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Agenda positiva

Um amigo meu costuma dizer que “nós não vivemos mais na Era da Dúvida”. Instantes depois, desliza os dedos em alguns movimentos na tela de um smartphone e apresenta resposta para questões que anos antes perdurariam por horas – o autor de um gol numa partida histórica, o filme que ganhou o Oscar em determinado ano ou o autor de uma frase marcante, por exemplo. O advento da internet proporcionou uma disseminação inigualável da informação, e isso transformou o controle dos dados em grande diferencial. O problema é que o esporte muitas vezes não entende isso.

Hoje em dia, qualquer dado está a poucos cliques de distância. Com um acervo tão vasto à disposição, vivemos um período em que o controle da informação é a grande moeda: saber como tratar, entender o que é relevante e ter relevância (credibilidade + popularidade + popularidade com os nichos certos).

Um dos pilares desse controle é o trabalho reativo, que muitas vezes é baseado em administração de crise. Pensar em gerenciamento de informação demanda criar uma estrutura para conter vazamentos e direcionar o que é publicado sobre determinado assunto, mas também inclui um esforço para minimizar o que foge desse espectro.

É o que acontece em um escândalo, por exemplo. Uma equipe de comunicação tem de montar estratégias para minimizar denúncias, preparar porta-vozes e estruturar contragolpes para reduzir o impacto de algo que já é negativo.

O ponto aqui, contudo, é outro: o trabalho proativo. O esporte brasileiro tem bons exemplos de gerenciamento de crise, mas quais são os esforços para criação de agenda positiva? Já falamos inúmeras vezes sobre a falta de cultura de promoção de evento, e esse é um aspecto nevrálgico para a deficiência.

O Campeonato Brasileiro, principal torneio do futebol brasileiro, já teve três rodadas em 2015 e serve como exemplo. A média de gols (2,00 por jogo) é a pior desde 1990, e o público não chega a 13 mil por partida (12.968, para ser exato), com taxa de ocupação de estádios em torno de 28%.

As histórias do início da temporada são negativas. É um campeonato de baixo nível técnico, com estádios vazios e times grandes em momentos conturbados (Corinthians, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Palmeiras e São Paulo, por exemplo). A quantidade de notícias ruins sobre o certame é infinitamente maior do que o volume de críticas. Agora pense: o que é feito para mudar isso?

Sport e Goiás, times que ocupam as duas primeiras posições da tabela, são dois bons exemplos de histórias que podiam ser mais bem contadas. Além de tudo, são elencos com boas opções de personagens.

No entanto, quais são os grandes jogadores de cada uma das equipes? O que eles fazem para ter um índice de ascendência que extrapole suas próprias torcidas? Trabalhar apenas com o público que já consome sua marca é fácil, mas contribui pouco para o evento no sentido institucional.

Um projeto eficiente de comunicação no esporte tem de ser totalmente alicerçado em protagonistas. O contato direto e bem feito de atletas com o público ainda é a melhor forma de vender uma ideia. Qualquer liga estruturada entende isso.

E o Campeonato Brasileiro? O que o torneio faz para criar uma agenda positiva e garantir que as pessoas tenham uma percepção favorável sobre o que está acontecendo? Que tipo de controle é exercido sobre a informação?

A resposta é “nenhum”. O futebol brasileiro simplesmente não controla a informação. Não há um projeto direcionado a aproveitar melhor os bons personagens ou as boas histórias. Não há qualquer esforço para que as pessoas falem bem do produto.

Agora tente transportar essa lógica para a publicidade – ignorando uma série de particularidades das duas áreas, é claro: qual empresa se contenta em mostrar um produto apenas a pessoas que já têm pré-disposição para comprá-lo, e ainda por cima não faz qualquer esforço para falar bem da marca? É isso que acontece no Campeonato Brasileiro.

O mercado americano tem dado dois bons exemplos contrários. O primeiro vem da NBA, a liga profissional de basquete dos Estados Unidos. A competição tem uma temporada regular arrastada, que muitas vezes é criticada por questões técnicas e físicas, mas é inegável o esforço para gerar conteúdo. Isso fica ainda mais nítido em períodos como o atual, perto do término da disputa.

Você não precisa acompanhar a NBA para ter ouvido falar em nomes como James Harden, LeBron James e Stephen Curry, por exemplo. E mesmo se você não ouviu os nomes ou não viu os conteúdos gerados pela liga sobre seus protagonistas, certamente viu as imagens deles em alguma peça publicitária do torneio, dos times ou dos parceiros.

A temporada da NBA está a poucos jogos do desfecho. O conteúdo sobre a liga, contudo, extrapola demais o limite imposto pelo calendário. Essa é uma lição relevante.

Outro exemplo foi dado pelas 500 Milhas de Indianápolis. Veja: é apenas uma etapa de uma categoria que nem de longe é um fenômeno mundial de popularidade no automobilismo. Ainda assim, é uma marca extremamente relevante, que desperta interesse muito além dos fãs do esporte.

As 500 Milhas de Indianápolis são, na verdade, um evento que dura 30 dias, com uso do circuito para shows, apresentações de diversos esportes e diferentes formas de interação com o público. A corrida é apenas um detalhe nesse projeto todo.

Com uma programação tão extensa, o evento movimenta o noticiário local e atrai consumidores que não são apenas os apaixonados por corrida. É uma chance perfeita para aumentar a base de vendas.

Além disso, trata-se de uma forma de ampliar a relação de patrocinadores com o público, reduzindo a importância da exposição de mídia para essas marcas. É algo que aumenta consideravelmente o valor associado aos aportes, portanto.

O Brasil, o tal país do futebol, não consegue lotar estádios em sua principal competição nacional e não consegue fazer com que o evento seja notícia por motivos positivos. Achar que a simples paixão do povo pelo esporte vai ser suficiente para virar esse jogo é ingenuidade demais ou preguiça demais.

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Boca, River, rivalidade e violência

Boca e River protagonizam a maior rivalidade da Argentina e uma das maiores do mundo. Esta rivalidade atingiu o ápice da violência no confronto válido pelas oitavas de final da Libertadores da América, quando um torcedor do Boca, dono da casa, lançou gás de pimenta no túnel de jogadores do River. O incidente culminou com decisão do Tribunal Disciplinar da Conmebol que eliminou o Boca Jrs da competição.

Fundado em 1901, o River Plate é fruto da fusão de dois clubes amadores de Buenos Aires e, nos anos 30 adquiriu a alcunha de “Millionarios” devido ao elevado número de associados que garantia ao clube uma receita considerável.

O Boca Juniors, por seu turno, foi fundado em 1905 por imigrantes italianos que residiam no bairro de La Boca, região menos abastada de Buenos Aires. Sua origem ligada à população humilde trouxe ao clube grande identidade com o povo.

A rivalidade acentua-se no paradoxo socioeconômico estabelecido entre os clubes.

No intuito de banir a violência que ronda o confronto, passou-se a adotar as torcidas únicas. Entretanto, como se percebeu e já era previsto pelos pesquisadores, tal medida não é eficaz no combate à violência nos estádios de futebol.

Ora, a paz nos estádios de futebol necessita de medidas pedagógicas, bem como punição célere e efetiva, dentre outras.

Não obstante, os dirigentes e as autoridades buscam restrições ao álcool e torcida ao invés de atacar o problema na sua raiz.

No caso em comento, a Conmebol acertou ao punir o Boca com a eliminação e perda de mandos de campo e, ainda, demonstrou significativa evolução desde que seu Tribunal Disciplinar foi criado, eis que no incidente do Corinthians, em 2013, na Bolívia onde ocorreu uma morte, a punição havia sido extremamente branda.

O futebol sul-americano precisa extirpar a violência de seus estádios de forma a valorizar seu produto e fortalecer seus clubes, caso contrário cada dia perderão mais torcedores e telespectadores para o futebol europeu.

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Equipes em armadilha

Mal começou o Campeonato Brasileiro de futebol deste ano e já nos deparamos com a primeira demissão de um treinador. Após apenas duas rodadas, o primeiro técnico de um clube da série A já deixou o comando do seu clube.

O que terá acontecido para que os resultados esperados não se materializassem?

Sabemos que este tipo de situação se manterá presente durante a competição, seja para um ou outro clube. Mas como se prevenir de algumas questões que podemos considerar como armadilhas que os times estão sujeitos a passar, conforme as citadas por Patrick Lencioni em seu livro “As cinco disfunções de um time”.

Quero citar uma destas cinco armadilhas como um ponto de importante análise por parte das equipes de seus treinadores – “a falta de confiança”. Esta armadilha é como se fosse a causa raiz de problemas que causam a partir dela uma certa quantidade de efeitos colaterais para o time.

Se pensarmos na palavra confiança, podemos compreende-la como a crença de que as pessoas de quem dependemos irão realmente cumprir com nossas expectativas. A confiança está lastreada em 3 pilares básicos:

• Resultados
• Demonstração de preocupação
• Integridade

É raro um time conseguir uma relação de confiança que resista a resultados insuficientes dentro de campo, assim podemos entender que o resultado pode ser considerado uma premissa para que a confiança se instale em qualquer grupo de atletas. Em relação a preocupação, toda vez que uma pessoa se preocupa com outra, demonstra todo esforço dedicado a cumprir com as expectativas do outro, estimulando assim a criação de um elo de segurança que sustentará a relação de confiança entre os membros do grupo. A integridade se qualifica como uma palavra que pode ser decomposta em Ética, Honestidade, Consciência e Responsabilidade.

Nos grupos em que a confiança se faz presente, os atletas demonstram comportamentos como por exemplo:

• Pede ajuda a outro membro do grupo
• Aceita sugestões de pessoas externas
• Admite fraquezas e erros
• Fornece o benefício da dúvida antes de concluir algo pelo simples julgamento do outro
• Cumpre as expectativas dos outros e informar quando não irá conseguir cumpri-las
• Aprecia as competências compartilhadas dos membros do grupo

Neste sentido, o papel do treinador pode ser fundamental pois a confiança nunca é adquirida do dia para a noite, irá requerer que o grupo dedique seu tempo juntos e que efetivamente possam tratar francamente suas vulnerabilidades. Seguindo nessa direção o treinador poderá exercer um papel de integrador e também de membro deste grupo, criando elos duradouros de segurança com seus atletas, para que possam aceitar as vulnerabilidades da equipe e com isso possam admitir que algo de melhor possa ser feito em termos de evolução tática e técnica dentro de campo.

E aí amigo leitor, concorda que esta armadilha poderá estar presente durante todo o campeonato?

Até a próxima. 

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Bolhas de gestão

A gestão do esporte entrou definitivamente na pauta dos principais programas e reportagens sobre o esporte nos últimos tempos. Ainda que, por vezes, muitos dos argumentos são construídos de maneira empírica, é inegável como este tem sido um tema recorrente, a ponto de se tornar pauta, também, dos “papos de botequim”, o que evidencia a sua “popularização”. Não são raros os programas que passam do debate das quatro linhas do jogo para falar de patrocínio, finanças e política dos clubes de futebol.

Bom por um lado, uma vez que passamos a começar a olhar os resultados de campo de uma maneira diferente, a partir de uma percepção mais cética, cautelosa e ampla. Muito ruim, porque, ainda, existem muitas percepções completamente distorcidas da realidade vivida pelos clubes de futebol do país e dos significados sobre os conceitos de gestão do esporte, o que atrapalha em certas circunstâncias o desenvolvimento desejado para as organizações do esporte.

No que diz respeito a forma e aos casos relacionados a gestão dos clubes, uma definição que para mim começou a ser convincente no ambiente de diálogo com colegas (especialistas ou não da área) ou alunos ou mesmo individualmente, para analisar os fatos, é o que passei a chamar de “Bolha de Gestão”.

O significado deste conceito é que a gestão por especialistas ainda não se tornou uma cultura enraizada nos clubes de futebol, passando por processos de altos e baixos. São levados ao sabor do vento sob as crenças e atitudes de grupos que passam pelo clube a cada ciclo eleitoral, ou seja, quando há um grupo político disposto a melhorar a forma como as coisas funcionam, conseguem fazê-lo por um curto período de tempo, até a chegada de um novo que, com pensamentos diferentes, podem dar continuidade, com aperfeiçoamento, ou simplesmente mudar tudo, retrocedendo um conjunto de mudanças positivas.

Como dois ou quatro anos, por vezes, é muito pouco tempo, na prática, consegue-se apenas formar uma bolha que blinda momentaneamente aquilo que não é desejável entrar de fora para dentro. Como as intervenções necessárias para o futebol brasileiro deveriam ser pensadas e executadas em décadas em virtude da sua complexidade e defasagem histórica sobre processos de inovação, o quadro final é o que temos hoje: “causos” e não “cases” de gestão do esporte! E é sob esta confusão, especialmente, o aspecto principal que os analistas mais erram, o que prejudica a evolução continuada.

Também e, talvez, principalmente, que as decisões do presente, na grande maioria dos casos, são para resolver problemas unicamente do momento, sem uma visão sobre os impactos no futuro. A sustentabilidade das decisões é moldada conforme a necessidade de hoje!

É por isso que assistimos um Corinthians avassalador no início desta década e já vemos uma situação periclitante na metade dela, apenas 5 anos depois. A conta demorou um pouquinho a chegar, mas veio. E com força que pode ser devastadora para os projetos do clube nos próximos anos se não aparecer um fato novo que mude o quadro preocupante de hoje.

O São Paulo é um exemplo ao contrário. Cansou de acertar nas décadas de 1990 e início dos anos 2000. De tanto acertar, parece que resolveu voltar a um modelo de clube do passado. A situação talvez só não seja pior porque a construção histórica deu bases muito sólidas para a manutenção de um status razoável hoje em dia, isto é, uma cultura forte de gestão que é difícil ser mudada no curto prazo para gerar um efeito tão negativo.

Já o Flamengo é a “menina dos olhos” do momento. E de forma justa! Os problemas do passado são enormes e desafiadores, impactando em muitas coisas na gestão do presente. Muito provavelmente, as intervenções dos últimos 3 anos só terão efeito positivo daqui mais uns 3 a 5 anos, se não mais. O dilema aparece quando há um conflito entre o que deve ser feito no âmbito da gestão ante aquilo que o torcedor (e opinião pública) desejam que se faça no campo, no próximo jogo… É aí que os bons projetos tem perdido a mão no país.

Não que a boa gestão é contrária à performance em campo. Muito pelo contrário: um lado contribui com o outro. A boa gestão irá garantir que se faça um bom trabalho no aspecto esportivo sem afetar o desenvolvimento organizacional futuro, de modo a manter de forma mais perene a performance e os resultados econômicos do clube.

O ponto de inflexão está nas dificuldades em processos de tomadas de decisão pelo ambiente de conflito entre uma gestão mais racional e equilibrada com a necessidade de resultados esportivos de curto prazo. Eis uma situação peculiar da indústria do esporte que não é percebida em outros ambientes de negócio.

Por isso, o equilíbrio é fundamental! Para não termos as tais “bolhas” ao longo do tempo, para o bem ou para o mal, é necessário que os clubes passem a trabalhar com mais clareza e transparência seus processos de gestão e onde querem chegar com o tempo – e com recursos próprios!

Outra forma de “bolha” comum no meio do futebol é a chegada de dirigentes mais abastados que colocam dinheiro no clube, seja por meio de doação ou mesmo por empréstimo. A falsa sensação de melhoria em um período específico dá lugar à realidade anos mais tarde. Por isso o termo “recursos próprios” foi enfatizado no parágrafo anterior.

Enfim, para o bem do futebol brasileiro, precisamos desenvolver urgentemente um processo de melhoria da visão de performance organizacional em detrimento a performance de diferentes dirigentes. Se invertermos um pouco esta lógica, tenho plena convicção de que muitas coisas poderão mudar positivamente! 

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Padrão Libertadores

A cena é chocante. Intervalo de jogo entre Boca Juniors e River Plate, válido pelas oitavas de final da Copa Bridgestone Libertadores. Durante confusão num túnel de acesso aos vestiários da Bombonera, um homem ainda não identificado atirou nos jogadores do River Plate uma mistura conhecida como “mostacero”, que combina pimenta caiena e ácido para fermentação. A partida estava empatada por 0 a 0, e a equipe atacada se recusou a voltar para o segundo tempo. O episódio causou a eliminação do Boca Juniors, punido pela Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol).

Maior clássico do futebol argentino, o jogo era um dos mais aguardados da fase que abriu o mata-mata da Libertadores. Até por isso, foi acompanhado com grande interesse em diferentes partes do planeta. O recado que o futebol sul-americano transmitiu foi o pior possível.

A Fifa, entidade que comanda o futebol mundial, fez pressão para que o Boca Juniors, dono do estádio, fosse punido de forma exemplar. O time argentino alegou que havia tomado todas as medidas de segurança cabíveis e que estava trabalhando para identificar o infrator, mas isso não evitou sua exclusão da Libertadores.

A sanção foi definida após audiência no sábado (16), em Luque (Paraguai), sede da Conmebol. A sessão contraria os procedimentos corriqueiros da entidade, que costuma definir punições com base em um ou dois relatores, mas um julgamento como o que aconteceu é inusitado – o que demonstra mais uma vez o estado de exceção do caso.

A diretoria do Boca Juniors recorreu e chegou a cogitar ir à Fifa. Depois, descartou para buscar o Tribunal Arbitral Sul-Americano, criado no ano passado. A diretoria tenta ao menos reduzir a pena imposta pela Conmebol.

A Fifa, por outro lado, ainda cobra uma punição mais severa. Segundo o jornal “AS”, até a distribuição de vagas para a Copa do Mundo tem sido usada na negociação sobre o futuro do Boca Juniors – temendo prejuízos financeiros causados por uma exclusão mais longeva do time mais popular da Argentina, a Conmebol abriria mão de um lugar no Mundial para ratificar a pena proposta no sábado.

Enquanto a sanção ao Boca Juniors ainda era discutida, o jogador Sebastián Driussi, do River Plate foi internado no sábado, acometido por uma inflamação no cérebro por causa do ataque. Ele deixou o hospital nesta segunda-feira (18), mas ainda pode ser cortado do Mundial sub-20 deste ano – o jogador foi convocado para defender a seleção argentina.

A discussão é política, jurídica, social e até de saúde. A discussão só não é sobre futebol: perdem os clubes, perde a Libertadores e perde o esporte da América do Sul. O padrão de evento mostrado pela principal competição de clubes do continente é mais uma vez uma demonstração de atraso e de total incapacidade de gestão.

A comparação com a Liga dos Campeões da Uefa ou com ligas de outras modalidades é até cruel. A tal mística sul-americana e o espírito de Libertadores, que ajudaram a forjar a história do torneio, podem até ser elementos dramáticos consistentes. Essas coisas só não são boas para o evento em si.

Punir o Boca Juniors de forma exemplar, portanto, não é apenas zelar pelo jogo. A Conmebol precisa fazer isso para mostrar que o que aconteceu na quinta-feira é intolerável – e aí não entra sequer um julgamento de quem fez, quem deixou de fazer ou quem tentou impedir.

Mais do que punir o Boca Juniors, a Conmebol precisa usar o episódio da Argentina como um ponto de virada para o futebol no continente. Chega de escudos protegendo jogadores que tentam cobrar escanteios e chega de torcedores tentando intimidar quem está ali apenas para trabalhar – atletas, técnicos e árbitros, por exemplo. Chega de tudo que moldou a imagem da Libertadores – e moldou da pior forma possível.

A Conmebol tem agora uma oportunidade perfeita para recomeçar. Com ranços e com mágoas produzidas pelas agruras de anos anteriores, mas com uma perspectiva de salvar a imagem do futebol local. O caso da Argentina pode ser o Hillsborough local. Em 1989, episódio em que 96 torcedores do Liverpool morreram e outros 766 ficaram feridos teve papel preponderante para a criação da Premier League.

Não, não foi apenas por causa da tragédia que o futebol inglês criou um novo padrão para seus eventos. Contudo, aquela foi uma oportunidade para balizar toda a discussão sobre o jogo e como o futebol podia ser transformado em um produto melhor. Tudo que aconteceu na Inglaterra depois disso tem influência direta de Hillsborough.

A Argentina não é Hillsborough. Kevin Spada não representa centenas de torcedores. Ainda assim, a oportunidade para a Conmebol está dada. Ou talvez a entidade queira aproveitar uma tragédia de grandes proporções para fazer as mudanças que o futebol sul-americano precisa há tempos.

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Os conceitos do jogo – parte I

Discutir futebol é uma tarefa complexa! Num país com milhões de treinadores, a missão torna-se ainda mais complicada quando é preciso discutir conceitos.

Utopicamente, seria interessante se a comunidade que acompanha a modalidade compreendesse conceitos universais e atuais do jogo. Com olhar mais apurado, a exigência, a cobrança e a troca de informações sobre os produtos oferecidos pelas equipes (através de seus respectivos Modelos de Jogo) seriam mais ricas e gerariam um efeito positivo neste contexto, geralmente marcado pelas previsibilidades, clichês, análises superficiais e imediatismos comuns de nossa cultura.

Se, no macro-ambiente, as transformações e construções de novos conhecimentos podem ser consideradas, de certa forma, inatingíveis, no micro-ambiente, as possibilidades são maiores. Em um grupo menor de pessoas, torna-se mais fácil conhecer, compreender e dar, permanentemente, novos significados a um fenômeno em constante evolução. No caso, ao futebol.

Para ler a coluna na íntegra, basta clicar aqui

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Vai dar Liga? Entenda

A reta final dos campeonatos estaduais ficou marcada pelo desconforto de alguns clubes (especialmente Cruzeiro, Flamengo, Fluminense e Atlético/PR) com suas respectivas Federações e com as competições locais.

Espelhados no estrondoso sucesso da Liga do Nordeste e desestimulados por divergências políticas e pelo baixo índice técnico e financeiro dos campeonatos estaduais, Flamengo, Fluminense, Coritiba, Paraná Clube, Atlético/PR e Cruzeiro tem acenado com a hipótese de criarem uma Liga a ser disputada concomitantemente com os estaduais.

As Ligas, nos termos do art.13, da Lei Pelé, fazem parte do Sistema Nacional do Desporto e, conforme o artigo 16 da mesma norma, são pessoas jurídicas de direito privado, com organização e funcionamento autônomo, podendo filiar-se ou vincular-se à CBF que, por seu turno não pode exigir a filiação ou vinculação.

Ou seja, a Lei Pelé autoriza a criação de ligas independentes, sem qualquer necessidade de “benção” das Entidades Organizadoras.

Assim, conforme estabelece o artigo 20, da Lei Pelé, os clubes poderão organizar ligas regionais ou nacionais, simplesmente comunicando-se a sua criação às entidades nacionais de administração do desporto, no caso, Federações Estaduais e CBF, sendo proibida qualquer intervenção.

No que diz respeito às questões disciplinares, as ligas poderão instituir sua própria Justiça Desportiva para julgamentos de suas competições.

Importante ressaltar que quando se fala em rompimento de clubes com as Federações, seguramente não se trata de desfiliação, mas de uma atitude no sentido de não priorizar os estaduais e disputá-lo com equipes de novos e/ou aspirantes, eis que a desfiliação retiraria o clube de toda e qualquer competição organizada por FIFA, CONMEBOL e CBF.

Portanto, é legalmente reconhecido o direitos dos clubes buscarem competições alternativas por meio de ligas independentes que podem, inclusive, auxiliar no desenvolvimento da modalidade esportiva, como ocorreu no basquete brasileiro que, após a criação da liga independente, conseguiu maior receita e visibilidade e próprio futebol com a Liga do Nordeste.

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O medo de errar dos atletas

Quando os atletas em geral passam por insucessos ou provações na carreira, em muitos casos acabam paralisados e deixam o medo impedir seu desenvolvimento.

Errar faze parte do processo de aprendizagem humana e quando os atletas evitam correr riscos por medo de cometer erros estão matando sua criatividade e seu talento natural para a prática esportiva, podendo tornarem-se improdutivos.

Sem que o atleta perceba, a preocupação constante com a possibilidade do fracasso o fará cometer mais erros ainda e com isso sentir-se culpado com esse processo. Aceitar o erro é o primeiro passo para evoluir, reconhecer que algo não está indo bem faz com que o atleta deixe de lado o coitadismo e contribui para que ele perceba que o erro não é ele próprio.

Atualmente a síndrome do coitadismo atinge uma grande fatia da população e pode ser definida como a incapacidade do ser humano de tomar o rumo de sua vida e buscar a realização de seus objetivos. Com os atletas o mesmo acontece e muitos ficam na zona de conforto do o insucesso, culpando tudo e a todos ao redor para justificar sua dificuldade em reconhecer que precisa e de que pode evoluir.

“A persistência é o que torna possível o impossível; o possível, provável e o provável seguro.” – Robert Half

É importante para todo atleta buscar novas oportunidades para superar os seus obstáculos do dia a dia. É importante compreender que a cada dia em que o atleta começa uma nova tarefa profissional, este torna-se um momento de encarar como uma oportunidade de começar de novo. Novos resultados são construídos com novos comportamentos, o que ficou no passado deve servir de aprendizado e não de escravidão emocional.

Um bom exemplo de como cada nova tentativa é um recomeço pode-se observar na história dos autores do livro “Histórias para aquecer o coração”, eles apresentaram seu livro em 130 editoras e em todas obtiveram a mesma resposta: NÃO! Porém insistiram no seu objetivo e conseguiram, na tentativa de número 131 eles obtiveram a resposta SIM. Este exemplo nos mostra que sempre há um recomeço em nossas vidas e os atletas podem e devem estar atentos a isso. Não renunciar aos seus objetivos é o ponto fundamental para manter seu foco e persistência na busca por seus melhores resultados.

Por parte dos demais profissionais envolvidos no ambiente profissional dos atletas, cabe o exercício do estímulo constante ao aperfeiçoamento dos comportamentos para que com isso os atletas possam perceber a existência de um ambiente de confiança, que facilite ao atleta o aprendizado através do reforço dos acertos e do ajuste e desenvolvimento com os seus próprios erros. Assim o atleta tem maior possibilidade em ser realmente protagonista ou “titular” de sua própria carreira profissional e vida pessoal.

Vamos nos permitir errar? Talvez não seja tão ruim quanto parece, pois poderão haver muitos aprendizados escondidos por trás dos nossos erros. 

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O valor do patrocínio (parte 03 de 03)

Nos outros dois textos, falamos em atingir pessoas. Falamos em quantidade. Impactar! Certo: o volume interessa e muito. Não é por acaso que os 30” de comercial na Globo no intervalo da novela das 8 ou do Jornal Nacional valem muito mais do que os mesmos 30” durante a programação da Sessão da Tarde, por exemplo (para ficarmos em exemplos de um único veículo de mídia). A resposta está, obviamente, na quantidade histórica de pessoas que tais programações atingem. Quanto mais gente, maior o valor.

Contudo, é preciso perceber que na imensidão dos diferentes públicos que consomem os inúmeros conteúdos disponíveis no mercado, seja por meios eletrônicos ou vivenciados pessoalmente por meio de experiências, existem “nicho” ou “nichos” alocados neste universo.

Se pensarmos em uma massa de um grande clube de futebol no Brasil, com seus mais de 10 milhões de torcedores, naturalmente encontraremos uma diversidade enorme de comportamentos e públicos.

Tem o torcedor que gosta de ir aos jogos com a família – esposa e filhos, por exemplo. Outros que gostam de ir em grupos de amigos. Há os que preferem se reunir também em grupos, só que em casa, fazendo um churrasco no final de semana. Outros tantos que preferem viajar e assistir todos os jogos da temporada, dentro ou fora de casa. Os que adoram ver o jogo de pé. Os que optam por mais conforto, com serviços específicos. Há ainda extratos nestes grupos dos que compram pelo menos uma vez por ano a camisa oficial do clube. Outros que optam por só comprar produtos de patrocinadores do seu clube. Aqueles que simplesmente curtem e compartilham conteúdo do seu clube pelas redes sociais. Tem também (…)

Enfim, poderíamos gastar algumas páginas para falar dos diferentes comportamentos das pessoas que tem afinidade por um elemento, mas que o consomem de maneiras distintas. E qual a relação disso com o patrocínio? Total! Ao compreender esses nichos, podemos dimensionar melhor os valores de propriedades em múltiplas esferas e não olhar somente para o patrocínio de camisa.

Quando sabemos exatamente quem são, quantos são e com que frequência, é possível mensurar os esforços e lastrear sobre os diferentes segmentos de mercado, podendo atingir empresas de pequeno, médio e grande porte, mesmo em clubes de grandes massas de torcedores.

Os valores dos patrocínios poderão variar conforme o potencial de alcance de público de cada propriedade, sendo calculado de maneira racional e tendo como premissa o nível de relacionamento e proximidade com o público.

A partir desta linha de raciocínio, tem-se números para avaliar não só o valor da Cota Máster de um patrocínio de camisa, mas também, além de racionalizar o cálculo do valor mais alto, chega-se ao valor exato do clube como um todo a partir da soma das várias propriedades.

Para querer ser diferente tem-se que pensar em alternativas diferentes. Enquanto continuarmos a vender visibilidade, é natural que as empresas irão comprar tão somente visibilidade. O fato é que é possível ser muito melhor do que isso!

Leia mais:
O valor do patrocínio (parte 02 de 03)
O valor do patrocínio (parte 01 de 03) 

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O início do Campeonato Brasileiro e a proteção aos patrocinadores

Dos 20 times da primeira divisão, ao menos seis pouparam titulares na primeira rodada do Campeonato Brasileiro de 2015 – os jogos que iniciaram o certame foram distribuídos pelo último fim de semana, num período encravado entre partidas agudas de torneios como Copa do Brasil e Copa Bridgestone Libertadores. Agendado para um período conturbado, o começo da principal competição de clubes do futebol nacional também não motivou enorme trabalho de promoção, o que resultou em públicos minguados – apenas uma partida teve mais de 20 mil espectadores. Longe dos holofotes, com estádios vazios e sem a atenção devida, o Campeonato Brasileiro teve como protagonista na primeira rodada uma faixa. Sim, uma faixa.

O caso aconteceu no empate por 2 a 2 entre Palmeiras e Atlético-MG, no sábado (09), no Allianz Parque. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) colocou grandes tarjas brancas sobre placas com o nome da seguradora que batiza a arena. A medida foi uma forma de evitar que o nome da empresa fosse exibido em transmissões de canais fechados das Organizações Globo.

Por regulamento, a CBF tem autonomia no espaço em que os jogos do Campeonato Brasileiro são realizados. Cobrir as placas com o nome da Allianz, portanto, não foi ilegal. Contudo, chama atenção quando a entidade que realiza um campeonato toma medidas que prejudicam um parceiro de um dos participantes.

A CBF emitiu no domingo (10) um comunicado oficial sobre o tema. Depois da repercussão extremamente negativa, a entidade disse que houve um “excesso de zelo da empresa terceirizada encarregada dos procedimentos operacionais no estádio”. Ainda de acordo com a nota, o departamento de marketing da instituição nacional identificou e corrigiu o problema.

Ainda assim, uma discussão sobre o episódio é extremamente relevante. Não apenas pelo prejuízo que a ação da CBF causou à imagem da Allianz, que paga (e paga caro) para ter aquelas propriedades, mas pelo que isso representa num ideal macro de comunicação da entidade.

Levantamento do consultor Amir Somoggi apontou que a CBF faturou R$ 359 milhões com patrocínio e publicidade em 2014. Flamengo e Corinthians, os dois times nacionais que mais lucraram com essas fontes, obtiveram R$ 80 milhões e R$ 64 milhões (respectivamente). Na Espanha, Real Madrid (R$ 686 milhões) e Barcelona (R$ 573 milhões) amealharam muito mais do que a federação local (R$ 113 milhões), segundo dados dos últimos balanços.

O primeiro aspecto relevante sobre o episódio de sábado, portanto, é a concorrência entre CBF e clubes. A entidade nacional oferece a empresas propriedades semelhantes do que as equipes, mas conta com um grau infinitamente menor de rejeição. Em vez de trabalhar com marcas que buscam atributos diferentes, a instituição nacional canibaliza verbas que poderiam entrar nos cofres dos times.

Aconteceu um exemplo disso quando o G4, grupo que reunia departamentos de marketing de times de São Paulo, fechou um acordo com Coca-Cola e Kaiser. O contrato não incluía propriedades de mídia (exposição de marca em uniformes, por exemplo), mas tinha uma série de ações para match day. As marcas pagariam pela exclusividade em bares e pelo direito de fazer promoções voltadas ao público que estivesse nos estádios.

O modelo chegou a ser realizado em um clássico, mas depois foi embargado pela CBF. A entidade nunca emitiu justificativa oficial para o veto, mas o G4 alegou na época que houve um temor de concorrência – o Campeonato Brasileiro e a seleção são patrocinados por marcas da Ambev, concorrente de Coca-Cola e Kaiser.

O problema é que as atividades planejadas pelo G4 entravam em um limbo de regulamento – a CBF tem soberania em dias de jogo, mas não determina as propriedades que fazem parte do pacote. Portanto, a entidade tem condição de impedir que outras marcas façam ações nas partidas sem se ver obrigada a fazer algo semelhante.

Não existe um entendimento na CBF sobre o quanto os parceiros são importantes para o desenvolvimento dos clubes, que por sua vez sustentam o campeonato. Não há qualquer proteção às marcas que investem na modalidade e que poderiam até evoluir para um aporte à competição. Em vez disso, há uma espécie de pressão (algo como “se você não paga para mim, não pode ter vantagens em algo que eu organizo”).

Outro aspecto relevante é a relação da Globo com o conteúdo. Há alguns anos, segundo relato de um diretor de empresa, a emissora ofereceu a possibilidade de um tapete virtual sobre placas da Copa do Brasil, campeonato cuja venda de publicidade estática é feita pela agência Traffic.

Na prática, a ideia era vender inserções sobre as placas que a Traffic comercializava. Em vez dos parceiros do campeonato, os telespectadores veriam apenas patrocinadores da emissora. O projeto só não andou, segundo o diretor de uma companhia que recebeu a proposta, porque ninguém aceitou pagar por isso.

Mais tangível é o que a Globo faz com imagens de entrevistas. A emissora chegou a anunciar que faria uma abertura de ângulo de câmera para mostrar mais os anunciantes, mas houve retrocessos nesse aspecto. No último fim de semana, o canal fechado Sportv cortou parte da cabeça do técnico Marcelo Fernandes, do Santos, após empate por 1 a 1 com o Avaí. Tudo para não exibir um boné que ele usava e que tinha uma estampa na parte frontal.

É justo que a emissora tenha cuidado para não contaminar seu conteúdo e encher a tela de publicidade. É justo que a Globo exerça controle sobre o que não for informação e apenas “poluir” a tela. É inconcebível, porém, que isso seja feito sem o mínimo de participação dos clubes.

O que acontece no Brasil é a explicação prática para alguns dos principais eventos do mundo terem assumido a produção de mídia. A Fifa, por exemplo, trabalha com a HBS, empresa que gera imagens oficiais de todos os eventos da entidade. Emissoras que compram direitos têm câmeras exclusivas, mas apenas para uma fatia da transmissão. No geral, a instituição assegura um controle sobre o que é exibido e como é exibido.

O modelo Fifa-HBS é uma solução para um jogo de interesses. Afinal, a Globo não tem obrigação de pensar no melhor para o clube ou para o futebol nacional. A empresa paga para exibir um produto e tem de pensar apenas no melhor jeito de obter retorno.

Os interesses dos clubes devem ser protegidos pela CBF, por uma associação entre eles ou pelas próprias instituições (individualmente falando). A Globo precisa ser vista realmente como uma parceira, e não como mais um concorrente pelas mesmas verbas de marketing das empresas.

O controle da informação é parte fundamental em qualquer planejamento de comunicação. Sem isso, é impossível pensar em como aproveitar bem os espaços e as propriedades disponíveis. Para saber comunicar, é importante saber proteger.