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A integridade do esporte e a verdade desportiva

Caros amigos da Universidade do Futebol,

Mais uma vez nos deparamos com rumores de manipulação de resultados no futebol, com a discussão gerada em torno da classificação do Santos Futebol Clube para as semifinais do campeonato paulista.

Não vamos nesta coluna discutir se houve ou não qualquer ato, consumado ou tentado, visando a alteração da verdade desportiva nas últimas partidas do campeonato paulista de 2009, de modo a promover o Santos à fase de semifinais. Até porque entendo não haver indícios suficientes até o momento para que se levante seriamente a suspeita.

Entretanto, é preciso atentar para a questão da credibilidade do futebol profissional no Brasil. Historicamente, temos visto um processo de “limpeza” da imagem do futebol, que sempre foi associada à má administração, calote fiscal, pouca transparência nas finanças, etc. Aliada a essa imagem, temos hoje uma crise mundial basicamente causada pela perda da credibilidade na economia mundial, fulcrada em atos de ganância e pouca responsabilidade.

Nesse processo de “limpeza”, as atividades preventivas são fundamentais para evitar-se que, não só sejam afastadas atitudes indesejáveis, como também sejam erradicadas suspeitas de irregularidades infundadas.

Em outras palavras, temos que elevar o negócio do futebol a um nível de credibilidade tal, para que qualquer rumor sobre manipulação de jogos seja encarado, de início, como improvável.

No âmbito dessas medidas preventivas, podemos mencionar um maior controle para os padrões irregulares na loteria esportiva, por exemplo, e um maior monitoramento dos diversos agentes envolvidos no esporte, tais como dirigentes, árbitros, jogadores, etc.

Isso somente é possível, evidentemente, através de uma mobilização e cooperação entre organizações desportivas e autoridades públicas (que hoje já existe predominantemente na fase de reação a um ato consumado, mas que pode ainda avançar muito no que diz respeito à prevenção).

Todas essas atividades deveriam ser abertas ao público em geral, dando ao processo um caráter de transparência necessário, e propiciando um grande alcance de repercussão, tanto para a mídia, como para potenciais investidores, apoiadores e patrocinadores.

Só assim conseguiremos efetivamente aumentar o valor do produto futebol, e atrair um maior número de investidores, processo fundamental para garantir uma continuidade da viabilidade econômica dos clubes.

A partir de então, teremos de volta o princípio fundamental do direito aplicado ao futebol, de acordo com o qual todos são inocentes até que se prove o contrário, respeitando-se o princípio do devido processo legal.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

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Mudança de paradigmas

Eu ia escrever um artigo sobre os 20 anos da tragédia de Hillsborough. Imagino até que você estivesse esperando que eu escrevesse sobre isso.

Eu juro que eu ia. Tava tudo na cabeça. Mas deixei pra escrever de noite. E tudo mudou.

Acho que Hillsborough pode esperar. A história não irá mudar. Tem assunto mais interessante para se discutir.

Participei, ontem, de um debate sobre a Copa de 2014, promovido pelo Jornal Gazeta do Povo, aqui de Curitiba. No meio do debate, me veio à cabeça que talvez estejamos enxergando tudo pelo lado errado da coisa. Foi conversado muito sobre a infra-estrutura da Copa. Aliás, todos falam muito sobre as condições estruturais para a Copa. Esse, porém, é o menor dos desafios para o Brasil.

Muito mais complicado do que resolver os gargalos urbanos brasileiros, está em mudar a atitude dos serviços prestados no Brasil. Eu fiquei com isso na cabeça durante o debate. Quando estava assistindo o Jornal da Globo, em casa, tudo ficou mais evidente.

A reportagem sobre o tratamento ofertado pelos seguranças do sistema de trens do Rio de Janeiro foi exemplar. Mostra exatamente como muitos serviços no Brasil não estão preparados para tratar as pessoas com civilidade. E não é só no trem, tampouco apenas no futebol. É generalizado. E isso não é uma coisa que muda de um dia para o outro.

Mais difícil do que construir metrô do centro das cidades até o aeroporto será fazer com que a cultura dos serviços públicos e, por que não, privados, no Brasil, se transforme.

Podemos ter os melhores estádios do mundo. O trânsito pode ser excelente. Mas pode ter certeza de que, se algum torcedor estrangeiro for chicoteado para caber no metrô, todo o investimento feito pela Copa será jogado no lixo.

Ficaremos parecendo uma nação de selvagens. Resta saber se isso será uma mentira.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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Futebol em banda larga

Que navegar na internet é uma realidade na vida de boa parte dos indivíduos no Brasil e no mundo não é segredo nenhum.

Com efeito, o uso desta ferramenta/ meio de comunicação global tem crescido vertiginosamente, especialmente, a partir do desenvolvimento de novas tecnologias e do aumento da base de infra-estrutura, para que o conteúdo informativo da web chegue ao destinatário final.

No Brasil, 80% do acesso residencial à internet é realizado na chamada banda larga – meio de alto tráfego de informações no ambiente virtual das telecomunicações.

O país ainda sofre com limitações e problemas estruturais para uma verdadeira expansão e, porque não, democratização do acesso à rede mundial. Desde ataques de hackers aos servidores das operadoras de telefonia e dos provedores até a precariedade da rede de telefonia antiga (fios de cobre), e a falta de capilaridade das redes instaladas contribuem para esse quadro.

Por outro lado, iniciativas tecnológicas da engenharia surgem como aliadas do país rumo à inclusão digital. Wi-Fi, Wi-Max e 3G em celulares e computadores, bem como a recente aprovação da Anatel para exploração da internet via rede elétrica (presente em 99% do território nacional) possibilitam o desenvolvimento de um novo mercado virtual capaz de vivenciar taxas exponenciais de crescimento.

A descrição do panorama geral do ambiente web no Brasil, acima, evidencia uma importante faixa de transição para todos aqueles que realizam negócios por aqui. Inclusive os clubes de futebol.

O chamado e-commerce está a pleno vapor. Vale dizer que a internet já é um palco auspicioso para que os clubes a tenham como fonte de receitas a explorar.

Em especial, os clubes podem desenvolver canais de conteúdo exclusivo, pois a força de suas marcas, aliadas ao contingente de admiradores/ torcedores/ consumidores, e contando com uma plataforma tecnológica apropriada, possibilitará, por exemplo, gerar receitas diretas – por meio de assinaturas – e indiretas – via patrocínios lastreados pelo aumento contínuo de acessos. Sem contar com os efeitos colaterais positivos como, por exemplo, o apelo dos fãs por conteúdo de telefonia móvel gerado a partir da base da web TV.

Logicamente, uma questão delicada a contornar (renegociar) é a cessão de direitos às TV para exploração do conteúdo das competições, cujos atuais acordos determinam esta salvaguarda em favor das emissoras. O apelo para transmissões ao vivo dos jogos teria grande penetração junto aos consumidores. 

A WEB TV dos clubes delineia-se pois como uma inteligente plataforma de comunicação entre o clube e sua base de apoio, como geração de receitas, como ferramenta para angariar novos sócios, para valorizar os acordos comerciais com os patrocinadores e, sobretudo, para ampliar o relacionamento entre os stakeholders que orbitam ao seu redor.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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A despedida do Fenômeno

Nem lhes conto! Um sonho terrível tirou-me o sono. Sufocava! Levantei-me e saí à procura de ar puro fora da caverna, era madrugada, o silêncio pesava, nem uma vivalma àquela hora, exceto Aurora, que, à minha direita, fitava o céu, de tal maneira absorta, que sequer me percebeu. A coruja admirava Dalva, a estrela, Vênus para alguns. Aguardei os clarões do sol apagarem o brilho da estrela da manhã, e chamei a atenção de Aurora; toquei-lhe o ombro. Ela, que não dormia, acordou. E disse:
 
– Pensava no Ronaldo, no que aconteceu naquele jogo do Corinthians com o Palmeiras. Inacreditável! Será o rapaz uma Fênix ressurgida? Três cirurgias depois, fintas, passes, bola na trave, e aquele gol, logo de cabeça, que não é seu forte. Mais parecia um programa do canal Z33, da TV da minha toca, aquele que só mostra o que a gente quer ver. Deu-me a sensação, quando ele pegava na bola, de estar misturando fantasia com realidade. Terá sido apenas um suspiro do Fenômeno, um raro momento em que ele acordou de um sonho? Ou posso continuar sonhando?
 
E Aurora falava como se olhasse, dentro dela, num écran imaginário, Ronaldo e suas obras, pintadas nas telas verdes do mundo e gravadas para sempre na lembrança das pessoas. Assim é o futebol, dizia ela, arte para muitos, ricos e pobres, milionários e miseráveis; obras efêmeras, performances, pincéis de pernas suadas, bolas, corridas, carrinhos e canelas quebradas, saltos, composições inimagináveis até que surjam. Pelé e Garrincha, Ronaldo e Maradona, Monet, Matisse, Picasso e Gauguin, com a diferença que os da bola todo o povo os entende. Em seguida ela se calou um instante, respirou fundo, e disse:
 
– Eu gostaria que a gente promovesse uma despedida para o Ronaldo. Que ele se despeça, que nunca mais participe de jogo algum, que só reste a imagem do rei, do artista, a marca do raro jogador que sempre foi.  
 
Interrompi-a:
 
– Como faríamos isso, Aurora? Ele jamais aceitaria, muito menos o Corinthians ou a Nike.
 
Não importa – ela disse – com a ajuda de Oto e seus milhares de amigos morcegos, espalharíamos convites pelo país inteiro, anunciando que seria aqui, na entrada da caverna, no momento exato do pôr-do-sol, a cerimônia em que o craque daria seu derradeiro chute na bola. Faríamos como se fosse algo consolidado, irreversível, de forma que não seria possível ao Ronaldo ou a quem quer que fosse recuar.
 
– Discordo, Aurora, mesmo que conseguíssemos. Ronaldo deveria ter feito isso há quase sete anos, logo após a Copa de 2002. Quem sabe o desastre de 2006 não tivesse acontecido.
 
– Ainda que tardia, quero vê-lo se despedir dos gramados – insistiu a coruja.
 
– Você está impressionada, como todo mundo, pelo que aconteceu naquele clássico contra o Palmeiras – eu disse – mas aquilo foi um suspiro, e não mais. De resto, qualquer coisa que ele faça em campo, daqui por diante, por mais normal que seja, será proclamada pelos arautos da bola como façanha heróica… não mais um homem, mas um semi-deus, um titã.
 
– Sim, eu temo por ele, pelo que venha a acontecer daqui por diante. Não quero vê-lo como a última chama da vela que se extingue, aquela que cresce subitamente antes de se apagar para sempre – gemeu Aurora.
 
Prossegui com meu arsenal de razões contra os sentimentos da coruja.
 
– Você sabe como ele se excede; com as mulheres, com os carros, com a festa. Como se nada tivesse valor.
 
– Sim, Bernardo, Ronaldo é em excesso. Ou você queria que ele se excedesse só no futebol? Há homens e mulheres que são assim, e você os conhece na música, no cinema, no teatro, onde são todos perdoados. O futebol não é feito só de bons moços.
 
Meus argumentos eram vãos. Enfim, que são as idéias ante as emoções! Esgrimi meus últimos cartuchos. Ronaldo era só um garoto propaganda, um outdoor ambulante, um menino bobo que calçava chuteiras da Nike e que vendia qualquer coisa que mencionasse, porque seu número nove estava nas camisas dos meninos bobos do mundo inteiro, porque seus dentes à mostra ficaram na lembrança das pessoas bobas de todos os povos, e porque seu retrato estava nas paredes dos barracos, das mansões, e dos mosteiros tibetanos.
 
– Vamos perguntar ao Oto – sugeri, confiando que meu amigo morcego poderia ficar ao meu lado – quem sabe ele, que não é corintiano, muito menos palmeirense, possa nos ajudar.
 
Não foi preciso. O morcego ouvia atentamente nossa conversa, pendurado de cabeça para baixo no teto da entrada da caverna. Assim que Aurora se aproximou, ele fugiu alvoroçado. Alcancei-o pouco depois, mas já encontrei a confusão formada. Arnaldo, o bagre cego, vestia uma camisa amarela número nove e cabriolava nas águas do poço. Uma multidão de morceguinhos, liderados por Oto, meu morcego confidente, e traidor, de cabeça para baixo gritava em uníssono: Ronaldo, Ronaldo… Voltei à companhia de Aurora.
 
– Vamos fazer a despedida – falei.
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Geração perdida

Adriano decidiu parar. Numa atitude inusitada, talvez uma das mais corajosas já vistas nos últimos tempos, o craque da Internazionale e da seleção brasileira afirmou que “vai dar um tempo” na carreira como jogador de futebol, apesar de ter só 27 anos de idade.

Como pode um cara jovem, com alguns milhões na conta bancária, atleta com grande sucesso profissional, mais de uma vez artilheiro do Campeonato Italiano, campeão de Copas Américas e das Confederações pela seleção brasileira, dizer que quer “dar um tempo”?

“Num dia eu era apenas um garoto da Vila Cruzeiro, aí virei o Adriano e depois o Imperador. Tudo isso foi demais para mim”.

Essa foi uma das frases para explicar o inexplicável. Mas que deixa claro, nas entrelinhas, o quanto é difícil uma pessoa estar preparada para ser um jogador de futebol de sucesso.

Adriano não resistiu ao baque e teve a coragem de tornar público esse sentimento. 

Massacre da mídia, assédio de boas e más pessoas, estresse para manter o alto rendimento dentro de campo. Tudo isso ajuda para um jogador “pirar” quando começa a se tornar famoso. Para piorar, faltou a Adriano o que falta à maioria das pessoas, ainda mais quando pensamos em jogador de futebol vindo de uma realidade de muita pobreza: amparo familiar.

A falta de estrutura familiar é um problema cada vez maior no mundo todo. Aquela família bem constituída, com força para superar grandes traumas, é rara de se encontrar. É um problema social, fruto de uma pretensa “evolução” do relacionamento humano, em que a individualidade se transforma muitas vezes em sinônimo de dificuldade de se viver como casal, com filhos, etc.

Adriano sofreu pela falta de um amparo familiar nesse vertiginoso crescimento de sua carreira. 

Num dia garoto da favela que sonhava em jogar pelo Flamengo. No outro, após poucos meses no Rubro Negro, o Imperador da Itália, com toda a mídia em cima, os dólares no bolso e os 20 e poucos anos para curtir tudo isso.

E o futebol? 

A cada gol, mais farra. 

E a evolução da carreira?

A cada farra, menos gols.

E por aí Adriano foi deixando de lado os gols para se envolver nas polêmicas. Tornou-se alvo fácil dos fãs e da mídia. Descuidou-se, deixou-se fotografar em festas, caiu no arrependimento, voltou ao Brasil, jogou no São Paulo e já voltou para a Itália. Onde a rotina de farra voltou a tirar o foco do grande atleta que um dia tinha sido.

Adriano não teve, em nenhum momento de sua meteórica ascensão, um psicólogo a tiracolo, que observasse o seu comportamento e suas reações a tantas mudanças. Não é “tratamento”, muito menos “doença”. É simplesmente amparo para uma das mais desgastantes profissões que existem, que é a do atleta profissional, ainda mais do futebol.

Adriano está se tornando o ícone de uma geração perdida. Que pode ainda envolver Robinho e Ronaldinho, outros craques da bola nos pés, mas que pelo visto estão perdendo o controle do que mais sabiam fazer por conta da mudança brusca que é a vida da pessoa a partir do sucesso de mídia e de público.

Que o ato de Adriano encoraje o futebol a entender a importância da psicologia no seu dia-a-dia. E que tente dar à mídia mais cérebro para compreender o seu papel na formação e, cada vez mais, na destruição de ídolos.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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Futebol: um jogo também de ocupação de espaço

Com 22 jogadores em um campo e medidas que em média representam aproximadamente 7000 m2 de terreno de jogo, a estruturação inteligente do espaço para criar condições favoráveis durante uma partida e futebol é necessidade básica para bom desenvolvimento de uma equipe.

Diversos estudiosos e treinadores de futebol apontam caminhos, no que diz respeito a ocupação do espaço, para que ela (a ocupação) ocorra de forma satisfatória. Muitos deles comungam idéias que se completam, mas evidenciam também uma emergente confusão em estabelecer critérios para determinação do que efetivamente apontam como conceitos.

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Isso quer dizer que algumas das idéias e critérios utilizados na intenção de promover ocupações de espaço mais inteligentes por jogadores e equipes, se confundem em nortear por vezes regras de ação e por vezes organização de estruturas no espaço.

A todo o tempo durante jogos de futebol jogadores e equipes necessitam tomar decisões. Como ele (o futebol) é um jogo de estratégias simultâneas, é preciso que cada um de seus dos jogadores possam ser orientados a todo instante por uma mesma leitura coletiva de jogo.

No que diz respeito a ocupação dos espaços é necessário que existam referências que possam ser identificadas pelos jogadores e que norteiem suas ações (ao mesmo tempo e o tempo todo). Essas referências devem se complementar, ser subordinadas a lógica do jogo e subordinar as estratégias de treinadores e equipes.

Nessa perspectiva, algumas referências podem ser apontadas como princípios estruturais de ataque, princípios estruturais de defesa, princípios estruturais de transição ofensiva e princípios estruturais de transição defensiva.

Cada um desses princípios estruturais serve como orientação para a ocupação do jogo em seus quatro grandes momentos (que são indissociáveis, e aparecem separados aqui apenas por questões didáticas).

Os princípios estruturais de ataque são aqueles que norteiam a equipe na estruturação da ocupação do espaço no campo de jogo quando ela ataca. Eles independem da plataforma tática utilizada pela equipe no jogo para existir, mas interagem diretamente com ela.

Eles são:

1)           amplitude, ou abertura;
2)           penetração;
3)           profundidade;
4)           mobilidade;
5)           apoio;
6)           ultrapassagem
7)           compactação ofensiva

E se os princípios estruturais de ataque são aqueles que norteiam a equipe na estruturação da ocupação do espaço de jogo quando ela ataca, os princípios estruturais de defesa se referem àqueles que a norteiam estruturalmente quando ela defende.

Os princípios estruturais de defesa são:

1)           retardamento, desaceleração ou temporização;
2)           cobertura;
3)           equilíbrio;
4)           basculação ou flutuação;
5)           recuperação;
6)           compactação;
7)           bloco;
8)           direcionamento.

Os princípios estruturais de transição se referem àqueles que norteiam estruturalmente a equipe quando ela transiciona da fase de ataque para a fase de defesa, ou da fase de defesa para a fase de ataque.

Quando se refere a transição defesa-ataque, diz-se princípios estruturais de transição ofensiva. Quando se refere a transição ataque-defesa, diz-se princípios estruturais de transição defensiva.

Assim como os princípios estruturais de ataque e os de defesa, os princípios estruturais de transição se relacionam e interagem com as plataformas táticas das equipes, mas independem quais sejam elas, para existir.

Os princípios estruturais de transição ofensiva são:

1)           densidade ofensiva, ou de ataque;
2)           balanço ofensivo, ou de ataque;
3)           proporção ou equilíbrio vertical de ataque.

Os princípios estruturais de transição defensiva são:

1)           densidade defensiva, ou de defesa;
2)           balanço defensivo, ou de defesa;
3)           proporção ou equilíbrio vertical de defesa.

É possível encontrar nomes diferentes para cada um desses princípios e até mesmo sub-divisões dos mesmos, de acordo com fontes bibliográficas distintas.

O importante, independente de nomes (ou desse ou aquele conceito), é que treinadores, jogadores e equipes tenham efetivamente referências norteadoras da ocupação do espaço e que elas se complementem e possam propiciar um jogo mais consistente, inteligente, enfim, mais elaborado.

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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C-40, por favor

 

O conflito apenas evidencia o funcionamento do macro-sistema administrativo do futebol brasileiro. Ao contrário dos mercados mais desenvolvidos e regulamentados, aqui ninguém manda mais do que a federação.

Isso não é algo necessariamente ruim, mas fica claro que os clubes, de um modo geral, tem pouco poder de barganha frente à confederação e, consequentemente, às federações.

Quando isso acontece, as políticas traçadas para o desenvolvimento do mercado interno ficam fundamentadas em variáveis menos racionais, o que pode ser significativamente prejudicial em termos financeiros.

É fato que, no Brasil, as ligas não cumprem com o seu potencial. Também pudera. A Liga Brasileira deve ser uma das poucas no mundo que possui membros fixos dentro de um sistema aberto (com troca de clubes entre divisões). Normalmente, uma liga fica responsável por uma ou duas divisões, e os membros são aqueles clubes que fazem parte desse campeonato. Quando um clube muda para uma divisão fora da abrangência da liga, esse clube é automaticamente substituído pelo clube que vier a fazer parte do campeonato.

No Brasil, não. Tanto a FBA quanto o C13 possuem membros fixos, independente do campeonato que ele esteja disputando. Isso manifesta uma ação baseada em critérios não racionais e dificulta o cumprimento de outras atribuições da liga, como a criação e supervisão de premissas comerciais e procedimentos administrativos.

A idéia da criação de um C-40, como foi publicamente cogitado, parece bastante interessante. Naturalmente, o ideal é que os clubes presentes nessa entidade possuam o mesmo grau de importância em termos políticos e comerciais.

A tendência é que isso não aconteça.

E que ninguém dê muita bola para isso.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

 

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Copa do Mundo de 2014 – Lição de cidadania

O futebol será o catalisador de uma belíssima iniciativa visando a inclusão de pessoas que passaram parte de suas vidas à margem da sociedade.

É o que promete o acordo firmado entre Fifa, CBF e Conselho Nacional de Justiça, no último dia 3 de abril.

Basicamente, ex-presidiários se juntarão ao contingente de trabalhadores envolvidos na execução de obras públicas referentes à realização da Copa do Mundo em 2014 no Brasil. 

Gilmar Mendes, que preside o CNJ e também o Supremo Tribunal Federal, destacou esta importante medida de ressocialização de pessoas que já cumpriram com suas obrigações perante o Judiciário em todo o país. 

O Ministro-Presidente também fez questão de mencionar o exemplo dado pela casa que comanda, na qual cerca de 50 ex-apenados fazem parte do seu rol de funcionários, sendo dois deles em seu gabinete. Fruto de um programa lançado em 2008, o “Começar de Novo”.

Já se tinha conhecimento de iniciativas de envolvimento de detentos nos presídios brasileiros na confecção de bolas de futebol, especialmente voltada para projetos sociais esportivos. No Paquistão, maior produtor mundial de bolas oficiais de futebol, os apenados formam a maioria do quadro de pessoas envolvidas na produção deste artigo esportivo, sendo até mesmo exportados para o mundo desenvolvido.

A idéia é extremamente bem-vinda num país como o Brasil, carente de projetos de inclusão social, não só de ex-presidiários, como também portadores de necessidades especiais e idosos. Ainda mais porque ultrapassa os muros dos cárceres abarrotados de pessoas que vivem em condições desumanas.  

Além disso, a iniciativa privada torce o nariz para ex-detentos. Questão realmente delicada de se contornar no mercado de trabalho competitivo. 

Se bem conduzido o projeto pelo poder público brasileiro, CBF e Fifa, inclusive no período pós-Copa 2014, envolvendo a gestão do legado esportivo para o país, teremos um grande avanço social, com o futebol como alavanca desta verdadeira ação afirmativa de igualdade de oportunidade para todos.

Seguramente, o número de pessoas beneficiadas no país é significativo – e isso representa, infelizmente, o grande universo da população egressa dos presídios e penitenciárias.

Méritos para o governo brasileiro se conseguir canalizar parte das verbas do PAC destinada às obras de infra-estrutura e melhoria das sedes da Copa de 2014 para consolidar esta idéia e, porque não, esperar que seja encampada pelo Ministério do Esporte na construção, reforma e manutenção de praças esportivas espalhadas pelo país.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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Teoria da Tecnologia Esportiva I: conectando as ideias

 

Na tentativa de abordar o tema ‘Teoria da Tecnologia Esportiva’, alguns olhares já foram estabelecidos e discutidos nesta coluna e também por outros autores. Portanto, o objetivo nessa seqüência é organizar e agrupar algumas ideias de forma sistemática para que possam contribuir com aqueles que pretendem fazer do domínio da tecnologia um diferencial de atuação e intervenção, compreendendo que não basta saber usar um aparelho, é preciso saber como, onde e quando.

Num primeiro momento, considero crucial discutir o que é ciência e tecnologia. Tornar evidente, ou ainda, o mais explicito possível os conceitos e possibilidades para que o profissional que deseja compreender e, o mais importante, transferir essas idéias para a sua atividade prática, possa identificar os limites, definir suas expectativas e fazer uso tanto da ciência como da tecnologia de forma consciente, coerente e objetiva.

No esporte em geral, e mais evidentemente no futebol, há uma tendência em se justificar algumas coisas pelo inexplicável ou sobrenatural, às vezes acentuada pela paixão ou pelo significado que a modalidade adquiriu no Brasil, afinal, para nós, o futebol é um patrimônio cultural. Talvez por isso, crônicas apaixonadas como as de Nelson Rodrigues tenham se tornado uma representação da verdade, como o popular ‘Sobrenatural de Almeida’, na qual é invocado o místico que circunda e muitas vezes ‘explica’ o futebol, e acaba constituindo a verdade de muitos dos profissionais da bola.

Como justificar a ciência a serviço do futebol se aqueles que o fazem, seja no âmbito da prática, seja no âmbito do espetáculo, acreditam mais no tal do Almeida do que nos fatos. A tão invocada imprevisibilidade do futebol é tida como uma deusa e coloca o futebol acima de qualquer estudo e, para tanto, afasta com todas as forças a ciência.

Ora, assim é possível compreender a resistência histórica do futebol em relação a ciência. Muitos apontam a religião como grande rival da ciência. Ciência essa que tenta provar ou negar coisas que a religião perpetua e explica. Mas, com certeza, ambas estão muito próximas, tanto que para muitos, o desejo de provar ou negar a existência de Deus é o que os motiva por anos e décadas de estudos.

Voltando ao esporte… Se o futebol é classificado as vezes como religião e tem a ‘deusa imprevisibilidade’ como grande marca, como querer que a ciência, ‘rival’ da religião (lembro que não é esta a opinião do autor em relação ao distanciamento religião/ciência) possa ganhar espaço?

É imprescindível compreender o que é ciência para superar esses preconceitos, mas o amigo leitor pode ficar tranqüilo que não pretendo cansá-lo por demais com isso.

O conhecimento científico não é estático. Está em movimento e suas verdades prevalecem até serem falseadas. Mas o que isso significa?

Ser falseada é ser colocada à prova. Quando chega a uma definição ou verdade, a ciência o faz com base em procedimentos rigorosos e que aprofundam o conhecimento pré-existente sobre os fatos. E, até que novos estudos tragam novas constatações, as verdades prevalecem. E nisso não há demérito nenhum, tampouco espaço para melindres e vaidades, afinal, é um processo natural de evolução dos processos. Cientistas estão acostumados (ou deveriam) a isso, trabalham para comprovar ou negar hipóteses ou verdades existentes.

A ciência busca explicações e os significados dessas explicações. Essa busca permite compreender melhor os fatos e assim interpretar de forma mais incisiva, adequando os usos e aplicações conforme as necessidades de quem está imerso no futebol.

A ciência pode e deve fazer parte do futebol, aliás, ela já faz em muitos segmentos, em alguns, no entanto, prevalecem rusgas e verdades que, com o passar do tempo  e dos fatos, serão superados.

A tecnologia casa perfeitamente com os preceitos da ciência e o profissional deve compreender que nada disso é teoria. Como fazer isso? Compreendendo a ‘Teoria da Tecnologia Esportiva’ para tornar sua prática, fruto de conhecimento e experiência.

Continua…

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

 

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O universitário José Mourinho

No dia 23 de março de 2009, na clara luminosidade do meio da manhã, dirigi-me à Faculdade de Motricidade Humana (Lisboa, Portugal), para assistir à cerimonia de atribuição do grau de Doutor “honoris causa” ao Dr. José Mourinho, meu aluno, há 28 anos, no primeiro ano da Universidade.
 
Já dentro das instalações da Faculdade, perguntei onde poderia encontrá-lo. Apontaram-me o lugar certo, mas acrescentaram que se encontrava incomunicável. Mesmo assim, caminhei vagarosamente, na companhia do Mestre Luís Lourenço (amigo, quase irmão do the special one)e perguntei se estava, naquela sala, o José Mourinho. Um rapagão de cabelo loiro confirmou a presença, num convicto aceno de cabeça. Parecia um segurança e a sua imperturbabilidade era um modelo de controle profissional das emoções. Mas desembaraçou-me de hesitações e questionou-me: “E qual o seu nome?”. Não perdi tempo e respondi, imediatamente: o Dr. José Mourinho conhece-me por Manuel Sérgio. Mal ouviu o meu nome, exclamou: “Professor Manuel Sérgio? O mister fala-nos tanto de si! É evidente que pode entrar! Mas antes deixe-me abraçá-lo! O mister nutre por si grande admiração”.
 
Passei eu a inquiridor: E quem é você? E ele ainda surpreso pela minha inopinada presença: “Chamo-me Luigi Crippa. Sou o press office do Internazionale de Milão. Afinal, não era segurança, mas um jornalista ao serviço do Inter. E, abrindo a porta, anunciou: “Mister, o professor Manuel Sérgio!“. E o José Mourinho, com uma amabilidade que nunca abriu fissuras de azedume e desconfiança, em relação ao seu velho professor, saudou-me de braços abertos: “Professor, venha daí um abraço“. A seu lado, de olhos fixos no Luís Lourenço e em mim, o empresário Jorge Mendes, o pai e o sogro de José Mourinho…
 
Poderá perguntar-se (e alguns já o têm feito) por que me distingue ele, de entre todos os seus professores a mim que nada sei de treino desportivo e nunca fui treinador de futebol? Demais, no que ao futebol diz respeito, sou eu o discípulo e ele o Mestre! A resposta só pode ser esta: foi de mim que ele escutou, pela vez primeira, que o esporte não era uma atividade física, mas uma atividade humana; que a metodologia a empregar no esporte (e portanto no futebol) era a específica das ciências humanas; que o treino deveria ser simultaneamente físico-técnico-táctico-psicológico; que, para saber de futebol, era preciso saber mais do que futebol, ou seja, que só, com verdadeira cultura desportiva, o futebol se compreende; que é preciso ter em conta a pluralidade dos modos de conhecimento, procurando encontrar o porquê das vitórias de alguns treinadores, sem grandes habilitações acadêmicas.
 
Está aqui o segredo de José Mourinho: ele sabe que é especialista numa nova ciência humana e leva até o fim esta sua convicção. A esmagadora maioria dos treinadores não o sabe. E daí a diferença entre eles e o Doutor José Mourinho! Depois, é um homem de coragem e perspicácia invulgares, o que completa admiravelmente o estudo e a reflexão. O doutoramento “honoris causa“, outorgado pela Universidade Técnica de Lisboa, diz-nos que, desta forma: o José Mourinho é um verdadeiro homem de ciência e um universitário exemplar.
 
 
*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.
 
Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.
 
Esse texto foi mantido em seu formato original, escrito na língua portuguesa, de Portugal
 
Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br
 
Clique aqui para ler outras colunas de Manuel Sérgio.

Leia mais:
Quem é José Mourinho
A ‘descoberta guiada’ de José Mourinho