Categorias
Sem categoria

Nada muda… por ora!

A queda de Ricardo Teixeira abriu o que imagino ser a tal limpeza da “Copa do Mundo transparente” que prometíamos anos atrás. Seria uma Copa repleta de fiscalizações, mas só agora algo veio de fato à tona.

Sem Teixeira, a CBF e seu método de trabalho continuam os mesmos, assim como os contratos já assinados. A principal corrupção já está em contrato firmado. Os membros são da mesma linhagem, com a mesma mentalidade. E, alguns, de mesma índole.

Com Teixeira no poder, os estádios e as cidades escolhidas poderiam ter sido outros, embora eu dificilmente trocasse alguma delas. A presença de Andrés Sanchez na Copa do Mundo 2010 (sempre estando junto à seleção e a membros da CBF) e a invasão de torcida organizada do Corinthians em treinos extremamente restritos da seleção, já levantavam algumas suspeitas, embora eu também veja o Morumbi, a nova Arena Palestra Itália ou o Pacaembu com infraestrutura urbana nas suas imediações impossíveis para um Mundial, principalmente se fosse abertura.


 

A surpreendente, frustrante e mal explicada troca de projetos do estádio de Cuiabá após a seleção da cidade também demonstra uma suspeita de corrupção. São, portanto, dúvidas referentes a todas as escolhas e licitações, materiais escolhidos para os estádios, o tão mal falado logotipo oficial, a entrada de Ronaldo no COL, escritórios escolhidos para fazer alguns projetos e, até mesmo, com o Teixeira na Fifa, a escolha do Brasil como sede – embora eu também acredite que era a opção mais interessante para a entidade máxima do futebol.

Acima, o estádio (sem grandes problemas técnicos) usado para que Cuiabá fosse selecionada como cidade-sede, pela Castro Mello Arquitetos (autora também do projeto de Brasília); abaixo, o projeto com capacidade reduzida e arquibancadas desmontáveis do escritório GCP. Considerar somente o conceito e diretrizes de projeto, e não o estágio de desenvolvimento, pois a primeira proposta foi interrompida, e a segunda foi desenvolvida, trabalhada e maquiada com renderização e apelo gráfico.

Exatamente tudo que já foi assinado deveria ser revisto, mas se isso for feito, perdemos os prazos de tudo e o gasto que teremos com a investigação e burocracia para continuar as obras seria novamente público.

Deveríamos ter fiscalizado, mas já que não foi feito, podemos tentar rever contratos ainda não executados e tentar reduzir alguns valores absurdos de estádios e, claro, punir os envolvidos. Aproveitaríamos para mostrar um Brasil diferente do que nós e os outros países vemos ao mesmo tempo em que daríamos um passo contra a corrupção.

Devemos pressionar para que Teixeira saia da Fifa, afinal, se não nos representa na CBF, por que representaria o Brasil e América Latina naquele organismo majoritário?

Se investigarmos e expusermos os suspeitos, quem sabe, futuramente, nossos estádios sejam definitivamente econômicos, sustentáveis e dignos de deixar um legado para o país: um legado ético e de honestidade política.

Para interagir com o autor: lilian@universidadedofutebol.com.br
 

Categorias
Sem categoria

Futebol na trincheira

O trocadilho (infame) associado com a saída de Ricardo Teixeira do comando da CBF após 23 anos no poder, anunciado no início desta semana, aventou um misto de alívio e comemoração com uma preocupação latente: e agora? Qual o futuro da entidade máxima do futebol brasileiro? Como será a organização da Copa e a relação do comitê com o Governo Federal?

As dúvidas têm relação com a sucessão. Do atual ou dos postulantes ao cargo no futuro, nenhum deles parece trazer uma proposta de inovação para a gestão do futebol brasileiro. Inovação esta que, aliás, o zagueiro Paulo André, do Corinthians, soube retratar muito bem em seu site oficial no texto intitulado “A encruzilhada do futebol brasileiro”.

O fato é que o modo de pensar o futebol no Brasil precisa sofrer uma revolução completa. E isto deveria começar pela base, que são os clubes – e tal situação parece ainda longe de acontecer. Como dizia o Mestre Marcílio Krueger: “de onde não se espera que venha algo de bom é que não vem nada mesmo”.

Portanto, se os clubes e federações ainda tem dificuldade em entender o negócio futebol como um todo, a partir de processos claros de negócio, não há como esperar algo diferente na confederação. Se não mudarmos as pessoas, não mudaremos a cultura, não mudaremos a forma de pensar e de gerir o futebol no Brasil.

A solução para novos e positivos horizontes na CBF deve partir das novas ciências relacionadas com a gestão do esporte e com profissionais sem vícios atrelados à gestão passada.

E mudanças drásticas, quando o ambiente interno não permite que as mesmas ocorram, acontecem apenas após grandes catástrofes… Para bom entendedor, meia palavra basta.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br
 

Categorias
Sem categoria

A experiência tecnológica (mercadológica) de se ver futebol

A noticia é velha, as expectativas iniciais foram frustradas, porém a discussão nos permite uma série de reflexões.

O Japão quando concorria para sediar a Copa de 2022, que no final das contas acabou tendo o Catar como sede escolhida, prometia e destacava uma verdadeira revolução na transmissão dos jogos.

Com o desenvolvimento da Sony, os japoneses revelaram a intenção de transmitir as partidas em 3D com projeção nos estádios (no próprio campo) de todo o mundo. Isto é, o jogo que aconteceria no país do Sol Nascente seria reproduzido em qualquer estádio, possibilitando a espectadores do mundo inteiro uma vivencia diferenciada do futebol.

Se não é na exatidão dos termos o que pressupunha Umberto Eco em “Apocalípticos x Integrados”, quando mencionava uma grande massa de pessoas acompanhando um jogo de futebol e robôs, é sem dúvida algo muito próximo, em termos de virtualidade e mundo cibernético.

Do ponto de vista do torcedor, é possível vermos vantagens como experiência única de acompanhar em tempo real de dentro de um estádio no seu próprio país um evento que acontece do outro lado do mundo, assim como a desvantagem de ter uma experiência mediada e não presencial na acepção da palavra.

Porém, por outro olhar, o das questões mercadológicas, a possibilidade de geração de novos produtos e segmentos atrelados ao futebol são inimagináveis. A criação de sedes virtuais, de subsedes, ou ainda mesmo a de uma Copa do Mundo universal com um país sede por grupo na fase inicial do torneio – imaginem oito sedes iniciais da Copa. O que é feito hoje com cidades de um mesmo país, sendo feito com os próprios países.

Sim, do ponto de vista de organização e política exige muito mais esforços, porém com a possibilidade de criar diferentes sedes virtuais com as projeções 3D, ganharia uma penetração além das telas de televisão que hoje já apresenta números fantásticos.

Ainda que possa beirar a ficção, é algo que já se encontra no alcance de nossos olhos.

E você, como imagina como serão as vivências de uma Copa do Mundo num futuro próximo?

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br
 

Categorias
Sem categoria

Melancolia

Tenho tido a sensação de que estamos todos melancólicos quanto ao futebol brasileiro.

Além das frequentes notícias de desentendimento geral entre Fifa, COL, Ministério dos Esportes, empreiteiras e clubes, no que concerne à Copa 2014, a grita também passa pelo sentimento de grave crise técnica – formativa – filosófica dos jogadores.

Fundamentalmente, sob um olhar sistêmico, percebemos um desequilíbrio no desenvolvimento das áreas do conhecimento afeitas ao futebol.

Direito, Medicina, Fisiologia e Preparação Física, Fisioterapia, são funções que estão qualificadas em alto nível nos clubes.

O Marketing dá mostras, em poucos clubes, que avança para esse caminho.

A grande dificuldade reside no fato que a Gestão não consegue contar com profissionais qualificados segundo visão e aprendizado desde dentro do futebol.

Em outras palavras, poucos são os profissionais que se dedicam, exclusivamente, ao futebol e/ou foram forjados a partir dele, ao mesmo tempo em que a educação formal também fosse orientada para isso.

Se não temos cursos de capacitação, nem profissionais dedicados integralmente ao pensar e agir, o resultado é a frustração amparada no sentimento de não atingir os resultados imaginados.

Temos feito as mesmas coisas há bastante tempo. Os resultados continuarão sendo os mesmos.

A bile negra do estado de depressão se agrava ainda mais quando se olha pro vizinho e se enxerga, nele, um estado de extrema felicidade.

O Boca Juniors celebrou um acordo de cooperação técnica com o Barcelona, ampliando o projeto que existia em La Candela, Buenos Aires.

Isso fomentará a formação dos treinadores segundo a metodologia do clube catalão e, em contrapartida, os jogadores de destaque na base argentina poderão ser selecionados para ingressar no seu elenco.

Algo semelhante não poderia ocorrer aqui no Brasil, com os grandes clubes?

Algumas alianças comerciais tem sido esboçadas, como o Manchester United – Desportivo Brasil, Internacional – Tottenham.

É um bom sinal, mas precisamos mais envolvimento.

O primeiro passo do rico e longo processo é reconhecer não apenas necessidade, mas humilde interesse em promover o desenvolvimento de nosso futebol segundo a engrenagem que movimenta todo o mecanismo: o jogador de futebol.

Precisamos resgatar nossas origens históricas.

Nesse estado pré-depressivo, o futebol brasileiro precisa de ajuda profissional.

Sem isso, fica difícil superar a melancolia.

Que a frase de Cruyff possa ser vivida em nossos estádios no dia a dia, remetendo ao prazer de jogar futebol e de assisti-lo:

“Jogar futebol é simples. Mas o mais difícil que existe é jogar futebol simplesmente”.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br
 

Categorias
Sem categoria

Princípios estruturais: atividades práticas para apoio e mobilidade

Dentro do Modelo de Jogo, temos os princípios operacionais, que regem a ação dos jogadores, como vimos em colunas anteriores, e os princípios estruturais, que orientam os atletas na ocupação do espaço.

Os princípios estruturais são referências para que os jogadores ocupem de maneira inteligente o espaço do jogo nos momentos de ataque, defesa e transição.

Em linhas gerais, servem como “ferramentas” para deixar o “campo grande” quando a equipe está atacando e o “campo pequeno” quando a equipe está defendendo.

Além de auxiliar na estruturação do espaço nos momentos de transição.

Segundo Leitão (2009) os mesmo podem ser elencados da seguinte maneira:

Princípios Estruturais de Ataque:
Amplitude
Penetração
Profundidade
Mobilidade
Apoio
Ultrapassagem
Compactação Ofensiva

Princípios Estruturais de Defesa:
Retardamento
Cobertura
Equilíbrio
Flutuação
Recuperação
Compactação Defensiva
Bloco
Direcionamento

Princípios Estruturais de Transição Ofensiva:
Densidade Ofensiva
Balanço Ofensivo
Proporção Ofensiva

Princípios Estruturais de Transição Defensiva:
Densidade Defensiva
Balanço Defensivo
Proporção Defensiva

Outros autores, como Vazqués Folgueira (2001), Parreira (2005), Hughes (1974), Bangsbo e Peitersen (2002) tratam de tais princípios, mas a nomenclatura difere de autor para autor e de país para país. O que importa é a essência de cada um deles seja entendida.

 

 

Introdução aos Aspectos Táticos do Futebol: faça agora mesmo o curso online da Universidade do Futebol e se aprofunde no tema; clique aqui

 

Pois bem! na coluna desta semana vou me focar em dois princípios de ataque: apoio e mobilidade.

O apoio, segundo Parreira (2005) e Leitão (2008) se refere à ocupação do espaço de jogo de maneira inteligente a fim de criar linhas de passe para o portador da bola.

 

Já a mobilidade, segundo os mesmos autores citados acima, se refere à movimentação coordenada de jogadores da equipe a fim de desestabilizar a defesa adversária e criar linhas de passe para o portador da bola. É algo parecido com o rodízio feito no futsal, por exemplo.

 

Definidos tais princípios, preciso agora pensar em como eles se articulam com as demais referências da minha equipe.

Por exemplo, se tenho como princípio operacional de ataque a manutenção da posse de bola, devo ter muito bem desenvolvido tanto o apoio como a mobilidade (além disso, devo verificar se os mesmos estão contribuindo para o cumprimento da lógica do jogo!).

Visto isso, o próximo passo é…

Estruturar as atividades!

Abaixo, seguem três atividades para o desenvolvimento de tais princípios de uma maneira fractal ao jogo e que leva em conta um Modelo de Jogo hipotético elaborado para fins didáticos:

Atividade 1

Descrição
– Atividade de 4 X 2 (“Bobinho”): o objetivo é estimular a criação de apoios e a mobilidade. Essa atividade pode ser utilizada no aquecimento de categorias maiores ou mesmo na parte principal do treino em categorias menores. O número de jogadores pode variar.

Regras e Pontuação
– Os quatro jogadores devem manter a posse de bola sem que os dois defensores a recuperem; se isso ocorrer, quem errou o passe ou perdeu a bola vai para o lugar do defensor.
– O jogador que fez o passe não pode ficar no lugar. Deve se movimentar em qualquer direção e criar uma nova linha de passe. Com isso, a atividade fica mais dinâmica e a mobilidade é estimulada.

Atividade 2

Descrição
– Atividade de 6 X 6, em que o objetivo das equipes é manter a posse de bola.

Regras e Pontuação
-O campo é dividido em quatro quadrantes.
– A equipe para pontuar deve trocar o maior número de passes possível sem interrupção.
– Cada jogador só pode fazer um passe dentro de cada quadrante. Por exemplo, após o jogador “A” realizar um passe no quadrante “X”, ele deve se deslocar para qualquer outro quadrante de campo para tocar na bola novamente.

Atividade 3

Descrição
– Atividade de 11 X 7, jogo de ataque contra defesa com regras adaptadas.

Regras e Pontuação
Ataque
– Marca 5 pontos quando fizer o gol.
– Marca 2 pontos quando trocar 8 passes.

Defesa
– Marca ponto quando ultrapassar a linha tracejada. A pontuação será de acordo com a quantidade de passes realizados antes de ultrapassar a linha tracejada, ou seja, se a equipe trocar 10 passes e ultrapassar a linha tracejada, marca 10 pontos.

Em próximas colunas vou abordar outros princípios e apresentar atividades para o desenvolvimento das mesmas.

Até a próxima!

Para interagir com o colunista: bruno@universidadedofutebol.com.br
 

Categorias
Sem categoria

As regras certas e a dinâmica do jogo: favoreça um treinar (jogar) de qualidade – parte I

Você tem sido assertivo na elaboração do seu planejamento semanal? As atividades que você e sua comissão técnica pensaram estão colaborando satisfatoriamente para a evolução do nível de jogo de sua equipe? A evolução tem incidido sobre as quatro vertentes do futebol ao mesmo tempo? O jogo que você joga em sua cabeça para cada uma das imprevisíveis situações de um jogo contra qualquer adversário, seus jogadores também o tem jogado?

A resposta afirmativa para estas questões introdutórias, de profissionais do futebol que trabalham a partir de uma perspectiva sistêmica, é difícil inclusive para quem já tem experiência em utilizar o jogo como método de ensino. Se respondeu positivamente, esteja certo de que você, sua comissão e, principalmente, sua equipe estarão à frente das demais.

Caso a resposta não seja afirmativa, mesmo que para somente uma das perguntas (apesar de acreditar que todas estão inter-relacionadas), um dos motivos pode ter origem nas regras das atividades criadas que, com as reflexões proporcionadas nas próximas linhas, terão possibilidades de solução.

Há alguns meses, publiquei sobre a importância do princípio das propensões na elaboração da sessão de treinamento. Na ocasião, mencionei, porém não me aprofundei, a importância da correta elaboração das regras dos jogos criados para o cumprimento deste princípio.

Mais recentemente, elaborei uma atividade de análise de jogo qualitativa para diferentes turmas de um curso de pós-graduação em futebol no qual sou professor. A avaliação consistia em, a partir da cópia digital do jogo em formato de DVD e determinados intervalos de tempo, analisar o comportamento de duas equipes em cada um dos momentos do jogo. Além disso, foram propostas duas questões finais que solicitavam a elaboração de uma síntese de um novo Modelo de Jogo da equipe derrotada e a criação de uma atividade que, pelas suas características, poderia levar a cabo o comportamento pretendido.

Digo “poderia”, pois, como afirmam alguns estudiosos da modalidade, os exercícios de futebol em situações de jogo são somente potencialmente específicos. Transformá-lo em jogo, garantir o estado de jogo por parte dos participantes e intervir didática e corretamente são questões indispensáveis para quem adota este método.

E ao analisar os inúmeros trabalhos, cerca de 40 dos mais de 60 que tenho para corrigir, percebi uma grande dificuldade dos alunos (daqueles que realmente fizeram e não dos que somente copiaram) em transformar determinado objetivo, mais especificamente algum exercício, em jogo. Ou seja, eu esperava mais!

Quem acompanha futebol de alto nível pode observar a manifestação de diversos princípios de jogo e ter o interesse despertado em criá-los em sua própria equipe. Bloco alto, pressing zonal, penetração, amplitude, compactação, flutuação, progressão com passes curtos, mobilidade são apenas alguns dos exemplos de comportamentos coletivos das grandes equipes do futebol mundial que muitos treinadores (dos mais variados segmentos e escalões) tentam reproduzir em seus liderados.

Todavia, na tentativa desta reprodução pode estar o grande equívoco na elaboração dos jogos. Como já abordei na coluna de tempos atrás, uma equipe não irá compactar adequadamente na sessão de treinamento se isto não for uma referência coletiva comum para dada situação-problema do jogo criado.

Uma equipe não irá progredir predominantemente com passes curtos se este comportamento não for hábito. Enfim, para cada atividade criada, não basta seu interesse em estimular determinado princípio de jogo. As regras, que formarão um exercício com uma lógica própria, devem convergir para aquilo que precisa ser treinado.

Como sabemos, no futebol, as regras e referências do jogo (alvos, terreno, bola) deixam claros que quem fizer mais gols será o vencedor da partida. Já nas sessões de treinamento, as regras e elementos do jogo podem (e devem) ser diferentes. E com o objetivo de auxiliar na elaboração/criação de regras que potencializem a ocorrência de determinados comportamentos coletivos, em colunas futuras sobre este tema, trocaremos discussões e sugestões que acelerem nosso processo de resposta afirmativa para os quatro questionamentos do início do texto.

Acredito que a eficácia na manipulação de todas as regras do jogo de futebol e a adequação para o nível de jogo atual além do pretendido são variáveis determinantes para o sucesso de sua equipe. Aqueles que nunca treinaram com jogos, com o norte de algumas regras como auxílio, poderão acelerar o processo de capacitação a aceitação do método. Aqueles com visão integrada poderão perceber se as regras que criam para atingirem determinados objetivos físicos (ou técnicos, ou táticos) estão em consonância com o Modelo de Jogo da equipe e com a Lógica do Jogo de futebol e, por fim, aqueles que dominam a utilização de jogos na perspectiva da complexidade poderão contribuir significativamente com novas possibilidades e comentários que serão publicados com os devidos créditos na coluna posterior que tratar do tema.

E quando muitos de nós estivermos respondendo afirmativamente para aquelas quatro questões do início do texto, provavelmente, teremos que rever nossos conceitos, pois os estudiosos do futebol (aqueles mesmos que afirmam que os exercícios são somente potencialmente específicos) também afirmam que o Modelo de Jogo deve ser utópico, inatingível e em constante evolução.

Coisas do (complexo) futebol!

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br 
 

Categorias
Sem categoria

Lei Geral da Copa: bebida alcoólica não é a vilã

Após acalorado debate, na última terça-feira, o Relatório final da Lei Geral da Copa foi aprovado. Antes de virar lei, o texto irá ao plenário da Câmara e, posteriormente, ao Senado.

Dentre os pontos do Relatório merecem destaque:

a). Venda de Bebidas: Ponto de maior debate, houve liberação no estádios durante a Copa do Mundo.

b). Meia-Entrada: Serão disponibilizados trezentos mil ingressos como cota social e os idosos pagarão meia-entrada em todos os setores.

c). Feriados: Poderão ser decretados feriados nacionais em dias de jogos do Brasil e nas cidades em que ocorrerem partidas do Mundial.

d). Férias Escolares: As instituições de ensino deverão adequar seu calendário de forma que as férias ocorram durante a Copa do Mundo.

e). Responsabilidade Civil: A União somente ser responsabilizará por prejuízos causados à Fifa no casos de ação ou omissão.

Sem dúvidas, o ponto de maior discussão diz respeito à venda de bebidas alcoólicas. Muitos parlamentares pretendem combater a venda destes produtos no Plenário.

Destarte, não há motivos para tamanha discussão. Aliás, há pontos de maior relevância para o cidadão, como a revogação do artigo 19 do Estatuto do Torcedor durante a Copa do Mundo. Ora, a lei de proteção ao consumidor de atividades esportivas conferiu aos organizadores de eventos esportivos a responsabilidade objetiva por danos causados ao torcedor. Entretanto, durante o Mundial, caberá ao consumidor do evento provar a culpa do fornecedor.

A venda de bebidas alcoólicas tem recebido atenção desproporcional à sua relevância. Incialmente, urge destacar que em sendo o Brasil um Estado laico, não cabem justificativas religiosas. Ademais, o Estatuto do Torcedor em nenhum momento proibe a venda das bebidas, mas, veda o fornecimento de produtos prejudiciais aos torcedores.

Outro argumento utilizado pelos que defendem a proibição à venda de bebidas diz respeito à violência nos estádios.

As causas da violência no esporte tem sido estudadas há alguns anos na Europa por dois dos nomes de maior importância: Norbert Elias e Eric Dunning.

Há um autor espanhol, Isidre Ramón Madir, que abarca de maneira bem interessante o tema. Aqui no Brasil, a Prof. Heloisa Helena Baldy dos Reis possui bons estudos a respeito.

Segundo a doutrina, podemos dizer que a violência é fruto de um conjunto de fatores, a saber:

1. Os efeitos da despersonificação – atitudes e emoções despertadas pelos gritos.

2. A diminuição do controle social – a sensação de anonimato pelo fato de o torcedor estar em uma massa de pessoas.

3. A ilusão de universalidade – a ilusão de atuar corretamente já que todos do grupo fazem e não são punidos.

4. Os mecanismos de irritação – o comportamento de um interfere nos outros.

5. Acomodação dos Torcedores – o fato de estar de pé aumenta o risco de violência, eis que os movimentos são mais difíceis quando se está sentado.

6. A presença emocional – as diversas emoções sentidas durante a partida.

7. As condições da vítima – pertencentes a outra equipe.

8. A influência do alcool e das drogas – potencializam atitudes agressivas.

9. Respeito aos direitos dos consumidores dos eventos esportivos – o mau serviço prestado pelos organizadores de eventos esportivos desperta sensação de revolta e traz como resposta atos hostis e violentos.

Dos itens acima, percebe-se que alguns como os de n. 5 e 7 não estarão presentes na Copa do Mundo.

Ademais, penso que tratar o alcool como um vilão da violência corresponde a uma saída simplória para um problema maior, qual seja, propiciar melhor atenção e respeito aos direitos do torcedor.

O Relatório Taylor, na Inglaterra, concluiu isso no início da década de 1990. Resultado: de torcida mais violenta, a Premier League se tornou a liga de futebol mais valiosa do mundo. E tudo isso com venda de bebidas alcoólicas e sem alambrado. Ademais, vende-se cerveja em todas as Ligas Norte-Americanas. E lá não há violência.

Enfim, há muito alarde por pouca coisa e, confirmando-se a redação aprovada pela Comissão Especial, a Lei Geral da Copa pode não ser a ideal, mas, sem dúvidas, o saldo é positivo.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br
 

Categorias
Sem categoria

O que o país perderia se a Fifa tirasse a Copa de 2014

Esta semana, o assunto mais comentado foi a possibilidade de a Copa do Mundo 2014 ser tirada do país tanto pela aprovação da Lei da Copa quanto pelas desavenças com Jérôme Valcke. E, sim, isto é possível.

A Fifa oferece um evento, os países interessados se apresentam e ficam sabendo de todas as regras e exigências antes de assinar o “contrato”. O evento é da Fifa e ela tem seus padrões de qualidade e segurança. Cada país, portanto, fica responsável por respeitar esse padrão e achar a sua forma de lucrar com o evento, seja com a mídia internacional, com negócios ou com investimentos no país.

No entanto, o padrão da entidade é o mínimo a ser feito – afinal, o Brasil também se voluntariou para hospedar o evento disputando com outros países interessados.

A Fifa nunca tirou uma Copa do Mundo de um país, mas sempre tem uma “carta na manga”, como opção, caso isso seja necessário pelo descumprimento das normas fornecidas em uma brochura assim que o país é escolhido. O único caso em que se teve de trocar de país foi em 1986, quando a Colômbia desistiu e o evento foi realizado no México.

É muito improvável que a Fifa tire a Copa do Mundo daqui, mas caso tirasse, o Brasil não iria perder tanto como se imagina. O país deixaria de lucrar, mas não perderia muito. Atualmente, o que estamos investindo é permanente para o futebol, com estádios modernos e infraestrutura urbana. Poderia estar investindo em conscientização social como, por exemplo, limpeza urbana, contra o vandalismo e violência nos estádios. Mas, ainda temos investimentos concretos e projetos, antes engavetados, que a Copa trouxe à tona.

São 12 cidades-sede contando com novos projetos urbanos e de estádios. No entanto, são 18 estádios em reformulações e reformas: o das 12 cidades-sede (Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Brasília, Salvador, ‘Recife’, Fortaleza, Natal, Manaus e Cuiabá), somados ao estádio do Grêmio (RS), Ponte Nova Arena, Morumbi e Arena Palestra (SP), Arena da Floresta (AC) e Arena América (RN).

O dinheiro da Copa do Mundo para o país sede não vem da bilheteria dos estádios e nem, tampouco, seria o lucro do evento que manteria qualquer um destes equipamentos. Portanto, a existência do evento ou não, depois de construídos os estádios, é irrelevante para a manutenção dos mesmos.

O capital que vem com a Copa do Mundo é em grande parte pelo turismo, com a marca Brasil sendo vendida fora do país, em negócios e reputação. O resto é investimento que fica para o país. O máximo que um estádio perderia com a retirada do evento no país seria uma minimização da visibilidade através da mídia, tornando-os menos um marco, uma referência turística, mas, novamente, voltamos ao turismo.

O futebol já ganha muito, o esporte ganharia mais se nos programas dos estádios constassem mais equipamentos de outros esportes, mas o Brasil passará por uma revolução esportiva, com ou sem Copa do Mundo. Basta saber aproveitar os investimentos e fazer o máximo, e não o mínimo, neste período. Com respeito ou não, com má tradução de suas palavras ou não, Jérôme Valcke está correto. Precisamos mesmo de um pé na bunda (ou ‘acelerar o ritmo’, se preferirem).

Para interagir com o autor: lilian@universidadedofutebol.com.br
 

Categorias
Sem categoria

Esporte e Mulher em perspectiva*

*Este texto reflete conclusões de estudos realizados pelo autor, já publicados em outras ocasiões. Nesta ocasião – como nas outras – traz adequações no propósito de fazê-lo dialogar com fatos atuais.

Motivados pelo dia 8 de março – Dia Internacional da Mulher – assumimos o desafio de tecermos considerações acerca da relação da Mulher com o Esporte, prática social alvo de nossa intervenção profissional.

Ao aceitarmos fazê-lo, tivemos a percepção de que estaríamos nos comprometendo a refletir sobre uma das facetas da história da luta da Mulher pela sua emancipação social. Isto porque entendemos o Esporte como um dos fenômenos culturais mais significativos do mundo contemporâneo2. E quando falamos de cultura, nos referimos ao espaço vital que os seres humanos constroem; ao locus onde projetam suas aspirações, num constante esforço de perceberem-se no mundo, relacionando-se com aquilo que os rodeiam. Deste modo, podemos conceber a atividade humana externada através do Esporte, como uma das formas que se colocam para nós de nos apropriarmos do mundo.

Mas em que medida o estudo das relações entre a Mulher e Esporte pode refletir um pedaço da luta por ela travada na busca da construção de um outro arquétipo que a desvencilhe do estigma da imagem feminina caracterizada pelo comportamento inexpressivo, apático, submisso e servil?3 A resposta para esta e outras perguntas da mesma natureza encontra-se, a nosso ver, no desafio de buscarmos dar conta do entendimento da dimensão sócio-antropológica de Consciência Corporal liberta das amarras reducionistas relativas à sua definição bio-psicologizante4.

Busquemos explicitar melhor o já dito. Para nós, Consciência Corporal não significa saber tão somente a respeito da anatomia do corpo humano. Nem tampouco se prender unicamente ao estudo de sua biomecânica. Mas sim, e essencialmente, entendermos que aquilo que a define, é a nossa compreensão a respeito dos signos tatuados em nosso corpo pelos aspectos sócio-culturais de momentos históricos determinados. É sabermos que nosso corpo sempre estará expressando o discurso hegemônico de uma época, e que a compreensão do significado desses ‘discursos’, bem como dos seus determinantes, é condição essencial para que possamos vir a participar do processo de construção do nosso tempo e, por conseguinte, da elaboração dos signos que serão gravados em nosso corpo. Quem nos abre a perspectiva para esta construção do conceito de Consciência Corporal é o antropólogo francês Marcel Mauss, citado por Sueli Kofes quando diz que “… o corpo aprende e é cada sociedade específica, em seus diferentes momentos históricos e com sua experiência acumulada que o ensina (…) nele marcando as diferenças que ela reconhece e/ou estabelece…” 5.

Notem que dissemos não se tratar “… tão somente de saber a respeito da anatomia do corpo humano…” “Tão somente” significa dizer que não descartamos a necessidade de darmos conta de tal entendimento. O mesmo queremos dizer quando falamos “… nem tampouco nos prendermos unicamente ao estudo de sua biomecânica…” Trata-se de um convite a extrapolarmos os limites de tais enfoques. Percebam ainda que a nossa compreensão “… a respeito dos signos tatuados em nosso corpo pelos aspectos sócio – culturais de momentos históricos determinados…”, bem como da idéia de que ele “… sempre estará expressando o discurso hegemônico de uma época…”, não é por nós considerado Ponto de Chegada, fim último a ser alcançado. Pelo contrário, constitui-se em Ponto de Partida para que possamos vir, de posse dessa consciência, “… a participar do processo de construção do nosso tempo e, por conseguinte, da elaboração dos signos a serem gravados em nosso corpo”.

Nessa direção é correto dizer que, em última instância, é a correlação de forças presente num momento histórico determinado que definirá a quem caberá identificar os sinais a serem gravados nos corpos, cabendo esta tarefa àquele segmento social que se estabelecer hegemonicamente.

Isto posto, podemos agora voltar nossos olhos para a análise das concepções de corpo construídas ao longo da história da sociedade brasileira — é este o nível de totalidade que pretendemos abarcar — em seus diferentes momentos históricos, buscando com este proceder, identificarmos relações entre essas concepções e a história de como vem se dando a presença da Mulher no Esporte.

É de 1941 o primeiro documento legal a sistematizar o Esporte em nível nacional, em nosso país. Vivíamos então, desde 1937, sob a égide do Estado Novo, regime político de índole ditatorial implementado sob o jugo da batuta do caudilho Getúlio Vargas. Conjugaram-se naquele período histórico dois arquétipos de corpo: o primeiro deles — o Corpo Higiênico — construído pela classe dirigente das primeiras décadas do século passado, quando dele lançaram mão para consolidar o processo de reordenamento social implementado a partir do assumir da posição de ex-colônia portuguesa — contando para tanto com a ajuda dos médicos higienistas —, tão logo se deram conta de que o projeto de sociedade arquitetado pelos portugueses para o Brasil, não atendia aos interesses dos brasileiros. O protótipo do Corpo Higiênico foi então vinculado ao projeto de higienização e eugenização da raça brasileira, que tinha na política de seu embranquecimento o principal trunfo para o estabelecimento de outra correlação de forças que viesse a impedir os portugueses com vocação recolonizadora, de manipularem o contingente populacional de negros cativos — que em 1950 atingia a casa dos dois milhões e meio, quase a metade da população de então — no sentido de alcançarem seus objetivos colonialistas.

O segundo modelo, o do Corpo Produtivo, teve incorporado aos valores ético-políticos mencionados, tatuadores do corpo do brasileiro, outros tantos que fizeram por reforçar sua relação com a questão da eugenia da raça, à medida que o colocaram a serviço da defesa da pátria frente aos denominados inimigos internos, questionadores do ordenamento social vigente (lembram-se do movimento batizado pelos governantes de intentona comunista?), e aos inimigos externos, face à eminência da eclosão da segunda guerra mundial e do envolvimento brasileiro naquele conflito bélico. Passaram também, os que detinham os meios de produção, a nele, corpo, tatuarem outra marca, qual seja, aquela que o concebia como instrumento de produção — em razão do processo de industrialização que se dava em nosso modelo econômico —, buscando no trabalhador brasileiro a sua capacidade produtiva, sua força de trabalho que, se melhor preparada fisicamente, renderia mais e melhor.

Bem… A esta altura, certamente muitos de vocês estarão pensando: “E agora? O que isso tem a ver com a Mulher e o Esporte?” Ah! Tudo, diríamos. Pois a história da Mulher no Esporte reflete, no seu interior, a maneira como ela, Mulher, era concebida nos mais distintos momentos históricos nos quais o Esporte foi pensado, construído, organizado e praticado.

Foi assim em 1882. Naquela ocasião, Rui Barbosa foi o relator do projeto nº 224, que tratava da Reforma do Ensino Primário e várias instituições complementares da Instrução Pública. Em seu parecer, Rui deixou patente sua assimilação dos princípios defendidos pelos higienistas com relação à definição dos papéis destinados aos homens e às mulheres, na sociedade em construção. Referia-se tal Parecer, (1) à instituição de uma sessão especial de Ginástica em cada Escola Normal e (2) à sua extensão obrigatória a ambos os sexos, na formação do professorado e nas Escolas primárias de todos os graus, tendo em vista, em relação à Mulher (atenção, aí vem!) a harmonia das formas feminis e as exigências da maternidade futura.

Configurava-se, portanto — no tratamento
dado à prática, pelas mulheres, da Educação Física e do Esporte —, o reforço ao pensamento dominante a respeito do papel da Mulher na sociedade brasileira, preparando-a fisicamente para a maternidade, concebendo a idéia de Mulher quase que somente associada à de Mãe.

Indo ao encontro das afirmações acima mencionadas, Fernando de Azevedo, 24 anos após aquele Parecer, como que atendendo ao enunciado por Rui Barbosa e seguindo a trilha por ele traçada, alude à maneira através da qual a Educação Física deveria incorporar-se aos hábitos de vida da Mulher:

“… A educação Física da Mulher deve ser, portanto, integral, higiênica e plástica, e, abrangendo com os trabalhos manuais os jogos infantis, a ginástica educativa e os esportes, cingir-se exclusivamente aos jogos e esportes menos violentos e de todos compatíveis com a delicadeza do organismo das mães…” 6.

Proféticas palavras as suas! Em 1941, é promulgado o Decreto-lei nº 3.199, que até o ano de 1975 estabeleceu as Bases de Organização dos Desportos em todo o país. Em seu artigo 54o, encontramos referências à prática do Esporte pelas Mulheres. Preceituava o referido artigo:

“… Às mulheres não se permitirá a prática dos esportes incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo para este efeito, o Conselho Nacional dos Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país…”.

Anos mais tarde, em 1965, o CND baixou através da Deliberação nº 7, instruções às entidades desportivas do país sobre a prática de Esporte pelas mulheres:

“… Nº 1 – Às mulheres se permitirá (!) a prática de desportos na forma, modalidade e condições estabelecidas pelas entidades internacionais dirigentes de cada desporto, inclusive em competições, observado o disposto na presente deliberação”.

“Nº 2 – Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, pólo, halterofilismo e baseball…”.

Não resta a menor dúvida que a simples leitura desses documentos nos conduz à constatação de que tal legislação explicitava uma distinção entre as atividades físicas a serem praticadas pelos homens daquelas a serem executadas pelas mulheres, culminando por viabilizar aos primeiros, maiores oportunidades de desenvolverem-se em destrezas físicas. Leva-nos ainda, tal leitura, a detectar a intenção, nele contida, de se adaptar nossa juventude ao padrão de masculinidade e feminilidade vigente em nossa sociedade, vindo dessa forma ratificar a expectativa da nossa cultura no que concerne à suposta superioridade do sexo masculino sobre o feminino.

Como decorrência dessa forma de pensar evidenciou-se em outro documento legal concernente à Educação Física, o transparecer do entendimento da existência de determinadas tarefas a serem desincumbidas exclusivamente pelas mulheres e outras pelos homens. É assim que interpretamos o preceituado na lei nº 6.503/77 que dispõe sobre a Educação Física em todos os graus e ramos de ensino, ao lermos em seu artigo 1o, letra F:

Art. 1º – É facultativa a prática da Educação Física em todos os graus e ramos de Ensino (…).

Letra F – à aluna que tenha prole.

Ao facultar à mulher com prole o direto de isentar-se da prática da Educação Física, obrigatória em todos os níveis e ramos de escolaridade por força do Decreto-Lei n º 705/69, deixa transparecer o pensamento de que a educação da prole é de responsabilidade única e exclusiva das mães. Caso o entendimento fosse outro, homem com prole também deveria merecer o mesmo tratamento oferecido à mulher. Acontece que a ele é imputada outra tarefa que não a de cuidar dos afazeres domésticos (a educação dos filhos aí incluída). Seria dele a responsabilidade de garantir o sustento da família. É dele a incumbência de dar conta da atividade produtiva.

Parece-nos ter sido a indevida utilização do equivocado princípio da naturalização do fato social — sob o qual se apóia a compreensão de que as atitudes femininas são determinadas pela influência de suas características biológicas —, o anteparo à idéia dominante da superioridade do sexo masculino sobre o feminino, sendo, por conta dele, afastada qualquer alusão ao fato de estar tal superioridade calcada essencialmente em determinantes sócio-culturais e não bio-fisiológicos.

Pois é dentro de um quadro mais amplo da luta travada pela Mulher, de se livrar do estigma de naturalmente inferior ao homem, vinculado às alterações substantivas ocorridas no campo econômico brasileiro no final dos anos 50, início dos 60, que vamos encontrar as bases para a gradativa alteração da forma de se perceber a participação da mulher no fenômeno cultural chamado Esporte.

Reflete essa alteração, a luta da mulher pela sua emancipação, de passar a ser considerada um ser social que pudesse vir a ter, em síntese, na maternidade, uma opção e não uma fatalidade — pela qual teria necessariamente que passar — que tatuava naquela que não se tornasse mãe, o signo da anormalidade. Passou ela a buscar ocupar — aproximadamente a partir da segunda metade deste século — outro lugar na sociedade que a identificasse como um ser capaz de — em condições de igualdade em relação ao homem — se envolver em tarefas que até então somente a ele pertencia.

O quadro para este feito era ideal. O modelo nacional-desenvolvimentista do final dos anos 50, início dos 60, acelerava o processo de industrialização do país, construindo as condições materiais objetivas para que ela viesse a se inserir no mercado de trabalho, ávido por um maior contingente de mão-de-obra.

Para tanto, foi preciso pensar outro padrão estético para seu corpo, distante daquele que a identificava com o protótipo da Mulher-mãe. O corpo rechonchudo, símbolo da fertilidade7, padrão de beleza feminina até as primeiras décadas deste século, se confundia com a imagem da mulher protetora de sua família, de seus filhos, dos filhos de todos, ao mesmo tempo em que significava também corpo bonachão, sinônimo de corpo indolente, incapaz de produzir. Era preciso um modelo de corpo que a identificasse com os valores inerentes à sociedade industrial. O corpo ágil, lépido, dinâmico, com plena capacidade de rendimento, produção. Eis o arquétipo de corpo a construir. E assim foi.

Os documentos legais pertinentes à Educação Física e o Esporte refletem esse quadro. Em 1979, o CND revogou a Deliberação nº 7/65, colocando em seu lugar a de nº 10. Num primeiro momento a permissão — contida na resolução 10/79 — para a mulher praticar modalidades esportivas até então a ela coibidas, deu-se por conta de um caso fortuito, mas que já espelhava em seu interior a mulher em luta. 8 Nove anos depois, porém, em 1986, o CND baixou a Recomendação Nº 2, na qual dizia reconhecer “… a necessidade do estímulo à participação da mulher nas diversas modalidades desportivas no país…”. Para entendermos o porquê de tal recomendação, citamos, en passant, um dos pontos mencionados na exposição de motivos que a acompanha: “… o papel determinante que cabe a mulher desempenhar nos programas nacionais de desenvolvimento econômico, social, cultural e desportivo…” Preponderava, até então — segundo essa Recomendação — como impedimento de acesso a esse último (esportivo), “… as restrições dos costumes e do convencionalismo, e as rotinas dos afazeres domésticos e familiares…”

Vinte e cinco anos depois daquela recomendação normativa, temos nosso país presidido por uma mulher, Dilma Roussef, ao lado de outras quatro presidentas de países latinoamericanos, a saber, Argentina, Costa Rica, Jamaica e Trinidad e Tobago. No início deste ano de 2012 vimos ascender à condição de presidenta da Petrobrás, — 34ª, dentre 500, maior empresa do planeta — de outra mulher, Graça Foster, fato a ser festejado
, embora seja diminuta — na casa dos 5% — a presença feminina à frente dos negócios em nosso país…

Já no campo esportivo o quadro é desolador… Basta um rápido olhar nas nossas (?) entidades nacionais, estaduais e municipais de administração do esporte (Comitê Olímpico e Paraolímpico, Confederações, Federações, Ligas e Clubes) para constatarmos a ausência da mulher, embora a presença delas na condição de atletas tenha crescido substantivamente em nossas delegações esportivas de competições nacionais e internacionais, o que faz por reforçar a tese da submissão feminina ao mando masculino em um dos setores mais retrógrado e conservador de nossa sociedade.

No Futebol, se temos Marta, uma “camisa 10” parelha ao “10” do “esporte bretão” conclamado atleta do século (XX), temos a inexistência de uma política esportiva para o futebol feminino, por conta do descaso da CBF para com ele, hoje mais do que nunca preocupada com a Copa 2014 e a esperada saída de cena de seu presidente quase que vitalício, numa típica estratégia de deixar ir os anéis para não perder os dedos…

Por sua vez, matéria assinada por Gustavo Fransceschini e Vinicius Konchinski9 nos dá notícias de uma mulher a frente de uma federação de futebol, mas de forma nada merecedora de ser festejada pois eivada dos mesmíssimos defeitos de seus colegas dirigentes, incluindo o da longevidade do tempo de mando…10

… Fiquemos por aqui com o sincero desejo de que em outros “8 de Março” possamos ter mais motivos para festejar a presença da Mulher no cenário esportivo brasileiro, somando esforços ao lado de homens que defendem o Esporte como prática social possível de se colocar a serviço do processo de emancipação humana.

Um Esporte – nas palavras de nosso mestre amigo Manuel Sergio em seu “Manifesto para o Desporto do Futuro” – “com apurada consciência moral e um razoável grau de maturidade cultural e cívica, como forma de as pessoas terem consciência e exercitarem sua dignidade, os seus direitos e obrigações, (e que) rejeite o pensamento e a política do totalitarismo e do individualismo, os dois grandes elos da opressão…”.

Salve o dia 8 de Março!

——–
1 – Segundo Aurélio Buarque de Holanda, reduzir significa “o ato ou efeito de subjugar…”. Reducionismo psicologizante significa reduzir, subjugar o estudo do ser humano à sua parte bio-psicológica, dissociando-a da totalidade na qual se integra, como se o ‘todo’ significasse a soma das partes e não a sua interação.

2 – Entendemos que Educação Física e Esporte se constituem em dois fenômenos culturais distintos, porém não antagônicos. Por isso mesmo, em muitos momentos, suas histórias se confundem e se interpenetram, tornando-se impossível dar conta da compreensão de um fenômeno, ignorando o outro. Tentativas de análises distintas de um e outro fenômeno têm se afigurado artificial, ahistórica. É por causa desse entendimento que, embora o cerne da questão presente neste Artigo seja a relação Mulher / Esporte, nos sentimos bastante a vontade para passearmos de um fenômeno a outro.

3 – Tal imagem foi detectada pelo Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, na análise dos livros didáticos. Conforme matéria publicada à página a-24 da Folha de São Paulo de 24 de Agosto de 1987.

4 – Segundo Aurélio Buarque de Holanda, reduzir significa “o ato ou efeito de subjugar…”. Reducionismo psicologizante significa reduzir, subjugar o estudo do ser humano à sua parte bio-psicológica, dissociando-a da totalidade na qual se integra, como se o ‘todo’ significasse a soma das partes e não a sua interação.

5 – Esta fala de Sueli Kofes está publicada na coletânea “Conversando sobre o corpo”, sob o título “E sobre o corpo não é próprio corpo que fala? Ou o discurso deste corpo sobre o qual se fala”, à p.47.

6 – Fernando de Azevedo, “Da Educação Physica”, p.96 da edição de 1920, a segunda de uma série de três. A primeira edição data de 1916, 24 anos após, portanto, o Parecer de Rui Barbosa ao Projeto nº 224/1882. A terceira é de 1960.

7 – Sob o título “Gordura pode determinar fertilidade”, a Folha de São Paulo publicou em 1º de Abril de 1988, matéria segundo a qual “… cientistas norte-americanos descobriram que existe uma ligação entre a porcentagem de gordura no corpo de uma mulher e sua fertilidade…”.

8 – Segundo a matéria “Mulheres neste esporte (judô) só há oito anos” (Folha de São Paulo, caderno de esportes, 21/9/87, p. A-17), “… foi uma atitude insólida ousada do carioca Joaquim Mamed, então diretor da Confederação Brasileira de Judô, que provocou a liberação…”. Segundo a reportagem, “… Mamed trocou os nomes de quatro meninas, relacionando-as como homens na comunicação que fez ao CND para assegurar passagens à Delegação que disputaria um campeonato sul-americano na Argentina em 1979. Sua trama foi descoberta depois, mais ele saiu-se vitorioso”.
“… Quando voltei ao Brasil — disse Mamed, ainda conforme a reportagem — já havia uma intimação para que comparecesse no CND. Fui lá com as meninas, todas de quimono (…) e de medalhas no peito. Houve discussão, mas o CND acabou aprovando a entrada da Mulher no judô…”.

9 – “Envoltos por irregularidades, presidentes de federações decidem futuro de Teixeira na CBF”. Do UOL em São Paulo, 29/02/12.

10 – Trata-se de Rosilene de Araújo Gomes (Paraíba). Primeira mulher a presidir uma federação de futebol, está no poder desde 1989. Conhecida como “Dama de ferro” do esporte local, enfrentou acusações de nepotismo e desvios de verbas. Foi investigada pela CPI CBF-Nike em 2001, onde admitiu favorecimento à sua família na entidade. Recentemente enfrentou manifestações para que fosse destituída da função, mas permaneceu no cargo.

Referências Bibliográficas

Azevedo, Fernando de. Da Educação Pysica; o que ela é; o que tem sido; o que deveria ser. 2ª edição, Rio de Janeiro, edição Weiszflog, 1920.

Castellani Filho, Lino. Educação Física no Brasil : A história que não se conta. 19ª edição, Campinas, Papirus, 2011.

__________________Diretrizes Gerais Para o Ensino de 2º Grau – Núcleo Comum – Educação Física. Projeto SESG/MEC-PUC/SP, MEC, 1988.
__________________Ensaio sobre a Mulher Brasileira face a Legislação da Educação Física e do Desporto. In Desporto & Lazer, ( 8): 18 –21, 1982.

Kofes, Sueli. E sobre o corpo não é o próprio corpo que fala? Ou o discurso desse corpo sobre o qual se fala. In Bruhns, Heloisa Turini ( org), Conversando sobre o corpo, 4 ª edição, Campinas, Papirus, 1992.

Sérgio Manuel. Manifesto para o Desporto do Futuro. In Corpo & Movimento, ano 1 (4), 1985.

Documentos Legais

BRASIL. Parecer nº 224/1882 – Reforma do Ensino Primário e várias Instituições Complementares da Instrução Pública.

BRASIL. Decreto Lei nº 3.199 de 14/4/41 – Estabelece as Bases de Organização dos Desportos em todo o país.

BRASIL. Deliberação CND nº 7/65 – Baixa instruções às Entidades Desportivas do país sobre a prática de desportos pelas mulheres.

BRASIL. Decreto-lei no 705/69 – Torna obrigatória a Educação Física em todos os graus e ramos de ensino.

BRASIL. Lei nº 6.503 de 13/12/77 – Dispõe sobre a Educação Física em todos os graus e ramos de ensino.

BRASIL. Deliberação CND nº 10/79 – Baixa instruções a entidades desportivas do país para a prática de desportos pelas mulheres.

BRASIL. Recomendação CND nº 02/86 – Reconhece a necessidade de estímulo à participação da mulher nas diversas modalidades desportivas no país.
 

Para interagir com o autor: lino@universidadedofutebol.com.br

 

Categorias
Sem categoria

Seu chefe, imigrante

Sim, o sugestivo título pode ser o futuro de muitos de nós que trabalham com esporte em um futuro não muito distante (aliás, o presente já vem registrando casos do tipo). A nova dinâmica de formatação do mercado esportivo brasileiro, com um desenvolvimento a galopes vislumbrando os megaeventos de 2014 e 2016, somado à desqualificação da mão-de-obra do segmento no Brasil e a crise percebida nos países “ricos” são os principais fatores apontados para que tal fato venha a ocorrer com certa frequência nos próximos anos.

Aquele antigo clamor para que as pessoas se preparem e dominem outras línguas se reforça. A preparação contínua, experiência internacional e formação básica podem se tornar fatores limiares de sucesso neste novo cenário.

E, sobretudo, os brasileiros tenderão a pagar um preço caro pela desqualificação e pela baixa qualidade do ensino nas diversas áreas que a Indústria do Esporte abrange. A negligência dos educadores físicos para a área de gestão do esporte e a percepção deturpada de esporte por parte de administradores (e outras qualificações análogas) devem se tornar os principais entraves para ascender cargos em nível maior na nova dinâmica desta indústria.

Portanto, fica o registro de alerta para que possamos nos preparar e nos qualificar para a próxima década, com cursos de maior qualidade na área de gestão do esporte a serem ofertados em nosso território. E não se assustem se em um belo dia de trabalho tiver que cumprimentar seu chefe com um “Guten Morgen”, um “Good Morning”, um “Buenos Días” ou até mesmo um “Bom dia, gajo”.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br