Imaginemos um grupo de quatro crianças, dois meninos e duas meninas, entre quatro e cinco anos de idade brincando de casinha na sala da casa de uma delas. Vamos chamar esse espaço de rua, porque não é convencional, não há adultos ensinando crianças, tampouco há um currículo, livros didáticos, aprendizagem institucionalizada e outras características típicas da educação formal que se desenvolve no ambiente escolar. Portanto, vale ressaltar que a rua, tal como a abordamos neste texto, não se restringe a um espaço público, limitado por calçadas, onde circulam pessoas, automóveis, bicicletas…
No espaço das crianças de nosso exemplo, há bonecas, bolas, caixas de papelão, uma caixa de peças de madeira, mesinha, cadeirinhas e outros objetos. Todas falam aqui e ali, a mais velha fala mais, pegam objetos, colocam em lugares combinados, tiram, colocam de novo, sentam-se nas cadeiras, colocam a mesa, fingem que comem, levantam-se, passeiam com o carrinho etc. Difícil acompanhar e entender o que fazem; é tudo muito criativo e diversificado. Aparentemente, imitam o que é feito pelos adultos nas casas deles, mas não é igual. Tudo tem uma conotação mágica, os problemas são resolvidos rapidamente, as brigas, que ocorrem com frequência, dissipam-se, não restam mágoas, a brincadeira prossegue. Há algumas aprendizagens visíveis pela diminuição das dificuldades para transportar um objeto, encaixá-lo, pelo entendimento das sugestões da criança mais velha, pelas imitações etc. Mas isso não é tudo. Numa avaliação convencional, somente essas coisas visíveis poderiam ser solicitadas. Se deixarmos de lado hipóteses de avaliação, podemos aventar inúmeras outras aprendizagens não perceptíveis superficialmente, portanto, impossíveis de provas convencionais.
Em todo processo de formação de conhecimento, ou de aprendizagem, há uma maneira de formar o conhecimento ou de aprender. Na família, de modo geral, há imposições de comportamentos feitas pelos adultos em relação às crianças: “Não”, “Isso está errado”, “É melhor fazer assim”, “Você vai se machucar” etc. Na escola convencional, o processo é orientado por professores com autoridade para transmitir conhecimentos, seja pelo cargo que ocupam, seja pela formação acadêmica que possuem. Esses conhecimentos são previamente preparados, desde um currículo nacional até um plano de aula, e impostos aos alunos. Senão com a mesma severidade que ocorre em família, pelo menos com advertências igualmente rigorosas em relação às consequências da recusa ou do fracasso quanto à aprendizagem. Na rua é outra coisa. Embora no grupo aqui considerado haja uma criança mais velha sugerindo, e até dando ordens, não há a mesma seriedade quanto a isso, nem da parte de quem sugere, nem dos mais novos. É um faz-de-conta, um tipo de jogo, onde tudo é de mentirinha. Portanto, a pressão do compromisso, típico da família, da escola e de qualquer tarefa obrigatória, não existe. Até porque, no ambiente lúdico, o descompromisso com algo exterior aos jogadores é o fundamento. Na brincadeira dessas crianças, nada parece ser sério – na visão dos adultos, nada parece ter utilidade. Portanto, é um jogo. Se não é útil, então, é jogo. Claro que estamos considerando o termo utilidade somente do ponto de vista da visão adulta utilitária. As consequências dessas brincadeiras para a formação de vida dessas crianças ainda estão longe de ser compreendidas por nossos pesquisadores.
Os riscos imaginários de tentar o novo e de criar em ambientes institucionais, como a família ou a escola, fazem as pessoas, boa parte das vezes, relutar, recuar, evitar enfrentar as novidades ou apresentar alguma criação. Mas no ambiente lúdico, até o medo é de mentirinha, até o medo surge como desafio a ser enfrentado. No caso das crianças brincando de casinha, elas inventam um ambiente onde muitas situações podem ser criadas, dando margem ao enfrentamento de novidades e mesmo à provocação de novidades. São apenas quatro crianças, mas elas criam um ambiente que, além de lúdico, é fora das instituições reconhecidas pela sociedade como responsáveis pela educação das crianças, como a família e a escola. De certa maneira, trata-se de outro grupo social; um grupo que agora habita um espaço público, o que é bem diferente da família e da escola, embora com as restrições do insipiente desenvolvimento de crianças muito novas.
Mesmo considerando que o desenvolvimento moral e social dessas crianças é insuficiente, elas estão começando a habitar um mundo que não é mais o mundo privado. A literatura costuma descrever a entrada da criança no mundo público a partir do momento em que, segundo determinadas teorias, ela está madura, por volta dos seis a sete anos de idade. Mas isso não procede, porque não é algo que um dia começa, afinal, sempre esteve lá na criança, potencialmente. Apenas que, enquanto amadurecem funções como a imaginação, a motricidade, as relações afetivas, a própria ampliação da motricidade e do pensamento, com a consequente ampliação do espaço de atuação, a criança entra em relação com outros que não os da vida privada. É o caso das crianças aqui descritas. Claro que estamos falando da sociedade de hoje; no mundo antigo, as relações, tanto em casa como fora dela, eram bastante distintas das atuais. Também não nos referimos à vida privada e pública, familiar e social ou política dos adultos. Nosso interesse, neste momento, é exclusivamente em relação às crianças e sua passagem do espaço privado para o espaço público.
Essa passagem para a vida pública, que no grupo das crianças aqui descritas, não distingue as meninas dos meninos, daí por diante ganha diferenças notáveis. Especialmente quando nossa atenção volta-se, acima de tudo, para a educação da rua e, como decorrência, a Pedagogia da Rua, manda a tradição de nossa sociedade, que os meninos terão acesso menos limitado à rua que as meninas. E isso terá consequências dramáticas e, possivelmente, devastadoras. Entre elas uma sociedade definida e dirigida, por vezes, desastrosamente, pelos homens.
Há um mundo a ser descoberto, porque negligenciado historicamente por nossas pesquisas. Um mundo habitado por crianças, em um espaço público que escapa à educação familiar e escolar, que ainda não foi compreendido. Possivelmente os grupos infantis constituem a sociedade mais precoce de nossas vidas. A formação para a vida pública deve começar nesses grupos, essas pequenas sociedades infantis, que ainda não compreendemos porque não as estudamos.
Certo dia, ainda sob os cuidados de um desses grandes professores que temos por aqui, alguém me fez pensar que cultura é uma forma de cultivo. ‘Do alemão kultur!’, ele dizia. Cultivo de qualquer coisa – inclusive no futebol. Ainda que não seja, nem de longe, a única forma de pensar a cultura, isso não saiu da minha cabeça desde então.
Na última segunda-feira, no programa Bem Amigos!, do Sportv, Fernando Diniz deu mais uma excelente entrevista, na qual, basicamente, falou muitas das coisas que fala há bastante tempo, sobre a cultura do futebol brasileiro – mas que são mais ouvidas em certas ocasiões do que em outras. Embora tenha comentado sobre assuntos diversos, o que viralizou um pouco mais foram as falas sobre o que ele chamou de resultadismo – e o quanto isso pode ser problemático dentro de uma cultura de futebol. É claro que isso causou um certo ruído, pois há quem diga que não há outra forma de avaliar o trabalho de um treinador que não pelos resultados esportivos. Bom, não deixa de ser um argumento razoável. Mas acho que não é exatamente disso que se trata.
Fernando Diniz em ação pelo São Paulo FC. Imagem: Redes Sociais Fernando Diniz/Divulgação
Quando falamos de treinadores esportivos, no Brasil ou em qualquer outro lugar, é importante termos claro que as mensuráveis de sucesso variam de acordo com o contexto. Por exemplo, para um treinador ou treinadora que trabalha na iniciação esportiva, o simples fato de ter a criança de volta no outro dia é um indicador de sucesso – afinal, mantê-la diariamente na prática é um desafio. Por outro lado, para quem trabalha na fase de especialização esportiva, o refinamento humano do atleta (em todas as dimensões, além do jogo jogado), é uma mensurável de sucesso – o treinador que não acumula títulos, mas que é capaz de formar pessoas melhores, capazes de tornarem-se quem são, seguramente atinge um lugar de muito respeito.
No caso do rendimento, a conversa é um pouco diferente: fazer com que os atletas se sintam bem e fazê-los mais refinados do ponto de vista humano – inclusive pensando em performance – são sim mensuráveis de sucesso (que muita gente diz que adora, muita gente fala com entusiasmo, mas não é tanta gente assim que valoriza, de fato). Mas no rendimento, a mensurável-mor é o que se entende por ~resultado~. E quando enfatizo o ~resultado~, faço isso porque me fica muito claro o seguinte: para quem está dentro do processo de treino, a interpretação de um resultado é muito diferente de quem está fora do processo. E isso, veja bem, não é uma forma de contar vantagem, mas uma forma de entender algumas das camadas que estão bem abaixo do resultado.
Por exemplo, algo que não me parece muito claro no debate está na relação entre o treino e o jogo. Embora não seja algo precisamente admitido, há quem acredite que a relação entre uma coisa e outra é uma relação de causa e consequência: ou seja, se uma equipe não joga bem – ou joga bem uma vez ou outra, ou então não joga bem como o analista gostaria que jogasse, é porque o treinador ou a comissão não trabalham bem, ponto final. Em outras situações, de menor imprevisibilidade, talvez nós até pudéssemos falar em algo do tipo, mas no futebol pode ser exatamente o contrário. Porque o futebol é tudo menos linear, e as ondas do jogo ficam ainda mais pronunciadas quando simplesmente pensamos que o futebol é um jogo coletivo de invasão: existem onze do lado de cá, mas também existem onze do lado de lá, vinte e dois jogadores em relação constante, todos eles buscando chegar ao alvo adversário ao mesmo tempo em que impedem que o adversário chegue ao próprio alvo – podendo fazer tudo isso não apenas no próprio campo, mas também no campo adversário. Tudo isso – que é diferente do vôlei, do basquete, do handebol, do tênis e etc – faz do futebol um jogo cuja complexidade é elevada à enésima potência. Isso quer dizer que o futebol é tudo menos linear, e que portanto existem milhões de outros fatores que afetam o rendimento de uma equipe do que apenas o trabalho ou as ~ideias~ de um treinador ou da comissão. É perfeitamente possível que um trabalho de mediano para bom consiga resultados expressivos, ao mesmo tempo em que é perfeitamente possível que um trabalho de ótimo nível, com excelentes profissionais, com as práticas mais ~modernas~ que se possa imaginar, num ambiente de grandes relações humanas… não apresente resultado algum.
Ao mesmo tempo, é preciso nos perguntarmos sobre o que falamos quando falamos de resultados. Porque, ao contrário de uma empresa – para usar um exemplo muito caro ao futebol de hoje em dia, onde os resultados são medidos dentro de intervalos razoáveis, no futebol os intervalos não existem, a meia-vida no futebol é mais meia do que vida, e tudo o que resta é sobreviver: quem não ganha não serve. E não interessa se jogou bem, não interessa a qualidade dos treinamentos – quando se consegue treinar, não interessa quais são as teorias e as metodologias que sustentam um certo trabalho, não interessa o nível de formação de vários dos nossos profissionais do futebol, se os profissionais do clube estão com algum tipo de problema particular, não interessa se os salários estão atrasados, não interessa se vivemos num país de dimensões continentais, com biomas absolutamente distintos, o que, de cara, já inviabilizaria qualquer comparação com qualquer uma das grandes ligas europeias, não interessa que o nosso pé-de-obra seja vendido, muitas vezes a preço de banana, o que faz com que de fato vários dos nossos melhores jogadores sequer conheçam os campeonatos locais, não interessa que os árbitros não sejam profissionalizados, ainda que sejam bizarramente cobrados por um rendimento profissional – não interessa nada disso. Ainda persiste a ideia que humanizar o futebol é perfumaria. O que interessa é o seguinte: quanto foi o jogo?
Aqui está o calcanhar de aquiles do resultadismo. Não é bem o fato de se basear no resultado para dar uma certa opinião, mas o fato de ignorar, consistentemente, toda e qualquer outra variável que não o resultado para dar uma certa opinião. Das encruzilhadas do nosso futebol, essa é uma das mais graves, porque tudo o que o analista vê é o resultado, ou o que ele entende como resultado, especialmente quando se pensa no que significa ‘jogar bem’ e etc, enquanto o profissional do futebol vê tudo o que está antes e além do resultado – e obviamente não há como não haver ruídos. Assim como há todo um universo sob a consciência humana – não é preciso ter lido o Freud para sabermos disso – há mundos e mais mundos antes e além do resultado esportivo, e quanto menos soubermos deles, ou menos nos interessarmos por eles, piores serão as nossas interpretações, mais frágeis serão os nossos diálogos – e o nosso debate sobre futebol, ainda que se venda profundo, vai afogar na superfície.
Cultura, como alguém me ensinou certa vez, é cultivo – e fico pensando sobre o que cultivamos hoje em dia mas, especialmente, sobre tudo aquilo que ainda podemos cultivar.
Todo treinador tem uma ideia de jogo preferida. Um modelo com princípios e sub-princípios ofensivos, defensivos e de transições com que tenha mais afinidade. Mas como não há uma única maneira capaz de levar equipes à vitórias, o bom técnico é aquele que consegue adaptar suas ideias ao contexto e, principalmente, aos jogadores que tem a disposição.
O olhar primeiramente para dentro é fundamental e pré-requisito para o sucesso. Não há como ter uma ideia fixa inicial , por melhor que ela seja, e querer que um grupo execute-a, sem respeitar e entender as características individuais. É infinita a riqueza que cada jogador tem a oferecer. O treinador que mais se aproxima do êxito é aquele capaz de identificar as potencialidades disponíveis e a partir disso criar sistemas e mecanismos.
E partindo do jogador para a equipe, do indivíduo para o coletivo, passamos a ter outra situação que também é riquíssima: a sinergia entre os jogadores. Para exemplificar: nenhum 1-4-4-2 é igual. Equipes podem ter a mesma estruturação no espaço de jogo, mas elas essencialmente serão diferentes por conta das características de cada jogador e o que emerge da relação entre eles. Quando vemos um time potencializando o que cada indivíduo tem de melhor parece que ao invés de onze há quartorze, quinze jogadores em campo. Por outro lado, quando há um esforço e um gasto de energia muito acima do normal a impressão que passa é que o time está com um, dois, até três jogadores a menos.
Convicção e confiança são fundamentais em qualquer profissão. E, claro, no futebol não é diferente. Contudo, vale mais acreditar e confiar no próprio trabalho, no processo a ser desenvolvido, do que em ideias pré-concebidas. Olhar para o grupo, para a cultura, para o ambiente e para o contexto é fundamental para aumentar as probabilidades de vitórias. Guardiola, Klopp, Mourinho e tantos outros profissionais de sucesso foram mudando no decorrer dos anos e dos clubes. A flexibilidade e a inteligência circunstancial são as chaves para o triunfo no futebol atual.
Relembrando a reflexão inicial, quando o nosso objetivo se volta a avaliar os treinadores de futebol no Brasil, devemos sempre expandir o raciocínio e os cálculos estatísticos para examinar o contexto vigente no país. Devido ao fato do treinador representar apenas uma peça que integra um sistema dinâmico, qualquer comparação simplista de resultados não apenas desconfigura a realidade de um esporte coletivo de alto rendimento, como também prejudica o avanço da modalidade (e dos profissionais atuantes) no território nacional. Por isso, para uma tomada de decisão racional sobre o efeito dos treinadores, é fundamental mensurar critérios objetivos que possam traduzir o contexto em torno da equipe, dos seus adversários e da competição sob análise.
Dando continuidade ao estudo com as respostas da segunda pergunta (Como as trocas de comando técnico impactam o desempenho esportivo no Brasil?) por meio de uma avaliação econométrica compreensiva, nossos modelos de análise de regressão foram capazes de classificar até 67,9% dos casos corretamente. E seguindo o mesmo raciocínio da PARTE 2, reunimos abaixo os principais resultados estatísticos em um agrupamento de 3 núcleos:
A) Ritual do bode expiatório (mudanças subjetivas, sem efeitos objetivos)
B) Calendário
C) Características do treinador
Conforme adiantado na PARTE 2, devido à complexidade dos cálculos na econometria, bem como os parâmetros e testes necessários na metodologia científica, a leitura dos dados no artigo acadêmico pode parecer confusa sem um embasamento teórico. Portanto, para facilitar a compreensão na PARTE 3, ilustramos os resultados estatísticos com percentuais que traduzem um aumento ou diminuição na probabilidade de se alcançar uma vitória (3 pontos) ou ao menos um empate (1 ponto) durante o Brasileirão.
A) Ritual do bode expiatório (mudanças subjetivas, sem efeitos objetivos)
Em termos objetivos, chegamos aqui ao principal resultado do nosso estudo: 7 jogos (ou sétimo jogo, precisamente). Este é o volume de partidas oficiais (ou tempo necessário) que o treinador precisa percorrer até conseguir entregar um índice de contribuição direta (porém parcial) à melhoria de rendimento esportivo de um clube no Brasileirão.
De acordo com a principal evidência estatística extraída da nossa avaliação econométrica que investigou absolutamente todos os 264 treinadores, 594 mudanças de comando (sendo 463 trocas com treinadores efetivos e 131 trocas com interinos), 41 clubes participantes em 6506 partidas oficiais de Brasileirão durante 16 temporadas (2003 a 2018), chegamos, enfim, a comprovação científica de que o treinador de futebol no Brasil necessita permanecer no comando técnico até o seu sétimo jogo antes que ele possa aumentar (de forma parcial) a probabilidade de uma vitória (em 30,8%, precisamente) ou empate (em 40,7%) após assumir a liderança de sua nova equipe.
Ainda assim, tal como identificado nos primeiros seis jogos após assumir o cargo em seu novo clube, o efeito de contribuição do novo treinador não mostra resultados estatisticamente significativos entre o oitavo e o décimo jogo, traduzindo efeitos nulos para a realidade prática (ou seja, sem sinais positivos ou negativos para ajudar a valorizar ou renegar o treinador substituto, pois apenas o sétimo jogo ilustrou resultados de influência parcial). E apesar do primeiro jogo do treinador no novo cargo mostrar um potencial para garantir ao menos um empate (subindo a probabilidade de coleta de 1 ponto em 27,2%), a evidência científica constatada pelo nosso estudo deixa claro que as mudanças de treinadores de futebol durante o Brasileirão não carregam efeitos práticos para a melhoria de rendimento esportivo de seus respectivos clubes. Em outras palavras, um novo treinador sozinho não muda a trajetória na realidade.
É importante ressaltar que, muito embora seja possível identificar casos de novos treinadores que (hipoteticamente) coletaram pontos em todos os seis primeiros jogos, ou até mesmo ao longo das dez primeiras partidas em um novo cargo nesse mesmo período, tais situações respondem por circunstâncias específicas e individuais, reduzindo a avaliação a [1] uma amostra não representativa para a classe de treinadores atuante no Brasileirão e a [2] comparações superficiais com estatísticas básicas, que minimizam a dinâmica do futebol brasileiro.
Segundo os resultados da nossa investigação econométrica, o treinador de futebol no Brasil é alvo do ritual do bode expiatório, uma teoria estabelecida na década de 1960 pela literatura de administração e economia do esporte após a sua primeira série de avaliações criteriosas utilizando o beisebol americano como objeto de análise. Logo, a evidência da nossa investigação reforça estudos acadêmicos que identificaram o mesmo efeito após as trocas de treinadores realizadas em ligas nacionais de futebol na Argentina, Áustria, Bélgica, Colômbia, Espanha, Holanda, Inglaterra, Itália e Portugal.
B) Calendário
Ao dissecar os fatores externos que efetivamente influenciam o rendimento esportivo ao longo do campeonato brasileiro (leia-se a qualquer momento do Brasileirão, independente do treinador que esteja na função), nossos dados mostraram que as variáveis relacionadas ao calendário competitivo são condicionantes a interferir na coleta de pontos de um clube.
Inicialmente, o aspecto mais importante se destaca com a vantagem do mando de campo. Caso a equipe sob observação seja a mandante da partida, sua probabilidade de vitória sobe em até 261,8%, enquanto as chances de assegurar ao menos um empate sobem em até 263,5%. Com base nestes índices, jogar com o mando de campo representa a maior vantagem competitiva (em termos estatisticamente significativos) encontrada na liga nacional do futebol brasileiro. Sinais de maior presença de torcedores a favor da equipe no estádio, pressão sobre a arbitragem, maior familiaridade dos jogadores com o espaço físico ou campo de jogo, além de menos desgaste logístico no deslocamento ao local da partida (em comparação ao adversário visitante) podem ajudar a explicar o peso superior deste resultado. Vale ressaltar que o mando de campo pode servir para escolher outros destinos onde a partida deva acontecer na prática e, portanto, não significa que o clube mandante atue sempre em seu próprio estádio oficial.
Nossa segunda constatação ligada ao calendário diz respeito a diferença de pontos entre os clubes sob observação antes da partida. Isto é, para cada ponto a mais que a equipe apresente no momento em comparação ao seu adversário, a probabilidade de vitória aumenta em 2,3% (por ponto), enquanto as chances de garantir pelo menos um empate aumentam em 2,6% (por ponto). Este resultado traduz como as disparidades no acúmulo de pontos na tabela do campeonato tendem a distanciar ainda mais os clubes de maior potencial esportivo e econômico em comparação aos clubes que não conseguem acompanhar o mesmo ritmo competitivo ao longo da temporada (enaltecendo a diferença qualitativa entre as equipes em termos de níveis de jogadores).
Nossa terceira evidência estatisticamente significativa em torno do calendário refere-se aos clássicos locais (considerando que identificamos 504 clássicos entre os 6506 jogos sob análise). De forma resumida, toda vez que uma equipe (ou treinador) enfrenta um rival tradicional histórico da mesma cidade (ou estado em alguns casos específicos), a probabilidade de vitória é reduzida em 19,3%. Apoiados pela ausência de um efeito na incidência de empates, podemos argumentar que um clássico local no Brasileirão carrega um potencial menor para garantir a coleta de pontos frente a equipes rivais.
Por fim, também devemos valorizar a ausência de impacto sobre o rendimento esportivo por parte de outras 3 variáveis de controle presentes na nossa avaliação: [1] o fato do adversário ter trocado de treinador antes do jogo, [2] a diferença no percentual de aproveitamento entre as equipes e [3] a diferença de dias de descanso antes da partida sob observação. Embora não-significativos pelo cálculo estatístico, esses 3 elementos fortalecem indícios de como o calendário de jogos poderia ser manipulado de forma estratégica por parte dos clubes no planejamento de confrontos com maior antecedência.
C) Características do treinador
Chegando ao último agrupamento de resultados que merecem maior atenção, reunimos os prognósticos estatísticos provenientes de características específicas sobre o treinador atuante no Brasil.
Se o treinador responsável por conduzir a equipe na partida sob observação for interino, a probabilidade de coletar pontos é reduzida drasticamente, elevando o risco de derrota. Segundo os índices que encontramos, o treinador interino diminui em 41,5% a probabilidade de uma vitória e em 51,3% a probabilidade de um empate (em qualquer momento do campeonato brasileiro). Tais consequências levantam outro sinal de alerta sobre o impacto prejudicial de mudanças de líderes durante a temporada, pois a transição desde a saída de um treinador efetivo até a chegada de seu substituto tende a agravar o rendimento esportivo da equipe.
Além dos interinos, os treinadores nascidos fora do Brasil também aumentam consideravelmente o risco de derrota durante a temporada. Isto é, de acordo com os dados extraídos ao longo de 16 temporadas de pontos corridos no Brasileirão, quando o treinador responsável pelo comando da equipe é estrangeiro, a probabilidade de vitória se reduz em 42,8%, enquanto as chances de se obter no mínimo um empate são reduzidas em 48,0%. Esta evidência científica ajuda a explicar como os treinadores estrangeiros parecem necessitar de um tempo ainda superior aos brasileiros na adaptação ao contexto laboral, cultural e competitivo vigente no país. Por outro lado, também pode ser um reflexo da pequena quantidade de treinadores internacionais compondo a nossa amostra, uma vez que o nosso estudo capturou somente 13 indivíduos nascidos fora do Brasil (em 16 passagens efetivas e 1 interina), cuja participação representa menos de 2% das observações sob análise.
Nem a idade do treinador, tampouco a sua experiência como jogador profissional interferem diretamente no rendimento esportivo. Ou seja, com resultados não-significativos na nossa análise, estereótipos comumente desenhados pela imprensa esportiva brasileira com relação a treinadores mais jovens, mais velhos, ex-jogadores ou profissionais acadêmicos não mostraram diferenças estatisticamente significativas para contribuir ou prejudicar o rendimento durante o Brasileirão. Esta constatação ajuda a desmistificar ainda mais os argumentos subjetivos sobre um suposto perfil ideal de treinador no país, sobretudo pelo fato de 80% da nossa amostra ser composta por treinadores que foram jogadores profissionais, além da sua faixa de idade percorrer uma janela de 4 décadas (com o treinador mais novo computando 30,8 anos e o mais velho 72,5 anos – enquanto a média geral indica 50,4 anos de idade).
Os últimos resultados que enaltecem a experiência do treinador referem-se a méritos competitivos. Já que é muito comum testemunhar indicações de dirigentes defendendo suas escolhas de treinadores pelo histórico bem-sucedido do novo empregado (especialmente em torneios eliminatórios), decidimos verificar se determinadas alegações realmente se traduzem em algum efeito sobre o rendimento esportivo na prática. Contudo, nossos resultados contradizem os discursos dos anunciantes, apesar de existir uma única exceção: treinadores finalistas da Copa Libertadores tendem a aumentar (em 16,4%) a probabilidade de se coletar ao menos um ponto na partida ao longo do Brasileirão (mas não influenciam as chances de vitória). Ao examinarmos o impacto de treinadores que já haviam sido finalistas (antes de cada jogo sob análise) da Copa do Brasil e da Copa Sul-Americana, não identificamos prognósticos estatisticamente significativos que pudessem influenciar o resultado de uma partida na liga nacional. O mesmo raciocínio se mostrou válido para treinadores que já haviam sido campeões do Brasileirão até o momento do jogo (nenhuma diferença no rendimento). Tampouco notamos efeitos de influência nos resultados devido ao volume de participações do treinador em campanhas de acesso à Libertadores ou de participações em campanhas de rebaixamento (que representa a nossa variável de demérito competitivo na liga nacional). Em suma, o histórico do treinador carrega muitos benefícios intangíveis à organização, porém somente o êxito do seu passado evidentemente não garante sucesso no presente ou futuro.
Para concluir, a PARTE 4 trará uma revisão sobre as principais implicações práticas em torno dos treinadores, dirigentes e torcedores interessados no avanço do futebol brasileiro.
Clique aqui para baixar o arquivo original do artigo
Em 2014, o Brasil sediou a Copa do Mundo FIFA, atraindo os olhares de diferentes culturas e civilizações para o nosso país. Porém, um dos fatores marcantes daquele mundial foi a histórica goleada sofrida pela seleção do Brasil diante da Alemanha (7-1). A referida derrota repercutiu não somente nas ruas e bares, mas também no ambiente acadêmico-científico. Perguntávamos a nós mesmos: como pode a seleção pentacampeã mundial, com tamanha tradição futebolística, sofrer uma derrota tão avassaladora?
Desejosos de compreender os motivos que fizeram o Brasil sucumbir perante a campeã Alemanha, buscamos neste artigo compreender a dinâmica tática coletiva defensiva das equipes semifinalistas e finalistas do mundial de 2014 (Alemanha, Argentina, Holanda e Brasil). Para isso, 533 jogadas defensivas realizadas nas semifinais e finais foram analisadas a partir da metodologia observacional, que contém uma matriz conceitual com variáveis relacionadas à zona de recuperação da bola, pressão defensiva, remoção de profundidade do ataque adversário, tempo gasto para recuperar a bola, número de faltas, entre outros. A campeã Alemanha foi a única seleção que apresentou maior quantidade de pressão coletiva na região da bola (pressing). Nas imagens a seguir, observa-se a preocupação dos alemães em restringirem o espaço e o tempo dos jogadores brasileiros que recebiam a bola nos espaços entrelinhas, gerando superioridade numérica no centro de jogo.
Imagens: Reprodução/Paulo Henrique Borges
O controle de profundidade do ataque adversário, para explorar a lei do impedimento, também foi um comportamento tático coletivo amplamente realizado pelas equipes investigadas. Dessa forma, as seleções subiam ou desciam as suas linhas defensivas no campo de jogo para deixarem, eventualmente, os atacantes impedidos, bem como para evitar um passe em profundidade. A subida das linhas defensivas ocorreu sobretudo em três situações: I) jogadas que o atacante com a posse da bola estava marcado; II) atacante dominava a bola de costas para a defesa; e III) atacante conduzia a bola para trás (bola coberta). Pelo outro lado, quando o atacante não estava marcado e conduzia para a frente sem oposição (bola descoberta), as linhas baixavam, conforme indica a figura a seguir:
Imagens: Reprodução/Paulo Henrique Borges
Interessante observar que as equipes que estavam perdendo os seus jogos foram aquelas que mais retiraram profundidade do ataque adversário, buscando uma maior compactação intersetorial para facilitar a retomada da bola. A tendência das seleções semifinalistas em “encurtar” os espaços do portador da bola e possíveis linhas de passe contribuiu para a observação da compactação intersetorial (principalmente entre defesa e meio-campo), a criação de superioridade numérica na região da bola (lado forte/lado fraco) com uma intensa pressão neste local (pressing).
Imagens: Reprodução/Paulo Henrique Borges
Observou-se, ainda, que durante o tempo regulamentar das partidas, as equipes procuraram orientar o posicionamento inicial dos defensores a partir de um bloco baixo (figuras a seguir). Porém, quando houve prorrogação, as equipes subiram os seus blocos defensivos para o meio do campo (bloco médio).
Imagens: Reprodução/Paulo Henrique Borges
A partir dos resultados encontrados nesta análise, sugere-se aos treinadores de futebol a organização da fase defensiva de suas equipes pautada nas seguintes ideias: I) pressionar o homem da bola e espaços adjacentes; II) criar um permanente sistema de coberturas, garantido pela compactação intersetorial e pela retirada de profundidade do ataque adversário; III) cobrir e reforçar permanentemente o eixo central do campo, de modo a possuir superioridade numérica na região do centro de jogo; e IV) recuperar a bola o mais próximo possível da meta adversária.
Quando conjugados, estes comportamentos táticos defensivos poderão evitar o sofrimento de gols em jogos decisivos, contribuindo para a robustez defensiva das equipes brasileiras.
Para ler o artigo completo, o texto está em inglês, clique aqui.
São tantas as ruas das nossas infâncias. A minha nem era rua, se a gente pensar que rua tem que ter calçadas e carros passando por ela. Era um pedaço redondo de terra, que a gente chamava de larguinho. Era como se fosse um país, ou um planeta e nós éramos seus únicos habitantes. No bairro havia outras ruas, outros planetas, de outros habitantes. A gente chamava de rua qualquer lugar que virasse nosso planeta e só a gente pudesse habitar e encher com nossas brincadeiras. – Mãe posso ir pra rua? – eu perguntava. E a mãe sempre perguntava, em seguida – Terminou a lição? – eu respondia “já”, me levantando e saindo correndo para rua. Vestia minha roupa de astronauta e viajava pelos espaços, para o Planeta Criança, a rua da minha infância.
Na minha infância havia um portão preto que dividia duas ruas. Do lado de cá, cinco irmãos se escondiam debaixo da cama, da mesa ou atrás da porta. “Lá vou eu!” E todos saíam de seus esconderijos, saltando obstáculos, pulando sobre o sofá e as cadeiras, e corriam até a parede do lado de fora, no quintal. “Um, dois, três! Agora é sua vez!” E a gente começava tudo de novo…
Do outro lado do portão, na outra rua, havia mais crianças. Uns corriam para se esconder na quadra de cima, outros na quadra de baixo, até dentro de suas próprias casas, parecia muito divertido.
Na rua da minha infância, o que a gente mais fazia era jogar bola. Não havia meninas. Era um tempo em que as meninas não podiam ir para a rua. Tinham que ficar em casa. Dentro da casa também tinha espaço de rua, mas o delas era bem pequeno e só quando eram muito novinhas brincavam com os meninos. Mas aquela rua fora de casa não era permitida para elas. Quando eu chegava no larguinho era mesmo para jogar bola, mas também tinha o tempo do pião, da bolinha de gude ou da pipa. De vez em quando alguma outra brincadeira como a de lutinha ou de pegador.
Tínhamos um campinho de futebol. A parede da garagem da nossa rua recebeu o nome de Gol, que registrava as marcas das goleadas que eu recebia do meu irmão mais velho. Como eu jogava mal! Com baixa estatura não alcançava a parte superior do gol, com isso meu irmão, se apropriando de suas vantagens, apresentava todo o seu talento futebolístico.
Era na outra rua que havia dois grandes times, as traves eram feitas com dois pares de chinelos ou quatro grandes pedras, posicionadas, duas a cada lado do campo, e cumpriam distâncias exatas, demarcadas com passos firmes por uma das crianças. Todos gritavam ao mesmo tempo, meninos e meninas em uma só voz. Havia jogadores, torcedores, gandulas, juízes, um verdadeiro estádio de futebol.
Na minha rua havia adultos que não gostavam da gente. Moravam em volta da rua e brigavam para a gente não brincar. Se a bola caísse na casa de um deles, eles cortavam com uma faca. Os guardas do posto policial também não queriam que a gente brincasse na rua. Corriam atrás da gente e tomavam a bola. Na nossa rua, vivíamos como marginais, porque os adultos e a polícia diziam que o que a gente fazia era errado, como se fosse fora da lei.
Algumas vezes éramos convidados para jogar queimada na rua do outro lado do portão preto, mas a resposta era sempre a mesma: Não podemos! Felicidade era quando meu pai nos observava andando de bicicleta de uma esquina para outra, mas quando ouvíamos uma voz feminina gritando: Entrem para tomar banho!, atravessávamos aquele portal contrariados, sabíamos que após o banho acabavam as brincadeiras para nós, enquanto as outras crianças, na outra rua, continuavam até o pôr do sol com suas aventuras, diversões e alegrias.
Houve um dia em que meus pais, acredito que estavam de bom humor, nos permitiram brincar na outra rua, aquela tão encantadora. Pegamos o skate e, em uma avenida movimentada, subimos e descemos entre carros e ônibus. Tínhamos asas nos pés, nos sentíamos livres, libertos de todo e qualquer perigo. Saímos ilesos, apenas não pudemos brincar mais sem a proteção e supervisão de um adulto naquela rua colossal.
Mas a rua que nos era permitida também tinha sua magia, tinha stop, jogo de adivinha e muitas histórias em família. Tinha pão com margarina, bolo de fubá e leite com café bem quentinho. Ao findar o dia pedíamos: Benção pai! Benção mãe! Benção vó! E com um beijo de boa noite, abençoados, nos despedíamos para viver uma nova aventura, desta vez de sonhos, uma aventura que só terminava no despertar do dia seguinte…
Existe uma máxima no mundo do futebol – “treino é treino, e jogo é jogo” -, que teria sido ditada por Didi, craque brasileiro e campeão mundial de 58, também conhecido pela imprensa internacional da época como o “Mr Football”. Conta-se que Didi costumava fazer um menor investimento de esforços físicos nos treinos. Admite-se que em sua concepção o craque economizava energia física e mental nos treinos para demonstrar empenho, técnica exuberante e lucidez nos jogos.
Essa máxima, que para muitos se tornou um lema, foi assinada por diversos jogadores e jogadoras na história do futebol. Diversos destinos semelhantes já se repetiram diversas vezes nas sagas dos jogadores bons de treino ou dos jogadores que se preservam para o jogo. No entanto observa-se que em ambos os casos há uma instabilidade de desempenho. E o que impede jogadores e jogadoras com esse perfil de instabilidade de ter um desempenho notável repetido diversas vezes? Qual é a parcela do segredo para torná-los profissionais bem sucedidos que atuam como verdadeiros campeões?
Uma das chaves para a solução deste problema pode estar na preparação para o treino, que deve ser diferente da preparação para o jogo. Didi estava com os pés nos dois lados do campo. Ao mesmo tempo em que apontou a diferença dos contextos de treino e jogo, levanta-se a possibilidade de dar um tratamento adequado às práticas de treino, sem subestimá-lo quando falamos de motivação. Desta maneira, coloquemos treino e jogo, lado a lado, para podermos diferenciar os ambientes criados a partir do onde acontece, e de quem participa de suas ações. Perceberemos que os dois lados pertencem a um campo só.
O ambiente do treino comunica mais segurança, previsibilidade, rotina e permissão de erros, já que não há naquele evento uma disputa por pontos de um campeonato ou interferência do adversário ou da torcida. No treino é possível pensar o jogo, construir estratégias que podem ser testadas e revistas constantemente. A falta do acerto é mais tolerável, o foco na construção do bom desempenho tira o lugar das cobranças imediatas pelo chute certo e vitorioso que, espera-se, deverá vir no jogo. A emoção cede o lugar à razão pautada pela ciência e passividade do tempo, que distorce timidamente as experiências vividas por quem busca sua melhoria constante.
A atmosfera do jogo tem outros componentes. O desafio começa a ser vivido na preparação, no treino, e é inevitável que a ansiedade seja uma das expressões da ameaça que o adversário representa. Temos aqui um desafio a ser vivido, pois essa é a arena da competição que se torna o palco da realização dos sonhos de quem joga. Aqui é impossível viver sem as expectativas que ora alavancam o desempenho, ora frustram pela crueldade do gol sofrido no último minuto. A alegria se veste de decepção em poucas jogadas e a bússola da emoção é muitas vezes que determina a direção e a intensidade das ações. A razão se torna tímida e submissa à raiva provocada pelas injustiças da arbitragem, pelo medo da perda do controle do jogo, dispara a euforia pelos lances e gols incríveis e decisivos, ou destrona qualquer sensação de favoritismo diante da tristeza pela derrota inesperada.
Alguns estudiosos do esporte, como Terry Orlick, mostram o equilíbrio de fatores básicos quando destacam que o desempenho é fruto da soma da expressão das capacidades físicas à capacidade técnica e tática, temperados de maneira equilibrada pela rapidez das respostas psicológicas exigidas nas ações do jogo. Essa pode ser uma chave fundamental. Através de experiências bem sucedidas nos processos de preparação esportiva conduzidos pelo conhecimento científico, hoje entende-se que o treino deve se pautar pelo que é possível ser praticado diante do que se conhece do jogo, seja essa compreensão geral ou específica, orientada para enfrentar determinado adversário com suas características predominantes. Ou seja, a preparação de uma equipe de futebol deve se pautar e ter como referência o que essa equipe quer expressar no campo de jogo. A aproximação do treino em direção ao jogo, ou seja, o jogo a ser jogado moldará a estrutura e faces do treino, em uma convergência inevitável de seus contextos inicialmente distantes em características táticas e de emoção. Da suposta previsibilidade do treino à imprevisibilidade do jogo.
Em síntese, para que tenha sentido e eficácia, o treino deve representar e ter características determinantes do que é o jogo. E para que isso aconteça, é necessário que os treinadores criem estratégias eficazes de preparação, focando no que chamamos de estado interno do atleta. A dispersão e baixa motivação de jogadores para tarefas elaboradas pelos técnicos devido à falta de significativa importância que aqueles dão ao treinamento ou mesmo a estruturação inadequada destas práticas pelos treinadores, pode vir a diminuir o aproveitamento do potencial que atletas têm para o desenvolvimento de seu potencial. Os exercícios elaborados e dinâmicas ministradas pelos treinadores, bem como sua regência, tem influência direta na forma como os atletas se engajam no treino.
E como nós podemos perceber isso na prática?
Alguns jogadores se preparavam para elevar seu desempenho no treinamento e em jogos. Pelé era conhecido pela sua dedicação aos treinos específicos após o encerramento de uma sessão de treinamento. Costumava repetir diversas vezes algumas ações que gostaria de executar em campo, pois acreditava que seria mais fácil agir com base no que já conhecia. E assim podia criar. Em seu livro “Rendimiento Máximo” Charles Garfield relata que Pelé, antes de entrar para o campo e jogar, costumava deitar e colocar uma toalha cobrindo o rosto, em um exercício que o levava a lembrar-se dos tempos de infância em que jogava e se divertia. E depois, segundo o autor, Pelé vivenciava um estado interno que o permitia ‘fluir’ pelo jogo, como se ainda vivesse na liberdade de simplesmente jogar como o fazia na infância.
Cristiano Ronaldo é outro atleta que se destaca pela visão diferenciada de preparação para jogar. Focado em seus objetivos e orientado para o que deseja, ele se tornou uma referência do atleta de futebol que se empenha na aplicação aos treinos ministrados nos clubes onde joga, e desta maneira soma à sua preparação atividades extras que atendem necessidades que o treino, em sua avaliação, não dá conta. Através dos resultados que vem obtendo em sua brilhante carreira, Cristiano Ronaldo se mostra focado em metas, expressa energia e envolvimento durante os jogos, consegue se manter em alto nível de desempenho, mesmo diante de intensa exigência em treinos e jogos, e mostra lucidez ao criar oportunidades para enfrentar novos desafios com mudança de clube e aprender coisas novas, ainda que já tenha o reconhecimento do mundo sobre sua relevância para o futebol.
Tanto Pelé quanto Cristiano Ronaldo mostram claramente a importância de trabalhar com metas e aproveitar o máximo das experiências de preparação para o jogo. Kevin Keegan, ídolo inglês dos anos 70 e 80, disse certa vez: “Eu sempre tenho um alvo; entrar no time, jogar cada jogo, melhorar minha forma física e meus níveis de atuação”.
Para esses jogadores, a preparação é a chave do desempenho bem sucedido.
*Texto produzido a partir das discussões e contribuições dos integrantes do grupo de estudo Neurociência e Desempenho, da Universidade do Futebol
Que um jogo de futebol reúne dentro das quatro linhas aspectos técnicos, táticos, físicos e emocionais, tudo junto e ao mesmo tempo, não é novidade. Um drible, por exemplo, necessita do gesto técnico em si, da parte física para ser complementado, da orientação tática para sabermos se é para frente ou para trás, e do aspecto mental na coragem de realizá-lo. Uma única ação envolve tudo isso. Em uma fração de segundos.
Entendendo toda essa indissociável complexidade, há momentos não só de uma partida, mas de uma equipe e também de um atleta em que uma das vertentes se sobrepõe a outra. Mas para deixar claro, mais uma vez: nunca é só “uma coisa”. Uma equipe não está “cansada” apenas pela parte física. Esse cansaço pode vir de problemas táticos, com conceitos mal treinados, que geram um gasto excessivo de energia no jogar do time.
Por tudo isso, e sempre partindo do princípio que o futebol é uma atividade humana, não podemos simplificar análises e reduzir conceitos. Citei exemplo de time, mas posso falar também do aspecto individual: um jogador, por exemplo, que é contratado a peso de ouro por um histórico de alta performance, mas que não repete as boas atuações. Ele desaprendeu? O físico não é mais o mesmo? Suas características não casam com o modelo de jogo da equipe? Ele está com algum problema pessoal? Pode ser um pouco de tudo. Entretanto observe que busquei um elemento de cada esfera para tentar fazer esse fictício diagnóstico: técnico, físico, tático e emocional.
O torcedor deseja sempre frases curtas e impactantes para resumir momentos no futebol. Contudo, uma análise que busque ser o mais fiel a realidade tem que ser ampla e complexa. Nunca é só uma coisa, em alto tão aleatório e previsível ao mesmo tempo, como o futebol.
*As opiniões dos nossos autores parceiros não refletem, necessariamente, a visão da Universidade do Futebol
Conforme antecipado na PARTE 1, para avaliar efetivamente os treinadores de futebol no Brasil, torna-se imperativo considerar a realidade contextual que rodeia o seu trabalho, além de aplicar cálculos matemáticos avançados antes de qualquer tentativa de comparação de resultados. Assim, é necessário mensurar critérios objetivos que possam traduzir o comportamento de dirigentes, as expectativas de torcedores e as condições disponíveis em torno do profissional que executa a função como treinador. Sobretudo em um sistema político sustentado por suposições arbitrárias, cujas opiniões subjetivas e julgamentos simplistas tendem a responsabilizar exclusivamente o treinador em momentos desfavoráveis, apresentar um método de avaliação racional pode beneficiar a cadeia produtiva do esporte no país (seja a partir de um clube isolado até o eventual desdobramento em toda a estrutura nacional).
Vale reforçar que o foco deste estudo é a relação das trocas de treinadores durante o Brasileirão. Portanto, mudanças realizadas antes do primeiro jogo e após o término do último jogo da liga nacional (entre uma temporada e outra do Brasileirão) não foram computadas na nossa amostra. Isto porque quando a liga nacional não está em atividade, há um contexto diferente rodeando as tomadas de decisão nos clubes brasileiros (considerando resultados da temporada anterior, movimentos na janela de transferência no início do ano, reestruturação de elenco, incidência de campeonatos estaduais, ou inclusive o efeito de novos presidentes e conselheiros assumindo a direção política do clube).
Independente se o treinador deixou o cargo de forma voluntária (se demitiu) ou involuntária (foi demitido), a mudança de comando foi computada da mesma forma na nossa amostra, pois representa uma troca efetiva de líderes no comando de um grupo específico de jogadores. Em situações quando o treinador foi suspenso ou não compareceu fisicamente ao jogo por qualquer motivo (ainda empregado no cargo), ele permaneceu como o líder responsável pela sua equipe na partida mesmo estando ausente do banco de reservas no dia. A única exceção refere-se aos treinadores interinos, tratados como figuras temporárias na liderança do grupo durante a transição (num período máximo de 15 dias) entre a saída de um treinador efetivo e a chegada do seu substituto, conforme explicado na PARTE 1.
Enfim, respondendo à primeira pergunta do estudo (Quais são os fatores determinantes para as trocas de comando técnico no Brasil?) por meio de uma avaliação econométrica compreensiva, nosso modelo de análise de regressão foi capaz de classificar 95,5% dos casos corretamente. E a fim de facilitar a compreensão do artigo científico (que ainda traz uma série de variáveis de controle e percentuais relevantes para a interpretação prática), reunimos os principais resultados estatísticos em um agrupamento de 3 núcleos, dispostos a seguir:
A) Rendimento esportivo numa janela de 4 jogos sequenciais (curtíssimo prazo)
B) Expectativas (superestimadas)
C) Desempenho em competições paralelas (torneios eliminatórios)
Em suma, a econometria se baseia em uma análise estatística avançada com um volume elevado de dados sob observação. Devido à complexidade dos cálculos matemáticos, bem como os parâmetros estatísticos que devem ser respeitados como parte da metodologia científica, a leitura dos dados pode parecer confusa em um primeiro momento. Por isso, buscamos ilustrar os resultados estatísticos por meio de percentuais que traduzem um aumento ou diminuição na probabilidade de mudança de comando técnico.
A) Rendimento esportivo numa janela de 4 jogos sequenciais (curtíssimo prazo)
Muito embora a extensão da nossa análise de rendimento esportivo (considerando os pontos coletados por jogo e a diferença de gols por jogo) tenha se prolongado a até 5 jogos antes das mudanças de comando técnico, o quinto jogo que antecede a saída do treinador não apresentou resultado estatisticamente significativo (ou seja, sem uma constatação científica suficientemente forte para ajudar a explicar a decisão da troca). Por outro lado, para cada ponto coletado dentro de uma janela de 4 jogos sequenciais, a probabilidade de sobrevivência do treinador mostrou índices de aumento entre 15,2% a 33,1% (por ponto, variando de acordo com a ordem dos jogos – vide tabela abaixo). O mesmo raciocínio é válido para o efeito contrário: a cada ponto não coletado numa faixa de 4 jogos, reduz-se entre 15,2% a 33,1%, por ponto, a probabilidade do treinador seguir no comando da equipe.
Já com relação a diferença de gols no jogo, chegamos a resultados estatisticamente significativos dentro de uma janela de apenas 3 jogos sequenciais (tornando os placares da quarta e da quinta partida anteriores à mudança de técnicos como insignificantes pelo viés científico). Ou seja, para cada gol marcado a mais do que o adversário na partida, o treinador aumenta entre 11,9% a 25,6% sua chance de permanência. Logo, em caso de goleada com um saldo bem superior ao adversário, esse percentual é cumulativo, com os valores variando de acordo com a ordem do jogo (vide tabela abaixo). Entretanto, vale reforçar que esse raciocínio prevalece somente numa janela imediata de 3 jogos sequenciais (o que diminui o impacto de uma goleada ou saldo positivo no placar do quarto ou quinto jogo que já passou).
Transportando a evidência científica ao entendimento prático, o treinador de futebol no Brasil pode testemunhar um cenário favorável para permanecer no comando técnico caso sua equipe não desperdice pontos ou saldo de gols frente aos adversários numa janela de 3 a 4 jogos sequenciais. Caso contrário, a probabilidade de ser substituído aumenta devido a uma sequência não-positiva, especialmente se a equipe do treinador sofrer com derrotas sucessivas numa faixa de 4 partidas. Tal efeito ilustra como reações imediatistas são recorrentes no comportamento passional e emotivo de dirigentes em clubes de futebol no Brasil, que optam (com frequência desproporcional) por uma alteração de rotas em um prazo curtíssimo de tempo. Validando cientificamente o jargão popular do futebol brasileiro (“Perdeu três, está fora!”), nosso estudo atualiza a frase, corrigindo o número de 3 para 4 partidas, pois sem coletar pontos ou saldo positivo de gols em 4 jogos sequenciais, o treinador dificilmente sobrevive no Brasileirão.
B) Expectativas (superestimadas)
A fim de medir o efeito das expectativas pré-jogo (resgatando a realidade do momento que antecedeu cada partida da nossa amostra), implementamos em nosso estudo uma variável de mensuração de probabilidades de resultados (leia-se, expectativa de vitória ou expectativa mínima de empate) baseada em algoritmos históricos de apostas profissionais e que replica técnicas de estudos recentes com a Bundesliga alemã. Essa medida é reconhecida como uma métrica confiável na literatura acadêmica por não ser suscetível a manipulações, já que os algoritmos reúnem o máximo de informações públicas e estatísticas de rendimento esportivo disponíveis para gerar previsões realistas antes de cada jogo de futebol.
Fortalecendo o pensamento de curto prazo nas decisões de mudanças repentinas (e frequentes) no Brasileirão, as expectativas por resultados positivos aparentam ser superestimadas entre os dirigentes dos clubes participantes. Isto porque o simples fato de um clube ter previsão mínima de um empate dentro de uma janela de 3 jogos sequenciais pode prejudicar a manutenção do treinador no cargo da equipe, aumentando a probabilidade de mudança entre 38,1% a 61,6% (vide tabela abaixo).
Antes mesmo da equipe entrar em campo dentro de uma sequência de 3 jogos imediatos, se a expectativa do antepenúltimo jogo fora de pelo menos um empate, o risco de mudança já aumentara em 38,1%. No penúltimo jogo, se a previsão externa fora de vitória, o treinador sofrera um aumento de 36,2% sobre o risco de deixar o comando. E por fim, imediatamente antes do último jogo nessa faixa de 3 confrontos sequenciais, se a expectativa de resultado indicara o mínimo de um ponto (empate), as chances de se testemunhar uma mudança de comando técnico aumentaram para 61,6%. É importante reforçar também que, embora estatisticamente não-significativos, as expectativas de rendimento sobre o quarto e quinto jogos que já passaram traduzem como a memória na tomada de decisão dentro da organização se mantém viva apenas para o momento atual.
Nitidamente, as expectativas de rendimento esportivo (sem que a equipe sequer tenha pisado no gramado do jogo) já conduzem altos índices determinantes para as trocas de treinadores no Brasileirão. E, sobretudo, reforçam o desenho de curtíssimo prazo enquadrado no julgamento de dirigentes, que evidentemente transferem a pressão externa ao treinador em situações inoportunas.
Aliado a esse raciocínio, outro resultado estatisticamente significativo que encontramos em nossa análise sustenta ainda mais o pensamento superestimado dos tomadores de decisão. Considerando a disposição da tabela, para cada ponto a mais que a equipe do treinador apresenta em comparação ao seu adversário antes da partida (em qualquer momento do campeonato), a probabilidade de uma mudança de comando aumenta em 2,1% (por ponto). Antes mesmo de entrar em campo, somente o fato de somar mais pontos do que o adversário já parece instigar sinais de exigência no clube por um resultado positivo, exagerando as expectativas por aparentemente não aceitar insucesso frente a um adversário com pontuação inferior no momento.
Ao escancarar uma mentalidade especulativa alimentada por precipitações e expectativas supervalorizadas, devemos questionar se os dirigentes brasileiros fornecem um ambiente minimamente favorável aos treinadores, a fim de atrair resultados construtivos de acordo com os recursos, estrutura e condições disponíveis. Afinal, se uma troca imediata (ou frequente) de capital humano ocorre dentro de uma organização, a origem dos erros se torna explícita no processo de recrutamento conduzido pelos decisores, que são os encarregados por contratar e substituir treinadores e também devem, portanto, ser responsabilizados pela situação em que os clubes se encontram (no momento e na história recente).
C) Desempenho em competições paralelas (torneios eliminatórios)
De forma impressionante e até mesmo surpreendente (devido ao peso dos percentuais), ser eliminado da Copa Libertadores representa o fator mais impactante para a sobrevivência do treinador durante o Brasileirão. Isto é, quando o treinador vê a sua equipe finalizar a sua participação (sem o título de campeã) na principal competição continental de clubes da América do Sul (disputada em formato eliminatório, cujo contexto, circunstâncias e preparação são totalmente distintos quando comparados ao formato de pontos corridos da liga nacional), a probabilidade de manutenção do seu cargo é drasticamente reduzida entre 182,4% a 560,6%. Ou seja, segundo a nossa constatação estatística, mesmo que o treinador consiga manter o cargo (milagrosamente) por até 4 jogos no Brasileirão após a sua eliminação da Copa Libertadores, ele ainda enfrenta o risco substancial de uma mudança.
Em resultados preliminares deste estudo, também chegamos a um impacto semelhante após a eliminação da Copa Sul-Americana (a diferença é que o treinador ainda receberia um prazo de 5 jogos no Brasileirão até que a pressão se instalasse sobre o seu cargo). Porém, após reforçar os cálculos para garantir maior robustez estatística, notamos que o resultado perdeu significância. Mesmo assim, isso poderia servir de indício adicional (ou sinal de alerta) com relação a competições continentais durante a vigência do Brasileirão. Curiosamente, eliminações da Copa do Brasil não afetam as decisões de mudança.
Esta evidência científica destaca como os clubes brasileiros também superestimam suas participações em disputas internacionais, exigindo o sucesso como fator determinante para a manutenção do treinador durante a temporada da liga nacional (vale lembrar, novamente, que o Brasileirão representa um sistema de disputa oposto a torneios eliminatórios sob o contexto de alto rendimento).
Ainda sobre torneios paralelos no calendário anual, caso o treinador seja finalista estadual no mesmo ano sob análise, ele tende a aumentar em 30,0% sua longevidade no cargo ao longo do Brasileirão. Ou seja, uma final estadual na mesma temporada influencia positivamente a média de permanência no comando técnico durante a liga nacional. Contudo, o efeito pode ser testemunhado em uma equipe diferente daquela que ele conduziu à final, já que o treinador pode ser demitido ao perder o título e ser contratado mais tarde por um novo clube que o valorize justamente por ter sido finalista regional no início do ano.
Para finalizar o resumo das principais causas, nossa avaliação econométrica também desmistificou argumentos midiáticos que tendem a manipular a opinião pública a respeito de atributos demográficos dos treinadores atuantes no Brasil. Embora a imprensa esportiva compare treinadores mais jovens e mais velhos, nascidos dentro e fora do país, com ou sem experiência como jogador profissional, nenhum desses três fatores mostrou resultados estatisticamente significativos para favorecer ou reduzir uma probabilidade de mudança de comando técnico no Brasileirão. Ou seja, o fato de um treinador ser brasileiro ou estrangeiro, sua idade (independente do número de anos) e sua experiência como ex-jogador profissional não apresentam comprovação científica para definir as trocas no país ao longo de 16 anos de pontos corridos. Devido ao alto volume e taxa relativa de rotatividade, a evidência científica que constatamos traduz que todo e qualquer treinador que passa pela liga nacional (independente do estereótipo em termos demográficos sobre idade ou nacionalidade) está sujeito aos mesmos efeitos, sem imunidade.
Seguindo adiante, a PARTE 3 irá tratar das respostas da segunda pergunta do estudo, explicando o impacto da alta rotatividade de treinadores e as reais consequências sobre o rendimento esportivo.
Por fim, a PARTE 4 concluirá o conteúdo, revisando as principais implicações práticas em torno dos treinadores, dirigentes e torcedores interessados no avanço do futebol brasileiro.
Clique aqui para baixar o arquivo original do artigo
O dinheiro pago pelas emissoras de TV e, nos últimos anos, por outras empresas da comunicação, pelo direito de transmitir partidas é um dos pilares que sustentam o negócio futebol. No Brasil, de acordo com análise publicada pelo Itaú BBA referente aos resultados financeiros de 25 clubes da elite do futebol brasileiro em 2019, os direitos de transmissão representaram 41% das receitas dessas organizações, no estudo estão incluídas as transferências de jogadores, sem elas a proporção das receitas dos direitos de transmissão é ainda maior, o que destaca a grande dependência dos clubes brasileiros em relação a esse tipo de entrada. Nos principais clubes do mundo, que buscam cada vez mais diversificar suas fontes de receita, o impacto dos direitos de transmissão nas finanças também se mantém significante. Entre os cinco clubes com maior receita do mundo, de acordo com o relatório Football Money League da consultoria Deloitte, os direitos de transmissão representam 33% de todo o faturamento, com a ressalva de que o estudo desconsidera a “venda” de jogadores, o que diminuiria esse percentual. Já entre as posições 16 a 20 do mesmo ranking, o número sobe para 65%, também sem contar as transferências.
Dada a importância dos direitos de transmissão para o negócio futebol, não é de se estranhar que a Medida Provisória 984/2020, editada pelo Poder Executivo no dia 18 de junho e que caducou no último domingo, tenha gerado tanta movimentação e discussão no setor. Entre outros pontos, o texto da MP alterava o entendimento sobre o direito de transmissão de cada partida. No formato atual os dois clubes que disputam uma partida são os detentores do direito, de modo que se a empresa interessada em transmitir a partida não entrar em acordo com as duas equipes, o jogo não pode ser transmitido. A MP alterava essa situação, dando apenas ao mandante o direito sobre a transmissão.
Esse bloqueio de jogos vendidos por apenas um dos clubes que disputa a partida em questão tem trazido como consequência a impossibilidade legal de transmissão de muitos jogos. São os chamados “jogos fantasma”, no qual apenas uma das equipes vendeu os direitos e o não acordo com a segunda equipe acaba inviabilizando a transmissão. Vale destacar que os direitos de transmissão das partidas são divididos em três diferentes classificações, a TV aberta, a TV fechada e o Pay-per-view, no qual se encaixa a transmissão paga em diferentes plataformas da internet, como canais próprios dos clubes, por exemplo, e o tradicional Premiere, da Rede Globo. Dentro do atual modelo jurídico e com a atual configuração de contratos entre clubes e empresas de comunicação, a Globo e a Turner, a situação na TV fechada, por exemplo, é a seguinte.
Caso entrasse em vigor, a MP 984, que também foi apelidada de “lei do mandante”, acabaria com o impedimento legal da transmissão de partidas entre clubes que entrassem em acordo com diferentes empresas de comunicação ou mesmo aqueles que optassem no futuro por não vender os seus direitos, já que o direito da transmissão das partidas passariam a ser exclusivamente dos mandantes, como ocorre em diversos países. A configuração proposta pela MP também aumentava o número de jogos disponíveis para as empresas, como é possível conferir a seguir.
Apesar das vantagens do modelo, a MP também desencadeou conflitos e se insere em um contexto mais amplo no que se refere às disputas de poder no país e ao futuro das transmissões e posicionamento dos clubes no mercado do futebol. Ao ser considerada sua relevância, a forma abrupta como o tema foi tratado, por meio de medida provisória, e sem grandes discussões, sinalizou algumas movimentações no tabuleiro dos poderes dentro e fora do futebol.
Na política nacional, a assinatura da MP foi também mais um capítulo da guerra declarada pelo governo ao jornalismo e empresas de comunicação, em especial à Rede Globo, tida como potencial prejudicada com a configuração proposta. A vigência da MP proporcionou uma interpretação dúbia dos acordos que a empresa tinha com diversas equipes, gerando uma grande instabilidade no setor já que, se por um lado a organização não perderia o direito de transmitir nenhum de seus jogos, por outro ela perderia a exclusividade de alguns e o bloqueio de outros, o que faz, naturalmente, parte do planejamento e dos cálculos da emissora que detém contratos de longo prazo em diferentes plataformas com os principais clubes do país, celebrados levando em consideração o modelo de direitos de transmissão compartilhados.
Sob essa perspectiva, a MP acabou trazendo como consequência uma chuva de liminares e meses de instabilidade jurídica, como analisa Emanuel Leite Júnior, pesquisador e autor do livro “cotas de televisão do campeonato brasileiro”. Para Emanuel, “o âmago da questão da insegurança é a divergência de interpretações que existem tanto de juristas quanto dos aplicadores da lei – advogados e magistrados”. O pesquisador também defende que clubes que já possuíam contratos de direitos de transmissão assinados foram prejudicados no período da MP. Para explicar o entendimento, Emanuel cita o caso do campeonato carioca, envolvendo clubes, que já tinham acordo de transmissão com a Globo, a própria emissora, e o Flamengo, que não havia aceitado a proposta da empresa e se baseou na MP para transmitir partidas na reta final da competição, “a interpretação que diz que os clubes não vão perder seus jogos como mandantes, mas os mandantes que não tinham contrato vão poder transmitir os seus jogos, é evidente que os clubes que tinham jogos como mandates vão sair prejudicados. Quando eles negociaram contrato com a Rede Globo, o valor incluía todos os jogos que ele está participando, com exceção dos que o Flamengo estava, aí de repente, o Flamengo passa a negociar todos os seus jogos como mandante, incluindo o jogo daquele clube que já tem contrato com a Globo. Logo, esse clube não irá receber nada, por um jogo que será transmitido sem o seu consentimento, de acordo com a situação anterior à assinatura da MP”, conclui.
A assinatura da MP, que desencadeou esse e outros conflitos pela forma acelerada como foi conduzida foi apenas mais uma demonstração da aproximação que o Poder Executivo no atual governo tem buscado com o futebol, que inclui a presença em partidas e registros do Presidente com a camisa de diferentes clubes. No último dia 13, a transmissão em TV aberta da partida entre Peru e Brasil, pela segunda rodada das eliminatórias da Copa do Mundo masculina, foi viabilizada no dia do jogo e engrossou esse caldo. Os direitos de transmissão dessa partida pertenciam à empresa MediaPro e a forma como eles foram adquiridos permanece desconhecida. O que é fato, é que ao longo da transmissão realizada pela TV Brasil, um canal público, a equipe de transmissão mandou abraços para o Presidente e no intervalo foi veiculado material de propaganda do governo. Mestre e doutor em História pela USP e professor do curso de pós-graduação História Sóciocultural do Futebol, Flávio de Campos, aponta como inédito na história do país o ocorrido durante a transmissão da partida, “isso não aconteceu nem na ditadura. Durante a Copa de 70 havia a cadeia nacional para os jogos da seleção, na qual se dividia cada tempo em 2 e tínhamos um locutor e um comentarista de cada emissora, mesmo assim não há registro de saudação ao presidente da república nem de qualquer utilização tão acintosa de um jogo da seleção brasileira para propaganda política. No período democrático isso com certeza também não existiu”, destaca. O professor também apontou a Itália e Alemanha dos períodos fascista e nazista, o regime militar da Argentina e o governo soviético como países e momentos históricos nos quais as transmissões de partidas no rádio e na televisão foram utilizadas, de maneira similar ao que se observou no confronto entre Peru e Brasil, como ferramentas de comunicação do governo. “A questão dos direitos de transmissão se encaixa nesse jogo político que envolve a aproximação entre governo e CBF, algo que não é recente no país, e o ataque à Rede Globo que tem sido crítica ao governo”, aponta Flávio. Dado o atual contexto é possível imaginar que as movimentações nesse jogo ainda poderão exercer influência sobre futuro das discussões que envolvem os direitos de transmissão.
Pelo lado dos clubes, a movimentação isolada do Flamengo em relação à assinatura da MP faz pender a balança para o lado contrário da união, ou de uma muito mencionada liga. Nesse cenário, a tendência é o de aumento da desigualdade entre os clubes brasileiros, em relação às receitas dos direitos de transmissão. O fenômeno dos “jogos fantasma”, anteriormente mencionado, que acontece por conta dos direitos de transmissão compartilhados, passou a ser uma realidade no Brasil também por conta das negociações individuais após a implosão do Clube dos 13 no início dos anos 10, que trouxeram como consequência também o aumento da desigualdade, como descreve Emanuel Leite “nunca fui um defensor do que o Clube dos 13 representava pois era uma associação privada que reunia os clubes de futebol e que tinha no seu estatuto a defesa dos seus associados, mas negociava os direitos de transmissão de todo o campeonato brasileiro, até daqueles clubes que não eram membros e isso gerava uma desigualdade já grande. Porém, ainda era um cenário de negociação coletiva. Existia um critério de distribuição de recursos entre os membros, e as migalhas para os não membros. Com a implosão vimos o fosso aumentar, para ilustrar esse movimento, vamos pegar o exemplo da diferença entre Flamengo e Botafogo, o quanto não aumentou a diferença nominal e percentual? O Botafogo passou a receber muito menos do que o Flamengo”. O pesquisador ainda aponta a desigualdade inerente às ligas e a necessidade de uma regulação para diminuir abismos, “a literatura da Economia e da Sociologia do Esporte está cansada de demonstrar cientificamente que campeonatos desregulados, ou seja, sem regulamentações que estabeleçam negociações coletivas, com o princípio de solidariedade na distribuição dos recursos, geram maiores desigualdades”, e lembra dos casos recentes da Espanha e Itália, no qual houve uma regulação, por meio de leis, que proporcionaram um maior equilíbrio nas ligas dos dois países, “depois que a legislação de cada um desses países mudou a forma de negociar e distribuir os recursos dos direitos de transmissão televisiva, passando a determinar negociação coletiva com regras pré-estabelecidas com critérios para a distribuição desses recursos, em ambos os casos houve uma diminuição significativa da desigualdade”.
Um país que caminhou no sentido oposto ao de Itália e Espanha é Portugal, no qual os direitos são também do mandante da partida, mas as negociações não têm nenhum tipo de regulação, sendo realizadas de maneira individual. A consequência é que o país lidera com folga a lista de países com maior desigualdade nas receitas de direitos de transmissão, com Benfica, Porto e Sporting recebendo valores mais de 10x maiores do que a média da liga.
Sem uma negociação coletiva dos direitos de transmissão, “a tendência, pelo que nós vimos nas experiências esportivas em todo o mundo é o que é maior receber mais. No caso do Brasil esses clubes seriam Flamengo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Vasco, que são os cinco grandes clubes do Brasil em termos de torcida nacional, ainda com destaque para os dois primeiros. E os outros? A alternativa é a negociação coletiva, com critérios que busquem garantir o mínimo de equidade, para impedir que quem tenha mais acumule a um ponto que inviabilize a competição”, avalia Emanuel.
João Ricardo Pisani, gestor esportivo, com carreira dedicada ao desenvolvimento de produtos no futebol, também analisou o cenário e possíveis consequências do que foi proposto na MP, “inicialmente, a lei do mandante isoladamente remove uma amarra, dá mais jogos para os clubes, e por isso permite que uma equipe venda mais jogos e, em teoria, arrecade mais. Os problemas tendem a aparecer com a possível negociação individual, que cria um cenário escorregadio porque, ao mesmo tempo que dá autonomia para uma equipe negociar de forma independente seus jogos com quem quiser, ela também coloca, em diversas ocasiões, os clubes na posição de concorrentes entre si pelo mesmo mercado, ou recursos”. Ele ainda aponta, “o produto em questão não deveria ser reduzido ao jogo do mandante X contra um visitante Y, mas ser compreendido como o campeonato brasileiro como um todo. A negociação individual tende a aumentar os riscos que uma equipe tem ao sair sozinha no mercado, e a chance desse risco não compensar o retorno financeiro esperado é enorme. Porque as diferenças já existem, mas o verdadeiro abismo tem tudo para aparecer com as negociações independentes, quando os riscos dessa negociação individual cobrarem seus pedágios, como por exemplo, uma temporada ruim, contratos extremamente curtos, concorrência local com clubes de maior apelo nacional”.
Desgarrar dos concorrentes do nível nacional é o interesse da muitos dos maiores clubes de cada país, o que pode ser explicado, obviamente pela tendência natural da busca pela vitória, inerente ao ambiente competitivo, mas também pode ser potencializada por contextos específicos. No caso de Portugal, com a liga mais desigual da Europa, Benfica, Porto e Sporting buscam não apenas manter a hegemonia local, mas se manterem competitivos no continente e aí, para bater de frente com os gigantes europeus, cada centavo conta.
Dois projetos, um da FIFA e outro encabeçado por alguns dos maiores clubes do continente europeu, tem potencial para impactar diretamente na distribuição de recursos oriundos dos direitos de transmissão para os clubes. O primeiro é o Mundial de Clubes ampliado, com 24 equipes, disputado a cada 4 anos, que pode trazer uma quantidade de dinheiro significativa para os participantes, principalmente os não-europeus. Garantir presença constante na competição pode significar um salto definitivo no patamar financeiro para essas equipes em relação a seus pares locais, assim como ocorre com clubes de ligas periféricas do continente europeu na Champions League. O segundo é a liga europeia de clubes, que pode criar um abismo definitivamente intransponível entre o seleto grupo de convidados para o torneio e as demais agremiações do continente, mesmo aquelas dos países mais relevantes futebolisticamente.
Streaming, futuro das transmissões esportivas e democratização do acesso aos jogos?
O debate sobre a viabilidade das plataformas de transmissão de jogos pela internet, o streaming, em diversos canais como YouTube, Facebook, Twitter, entre outros, também ganhou destaque a partir da assinatura da MP, principalmente com as experiências do Flamengo que inclusive chegou a cobrar diretamente dos torcedores pela transmissão das partidas. O que ajudou a abrir novas perspectivas para o setor.
Na análise de Pisani sobre o tema, “olhar só para TV é ter uma visão limitadora nos dias de hoje. Até porque, sob a ótica dos contratos começam a aparecer zonas cinzentas como streaming com paywall, que nada mais é do que uma versão atualizada do clássico pay-per-view, e transmissão aberta no site, que é praticamente o equivalente da TV aberta”, descrevendo os pontos positivos de cada plataforma “via TV, os clubes sempre vão ter o canal como intermediário, mas navegar numa mídia já consolidada e de fácil acesso para o brasileiro. Já o streaming trás a vantagem de que você pode estruturar ele dentro de casa mesmo, seja diluindo os custos em conjunto, por meio de uma liga, ou arcando com tudo sozinho, além de proporcionar uma infinidade de outros benefícios como, por exemplo, a coletar dados que te ajudam a dar maior escala e eficiência na hora de vender publicidade ou até refinar mais as entregas do seu produto. Por hora é possível utilizar o que cada um oferece de melhor conforme a necessidade”, conclui.
Para Fernando Borges, doutor em Ciências da Comunicação e Informação pela Universidade Pantheon-Assas, com diversos artigos publicados sobre a utilização de plataformas digitais por clubes de futebol é preciso cuidado para avaliar o cenário. O pesquisador ainda enxerga as emissoras como aliados importantes, “não basta ter uns quantos milhões de pessoas que se dizem torcedores de um time para ter sucesso financeiro em uma empreitada como essa. Acho que o Flamengo viu isso rapidamente com o caso dos jogos do Campeonato Carioca e o Benfica também viu isso com o seu canal. Não é apenas a quantidade absoluta que deve ser vista. No caso de Portugal, o Benfica tem cerca de metade da população identificada com o clube e cerca de 160 mil sócios. Mesmo assim, há um limite ao número de assinantes para um canal de TV paga, que é o modelo escolhido pelo clube. Eles dizem que chegaram a 300 mil assinantes – correspondente à meta estabelecida inicialmente, mas nunca anunciaram passar muito mais do que esse número. Além disso, para alavancar o negócio, além de todo os investimentos em recursos humanos e tecnológicos, eles investiram em outros produtos na época – campeonato inglês, por exemplo. Assim, os meios de comunicação de massa – TV aberta, TV a cabo – ainda são os melhores parceiros para os clubes de futebol das principais ligas e divisões para exibirem os seus jogos. São canais que conseguem entregar ao público um produto de qualidade, a uma audiência grande e variada, que interessa aos anunciantes da mídia e dos clubes e pagam bem aos clubes, sem grandes esforços por parte dos clubes”, pontua.
Fernando ainda explica que esse mercado ainda está longe de ter encontrado um modelo ideal, “acho que os clubes têm a possibilidade de explorar melhor o seu produto, se forem capazes de entender o que é esse produto. Aqui, não é nenhum demérito ao clubes, pois mesmo aqueles que são tidos como modelos de boa gestão, os grandes europeus e americanos, ainda estão experimentando e testando possibilidades para ver o que funciona. Não há um modelo definitivo na Europa: há canais de streaming, canais a cabo, com subscrição, gratuitos, clubes que fazem parcerias com outros players do mercado como a Amazon prime, Netflix, para fazer conteúdo. Não há uma fórmula pronta”.
No Brasil, um dos clubes que tem se destacado nas iniciativas de produção de conteúdo próprio é o Esporte Clube Bahia, com o Sócio Digital. A plataforma, própria do clube, disponibiliza conteúdos relacionados ao clube que contemplam o período entre o final de uma partida e o início da outra, com treinamentos, bastidores, etc. Com custo médio de R$ 8 mensais para o torcedor, a plataforma ofereceu mais de 100 horas de transmissão no primeiro mês com equipe própria. Em entrevista ao jornalista Rodrigo Capelo no podcast “Dinheiro em jogo”, foi disponibilizado no dia 9 de julho, o presidente do clube, Guilherme Bellintani mencionou que o clube vai buscar nos próximos anos aprimorar o seu modelo para que, ao final de 2024, com o encerramento dos grandes contratos com as emissoras, o clube esteja preparado para explorar o mercado da melhor maneira possível.
Com relação à democratização do acesso dos torcedores, Pisani faz um paralelo com a música, “a internet e os serviços de streaming remodelaram a indústria fonográfica nas últimas décadas. Eles democratizaram o acesso a uma gama quase que infinita de artistas e estilos, e foram além, facilitaram a vida de quem quer consumir apenas o conteúdo X com quem quer apenas produzir o conteúdo X. Da banda de garagem no melhor estilo faça você mesmo até gigantes da indústria, todos se beneficiaram da praticidade que o streaming trás na hora de distribuir conteúdo. Porém isso não significa que seu vizinho virou o Jay-Z do dia para noite ou que os Beatles deixaram de ser uma das bandas mais escutadas do mundo mesmo sem produzir algo novo por décadas por passar a ter mais concorrência na hora de você montar a sua playlist. E nada explica melhor isso que a teoria da cauda longa. Se o torcedor do clube X tem sua maioria concentrada num recorte que mostra um baixo acesso à internet, não dá para colocar a palavra democratização aí. Se assistir todas as partidas por mês do meu time significa consumir 90% do meu pacote de dados ou parte considerável da minha renda não posso chamar isso de democratização também. Então diria que o streaming dá autonomia e te permite colocar a mão diretamente na distribuição, mas não necessariamente trás democratização”, avalia. Segundo reportagem publicada no UOL, para acompanhar todas as competições disponíveis legalmente em território nacional o custo para o torcedor é de R$ 3,7 mil ao ano.
Há espaço para clubes longe da elite do futebol na Televisão, quais são as alternativas nesses casos?
João Ricardo Pisani – Depende do como você enxerga a TV e que recortes gostaria de fazer. A cobertura e a facilidade da TV aberta ainda são elementos que garantem números expressivos de audiência e por consequência maior potencial de arrecadação. Porém, se o recorte for feito pensando em uma transmissão em rede nacional, ou nos horários já consolidados como quarta à noite ou domingo no meio da tarde diria que não existe espaço, porque há outros produtos que geram um retorno maior para a maioria dos canais. Contudo, se for algo regionalizado, pensando em retransmissoras e/ou afiliadas das grandes redes, ou eventualmente espaços alternativos da grade, nesse caso eu diria que sim. Mas a questão aqui é que pensar só em TV é algo que já não faz mais sentido. O ideal é pensar na transmissão do evento e em quais plataformas ele pode render melhor e compor em cima disso.
Por exemplo, o futebol feminino pode se beneficiar de um horário alternativo dentro da grade de TV aberta para ganhar mais projeção num projeto de consolidação de curto ou médio prazo da modalidade, mas pode ficar escondido dentro da grade da TV fechada e minar algumas vantagens que o streaming trás de forma mais tangível. A praticidade de ter o conteúdo de forma direta e a capacidade de explorar elementos acessórios, como por exemplo a coleta de dados, e um contato maior com quem consome o produto tendem ser mais interessantes do que brigar por espaço dentro da grade dos canais de TV fechada.
No último dia 13, o deputado André Figueiredo (PDT-CE) apresentou o Projeto de Lei 4876, que também versa sobre o direito do mandante. As discussões sobre o tema, que é complexo e esbarra em muitos aspectos do futebol e das comunicações, seguem a todo vapor.
*Desde a assinatura da MP, Emanuel Leite Júnior, João Ricardo Pisani e Fernando Borges, entrevistados para essa reportagem integraram discussões profundas sobre os temas abordados aqui e alguns outros que podem ser acessadas aqui.