facilitando a compatibilização com o ensino em tempo integral e ampliando as responsabilidades formativas dos clubes.
A construção de alternativas dessa natureza reforça a necessidade de compreender escola e futebol não como instituições concorrentes, mas como espaços que podem compartilhar responsabilidades na formação dos jovens.
Considerações finais
O futebol brasileiro permanece capaz de produzir atletas de elevada qualidade técnica. Entretanto, as transformações contemporâneas do esporte demonstram que o talento técnico, isoladamente, não responde a todas as exigências do alto rendimento.
Repensar a formação exige romper com perspectivas historicamente naturalizadas. A vulnerabilidade social não deve ser utilizada como combustível motivacional; a educação não pode ser reduzida à condição de alternativa para aqueles que não alcançarem a profissionalização; e os resultados competitivos das categorias de base não devem se sobrepor aos processos de desenvolvimento de longo prazo.
A formação integral requer a articulação entre desenvolvimento técnico, tático, cognitivo, educacional, emocional e social. Isso implica ampliar a responsabilidade dos clubes, fortalecer a integração com famílias e instituições de ensino e inserir profissionais das áreas psicossocial e educacional não apenas no atendimento de demandas emergenciais, mas também na dimensão estratégica da formação.
Autoridades públicas e entidades reguladoras possuem igualmente responsabilidade nesse processo. Além de estabelecer normas, é necessário construir mecanismos permanentes de acompanhamento e fiscalização que assegurem condições adequadas de educação, proteção psicossocial e desenvolvimento humano.
O desafio, portanto, não consiste em abandonar características historicamente associadas ao futebol brasileiro, mas em criar condições para que criatividade, habilidade e talento possam se desenvolver em um modelo compatível com as exigências do esporte contemporâneo.
A formação de atletas precisa ser compreendida como investimento estrutural e de longo prazo. Mais do que preparar jogadores para vencer competições nas categorias de base, é necessário formar sujeitos capazes de chegar ao futebol profissional em melhores condições para sustentar suas carreiras e, igualmente, oferecer condições de desenvolvimento àqueles que seguirão outros caminhos.
Superar essas fragilidades exige reconhecer que o desenvolvimento do futebol brasileiro e o desenvolvimento humano de seus atletas não constituem objetivos concorrentes. São partes de um mesmo processo formativo.

Fernando Martillis Assistente Social no Ceará Sporting Club. Mestre em Serviço Social (UECE). Pós-graduado em Didática do Ensino Superior e em Juventude no Mundo Contemporâneo. Graduado em Serviço Social pela UECE.
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