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A pessoa certa para um lugar incerto

Na Cimeira (1) Européia de Estocolmo (já lá vão oito anos!), concluiu-se pela necessidade de estabelecer, na União Européia (UE), rigorosos padrões de competência, que respondam aos prementes desafios da Sociedade da Informação. É que, assinalou-se também naquela Cimeira, a UE registra crescente consciência de uma economia dolorosamente fruste (2), por escassez de competência, que se manifesta na aversão e temor pela inovação. Os países com mais favoráveis indicadores, neste campo da inovação, são a Finlândia, a Suécia e a Dinamarca. Portugal ocupa, na Europa, o 17º lugar – uma baixa “performance” e que decorre, entre muitos outros motivos, de um ensino centrado na memorização e na repetição.

No século XVIII, um corregedor de Viseu dizia para o sábio Linck, em digressão pelo nosso País: “Portugal é pequenino, mas é um torrão de açúcar”. No entanto, porque a inovação supõe estudo e trabalho, não nos podemos contentar unicamente com o que é doce, com o que é blandífluo(3) ao paladar. Assim como “assistimos a uma mudança socioeconômica radical, materializada na formação da nova Sociedade da Informação cujo cerne é uma economia baseada no conhecimento”, assim também o futebol há de fundamentar a sua prática num conhecimento atualizado.

Não sei se alguns treinadores se consideravam profundamente lisonjeados quando alguns atrevidos chamavam ao futebol uma “ciência oculta”. É que, na realidade, ele era mesmo uma “ciência oculta” para os que tentavam praticá-lo, quer como atletas, quer como treinadores. Perguntas há que ninguém no futebol fazia. Como esta: o desporto tem, predominantemente, a ver com as ciências da natureza, ou as com as ciências lógico-formais, ou com as ciências humanas?

E porque a questão não se levantava a metodologia, usada nos treinos, estava profundamente errada. Comecei então a lecionar nas minhas aulas e a escrever nos meus livros que o desporto, só à luz das ciências humanas, poder-se-ia estudar e entender.

Não fazia sentido que, no desporto, o atleta fosse um singelo títere, nas mãos do treinador onipotente que o pretendia transformar numa simples máquina. E dizia (e escrevia) mesmo: o desporto não é uma “atividade física”, mas uma “atividade humana”. E tornava mais explícita a minha prosa, acrescentando: e também não há “educação física”, mas “educação de pessoas em movimento intencional”.

Com isso, discordava abertamente do chamado “treino analítico”, que separava o treino físico do treino técnico e tático e psicológico. E aconselhava os alunos à criação de exercícios onde a complexidade humana estivesse presente. Tudo isso se passou, há trinta anos!

No livro de Luís Lourenço e Fernando Ilharco, Liderança: as lições de Mourinho (p. 88) dá-se a conhecer o que eu ensinava (há trinta anos, repete-se) aos meus alunos:

–     A unidade prática-teoria
 
–     A complexidade presente em todos os momentos da prática desportiva;
 
–     O desporto como movimento em busca permanente da superação e como subsistema de uma ciência humana;
 
–     A denúncia de uma preparação física desinserida da globalidade do treino;
 
–     O diálogo aprofundado e constante entre o desporto e as outras ciências humanas;
 
–     A expressão hegeliana “a verdade é o todo”;
 
–     A necessidade de uma “revolução” nos currículos dos cursos de treinadores e das licenciaturas em desporto;
 
–     O respeito pela pluralidade dos modos de conhecimento, devendo respeitar-se e estudar-se o saber de treinadores de grande prática e de sucesso inquestionável.

E repisava, para os alunos, o seguinte: o fato da vossa licenciatura em Desporto não vos garante que podereis ser um dia treinadores de mais sucesso do que alguns treinadores, sem habilitações universitárias. Quando assim lhes falava, eu recordava-me do que tinha aprendido com José Maria Pedroto, Mário Wilson, Telê Santana, e outros que, não possuindo licenciatura em Desporto, eram autênticos “profissionais do êxito”. E por quê? Porque dotados de coragem, de perspicácia, de capacidade de liderança, qualidades indispensáveis à alta competição.

Não basta estudar para ser a pessoa certa para um lugar incerto (o lugar de treinador de futebol): precisas são outras “virtudes” que não se aprendem nos bancos da Universidade.

Eu tenho autoridade para escrever o que escrevi, porque me considero um universitário que muito aprendeu com alguns homens do futebol.

(1 ) Cimeira – reunião de cúpula
(2 ) Fruste – ordinário, de qualidade inferior
(3) Blandífluo – que corre branda e suavemente


*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Cam
pus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.

Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br

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Organização tática: em busca da desordem e do equilíbrio

Uma “velha máxima” do futebol, muito comum e que atravessa os tempos, diz que uma equipe para jogar bem, e conquistar vitórias, precisa ser “equilibrada”.

E não importa se a frase é dita por comentaristas especializados ou treinadores de futebol, o fato é que, há um aparente consenso e uma aparente obviedade nessa máxima.

Quando dizem que uma equipe precisa ser equilibrada, nada mais querem dizer que, ataque e defesa precisam se completar, pois não adiantaria ataque envolvente com defesa vulnerável, ou defesa intransponível com ataque que não faz gols.

Aparentemente, esses sucintos argumentos até fazem sentido.

Mas façamos algumas reflexões.

O objetivo máximo do jogo é fazer gols. E por mais que, o que vou escrever agora pareça pouco profundo, inadequado ou decepcionante, garanto que não é.

Muitas equipes de futebol, treinam orientadas para não sofrer gols, e fazer gols. Isso parece óbvio. Se não sofrer gols, e fazer gols, a equipe vence o jogo.

Mas será que é isso mesmo, e ponto?

Antes de continuar com minha reflexão quero lembrar a fala de uma grande empresária brasileira, em entrevista a uma revista de grande circulação no território nacional. Em algum momento, tentando explicar o sucesso de sua maneira de administrar, ela disse que quando criança, sempre que queria comprar alguma coisa tida como “cara” e não tendo dinheiro, nunca ouvia de sua mãe que a tal coisa era “cara”, mas sim que, se ela queria a tal coisa, precisava ganhar mais dinheiro para poder comprá-la.

Claro, não quero discutir aqui o Capitalismo. Não, por favor! O que quero mostrar é que aquilo que a mãe da empresária dizia a ela, quando criança, de certa forma influenciou seu comportamento diante de alguns desafios, e logo também, suas decisões. Ao invés de dizer “deixe isso pra lá, filha, é muito caro”, ela dizia “quer comprar? – então precisa ganhar mais dinheiro”.

Ok. Mas o que isso tem a ver com o futebol?

Voltemos então às reflexões.

Quando uma equipe de futebol se propõe a não sofrer gols, e a fazer gols, está ela se aproximando daquilo que orienta a lógica do jogo, que é “fazer gols”? Se o objetivo do jogo é o gol, não faria mais sentido pensar em “fazer mais gols do que o adversário”, e não em “fazer gols e não sofrer”?

A diferença parece sutil e para algumas pessoas, até imperceptível, mas quando o comportamento de uma equipe de futebol está orientado para fazer gols, as decisões individuais dos seus jogadores e a da própria equipe serão influenciadas por isso.

Tentarei ser mais claro.

Quantas vezes uma equipe acaba conseguindo o gol, em momentos específicos do jogo, quando ela precisa muito marcá-lo, ou quando perder por um ou nove gols de diferença não muda nada? Quantas vezes, em um comportamento aparentemente desesperado de tudo ou nada, um time, depois de tanto tentar alcançar a meta adversária, consegue fazer um gol?

O fato, é que equipes de futebol, em sua maioria, quando precisam muito fazer um gol, e têm suas decisões orientadas por isso, acabam apresentando um comportamento técnico, tático, físico, psicológico distinto do que normalmente apresentam.

Esse comportamento, deixa de ser, o de grande preocupação em não sofrer gols e tentar marcá-los, para o de fazer gols, mais do que o adversário.

Não, não estou louco; mas essa sutil (ou aparentemente sutil) alteração muda totalmente o significado coletivo da ação.

Tratar a vitória como o objeto caro (analogamente a fala da empresária que mencionei), faz com que as equipes, mesmo “economizando”, se distanciem dela.

E aí volta a velha máxima do futebol, de que as equipes precisam ser “equilibradas”. Não discordo que isso possa fazer algum sentido (e faz!), mesmo a partir de teorias sistêmicas (o que não vou discutir hoje) – ou somente por elas. Mas, sob o ponto de vista em que o tal “equilíbrio” é discutido, não tenho dúvidas, há problemas.

Não devemos entender o equilíbrio como uma complementação de tarefas entre o ataque e a defesa de uma equipe – afinal o objetivo máximo do jogo é fazer gols!

O que precisamos compreender é que uma equipe, é uma unidade complexa, que possui uma identidade coletiva. Durante um jogo de futebol, essa identidade é posta a prova. Para mantê-la intacta, é necessária uma constante busca pela manutenção do equilíbrio dessa unidade.

Esse equilíbrio sofre abalos permanentes, de maneira que, para manter sua identidade, uma equipe atinge a cada instabilidade, um novo estado de ordem; e a cada novo estado de ordem, mais “robusto” fica o seu equilíbrio.

Isso quer dizer, em outras palavras, que em um sistema, como é uma unidade complexa (a equipe de futebol), a desordem é que leva ao progresso!

Bom, mas isso é uma outra discussão…

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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A transformação ou a constituição dos clubes-empresa…

Caros amigos da Universidade do Futebol,

Em nossa última coluna, discutimos a questão da profissionalização das gestões e administrações de clubes de futebol profissional, e a eventual conversão dos atuais modelos mutuários – associativo – em modelos societários que adotem uma das modalidades de sociedades empresárias (o que seriam os chamados clubes-empresa).

Nesta coluna, gostaríamos de ressaltar brevemente uma questão estritamente legal na eventual conversão de clubes em empresas.

O diploma legal que regula a matéria, como é de amplo conhecimento, é a Lei Pelé (Lei nr. 9615/98, conforme alterada).

Na sua redação original, o legislador facultava os clubes a implementarem a operação jurídica de transformação societária, de modo a converter uma associação civil em sociedade empresária, sendo a sociedade limitada a mais comum dentre elas.

Seguindo o atual modelo em vigor na Alemanha, o legislador teve ainda o cuidado de prever que, caso o clube optasse pela transformação, o clube associativo deveria manter, ao menos, 51% das ações (ou quotas) com direito a voto. Esse dispositivo evitaria, por exemplo, o que ocorre hoje com os grandes clubes da Inglaterra, que tiveram seus controles adquiridos por investidores que, por descuido ou desinteresse, podem colocar a perder a tradição e história daqueles clubes.

Ocorre que, ao longo dos anos, por uma série de razões que não vem ao caso trazer à discussão desta coluna, os dispositivos legais acima mencionados forma revogados. Assim sendo, a única menção direta sobre esse assunto foi atribuída ao parágrafo 9º do artigo 27 da Lei Pelé, que faculta às entidades de prática que se constituam na forma de sociedades empresárias.

Veja que, neste caso, a palavra transformação foi omitida do diploma legal, o que está trazendo grande discussão acerca da intenção de diversos clubes em transformarem-se no presente momento em empresas.

Notem que a transformação não seria uma opção, e que a constituição de uma nova sociedade empresária traria problemas com relação aos direitos de filiação do clube atualmente existente.

Como comentamos no passado, a muitos clubes não interessa a transformação e a profissionalização. Porém, quando é do interesse do clube reorganização societária, tratar-se-ia de grande equívoco interpretativo a criação de barreiras legais para a viabilidade de tal operação.

Devemos adotar uma interpretação mais abrangente do termo ¨constituição¨ utilizado no referido parágrafo nono, e permitir que, além de novos clubes que venham a ser constituídos na forma de sociedades empresárias, que os clubes que já existam na atualidade possam ser transformados ou permitidos que venham a constituir uma subsidiária, na forma de sociedade empresária, que venha a sucedê-lo na atividade profissional do futebol.

A evolução legislativa não pode jamais perder-se no tempo e permitir que a intenção originária do legislador (de promover a profissionalização do esporte) seja suprimida pela interpretação restritiva do texto legal.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

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Notas duplas

Eu estava com um assunto pronto para escrever, mas, visto a amplitude tomada por dois fatos nessa quarta-feira, achei melhor adiar.

São dois casos interessantes, e cada um merece uma pequena nota.

Ei-las:

1) O Palmeiras comprou o Pierre e disse que não vai vender ninguém esse ano. O economista Belluzzo, ao que tudo indica, não pensou economicamente, mas passionalmente.

Para ele, vale mais a pena ser campeão do que ganhar dinheiro. É justo. Não é econômico, mas é justo. À exceção do caso do Pierre, não deu pra entender muito a postura da Traffic. Alguma coisa aconteceu. Essa era pra ser a janela dos atuais três principais nomes da parceira Traffic-Palmeiras.
 
O Pierre acabou indo pro próprio Palmeiras, o que também é justo. O jogador dificilmente conseguiria um grande clube em um grande mercado. Entre ir um clube médio do exterior e um clube grande brasileiro, melhor ficar no Brasil, ainda mais com a queda do dólar. Ademais, mercados em desenvolvimento, como a Arábia, ainda terão interesse no jogador, mesmo que com 28 anos.

Mas a janela pro Cleiton Xavier e pro Diego Souza é essa. O Cleiton tem 26 anos e é, possivelmente, o melhor jogador do Palmeiras. A idade prejudica uma transferência para um clube de ponta. Só que, ainda assim, tem muito mercado. Só que isso é pra agora. Conforme o tempo passa, mais restrito vai ficando o mercado pro jogador. Ele deve saber que tem futebol para jogar algum campeonato competitivo, quem sabe até a Champions ou a Europa League. Se passar mais um ano, a probabilidade da disputa diminui.

Quanto ao Diego Souza, o momento de alta sugere que ele deva ser vendido agora. A idade, ainda, não é um problema. Mas é difícil imaginar que ele vá ter uma fase, e um valor, maior do que o atual. A hora dele e do Cleiton saírem é agora, economicamente falando.

Ou a Traffic já acertou alguma coisa com alguém para o final do ano, ou ela não recebeu uma boa proposta pelos jogadores. Ou então é tudo cena e os dois jogadores devem sair em breve.

É justo que o presidente do clube haja com paixão, mas não o investidor, que comanda um fundo com outros acionistas que, como todo bom investidor, quer saber é de grana no bolso. E a valorização por uma eventual conquista de campeonato dificilmente consegue bater a depreciação da idade sobre o valor da transferência de um atleta.

2) A CBF admitiu que o governo vai ter que bancar, de um jeito ou de outro, a Copa. Óbvio. Só que o argumento agora é que a grana virá de um empréstimo “gente-fina” do BNDES. Também não vai dar certo.
 
Por mais que seja do BNDES, empréstimo é empréstimo. E todo empréstimo tem juros. Isso significa que qualquer pessoa que pegar o empréstimo terá que, eventualmente, devolver mais do que pegou. E isso implica dizer que o estádio terá que dar lucro, ainda que pequeno. E, repito, isso não vai acontecer. Talvez um clube ou outro. Mas é difícil.
 
O estádio terá que ser, pelo menos uma boa parte, subsidiado diretamente pelo poder público, seja ele municipal, estadual ou federal. O mais provável é que seja o estadual.

É dinheiro aplicado para dar retorno intangível. E só. E quem aplica em intangibilidade é o poder público. O problema é que a eleição de 2010 vai atravancar todo o processo, seja pela imprevisibilidade da sucessão de poder ou pela disputa eleitoral. Enfim. A bola de neve está crescendo. A tendência é que ela fique maior ainda.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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Nós, agora

Ou em inglês, Us Now.

Este é o título de um fantástico documentário, idealizado por um jovem cineasta inglês de 27 anos.

Seu conteúdo trata de como as pessoas podem – e devem – influenciar na tomada de decisões em instituições públicas ou privadas, em tempos de internet.

A internet, atualmente, configura-se num ilimitado ambiente de busca de informações e de relacionamentos sociais, cuja transparência de conteúdo passa a ganhar força e retroalimentar esse contexto.

Nessas redes, as pessoas e as instituições, cada vez mais, publicam informações sobre si mesmas, fazendo com que as relações sejam balizadas por índices de confiabilidade – como no Ebay, onde os compradores reputam os vendedores e todos ficam sabendo disso.

Fronteiras entre pessoas, governos e empresas serão cada vez mais tênues e não haverá espaço para “empurrar” o que se quer vender e esconder o que não se quer mostrar.

Isso porque a mobilização das pessoas para ter acesso e propagar informações permite acompanhar o dia-a-dia dos tomadores de decisões e daquilo que decidem, e, também, influenciá-los.

“Pela internet, as pessoas podem acompanhar as vidas umas das outras. Está se tornando difícil esconder se você é uma pessoa má, pois tudo o que você fizer virá à tona, seja por você mesmo ou pelos outros”, defende Ivo Gormley, o diretor do documentário.

E vai além na defesa do binômio internet-transparência nas decisões: “Com governo e empresas é a mesma coisa. As informações estão na rede. Se houver corrupção, tentativa de enganar, os cidadãos irão saber. Se antes empresas, por exemplo, conseguiam controlar o que saía sobre elas, hoje, não podem mais. Se for ruim, as pessoas vão começar a publicar isso”.

No futebol brasileiro, temos uma belíssima iniciativa pelas mãos do Corinthians. No site oficial do clube, há uma área chamada de “Transparência”, na qual existem atas de reuniões, balancetes e detalhes contratuais dos seus jogadores.

Parece que isso sinaliza uma nova “Democracia Corintiana”, já adaptada às novas exigências de uma gigantesca nação, que deseja ser governada com zelo e quer poder tomar parte nas decisões do clube – ou pelo menos se sentir parte delas.

Nada de “Atos Secretos”, os recentes exemplos negativos vindos do Senado que custaram milhões aos cofres públicos e indignaram a todos no Brasil – tudo aquilo que não se deve fazer como gestor, ainda menos da res publicae (coisa pública, em latim).

Torcedores, uni-vos! Em busca de participação e fiscalização da gestão do futebol brasileiro em geral. A internet é o meio. Seu ímpeto por mudança positiva, o combustível.

Us now é um instrumento libertário. Inspire-se.

Bem provável que ocorram com seu clube mudanças significativas e depois disso você dirá, com orgulho: “Yes, we can“.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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Habilidades e competências do treinador em Fernando Pessoa

Olá amigos,

Para o texto de hoje, havia dedicado um espaço para refletirmos sobre algumas questões que estão por trás de muitos dos conceitos e ideias que discutimos acerca da tecnologia no futebol e de outras coisas mais.

Separando os temas e lapidando os parágrafos para dar mais objetividade às ideias, parei, numa daquelas pausas estratégicas para o pensamento “ganhar corpo” e fluir com mais naturalidade. Nesse meio tempo, entre um sanduíche aqui e um site ali, li o texto (“O que estudar para ser um treinador de futebol?”) do nosso colega Alcides Scaglia em sua coluna passada.

Fiquei indignado! Sim, isso mesmo. Não me conformei.

Calma pessoal, e, sobretudo, ao amigo e inspirador Alcides, a indignação não foi com seu conteúdo, mas sim com algumas ideias por ele apresentadas que seriam parte do tema que eu abordaria ou, pelo menos, tentaria, mas que o colega conseguiu expressar de forma muito mais clara e adequada. E agora o que me restaria falar sobre esse tema, teria de mudá-lo?

Antes de decidir o que faria, veio a “pá de cal”. No fim da leitura, me surpreendi… Este verso era meu!!!!

“Para ser grande, sê inteiro: nada. Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive”.

Sic, sic… Não é que o verso seja de minha autoria, desculpem-me pela pretensão… Aquele verso é  sim de  Ricardo Reis, uma ode desse heterônimo de Fernando Pessoa, citado por Alcides. Mas era o verso que eu usaria de epigrafe no meu texto. Oras, por um momento achei que estivesse num plano de conspiração e espionagem, afinal quantas pessoas usariam Fernando Pessoa num texto sobre futebol. Mas não amigos, com certeza não, e isso apenas tornou mais evidente para mim a importância desses pontos para o profissional do futebol.

Sobre usar Ricardo Reis num texto de futebol, não é tão fora de contexto assim, pois como o próprio Pessoa definia, Reis era um médico português que em 1919 veio residir no Brasil (que hoje chamamos de país do futebol) e se caracteriza pela busca do equilíbrio. Equilíbrio esse que constitui uma das habilidades primordiais do profissional do futebol.

Um técnico é um líder. Exerce essa função ou habilidade (poderia ser colocada como competência) de várias formas, seja por autoridade, por confiança, enfim, por diferentes contextos que possam caracterizar seu papel. Mas quanto à legitimidade dessa liderança cabe ao próprio treinador colocá-la a brilhar (“Para ser grande, sê inteiro”).

E como fazer isso? Aliás, que aspectos devem ser considerados? Daí, talvez, a freqüência atual de discussões acerca do treinador José Mourinho e sua referência às Ciências Humanas, na figura do professor português Manuel Sérgio.

Para além do embate acadêmicos x boleiros devemos entrar num acordo (seria talvez um consenso, ainda que nem sempre isso seja positivo) de que um e outro devem complementar-se para a riqueza de um profissional moderno.

Um amigo com muitos anos de prática no esporte de alto nível e que, atualmente, contribui com o meio acadêmico questionou se essa abordagem das ciências humanas não seria um modismo e se isso se manteria por algum tempo, uma vez que o esporte se sustenta por resultados concretos enquanto o ser humano é abstrato?

Pensei, e na hora respondi ainda no calor da provocação, que depois entendi como ponto primordial para discussão: que o então José Mourinho dentre outros títulos de liga nacional havia conquistado a Copa dos Campeões da Europa com o Porto, enfatizando que havia sido com o Porto, e se isso não seria resultado, o que mais poderia ser.

Com o passar da enfática e encalorada resposta, a reflexão estimulada pelo amigo trouxe um importante eixo.

O que é concreto e abstrato? Será algo entre o real e irreal? Se for assim, o ser humano não é concreto, é irreal, e, por sua vez, se assim entendermos, como pensar em soluções reais tendo como base alguém abstrato?

Talvez, seja essa a contribuição que as ciências humanas podem dar ao profissional, que precisa, dentre outros aspectos, ter o equilíbrio característico de Ricardo Reis para exercer a liderança, que a “bola já provou” que, junto ao conhecimento e aos estudos, às vezes até mais alardeada do que estes, traz resultados.

Compreender, e mais do que isso, incorporar as Ciências Humanas no momento de atuação, traz noções importantes sobre aspectos como serenidade, coerência, autenticidade, relacionamento, comprometimento, confiança e segurança. Tão importantes para as habilidades de um técnico como conhecimento técnico e tático.

O profissional que entender que um e outro não devem ser antagônicos e transformar isso por meio de sua capacitação profissional (e não apenas pelo fator acaso) em diferenciais, terá o tempo (e também os resultados) para mostrar que entender o complexo (abstrato, mas concreto) ser humano que joga o futebol assim como a ciência futebol tem algum sentido.

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

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Nadando com a maré

Nos próximos dias, o país viverá uma enxurrada de matérias sobre a natação. Como é, o que é, os benefícios da prática, onde nadar, com quem nadar… Enfim, uma série de matérias que vai fazer com que o brasileiro tenha mais próximo de si o debate sobre uma modalidade esportiva.

Os ouros conquistados por Cesar Cielo mostram claramente que a imprensa precisa do ídolo para que possa desenvolver uma modalidade esportiva. Num país carente de vitórias, ter um atleta brasileiro no alto do pódio entre grandes nomes do esporte mundial é sinônimo de manchetes de jornais, capas de sites e revistas.

E o futebol em meio a esse contexto?

Historicamente nos acostumamos a ver o futebol dominar e sufocar todas as outras modalidades esportivas por conta da presença dos grandes jogadores nos torneios nacionais. Isso ajudou a desenvolver a paixão clubística que, por sua vez, fomentou a manutenção do futebol na mídia constantemente.

Só que, hoje, o futebol brasileiro ganha cada vez mais concorrentes. Não, no caso não falamos aqui dos ouros conquistados por Cielo, que sem dúvida merecem ser destaque em todo o noticiário, mas que provavelmente não se sustentará por muito tempo graças à insistência do país em não criar projetos duradouros de formação de atletas.

O futebol, no Brasil, concorre com o próprio futebol, mas aquele jogado na Europa. Hoje o torcedor brasileiro se acostumou a ter de assistir aos campeonatos europeus para poder ter contato com os principais jogadores brasileiros.

E esse é o grande dilema do país na atualidade. A imprensa nada conforme a maré. Se o ídolo está lá, ela também estará. Se o astro da seleção brasileira jogar no exterior, ela mostrará o jogo desse atleta. E o futebol no Brasil, como é que fica?

Enquanto não se preocupar em manter o jogador em atuação no país, em dar melhores condições para o acesso dos torcedores e em buscar outros meios de contato com o torcedor, o futebol do Brasil corre o risco de virar a exceção. Obviamente que isso é muito no longo prazo.

Mas os clubes têm de encontrar maneiras para manterem a atenção da mídia não apenas pela força de marca que têm, e sim pelo produto que podem oferecer. Do contrário, a maré vai lá para o Velho Continente.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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O drible no futebol, e o árbitro 'Minority Report'

Em 2002, foi lançado um filme, dirigido por Steven Spielberg, chamado “Minority Report – A Nova Lei” (já na versão para o Brasil). Nele, crimes eram resolvidos pela polícia, antes mesmo que acontecessem, a partir de “previsões” que apontavam criminosos que ainda não haviam cometido seus crimes (e que, algumas vezes, nem sequer sabiam que o cometeriam).
 
Pois bem, dia desses em um jogo de futebol profissional, no Brasil, aconteceu algo parecido. Pelo menos, pelas explicações do árbitro do jogo.
 
Lá pelas tantas, um jogador de uma das equipes desse jogo, deu dois ou três dribles e… Bom, eu deveria substituir as “reticências” por pontos de interrogação e exclamação; mas é tão “surreal” que; hum, “reticências”…
 
Pois então. O jogador deu dois ou três dribles, e ao final da jogada foi advertido pelo árbitro do jogo.
 
Não, ele não desrespeitou o adversário… Ele driblou. E não foi nada “espalhafatoso”.
 
Depois do jogo, o árbitro “A Nova Lei”, disse que sua intenção, ao advertir o “jogador driblador”, era de, na verdade, preservá-lo. Ele pressentiu que algum adversário, estava na iminência de praticar um ato violento, e agredir o tal driblador.
 
Então, para evitar “o crime”, resolveu coibir o drible.
 
Isso quer dizer, mais ou menos assim; “que pressentindo o possível crime, puniu a vítima, e deixou feliz, o criminoso”.
 
O pior, é que no dia seguinte, alguns comentaristas, que falam sobre arbitragem, disseram que o árbitro estava certo; o drible, no caso, foi ato de desrespeito ao adversário…
 
Desrespeito é se despir da roupa de árbitro e vestir a de juiz (o que o árbitro não é), sem direito.
 
Não é possível que driblar constitua desrespeito. Se alguém acha que um jogador está fazendo “graça” (o que não foi o caso na situação que descrevi), então faz igual o pessoal lá da Vila Bela, onde na infância joguei muitas peladas; se fez graça, e faz gol, quero no meu time (aplausos!); se fez “graça” sem objetividade, então rouba a bola dele, porque se ele está fazendo graça sem objetividade, então está sem tempo para prestar a atenção no jogo (aí, os próprios colegas de equipe chamam a atenção).
 
Lá, ninguém cometia crime contra ninguém (pelo menos, não jogando futebol). E nem havia árbitro.
 
No filme Minority Report, os policiais previam os crimes, e os evitavam, pelo menos, prendendo os criminosos. Já no nosso “surreal” acontecimento, nosso árbitro, prevendo o crime, acabou dando a arma para o bandido, e tentou enjaular a vítima.
 
Então, que acabe o drible no futebol!
 
Que saiam todos de campo! E que fiquem apenas alguns árbitros dentro dele (não todos, porque a maioria faz um ótimo trabalho); afinal, não é para assisti-los que a massa preenche os estádios?
 
Era só o que faltava…

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br
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Coragem e estabilidade

A recente atitude do Internacional de Porto Alegre deve ser celebrada.
Talvez, não pelos seus mais radicais torcedores, mas pelo menos para quem se preocupa um pouco com o cenário econômico e estrutural do futebol do Brasil.

A manutenção do técnico Tite deve ser enaltecida pela indústria, mais até que o programa de sócio-torcedor do clube, que tem lá suas controvérsias.

Não é nada fácil manter um técnico no comando de um clube de futebol por muito tempo. As tentações são enormes. Ainda mais em um período em que o mercado de técnicos está bastante ativo e que a performance do clube está em baixa. A primeira solução é, sempre, trocar o comando do clube. É a solução mais rápida, fácil e, por que não, a mais pedida por torcedores e conselheiros.

O planejamento do futebol, no mundo inteiro, é baseado em cima dos resultados da equipe, já que o ambiente do clube se altera, e muito, de acordo com o desempenho. Não tem como dissociar uma coisa da outra. E quem executa a performance, boa ou ruim, são os jogadores. Se os jogadores vão bem, o clube vai bem. Se os jogadores vão mal, o clube vai mal, também.

Naturalmente, os jogadores ganham um grande poder de barganha em relação ao clube. Por conta do formato da indústria do futebol brasileiro, baseada na transferência de atletas, esse poder fica ainda maior, uma vez que as cláusulas de rescisão são altas e o clube também depende dos jogadores não só por conta da performance, mas também por conta de futuras receitas. O poder de barganha do jogador, dessa forma, fica ainda maior. Sendo assim, o clube fica quase que refém dos seus atletas. Ele funciona, essencialmente, como uma instituição que visa atender os interesses de seus jogadores, porque, caso esses não sejam atendidos, a performance do clube corre o risco de ser minimizada, e a receita futura de transferências acaba ficando comprometida.

Eis, portanto, uma das razões pelas quais a rotatividade de técnicos no Brasil é alta. Técnico é só um, e a rescisão não é tão alta quanto a de atletas, uma vez que ninguém ganha o direito sobre transferência de técnicos. Ainda não, pelo menos. Isso faz com que os jogadores tenham muito poder sobre o clube de futebol, o que significa dizer que a instituição tem um foco em atender o interesse dos seus trabalhadores, e não o contrário, como seria o natural, em uma organização qualquer, ao manter o técnico e afastar jogadores, essa lógica é invertida. O poder de barganha passa a ser do clube, e a lógica do interesse se inverte. Quem precisa atender os objetivos passam a ser os jogadores, aí sim criando um ciclo produtivo mais apropriado.

Para manter um técnico é preciso coragem e, principalmente, força política dentro do clube. Aparentemente o Internacional tem os dois. Resta saber só se ambos resistem a mais alguns eventuais resultados negativos.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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Razão e sensibilidade

Vivemos num mundo de excessos atualmente.

Tudo nos remete ao advérbio “muito”: comer muito rápido; o trânsito é muito lento; muita informação; muito futebol na TV; muita violência nas cidades e nos estádios; muita gente no mundo; muito trabalho; muita crise econômica.

Sobra pouco espaço para refletirmos sobre o “pouco” de que necessitamos para levar nossa existência adiante.

O “pouco” que podemos dedicar à nossa vida – e também a de outros ao nosso redor, como família, amigos e colegas de trabalho – faz muita diferença. Basta olhar com atenção e por em prática o conceito.

Nossos referenciais de qualidade foram deturpados, uma vez que, num brevíssimo espaço de tempo, ligou-se o turbo para que fôssemos impulsionados a viver tudo ao mesmo tempo, agora. Como se tivéssemos pouco tempo para experimentar o bem-viver.

Quando mais novo, lembro que a ânsia de viver as experiências existia. Mas tenho a sensação de que era mais sadia, havia tempo para aprender sobre ela.

Naquela época, comprava-se um disco da banda favorita e se escutava todo, para depois julgar se aquilo era bom ou ruim. Enfim, mais razão e mais sensibilidade para entender os sabores e dissabores do que fazíamos ou experimentávamos.

Hoje, tudo é efêmero. Inclusive nossas percepções sobre a vida, ao se tomar como base o futebol. Hoje, julga-se como um grande time, um grande jogador, um grande clube, uma grande pessoa. Amanhã, não mais.

Não à toa, existe um movimento organizado em torno do conceito “slow” – devagar. Comer mais devagar, fazer tudo na vida mais devagar, porém, melhor. 

Pude perceber que necessitamos de menos e melhor, não mais e pior, após ter passado uma semana em contato com a energia pura de crianças dedicadas ao futebol num acampamento temático.

Ali, a ideia do “menos é mais” faz absoluto sucesso, pois funciona quase que como um refúgio dos excessos mencionados a que se sujeitam todos os envolvidos – crianças e adultos.

Ainda mais nítida, resta a ideia de que buscamos paz – de diferentes formas, mas, todos, buscamos.

Na coluna de hoje, escrevo menos. Mas quero escrever melhor a cada dia.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br