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As forças econômicas do futebol brasileiro

Quem tem dinheiro tem o poder

Os clubes são os principais responsáveis pelos recursos gerados com futebol no Brasil. As Federações Estaduais representam muito pouco, em termos econômicos.

Mesmo a CBF, com seu faturamento de mais de R$ 452 milhões, o maior do esporte nacional, na comparação com os clubes têm pequena representatividade.

Se quem detém o poderio econômico tem a força para mudar um ambiente de negócios, os clubes podem alterar muitos aspectos do futebol no Brasil. 

Para ler a coluna na íntegra, basta clicar aqui.

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Galeano nos deixa. Carsughi nos leva

– Não há nada mais vazio do que um estádio vazio. Não há nada mais mudo que as arquibancadas sem ninguém.

O futebol uruguaio e mundial ficam mais vazios e mudos sem o escriba Eduardo Galeano nas tribunas e nas arquibancadas. Amigo de Obdulio Varela, ele tem uma análise mais crítica que apaixonada do 16 de julho de 1950. Para o Uruguai e para os uruguaios:

– Nós ficamos ali, naquele jogo, no Maracanazo. Às vezes, a memória atua como âncora, não como catapulta. Desde 1950 nós vivemos prisioneiros da nostalgia.

Galeano tinha a capacidade de enxergar com poesia e rebeldia. Contra o futebol moderno. Muitas vezes contra a modernidade. Mas sempre a favor do futebol, do jogo de bola, da paixão acima de tudo e de todos, com aquele saudável e incurável romantismo:

– O futebol profissional, o futebol como negócio, esse parece cada vez mais uma piada de mau gosto. Ricardo Teixeira, elevado à cúpula da Fifa, ocupando-se da justiça e do jogo limpo no futebol mundial?

Era Galeano brigando com quem não gostava do jogo, no máximo das jogadas. Era o uruguaio enfrentando até ideologicamente quem não gostava do futebol – ou do soccer.

– Os americanos chamam de “futebol” a um enfrentamento militar que se disputa com as mãos. Do outro futebol, o que se joga com os pés e não exige violência, dizem que é o esporte do futuro… Tenho pena deles. Ele é que perdem.

Nós perdemos muito sem Galeano. Tenho pena de nós. Até pelos exageros próprios de quem se emociona:

– Por sorte ainda aparece nos gramados algum descarado cara-de-pau que sai não se sabe de onde e comete o disparate de desmoralizar toda a equipe rival, e ao juiz, e ao público das arquibancadas, pelo puro prazer do corpo que se lança à aventura proibida da liberdade.

Como ele se derretia por Don Diego Armando:

– Maradona é incontrolável quando fala, mas é muito mais quando joga. Ele não se repete. Ele adora driblar os computadores que não podem processar o seu gênio. Ele tem olhos em todo o corpo.

Galeano amava o jogo e a personagem de Digo, como escreveu em 2004:

– Maradona é um mito. Porque foi um jogador excepcional e, isso, é sinal de identidade do nosso tempo; Porque foi um rebelde que desafiou os poderosos; E porque muita gente se identifica com esse santo bandido, que faz gols com a mão e se dopa com cocaína; É sujo, incoerente, louco; Ou seja: este santo é popular porque é humano; Mais parece pertencer ao Olimpo grego que ao paraíso cristão. No frígido futebol do fim de século, que exige ganhar e proíbe divertir-se, este homem é um dos poucos que demonstra que a fantasia também pode ser eficaz.

Hedonista, Galeano não dava a menor pelota às táticas e estratégias que normalmente aqui falamos:

– A história do futebol é uma triste viagem do prazer ao dever.

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Assim ficamos ao perder Galeano.

No mesmo dia em que ganhei-perdi um mestre como Claudio Carsughi, que deixou o meu novo local de trabalho, a Rádio Jovem Pan.

Carsughi ainda nos ensina só por estar mais jovem que muitos. Galeano não deixa sombras. Só a luz.

Mas a saída do imperador hertziano Claudio do local onde brilhou por 58 anos pela inteligência, sabedoria, ética, tranquilidade, correção, descrição e discrição é daquelas sensações que não temos palavras.

Só Carsughi poderia dizer quanto é clamorosa a sua despedida.

Mas, elegante como é, ele responde pelo silêncio que tantas vezes disse tudo com ele.

Ou pelas poucas palavras dele que sempre venceram a minha e a nossa verborragia.

Carsughi é um precursor no uso (inteligente) de estatísticas no esporte. Não chutava. Amortecia as melancias e jacas a ele atiradas e fazia um sumo de qualidade e força e luz.

Também não tinha sombra no jornalismo de Carsughi. Apenas o sol iluminada da Toscana onde ele nasceu há 82 anos. Na Arezzo das notas musicais de Guido de Arezzo. Tinha de ser.

Fica de lembrança inesquecível de Carsughi no rádio as tantas horas coladas no ouvido e as minhas imitações do rigor jornalístico do mais inglês dos italianos. A alegria de ele ter colaborado em um dos meus livros palmeirenses, escalando os 10 maiores ídolos palestrinos. Como eu também o escalaria fácil entre os 10 mais de tudo que se refere à notícia. Ele e outro imenso Claudio – Zaidan.

Se fosse ainda mais louco e quisesse ter um filho jornalista, talvez eu escolhesse o nome de Claudio. Não é, Zaidan e Carsughi?

O exemplo deles é eterno.

Como pra sempre vai ficar na minha memória a hora que passei com ele no Esporte em Discussão desta segunda-feira. Das 13 até 14 do dia 13 de abril de 2015. A hora que trabalhei com Carsughi.

Não sabíamos que seria a última na rádio.

Mas saberemos sempre que um microfone tão importante não se aposenta e não se desliga.

Carsughi estará sempre ON. Jamais OFF. No máximo standy. Nunca goodbye.

Clamorosa honra trabalhar uma hora com o mestre.
 

*Texto publicado originalmente no blog do Mauro Beting, no portal Lancenet.

 

 

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Quando o futebol deixa de ser interessante

A derrota da seleção brasileira por 7 a 1 para a Alemanha, em pleno Mineirão, nas semifinais da Copa do Mundo de 2014, virou um símbolo. Jogadores vivem má fase? Gol da Alemanha. Os campeonatos nacionais e regionais têm média baixa de ocupação nos estádios? Gol da Alemanha. Existe uma crise de interesse em torno da modalidade mais popular do país? Gol da Alemanha. Os principais clubes estão endividados e gastam dinheiro que não têm? Gol da Alemanha. Dirigentes se recusam a adotar práticas austeras de gestão, com controle e transparência? Gol da Alemanha. São muitos gols de um revés que ainda ressoa na memória e no cotidiano do futebol brasileiro. Entretanto, em poucos momentos a rede local balanço tanto quanto aconteceu nos últimos dias.

Um golpe duro foi o que aconteceu em São Paulo. A Federação Paulista de Futebol (FPF) decidiu flexibilizar o regulamento do Estadual e marcar três jogos de times grandes para a capital num mesmo fim de semana – um mecanismo contra isso havia sido criado por questão de segurança, a pedido da Polícia Militar (PM). Como a tarde de domingo (12) teve mais uma manifestação política na cidade, Santos e XV de Piracicaba se enfrentaram na Vila Belmiro, em Santos, às 16h (Corinthians x Ponte Preta e São Paulo x Red Bull aconteceram no sábado, e Palmeiras x Botafogo-SP foi às 11h). E a TV Globo, principal parceira de mídia do futebol brasileiro, preferiu transmitir um filme a exibir o duelo realizado no litoral.

Segundo medição do Ibope, o filme rendeu média de 7,5 pontos de audiência à Globo no horário em que Santos e XV de Piracicaba faziam uma das quartas de final do Campeonato Paulista. O Domingo Legal (SBT) marcou sete pontos, e Domingo Show (Record) obteve 6,2 – cada ponto corresponde a 67.112 domicílios sintonizados na Grande São Paulo.

O resultado de audiência é muito pior do que a média do futebol no horário. Por questões contratuais, a Globo só tinha direito a exibir uma partida das quartas de final. A emissora preferiu mostrar Corinthians x Ponte Preta, no sábado (11), e registrou 15,2 pontos no Ibope.

Em 2014, a Globo havia obtido 22 pontos com São Paulo x Penapolense, jogo que a emissora mostrou nas quartas de final do Campeonato Paulista. Um ano antes, Ponte Preta x Corinthians tinham rendido 18 pontos ao canal. E em 2013, também com Corinthians x Ponte Preta, o Ibope registrara 25 pontos.

Ainda que a mudança de dia seja um fator considerável – sobretudo porque o Caldeirão do Huck marcou apenas 10,7 pontos no sábado, pior audiência do ano – é inegável que o futebol tem perdido interesse. Também é inegável que a reação dos dirigentes a isso é praticamente nula, e que a reação da Globo a isso é aumentar ainda mais a exposição do Corinthians, time que tem maior torcida e (por consequência) melhores resultados no Estado.

As quartas de final do Campeonato Paulista são um guia completo da visão deturpada que algumas pessoas têm sobre o futebol brasileiro e do quanto isso afeta a gestão da modalidade. Regulamento bizarro (mas assinado por todos), regras ignoradas, criação de novos horários sem planejamento para isso, interesse da TV acima de qualquer pensamento coletivo para o campeonato.

Do jeito que foi posta, a sequência de acontecimentos em São Paulo cria um ciclo problemático. A Globo só mostra jogos do Corinthians, e isso afasta torcedores de outros clubes. Torcedores de outros clubes não têm como consumir informação em TV aberta, e apenas uma parcela busca outros caminhos. Com isso e sem uma ação complementar, perde-se um grupo com potencial para acompanhar a modalidade. Mais do que isso: perde-se uma oportunidade de atrair neófitos.

A consequência clara disso é que o grupo que se interessa pelo esporte, ainda que se renove, mantém enorme percentual de seus atributos. O consumidor da Globo seguirá sendo o corintiano das próximas gerações, mas os grupos futuros que seguem outros times já crescerão ignorando o canal. Isso vai fazer com que a emissora tenha um interesse cada vez maior nas partidas de uma mesma equipe, e aí está configurado o ciclo.

Para a Globo, os riscos desse ciclo estão diretamente relacionados ao desempenho dos times que a emissora mais mostra. Quando essas equipes vão mal e atraem menos olhares, a consequência é que o produto perca atratividade. Não é por acaso que executivos do canal já começaram a debater a viabilidade de ter tantas janelas para o futebol (a atração é cara, a operação é cara, e o resultado não é assim tão garantido).

Existem dois caminhos para evitar que esse ciclo se consolide: a promoção exaustiva de todos os eventos de um campeonato (o que não acontece) e uma discussão coletiva de mídia, que pense no bem comum e no fortalecimento de todas as equipes (o que não está nem perto de acontecer). Os clubes precisam entender o cenário em que estão postos.

O futebol tem perdido interesse, e um dos principais motivos para isso é a distribuição errônea dos produtos. E a responsabilidade, nesse caso, é toda dos clubes que não direcionam corretamente o processo.

Em vez disso, alguns clubes parecem preferir discussões inócuas. É o que aconteceu nos últimos dias com Eurico Miranda, presidente do Vasco, por exemplo. O mandatário da equipe carioca emitiu nota oficial irônica para questionar o Bom Senso FC, coletivo formado por atletas em 2013 para debater questões concernentes ao futuro da modalidade.

A nota de Eurico foi uma reação ao posicionamento do Bom Senso FC, que apoiou Flamengo e Fluminense em discussões com a Ferj (Federação Estadual do Rio de Janeiro). Botafogo e (principalmente) o Vasco são os principais partidários da entidade regional na atual cizânia.

Temor sobre o poder de Eurico fez com que jogadores do Vasco adotassem silêncio sobre o Bom Senso FC. Segundo reportagem do UOL Esporte, atletas simpatizantes do coletivo e das causas que ele defende têm mantido isso em sigilo por causa do posicionamento do presidente.

Eurico também discutiu publicamente com Fred, capitão do Fluminense, por causa de críticas à arbitragem do Estadual. O Rio de Janeiro tem um processo de debate que podia ser benéfico para o futebol local, mas que tem virado apenas mote para altercações.

A perda de interesse do futebol brasileiro também tem relação com isso. Enquanto não enxergarmos o quadro completo nas questões de relação com a mídia ou nas discussões sobre gestão, vamos seguir procurando desculpas. Para voltar à analogia com o campo e o 7 a 1, vamos seguir buscando “apagões”. 

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O Modelo de Jogo e a Dallas Cup – parte I

Estudar o que diferentes escolas têm pensado, treinado e aplicado deve ser um exercício permanente para quem trabalha com futebol.

Como forma de observação específica, nada melhor do que assistir aos jogos de uma equipe e registrar todas as variáveis que são passíveis de análise, por exemplo: regras de ação, comportamentos coletivos nos quatro momentos do jogo, manifestação dos princípios de jogo, referências espaciais, plataforma de jogo, características dos jogadores, scouts quali e quantitativos, etc.

Recentemente, na disputa de uma competição internacional sub-19, a Dallas Cup, foi possível analisar o Modelo de Jogo de equipes de oito países distintos. Tal procedimento permite, ao menos, uma comparação de como temos jogado aqui e como se tem jogado lá fora, seja em países emergentes, tradicionais, ou até sem expressão na modalidade.

Nesta coluna (e na próxima) serão abordados alguns elementos do Modelo de Jogo das seguintes equipes: Real Salt Lake-USA, Valencia-ESP, Everton-ING, River Plate-ARG e Monterrey-MEX. Após a apresentação sintetizada dos Modelos, será feita uma breve reflexão sobre similaridades, diferenças e qualidade do jogo.

A seguir, uma síntese de elementos do Modelo de Jogo do Real Salt Lake-USA:

Princípio Operacional Defensivo Dominante: Recuperação da Posse
Forma de Marcação: Zonal
Linha de Marcação: Linha 2 – Intermediária Ofensiva

Princípio Operacional de Transição Ofensiva Dominante: Retirar a bola do setor de recuperação horizontalmente
Número de Jogadores no Balanço Ofensivo: 2

Princípio Operacional Ofensivo Dominante: Manutenção da Posse de Bola
Forma de Ataque: Ataque em Zona com estruturas fixas e móveis
Tipo de Ataque: Ataque posicionado
Variação de Tipo de Ataque: Contra ataque
Forma de repor a bola em jogo com o goleiro: Curtas predominantemente

Princípio Operacional de Transição Defensiva Dominante: Recuperação imediata
Número de Jogadores no Balanço Defensivo: 5 + Gr recuado

Abaixo, elementos do Modelo de Jogo do Valencia-ESP:

Princípio Operacional Defensivo Dominante: Impedir Progressão
Forma de Marcação: Zonal
Linha de Marcação: Linha 3 – Meio Campo

Princípio Operacional de Transição Ofensiva Dominante: Retirar a bola do setor de recuperação horizontalmente
Número de Jogadores no Balanço Ofensivo: 1

Princípio Operacional Ofensivo Dominante: Manutenção da Posse de Bola
Forma de Ataque: Ataque em Zona com estruturas fixas
Tipo de Ataque: Ataque posicionado
Forma de repor a bola em jogo com o goleiro: Curtas predominantemente

Princípio Operacional de Transição Defensiva Dominante: Reorganizar linhas da equipe
Número de Jogadores no Balanço Defensivo: 5 + Gr recuado

Na sequencia, algumas informações do Modelo de Jogo do Everton-ENG:

Princípio Operacional Defensivo Dominante: Impedir Progressão
Forma de Marcação: Zonal
Linha de Marcação: Linha 3 – Meio Campo

Princípio Operacional de Transição Ofensiva Dominante: Retirar a bola do setor de recuperação verticalmente
Número de Jogadores no Balanço Ofensivo: 1

Princípio Operacional Ofensivo Dominante: Progressão ao Alvo
Forma de Ataque: Ataque em Zona com estruturas fixas
Tipo de Ataque: Ataque rápido
Variação de tipo de ataque: Ataque direto
Forma de repor a bola em jogo com o goleiro: Curtas e longas

Princípio Operacional de Transição Defensiva Dominante: Reorganizar linhas da equipe
Número de Jogadores no Balanço Defensivo: 5/6 + Gr recuado

Até a próxima semana!
 

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Meia entrada no futebol

A legislação brasileira concede o direito à meia-entrada para determinadas classes de consumidores. A competência constitucional para estabelecer quais categorias terão direito ao benefício é dos Estados e Municípios, mas pode ser concedido de maneira concorrente também pela União.

Assim, o benefício da meia entrada está regulamentado por lei federal, leis municipais e estaduais, que possuem o condão de incentivar atividades culturais e esportivas, entre outras.

Em âmbito federal, a Lei 12.933/2013 estabelece o benefício do pagamento de meia-entrada assegurada a 40% do total dos ingressos disponíveis em espetáculos artístico-culturais e esportivos, para estudantes, idosos (previsto também no Estatuto do Idoso), pessoas com deficiência e jovens de 15 a 29 anos comprovadamente carentes.

A lei exige, ainda, que sejam afixados com as condições para a meia entrada, bem como com a indicação dos telefones dos órgãos de fiscalização, em local visível da bilheteria e da portaria.

Vale dizer que os Estados e Municípios também podem legislar sobre tema e criar novas classes de consumidores beneficiados com a meia-entrada.

As violações ao direito à meia entrada devem ser encaminhadas ao Procon e podem gerar danos morais e/ou materiais.

Nos jogos de futebol as classes de consumidores legalmente previstas possuem o direito à meia entrada, ou seja, pegar 50% do valor pago pelas outras classes.

Portanto, eventuais descontos concedidos para todos os consumidores devem ser acumulados para fins de concessão da meia entrada, o que vale dizer que, na hipótese de um clube estender o benefício a todos os torcedores, aqueles beneficiados pela Lei 12.933/2013, terão direito a desconto de mais 50%.

Neste sentido, o Ministério Público do Estado de Minas Gerais, por intermédio do PROCON/MG, multou o Atlético em R$ 292.375,00 eis que o clube, na final da Copa do Brasil 2014, disponibilizou ingressos de meia entrada para todos os torcedores indiscriminadamente. Ou seja, não houve a concessão do benefício às classes de consumidores previstas na Lei 12.933/2013.

Portanto, o torcedor/consumidor deve ficar atento e denunciar eventuais violações aos seus direitos.

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E os Estaduais?

O debate sobre a real utilidade dos Campeonatos Estaduais no meio dos Campeonatos Estaduais promovido em larga escala pelos meios de comunicação, alardeada em entrevistas coletivas ou de campo de treinadores, dirigentes e jogadores ou pelas aberturas de diálogo em fóruns de discussão de especialistas em gestão do esporte é a prova clara de como os problemas no país são tratados de forma reativa e não proativa.

Aproveitando que está aberta a “temporada de caça aos Campeonatos Estaduais”, seguirei o senso comum para dar algumas pinceladas sobre o assunto. Primeiro, que não sou a favor de acabar totalmente. E não estou dizendo isso em nome dos “coitadinhos dos clubes pequenos. O que farão da vida?”. Isso, aliás, é uma das coisas que tem que parar no Brasil. Não dá para querer resolver o problema de todo mundo sempre.

A remodelação é, de fato, fundamental. Nenhuma novidade! É inconcebível um modelo de competição em que o salário do principal atacante de uma equipe grande é maior do que a folha de salário de uma equipe de pequeno ou médio porte. Trata-se de um formato insustentável para ambas as partes. Mas, e a solução?

É ilusão pensar em diminuir a força das federações estaduais, pelo sistema político já consolidado. Também que os clubes irão se organizar enquanto ligas – o que seria o ideal – não parece algo palpável no curto prazo. Basta ver que alguns clubes não se entendem sobre o lugar de ficar das torcidas organizadas dentro do estádio, quem dera debater seriamente sobre um projeto efetivo de evento estruturado.

Se quisermos falar realmente em negócios, pelo menos no curto prazo, é necessário chegar a um equilíbrio, em que a sequência dos campeonatos estaduais leve a algo palpável a cada temporada, em que se fecha um ciclo. Ainda longe do ideal, mas exequível no curto prazo: que o Campeonato Brasileiro (Séries A, B e C) seja disputado somente aos finais de semana ao longo de todo o ano e todo o resto (Estaduais, Regionais, Copa do Brasil, Copa Libertadores e Copa Sulamericana) ocorram no meio de semana, em formato de torneios. Deixei de lado o Campeonato Brasileiro da Série D por merecer um outro termo de debate.

Lógico que o enredo é maior. Ainda nem mencionei o potencial e o grande valor que um Campeonato Regional pode ter, a exemplo da Copa do Nordeste, permitindo uma sustentabilidade mais consistente dos clubes ao longo do ano. O fato é que a composição deve respeitar as capacidades econômicas das equipes e o potencial de desenvolvimento por um determinado período de tempo. Mas de forma sintética, a lógica, para início de conversa, é esta! 

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Mordaça

Apaixonado por futebol e por hipérboles, o escritor Nelson Rodrigues disse certa vez que o clássico entre Flamengo e Fluminense “começou 40 minutos antes do nada”. No último domingo (05), as duas equipes fizeram um confronto que corroborou essa ideia. Era apenas um duelo válido pela fase de classificação de um combalido Estadual do Rio de Janeiro, mas um gigantesco número de elementos fez com que as discussões em torno da partida extrapolassem consideravelmente os 90 minutos. E é claro, tudo isso suscita discussões no campo da comunicação.

O cerne da discussão sobre o clássico, na verdade, é algo que passa bem longe das quatro linhas. Existe uma crise política no futebol do Rio de Janeiro, e Flamengo e Fluminense são os dois clubes grandes que se colocaram como oposição à federação local (Botafogo e Vasco, em contrapartida, são defensores da gestão da entidade).

“Nosso relacionamento com a federação não existe. É inexistente. Não há o que ser conversado agora; nós simplesmente não temos por que sentar na mesma mesa”, disse Eduardo Bandeira de Mello, presidente do Flamengo, na quinta-feira (02).

Um dia depois, o técnico Vanderlei Luxemburgo concedeu uma entrevista coletiva extremamente performática. Punido por ter criticado o Estadual do Rio de Janeiro, o comandante do Flamengo recebeu suspensão de duas partidas. A equipe rubro-negro havia obtido efeito suspensivo, mas essa decisão foi derrubada. No domingo, contra o Fluminense, o auxiliar Deivid foi o responsável por comandar o time no banco de reservas.

Na coletiva, Luxemburgo avisou que sequer estaria no Maracanã para ver o jogo entre Flamengo e Fluminense. Além disso, minimizou o peso da suspensão e empilhou críticas à Ferj (Federação Estadual do Rio de Janeiro).

“Como cidadão, me senti violentado e agredido. Fiz muitas coisas pelas quais deveria ter sido punido, mas agora eu queria apenas a melhoria do futebol brasileiro. Tomaram uma goleada por 7 a 1 [para a Alemanha, na semifinal da Copa do Mundo] e estão buscando um caminho ainda. A federação não quer dar chance aos jovens, e foi por isso que eu me posicionei contra o regulamento que limita o número de inscritos no campeonato”, disse Luxemburgo.

“Não vou me posicionar mais. Só vou fazer isso quando tiver direito à liberdade”, completou o treinador, que depois pegou um esparadrapo e colou sobre a boca para completar o protesto.

No domingo, antes de a bola rolar, os jogadores de Flamengo e Fluminense deram sequência ao movimento iniciado por Luxemburgo. Perfilados para a execução do hino nacional, todos cobriram a boca com a mão.

No entanto, o maior protesto veio depois. Fred, camisa 9 e capitão do Fluminense, foi expulso. E não esperou sequer o término da derrota por 3 a 0 para o Flamengo para fazer críticas incisivas: “Hoje o nosso campeonato é o ex-campeonato mais charmoso do mundo. Nos ajudem. Queremos coisas mais claras, menos obscuras. Precisamos de apoio para brigar por isso”.

Após o término do clássico, o presidente do Fluminense, Peter Siemsen, deu razão a Fred. “Vocês estão vendo o que está acontecendo. Tudo que nós pedimos é isonomia. O Fluminense está tentando jogar e brigando pelas coisas em campo, mas assim está difícil. Olhem para a rodada toda para ver”, disse o mandatário em entrevista coletiva. No domingo (05), o Vasco, time extremamente próximo da atual gestão da Ferj, teve três pênaltis a seu favor em derrota por 5 a 4 para o Friburguense.

O último domingo foi o ápice de um processo que se arrasta desde as primeiras reuniões de conselho técnico do Estadual de 2015. Segundo levantamento do portal UOL, clubes e Ferj emitiram 27 notas oficiais com críticas nesta temporada – a briga tem sido concentrada nos sites das instituições.

Dois aspectos chamam atenção nessa crise institucional do futebol do Rio de Janeiro. O primeiro é a ilação: em cenários assim, é fundamental que as pessoas envolvidas tenham cuidado para não ligar pontos que não têm necessariamente uma conexão. O árbitro errou na expulsão de Fred? Outro juiz tomou decisões equivocadas ao anotar três pênaltis para o Vasco? Alguém tem prova concreta de que houve ação deliberada por causa da cisão entre equipes e Ferj?

Se existe prova, apresentar é fundamental. A discussão não pode ser balizada por suposições ou acusações vazias. Agora, se não houver algo concreto, as pessoas precisam entender o poder de formadores de opinião. De lado a lado, o risco de impingir coisas que não são necessariamente verdadeiras é enorme.

Outro ponto a ser discutido em toda essa história é até que momento o discurso basta. Notas oficiais, entrevistas e gritaria deixam clara a crise no futebol do Rio de Janeiro. A questão é: isso é suficiente?

Se os clubes quiserem realmente uma mudança, precisam apresentar demandas, propor fóruns de discussão e buscar soluções. Esse processo pode desembocar numa oposição formal à atual gestão da Ferj ou até numa ruptura – presidentes de Flamengo e Fluminense já aventaram a possibilidade de criação de uma liga paralela em 2016.

O risco de toda essa situação é reduzir a importância do atual momento do futebol do Rio de Janeiro. Flamengo e Fluminense têm obrigação de não permitir que a crise se transforme em choro de quem se sente prejudicado. O que existe é muito maior do que isso, e o contexto não aparece em entrevistas como as dos últimos dias.

Entrevistas e notas oficiais, aliás, são relevantes para marcar posição. Se os clubes não fizerem nada além disso, porém, os textos acabarão sendo inócuos.

Comparo o atual cenário do Rio de Janeiro com as recentes manifestações populares sobre política. Afinal, o que as pessoas queriam quando fizeram panelaços e foram às ruas? Quais eram as demandas? Quem organizou isso e tentou apresentar pedidos nos fóruns competentes para discutir isso?

Dizer que “está tudo errado” e criticar de forma indiscriminada pode ser legítimo, mas é pouco produtivo. Acontece na política porque as pessoas se sentem alheias à vida política do país – e esse é um processo que tem sido desenvolvido durante anos. No esporte, contudo, a posição dos clubes não é essa. São eles que sustentam o poder das federações e são eles que controlam o consumo da cadeia. Se houver um mínimo de organização e de discussões produtivas, a força deles é imensa.

O problema, como acontece em muitos outros assuntos do futebol brasileiro, é que dirigentes veem rivais como adversários ou concorrentes. Não existe um pensamento sistêmico que aborde necessidades e projetos coletivos, algo que as grandes ligas esportivas do p
laneta costumam fazer.

O que tem acontecido no Rio de Janeiro é apenas a exposição mais clara de um aspecto em que o Brasil ainda precisa evoluir de forma considerável. Usar a mídia para escancarar insatisfação pode ser produtivo, mas o peso sempre vai ser maior se as pessoas souberem por que estão brigando. 

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O nível do debate

Os anos pré-Copa e agora, no pós-Copa, abriu-se um espectro de debates em torno dos negócios relacionados ao futebol. São infindáveis os comentários sobre precificação de ingressos, organização do futebol brasileiro ante o cenário político da própria modalidade ou o endividamento dos clubes.

Mais das vezes, os comentários são, naturalmente, rasos, sem qualquer profundidade ou aplicabilidade efetiva. Vai-se pelo caminho mais fácil, o do senso comum, ou melhor, o do discurso fácil. Como não se eleva o nível do debate, é natural que as estruturas de poder se perpetuem, até porque, aos olhos de todos, não se tem a solução efetiva.

Na sequência, vou ilustrar tais premissas em exemplos recentes do meio do futebol. Mas antes, vou citar um outro, de uma outra área e, certamente, bem mais complexa do que a nossa por envolver uma série de variáveis sociais de difícil solução no curto prazo.

Em 2011, me mudei para o Rio de Janeiro, um pouco depois do início do processo de pacificação das favelas na cidade. Desde então acompanho, ainda que pelos noticiários, todos os movimentos em torno do desafio que é a ruptura de um modelo complicadíssimo de poder paralelo desenvolvido historicamente em áreas de elevado risco social. Mas sem entrar no mérito dos infindáveis problemas que ocorreram ao longo do processo (naturais, diga-se de passagem), o que fica sempre muito claro, sempre, é o plano.

Toda a vez que o Secretário de Segurança Pública vai para a frente das câmeras para explicar alguma ruptura no processo, fala com propriedade, enredado sempre por um projeto maior, dentro de algo que envolve não só a Segurança, mas também apoiado em uma visão transdisciplinar. E que os obstáculos e falhas do caminho sempre estiveram planejados e estão sendo contornados (e não são poucas as falhas, obviamente, diante de um cenário extremamente complexo, como já falei anteriormente). Daqui, poderíamos citar várias passagens e frases marcantes que corroboram com a premissa – para quem quiser saber um pouco mais, assistam a entrevista em https://www.youtube.com/watch?v=dlVwjS1DaH0 (do final de 2011). Mas não vou mais me alongar neste exemplo para voltar ao contexto do futebol.

Pois bem, no ambiente do futebol brasileiro, o nível do debate é quase que invariavelmente raso. O assunto mais latente ultimamente é a ocupação das novas arenas, o preço dos ingressos e o valor “abusivo” cobrado pelas gestoras das arenas para os clubes jogar. A fala fácil de que o Brasil é um país pobre e, portanto, tem que cobrar preços de ingressos mais baratos ou que os ricos não são tão fanáticos quanto os pobres para poder lotar as arenas é um absurdo.

E o mais espantoso: nem clubes nem gestores de arenas explicitam suas estratégias – talvez por não tê-las. Ou, mais grave, por não estar alinhado o negócio um do outro. O movimento natural é o de ruptura e a perda de uma oportunidade única de falarmos verdadeiramente sobre entrega de entretenimento.

No caso da tentativa de reorganização do futebol em relação a suas estruturas políticas, a lógica é a mesma. Muito se quer, mas não se tem um plano efetivo de médio-longo prazo. A Lei de Responsabilidade Fiscal está aí, foi uma conquista. Mas e agora? O que vem depois? É assustador ouvir aqueles que demandaram mudanças sem apresentar uma resposta coerente para o futuro dos projetos e das ações estratégicas.

Talvez o leitor agora esteja se perguntando: “OK, mas o que tem a ver a pacificação de comunidades do Rio de Janeiro com o preço do ingresso no futebol ou a sua organização política?”. É que no caso da segurança do Rio, ninguém consegue desmoralizar o discurso pois ele é fruto de um infindável debate e de um planejamento – para debater este assunto com tais lideranças, precisa estudar muito! No nosso mundo do futebol, não dialogamos efetivamente com todos os stakeholders para se encontrar um denominador comum e, portanto, qualquer discurso fácil serve e é aceito.

Na realidade, o caminho mais fácil nem sempre é o melhor. O Bahia deixar a Arena Fonte Nova, por exemplo, é um caminho absurdamente fácil, no afã da luta de classes entre uma “gestora de arena opressora e capitalista” diante de “clubes sem recursos”, em um processo de “coitadismo coletivo”. Lembrando que a operação das novas arenas existe há menos de 2 anos quando, no mundo, as arenas demoraram mais de 5 anos para começar a trabalhar com uma pequena margem de lucro.

Fazer errado dá o mesmo trabalho que fazer o que é certo. A grande diferença está no resultado. Enquanto não planejarmos e entendermos o que queremos com o negócio do futebol, vamos continuar a andar em círculos. 

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A comunicação na crise

Não há processo de gestão que possa ser desprendido de comunicação. Contudo, em poucos momentos a importância desse trabalho é tão perceptível quanto na crise. De ações internas a contato com consumidores, concorrentes e potenciais interessados, uma boa estratégia pode ser responsável por grande parte do caminho de um trabalho de controle. Em contrapartida, também pode ser gasolina em uma fogueira acesa.

O futebol brasileiro tem exemplos recentes disso. É o que acontece no São Paulo, time que lidera seu grupo no Campeonato Paulista e ainda está na briga por vaga na próxima fase da Copa Libertadores. A equipe joga mal, o técnico Muricy Ramalho não encontra um padrão tático, jogadores fundamentais têm rendido abaixo do esperado, a diretoria está dividida, os ingressos foram majorados e a presença de público nas arquibancadas diminuiu consideravelmente. São muitos os fatores responsáveis por um ambiente que está longe de ser tranquilo. Nenhuma delas, porém, é mais importante do que os erros em estratégias de comunicação.

Do time para dentro, por exemplo: Muricy Ramalho dá sinais de esgotamento; em coletivas, já chegou a dizer que tem pedido coisas e não tem sido atendido pelos atletas. As declarações do treinador mostram alguns pontos:

– Ele não sente total respaldo do grupo de jogadores;

– Ele não tem vergonha ou não vê problema ao expor isso e atribuir grande parte da culpa aos atletas.

A crise também é de relacionamento. Muricy nunca foi um treinador conhecido pela amizade com jogadores ou por montar grupos extremamente fechados. Ao contrário, é alguém que cobra e discute em tom muito profissional. Não existe um problema nessas características, mas elas cobram um preço em momentos ruins: por não ser próximo dos atletas, o técnico tem poucos que “correm por ele”.

Por fim, existe um problema de gestão. A cúpula do São Paulo está rachada e tem tomado decisões extremamente questionáveis. O futebol ainda segue blindado, mas lida com problemas decorrentes do desarranjo político, como atrasos em pagamentos e a criação de um ambiente instável. Mesmo que as notícias ruins não respinguem no CT, é natural que os jogadores pensem que essa proteção é questão de tempo.

Do clube para fora, a crise tem sido igualmente mal contornada. Até quando manteve Muricy Ramalho, que chegou a entregar o cargo, a diretoria errou no processo de comunicação. Não houve nada que mostrasse ao torcedor de forma contundente o quanto essa decisão era benéfica para a equipe.

Diretoria e torcida têm como principal foco de divergência o preço dos ingressos, mas outros pontos são nevrálgicos para entender um afastamento. Declarações de dirigentes no início do ano, por exemplo, enalteceram o time montado para 2015. Eles estabeleceram um parâmetro, e agora têm sido cobrados por isso.

A comunicação do São Paulo foi desastrosa em processos como a inflação dos ingressos e até as relações institucionais. Ações do presidente Carlos Miguel Aidar transformaram uma pequena rusga com o Palmeiras em combustível para a equipe alviverde em clássico recente.

O São Paulo não vive bom momento, mas já reagiu em fases assim. O próprio Muricy Ramalho conduziu mudanças de ambiente para chegar ao título brasileiro de 2006 ou para evitar o rebaixamento em 2013. O diapasão atual podia ser bem diferente se a comunicação fosse voltada a isso.

Essa também é a sensação que passam Fluminense e Grêmio. São dois times que estão em reformulação e que vivem oscilações naturais de um processo tão complicado – principalmente porque ambos decidiram apostar fortemente em atletas menos experientes. As torcidas podiam comprar essa ideia e jogar junto. Em vez disso, por não terem sido devidamente trabalhadas, criou-se um distanciamento que virou cobrança.

O Grêmio tem como principal motivador disso o técnico Luiz Felipe Scolari. A despeito de ser ídolo do clube, ele tem contribuído de forma inexplicável para tornar o ambiente mais conturbado. Da cobrança por reforços à auto-expulsão em um jogo, o treinador não conseguiu aproveitar seu carisma para fazer a torcida acompanhar o time.

No Fluminense, Cristovão Borges tentou contemporizar. Quase todas as entrevistas dele em 2015 abordaram a profunda reformulação feita pela equipe, que perdeu seu principal mecenas após o término de um contrato longevo com a Unimed. A estratégia dele pode ter funcionado com parte dos adeptos, mas não com a diretoria, que preferiu trocá-lo.

Nas últimas temporadas, criar crises tem sido a principal razão de ser dos torneios regionais do Brasil. Esvaziados, confusos e mal trabalhados, os campeonatos servem apenas para mostrar quem não está trabalhando direito.

Entretanto, esse trabalho mal feito pode ser potencializado se for acompanhado por processos deficientes de comunicação. O futebol brasileiro está cheio de exemplos. 

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O futebol, o conhecimento sobre o jogo, o Brasil, a Europa: porque estamos à frente (ou não estamos?)

Estamos todos acompanhando o excelente desempenho da equipe do Corinthians nesse início de 2015. Tenho grandes amigos trabalhando lá, e sei bem o quanto eles têm buscado continuamente, ao longo dos últimos anos, a excelência em suas áreas de atuação.

E é bom que se diga aqui, antes de avançar, que não tenho a pretensão nesse texto, de dizer em qualquer momento que o trabalho “A” (ou do lugar “A”), é melhor que o trabalho “B” (ou do lugar “B” – e vice-versa).

Conheço ótimos profissionais espalhados em diversos clubes do Brasil, na Bahia, em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, fazendo trabalhos de excelência dentro de suas realidades.

Fico sempre na torcida por todos eles (menos quando os enfrento diretamente – desculpem amigos, sei que me entendem!), porque são trabalhos competentes que podem transformar e qualificar o nosso futebol.

O que quero salientar aqui, é que nesse início de ano, depois de ótimos jogos na Copa Libertadores da América e Campeonato Paulista, e após o comentado ano sabático, muita atenção tem sido dada, à experiência de Tite na sua ida para à Europa na busca do “conhecer mais” sobre futebol.

Matérias, colunas, entrevistas, programas de TV. Todos tentando entender (e enaltecer as vezes) o valor da busca do conhecimento no continente europeu para a aquisição das novas competências para nossos treinadores.

Pois bem, é aí que uma questão surge com certa urgência: “Por que será que estamos todos, valorizando a travessia pelo Atlântico, dando a ela a chancela de melhor ou única possibilidade para que nós entendamos mais sobre o jogo de futebol – como a grande possibilidade de atualização?”

Surpreendam-se, mas já faz muito tempo que no Brasil, sob certos aspectos do entendimento do jogo, estamos à frente, tanto em reflexões, quanto em produção de conhecimento, dos nossos pares europeus.

Se tivermos um pouco de paciência e tempo, encontraremos em algumas Universidades, em alguns Grupos de Pesquisa, em algumas pessoas ligadas ao futebol, em algumas iniciativas e em alguns fóruns específicos, uma riqueza de informações e conhecimento sobre o jogo que estão, faz muito tempo, disponíveis – aqui no Brasil.

Todos, muito “antenados” naquilo que o mundo vem fazendo no futebol – e com representantes na prática do dia-a-dia, transformando seus ambientes.

É claro que as coisas são lentas, e que o volume e profundidade daquilo que se produz e se estuda, sofre um atraso muito grande para chegar ao dia-a-dia de treinadores e clubes brasileiros – por um sem número de motivos, que passam tanto pela dificuldade de democratização do conhecimento, quanto pela nossa cultura de formação (apática, passiva, espectadora).

Formalmente e institucionalmente, por exemplo, a Universidade do Futebol (idealizada por João Paulo Medina e Eduardo Conde Tega), seja talvez a maior expoente da concentração, desenvolvimento e disseminação do conhecimento de excelência na perspectiva que estou abordando nesse texto (especialmente porque interage com quase todos os outros núcleos que mencionarei na sequência).

Temos núcleos muito avançados de discussões e de produção do conhecimento (e quebras de paradigma) espalhados pelo Brasil (como por exemplo: em Viçosa (coordenados pelo professor Israel Teoldo Costa), na UNICAMP (em Campinas com o professor Antonio Carlos de Moraes, com esse que vos escreve, com Leandro Zago e Bruno Baquete do CieFUT; em Limeira, lideradas pelo professor Alcides Scaglia), na antiga UGF e na Estácio (alimentadas pelo professor Roberto Banzé – que visionário, em 2003, propôs a primeira disciplina de Análise de Desempenho no jogo de futebol, com análises quantitativas e qualitativas – quando quase ninguém falava sobre o tema)).

O que poucas pessoas sabem, mas também merece destaque, é que a própria CBF também oferece cursos (excelentes), que fazem parte do seu programa de qualificação de treinadores, e que além de seguir diretrizes da FIFA para a implantação de um sistema de certificação comum em todas as Confederações do mundo (como também acontece com a UEFA, por exemplo), tem contribuído para o avanço da disseminação do conhecimento no ambiente futebolístico brasileiro.

E o mais importante disso tudo é que, fora do Brasil, treinadores e outros profissionais da área técnica têm muito interesse no conhecimento produzido aqui!

Eu sei que impressiona mais, descrever a vitória de um grande treinador e de uma grande equipe associando-a a aquisição do conhecimento adquirido fora do Brasil com treinadores europeus.

Eu sei que chama mais a atenção, expor o funcionamento tático coletivo de uma linha de defesa – apontando suas referências verticais, e ou horizontais, zonais e/ou setoriais, associando-a ao conteúdo de treino/jogo de uma equipe europeia.

Eu sei, e não acho que isso seria um problema, se nossa realidade fosse outra.

Mas olhemos para dentro!!!

Claro que corro risco, escrevendo isso, de ser mal interpretado.

Porém posso e devo expor meus argumentos – pautados em uma reflexão objetiva e pontual sobre o meu ponto de vista –, sem receios, porque dentre tantos motivos, e especialmente confiando em minha credibilidade:

1) Venho estudando e produzindo conhecimento sobre futebol desde que tive meu primeiro contato com a Universidade,

2) Estou na prática do dia-a-dia do futebol expondo e agregando novos saberes a esse conhecimento,

3) Ao longo dos últimos 18 anos, estive em contato direto com comissões técnicas e treinadores espanhóis, italianos, ingleses, franceses, holandeses (Real Madrid, FC Barcelona, Inter de Milão, Juventus de Turim, Manchester United, Olympique de Marselha, PSV e Apeldoorn),

4) Por fim, porque participei e palestrei em Fóruns e Congressos que tiveram participações de profissionais de muitas dessas equipes, e de Universidades de muitos desses países.

Esses motivos me dão segurança em dizer que temos conhecimento para exportar (e estamos exportando em alguns fóruns)!

Não estou aqui defendendo que não tenhamos que avançar as fronteiras e entender o que está acontecendo em outros países. Por favor, isso já está superado com toda argumentação anterior.

Não estou aqui criticando, de forma alguma, a possibilidade de intercâmbios de conhecimento, ou viagens de reciclagem em momentos sabáticos!

Sim, estou defendendo a ideia de que temos informações sobre o jogo, sobre meios e métodos de treinamento de alto nível, sobre detecção e desenvolvimento de talentos, aqui no nosso Brasil!

Estou defendendo a ideia de que temos excelentes profissionais em várias áreas dentro do futebol, com conhecimento transformador, avançado.

Estou defendendo a ideia de que não somos piores do que nossos concorrentes europeus… basta olharmos para os l
ugares certos – e veremos que em muitos aspectos podemos ser melhores, e em outros já somos sim (basta que o conhecimento esteja na prática)!

E não se trata aqui de alguém dizer a esse que vos escreve (parafraseando Vitor Frade) que “ninguém sente necessidade daquilo que desconhece”. Posso garantir e atestar meu vínculo com a realidade, com a sede do aprender e com o conhecimento desse tempo de inovação.

Treinar com intensidade? Resistência de concentração? Qualidade da intensidade? Intencionalidade de treino? Teorias Sistêmicas? Auto-organização? Densidade cognitiva? Carga complexa de jogo? Jogo é treino e treino é jogo?

Alguma outra interrogação? Se olharmos para dentro, encontraremos respostas há tempos…

De qualquer forma, saudações ao oceano Atlântico!!!