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A Bolha

Antes de mais nada, é preciso admitir que uma das coisas mais fáceis e divertidas que existem é escrever textos prevendo bolhas financeiras. De tanto que se escreve, uma hora você acerta, como foi o caso do Nouriel Roubini. Com isto em mente, atente às palavras a seguir.

Existe um fato histórico acontecendo no decorrer desta semana, e não é no Chile. O Liverpool, clube mais tradicional da Inglaterra, passa por um momento no mímino delicado. Algum tempo atrás, a dupla Gillet e Hicks (o mesmo do HMTF que investiu no Corinthians), comprou o Liverpool numa engenharia financeira semelhante ao que a família Glazer realizou no Manchester United.

Resumidamente, G&H emprestaram dinheiro para comprar o Liverpool. Assim que conseguiram, transferiram a dívida dos empréstimos pro próprio clube, que passou a ter que pagar milhões de libras por ano em juros. Com a piora do cenário econômico na Europa e outros problemas mais, como a não classificação para a Champions League desse ano, o clube começou a ter problemas em pagar esses juros e as parcelas da dívida, e ficou devendo umas 250 milhões de libras para o Royal Bank of Scotland que, ciente de que a dupla G&H não iria conseguir levantar a grana pra pagar a dívida, designou executivos para tomarem conta da diretoria do time, na tentativa de vender o clube pra zerar a conta. Obviamente, G&H não gostaram da idéia, uma vez que iam perder um bom bocado de dinheiro, e tentaram bloquear a venda. Aí começou uma batalha judicial que está um pouco longe de ser resolvida por completo, mas teve algumas decisões a favor do RBS e da venda para a New England Sports Ventures, dona do time de beisebol Boston Red Sox.

A batalha não é, em si, o problema, mas sim as dificuldades que G&H encontraram pra conseguir financiar a operação do Liverpool, que não é muito diferente dos problemas enfrentados pela família Glazer no Manchester United. É um claro indício de que clubes de futebol passam por uma fase financeiramente complicadíssima. E isso, é claro, impacta na quantidade de dinheiro que esses clubes podem gastar em transferência de jogadores, o que acaba respingando no faturamento dos clubes no Brasil. Para piorar, a Uefa não tem medido esforços para limitar os gastos de todos os clubes com salários e transferências e para incentivar o desenvolvimento de jogadores nas categorias de base. Com isso, menos dinheiro ainda vai para o mercado de transferências.

Isso foi visível na janela de transferências do Campeonato Brasileiro deste ano, em que poucos atletas deixaram o país. Pelo contrário, clubes do Brasil acabaram se reforçando com jogadores retornando do estrangeiro, com salários bastante elevados, o que significa maiores gastos e menos receitas. Bem menos receitas, diga-se, já que normalmente clubes geram entre 20% a 25% do total de receita com transferência de jogadores. Uma equação que é simples de resolver, e o resultado não é nada bom.

O que tem segurado os efeitos dessa complicação mercadológica são os fundos de investimento em atletas, que tem comprado jogadores a rodo. Se antes os clubes tentavam vender seus atletas para clubes estrangeiros, hoje muitos vendem para empresas, que por sua vez se preocupam em vender para os clubes de fora. Por enquanto, essas empresas estão segurando o rojão da liquidez, trocando o direito sob transferência de atletas por auxílio na contratação de outros jogadores. A dúvida, porém, é por quanto tempo essas empresas conseguirão manter esse cenário. Se você dá dinheiro aos clubes em troca de jogadores e não consegue vender esses jogadores, alguma rachadura no ciclo vai acontecer. E aí a bolha vai estourar.

Os efeitos do estouro da bolha do mercado de transferências no Brasil, se isso realmente acontecer, vai depender muito do acordo que essas empresas possuem com os clubes. Dependendo do que estiver acordado, essas empresas se afundam sozinhas ou levam os clubes consigo. Independente do que, alguém vai ter que continuar a pagar salários elevados para atletas, e é certo que esse alguém será, em última instância, o clube que é dono da camisa que esses atletas vestem. Com isso, clubes precisarão arrancar dinheiro sabe-se lá de onde, mas imagino que principalmente da televisão, que, por conta do desespero, será forçada a aumentar o valor dos contratos de transmissão. E, daí por diante, a coisa vai se degringolando.

O sistema financeiro do futebol brasileiro sempre se apoiou bastante na venda de atletas. Agora, o sistema passa por mudanças profundas forçadas por elementos externos que aos poucos vão fragilizando a estabilidade desse sistema. Se o Banco BMG quebra, por exemplo, ele leva junto muita gente, ainda que essa quebra pareça ser uma possibilidade remota. Mas dá idéia do tamanho da fragilidade da estrutura da indústria do futebol brasileiro. Aos poucos, a bolha vai inflando. Se nenhuma espécie de controle começar a ser pensado, existe uma grande chance de haver problemas bastante graves em breve. Há muita oferta de jogadores para pouca demanda que pague bem.

Na crise do café no começo do século XX, o governo mandou queimar os grãos para conseguir estabilizar a relação entre oferta e demanda. Imagino que ele não vá fazer o mesmo com jogadores de futebol. É bom começar a pensar em uma segunda opção.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br  

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A retórica do abstrato ou o discurso de Johan Cruyff

Na última página do jornal A Bola, edição de 13 de Julho de 2010, é notícia uma crítica de aberta oposição de Johan Cruyff ao futebol praticado pela Holanda e, afinal, pelas grandes potências europeias do futebol, que não têm estilo e cultura que as distinga umas das outras. As mais conhecidas seleções europeias jogam todas sob os mesmos princípios e os mesmos modelos de jogo. Nelas, impera a mesmidade e escasseia o inesperado e o insólito do futebol verdadeiramente espetacular. Cruyff aponta uma das causas: há demasiados estrangeiros nos campeonatos e, por isso, os melhores jogadores nacionais são forçados a emigrar. Se são convocados para as seleções dos seus países, surgem “mecanizados” por princípios que não refletem a cultura da terra que os viu nascer. É caso para perguntar: há futebol inglês, ou futebol na Inglaterra? Há futebol italiano, ou futebol na Itália? Há futebol holandês, ou futebol na Holanda?

A existência da Fifa significa que o futebol, nos vários países, se edifica sobre leis universais e sobre relações estáveis, duradouras, jerarquizadas. O futebol globalizou-se sob um poder mundializado. E, por isso, há futebol, na Inglaterra, na Holanda, na Itália, na Espanha, em Portugal, etc. E com semelhantes instituições e regras iguais. Só que o poder, qualquer que ele seja, traz consigo, hoje, a incontrolada tirania dos mercados.

A Fifa não globaliza só o futebol, mas também o mercado global que a faz viver, através dos grandes monopólios empresariais e dos poderosos conglomerados multinacionais. As vendas de jogadores, a realização de feéricas competições desportivas, os direitos televisivos, o merchandising, todos proporcionam lucros fabulosos aos donos de um mercado único de capitais, que concentra o dinheiro em meia dúzia de empresários e instituições e dele afasta a esmagadora maioria dos clubes de futebol. A mercantilização do futebol não passa de uma estratégia para excluir dos lucros que o futebol gera um número incontável de clubes que também são a sua razão de ser.

Nos campeonatos dos seus países, não jogam só o Barcelona, ou o Real Madrid; nem o Chelsea, ou o Manchester United; nem a Inter, ou o Milan; nem o Benfica ou o Porto (e não me sirvo de mais exemplos, agora) – muitíssimos outros clubes competem também. Ora, o capitalismo global e os mercados planetários, que a Fifa representa, não se encontram ao serviço das necessidades do futebol, mas dos imperativos do mercado.

Na Fifa, o futebol é a estrutura determinada, e o econômico, a estrutura determinante. Quem, como eu, vê futebol há 70 anos, parece-lhe justo capitular de vã quimera o pensar-se que os futebolistas atuais são admiráveis artistas, face aos seus predecessores de cinquenta anos atrás, tímidos, canhestros e desajeitados. É que, na seleção dos “Magriços”, em Portugal, ou nas “seleções canarinhas” de 58 e 62 (três exemplos, entre outros), não sei se teriam lugar qualquer um dos jogadores brasileiros e portugueses, que representaram os seus países, no Mundial da África do Sul. Incluindo o Kaká e o Cristiano Ronaldo, imobilizados numa inesperada mediania. Mas, as mutações sócioculturais e tecnocientíficas do século XX, mais vastas, profundas e céleres do que em qualquer outro estádio histórico, não chegaram ao futebol e não o transformaram também?

Entre o futebol do Eusébio e do Coluna e o de hoje a diferença é enorme, no profissionalismo dos seus agentes, nas inovações tecnológicas (incluindo as da cibernética, da electrônica, da informática), nas instalações desportivas, nos cuidados médicos, na gestão dos clubes, nos vencimentos dos técnicos e dos jogadores, etc., etc. Mas o futebol perdeu em beleza o que ganhou em eficácia. Hoje, um futebol-espetáculo sem gols perdeu interesse e cada vez mais ele se faz em função dos resultados e do lucro e cada vez menos em função doutros valores. De acordo, aliás, com o sistema capitalista mundializado. Tenho saudades do futebol interpretado pelo Rogério (Benfica), pelo Vasques (Sporting), pelo Hernâni (Porto), pelo Amaro (Belenenses), que eu aplaudia, sem pensar nos números do placar…

Pierre Bourdieu não deixa de surpreender, quando não descobre, no desporto contemporâneo, a passagem paulatina do belo ao útil, conforme as exigências do capitalismo global. É verdade que acentuou “o fato de a carreira desportiva, que se encontra praticamente excluída do campo das trajetórias admissíveis para uma criança de origem burguesa (…) representar uma das únicas vias de ascensão social para as crianças provenientes das classes dominadas” (Questões de Sociologia, Fim de Século, Lisboa, 2003, p. 196). Mas o futebol é o que é, principalmente porque se transformou no fiel servidor do deus-lucro. Ele é efeito de uma normalização, em proveito da homeostase do capitalismo que domina o futebol.

A simbiose capitalismo-futebol, reconheço, trouxe um evidente progresso ao futebol, mas dando à instância econômica um posicionamento e uma funcionalidade de infraestrutura – que é praticamente idêntica em todos os países. Daí, o Brasil jogar como a Holanda, ou a Alemanha como o Uruguai, etc. Afinal, o poder que os comanda é o mesmo e portanto não reconhecer estes elementos invariantes, na promoção e institucionalização do futebol atual, é descambar numa retórica do abstrato, onde se criticam os efeitos, mas não se apontam as causas… nem de leve!

Pensar, hoje, a administração e a gestão do futebol não é procurar a verdade, mas o lucro. Para os administradores dos grandes clubes, os problemas maiores não são os de ordem táctica (como para Johan Cruyff), mas os que se prendem com a crise financeira em que o capitalismo se encontra submerso. Entretanto, mesmo com dívidas astronômicas, o Real Madrid e o Barcelona e o Manchester United ainda são os clubes mais ricos do mundo. A Liga dos Campeões, os direitos televisivos, a bilheteira, o “merchandising” são receitas a ter em conta. E, em tempo de crise, como é de lei no capitalismo, há sempre fortunas colossais que têm a sua raiz, na miséria…dos outros!

Vale a pena ler o magnífico trabalho do jornalista Carlos Rias (A Bola, de 27 de Julho de 2010) para contemplar o panorama financeiro do futebol europeu. Vale a pena ler Karl Marx, para entendê-lo.
*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.

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O que o futebol não faz, o vôlei ensina

É redundante falar novamente sobre o sucesso das seleções brasileiras de voleibol face aos resultados expressivos dos últimos 20 anos. Acaba por ser inevitável a comparação com o esporte mais popular do país, o futebol, e se perguntar o que aquele fez de tão bom para chegar a patamares quase que hegemônicos nos naipes masculino e feminino.

Li muito artigo nessa semana creditando a vitória da Seleção Masculina de Voleibol no Tri-Campeonato Mundial ao seu técnico Bernardinho. De fato, trata-se de uma figura de incrível capacidade de reunir, engajar e trabalhar em prol dos resultados com o elenco de atletas que convoca e sua equipe de trabalho multidisciplinar.

Contudo, acompanhando há algum tempo a evolução da modalidade, percebemos que o sucesso esportivo nas seleções é proveniente de um trabalho de organização e gestão minuciosamente planejado, envolvendo em essência duas premissas básicas que percebo com alguma deficiência ainda no futebol: (1) a formação e capacitação profissional e (2) um programa contínuo de formação de atletas.

Na primeira, o voleibol adotou há algum tempo o CONAT, que é uma Escola de Treinadores, nivelando, conforme a categoria e a evolução profissional do treinador (e demais profissionais que complementam uma comissão técnica multidisciplinar), respeitando a evolução de conhecimento do mesmo em modelo semelhante ao que ocorre na UEFA, que classifica em níveis os técnicos do futebol.

Essa ideia vai além, de acordo com palavras do Presidente da Confederação Brasileira de Voleibol, Sr. Ary Graça Filho, que, certa vez, em entrevista para um canal de esportes mencionou o cuidado da CBV em observar jogadores de expressão que estão em vias de se aposentar para convidá-los a se capacitar durante os últimos anos de suas carreiras. Com essa medida, contribuem para a melhoria do conhecimento científico agregado com o nome e a experiência prática de ex-atletas.

Na segunda premissa é possível notar a enorme quantidade de jogadores que fizeram parte das seleções de base para então figurar na seleção principal. Esse processo contínuo de formação de jogadores é muito bem desenvolvido a partir de uma visão do todo e não específica de cada categoria.

Tanto na primeira situação quanto na segunda, o futebol encontra barreiras culturais que dificultam sobremaneira a sua aplicação na prática. No caso da formação profissional, há ainda uma ideia perene de que o conhecimento prático, puro e simples, são a chave para o sucesso nas equipes, indo de encontro a evolução científica e a era da informação e do conhecimento como fatores para evolução contínua da modalidade.

No que se refere às seleções de base, percebe-se que nem sempre os critérios técnicos são levados em conta no momento de uma convocação de atletas, dificultando um pensamento dos clubes brasileiros em torno daquilo que é benéfico para a Seleção Brasileira como um todo. Por tal razão, conta-se nos dedos os atletas que passaram por várias categorias até chegar à seleção principal.

A cópia integral de um modelo de gestão nunca é o mais indicado, mas a observação de pontos-chave no sucesso de instituições similares fazem parte daquilo que a literatura define como “benchmarking”. O voleibol brasileiro inovou e vem inovando continuamente e por tal razão pode e deve ser observado com uma atenção mais técnica e não puramente emocional sobre os fatores que o conduziram ao sucesso esportivo mundial.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br  

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Comportamento ruim: falta de treino ou compulsão à repetição?

O profissional que trabalha com Psicologia do Esporte busca proporcionar que o atleta melhore ou mantenha seu rendimento. No entanto, o que muitas vezes vemos, quando acompanhamos um atleta, ou uma equipe, é uma compulsão à repetição de um comportamento que atrapalha o rendimento. Explicações há muitas, mas nenhuma ou quase nenhuma faz com que na próxima competição o atleta não repita esse comportamento. Se o problema fosse resolvido apenas com mais treino, quase nenhum atleta de alto rendimento erraria mais! O problema vai além.

Até mesmo a mídia, que nesse ano de Copa do Mundo aproveitou diversos acontecimentos dos prováveis chamados à seleção brasileira de futebol masculino para vender seus meios de comunicação, facilitou essa observação. Ou seja, nem precisa ser da área do esporte para saber dessas repetições, mas é preciso um olhar atento.

Em “Além do Princípio de Prazer”, Freud (1920 – 1922, p. 29 -30) discute que a pessoa não pode recordar a totalidade do que nele se acha reprimido, e o que não lhe é possível recordar pode ser exatamente a parte essencial. Dessa maneira, a pessoa não adquire nenhum sentimento de correção da construção teórica que lhe foi comunicada. É obrigada a repetir o material reprimido como se fosse uma experiência contemporânea. Eis aí a repetição do comportamento. Também diz que as resistências da pessoa originam-se do ego e então, imediatamente, perceberemos que a compulsão à repetição deve ser atribuída ao reprimido inconsciente.

Esse fato, por exemplo, o reprimido inconsciente, não é levado em consideração por muitas teorias psicológicas. Acreditando que boa parte daqueles que trabalham com o esporte em seus aspectos psicológicos não consideram a existência do inconsciente, já dá para começar a compreender porque muitos atletas, principalmente os mais destacados pela mídia, continuam repetindo comportamentos destrutivos como foi considerado o caso do Adriano, ex-jogador do Flamengo. Este, provavelmente, não foi escalado para a seleção brasileira que disputou a Copa este ano por seus comportamentos repetitivos e não aceitos para a função que exerce. Mas será que algo está sendo realizado para que ele entenda o porquê de suas atitudes? Nesse sentido, acredito que se a Psicanálise for incluída num trabalho com esse atleta, por exemplo, o direito ele poderá alcançar – compreender sua compulsão à repetição.

Para Freud (1920 – 1922, p. 31) não há dúvida de que a resistência do ego consciente ou inconsciente funciona sob a influência do princípio do prazer; ela busca evitar o desprazer que seria produzido, pela liberação do reprimido. Porém, como explicar a compulsão à repetição – manifestação do reprimido – relacionada com o princípio do prazer, que é o que todos dizem buscar na vida? É claro que a maior parte do que é reexperimentado sob a compulsão à repetição deve causar desprazer ao ego, pois traz à tona as atividades dos impulsos reprimidos. Isso causa desprazer para um dos dois sistemas (consciente ou inconsciente) e, simultaneamente, prazer para o outro.

Laplanche e Pontalis (2001, p. 307) descrevem que efetivamente os exemplos apresentados por Freud indicam que ele só invoca a compulsão à repetição para traduzir experiências relativamente específicas. Um deles é:

1. Quando surge uma fatalidade externa de que o sujeito se sente vítima, e parece que com razão (por exemplo, quando um atleta erra muitos passes durante um jogo).

De acordo com esse exemplo podemos lembrar algumas frases emitidas por atletas durante entrevistas para a mídia tentando explicar o ocorrido: “Não estou jogando bem hoje”, “Não estou numa boa fase” ou “O campo estava ruim”.

O esporte é cheio de mitos. Não penso que a Psicanálise deva ajudar a derrubá-los, mas ela pode facilitar os atletas a entenderem o que lhes acontece e o que, a partir disso, podem fazer, seja para alcançarem um melhor rendimento ou para fazerem outra escolha. Até mesmo para nada fazerem, apenas saberem e não se sentirem injustiçado. E isso se estende a todos os outros profissionais que trabalham com os atletas, como a comissão técnica, em especial seu principal líder, o técnico, que é o “comandante” de diversas pessoas com compulsão à repetição, ou seja, além da sua própria compulsão à repetição, também tem que orientar “diversas outras”. Ou seja, o entendimento de que o inconsciente existe e que se manifesta pode ajudar e muito nesse trabalho.

Referências

FREUD, S. Além do Princípio de Prazer. (Parte III). In: FREUD, S. Além do Princípio de Prazer. Psicologia de Grupo e outros trabalhos. Vol. XVIII. (1920-1922). Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1987.

LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. VOCABULÁRIO DA PSICANÁLISE. Tradução de Pedro Tamen. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

*Contato: taniabas@terra.com.br

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Liberdade de imprensa?

Na reta final da votação do primeiro turno das eleições presidenciais, o tema “liberdade de imprensa” ganhou espaço, não apenas no noticiário, mas também no próprio discurso do presidente Lula. O debate acalorou-se ainda mais na última semana, quando o jornal “O Estado de S. Paulo” desfez-se dos serviços da psicanalista Maria Rita Khel, uma de suas articulistas.

O centro da decisão do jornal foi um artigo escrito por ela, em que se coloca relativamente contra o “Estadão” na decisão da escolha do candidato às eleições. Em seu texto, a articulista defende Dilma Roussef, candidata que não tem a preferência do veículo. Sim, o jornal já havia dito, publicamente, em editorial assinado na capa da edição do domingo anterior à eleição, que apoiava José Serra, e um dos motivos alegados era o de que Lula, o presidente, tentava cercear a liberdade de expressão da imprensa.

Cerca de duas semanas depois desse texto, o mesmo “Estadão” deixou de ter em sua equipe uma pessoa que publicamente posicionou-se de maneira diferente da do jornal. A saída de Khel foi a gota d’água para que o debate sobre liberdade de imprensa fosse ampliado, com o “Estadão” deixando a posição de vítima para a de vilão.

Em meio a muita discussão, o ponto crucial foi deixado de lado. O que é, afinal, liberdade de imprensa? E qual é a liberdade do profissional de imprensa? Esse é um dos pontos mais fundamentais do exercício da profissão de jornalista, e infelizmente é deixado de lado na maioria dos cursos de jornalismo, o que gera uma grande falha no exercício da profissão dentro dos veículos.

Mas o que tudo a isso tem de ver com o esporte? Bem, no meio esportivo, esse debate seria fundamental para aprimorar a qualidade do profissional de imprensa que trabalha no dia-a-dia da profissão.

A liberdade de imprensa é o direito de qualquer veículo divulgar uma informação verídica. Uma democracia depende disso para poder ser considerada uma democracia de fato. Afinal, quanto mais livres para expressar suas opiniões forem os veículos, mais direito a encontrar diferentes opiniões tem a população de um país.

Mas à liberdade de expressão da imprensa se opõe outro tipo de forma de expressão, que é a liberdade de expressão do profissional de imprensa. E, essa, infelizmente, é limitada.

Apesar do que é dito nas faculdades de jornalismo, o jornalista não é livre para expressar sua opinião. Essa liberdade termina, necessariamente, nos interesses comerciais do veículo para o qual aquele profissional trabalha.

A origem da imprensa foi exatamente quando o primeiro dono de um veículo definiu que criar um veículo para defender um ponto de vista, falando para um determinado tipo de público. Um país democrático tem diversos veículos de imprensa, exprimindo diferentes pontos de vista, dando às pessoas a liberdade de decidir qual tipo de informação quer consumir.

Foi isso o que aconteceu no caso do “Estadão”. A liberdade de expressão do jornalista (ou, no caso, do seu articulista) se encerra a partir do momento em que aquilo que ela escreve vai de encontro ao que pensa o veículo para o qual ele trabalha.

Nos veículos esportivos, vemos constantemente isso acontecer. Jornalistas que colocam os microfones a serviço do patrão. Não há erro algum nisso, desde que ficasse claro qual é o interesse do veículo com esse tipo de ação. Não é, muitas vezes, o caso.

Liberdade de imprensa é algo extremamente importante. A liberdade do profissional de imprensa, porém, tem um limite. E isso é que deveria ficar muito claro para quem recebe a informação.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br  

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Chief Football Officer

Não sou afeito a estrangeirismos à toa. Acredito que a língua portuguesa é rica e pródiga para que o que se queira expressar seja encontrado.

Da mesma forma, não radicalizo os usos e costumes linguísticos que preservam aquilo de essencial que venha do estrangeiro.

Com efeito, em reuniões profissionais nos ambientes corporativos e publicitários, é absolutamente frequente – e, para mim, exagerado – o uso destes termos.

É CEO pra cá, CMO pra lá, C alguma coisa… Invencionices para deixar de chamar estas pessoas de Diretor disso ou Diretor daquilo.

Pois bem, já que a sede por mudanças e modernidade em nosso futebol é enorme, proponho a criação do CFO: Chief Football Officer.

Isso se deve ao fato de que o tão sonhado cargo de manager, que Luxemburgo sempre postula, realmente é tão necessário quanto raro em sua existência nos clubes brasileiros e na existência de profissionais com o perfil para ocupá-lo.

Também difere radicalmente do diretor de futebol, pois este se alimenta – oficialmente – da paixão que dedica ao seu clube e não é remunerado por isso e, na maioria dos casos, o planejamento que segue é riscado em reuniões realizadas informalmente em jantares e baseado em suas convicções administrativas e políticas.

Rodrigo Caetano personifica o melhor deste incipiente cargo que defendemos.

Ex-jogador profissional do Grêmio, ele teve a carreira interrompida por uma lesão, antes de embarcar para a Espanha na década de 1990. Não lamentou. Ao contrário, foi complementar a sabedoria adquirida na prática com o curso de Administração de Empresas e outros cursos de pós-graduação na área de gestão esportiva.

Virou referência unânime de bom trabalho nos quatro anos no clube gaúcho, que o levaram ao Vasco. Na vitrine nacional, está cotado para assumir cargo executivo na CBF, pois Mano Menezes conhece de perto seu trabalho.

Suas planilhas com informações de jogadores brasileiros, bem como a rede de relacionamentos com empresários, agentes e treinadores é um dos trunfos que provoca tamanho interesse em contratá-lo.

A diretoria que acaba de assumir o Grêmio está mais preocupada em convencer Caetano a voltar ao Olímpico que manter Jonas no clube no ano que vem.

Paulo Odone, o presidente eleito, disse que o clube já tentou outros profissionais para o cargo, mas o perfil “boleiro” atrapalha o trabalho de longo prazo.

Literalmente, o futebol brasileiro carece de Executivos-Chefe de Futebol (CFOs) como Caetano.

Aliás, manager, no bom português, significa gerente, e, no meu organograma, ficaria abaixo do CFO.

O que deixaria, naturalmente e, por meritocracia, Luxemburgo submetido ao trabalho de Caetano

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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José Mourinho em entrevista: prenúncios de vitórias

Peço licença aos leitores para ao invés de, como programado, debater questões referentes a auto-organização e padrões de jogo, publicar em minha coluna um achado em meus arquivos.

Trata-se de uma entrevista de José Mourinho à revista “Selecções”, que foi publicada quando ainda o treinador atuava pelo Futebol Clube do Porto e acabara de ganhar a Taça Uefa.

Eu estava prepararando uma palestra quando a encontrei. Há muito a tinha lido. Realmente naquela época, em sua fala e nas colocações da entrevistadora, indícios de prenúncios.

Vale a pena ler…

– Entrevista reproduzida na íntegra, no português de Portugal.

«Não quero um Ferrari e uma quinta. Quero a alegria e ser reconhecido» diz José Mourinho que nasceu a 20 metros do Estádio do Bonfim, aprendeu a andar no relvado do estádio do Setúbal, jogou à bola com o pai, (o antigo guarda redes Félix Mourinho), a quem disse que queria ser treinador de futebol. Com o Futebol Clube do Porto acaba por sagrar-se campeão nacional e conquistar a Taça UEFA. A ambição, extraordinária, é da medida do seu talento. Ninguém duvida que a carreira, a procissão, ainda vai no adro. (Por Anabela Mota Ribeiro)

Selecções do Reader`s Digest – Formou-se no ISEF aos 24 anos e completou um curso para treinadores na Escócia. Não é muito comum no mundo do futebol esta preocupação com a instrução.

José Mourinho – Sempre existiu em mim a ambição de me licenciar, independentemente da minha vocação. Talvez influenciado pela minha família: «Não sabes qual vai ser o teu futuro no futebol, pelo menos constrói algo sólido».

SRD – Havia essa preocupação?

JM – Havia. O meu pai esteve a vida toda ligado ao futebol com todas as dificuldades inerentes ao mesmo. Se eu tivesse sido mal sucedido nesta minha aposta, como treinador, na pior das hipóteses era professor de educação física. Paralelamente a esta preocupação, sabia o que aquilo me podia dar. Tenho uma máxima, que não é minha, mas que ouvi em qualquer lado e que guardei para mim: «Um treinador de futebol que só sabe de futebol, é um péssimo treinador de futebol».

SRD – De que outras coisas tem de saber?

JM – De tudo. Há áreas científicas que nos podem ajudar no nosso trabalho, nomeadamente psicologia, pedagogia, fisiologia. Posso falar com o meu departamento médico sobre lesões, músculos, bio-mecânica, teoria do treino. São temas que domino. Dominar as competências psicológicas, é fundamental. Pode fazer a diferença.

SRD – Imputam-lhe essa competência e apontam-na como uma das razões do seu sucesso: a autoridade que tem sobre os jogadores, e, mais do que isso, o reconhecimento da individualidade de cada um deles.

JM – Vou mais por aí. A execução da autoridade vai-se esbatendo com o tempo e com a empatia que vou criando. Quando chego a um clube sinto necessidade de mostrar quem sou e o que posso fazer; tenho necessidade de me afirmar e estabelecer algumas regras. A minha liderança, toda a gente a sente mas ninguém a vê. Ter enveredado pela via académica, possibilitou-me ser melhor treinador. O Jorge Costa dizia numa entrevista: «A partir do momento em que fui treinado pelo Mourinho, conheci o filet mignon. Se o Porto mudasse de treinador e me oferecessem carapau ou sardinha, deixava de jogar à bola». É isto: os treinadores de hoje têm de ir à procura do conhecimento.

SRD – Esse estigma, de que as pessoas do futebol são incultas, grosseiras, quase sempre provenientes de camadas sociais muito humildes, tende a dissipar-se?

JM – Mudou de forma radical. Nos anos 60 o meu pai ia ao estrangeiro às competições europeias e era o único que podia comunicar em francês ou inglês.
 
SRD – O seu pai falava línguas?

JM – Era auto-didacta. Fez o antigo curso comercial, equivalente ao sétimo ano; mas gostava de línguas e de ler, e queria evoluir.

SRD – Foi ele que o ensinou a falar inglês?

JM – Não. A sua competência no inglês não é tão grande, mas era o suficiente para poder comunicar. Hoje em dia, a minha equipa vai ao estrangeiro e há um ou dois que não podem comunicar em francês ou inglês. Nos anos 70, o que é que os jogadores faziam nos tempos mortos de estágio?

SRD – O que era?

JM – Jogavam cartas. Agora estão ligados à internet, consultam a imprensa internacional porque querem saber o que dizem deles, estudam, lêem.

SRD – Aos 15 anos teve a noção de que queria ser treinador. E essa noção era acompanhada de uma outra: a de que dificilmente seria um jogador de excepção.

JM – Sim.

SRD – Ora o que queria para si era justamente a excepção. Porquê?

JM – Como qualquer miúdo, cresci a adorar jogar. Não posso dizer que não era um miúdo com talento. No meu grupo de amigos, era dos mais talentosos. Mas a via académica exigia-me responsabilidades, tive que fazer as minhas escolhas. Senti que não valia a pena arriscar porque as possibilidades de sucesso não eram grandes.

SRD – Isso é que é a coisa extraordinária: ter tido essa lucidez aos 15 anos.

JM – Sabia das minhas limitações e das minhas qualidades. O meu skill não era melhor que o skill dos outros. As minhas qualidades físicas não eram de excepção; não era rápido, e a velocidade é fundamental para o futebol de alto nível. Aquilo que me fazia melhor do que os outros era a minha capacidade de ler, analisar equipas. A visão que tinha da situação. Eu conseguia ver coisas que os outros não conseguiam, inclusive adultos.

SRD – É verdade que o seu pai lhe pedia para fazer a observação das equipas adversárias?

JM – Sim.

SRD – Foi verdadeiramente a sua escola?

JM – A escola de qualquer treinador começa aí. Na capacidade de assistir a jogos com outros olhos. Não é ir para o futebol e ver o jogo como um adepto normal, preocupado se A ganha ou B ganha. É a tentar perceber como é que uma equipa funciona, quais são os seus princípios de jogo.

SRD – Nesse processo de aprendizagem, que dura desde sempre, e que vai durar a vida toda – sei que continua a ser obsessivo na observação dos jogos, passa horas agarrado ao vídeo -, tinha um interlocutor? O seu pai, outros jogadores, amigos.

JM – Não tinha muito. Vivi praticamente separado do meu pai.

SRD – Isso representa uma grande dor para si?

JM – Em criança, sim. Sentia a falta da sua presença, de poder falar com ele. Mas foi uma opção que a nossa família tomou: o meu pai era treinador, ia circular de equipa para equipa, e eu e a minha irmã, enquanto estudantes, não podíamos fazer isto. Vivemos em Setúbal com a nossa mãe, e o nosso pai, nos tempos livres, quando podia, voltava sempre a casa.

SRD – Que marcas lhe deixou essa opção da sua família?

JM – De tal forma me marcou que defini com a minha mulher que, onde eu for, eles vão. A minha filha tem seis anos e já esteve em três cidades diferentes. E para a formação dela, não é nada mau. A capacidade de dominar línguas, lidar com a diferença, mudar de cidade … É uma miúda com uma capacidade de adaptação fantástica. No fundo, ter carinho e estabilidade, ter o pai, a mãe e o irmão ao seu lado é muito mais importante que a tristeza momentânea de abandonar uma escola, uma professora e uns amigos.

SRD – Quando ganhou a Taça UEFA em Sevilha, no final do jogo olhou na direcção em que sabia que eles estavam. Era importante tê-los ao seu lado naquele momento?

JM – Era. Não queria que a alegria deles depend
esse do ganhar ou do perder; mas comecei a perceber a importância que a carreira do pai tem para eles. Eu ganho, chego a casa e eles estão em festa. Eu perco, chego a casa e eles estão tristes.

SRD – Eles assistem a todos os jogos?

JM – Não vão nunca ao futebol. Por opção da minha mulher. Não gosta que decifrem o seu estado de espírito; prefere ver [os jogos] em casa, a sós. Mas os miúdos entram dentro dela, conseguem extrair a angústia, o sofrimento… Naquele dia quis que estivessem porque sabia que podia ser o dia mais importante da minha vida desportiva. Foi meu desejo saber onde é que estavam. Até posso dizer como é que soube onde é que estavam…

SRD – Diga.

JM – Pelos bilhetes, consegui perceber o sector onde iam estar; antes do jogo começar pedi a um fotógrafo amigo que, com a tele-objectiva, fosse à procura deles. «Pronto, estão ali». Do banco não conseguia ver, mas sabia que estavam naquele sítio. Quando o jogo acabou, imaginei o que estavam a viver … e foi para eles.

SRD – É muito importante que os seus filhos tenham orgulho em si?

JM – É. Mas aquilo que queremos é que tenham orgulho, independentemente do sucesso. Magoa-me que, na inocência, as crianças sejam cruéis umas com as outras.

SRD – Na escola, no dia seguinte?

JM – No dia seguinte, quando as coisas não correm bem, a vida não é fácil para a Matilde; ela é capaz de sofrer em silêncio, guarda para ela. Ele, que tem três anos, não é assim; já percebi que daqui a dois ou três anos, quando o pai perder, no dia seguinte vão chamar-me à escola. Porque ele é pai! É impulsivo. Nos seus impulsos, apesar do grande coração, é agressivo. Acho que há colegas que vão levar uns estalos fortes…

SRD – A obstinação e a ambição são o seu talento. São, pelo menos, instrumentos que servem o seu talento. Não consigo compreender completamente a fúria com que responde, para usar uma expressão sua, ao «chamamento da vitória». Onde radica esta confiança? Porquê esta pulsão tão violenta para chegar lá?

JM – A auto-confiança nasce da convicção no trabalho que realizo. O mais importante é passar aos jogadores a mesma convicção. O desejo de vitória e a convicção na vitória partem fundamentalmente dessa crença.

SRD – Pode instigar-lhes essa convicção sem estar, você, completamente convicto?

JM – Não consigo. Porque eu estou sempre convicto.

SRD – Mas não se acredita em super-homens. Com certeza tem momentos de fragilidade.

JM – Tenho os meus momentos de fragilidade. Creio que os tenho mais na vida pessoal que na profissional. Os momentos mais difíceis, sob o ponto de vista profissional, são os momentos em que me revelo mais, em que me supero. Exemplo claro: quando a minha equipa ganha, às vezes são os meus adjuntos que vão à conferência de imprensa. Quando a minha equipa perde, sou eu que vou. Vesti bem a pele de líder, de homem sem fragilidades. Que as tenho!, enquanto homem.

SRD – Não se admite tê-las enquanto profissional?

JM – Não é admitir: não as sinto. Nos momentos de maior responsabilidade é quando me sinto mais cómodo, nos jogos mais impactantes é quando sinto mais prazer em lá estar.

SRD – Trata-se de arriscar? Ouço-o e parece que assisto a um jogo de roleta. Há o prazer do risco e de estar completamente envolvido nesse lance.

JM – É, é realização. Não há nenhum jogador ou treinador que, em miúdo, sonhasse com um jogo de chacha. Quando sonhei com jogos, acordei sempre a pensar que ia ganhar a Taça UEFA, que ia jogar o Benfica-Porto. Um jogador quando sonha marcar golos, não sonha fazê-lo no Porto-Gil Vicente. Quando sonha, sonha à grande. Se tenho o privilégio de estar metido nessa realidade com que sempre sonhei, tenho de desfrutar. Os meus jogadores têm também este espírito. Gostam de jogos grandes, gostam de responsabilidade. Na minha vida, tenho obviamente as minhas fragilidades.

SRD – Onde é que se refugia?

JM – Nos meus.

SRD – Era capaz de revelar essa fragilidade, por exemplo chorar, à frente de uma pessoa que não fosse da sua família?

JM – Se fosse um bom amigo, sim.

SRD – Chora?

JM – Pouco, muito pouco.

SRD – Quando chorou a última vez?

JM – Em Sevilha.

SRD – Mas isso foi uma explosão de felicidade. Refiro-me ao choro que resulta do sofrimento.

JM – Chorei de forma descontrolada em situações irreparáveis, na morte daqueles que amei. Falo de avós, da minha irmã, da mãe da minha mulher, de um dos meus melhores amigos. Foram momentos em que senti que não podia fazer nada. Tudo tinha acabado.

SRD – Ou seja, o que o faz sofrer é a impotência?

JM – É exactamente a impotência. Podem-me vir as lágrimas aos olhos quando um filho tem um gesto especial, quando recebo no telefone uma filmagem da Matilde a ganhar uma competição de natação. Sou capaz de ficar mais emocionado com isto que com outra coisa qualquer. Perante as dificuldades, não. Perante a impotência, sim.

SRD – Ambiciona para si uma carreira internacional. Quando no Barcelona decidiu não seguir o Bobby Robson até Newcastle, estava já convicto do caminho que queria trilhar? Portugal primeiro e o mundo depois?

JM – Sim, claramente!

SRD – Mas você dorme? Quando é que pensa nessas coisas todas?

JM – Eles próprios, o Bobby e o Van Gaal, perceberam que tinham de me libertar de algum vínculo moral que pudesse ter.

SRD – Se não o libertassem, seria capaz de o fazer autonomamente? Sentia-os como pais putativos?

JM – Seria capaz, mas não naquele momento. Não sou pessoa de dizer: «Sr. Pinto da Costa, muito obrigado por me ter contratado». Ao Bobby e ao Van Gaal não disse: «Muito obrigado por me teres dado este contrato, muito obrigado por me teres trazido para Barcelona, muito obrigado por teres mudado a minha vida». O meu trabalho e a minha dedicação são a minha forma de gratidão. Eu nunca senti, em nenhum momento, que lhes devia alguma coisa. Quando decidi ser treinador principal e vir embora, nunca pensei que estava a ser incorrecto. Não lhes devo nada, paguei-lhes tudo, e por isso senti-me sempre livre para decidir. Se sentisse que não tinham pernas para andar sem mim, se calhar hipotecava um ano ou dois da minha independência. Era capaz de o fazer. Mas eles não precisavam de mim para nada. Tanto um como outro disseram: «Tu estás preparado».

SRD – Em que momentos pensa nessas coisas, «agora vou fazer isto», «já estou preparado»?, quando está no chuveiro, quando anda de carro?

JM – É um grande problema… Muitas vezes as pessoas estão comigo, mas eu não estou com elas.

SRD – Parece um homem solitário. Pensei nisso quando o vi a correr, de fato e gravata, depois da conquista da taça em Sevilha. O seu movimento era o de um menino solto, ondulante, exalando pura felicidade. Paradoxalmente, ainda que estivesse com milhares de pessoas, parecia correr por sua conta, entregue apenas a si.

JM – Foi um bocadinho isso. No meu livro, escrito pelo Luís Lourenço, há uma parte em que a minha mulher diz qualquer coisa como: «Ele fala tão pouco… Muitas vezes estamos juntos e ele não está comigo. Só por conhecê-lo tão bem, consigo perceber aquilo que me quer dizer sem me dizer nada». Sou um bocadinho assim. Fechado. Preciso do meu espaço. Muito tempo do meu dia é para reflectir, faço a avaliação do treino, o que correu mal, o que pode correr melhor.

SRD
– A quem queria provar que era bom, ao seu pai?

JM – Não, não, não. Os meus pais nunca puseram qualquer pressão sobre mim. Nunca senti que tinha de lhes provar nada. À minha mulher, tão pouco. É das pessoas que mais acreditam em mim, no meu potencial, incentivou-me a deixar Barcelona e vir para Portugal. Em Barcelona a minha situação era fantástica: ganhava uma pipa de massa, uma pipa redondinha, bem cheia; era adjunto, não tinha tantos cabelos brancos porque as preocupações não eram tantas, queriam que continuasse. E ela, por perceber que eu era um tipo angustiado porque queria mais, disse-me para esquecer tudo e ir à luta.

SRD – Então, teve necessidade de provar apenas a si mesmo?

JM – A mim mesmo. Há quem pense que eu queria provar àqueles que não gostam de mim… Porque há muita gente que não gosta de mim.

SRD – Quando finalmente se impôs como um grande treinador e pôde calar aqueles que olhavam para si como o tradutor do Bobby Robson, nessa altura riu à gargalhada?

JM – Ri, ri. Mas se me disser «Vamos falar deles, vamos falar do que disseram de si», não falo.

SRD – Verdadeiramente eles não contam, pois não?

JM – Mas para muita gente contam. Para mim não têm interesse absolutamente nenhum.

SRD – E o dinheiro?, é o seu móbil?

JM – Não. Quero qualidade de vida. Quero que os meus filhos andem num bom colégio, quero poder vestir bem, quero ter boas férias. Não quero mais do que aquilo que um cidadão comum quer. Não tenho ambições desdemidas. Não quero ter uma casa com 800 m2, não quero ter uma quinta, não quero ter um Ferrari. Não quero nada disso.

SRD – Então?, se não é o dinheiro que o faz correr, é o quê?

JM – O sucesso! O prazer pessoal. A alegria. Ando à procura de felicidade, de plenitude. Quero ganhar títulos, quero ser reconhecido, quero, como já está a acontecer, que noutros países saibam que há um tal José Mourinho que é um treinador de futuro. Ando à procura disso.

SRD – Espero que nos encontremos daqui a dez anos! Vou gostar de saber o que mudou na sua vida.

JM – Terá mudado pouca coisa. Familiarmente vai ser igual, com o privilégio, Deus me ajude nesse sentido, de ter visto os meus filhos crescerem dez anos espectaculares. E profissionalmente espero ser bem sucedido, acredito que vou ser bem sucedido. Espero ganhar títulos. Espero ter a mesma alegria naquilo que faço.

SRD – No fundo, aquilo que tem agora, mas numa quantidade superior?

JM – É só isso. Mais velho fisicamente, mas mentalmente mais rico. Sinto-me cada vez mais forte, mais rico. Só vou perder pró físico, nada mais.

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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A venda do Liverpool

Caros amigos da Universidade do Futebol,

Novamente nos deparamos com rumores sobre a venda e compra de clubes de futebol na Inglaterra. Desta vez (e mais uma vez), envolvendo o tradicionalíssimo Liverpool.

Sempre batemos na tecla que clubes de futebol são hoje núcleos de negócios assim como tantas outras empresas dos mais diversos ramos de atividade. Mas também defendemos que o futebol está inserido no ambiente da especificidade do esporte, o que faz com que transações nesse meio sejam feitas com a observância de determinados critérios atribuídos exclusivamente ao esporte.

Os clubes do mundo moderno (e em especial na Inglaterra, onde investimentos estrangeiros são controlados, porém permitidos), notícias do mercado de fusões e aquisições são uma constante.

A Europa, em especial, vive um momento de disputa entre os países em que o investimento estrangeiro é limitado (liderados por França e Alemanha) e os países em que o investimento é “liberado” (liderado pela Inglaterra).

As ligas nacionais são verdadeiras competidoras. Se por um lado injeta-se muito dinheiro estrangeiro nos clubes ingleses, na França joga-se basicamente com jogadores (e recursos) nacionais. Essa diferença faz com que determinados países tenham suas ligas valorizadas na venda de direitos televisivos, por exemplo, em detrimento de outras, menos atrativas.

Essa disputa reflete também no desempenho de seus principais clubes nas ligas européias. Basta comparar a performance de clubes ingleses com clubes franceses.

Evidentemente que a Liga Francesa, seus clubes, e até autoridades públicas, não gostam nada disso. Dizem que na Inglaterra é lícita a prática do “financial doping” nos clubes, promovendo uma concorrência desleal no mercado europeu.

É nessa medida que a UEFA (liderada pelo Francês Michel Platini), estuda, há anos, a introdução de regras de controle financeiro nas ligas européias e de seus clubes, para viabilizar uma melhor competição entre um número maior de clubes, aumentando, por conseguinte, a incerteza dos resultados (principal chamariz de interesse público no esporte).

Pelos lados da rainha, essa notícia não é bem aceita, daí a resistência em se aplicar de uma vez a regra do controle financeiro a nível continental. Também pudera. As cifras introduzidas naquela nação não são nada diminutas.

Mas os efeitos colaterais em transações dessa natureza também existem. Relembrando o assunto da especificidade do esporte, é preciso considerar diversas variáveis inexistentes em outros mercados. Dentre elas, a torcida. E no caso do Liverpool, ela pesa bastante e influencia, sem sombra de dúvidas, o avanço ou não da venda do clube. Vamos acompanhar o desenrolar dos fatos…

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br 

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A importância de se conhecer o árbitro

No futebol moderno, a ideia de preparar uma equipe analisando apenas as peças que compõem esse elenco procurando potencializar, taticamente falando, o desempenho máximo de cada atleta está cada vez mais ficando ultrapassada.

Hoje é imprescindível uma boa análise do seu adversário a fim de adaptar a sua equipe com o intuito de neutralizar os pontos fortes do oponente e explorar os pontos fracos desse adversário.

O exemplo disso é visto em outros esportes como, por exemplo, a equipe técnica do treinador Bernardinho na seleção brasileira de vôlei. A equipe técnica conta a estatística que faz uma análise minuciosa dos oponentes de tal forma que cada atleta do selecionado brasileiro sabe o perfil de cada um dos seus adversários. Nessa mesma linha, o futebol de alguns anos para cá também tem se preocupado com a observação de adversários.

Dessa forma podemos dizer que conhecer o seu adversário tem uma importância fundamental na preparação tática de uma partida. Mas, e o árbitro?

É notório que os árbitros de elite estudam o perfil dos atletas. O jogador que simula falta, o jogador que sempre chega atrasado, o atleta maldoso, o atleta que nunca se envolve em lances de falta dura ou confusões, o que é “reclamão”, e por aí vai…

Assim sendo, o estudo inverso também é de suma importância. Qual o perfil do árbitro que vai apitar o meu jogo? É um árbitro que deixa o jogo correr ou é um árbitro que para a partida em todo momento? É um árbitro que distribui muitos cartões ou um juiz econômico? Ele perde o controle da partida sob pressão ou sempre tem as ações do jogo controladas?

O trabalho de observação de árbitros já começou a ser utilizada em algumas comissões técnicas e aos poucos poderá (e deveria) ser incorporada no departamento de scout e observação técnica dos clubes.

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Gestão de crises

É interessante como a solução recorrente nos clubes de futebol do Brasil, quando atingidos por alguma crise que se torna pública, colocam a culpa nas pessoas, demitindo-as ou as afastando dos trabalhos regulares. Seria essa a melhor alternativa para resolver todos os seus problemas?

Importa considerar que ainda impera em alguns clubes uma mentalidade um pouco “canibal”, em que determinados grupos internos tentam derrubar os que estão no poder, causando zonas frequentes de instabilidade, impedindo uma comunicação eficaz a partir de uma ação mais planejada para se gerir uma crise.

Casos como o do Flamengo diante de seu maior ídolo, Zico, que tomam rumos de uma catástrofe meteórica em poucos dias, mostra o quão despreparada é a gestão do clube em momentos negativos. Por isso, questiono:

1) Há um Código de Ética distribuído para todos os funcionários para mostrar como devem se comportar em relação à imagem e à marca da entidade?

2) Como deve ser o comportamento de um gerente de futebol (por exemplo) perante o ambiente externo e o mercado?

3) Isto está previsto na análise e descrição de cargos, no departamento de recursos humanos? Qual o perfil desejado? Como é o processo de recrutamento e preparação das pessoas que ocupam determinados cargos gerenciais?

4) O que fazer quando ocorre um determinado problema? Existe uma comissão que pensa estrategicamente nisso?

Todos esses questionamentos e devaneios fazem parte de uma reflexão maior, procurando entender se a solução de crises não estaria no modelo de gestão ao invés de estar nas pessoas. A opção de manipular os recursos humanos pode não ser tão eficaz quanto analisar, entender e preparar todos os processos internos de gerenciamento da organização afim de se evitar situações desconfortáveis para a imagem institucional do clube.

Impressiona como muitos clubes, em plena era da informação e do conhecimento, não têm o maior cuidado em preservar a imagem do presente e de suas mais belas histórias. Não preparam uma base de suporte para que a gestão seja bem sucedida no médio e longo prazo, dando sustentabilidade para os resultados esportivos, com um pensamento uniforme. Lamentável que as pessoas, de um modo geral e de maneira míope, enxergam apenas as quatro linhas do campo de jogo.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br