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Os descendentes

Sou fascinado por biografias.

Não apenas no sentido literal da coisa – gostar de livros ou filmes sobre a história de vida das pessoas.

Sempre que possível, fiquei próximo das pessoas para aprender com suas experiências e, também, entender as razões e causas que as movem em direção a uma vida bem vivida.

Além disso, também me atraem as venturas e desventuras de empresas e instituições que, quando bem contadas e desveladas dos exageros, costumam ser valiosas doses de aprendizado.

Naturalmente, muita coisa se perde nas entrelinhas da realidade experimentada pelos protagonistas, e cai no campo das memorias embaçadas, reminiscências distantes, ou, por outro lado, de cores carregadas, por vezes romantizadas, que não expressam com fidelidade a essência da pessoa ou da instituição.

Como sempre se diz, somos a soma de todas as nossas coisas, de toda nossa história e estórias.

Família, amigos, escola, relacionamentos, trabalho, consistem na forja de quem somos e o que fazemos.

Se apenas quisermos, como disse, saber a respeito de uma pessoa, ou de uma instituição, não é difícil termos acesso a informações relevantes.

Entretanto, para as conhecermos e entendermos, efetivamente, devemos “subir o rio”, cada vez mais em direção à nascente e, ali, a compreensão fica mais clara e limpa.

A acomodação do dia a dia nos impede de exercitar essa caminhada, essa observação atenta.

Apenas nos damos conta de como é importante, e bom, conhecer que nos cerca, quando já estão longe.

Fui ao lançamento do livro do meu amigo Paulo André, intitulado “O Jogo da Minha Vida – Histórias e reflexões de um atleta”, na semana passada.

Foi um evento altamente prestigiado, em que compareceram jornalistas, jogadores, gestores esportivos, celebridades e, também, amigos e familiares.

PA, como é conhecido por quem é próximo, cultiva com muita afeição o circulo de amizades e, principalmente, com a família.

A família comunga dos mesmos propósitos e valores, o que faz ficar nítida a contribuição havida na formação de vida e na biografia do PA.

Aliás, muito bacana que tenha lançado em vida – que segue e, seguramente, dará ensejo à atualização da obra daqui a uns anos.

Nós mesmos “escrevemos” nossas biografias todos os dias, ainda que, apenas, na energia compartilhada com o cenário que nos cerca.

Portanto, também devemos percorrer nossos rios em direção à nascente, assim como percorrer os rios das pessoas que nos são valiosas na vida.

Não mudaremos o seu curso, mas saberemos como se formou e como descendeu até a foz.

Como afirma Gabriel Garcia Marquez: “Converte-te numa pessoa melhor e assegura-te de saber quem és antes de conhecer mais alguém e esperar que essa pessoa saiba quem és”.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br
 

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A estratégia Disney e a elaboração do Modelo de Jogo

O Modelo de Jogo, como sabemos, deve ser o norte balizador de todo o processo de treino. Dentro dele são definidas as referências que nortearão a ação dos jogadores nos diferentes momentos do jogo.

Até aí nada de novo.

Mas, como defini-lo?

Recebo alguns e-mails justamente com a pergunta acima.

Como não temos receitas prontas para isso, peço sempre que o leitor faça uma reflexão e adéque os conceitos e conteúdos do modelo à realidade de sua equipe.

Nada de novo também.

O que fazer, então?

Buscar outras teorias que auxiliarão na definição de modelo, pois definir bem o modelo é o primeiro passo para o êxito ou para o fracasso.

A fim de auxiliar nesse momento decisivo do planejamento trago um conceito muito aplicado no ambiente corporativo: “A estratégia Disney”.

Essa estratégia foi elaborada e muito utilizada pelo próprio Walt Disney para idealizar os seus filmes e desenhos.

A mesma se baseia em três passos relativamente simples que se aplicam muito bem à elaboração do Modelo de Jogo.

O primeiro passo é chamado de “o sonhador”.

Neste momento, você deve “sonhar”. Pense no modelo de jogo e não se preocupe se os conceitos são realistas ou não; apenas tente entrar em um mundo de criatividade sem inibições. Pense em como sua equipe pode jogar de forma livre, imagine ela jogando com um modelo muito elaborado (como o Barcelona, por exemplo) e imagine a mesma com referências próprias “fora do quadrado”.

O segundo passo é chamado de “realista”.

Neste passo, você precisa analisar todos os seus sonhos em relação ao Modelo de Jogo de uma forma cuidadosa e organizá-los. Aqui deve ser feita a transferência do imaginário para o mundo real. A pergunta a ser respondida neste momento é: “como minha equipe pode jogar de uma forma realista e ideal?”.

Para isso, devem-se considerar os sonhos e refletir sobre todos eles e pensar naquilo que posso e devo definir como referências para o meu Modelo de Jogo. Neste passo, o modelo já deve ganhar corpo.

O terceiro passo é chamado de “crítico” ou “avaliador”.

As referências definidas no momento anterior, o “realista”, devem ser vistas e criticadas de uma forma construtiva. Neste passo, devo identificar o que está faltando e o que mais precisa ser analisado. Pense nos pontos fortes e fracos do modelo e tente refletir em como a equipe se sairá em cada um dos momentos do jogo. Imagine a equipe no jogo e pense no que pode ser melhorado para o êxito dentro do processo.

Os três passos foram resumidos da seguinte maneira por Joseph O’Connor e John Seymour:

“O sonhador tem ideias criativas”.

“O realista pensa na maneira de colocá-las em prática”.

“O crítico observa como elas podem ser aperfeiçoadas”.

Faça os três passos diversas vezes, pois em cada uma delas novas ideias surgirão e o modelo ficará cada vez mais elaborado e adequado às necessidades do clube em questão.

Além do mais, ninguém trabalha sozinho no futebol. Todo esse processo pode ser feito por toda a comissão, em que cada membro pode dar uma contribuição diferente e auxiliar, assim, na elaboração de um modelo adequado.

Pense de uma maneira diferente e use a estratégia Disney para elaborar um modelo próprio.

Para terminar, fica uma reflexão retirada do livro “Treinando com a PNL”, sobre Einstein.

“Sonhar acordado pode ser uma maneira útil e agradável de passar o tempo. O melhor exemplo disso foi quando um jovem físico chamado Albert Einstein imaginou como seria viajar na ponta de um raio de luz. As suas especulações revolucionaram a Física moderna, a mais “difícil” e, aparentemente, a mais objetiva das ciências, e criaram a Teoria da Relatividade.”

Até a próxima!

Para interagir com o colunista: bruno@universidadedofutebol.com.br


Bibliografia

O’Connor J., Seymour J. Treinando com a PNL. Summus Editorial. São Paulo, 1994.
 

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Aos preparadores físicos (e aos demais profissionais também) – parte I

Gestores de campo,

há algumas semanas, encerrei a coluna semanal com um questionamento sobre a utilização de quaisquer meios de treinamento que privilegiem o desenvolvimento de somente uma vertente do jogo.

Em questão estava envolvida a vertente “física” do futebol e os seus treinamentos realizados em “caixas de areia”, com tração, salas de musculação, circuitos, plataformas de salto, pesos livres, etc. Na ocasião, afirmei que desconsiderava a parte física do jogo pensada (e treinada) de forma isolada e que colunas futuras tratariam deste tema.

Chegado o momento e confesso que estou com receio de escrever. Abordar, num portal referência nacional, o aspecto físico da modalidade sem ser especialista no tema implica muita responsabilidade.

Como é de praxe nas publicações da Universidade do Futebol, estejam certos que apesar das limitações de conhecimento para a produção desta sequência de colunas, baseei-me em muitos conteúdos científicos que abordam o tema, além de longas horas de discussão com um profissional pós-graduado em bioquímica e fisiologia do exercício que vos apresentarei ao longo do material.

As inquietações e ideias a que esta coluna se propõe tiveram início em meados de 2010 quando tive a oportunidade de representar o clube que trabalho num curso de pós-graduação em Futebol, mais precisamente com a disciplina Categorias de Base, na cidade de Porto Alegre. O conteúdo da disciplina era composto pela bem sucedida Metodologia de Treinamento aplicada no Paulínia FC e o Currículo de Formação do mesmo. Durante o fim de semana de aula, tive a oportunidade de conhecer profissionais que dominavam a Periodização Tática, criada pelo português Vítor Frade, modelo este que conhecia apenas superficialmente.

Após a aula, junto com minhas bagagens, trouxe muito material a respeito desta periodização e, imediatamente, aprofundei as leituras. Leituras que, hoje, permitem-me um significativo posicionamento em relação ao que aplico, identificando as semelhanças (muitas) e diferenças (algumas) com a Periodização Tática e me instigando para novas discussões que não tenho condições de fazê-las sozinho.

É sabido que a evolução da metodologia de treinamento em futebol aponta para a preparação das equipes a partir de uma perspectiva sistêmica. Sob este viés, os treinamentos devem ter um caráter técnico-tático-físico-mental, com grande auto-semelhança com o jogo de futebol, a todo o momento.

Com estes breves argumentos, exemplificando, especialistas desatualizados da vertente técnico-tática da modalidade se assustam ao serem informados que a busca pelo gesto técnico perfeito em treinos de fundamento, ou então, o conhecido tático-sombra, são atividades superadas quando pensadas e aplicadas isoladamente na sessão de treinamento.

Assombramento semelhante ocorre com os preparadores físicos quando leem materiais, especialmente da Periodização Tática, que preveem a extinção desta função nas comissões técnicas do futuro. Porém, quando os preparadores físicos se aprofundam (ao menos um pouco) nas leituras sobre o referido modelo de periodização, fazem a seguinte constatação: o controle de carga da Periodização Tática é demasiado subjetivo.

Para os preparadores físicos, a Alternância Horizontal em Especificidade (um princípio metodológico da PT), que apresenta um morfociclo padrão constituído pelo dia competitivo, dias recuperativos e dias aquisitivos (que em relação à “parte física” do jogo varia, com estímulo e pausa, em regime de tensão, duração e velocidade de contração), é um argumento facilmente questionável pelas Ciências Biológicas dadas às poucas informações quantitativas que podem ser adquiridas.

O Novo Preparador Físico do Futebol: faça agora mesmo o curso online desenvolvido pela equipe da Universidade do Futebol. A primeira aula é gratuita!

 

Pois bem! O objetivo desta coluna não é defender a Periodização Tática (que possui embasamento teórico que em muito fundamenta minha intervenção prática) e tampouco prever a extinção dos preparadores físicos (que sempre enriquecem minhas reflexões sobre o planejamento de treinamento), lembrando que não serão extintos e terão função ressignificada carregada de complexidade.

A finalidade é criar um ambiente de discussão que permita a aproximação entre os preparadores físicos e profissionais que aplicam a Periodização Tática (ou então, alguma periodização que tenha fundamentação sistêmica) e nos direcione para a resolução da seguinte questão-problema: ao longo de um microciclo de treinamento no planejamento de atividades na preparação de uma equipe, o quanto é possível ser realizado em total especificidade, portanto, jogando futebol?

No cenário atual, quem não é adepto da Periodização Tática simplesmente a critica e a nega como possibilidade de evolução do nosso futebol. Negá-la é um comportamento comum inclusive em Portugal, pois, segundo informações de companheiros de profissão que lá estiveram, até nos corredores da Universidade do Porto ela é questionada pela falta de elementos científicos quantitativos.

Já quem aplica a Periodização Tática, muitas vezes, se coloca “acima do bem e do mal” e se prende em argumentos para justificar esta periodização que não seduzem ou convencem os preparadores físicos e demais assistentes e treinadores.

Pergunto: será que existe algum ponto da “linha” de desenvolvimento da Periodização em Futebol que a Periodização Tática e Periodização Física possam se aproximar? Estou enganado ou o objetivo das duas correntes é elaborar treinos de qualidade e montar grandes equipes?

Se os objetivos são comuns, um ambiente sadio de discussão não poderia ser mais frequente? Para elaborar treinos de qualidade e montar grandes equipes, existe um melhor caminho? Por enquanto, faço somente estas perguntas.

Quanto à questão-problema (em negrito), ainda estou buscando a resposta perfeita. Para isso, leio, estudo, acerto, erro, escrevo, apago, pergunto, pratico, sempre com um único objetivo: melhorar o inquestionável estacionado futebol brasileiro!

Espero que um dia a resposta com todas as comprovações científicas possíveis seja 100%. Sem considerar, é claro, o papel das assessorias como a de fisioterapia, psicologia, nutrição, saúde, fundamentais numa atuação interdisciplinar.

Não deixe de me escrever sobre suas indagações. Elas fomentarão discussões e reflexões para minhas próximas publicações.

Na sequência, além dos meus questionamentos e também os dos leitores, apresentarei o objetivo da pesquisa de Cristian Lizana (mencionado no início da coluna), treinador adjunto do Paulínia FC, mestrando em Pedagogia do Esporte pela Unicamp e que pode ser um catalisador do processo de aproximação do preparador físico e adeptos de uma periodização sistêmica.

Abraços e até a próxima semana!

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br
 

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Estatuto do Torcedor é constitucional

Os últimos dias foram extremamente movimentados para o Direito Desportivo. Enquanto o relatório final da Lei Geral da Copa está em debate na Câmara dos Deputados, o STF julgou uma Ação Direta de Inconstitucionalidade que pretendia fossem declarados inconstitucionais 29 artigos do Estatuto do Torcedor.

A Constituição Brasileira é a “Lei Maior” e nenhum ato ou norma pode contrariá-la. Quando um ato ou norma são editados de forma dissonante do texto constitucional o meio processual cabível é uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, conhecida como ADIN.

Assim, entendendo serem inconstitucionais alguns artigos do Estatuto do Torcedor, o Partigo Progressista (PP) interpôs perante o Supremo Tribunal Federal (STF) uma ADIN sob o fundamento de que existia violação aos dispositivos da Constituição Brasileira atinentes à distribuição de competências entre os entes federativos (União, Estados, DF e Municípios) e à liberdade de associação.

O STF, em decisão unânime, com muita propriedade, entendeu que a União agiu corretamente ao fixar regras gerais para o tratamento do consumidor de atividades esportivas e, ainda, que o Estatuto do Torcedor não interfere no funcionamento das associações, mas, apenas exige medidas que assegurem os direitos dos aficcionados.

Esta decisão fortalece o Estatuto do Torcedor e traz maior legitimidade para sua aplicação. Legitimidade esta que deve ser corroborada por cada cidadão diante de fatos que atentem contra seus direitos durante os eventos esportivos.

Portanto, o apoio institucional está aprimorado; resta ao apelo popular fazer a sua parte.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br
 

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O investimento nos estádios e a elitização do futebol

Estádios caríssimos, materiais excelentes e múltiplas tecnologias de ponta são desculpas para o aumento do ingresso para assistir a uma partida. Já se sabe que um estádio não sobrevive de bilheteria, portanto, este não deve ser o motivo para o aumento nos custos. Além disso, os valores de manutenção e sua frequência diminuem muito os gastos do estádio. Por isso, se fosse este o critério do valor do bilhete, seria justificável a diminuição dele.

O futebol tem um enorme potencial social, pois une várias classes, idades e cores sem discriminação. Ao menos, era para ser assim, até começarem com as separações de geral, numerada, inúmeros camarotes. Toda a formulação do estádio, hoje, valoriza a elitização. Desde os valores dos ingressos, quantos os benefícios de sócio-torcedores, que possuem privilégios de compra antecipada de bilhetes, entre outros.

Não necessariamente faz perder público, mas segrega dentro do equipamento, sendo que poderia ser muito saudável à sociedade realmente misturar. Para isso, seria muito interessante um estádio mais modesto, onde até os camarotes sejam mais simples, sem luxos desnecessários. Bonito, esteticamente agradável, mas ainda simples. Isso deve ser cumprido em todo o estádio, da cadeira ao material do piso.

Acima, dois setores, esteticamente adequados, de confortos diferentes – devido à inclinação, mas sem exageros (no Allianz Arena, em Munique, Alemanha). Eu, particularmente, gostaria muito de ver um estádio com assentos iguais a todos, independente de ser camarote.

Por que quem paga menos tem que ter assento pior? Já não bastaria ter uma visibilidade não tão privilegiada?

Nós, brasileiros, mas não só nós, temos o hábito de valorizar o luxo por costume, como demonstração de status, e, como mencionei acima, o estádio poderia trabalhar bem o comportamento oposto. Acredito que teríamos eventos muito mais tranquilos sem perder nada no futebol que conhecemos e vivemos.

Ainda no mesmo estádio vemos alguns exageros:



Fontes: À esquerda, Blog do Joaquim, e, à direita, Flickr Daveybot

 

Acima, à esquerda, área sem assentos, para a torcida organizada – prevendo violência dos membros, mas indo contra a segurança e direitos. À direita, a sala de conferências com cadeiras extremamente caras e confortáveis em um local de menos tempo de permanência.

Seria muito melhor fazer como a Inglaterra contra o hooliganismo a fazer escadas sem assentos em um estádio tão moderno. Punir, conscientizar e policiar; não oprimir e induzir, fazendo deste espaço um local próprio para o vandalismo, onde tudo pode. Não seria mais justo um estádio mais igualitário, com alguns diferenciais, mas baseando os ingressos na visibilidade ao conforto? Desta forma, não se segrega tanto a sociedade como temos feito cada vez mais.

Para interagir com o autor: lilian@universidadedofutebol.com.br

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Os pecados capitais na vida profissional

Frequentemente recebo pedidos de entrevistas abordando formas de comportamento no mundo coorporativo. Na grande maioria das vezes são perguntas muito parecidas: “o que fazer”, “o que deve ser evitado”, “como se portar diante de algumas situações”, etc.

Na última semana, recebi uma solicitação de nossa assessoria de imprensa para abordar exatamente este tema: comportamento no mundo coorporativo. Agendei horário para entrevista e pensei que já soubesse quais seriam as perguntas, mas fui surpreendido pela forma como o assunto foi abordado. Ao invés das perguntas conhecidas, a repórter fez um paralelo com os pecados capitais, então precisei parar e refletir para poder responder.

Ao refletir sobre as perguntas e as possíveis respostas, pensei também se eu mesmo não estava cometendo alguns dos pecados, se deveria pagar alguma penitência por eles e como poderia evitá-los.

Gostaria de compartilhar esse assunto com vocês, para que também pudessem fazer suas avaliações. Vamos a eles:

Gula – uma pessoa com gula tem o desejo insaciável, além do necessário, em geral por comida, bebida ou intoxicantes. Podemos dizer que nas empresas ou nos clubes cometem o pecado da gula aqueles profissionais que antes de iniciar uma tarefa querem saber o que vão ganhar com aquilo, o quanto vão ganhar. Estão sempre de olho no que vão receber, no que podem pedir em troca.

A penitência para esses profissionais é ficarem “mal vistos” pelos demais, acabando por perder oportunidades e sendo excluídos do grupo, pois as pessoas, antes de delegarem uma tarefa extra ou de pedirem algo para o glutão, pensam: “não vou pedir para ele, pois ele sempre quer algo em troca” ou “ele sempre pede mais do que precisa, mais do que vale a tarefa”.

Dica de como lidar com essa situação: ganhar é sempre bom, mas ninguém ganha antes de contribuir antes de fazer algo; por isso fique atento ao que acontece ao seu redor, veja como pode contribuir com a equipe, sem que os ganhos sejam imediatos. Aliás, pode ser que não ocorram ganhos imediatos, mas o fato de contribuir e se engajar com a equipe poderá trazer ganhos futuros e consolidar relacionamentos que podem abrir outras portas dentro e fora da empresa.

Avareza – uma pessoa avarenta tem dificuldade de abrir mão do que tem mesmo que receba algo em troca. Nas empresas ou nos clubes, o profissional avarento é aquele que não quer compartilhar o conhecimento, o famoso “sonegador”, quer manter segredo do que faz, de como faz, acha que essa atitude lhe dá poder. Hoje, ao contrário do que pensa o avarento, compartilhar o conhecimento é o segredo do sucesso. A diferença não está mais no conhecimento teórico – isso é facilmente encontrado em qualquer pesquisa no Google, e sim em como usar o conhecimento adquirido para fazer algo diferente.

A penitência para os avarentos é ficar cada vez mais isolado, pois quem não está disposto a contribuir, também recebe poucas contribuições e hoje, quando a troca de informações é vital para o sucesso, um avarento está com os dias contados em qualquer empresa.

Dica de como lidar com essa situação: saber sobre algo, ter conhecimento teórico é uma grande qualidade, mas essa qualidade pode ser multiplicada se você usar o conhecimento para contribuir com um grupo ou em projeto. Tente fazer isso algumas vezes e verá que os resultados serão surpreendentes.

Luxúria – uma pessoa embebida pela luxúria age numa busca desenfreada pelo prazer, um prazer pelo excesso. Nas empresas ou nos clubes, luxúria pode ser classificada como assédio sexual ou assédio moral. Casos desse tipo foram um problema muito sério no Brasil, principalmente nos tempos dos excessos de autoridade dos líderes, agravado pela impunidade e desemprego em alta. Hoje estes casos podem ser classificados como exceção.

A penitência para esses casos vai além de uma simples advertência ou demissão, pois implica em aspectos legais. O profissional que cometer esse crime responderá judicialmente por ele.

Dica de como lidar com essa situação: se você sente esse prazer em excesso, essa busca louca pelo prazer e consegue perceber isso, pare imediatamente, pois ainda há uma chance de impedir que algo de errado aconteça. Procure ajuda de um profissional da área da saúde.

Ira – uma pessoa em estado de ira tem o intenso e descontrolado sentimento de raiva, ódio, rancor que pode ou não gerar sentimento de vingança. Nas empresas ou nos clubes, os profissionais que cometem esse pecado são aqueles que enxergam os problemas em tudo. Ao invés de verem soluções, fazem críticas e críticas duras a tudo e a todos, com raiva, mesmo: nunca nada está bom para o profissional irado e rancoroso.

A penitência é que ficam pouco tempo nas empresas, são excluídos dos grupos rapidamente.

Dica de como lidar com essa situação: se você sente raiva de tudo e de todos, algo não vai bem, com certeza não está tudo errado e todos não estão errados. Procure identificar o que te incomoda de fato e resolva essa situação. Paralelamente, antes de tomar qualquer atitude, pense, reflita o que sua ação pode causar de danos para você mesmo e se existem outras formas de lidar com a situação. Só depois de parar, respirar, pensar de novo, volte a agir. Fazendo assim, seu excesso de raiva será minimizado e você e todos que vivem ao seu redor terão uma rotina mais tranquila.

Inveja – a pessoa invejosa tem um sentimento gerado pelo egocentrismo e pela soberba de querer ser maior e melhor que todos. O profissional invejoso normalmente faz pouco e reclama dos que fazem e são gratificados por isso. É comum um invejoso classificar os mais trabalhadores e os mais talentosos como “puxa sacos” ou “sortudos”, afinal ele tem que justificar para si mesmo sua incompetência.

A penitência para o invejoso, na melhor das hipóteses, é ficar estagnado em sua posição.

Dica de como lidar com essa situação: antes de ficar com inveja da conquista dos outros e taxá-los de “sortudos” ou “puxa sacos”, tente entender o que eles fizeram para alcançar seus objetivos e veja se você está disposto a fazer o mesmo. Se estiver, vá em frente e chegará lá também. Agora, se não estiver disposto, pare de reclamar e continue vivendo e tendo os resultados compatíveis com suas entregas.

Preguiça – uma pessoa preguiçosa pode ser interpretada como quem tem aversão ao trabalho, bem como negligente e lento ao realizar suas atividades. O profissional preguiçoso é aquele que está sempre fugindo de mais trabalho, dá pouca atenção aos detalhes, não é caprichoso, quer fazer sempre menos que o possível, não gosta de pensar, cumpre a “tabela”, segue a risca os horários de almoço e de saída. Pode ser até querido pelo grupo, pois normalmente são bem humorados e não arrumam “encrenca” com ninguém.

A penitência para o preguiçoso, na melhor das hipóteses, é ficar estagnado em sua posição. Seu emprego corre risco quando encontra pela frente um líder atento, que sabe que este tipo de profissional destrói a moral da equipe.

Dica de como lidar com essa situação: sair da estagnação é complicado. Os primeiros passos, aqueles que começam a dar velocidade, são os mais difíceis, mas se você quer de fato deixar a preguiça de lado, vá em frente! A boa notícia é que a cada passo dado, a estagnação fica mais longe e a velocidade aumenta com mais facilidade.

Soberba – uma pessoa com soberba é caracterizada pela pretensão de superioridade sobre as demais pessoas, com manifestação latente de arrogância. O profissional que comete esse pecado é aquele que se acha mais importante do que de fato é. Na sua visão, ele é insubstituível, faz mais e melhor que os outros e age assim sem perceber. Todos perc
ebem sua soberba, menos ele. Os outros descrevem ele da seguinte forma: “Se fulano fosse tão bom quanto pensa que é, ele seria um ótimo profissional”. Diferentemente do preguiçoso, normalmente o soberbo não é uma pessoa querida.

A penitência pela soberba é perder oportunidades de aprender e crescer nas organizações.

Dica de como lidar com essa situação: antes de achar que sabe tudo, que pode tudo, que é o melhor em tudo, procure ver como pode aprender ainda mais, ser ainda melhor no que faz e ver se alguém já fez ou faz o que você se acha único. Agindo assim, você poderá aprender e agregar ainda mais qualidades às que já twm e, paralelamente, deixará sua arrogância de lado, o que isoladamente já será um ganho enorme.

É isto, pessoal!

Reflitam e vejam se estão cometendo algum pecado e se ainda é tempo de evitar as penitências e fugir delas.

Agora, intervalo, vamos aos vestiários e nos vemos no próximo mês.

Abraços a todos!

Para interagir com o autor: ctegon@universidadedofutebol.com.br  
 

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Preleção: treino a treino ou apenas no dia do jogo?

A preleção é algo que está contido no futebol e faz parte do dia de jogo de quase todas as equipes.

Mas o que é a preleção? Para que ela serve? Só a utilizo no dia da partida?

Segundo o dicionário Michaelis, a palavra preleção significa: “Ato de prelecionar; Lição; Discurso ou conferência didática.”

Vamos analisar mais a fundo o significado “conferência didática”.

Segundo o mesmo dicionário, as palavras “conferência” e “didática” significam:

“Conferência – Reunião de pessoas para discutirem um assunto importante.”; “Didática – Arte de ensinar.”

Visto isso, podemos definir que a preleção é uma reunião orientada por uma ou mais pessoas que utilizam-se de recursos pautados na arte de ensinar.

O que isso quer dizer praticamente?

Significa que a preleção é um ambiente de aprendizado e não apenas um momento em que o treinador ou a comissão apresenta as suas respostas para os problemas do jogo.

Não quero dizer aqui que o treinador deve sentar no banco e os jogadores assumirem a discussão, mas sim que o treinador deve orientar o processo e levar os jogadores a refletirem sobre os problemas do jogo em si.

Para levar a discussão à prática, peço licença para reproduzir um trecho do livro “André Villas-Boas: Special Too”, em que o então goleiro da equipe do FC Porto, o brasileiro Hélton, se refere à preleção (chamada de palestra por ele no trecho) do treinador português antes do jogo final entre Porto e Braga na final da Liga Europa:

“(…) a palestra mexeu muito conosco… foi maravilhosa. Espetacular. Fez pensar, refletir. Quando é mais do mesmo, por exemplo, “vamos lá jogar para ganhar”, não tem grande efeito nos jogadores, porque estamos sempre a ouvir isso. Ali foi diferente, ele acrescenta sempre uma novidade, isso é espetacular.”

Veja o quanto de informação importante sobre a forma com que os jogadores veem a palestra temos nesse trecho.

Estamos no caminho certo? Será que nossos jogadores estão satisfeitos com nossas palestras?

Nesse momento específico devemos trazer coisas novas e não fazer mais do mesmo. Para isso podemos utilizar diversos recursos e abordar temas pertinentes ao momento do processo e não ficarmos “patinando” nos mesmos tópicos sempre.

Além disso, não precisamos nos focar apenas no próximo adversário!

Existem muitas coisas que podem e devem ser abordadas nessa conferência didática. Por isso a preleção deve ser vista para muito além de uma simples conversa de vestiário e ser entendida como um processo que se inicia juntamente com o processo de treino. Sendo assim, a preleção deve ser diária e no momento da partida, e o treinador não precisa e não deve tentar mudar o mundo, pois ao longo da semana tudo foi preparado para a equipe ter uma performance adequada àquele momento.

A fim de auxiliar na discussão, utilizo novamente um trecho do livro referido acima. Neste momento, o autor destaca a forma com que o treinador português André Villas-Boas conduz o processo de preleções da equipe.

“Muita gente tem a ideia de que a palestra que se faz antes dos jogos é uma peça fundamental do trabalho de preparação para um jogo. Até pode ser, por circunstâncias diversas, mas a verdade é que para os treinadores modernos vale muito mais o que se vai dizendo aos jogadores ao longo da semana.(…)

(…)Era exatamente isso que André Villas-Boas fazia no FC Porto. Começava a preparar os jogos em pequenas conversas que tinha com os jogadores, abordando pormenores sobre o posicionamento da equipe e dos próprios jogadores, falando dos adversários e da sua motivação, dos ambientes, etc.(…)

(…)A preparação feita nos dias que antecediam um jogo permitiam chegar ao dia do encontro e não ser necessário dizer grandes coisas nas tais palestras.”

Vejam que a preleção faz parte do processo!

Não há segredos.

Ao longo dos dias, das semanas, tudo deve progredir na sua complexidade e os conceitos devem se somar ao longo do tempo.

Nada é isolado e muito menos deve ocorrer a esmo, pois a performance não ocorre por acaso! Ela é fruto do trabalho diário!

Até a próxima!

Para interagir com o colunista: bruno@universidadedofutebol.com.br

Bibliografia

Perreira L.M., Pinho J. André Villas-Boas: Special too. Prime Books. Portugal, 2011
 

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As tomadas de decisão, as transições defensivas e a provável eliminação na UCL 2011/2012

O melhor torneio de clubes do mundo está na fase eliminatória com somente 16 participantes. Milan e Arsenal formam uma das chaves das oitavas de final da Uefa Champions League 2011/2012 e foi o jogo escolhido para as reflexões desta coluna. Na partida de ida, vitória do Milan por 4 a 0.

Na postagem da última semana, foi mencionada a importância de todos os atletas conseguirem “jogar o mesmo jogo nas transições”. No confronto entre Milan e Arsenal, a equipe italiana teve comportamento determinante para o resultado do jogo em suas transições ofensivas e, consequentemente, a equipe inglesa também teve comportamento determinante, porém negativamente, em suas transições defensivas.

Sabe-se que, ao perder a posse de bola, dois comportamentos coletivos podem ser realizados. Um deles é o de busca imediata pela recuperação da posse e o outro é o retorno da equipe até outras referências de marcação (linha da bola ou determinada região do campo), para posterior recuperação.

Para cada um dos quatro gols do Milan, será feita uma explicação dos comportamentos realizados pela equipe do Arsenal, considerando sua plataforma de jogo (1x4x2x3x1) e as regras de ação de alguns jogadores.

No lance do primeiro gol, após a perda da posse de bola, é evidente que o Arsenal opta por reposicionar sua equipe defensivamente e impedir progressão do adversário. Para que este mecanismo coletivo seja corretamente aplicado, os setores entre a bola e o alvo devem ser devidamente protegidos para evitar a ocorrência de situações de finalização a partir de movimentações ofensivas (penetração, profundidade, ultrapassagem, fintas e dribles).

Nocerino, jogador do Milan, que recuperou a posse e teve espaço e tempo para agir assiste à Boateng que, sob a mesma condição (espaço e tempo para a ação) tem possibilidade de finalização. Os erros de decisão de Vermaelen, central pelo lado esquerdo, e Koscielny, central pelo lado direito, expõem o que não pode ser exposto por quem opta pelas referências operacionais que não a de recuperação da posse: a zona de risco.

Vermaelen decide seu posicionamento em função da bola, da sua meta, do adversário com posse e de Ibrahimovic. Já Koscielny define o seu a partir das mesmas referências, porém, ao invés de Ibrahimovic, Robinho. Ambos “esquecem” de Boateng. A conclusão da jogada pode ser vista abaixo:

A ação do segundo gol tem início em nova perda da posse de bola, no entanto, desta vez existe um comportamento coletivo de tentativa de recuperação, observada pela diminuição do espaço em que se encontra a bola feita pelo lateral direito Sagna, pelo volante Arteta e pelo meia direita Walcott. Este mecanismo, ineficaz nesta ação, novamente permitiu espaço e tempo, desta vez para Emanuelson, que realizou um passe vertical para Ibrahimovic com posterior erro decisório da equipe inglesa: a linha de impedimento com ações individuais distintas. Koscielny adianta a linha de marcação, porém, o movimento não é acompanhado por Vermaelen e pelo lateral esquerdo Gibbs. Acompanhe toda a jogada e sua conclusão no trecho a seguir:

Já no terceiro gol, após passe errado de Rosicky, Arteta e depois Vermaelen tentam, sem sucesso, a recuperação da posse com pressão em Robinho e Ibrahimovic, respectivamente. Na mesma ação, laterais e o volante Song recompõem e Djourou (central que substituiu Koscielny, lesionado) retarda a ação. Com Ibrahimovic novamente pressionado, desta vez por Sagna e com a linha defensiva formada, o Arsenal volta a errar a decisão com Song, que não posiciona em frente aos quatro defensores entre bola e alvo, logo, deixa o setor de finalização exposto para Robinho. O escorregão de Vermaelen, contrariando o comentarista, não foi a falha determinante para a ocorrência do gol.

Para a jogada do quarto gol, pedirei sua opinião, caro leitor. Quais as falhas defensivas apresentadas pela equipe do Arsenal após a perda da posse de bola por Rosick? Eventualmente, peço a participação de vocês, pois julgo como fundamental para a coluna possibilitar maiores reflexões.

A opinião aqui exposta só ganha significado se em alguns lugares desse imenso país e, inclusive, fora dele (certo, Álvaro?) mais pessoas estiverem pensando sua prática a partir dos conteúdos aqui expostos e sendo críticos o suficiente para interpretá-los, questioná-los e, acima de tudo, (re)significá-los diante de suas próprias realidades.

E mais do que as respostas, como fiz nas jogadas dos três primeiros gols, são as perguntas que potencializam as discussões. Discussões que fazem surgir opiniões como a do leitor Felipe Sampaio, adjunto na base do Santa Cruz-PE e que está no caminho certo em suas reflexões sobre a Metodologia de Treinamento.

Abaixo, o último vídeo, sem edições (em dois links devido às problemas na publicação):

Pode ser que algum leitor me escreva mencionando que o Arsenal não teria apresentado estes problemas de transição defensiva se fosse mais eficiente em sua organização ofensiva, pois perdeu a posse de bola em quatro situações relativamente simples para uma equipe de alto nível do futebol mundial.

E eu concordaria com a resposta!

Coisas do (complexo) futebol…

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Estatuto do Torcedor: os direitos do consumidor de atividades esportivas

O esporte, sob o ponto de vista filosófico, constitui fator importante para a fuga das inquietudes naturais da rotina do cidadão. Desde as mais antigas civilizações, especialmente na Grécia, o desporto é utilizado como forma de demonstrar a destreza e a força física dos competidores, bem como o maior ou menor poder de uma nação e/ou etnia.

Conjuntamente a este desenvolvimento, evoluíram também as formas de disputas e organizações esportivas. Esses acontecimentos no âmbito do desporto foram acompanhados pela evolução de outros aspectos da vida humana, como as artes, as ciências, as indústrias e também o Direito.

O crescimento esportivo trouxe novidades e imensas modificações nas relações entre competidores, entidades organizadoras e seus espectadores. E quando há um inter-relacionamento entre diversos agentes faz-se necessária regulamentação pelo ordenamento jurídico.

Com a evolução do esporte a legislação pátria acabou por acompanhar tal evolução, até culminar na proteção dos direitos do torcedor.

Neste esteio, em maio de 2003 foi promulgada a Lei 10.671, denominada Estatuto do Torcedor, que disciplina os direitos e os deveres de uma determinada categoria.

Quando se fala em desporto no Brasil, naturalmente remonta-se, imediatamente ao futebol, haja vista ser o esporte mais difundido no país e de já ter faturado cinco Copas do Mundo (evento de maior visibilidade) e uma infinidade de outros títulos. Não obstante, o Estatuto do Torcedor é aplicável a todo o desporto profissional.

Especialmente, no momento em que o Rio de Janeiro será sede das Olimpíadas de 2016 e outras modalidades começaram a se tornar conhecidas e populares. Contudo, foi na popularização do futebol que se massificou a prática desportiva, outrora atrelada às classes mais abastadas.

Assim, o Estatuto do Torcedor traz importantíssimas normas e regulamentações ao Direito Pátrio, uma vez que responde aos anseios dos desportistas e torcedores brasileiros que desejam a prevalência da ética, da moralidade e da transparência no desporto profissional, especialmente o futebol.

Ademais disso, cada vez mais cresce a apreciação e a prática de diversos outros esportes, como o vôlei, a natação, o basquete, o tênis e vários outros ainda menos difundidos, mas já muito apreciados.

Seu conteúdo possui sentido moralizador e desde sua entrada em vigor foi severamente criticada por alguns dirigentes esportivos.

A responsabilidade pela implementação do estatuto cabe às entidades que administram o esporte (confederações, federações, ligas esportivas), aos clubes, ao Poder Público e aos torcedores.

Quanto aos clubes de futebol, é desejável que se organizem como o fizeram as empresas quando da promulgação do Código de Defesa do Consumidor. Muitas delas (os bons fornecedores) deram demonstração de civilidade e boa visão de mercado, pois investiram no treinamento de funcionários, na melhoria de procedimentos e qualidade de produtos e serviços, se capacitaram para um melhor diálogo com os consumidores e os seus órgãos e entidades representativas.

Ainda que algumas empresas deixem muito a desejar quanto aos direitos dos consumidores, não ousam negar a importância do Código de Defesa do Consumidor, tampouco se recusam a adotar iniciativas para sua implementação.

Espera-se que o mesmo ocorra não somente com principais times de futebol, mas com todos os clubes e entidades organizadoras de atividades esportivas. Neste esteio, importante que a imprensa e os próprios torcedores desafiem os clubes a se pronunciarem sobre o dever ético, e agora também jurídico, de respeitar o consumidor/ torcedor.

O Estatuto do Torcedor trata, portanto, de lei que, a exemplo do código de defesa do consumidor, estende sua tutela protetora a uma grande parcela da sociedade. O reconhecimento da relevância social de eventos públicos de caráter esportivo tem gerado o surgimento de leis reguladoras em vários países do mundo.

Todos somos consumidores e não seria de se considerar inverossímil a assertiva de que, no Brasil, todos somos torcedores. O costume de ir ao estádio torcer pelo time de sua simpatia está, já há muito, presente na vida do brasileiro: do mais rico ao mais humilde.

Por esse motivo, a Lei 10.671/2003 confere oportunidade de conciliar a paixão do torcedor brasileiro com o sentimento de cidadania, tão execrado nas décadas de Ditadura Militar.

É fato que ainda há muito a ser implementado, muito o que melhorar. Os organizadores de eventos esportivos e as entidades competidoras ainda não se ativeram para a importância do torcedor e o conseqüente respeito por seus direitos. E, por isso, ainda não foi atingida a situação ideal de que tudo os que os torcedores e esportistas necessitam seja previamente atendido.

No entanto, da promulgação do Estatuto do Torcedor, trouxe imensa evolução, tais como a presença de equipes médicas, o respeito aos regulamentos, a criação de ouvidorias, o dever de informação que vem sem aperfeiçoando, entre outros.

Mas, ainda, é preciso mais. É indispensável que os responsáveis pelo desporto nacional criem serviços de atendimento ao torcedor, no molde das grandes empresas; é preciso que os estágios, ginásios ou autódromos possuam mais segurança.

Precursor neste aspecto, o Internacional, de Porto Alegre, possui estruturado Serviço de Atendimento ao Torcedor. Não é por acaso que se tornou o time de futebol brasileiro com maior número de sócios torcedores.

Em Minas Gerais, espetacular exemplo é o Minas Tênis Clube, conhecido nacionalmente por suas equipes de vôlei, basquete, natação e futsal, que possui uma ouvidoria para o torcedor não sócio. Zelo com o torcedor ainda não implementado pelos três grandes times de futebol da capital mineira (América, Atlético e Cruzeiro).

Portanto, o Estatuto do Torcedor confere instrumentos hábeis a assegurar uma séria de direitos e proteções, cabendo à sociedade civil acionar o Judiciário e os órgãos administrativos responsáveis no intuito de se efetivar a aplicabilidade do disposto na Lei supra citada.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br
 

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Centros de treinamento, educação e a evolução do futebol brasileiro

Embora seja extremamente importante se preocupar com forma, materiais, sustentabilidade ambiental e financeira dos estádios que estão sendo construídos por serem eles os responsáveis pelo legado social e de infraestrutura para nossas cidades (direta ou indiretamente), bem que poderíamos nos preocupar com benefícios ao futebol em si, que também traz o seu desenvolvimento social, de caráter e comportamental a nossa população. E digo isso pois vejo em poucos estádios essa preocupação.

Poucos são os que preveem uma estrutura para o futebol de base, centros de treinamento. Prefiro falar sobre as escolinhas e triagem de atletas jovens em outro texto, e falar agora somente do centro de treinamento – embora possam estar juntos, em um mesmo local.

Podemos notar que os grandes times mundiais têm sempre centros de treinamento muito bons. Estamos tratando de uma indústria do futebol, ou seja, tem que haver dinheiro para a natural evolução, manutenção e contratações. Mas não estou dizendo que devemos esquecer o valor do esporte tratando somente o lado financeiro.

Esses equipamentos podem trazer melhorias nos resultados diretos das equipes, evitando lesões, recuperando melhor os atletas e proporcionando novos tipos de treinamento e de comportamento – evitando episódios como os envolvendo o Adriano, por exemplo. Trata-se de um equipamento que conforta ao mesmo tempo em que educa.

Claro que não muda o caráter nem mesmo os ideais de uma pessoa, mas que proporciona, mais facilmente, a disciplina ao atleta, sem grandes problemas, dificultando que ele se “desvirtue”, que desanime.

É muito importante que os clubes brasileiros planejem e criem estratégias de desenvolvimento, valorizando, através de seus CTs, os pontos que desejam desenvolver melhor.

Um grande exemplo é o Milan, que faz com que os atletas se sentissem no conforto de suas casas enquanto reclusos nos centros de treinamento. É necessário passar muito tempo nesses locais e isso, segundo o Milan, é essencial para manter os atletas comprometidos, atuando como equipe/família, e com prazer.

Mais recentemente foi publicado o projeto do renomado arquiteto Rafael Viñoly para o CT do Manchester City. Com 12 campos, um estádio para 7.000 torcedores entre estrutura para as funções básicas como alojamentos, etc.

E também podemos notar preocupações com o conforto mínimo em alguns CTs. O Paris Saint-Germain, frente ao frio de 7ºC nos treinamentos, adotou uma solução mostrando que não é necessário gastos e investimentos estrondosos para certas necessidades. No caso, o campo foi coberto com material utilizado em balões para manter a temperatura em cerca de 10º. Essa cobertura se mantém “inflada” por ventiladores potentes.

No Brasil, até mesmo os times grandes não têm estruturas com qualidade. Claro que temos o necessário, mas o futebol brasileiro poderia voltar a se destacar mundialmente, a ser inspiração para atletas daqui e de fora ao invés dos nossos sonharem com os clubes italianos, ingleses, franceses, espanhóis e alemães, e começarem a ver aqui um potencial de carreira.

Acredito que pode ser sonho também de atletas estrangeiros, de termos aqui o necessário para a evolução dos nossos jovens atletas e fazer com que o futebol brasileiro traga capital estrangeiro para o país.

Para interagir com o autor: lilian@universidadedofutebol.com.br