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A indigesta gestão do futebol

É um tanto quanto assustador acompanhar alguns fatos ligados aos clubes de futebol no país. Os mais recentes têm a ver com a forma de condução de inúmeros processos (ou falta deles) ligados ao Vasco da Gama.

E aqui não tem apenas a ver com o atual mandatário, que classicamente se apropria do clube. Tem também a ver, mas não é só, mesmo porque não são raros os casos em que ocorrem fatos similares em outros clubes.

O que fica evidenciado é a falta de trato e respeito com a marca do clube. Por isso, a palavra “apropriação” foi utilizada no parágrafo anterior. A lamentação está muito amparada pela perda de oportunidades e falta de aproveitamento do potencial de negócios que o futebol brasileiro possui e não realiza por força deste despreparo.

No nosso cenário, temos uma série de carros importados, de Ferraris a Lamborghinis, trafegando em estradas escuras, esburacadas e cheias de obstáculos pelo caminho. Nem o mais moderno radar de identificação de objetos é capaz de identificar a “surpresa” que vem pela frente. O pior de tudo é que, uma hora ou outra, um desses carros potentes chega antes dos outros. Todo amassado e com a cor desbotada. Mas chega.

Na analogia, obviamente, os carros são os clubes; a estrada é o campeonato e tudo o que o cerca (dos clubes rivais, que ao invés de se tratarem como parceiros, se encaram como inimigos mortais, a forma como é construído o debate em torno da competição enquanto produto de marketing e tantos outros pormenores); o radar talvez sejam os analistas, que de um jeito ou de outro tentam apontar os melhores caminhos para o futuro, apesar da insistência de os clubes em repetir insistentemente um modelo que se esgotou na década de 1990; o chegar na frente é que sempre pelo menos um dos clubes será o campeão (e outros 4-5 irão para a Copa Libertadores e, por conta disso, teoricamente, atingem seus objetivos, no caso do Campeonato Brasileiro), mesmo que para isso deixe um passivo e um enorme buraco de processos mal administrados que serão reclamados em questão de meses. O estrago, em muitas situações, é de difícil conserto.

Pelo caso citado no primeiro parágrafo é que é tão difícil falar em gestão do esporte no Brasil – afinal, estamos falando do atual Campeão Carioca, que acaba sendo o escudo e a justificativa para qualquer ação bem ou mal estruturada se sustentar no tempo dentro dos clubes. Está-se trabalhando com uma régua muito baixa e, portanto, o nível de aprendizado e de evolução do mercado é tão lento.

Enquanto não mudarmos a forma e o modelo de gestão dos clubes, a tendência é permanecermos discutindo as mesmas coisas ano após ano. Aliás, muitas das minhas colunas aqui na Universidade do Futebol dos últimos 5 anos poderiam ser simplesmente copiadas e coladas, uma vez que os problemas são quase sempre os mesmos neste ciclo temporal… 

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Individualidade

Passamos os dias posteriores à estreia na Copa América de 2015 discutindo o talento de Neymar. Na segunda rodada, debatemos o destempero e o quanto a seleção brasileira depende de seu único fora de série. Depois, o assunto era o substituto do camisa 10 e como o time nacional se comportaria após a suspensão dele. A edição deste ano da competição continental tem sido um exemplo do quanto o futebol, a despeito de ser um esporte coletivo, é visto invariavelmente a partir de individualidades.

Questionar individualidades é o argumento mais corriqueiro entre os detratores da seleção brasileira. “Ora, fulano não pode ser titular do time”, “ah, mas essa equipe tem jogadores com baixo nível técnico” e “é um time excessivamente dependente de Neymar”: quantas vezes você ouviu algo do gênero?

O curioso é que as respostas também apelam a individualidades. “Quem você convocaria no lugar dos jogadores que estão aí?”, “Quem faltou no time?”, “Todos os jogadores representam equipes de bom nível no futebol internacional”: esses são apenas alguns exemplos do quanto a análise coletiva é sempre colocada em perspectiva individual.

A seleção brasileira talvez seja o melhor exemplo para isso, mas está longe de ser o único. A Argentina é incensada e avaliada como favorita em todas as competições que disputa há anos, ainda que o time não tenha um histórico de conquistas. Afinal, é o elenco que reúne Messi, Di María, Agüero, Mascherano, Higuaín e outros atletas que são destaques em suas equipes. A análise sempre parte dos talentos, independentemente de como é o subproduto dessa soma.

A mentalidade personalista é um dos gigantescos problemas que a análise de futebol sofre, e não apenas no Brasil. É muito por isso que o Campeonato Brasileiro tem oito técnicos decepados em oito rodadas – Doriva, que deixou o Vasco e foi substituído horas depois por Celso Roth, foi a última adição a essa lista. O fracasso de um projeto coletivo sempre é visto do ponto de vista individual.

Pense em qualquer análise sobre qualquer jogo, e essa análise pode partir da imprensa, de profissionais do futebol ou de torcedores comuns. Os gols sempre são vistos como méritos ou erros individuais, ainda que raramente aconteçam assim. As vitórias e as derrotas sempre são explicadas como resultado dessas ações.

O futebol é um esporte coletivo complexo, com 11 jogadores que realizam ações diferentes durante os 90 minutos. É raro existir em uma partida um instante em que qualquer um dos atletas esteja totalmente desprovido de função na movimentação ofensiva ou no balanço defensivo.

Por ser um ambiente complexo, com tantas coisas acontecendo concomitantemente, o futebol tem de ser visto do ponto de vista sistêmico. As ações importam, é claro, mas são partes de um contexto e causam impacto determinante nesse âmbito.

A seleção sub-20, que ficou com o vice-campeonato mundial em torneio disputado na Nova Zelândia, é um bom exemplo disso. O time foi convocado por Alexandre Gallo, técnico que não sobreviveu até o torneio e foi substituído pouco antes por Rogério Micale.

A mudança da peça de comando, com os mesmos jogadores, alterou drasticamente o perfil do time. Micale instituiu um novo padrão tático, fez mudanças significativas – a linha defensiva mais adiantada, a marcação pressão e o meio-campo mais cheio, por exemplo – e incutiu na equipe um padrão de toque de bola que Gallo não havia conseguido (ou desejado) impor.

A seleção brasileira vice-campeã mundial sub-20 pode ser individualmente inferior ao time que conquistou o Mundial da categoria em 2011 (aquela geração, que tinha nomes como Danilo, Casemiro, Oscar, Philippe Coutinho, Lucas e Neymar, prescindiu de alguns titulares e ainda assim obteve a taça). No entanto, seria simplório demais comparar os dois times apenas do ponto de vista individual.

Mesmo sem o título, o time de Micale é um projeto bem feito. Um projeto de curto prazo, diga-se, mas um projeto bem feito. É uma seleção com recursos, padrão e boas ideias no sentido coletivo. São características que a equipe nacional não tem entre os profissionais, por exemplo.

Dunga, que voltou ao comando da seleção brasileira após a vexatória participação na Copa de 2014, amealhou 11 vitórias em seus 11 primeiros jogos na segunda passagem pela equipe nacional. A base disso foi uma combinação entre velocidade, talento individual e proposta de contragolpes.

No entanto, o time de Dunga ficou marcado apenas pelo talento individual. Baseado na força de Neymar, um dos principais nomes do futebol brasileiro nas últimas décadas, o elenco montado pelo treinador virou “a seleção do Neymar”. Mais uma vez, a análise individual foi posta à frente de um senso de contexto.

E por que esse é um problema para quem avalia o futebol? A Alemanha, campeã da Copa do Mundo em 2014, é um bom exemplo: é um time recheado de excelentes jogadores, mas não há um supercraque. Os maiores talentos individuais são colocados em funções que contribuem para um contexto vitorioso.

A Espanha que venceu a Copa de 2010 também era assim. Era uma geração de jogadores que mudaram o futebol, como Xavi e Iniesta, e havia ali uma proposta de domínio da bola que fazia total sentido para aproveitar aqueles talentos. Contudo, não era um projeto alicerçado apenas em individualidades.

Nós nos acostumamos a repetir que “Garrincha ganhou sozinho a Copa do Mundo de 1962” e que “Maradona carregou a Argentina ao título em 1986”. Esse padrão de análise perpassa tudo que falamos sobre times ou seleções: tudo é olhado a partir dos talentos individuais e de como eles podem render isoladamente.

A questão é que o futebol é um jogo de ações individuais, mas não um jogo individual. É uma sutileza, mas entender isso é fundamental para dar profundidade a qualquer análise sobre o que acontece em campo.

Se não for assim, seguiremos buscando projetos individuais e apoiando nossas visões em avaliações isoladas. Precisamos crescer a ponto de superar isso e olhar para o contexto.

É a falta de contexto que produz coisas como a atual seleção brasileira: um time montado pensando no curtíssimo prazo, focado em vencer jogos a despeito do que pode acontecer no próximo mês ou num futuro não tão iminente.

Quando a Copa do Mundo de 2018 acabar, independentemente do resultado, estaremos discutindo “por que os talentos brasileiros foram aproveitados de tal forma” ou “por que formamos jogadores com determinada característica”. Se mantivermos a atual mentalidade, seguiremos sempre olhando para o ponto individual e vamos ignorar o que é realmente relevante: o contexto.

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Atleta, exemplo?

Num mundo atual onde a exposição da vida humana chega a índices elevados com o uso indiscriminado das redes sociais e do universo dos selfies vivenciado por todos nós, é muito comum percebermos as pessoas expondo suas vidas sem muita consciência do impacto que podem causar a si próprias e aos demais de sua convivência.

Com os atletas de futebol, isso também acontece e em grande escala, muitos são reconhecidos como estrelas da mídia e este status oferece perigos aos atletas que não possuem uma vida mais estruturada e orientada dentro das expectativas traçadas por eles próprios para seu futuro.

Além do prejuízo causado à suas próprias vidas, muitos não percebem que servem de exemplo para muitas outras pessoas desde crianças até adultos. Muitos se perdem nesse turbilhão de estrelismo exacerbado que o mundo atual oferece.

Um exemplo muito recente foi o caso do acidente automobilístico do atleta da seleção chilena Vidal, no qual o mesmo se envolveu num acidente ao dirigir seu veículo após ter consumido níveis elevados de bebida alcoólica. Como ele, muitos não percebem o risco que existe por acreditarem que estão acima do bem e do mal pelo fato de serem atletas de ponta no futebol, seja no âmbito nacional ou mundial.

Pelo status que carregam, o comportamento destes atletas tem seus reflexos potencializados nas demais pessoas, independente se o comportamento apresentado por eles foi bom ou mau. Infelizmente os comportamentos ruins parecem ter mais efetividade nas pessoas que seguem o atleta de ponta, fazendo com que muitos jovens espelhem estes comportamentos em suas vidas.

Bom mesmo seria, se pudéssemos falar muito mais sobre exemplos de ótimos comportamentos dos atletas, que por possuírem uma adequada integridade e congruência de seus atos com suas expectativas para a face pessoal e profissional de sua vida, são invariavelmente associados a bons exemplos de conduta humana.

Assim, cabe a nós ao menos devemos refletirmos sobre o tema e contribuirmos de alguma forma para que a cada dia os exemplos destes heróis populares, do nosso país principalmente, sejam os melhores possíveis. Chega de maus exemplos, certo?

Até a próxima! 

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O (des)serviço na análise do legado da Copa

Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno. Esta será a tônica da análise desta coluna baseada nas inúmeras reportagens da última semana que versaram sobre os legados e os “legados” da Copa do Mundo de Futebol realizada no Brasil no ano passado. Separei algumas para ilustrar.

O fato é que, após um ano do megaevento, não foram poucas as tentativas de inflar as razões e emoções para tecer textos ou fazer comentários com baixo nível técnico (na maioria das vezes) e, pior, prejudiciais a qualquer tentativa de buscar uma evolução do segmento. Vamos a alguns deles:

1) ARENAS: já comentei em outras oportunidades que precisamos respeitar a taxa de aprendizado na gestão de novas arenas. Nós não temos, ainda, modelos de referência executados no país nesta área. Sim, temos alguns erros de projetos, que afetam em parte a sustentabilidade de algumas operações! Sim, poderíamos ter avançado mais rapidamente com base em experiências internacionais! Mas nem tudo pode ser jogado no lixo. Esta reportagem da Folha (http://goo.gl/1DxkqQ) é claramente um desserviço a evolução de pensamento que precisamos ter sobre a análise das novas arenas. Quando há tentativa de diversificação de receitas a partir de novos eventos, se é ridicularizado. Se a mesma estratégia fosse feita em uma arena europeia, por exemplo, seria ovacionada e festejada, como case de gênios. Vamos respeitar um pouco quem paga a (cara) conta da manutenção e operação destes equipamentos e contribuir com novas ideias e projetos para a sua rentabilização! Vamos também respeitar os eventuais erros nestas operações. O modelo de gestão de arenas esportivas no Brasil só será encontrado a partir de experiências brasileiras!

2) LEGADO: sim, bem-vindo ao mundo real. O legado estrutural prometido e associado com a Copa do Mundo não veio e não virá. Aliás, este vem sendo um erro tanto de FIFA quanto de COI de promessas de um mundo dos sonhos nos países ou cidades-sede de megaeventos que não se concretizou. O COI já percebeu esta falha – tanto que os Jogos Rio 2016 tendem a ser o último de um modelo que pertence ao passado (vide publicação da Agenda 2020) – e está se transformando no sentido de se adaptar os Jogos a cidade e não o contrário. O fato é que, apesar de grandiosos (gigantescos, mega ou o que for para colocar como superlativo), eles são “apenas” eventos esportivos. Se não respeitarmos as demandas e as características do país e das cidades-sede, não será possível construir legado. Não existe mágica. É triste ver este tipo de reportagem ((a) http://goo.gl/gzGG9u; (b) http://goo.gl/7XENaL; (c) http://goo.gl/TTpM87), principalmente pelo uso político do esporte, que agora nos transforma em vítima. Cabe a nós, do esporte, trabalhar para que, no futuro, o nosso segmento seja respeitado enquanto plataforma de negócio e não como instrumento para alavancagem de mal feitos políticos se quisermos ter algo positivo daqui para frente.

3) ANTECIPANDO OS 7×1: dentro de mais algumas semanas, preparem-se! Haverá muita gente querendo analisar o 7×1 e o “legado” deste resultado para o desenvolvimento do futebol brasileiro. Já antecipo: não, não mudou praticamente nada. Não parece ter havido aprendizado com o mal resultado esportivo como base para a transformação desejada do futebol brasileiro. E não haverá, se continuarmos a querer copiar os modelos daqueles que nos derrotaram. Enquanto não debatermos seriamente o nosso modelo de acordo com a nossa cultura, as características do nosso povo, das nossas instituições esportivas e demais pormenores, continuaremos a andar em círculo.

Para termos um legado de fato e podermos evoluir, precisamos melhorar também o nível deste debate. Enquanto trabalharmos com pensamentos completamente fora da realidade ao fazermos críticas sem embasamento sobre o que é e como funciona o nosso futebol, não haverá evolução, nem revolução, nem legado… 

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Os conceitos do jogo – parte III

Para encerrar o tema conceitos de jogo e sua relevância em debatê-los nos ambientes em que se discute futebol, será apresentado um pequeno vídeo com exemplos de transições ofensivas sendo realizadas por algumas equipes do futebol mundial.

Se você não acompanhou as duas publicações anteriores (parte I e parte II), sugiro que retome as leituras para que o vídeo e esta última discussão tenham, de fato, significado.

Aproveito para agradecer a participação dos profissionais Douglas Tales Jr., Marcelo Salazar, Marcelo Padilha e Lucas Almeida com comentários e opiniões que enriqueceram a argumentação.

Antes do vídeo, no entanto, serão deixadas mais algumas reflexões que visam contribuir com a temática proposta.

A primeira, feita por Paulo Jorge Ventura de Sousa em sua dissertação de mestrado, intitulada Organização do Jogo de Futebol (2005), em que cita José Guilherme e escreve:

“O momento de transição defesa/ataque é caracterizado pelos comportamentos que se devem ter durante os segundos imediatos ao ganhar-se a posse da bola. Estes segundos são importantes porque, tal como na transição ataque/defesa, as equipas encontram-se desorganizadas para as novas funções e o objectivo é aproveitar as desorganizações adversárias para proveito próprio.”

A segunda, publicada pelo treinador Carlos Carvalhal em 2011:

“Hoje em dia é recorrente falar-se em transição ofensiva, mas tenho a convicção que este termo é, na esmagadora maioria das vezes, usado de uma forma inadequada. É comum as pessoas associarem este momento a saídas em ataque rápido ou contra-ataque. (…) A Transição ofensiva pode ser caracterizada pelo preciso instante em que se recupera a bola! O que fazer a partir deste instante? Sim, instante!”

Assista, na sequencia, ao pequeno vídeo com alguns exemplos de transição ofensiva:

https://vimeo.com/130678985

A transição ofensiva, para muitos, é vista como a saída do campo de defesa para o campo de ataque. Sob este viés, a transição seria de terreno e não podemos nos esquecer que tratamos de uma transição de momento, neste caso, do defensivo para o ofensivo.

Outra confusão na interpretação conceitual do jogo que influencia o entendimento sobre as transições, é assumir que a equipe está em Organização Ofensiva somente quando, sob os olhos do treinador/observador, está organizada. Esta interpretação fere o caráter de oposição que o Jogo de Futebol possui e a própria semântica da palavra organização. Pois, primeiramente, o jogo e o nível das equipes permite que simultaneamente uma delas esteja organizada sem que a outra também esteja. E o fato de uma equipe não estar organizada, não significa que ela está em transição. Pois, organização não significa estar organizado e sim ato ou efeito de organizar-se. Ação permanente durante o jogo de futebol.

Para concluir, vale lembrar que sob a perspectiva sistêmica, o jogo é, por característica, indivisível. Não devemos separá-los em ataque, defesa, transições, posições, ou qualquer outra divisão/fragmentação que pretendamos. No entanto, para atingirmos objetivos globais com as equipes que construímos, treinos fractais (de partes do todo) devem ser realizados. Senão, bastaríamos fazer os populares treinos coletivos.

Bom trabalho e até a próxima. 

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Cruzeiro é multado pela Conmebol

O Cruzeiro foi eliminado da Copa Libertadores pelo River, mas, fora de campo, seu departamento jurídico continua trabalhando. Isso porque o Clube foi denunciado em razão do laser lançado no rosto do Rogério Ceni pelos torcedores e pela utilização de fogos de artifício e fumaça colorida na partida contra o São Paulo, válida pelas oitavas de final da competição.

Naquela oportunidade, o clube mineiro promoveu festival pirotécnico no início da partida o que, segundo a Conmebol teria infringido o artigo 11, 2, “b”, do regulamento disciplinar da competição, que pune a equipe por comportamento de seus torcedores que prejudiquem o andamento da partida ou ascendam fogos artificiais ou outros objetos pirotécnicos.

A infração pode ser punida com perda de mando de campo, multa, advertência ou até mesmo eliminação.

Em defesa, o Cruzeiro argumentou que o espírito do regulamento disciplinar é impedir que torcedores, incapacitados para a utilização de artigos de pirotecnia, possam causar violência ou expor os presentes no estádio a situações de risco e que, no caso em questão, o “show” de fogos de artifício foi realizado por empresa especializada e contratada para este fim. Além disso, o regulamento proíbe o torcedor e não as equipes participantes.

Ora, o regulamento, de fato, prevê a responsabilidade dos clubes pelos atos de seus torcedores, mas não faz qualquer menção à proibição das equipes utilizarem fogos de artifício, fumaça colorida e outros artigos, até mesmo porque, neste caso, existe todo um aparato técnico e de segurança.

Diante disso, o Tribunal Disciplinar da Conmebol acatou parcialmente a defesa da equipe celeste e aplicou a pena de multa de aproximadamente cinco mil dólares, de certo, apenas em razão do laser lançado, eis que a íntegra da decisão ainda não foi divulgada pela entidade.

Insta destacar que, além de não proibir a orquestração de pirotecnias e outros efeitos nas partidas, a Conmebol deve incentivá-la, já que tais medidas, quando realizadas de forma organizada e dentro das melhores técnicas de segurança só tem a engrandecer o espetáculo.

A Copa Libertadores da América deve se mirar no exemplo dado pela Uefa Champions League que oferece ao torcedor um verdadeiro espetáculo a cada partida. 

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Liga?

A criação de uma liga de clubes para a gestão das competições do futebol brasileiro se tornou o tema do momento após a deflagração dos escândalos de corrupção na Fifa e que se lastrearam para as principais entidades do futebol das Américas, incluindo a CBF. Mas o que é uma Liga de Clubes? Para que serve? É a solução para todos os problemas no âmbito do futebol? Será que todos os que defendem uma liga sabem responder a essas perguntas…

Novamente e, infelizmente, o debate sobre este tema importantíssimo para o futuro do futebol brasileiro está pautado por um ambiente estritamente político, emotivo e com baixíssimo amparo técnico. A Liga por si não fará o milagre da transformação! Mas, se bem estruturada e pensada, poderá sim ser um marco para a consolidação do nosso futebol em um produto de referência em termos globais.

As colocações aqui posicionadas parecem óbvias: ambiente político x argumentos técnicos e estruturados. O grande problema é que, há pelo menos duas décadas, insistimos no viés político, o que gera baixíssima taxa de mudança por razões óbvias, que é a da proteção ao ambiente interno. Como querer que os clubes liderem a mudança se o sistema político destes é idêntico ao de federações e da confederação, mudando apenas o “colégio eleitoral”?

Se não pensarmos em um projeto que olhe para a questão com múltiplas visões, incluindo o respeito às instituições e seu sistema político e, ao mesmo tempo, busque alternativas exequíveis no tempo com uma percepção sobre o mercado, continuaremos a conviver com debates sem qualquer efetividade. A temperatura do tema uma hora vai cair – logo logo o assunto do momento será outro! Se não se elevar o nível do debate para o campo prático e estrutural, não será possível conseguir nada.

Trocar o poder de mãos para uma nova gestão que contém uma mesma linha de raciocínio tende a não fazer muita diferença – apenas alimentará o embate político citado acima. Também não vejo amadurecimento suficiente, ainda, dos clubes trabalhando como “sócios”, que é o que se preconiza de forma bem básica um ambiente de Liga.

Por isso e por muitas outras coisas, é preciso pensar em um formato inicial de Liga que seja híbrido e com transição gradual, por mais que isso não seja o ideal em termos de alavancagem e estruturação de negócios (já tivemos algo nesta linha com o finado “Clube dos 13” – e todos sabem também no que ele se transformou e como acabou). Não adianta querer forçar goela abaixo um modelo que não é nosso em estruturas viciadas de poder. Isso só será feito se um bom projeto for montado com base no mundo real e não no de fantasias que boa parte da opinião pública está tentando construir.

Mas como pensar em progressão e longo prazo no Brasil é tão utópico quanto sonhar com uma Liga totalmente profissional e independente como muitos desejam, muito provavelmente continuaremos assistindo um “discurso para a torcida” em contraposição a ações voltadas para dentro com o intuito de proteger o ambiente político!

Reiterando: enquanto não se apresentar e se alinhar com TODOS os agentes envolvidos o seu papel dentro de uma possível Liga, mostrando quanto que cada um ganha e qual a respectiva função de todas as partes, não teremos efetividade alguma. É preciso aumentar a régua do debate para que tenhamos algo verdadeiramente transformador! 

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Coisas que não se misturam

Neymar é um verdadeiro fenômeno. Seguramente, a despeito de ainda ter apenas 23 anos (23!), o camisa 11 do Barcelona é um dos maiores talentos que o futebol brasileiro produziu nas últimas décadas. Todo esse potencial ficou claro (mais uma vez) no último sábado (06), no triunfo da equipe catalã por 3 a 1 sobre a Juventus, na decisão da edição 2014/2015 da Liga dos Campeões da Uefa. O brasileiro participou do lance do primeiro gol, anotou o terceiro e se colocou entre os artilheiros do principal torneio de clubes do planeta. Dois dias depois, porém, nada disso repercute mais do que uma faixa usada pelo atacante durante a comemoração.

Ainda no campo do estádio olímpico de Berlim, Neymar amarrou na testa uma faixa com a inscrição “100% Jesus”. O adereço religioso faz parte da trajetória do atacante – ele já havia usado em outras conquistas e até em jogos quando estava nas categorias de base. No entanto, o uso suscita uma importante discussão sobre limites e imagem do ídolo.

Antes, porém, cabem aqui alguns preâmbulos. O primeiro e mais premente: qualquer um jogador ou não, deve ser livre para ter a fé que quiser e manifestá-la como julgar mais pertinente. Não tenho qualquer pretensão de discutir o que é certo ou errado sob esse ponto de vista.

Outro aspecto é a legitimidade. Neymar repercute e forma tendência, e um dos grandes motivos para isso é que ele consegue vender naturalidade. Ele é um moleque que se comporta como moleque, que toma decisões (em campo e fora) com as quais o público consegue se identificar. O uso da faixa seria desastroso se o atacante tivesse usado um momento de glória para fazer publicidade ou vender qualquer produto, mas soa natural quando ele aproveita para reconhecer a relevância de algo como a fé no cotidiano. Neymar não vive disso e não se comporta de maneira oportunista quando o assunto é religião.

Fé é um assunto extremamente pessoal, mas tem repercussões que vão muito além disso. Não são poucas as guerras e as mortes causadas por disputas religiosas, e qualquer coisa que flerte com esse assunto costuma ser extremamente delicada. No domingo (07), a transexual Viviany Beleboni, 26, chocou ao fazer manifestação contra a homofobia na Parada do Orgulho LGBT, em São Paulo – ela vestiu roupas que remetiam a Jesus Cristo, pintou o corpo com tinta que emulava sangue e se amarrou a uma cruz de madeira.

Fotos de Beleboni circularam em redes sociais, e a transexual foi muito criticada por algo que algumas pessoas identificaram como “desrespeito religioso”. A atriz chegou a ser ameaçada. “Nunca tive intenção de atacar a Igreja”, disse ela ao site “G1”.

Neymar não ofendeu ninguém ao usar a faixa com a estampa “100% Jesus”. Contudo, é fundamental considerar que a decisão da Liga dos Campeões da Uefa foi exibida em 200 países, com mais de 180 mil espectadores em todo o mundo. O adereço escolhido pelo brasileiro impõe limites ao personagem que ele representa.

Como atleta e figura de mídia, Neymar é um alguém seguido, avaliado e copiado em todo o planeta. O brasileiro não fala apenas com fãs de seu país ou de sua religião, e o uso da faixa para comemorar o título limita demais o público que se identifica com ele.

O colunista Marcelo Rubens Paiva, de “O Estado de S. Paulo”, lembrou bem: o mundo tem mais de 1 bilhão de hinduístas, e 32% dos chineses são agnósticos. A faixa distancia Neymar de todo esse público.

Neymar tinha direito de mostrar fé e de usar o que quisesse para comemorar um título, mas a atitude dele levou a público um aspecto que deve ser privado para um formador de opinião. A não ser que o interesse dele fosse justamente uma segmentação de alcance.

É por isso, por exemplo, que o inglês David Beckham decidiu, em dado momento da carreira, vetar associação de sua imagem a produtos como refrigerantes. Foi uma segmentação planejada – ele não queria falar com o público que consumia esse tipo de produto porque achava que a imagem de um atleta não devia estar vinculada a algo que não seja totalmente saudável.

Nenhum outro jogador do Barcelona fez algo parecido com a faixa escolhida por Neymar. Não houve demonstrações políticas ou religiosas no restante do elenco. Nem um “100% Jardim Irene”, estampa feita pelo lateral direito Cafu em sua camisa antes de erguer a taça da Copa do Mundo de 2002.

Numa seara bem menos polêmica, Cafu também limitou o alcance daquela mensagem. A decisão da Copa do Mundo foi vista por bilhões de pessoas, e o lateral demonstrou entendimento sobre isso – antes de levantar a taça, subiu em um pedestal e se colocou num patamar superior ao dos dirigentes que entregaram o troféu. Mas as pessoas que não conhecem os bairros de São Paulo não entenderam a referência que ele colocou no uniforme.

A mensagem de Neymar não foi cifrada – mesmo as pessoas que não acreditam em Jesus entendem a referência. Do ponto de vista de comunicação, a questão ali é outra: Neymar é um produto, e rótulos que pespegam em produtos limitam o alcance.

Note que isso é totalmente diferente de Neymar adotar posicionamentos claros – mesmo se forem sobre religião. As coisas em que ele acredita e os pontos que ele defende contribuem para o personagem Neymar, mas a questão é como isso é feito. Ele não precisa omitir a fé ou as questões religiosas, mas talvez limitar esse tipo de manifestação a alguns fóruns adequados.

A limitação de espectro também cria uma limitação de abrangência. Neymar passa a ser um personagem menos viável, por exemplo, para marcas que tiverem intenção de falar com um público menos religioso.

“Ah, mas ele nem pensou nisso no momento da conquista de um título”, vão dizer alguns. É, pode não ter pensado. Mas devia.

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Renúncia de Blatter: e agora?

Após as denúncias de corrupção, o mundo do futebol foi, novamente, sacudido. Desta vez, pela renúncia do presidente da Fifa, o suíço Joseph Blatter, que acabara de ser reeleito para permanecer no cargo até 2019.

Outrossim, sob o ponto de vista jurídico, Blatter ainda não renunciou, mas, apenas informou que o fará em Congresso Extraordinário da FIFA. Ou seja, o suíço ainda é presidente da entidade.

Caso a renúncia se confirme, os artigos 30 e 32, do Estatuto da Fifa, estabelecem que o vice-presidente de maior antiguidade (mais tempo de serviço) assuma até a eleição do novo mandatário.

Eventuais candidatos à Presidência da Fifa deverão encaminhar o pedido à Secretaria Geral da entidade juntamente com o apoio de, ao menos 5 Federações Nacionais, no prazo de 4 meses antes do Congresso, donde se conclui que a eleição não ocorrerá em data próxima.

Além do apoio de 5 Federações, o candidato deve comprovar o exercício de "papel ativo" no futebol por pelo menos 2 dentre os 5 anos anteriores à apresentação da candidatura e idoneidade moral.

Importante destacar que, conforme prevê o art. 22 do estatuto da Fifa, o Congresso Extraordinário poderá ser convocado a qualquer tempo pelo Comitê Executivo com antecedência mínima de 2 meses da data de sua realização.

Diante dos indícios de corrupção, do risco de debandada de patrocinadores e da ameaça de boicote da Uefa, Joseph Blatter tomou uma decisão corajosa e importante para o futebol, eis que a sua permanência traria um ambiente de desconforto de consequências inimagináveis.

Além disso, após 17 anos na presidência da Fifa, a entidade e o futebol precisavam se arejar e se modernizar e, para isso, a alternância no poder é essencial.

Ainda não se tem notícia dos candidatos, mas, alguns nomes já começaram a ser especulados, dentre eles Michel Platini, ex-jogador francês e atual Presidente da Uefa, Michel van Praag, dirigente holandês, Luis Figo, ex-jogador português, Ali Bin Al Hussein, príncipe jordaine, derrotado nas últimas eleições e, finalmente, o ex-jogador Zico.

Seria de extrema valia para o futebol que a Fifa fosse presidida por um ex-atleta de alto nível, com reputação irrefutável, bem como força e carisma para conduzir e administrar o futebol em um período tão conturbado.

De toda sorte, as últimas semanas trouxeram um enorme alento para os amantes do futebol que aguardam ansiosamente para um final feliz. 

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Ética no futebol?

Em meio a tantas situações de corrupção no mundo em geral, o futebol não passaria imune a este cenário. E assim, vimos as recentes situações envolvendo a Fifa e algumas confederações de futebol pelo mundo.

Se pensarmos que o ser humano é a mola propulsora de cada cidade, estado e país, que tudo que vivemos e materializamos é realizado pela vontade humana em promover o desenvolvimento da humanidade e do nosso planeta, fica bem fácil imaginarmos o quanto poder cada um de nós possui para materializar ideias maravilhosas em coisas de muito valor para cada um e para os demais. Como também podemos presenciar o poder temos, ser praticado de forma negligente, egoísta e destruidora.

No futebol, os casos recentes envolvendo a Fifa coloca em cheque a conduta de dirigentes das instituições ligadas ao futebol, pois estamos falando de um ambiente no qual os volumes monetários são de montantes muitas vezes pouco imaginados por muitos que militam nesse meio.

Aí entra uma questão humana muito importante: a Ética nas relações e no trabalho. O filósofo Mario Sergio Cortella define a ética como a concepção dos que escolhemos. Ele explora ainda mais essa questão, compartilhando que a ética também pode ser compreendida como o conjunto de princípios e valores de uma pessoa que serve para orientar as suas condutas. Sendo a moral a pratica de suas condutas éticas. Em sua visão mais prática a ética é o conjunto de valores e princípios que usamos para responder a três grandes questões da vida:

• Quero
• Devo
• Posso

Ou seja, na sua opinião estas questões refletem as seguintes situações: “nem tudo que nós queremos, nós podemos fazer”, “nem tudo que podemos fazer, nós devemos fazer” e “nem tudo que devemos fazer, nós queremos fazer”.

Ele ainda conclui que as pessoas passam a ter paz de espírito quando aquilo que se deseja é ao mesmo tempo aquilo que você pode fazer e também é o que você deve fazer.

Então, se pensarmos no mundo do futebol, como no nosso cotidiano em geral, os dirigentes devem colocar em prática ações que tenham congruência com aquilo que se espera dos ocupantes dos cargos que eles representam. Ou seja, que eles possam fazer da melhor forma suas atividades para as quais foram destinados, de forma que elas representem o que deva ser feito para o melhor da entidade a qual ele representa e que também possa ele ter o prazer e o interesse genuíno de fazer o trabalho que lhe cabe da melhor forma possível.

E aí, caro leitor como percebe a ética no futebol atualmente?