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Benfica

Para aqueles que estudam e sonham com um futebol gerido de maneira diferente no Brasil, recomendo reservar 90 minutos. Exatamente o tempo de uma partida de futebol! É para assistir a uma série de reportagens produzidas pela SIC Portugal sobre o Sport Lisboa e Benfica, o clube mais popular da terra de nossos colonizadores.

Com as ressalvas sobre o enredo jornalístico da produção, que serve, naturalmente, para ser atrativo para todos os públicos, para nós que estudamos e procuramos buscar novas informações sobre a gestão do futebol vale pelos filtros de processos e de construção de longo prazo pela qual o clube português passou na última década.

Além disso, trata-se de um clube social na sua essência, que disputa uma competição nacional pouco atrativa (embora possa disputar os principais campeonatos europeus), situado em um país com limites geográficos reduzidos, uma economia ainda frágil, que não se pode comparar com as principais economias europeias, e população de pouco mais de 10 milhões de habitantes, idêntica a Paraná ou Rio Grande do Sul. Muito por isso o exemplo é de extrema relevância para a nossa realidade, fugindo daquele senso comum de querermos nos igualar a Manchester, Barcelona, Real Madri ou Bayern de Munique. Trata-se de algo muito mais próximo daquilo que podemos construir no cenário dos nossos clubes no Brasil.

Eis os links para a série de reportagens, com breves comentários sobre cada uma delas:

– PARTE 01 (http://goo.gl/sdGcNv): apresenta de forma clara a transformação pela qual o clube passou – (a) Definição de metas; (b) Gestão profissional; (c) Contratação de especialistas para gerir e tomar decisões efetivas pelo clube; (d) Agir localmente e pensar globalmente; (e) Controle de conteúdo.

– Comentário: no nosso cenário, serve como um importante parâmetro que não se é possível mais fazer futebol em alto nível, com controle de receitas e proteção da marca, com meros “simpatizantes” do clube o administrando. Não é mais admissível que um departamento de marketing de um clube, que fature mais de R$ 200 MM por ano, seja administrado por menos de uma dezena de profissionais, que atuam sem qualquer autonomia. Também mostra uma premissa que já é consagrada no mercado americano, que é o controle do conteúdo do clube pelo clube. Isso se traduz pela criação da BenficaTV, que é citada de forma sintética na reportagem.

– PARTE 02 (http://goo.gl/6J0Um5): a abordagem passa, em um primeiro momento, pela parte técnica e a relação com a gestão do clube, apresentando o Centro de Treinamento, as equipes de Análise de Jogo e alguns bastidores da preparação da equipe para os jogos. Do lado do marketing, uma pequena amostra sobre as atividades e compromissos dos atletas com ações semanais em prol do clube, que reforçam sua marca e sua proximidade com o público.

– Comentário: é fundamental evoluir de forma significativa a gestão técnica dos clubes no Brasil. A intromissão sobre os processos de trabalho cotidiano da comissão técnica feita pelos dirigentes é a parte mais latente e que afeta substancialmente a performance. Quanto ao marketing, apenas mais uma mostra de que é possível fazer coisas simples, de baixo custo, e com alto valor para os fãs – como resultado, naturalmente, um maior apreço pela marca do clube.

– PARTE 03 (http://goo.gl/d0VuoH): certamente o capítulo menos técnico do ponto de vista da gestão, mas relevante para percebermos as entregas de conteúdo em casos de conquistas esportivas e também a relação com ex-jogadores do clube – o que demonstra o ambiente interno positivo construído pelo Benfica na relação entre dirigentes e equipe técnica.

– Comentário: a preparação para a conquista e o ambiente criado para os festejos do título é o maior aprendizado. O cenário e, novamente, a proximidade com os fãs formam o melhor retrato deste conceito.

O desejo pela mudança transcende as conquistas esportivas, que são o fim, ou seja, a consequência de um trabalho bem feito, de forma consistente ano a ano, sem desvios.

É por esses e outros exemplos mundo afora que defendemos a ideia que é possível termos algo muito melhor no futebol brasileiro. Não centralizado apenas em um bom exemplo, mas em vários. Não apenas em lapsos ou bolhas, com prazo de validade, mas sim de maneira perene e sólida. Podemos fazer mais e melhor com os recursos que temos à nossa disposição hoje. É preciso começar e não desistir dos objetivos, mesmo que no meio do caminho os obstáculos apareçam! 

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Contexto

A contratação do colombiano Juan Carlos Osorio foi uma das grandes apostas do São Paulo para a temporada 2015. Depois da chegada dele, porém, o time se desmantelou no setor defensivo (Paulo Miranda, Dória, Denilson e Souza saíram, e Rodrigo Caio ficou num processo de vai-não-vai em que ele foi o grande prejudicado). Dos movimentos às declarações, o São Paulo dos últimos dias é a síntese perfeita de uma série de conceitos que permeiam o futebol brasileiro.

A começar pelo time: o São Paulo destruiu seu setor de contenção, complicou demais a saída de bola e limitou as opções do treinador. Tudo isso ainda no primeiro terço do Campeonato Brasileiro, uma competição em que são raras as equipes que terminam com a mesma estrutura que tinham quando começaram. O principal torneio do futebol nacional é uma corrida em que você só sabe como as coisas começam, mas não pode avaliar nada até que a janela se feche, pelo menos – isso sem falar nas mudanças de técnicos, conceitos e estrutura que acontecem durante o trajeto.

Antes de o Campeonato Brasileiro começar, o São Paulo era um time com estrutura montada e uma base que havia feito boa campanha no ano anterior. Quando Osorio foi contratado, a ideia era que ele burilasse isso e levasse o time a um patamar diferente. Depois dos movimentos da diretoria, contudo, a pergunta é: que time?

Há uma série de pontos a serem abordados sobre a postura da diretoria do São Paulo, mas o time paulista não é um caso isolado. O futebol brasileiro inteiro tem essa premissa, e a conjuntura fez com que o país retomasse fortemente o viés exportador – em comparação com anos anteriores, as transferências para o Brasil caíram e as negociações para fora cresceram.

A série de negociações que o São Paulo fez é reflexo de fatores como moeda fraca, desejos individuais dos jogadores e o estado econômico das equipes nacionais. Nas temporadas anteriores, os principais clubes do país inflacionaram de forma contundente as folhas de pagamento e também as dívidas de curto prazo. Em 2014, o Flamengo foi o único entre os grandes a reduzir seu déficit.

Portanto, ainda que as decisões da diretoria do São Paulo sejam questionáveis, tudo é contexto. O fortalecimento do Campeonato Brasileiro passa necessariamente por uma revisão de tudo isso.

Juan Carlos Osorio questionou a diretoria do São Paulo. Não apenas pelo número de jogadores negociados, mas por todos fazerem parte de um mesmo setor. No domingo (05), no empate sem gols com o Fluminense, ele chegou a relacionar para o banco de reservas o zagueiro Breno, que não entra em campo desde 2011.

As cobranças públicas de Osorio são lícitas e pertinentes. No entanto, cabe mais uma reflexão sobre contexto: que cenário o colombiano esperava encontrar no futebol brasileiro quando foi contratado? Ele realmente achou que haveria manutenção e sequência do elenco? Ele pensou que existiria algum planejamento de saídas numa seara em que planejamento ainda é algo extremamente raro?

O caso das baixas é o segundo de Osorio no São Paulo. Expulso na derrota por 4 a 0 para o Palmeiras, o técnico colombiano havia reclamado da atitude do árbitro e dito que desconhecia o critério adotado no Campeonato Brasileiro de 2015, com uma postura menos permissiva sobre questionamentos de decisões em campo.

Mais uma vez: por que Osorio não sabia? É certo um profissional desconhecer o contexto em que está inserido e usar essa falta de informação como justificativa para um erro? Tente transportar isso para outra realidade e pense no quanto é absurdo alguém que foi contratado recentemente por uma empresa falhar e dizer que “não sabia”.

Nos dois casos, Osorio exemplifica um dos piores aspectos comuns entre os jogadores brasileiros: a falta de entendimento sobre o contexto. É essa a natureza, por exemplo, dos atletas que se transferem para times ucranianos e depois reclamam do frio ou da perda de visibilidade. Afinal, o que eles esperavam quando assinaram?

As reclamações de Osorio são perfeitamente cabíveis e levantam debates necessários para o futebol brasileiro. Ao fazê-las, porém, o técnico mostrou desconhecimento sobre o meio em que está inserido. Isso é perigoso.

Entretanto, Osorio não foi o único no São Paulo a servir de exemplo nesse sentido. Depois da derrota para o Atlético-PR, o goleiro Rogério Ceni corroborou as cobranças à diretoria e as críticas ao volume de negociações. O capitão tricolor, que está em sua última temporada como profissional, disse que entende a necessidade financeira do clube, mas que a cúpula da equipe também precisa entender a necessidade que ele tem de ser campeão.

Mais uma vez, não há problema com a declaração. O que Rogério disse é o que outros jogadores também devem pensar. Novamente, a questão é contexto: numa situação como essa, é no mínimo complicado que a principal liderança de um grupo manifeste publicamente que prioriza objetivos pessoais em detrimento da situação de sua equipe.

No mesmo jogo, no intervalo, Paulo Henrique Ganso deu outra demonstração nesse sentido. Questionado sobre a partida – o São Paulo perdia por 1 a 0, gol marcado pelo zagueiro Gustavo após cobrança de falta –, o meia disse que o time paulista atuava bem, que só estava atrás no marcador por causa de um erro individual e que todo mundo sabia de quem tinha sido a falha – no lance, Lucão deixou de acompanhar o defensor do Atlético-PR.

A análise de Ganso não está errada. Mais uma vez, a questão é contexto: qual é o impacto de uma crítica tão direta, sobretudo se o alvo for um atleta tão novo e que já sofre com a desconfiança de parte da torcida? Não ajudou, certamente.

Entender o contexto pode ser um processo complicado em muitos momentos, mas é fundamental para amenizar problemas. Isso evitaria teses como o apagão que a comissão técnica da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) criou para justificar os 7 a 1 da Alemanha, por exemplo. Se tivessem olhado para o contexto, Felipão e Parreira entenderiam que era momento para algo muito mais contundente.

O mesmo vale para a própria CBF, que resgatou Dunga depois da Copa e criou o contexto para uma seleção brasileira com repertório pobre e estilo extremamente limitado. Questão de contexto: esse tipo de jogo pode ser eficiente, mas não tem nada a ver com o que os torcedores esperam ou cobram da equipe nacional.

No fim, a eliminação do Brasil nas quartas de final da Copa América é apenas mais uma parte de um contexto. É um subproduto de um cenário que se construiu durante anos e que não tem perspectivas de mudança em curto prazo.

Ah, o presidente da CBF não foi ao Chile para acompanhar a Copa América. Não por ter ficado aqui e priorizado o desenvolvimento do futebol nacional, mas por temer ser preso se deixar o Brasil. O fato de Marco Po
lo del Nero ser atualmente o principal dirigente do futebol nacional é mais um que não pode ser analisado de forma isolada. Como Eduardos Cunhas da vida, o mandatário da CBF é fruto de um contexto.

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MP do futebol e a busca pela medida justa

A votação e os debates acerca da chamada “MP do futebol” continuam quentes e acirradas. De um lado o Governo que pretende viabilizar o parcelamento de dívidas com a União com a condição de haver maior “fair play” financeiro e ingerência nos Clubes e de outro os Clubes e Federações que querem participar do parcelamento, mas, sem interferir em sua autonomia.

Não há dúvidas da importância de se oportunizar o pagamento dos enormes débitos fiscais dos clubes e, ao mesmo tempo, trazer milhões aos caixas da União neste momento de arrocho econômico. Por outro lado, há de se garantir a autonomia e independência funcional dos clubes de futebol, conforme apregoa, inclusive, o artigo 217, da Constituição.

Pode-se argumentar que a adesão ao plano de parcelamento seja opcional e, por consequência, a “submissão” às regras do programa também. Entretanto, na situação em que a maioria dos clubes de futebol do Brasil se encontra, aderir ao programa de parcelamento não é uma opção, mas uma medida necessária para a sobrevivência.

Diante disso, a interferência no colégio eleitoral das Federações e da limitação do percentual do direito de imagem, por exemplo, apresentam-se extremamente invasivas e, acabam por violar a independência e autonomia das entidades desportivas.

Conforme mencionado, medidas para o “fair play” financeiro, parcelamento e pagamento de dívidas e lisura administrativa são sempre bem-vindas e todos tem a ganhar. No entanto, clubes, governo e federações precisam encontrar um meio termo, uma justa media. E para tanto, nada como o debate.

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Mentalidade para vencer

Após nova eliminação da seleção brasileira de futebol de uma importante competição continental, muito se fala novamente sobre falta de talentos ou sobre decadência do futebol brasileiro.

De fato, se formos observar pelo lado dos resultados em relação as conquistas de títulos das últimas competições disputadas, realmente estamos deixando de performar como gostaríamos e de acordo com o material humano que possuímos em mãos. É fato que muitas seleções evoluíram técnica e taticamente, mas negar que possuímos um bom material humano para montar uma seleção de destaque pode ser uma avaliação superficial e preliminar sobre as necessidades atuais do futebol brasileiro.

Sim, acredito que possuímos material humano valioso no futebol brasileiro, ou alguém discorda que nossos atletas de ponta estão nos maiores clubes do mundo e disputam de forma recorrente os maiores campeonatos de futebol do planeta? Se os fatos nos demonstram que muitos destes atletas estão bem preparados em seus clubes para enfrentar os desafios do futebol atual, por qual motivo na seleção brasileira o mesmo não acontece.

Tenho a crença de que muito se faz necessário melhorar na gestão do nosso futebol dentro e fora de campo, mas não concordo com a contínua abordagem da falta de talento.

Penso ser necessário o desenvolvimento de uma mentalidade vencedora nos atletas que frequentam a seleção brasileira de futebol. Mentalidade talvez bem desenvolvida em seus respectivos clubes onde muitos desfilam de forma confiante o seu melhor desempenho no futebol. E o preparo mental adequado pode contribuir para a volta desta mentalidade vencedora.

É importante compreender que existe grande diferença entre falar sobre aquilo que se deseja fazer e estar mentalmente preparado para fazê-lo. Atualmente é fato que o preparo mental tem relação direta com a manutenção de uma atitude positiva frente aos desafios, permanecendo concentrado, persistentemente e totalmente comprometido em agir conforme as suas intenções.

Para voltarmos a obter a excelência precisamos que nossos atletas estejam mentalmente preparados para agir de forma concentrada e decisiva durante sua atividade profissional. Agir decisivamente todos os dias é essencial em treinos e nas situações de jogo, apenas a ação concentrada levará o atleta aos melhores resultados e a atingir os seus objetivos. A excelência do desempenho evidencia-se quando o atleta ou grupo de atletas desejam estar em um determinado lugar, mais do que sentir que podem estar lá; ela acontece quando se escolhe realmente fazer algo, mais do que quando se sente forçado a fazê-lo; e quando se percebe mais oportunidades do que obrigações.

Para conseguir alcançar a excelência a qualquer momento, se precisa estar mentalmente preparado para pensar, se concentrar e agir com atitude positiva. Quando o atleta estiver mentalmente preparado ele vai achar mais fácil aprender as habilidades essenciais para o seu melhor desempenho, vai praticar essas habilidades até a perfeição e vai colocar em prática essas habilidades com eficácia, sob condições exigentes. Além de estar mais confiante em si mesmo para colocar em prática tudo que foi preparado em seu período de treinamento.

Assim amigo leitor, acredito que existe muito a se fazer para que possamos retornar aos gramados com postura e atitude vencedora e com isso voltar a apresentar um futebol digno de seleção brasileira, pentacampeã mundial de futebol.

Até a próxima!

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Abaixo os clichês

Tenho enfatizado nas últimas colunas a necessidade de evoluirmos no debate como mote básico para conquistarmos a tão desejada transformação no futebol brasileiro. A constante tentativa de enfrentamento ante o poder instaurado não contribui em nada com este processo. O resultado, a bem da verdade, acaba sendo o inverso, com algo como o “nós contra eles”, o que torna o sistema ainda mais fechado.

Na parte técnica, vou me reservar o direito de apenas copiar um link de um texto muito feliz, escrito por André Rocha, que analisou de forma coerente o momento vivido por nossa seleção: http://espn.uol.com.br/post/522474_brasil-ainda-nao-entendeu-a-revolucao-guardiola-x-mourinho-e-precisa-reaprender-a-jogar-nosso-maior-atraso-e-no-campo.

No âmbito da reestruturação do futebol enquanto modelo e projeto de gestão, é incrível como aqueles que querem a mudança permanecem sugerindo processos tortos, sem pensar nas consequências futuras. E não se enganem: processos malsucedidos de gestão impactam sim e muito na questão técnica citada acima.

A distância entre a necessidade real de ruptura e a realidade que se pode alcançar com algumas mudanças é enorme. É lógico que, nos melhores sonhos, eu mesmo gostaria de dormir e acordar em uma outra atmosfera de negócios e processos dentro do futebol brasileiro. Seria benéfico para todos!

O amparo destes devaneios se baseiam nas mais recentes discussões sobre a MP do Futebol (aqui tem uma ótima: http://sportv.globo.com/site/programas/selecao-sportv/noticia/2015/06/feldman-diz-que-votacao-da-mp-do-futebol-foi-golpe-bom-senso-rebate.html) ou mesmo da criação da Liga de Clubes. Percebe-se claramente a adoção de certas reivindicações que pertencem mais ao mundo de fantasias do que propriamente a vida real. Os clichês do “mudar pelo mudar” surgem como se pudesse apagar uma história e começar a reescrevê-la do zero.

Boas propostas e bons planos só são erguidos de forma consistente se respeitarem a realidade e o alcance paulatino de objetivos reais. Tudo o que se baseia em pensamentos megalomaníacos pode virar utopia e acabar caindo em descrédito, não ajudando para o fim a que se propunha inicialmente. Novamente, reforço: é preciso mudar o foco dos debates e das propostas para poder se conquistar efetivamente a mudança! 

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Carregadores

Formado nas categorias de base do Palmeiras, Elias era atacante e teve carreira errática nos primeiros anos como profissional. Virou meia, mas só conseguiu verdadeiro destaque como volante. Fernandinho era armador no PSTC, e foi nessa posição, ainda como armador, que ele chamou atenção do Atlético-PR. Teve destaque no Mundial sub-20 de 2003 e anotou o gol que deu o título à seleção brasileira. Os dois volantes de Dunga na Copa América de 2015 têm em comum o passado como homens de definição e o presente como símbolos de uma equipe nacional que não deu certo.

O fracasso que Elias e Fernandinho não tem a ver apenas com questões individuais – os dois somaram apenas três finalizações em toda a primeira fase da Copa América e estiveram longe de decidir qualquer partida. Ambos foram escolhidos por características que apresentavam desde quando ainda não eram volantes (velocidade e jogo vertical, principalmente), mas foram as matrizes de problemas graves da seleção de 2015 (falta de controle de jogo, dificuldades na transição entre meio-campo e ataque e verticalização dos laterais, por exemplo).

A ideia aqui não é crucificá-los ou atribuir a qualquer jogador o fracasso de um time. Os erros da seleção não são individuais, mas de proposta. Por isso, mais uma vez, é fundamental que a análise seja alinhada às carências da equipe. Tudo é questão de contexto.

Ora, perdemos um tempão discutindo quais são os brasileiros protagonistas em grandes times do futebol mundial ou quais são os craques que vestem a camisa verde e amarela e têm capacidade para decidir um jogo. Será que essas são realmente as perguntas?

Nunca houve um projeto para o futebol brasileiro, e isso é indiscutível. Em meio a essa carência de ideias e de programas que pensem além do curto prazo, a seleção local sempre foi carregada por individualidades. Nós nos acostumamos a usar exemplos de 1962 e 1994 para exaltar jogadores como Garrincha e Romário, mas nos esquecemos de pensar no quanto o talento deles escondeu problemas de preparação, formação e condução nos grupos em que ambos estavam incluídos.

Talvez fosse o caso de perguntar por que o Brasil não tem um armador entre os principais times do mundo. Ou por que os jogadores brasileiros que atuam no setor ofensivo são vistos como opções de velocidade pura, algo que combina pouco com a proposta de muitas potências.

O futebol mundial mudou. Posições e funções foram alteradas, e nós demoramos para entender esse processo. Nós ainda somos o país em que jogadores carregam a bola da defesa até a intermediária ofensiva, e aí a velocidade de atletas que eram agudos – Elias e Fernandinho, por exemplo – pode ser um diferencial.

Tente olhar para qualquer outra seleção. Independentemente do nível e da qualidade, não há times no mundo que façam a transição entre defesa e ataque com a bola dominada. Há troca de passes, e um dos motivos para isso é o perfil dos atletas: menos velocidade, repertório mais pobre em termos de habilidade e fundamentos mais lapidados em aspectos como passe e coordenação de movimentos, por exemplo.

Mas nós seguimos discutindo, como fazemos a cada fracasso da seleção, o nível individual de cada atleta. Seguimos pensando em motivos para não termos mais Neymares ou mais protagonistas, mas esquecemos de pensar no contexto.

O fracasso da seleção brasileira em 2015 é também um fracasso da crítica. Já passou da hora de entendermos que não precisamos apenas cobrar jogadores melhores: precisamos cobrar uma nova leitura e uma nova compreensão das necessidades do futebol.

Para isso, porém, é preciso que também transformemos nosso olhar sobre o jogo. Precisamos deixar de ser analistas de resultados, e não apenas os resultados de partidas. Muitas vezes buscamos a conclusão de um lance sem tentar entender o que levou as ações até esse ponto.

O futebol brasileiro já teve outras crises técnicas, mas não é apenas técnica que falta à seleção comandada por Dunga; falta contexto.

A seleção do despreparo

A despeito da discussão sobre a questão técnica ser premente, nenhum problema da seleção brasileira na Copa América de 2015 foi maior do que a comunicação (num sentido amplo, e não apenas como relação entre a equipe e a imprensa). Se ainda cabe debate sobre o nível da equipe de Dunga, não existe dúvida sobre o altíssimo nível de despreparo do grupo (incluindo o comandante).

Entre os atletas, o maior exemplo foi dado por Neymar. O capitão e principal jogador comportou-se como iniciante na derrota para a Colômbia. Xingou, reclamou, cavou uma expulsão, tentou agredir um adversário e ainda foi reclamar com o árbitro. Criou o cenário para uma punição que o tirou da Copa América.

Depois, Neymar falou com o grupo e se desligou da seleção. Enquanto os jogadores seguiam no Chile, o atacante curtia festas no Brasil. Agora pense na estrutura de um ambiente corporativo: que tipo de exemplo esse comportamento de um líder transmite? O que ele comunicou ao grupo ao agir assim?

As entrevistas pós-jogo foram igualmente assustadoras. Daniel Alves sugeriu, depois da derrota para a Colômbia, que existe um complô na América do Sul contra o Brasil. Vários atletas elogiaram o desempenho da seleção minutos após a eliminação para o Paraguai (empate por 1 a 1 no tempo normal e derrota por 4 a 3 nos pênaltis).

Dunga fez ainda pior. Numa tentativa de ser irônico, o técnico disse que “gosta de apanhar” e que “deve ser um afrodescendente” para justificar a relação com as críticas. Ao fazer isso, julgou uma dor que não tem capacidade para entender e brincou com um dos aspectos mais tristes da existência humana.

Em toda a Copa América, não houve uma entrevista sequer que tenha sido bem colocada e que tenha ajudado a aproximar a seleção do povo brasileiro. Ao contrário: platitudes, falta de envolvimento e uma série de escorregões.

O processo de evolução que o futebol brasileiro necessita passa obrigatoriamente por um entendimento maior sobre a relação que a equipe nacional precisa ter com a mídia e o papel que esse aspecto tem para fomentar o orgulho do povo.

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Os leões de treino, o treino e o jogo de futebol

As crenças fazem parte da nossa sociedade!

O futebol, como um produto e espelho do nosso povo, reflete a visão que temos do mundo e, consequentemente, da modalidade. Imprensa, dirigentes, comissões técnicas e jogadores influenciam e são influenciados por crenças, muitas vezes limitantes, que engessam e restringem nosso pensamento.

Quem não faz toma, em time que está ganhando não se mexe, só pelo jeito que anda dá pra saber se é bom ou mau jogador, tem que ser amigo do jogador para que ele produza, zagueiro tem que ser alto, jogador de futebol é burro, craque só nasce em favela, treino é treino e jogo é jogo, tem coisas que só quem jogou sabe, as equipes tem quer ser uma família, treino analítico dá confiança para o jogador, saber driblar significa jogar bem, câimbras significam má preparação física, se a equipe não fez gol tem que treinar mais finalizações, o futebol europeu é robotizado, a troca de treinador é a solução para escapar do rebaixamento, são algumas das “verdades” que escutamos e/ou reproduzimos cotidianamente, de forma consciente ou não, em nossa atuação profissional.

Na coluna desta semana, será abordada uma crença conhecida por todos e propagada pelos treinadores de futebol dos mais variados níveis, da base ao profissional: os leões de treino.

Tal expressão é utilizada no futebol para se referir àqueles atletas que arrebentam no treino, se destacam, vão muito bem nos coletivos mas que no jogo, valendo 3 pontos, simplesmente desaparecem.

Você já trabalhou com alguns leões de treino? Qual a sua opinião sobre eles?

Para quem atua no futebol sob uma perspectiva sistêmica, logo, não separa o jogo em partes (física, técnica, tática, psicológica) que não representem o todo, a essência do treinamento será criar ambientes de aprendizagem que utilizem o jogo enquanto método de ensino para a construção da equipe.

Respeitando um princípio básico do treinamento, o da especificidade, treinar jogando garantirá a imersão num ambiente imprevisível, desafiador, de desequilíbrio, e de predominância da subjetividade, ou seja, num cenário com os pressupostos do contexto competitivo.

Neste ambiente, cada jogador, poderá ser avaliado globalmente em função dos diferentes cenários que surgem e/ou são construídos. Sendo assim, é possível que se analise no treinamento como joga cada jogador com vantagem no placar, com desvantagem, ao ser cobrado pelos companheiros ou ser exposto pelo treinador, ao não lhe dar uma falta, como titular, como suplente, vivendo um bom momento, vivendo um mau momento, ou por quaisquer outras situações que possam gerar reações de jogo, ou seja, também psicológicas. E nesta análise, possivelmente, se detecta quem são os leões de treino.

Sabidamente, a carga do jogo oficial é muito maior do que qualquer treinamento realizado. Aspectos irreprodutíveis como a torcida a favor ou contra, o peso da competição, o ambiente gerado pelo posicionamento da equipe na tabela e as características do adversário dão um formato ímpar ao jogo oficial.

É sabido também que cada treinador deve ir a campo ciente do que a equipe, coletivamente, e cada jogador, individualmente, é capaz de dar.

E se o leão de treino “acaba” com os treinos, sempre com uma boa performance, os treinadores deveriam ter ciência de que o que se faz no treino, também se faz no jogo.

Utilizando a máxima do dr. Alcides Scaglia, que contraria mais uma das crenças vigentes no futebol brasileiro, “treino é jogo e jogo é treino”, deveríamos deixar os leões de treino mais vezes em campo para que se adaptassem ao ambiente e treinassem, no jogo, aquilo que tão bem eles fazem no treino. Dessa forma, se adaptariam, especificamente, aos elementos que limitam o seu desempenho.

Queremos e ensinamos os nossos jogadores a praticarem posicionamentos, finalizações, marcações, cobranças de faltas, esquemas táticos, movimentações. Muitas vezes esquecemos que, simultaneamente, também treinamos mentes!

Os leões de treino deveriam ser também os leões do jogo.

O futebol está cheio de crenças! Quais são as suas?

Abraços e até a próxima! 

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Eles também perderam de 7 da Alemanha

Na última rodada das Eliminatórias para a Eurocopa de 2016, a seleção alemã voltou a vencer marcando 7 gols. Desta vez, a vítima foi o Gibraltar que não marcou sequer um gol de honra.

O Gibraltar é um território britânico ultramarino localizado no extremo sul da Península Ibérica. Trata-se de uma pequena península com uma estreita fronteira terrestre ao norte, e limitado, dos outros lados, respectivamente, pelo Mar Mediterrâneo, Estreito de Gibraltar e Baía de Gibraltar, este último, já no Atlântico.

A Espanha reivindica o Rochedo, o que é não é aceito pela população local, já que em um referendo no ano de 2002, 99% dos votantes rejeitaram qualquer proposta de partilha de soberania entre o Reino Unido e a Espanha.

A Seleção de Gibraltar de Futebol foi criada em 1993 e representa Gibraltar em competições não-oficiais. Seus maiores êxitos no futebol resumem-se aos Jogos das Ilhas, vencidos em 2007.

Como não era filiada à UEFA/ FIFA, até então Gibraltar disputava apenas amistosos e torneios não-oficiais. Em 1993, fez sua primeira partida internacional contra a Seleção das Ilhas Jersey (dependência da Coroa Britânica que não faz parte do Reino Unido), perdendo por 2 a 1. A maior vitória dos Giblets, como são chamados, veio dez anos depois: 19 a 0 contra a Seleção de Sark (ilha pertencente ao grupo de Ilhas do Canal que pertence administrativamente ao bailiwick de Guernsey).

Já a maior derrota de Gibraltar ocorreu também em 1993, quando a equipe perdeu de 5 a 0 da Groenlândia (nação constituinte autônoma do Reino da Dinamarca). A equipe nacional do Gibraltar participa desde 1993 do torneio de futebol dos Jogos das Ilhas, espécie de Olimpíadas entre territórios ultramarinos.

Em 2006, Gibraltar foi convidado para a disputa da primeira FIFI Wild Cup, torneio disputado por seleções não-reconhecidas pela FIFA, oportunidade em que conquistou a terceira colocação. A seleção da República Turca de Chipre do Norte foi a campeã desta competição.

Após rejeições por parte da Espanha e de setores da FIFA e da UEFA em relação à filiação de Gibraltar, o Tribunal Arbitral do Esporte determinou a entrada do território nos dois órgãos.

O Comitê Executivo da Uefa admitiu, então, Associação de Futebol de Gibraltar (GFA) como membro provisório, conforme determinação do Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) por meio de resolução exarada em agosto de 2011.

Enfim, em 24 de maio de 2013, durante o XXXVII Congresso Ordinário da UEFA, ocorrido na cidade de Londres, a entidade admitiu Gibraltar como seu 54º membro de pleno direito, apesar da insatisfação da Real Federação Espanhola.

Para evitar conflitos mais acentuados, a UEFA determinou que Gibraltar não enfrente a Espanha em fase eliminatória de torneios.

Diante da decisão do O TAS (Tribunal Arbitral do Esporte), os clubes de Gibraltar conquistaram o direito de disputar as competições européias e a sua seleção de disputar as eliminatórias da UEFA, entre as quais as fases de qualificação para o Europeu e para a Copa do Mundo.

Criado em 1984, TAS julga conflitos entre partes que não estejam no mesmo país, como Comitês Olímpicos, o COI, federações esportivas, clubes, atletas. Dentre os casos mais comuns, estão as disputas relativas às transferências internacionais de futebolistas e casos de doping.

O Gibraltar lutava pelo seu reconhecimento desde 1997, sempre com oposição da Espanha, primeiro porque os espanhóis reivindicam a posse da pequena península britânica. Segundo porque a filiação de uma Associação de um país não reconhecido pela ONU poderia abrir um perigoso precedente para que a Catalunha e o País Basco (Comunidades Autônomas espanholas) busquem sua filiação.

A primeira experiência oficial do Gibraltar foi a participação na fase de classificação para a Eurocopa de 2014 de futsal, graças ao reconhecimento até então provisório. Na primeira rodada, Gibraltar foi derrotado por Montenegro por 10×2. Em seguida, perdeu para a França por 6×2. Na despedida da competição, bateu San Marino por 7×5.

Gibraltar possui uma competição nacional composta por seis equipes que se enfrentam em quatro turnos, o que assegura uma partida de futebol todos os dias entre os meses de maio e outubro.

Todas as partidas são disputadas no Victoria Stadium, que possui capacidade de cinco mil torcedores e, agora, deverá adequar-se às normativas UEFA/FIFA. Há, ainda, uma segunda divisão, denominada “Liga Reserva”, torneios juvenis, equipes femininas e a Copa del Peñon.

Como o Victoria Stadium não possui os requisitos mínimos de infraestrutura exigidos pela UEFA e a Espanha, por questões políticas inviabiliza as partidas em seu território, a seleção de Gibraltar manda seus jogos em Portugal, no Algarve,

Enfim, não estamos sozinhos no vexame do 7 gols da Alemanha. Basta saber se é o caso de se sentir aliviado ou ainda mais preocupado. 

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A desmotivação e o treinador

Recentemente comentei aqui sobre a ciranda dos treinadores nas equipes de futebol do Campeonato Brasileiro nas suas principais divisões. Sugeri reflexões quanto as alternativas dos clubes entre se anteciparem aos primeiros sinais de baixo desempenho e promoverem rapidamente uma troca de comando ou se seria melhor terem um pouco mais de paciência, validarem a confiança no trabalho que está sendo desenvolvido e aguardarem um pouco mais para que o trabalho amadureça e apresente seus melhores resultados.

Na ocasião mencionei que o material humano era um pilar fundamental para o desenvolvimento do trabalho do treinador e sobre este ponto vou compartilhar com vocês um fator que muitas vezes pode ser levando em consideração no processo de melhoria do desempenho das equipes de futebol.

Muitas vezes, apenas trocar de comando traz uma falsa sensação de motivação, o que na verdade nada mais seria do que um espasmo de motivação momentânea que eventualmente não se sustenta, fazendo com que os atletas voltem a estarem desmotivados.

Então quero comentar um pouco sobre a motivação do atleta. Essa pode ser descrita como um fenômeno no qual uma pessoa, atleta ou não, previamente motivada para uma atividade no campo profissional ou pessoal perde o devido interesse pelo que faz. Eventualmente isso pode ocorrer diante de uma situação de grande estresse causado por trabalho excessivo, acompanhado de exaustão física e emocional. Isso acontece na prática por que tudo que o cérebro humano associa a dor ou desprazer carrega uma forte tendência em ser eliminado ou evitado, dificultando com que as pessoas possam atingir seu melhor desempenho ou estado de flow.

Podemos estar atentos a algumas condições que mais podem levar à desmotivação, tais como:

• Dificuldades por parte do atleta em dizer não para pessoas e situações que tiram o foco, a concentração e energia da sua performance;

• Situações excessivamente longas de tensão ou pressão que se estendem por muito tempo e não se resolvem;

• Quando metas são estabelecidas muito além do possível ou alcançável, o que traz insatisfação no atleta pelo fato de jamais se materializarem.

Alguns sintomas podem nos ajudar a perceber a desmotivação na rotina do atleta, sem que percebamos ela se instala através de um processo lento e pode se expressar de forma física ou mental. No caso de expressão física podemos notar sensações mais intensas e recorrentes de fadiga do atleta ou uma eventual vulnerabilidade imunológica. Em relação a expressão mental podemos notar uma certa perda de controle dos compromissos e tarefas por parte do atleta, bem como uma tendência crescente a adoção de pensamentos negativos. Esses sintomas não são exaustivos, mas podem nos dar uma ideia sobre como a desmotivação pode aparecer.

Certamente um processo de coaching pode contribuir muito com os atletas nestas situações, utilizando e aplicando ferramentas que podem contribuir na prevenção da desmotivação e na reversão deste quadro.

Assim, podemos perceber que eventualmente existem recursos adicionais à disposição dos clubes de futebol a serem utilizados junto às suas equipes, para que os atletas possam responder positivamente ao trabalho realizado pela comissão técnica e evitando em alguns casos o desgaste da troca prematura de comando da equipe no início ou no decorrer de uma competição.

Até a próxima. 

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Quando vamos mudar nossa maneira de enxergar o jogo e avaliar nossos talentos?

Teimamos em acreditar que vivemos escassez de talentos no futebol brasileiro. É incrível como nós, brasileiros, continuamos míopes ao analisar, conceber e construir o jogo para o futebol atual.

Estamos à procura de grandes talentos a cada lance nos jogos que assistimos e “não conseguimos encontrá-los”. Por que será? Nossos olhos cartesianos estão focados na plástica do individualismo de campo, enquanto o protagonismo do futebol migra cada vez mais para as ações coletivas. Continuamos acreditando que o jogador deve fazer tudo em campo a partir das suas arbitrárias intenções e individuais capacidades. Não conseguimos enxergar algo além das competências particulares dos jogadores. É, talvez, o maior equívoco tático vivido pelo futebol brasileiro da atualidade!

Enquanto isso, o mundo esportivo moderno se desenvolve. Nele, a qualidade do jogo é vista em decorrência da aplicação dos conceitos táticos – coletivos, grupos e individuais – e, o “quilate” do jogador, em decorrência do jogo jogado. O potencial dos bons jogadores se destaca contextualizado a uma ideia de jogo. Melhor dizendo, o protagonismo do futebol atual, na melhor das hipóteses, está dividido entre a qualidade do jogo e o desempenho que cada jogador tem no cumprimento das tarefas que fazem este jogo se consumar. E nós brasileiros continuamos acreditando que o jogo depende só do talento individualmente produzido.

Comprovando a presença dessa visão distorcida em nossos meios, certa vez um renomado treinador brasileiro disse:

– Enquanto nós tínhamos time, estávamos em quarto ou quinto lugar do Brasileirão. Perdemos cinco jogadores e caímos na tabela!

Será que este treinador acreditava que tinha time ou cinco jogadores que “seguravam” o jogo da sua equipe? Será que este treinador acredita na existência do “jogo”, que ele é algo coletivo, uma ideia macro, que transcende ao valor das individualidades em campo? Tenho certeza absoluta que não. E se esta maneira de pensar representa, mais ou menos, o que nós brasileiros ainda pensamos do futebol hoje em dia, estamos na contramão da história do desenvolvimento deste jogo.

Para o brasileiro, quando o talento não se destaca em campo é sinal de fracasso do nosso jogo, e dos nossos jogadores. Aí sobra pra todo o mundo!! Só que não nos atinamos para a realidade de que os destaques individuais poderão ou não surgir mais em virtude do que o jogo pode produzir. Cito em meu livro – Universo Tático do Futebol – escola brasileira – que hoje o Pelé, mito do futebol mundial, não faria os mesmos 1.200 gols que fez em épocas passadas. A analogia é muito simples e a minha admiração pelo rei do futebol continua inabalável: o jogo de hoje é outro, em intensidade e poder tático, principalmente. O Pelé continuaria sendo o Pelé, assim como sempre tivemos e teremos talentos se destacando em todos os esportes. Mas as dificuldades do jogo de hoje são bem diferentes das encontradas no passado. Façam a mesma analogia para os vários níveis de talentos do futebol e veremos o quanto o jogador atual está dependente do jogo para desenvolver o seu potencial. Não existe talento sem jogo, assim como um jogo construído com talentos de ótimo quilate torna-se mais poderoso em relação a outros em outras circunstâncias. Este fenômeno está muito claro no futebol atual, quando vemos vários times, seleções e clubes, dando espetáculos pelo mundo.

“No futebol, não tem mais ninguém bobo”.

Melhor dizendo e para não ficar apenas com o dito popular, a maneira moderna de se jogar o jogo está chegando ao entendimento de todos. O futebol brasileiro precisa se atentar para isso. Costumamos nos contentar em ver jogadores brasileiros espalhados pelos grandes times europeus, mas não estamos “cuidando” da nossa forma de treinar e jogar. A Escola que desenvolve o talento e a Escola que constrói o jogo brasileiros tratam de conteúdos distintos apesar de estarem em um mesmo ambiente de desenvolvimento.

Voltemos aos questionamentos sobre a “escassez dos talentos brasileiros”. Esse é um discurso e uma “verdade” que confirma e enaltece a majestade dos que foram craques no passado, além de acusar um grande equívoco na forma de enxergar as necessidades de um futebol moderno. Enquanto isso, o mundo do futebol de alto nível continua importando nossos jogadores e assim será por muito tempo. Isso porque temos a “escola de rua” em nossa origem de formação.

Esta é a base preciosa para a formação do jogador de futebol. A revolução alemã, responsável pelo grande salto de qualidade dos últimos anos, começou seu projeto, dentre vários pontos, pela implantação da escola de rua para as crianças do futebol do seu país, a “escola da habilidade”. Nós, brasileiros, graças às características da nossa própria escola, podemos pular esta etapa. Em contrapartida, precisamos aprimorar o segundo nível do projeto alemão que é qualificar a “escola do jogo”.

Os europeus importam a habilidade do jogador brasileiro e dão a ela o preparo para o jogo. A “base” da nossa escola é muito poderosa. Podemos, no entanto, ainda valorizar e aprimorar os conceitos e métodos que a desenvolvem. Além disso é preciso adaptar o talento brasileiro, fruto desta escola, a uma nova concepção de jogo. Um jogo que precisa ser organizado, coletivo e regido por conceitos táticos que dão às ações das onze peças em campo um sentido comum que facilite a superação aos adversários. O jogo de futebol não é mais a soma das ações dos onze talentos em campo. É a concretização de uma ideia que explora o talento dos onze jogadores. Parece a mesma coisa, mas é muito diferente!

Mais uma vez, já estamos querendo queimar uma geração de novos talentos brasileiros em decorrência da campanha pouco satisfatória da nossa seleção no Sul-americano Sub-20 do Uruguai e da perda do título mundial, na mesma categoria, na Nova Zelândia. Por que não nos atrevemos a avaliar o jogo jogado pela seleção ao invés de procurarmos “heróis de chuteiras para a nossa pátria do futebol”. Será que dá mais trabalho avaliar o jogo e todas as suas nuances? Ou será uma “simples” questão de miopia futebolística? Eu continuo achando que é um pouco das duas coisas.

A revolução que muitos “só pregam e ou sugerem” desde a Copa no Brasil passa por uma nova forma de conceber, treinar e construir o jogo. Isto é urgente!! Sempre tivemos e teremos grandes talentos para o futebol. O que não pode acontecer mais é nossas equipes continuarem jogando o jogo de trinta anos atrás. Regidos pelos mesmos conceitos que fazem o nosso futebol há décadas. Estamos presos a um futebol “paradigmatizado”, regido por conceitos de gestão e de jogo antiquados que não nos fará sair do estágio em que est
amos tão cedo. Se já está ruim, pode ficar pior!! Não se trata de um prognóstico pessimista. Simplesmente não estamos nos envolvendo com as mudanças necessárias à transformação.

Acobertados pelas chancelas modernas de um jogo com intensidade e ou velocidade, estamos praticando um jogo ansioso, de muita entrega física e pouca lucidez e ou conceituação tática. Não estamos construindo o jogo explorando o potencial fantástico dos nossos jogadores. E ainda bem que os temos! Ao contrário, estamos creditando aos jogadores brasileiros todas as responsabilidades do jogo:

– Vai lá e faz o que você sabe!
– Quer fazer gol, contrate um bom centroavante.
– Quer ter jogadas pelos flancos, coloque laterais que façam o jogo neste setor.
– A defesa é boa porque os zagueiros são bons.
– A equipe não cria, pois não temos um bom meia de criação…

Enquanto isso, fica sem dono a responsabilidade de construir um jogo que, no mínimo, ajude os jogadores a desempenharem estas e outras muitas funções.

Comunidade brasileira do futebol, a mudança precisa ser substancial e urgente! Da concepção do jogo ao treino do próprio jogo é preciso começar a transformação. Das categorias de base ao futebol profissional. Abramos os olhos para essa realidade que se escancara aos nossos olhos. Comecemos por questionar alguns paradigmas táticos do jogo, dos treinos e da gestão no futebol brasileiro. Não dá mais para “ver sem enxergar”!

Mãos à obra, Brasil!

Até a próxima…