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De novo, a violência

Novamente atos de violência dos torcedores permeiam os noticiários esportivos. As cenas de violências protagonizadas nos clássicos de Minas Gerais (Atlético e Cruzeiro) e São Paulo (São Paulo e Corinthians).

Em Minas Gerais, no estádio independência, a torcida do Cruzeiro arremessou objetos e até um fogo de artifício contra a torcida do rival. Já no Morumbi, a torcida tricolor chegou às vias de fato com a polícia.

Como sempre tem acontecido, após incidentes de violência nos estádios de futebol o Poder Público promete medidas enérgicas e o Ministério Público ameaça a existência das torcidas organizadas.

A sensação é de que o Poder Público busque dar uma resposta rápida à sociedade sem preocupar-se com sua efetividade. Impedir bebidas alcoólicas ou extinguir as torcidas organizadas não fará cessar a violência nos estádios de futebol.

O Estatuto do Torcedor estabelece medidas prevendo proibição de se frequentar arenas esportivas e até mesmo prisão, mas ainda reina a impunidade.

Ademais, as forças policiais não são treinadas adequadamente para lidar em grandes eventos esportivos e acabam não tendo aptidão para lidar com o tumulto e com a violência.

Além disso, apesar das arenas modernas e da melhora na infraestrutura, o tratamento ao torcedor brasileiro ainda está muito aquém do ideal.

A Justiça Desportiva que havia aplicado pena rigorosa ao Vasco e ao Corinthians, após violência no estádio Mané Garrincha, acabou abrandando punições ao Cruzeiro (fogos na partida contra o Botafogo) e ao ABC (violência e tumulto no Frasqueirão em partida contra o Palmeiras).

A soma da impunidade (de torcedores e clubes), da falta de preparo dos policiais e da precariedade da infraestrutura dos estádios (e do tratamento aos torcedores) forma um perigoso coquetel que traz como resultado a violência.

O fato é que as autoridades brasileiras não precisam "inventar a roda", basta adequarem medidas de sucesso utilizadas na Inglaterra, Espanha, Itália e Estados Unidos para dizimar a violência do futebol brasileiro.

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Movimentos do futebol

Legitimidade, poder e urgência. Princípios bases para o estudo e análise de stakeholders sobre organismos sociais. No futebol (e no esporte, de uma maneira geral), dos poucos stakeholders que conseguem reunir os três fatores em conjunto são os atletas, artistas do espetáculo.

Todas as vezes que estes perceberam sua força e poder, o resultado é uma ampla transformação do formato de operação e tratamento que se tinha perante as entregas do espetáculo e as relações contratuais e formais com equipes, ligas e comercialização de direitos.

Caso emblemático disto, no futebol, foi o do caso Bosman, cujo resultado transformou completamente as relações contratuais entre atletas e clubes no mundo inteiro.

Dito isto, a união de atletas no Brasil que começa a se consolidar nas últimas semanas sinaliza cenários de mudança sólida e de fato transformadora para o futebol do país.

O "Bom Senso Futebol Clube" tem um sentido positivo em seu formato e reivindicações, preocupando-se com as entregas de um melhor espetáculo para o torcedor e a mídia, procurando, acima de tudo, proteger os verdadeiros astros do esporte – coisa que os dirigentes ainda não perceberam.

Importa, ainda, que as reivindicações passem a ter cada vez mais respaldo técnico – do contrário, como em muitos movimentos tidos como revolucionários que fracassaram, perde-se o foco ou há um exagero na dose e na medida da transformação.

As mudanças têm que ocorrer e irão ocorrer, cada uma a seu tempo. A boa solução é que a iniciativa parta realmente de um lado que consiga ter poder de barganha com as lideranças do segmento.

E, que acima de tudo, foque em projetos consistentes, pensando em um desenvolvimento gradativo, sem que haja necessariamente uma ruptura drástica que dê margem para a desvalorização do movimento.

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O que a NBA ensina e o que a NBA tem para aprender

A HSBC Arena, no Rio de Janeiro, sediou no último sábado o primeiro jogo da NBA na América do Sul em todos os tempos. O espaço recebeu um confronto entre Washington Wizards e Chicago Bulls, válido pela pré-temporada da liga profissional de basquete dos Estados Unidos, e o evento serviu para criar sensações dicotômicas. Além de ter ensinado muito, a organização da competição recebeu enormes lições no Brasil.

A primeira grande lição da NBA aos brasileiros começou, na verdade, muito antes do jogo. A liga escolheu times que têm relevância no Brasil – os Bulls pela torcida, os Wizards pela presença do pivô brasileiro Nenê – e iniciou há pelo menos seis meses um plano de divulgação do evento.

Outra aula da NBA foi dada nos dias que antecederam a partida. Os dois times chegaram ao Brasil no início da semana e fizeram um intenso roteiro. Os jogadores foram, por exemplo, ao Cristo Redentor e ao Morro do Alemão. O segundo passeio foi usado para promover o “NBA Cares”, programa assistencial da liga.

O ápice dessa programação foi o “Dia do Torcedor”, promovido na última quinta-feira. Os times se apresentaram na HSBC Arena e abriram o espaço para cerca de 4 mil torcedores. Dois garotos que estavam nas arquibancadas ainda foram convidados para entrar na quadra e tentar arremessos de três pontos.

Para completar, Bulls e Wizards tiveram agenda atribulada de compromissos com veículos de mídia. O atendimento a diferentes plataformas incluiu jogadores, ex-jogadores e dirigentes da NBA.

O roteiro foi muito bem montado, portanto. A NBA soube promover o jogo e maximizar a exposição relacionada a ele. A partida no Brasil serviu como mote para a liga interagir com a mídia, promover aspectos que importam a ela e mostrar pontos turísticos locais – afinal, isso serviu para valorizar o investimento do Rio de Janeiro no evento e reforçar o caráter único da partida.

No sábado, a NBA completou a aula ao montar um verdadeiro show para o público que foi à HSBC Arena. Houve apresentações de mascotes, dançarinos e cheerleaders. A partida contou com ações no telão e na quadra. Todo o entorno foi bem montado.

E aí começaram os pontos em que o controle fugiu das mãos da principal liga de basquete do planeta. O show que precedeu a partida foi acompanhado por uma HSBC Arena vazia. Até o fim do segundo quarto havia enormes clarões no ginásio, que teve 13.635 espectadores.

Arnon de Mello, presidente da NBA no Brasil, disse que a liga ficou satisfeita com a experiência proporcionada a quem entrou na arena e que o atraso do público foi causado por problemas fora do equipamento. Houve uma clara divisão entre o que os torcedores vivenciaram dentro e fora do ginásio.

Como gestora do evento, a NBA tem razão ao dizer que não pode assumir a culpa por problemas estruturais da cidade. No entanto, é impossível dissociar as coisas para quem vai ao jogo. O público paga por uma experiência completa, que começa na compra do ingresso e acaba no retorno para casa.

Uma lição que o jogo de sábado oferece, portanto, é que a gestão de um evento precisa ser sistêmica. É fundamental que a organização se preocupe com detalhes, mas a partida precisa ser abordada como algo muito maior do que os 90 minutos. É o que a NBA fez com maestria até o dia da partida.

A realização de um evento esportivo precisa de suporte de autoridades locais. A partida depende de apoio logístico em aspectos como trânsito e entrada de torcedores.

Além disso, a organização precisa se esforçar para minimizar o impacto de problemas externos. O Botafogo fez isso há dois anos, quando instituiu shows gratuitos antes dos jogos a fim de reduzir as filas que se formavam no Engenhão.

A NBA também tinha uma programação antes da partida. O que faltou à liga foi entender quais atrações fariam a chegada do público à HSBC Arena ser paulatina e menos atribulada.

Entre as pessoas que chegaram cedo, chamou atenção a animosidade. Nenê foi vaiado quando aquecia e quando pegou o microfone para falar uma mensagem de abertura da partida. O jogador Leandrinho e o cantor Naldo, que estavam na torcida, também sofreram com apupos do público quando apareceram nos telões.

A situação ficou ainda pior porque o ex-jogador Oscar Schimdt, que estava na torcida, foi ovacionado pelo público. E porque o “Mão Santa”, interpelado por jornalistas sobre as vaias, endossou as críticas a Lendrinho e Nenê, jogadores com histórico conturbado na seleção brasileira.

“Quer que eu diga o quê? Há anos eu venho dizendo. Ele [Nenê] vem aqui falar de país? Que país ele tem? Sobretudo sobre ele e o Leandrinho, não tenho nem o que dizer. O povo não esquece”, declarou Oscar.

Neste ano, Leandrinho e Nenê estiveram entre os jogadores que pediram dispensa da seleção brasileira que disputou a Copa América de basquete. O Brasil perdeu todos os jogos, foi eliminado ainda na primeira fase e agora depende de um convite para disputar o Mundial da categoria.

Leandrinho e Nenê tiveram problemas físicos, mas as dispensas também refletiram negociações mal conduzidas com as equipes que eles defendem na NBA. “Isso não me abala. Estou calejado. É coisa de gente egoísta, mesquinha e pobre de espírito”, disse o pivô do Washington Wizards depois do jogo de sábado, quando questionado sobre as vaias e as declarações de Oscar.

Responsáveis pela organização da liga admitiram que as vaias foram frustrantes. A NBA esperava uma torcida participativa e simpática, sobretudo pela presença de um brasileiro na quadra.

A reação do público, contudo, é um reflexo claro de uma escolha feita pela própria NBA. O Washington Wizards não está entre os times mais fortes da competição, e o principal atrativo da franquia no Brasil era a presença de Nenê, um pivô que está nos Estados Unidos desde 2002 e tem histórico raso no país natal.

Entre os brasileiros que estão na NBA, Leandrinho causaria reação parecida. Tiago Splitter (San Antonio Spurs) talvez não fosse vaiado, sobretudo por ter um histórico de participações na seleção brasileira, mas é pouco carismático. A única opção da liga seria ter no Brasil o Cleveland Cavaliers do pivô Anderson Varejão.

Varejão também teve problemas com a seleção brasileira no passado e é outro que pediu dispensa da Copa América. No entanto, o pivô é extremamente carismático, o que o transformou em personagem até nos Estados Unidos.

A NBA deu várias lições ao esporte brasileiro em toda a fase que precedeu o jogo de sábado. Depois da realização da partida, porém, está claro que a liga também recebeu dois grandes ensinamentos: é impossível ignorar os problemas externos ao planejar um evento e nenhum campeo
nato pode ser maior do que seus ídolos.

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Profissão de fé

Não é fácil nem simples ser professor num país como o Brasil de hoje.

Dificuldades são inúmeras. Dentre as principais, as relacionadas com a remuneração, com planos de carreira, com infraestrutura de apoio (quadras esportivas, bibliotecas, internet), com a falta de respeito e, até mesmo, violência física e moral praticada por alunos.

Outro aspecto muito importante que deve ser levado em conta, neste cenário, diz respeito à capacitação e formação contínuas dos profissionais da educação.

Atualização de conteúdos e metodologias de trabalho são fundamentais para que o profissional seja bem educado e, com isso, possa educar bem.

Associado às diretrizes de gestão, estratégias, metas quantitativas e, especialmente, qualitativas, o trabalho do professor pode e deve alcançar níveis significativos de produtividade.

Embora no esporte alguns cargos sejam nominados, ainda que vulgarmente, como professor – árbitros, técnicos – não necessariamente fazem jus a essa importante função socioesportiva.

Participei, na semana passada, da segunda e última etapa da capacitação “Futebol para o Desenvolvimento”, promovido, em diversas capitais do Brasil, pela Agência Alemã de Cooperação e pude vivenciar um pouco deste ambiente.

A metodologia foi desenvolvida em conjunto com o Instituto Bola pra Frente, a ONG Futebol de Rua e a Streetfootball World, dentre outros parceiros.

A turma de 30 pessoas foi composta de professores da rede pública de ensino e educadores de ONGs, além de voluntários que atuam em projetos esportivos.

Dentre os vários exercícios e atividades propostos de forma bastante dinâmica e prática, sempre ficava claro que o maior desafio para o professor é, primeiramente, aprender a respeito das circunstâncias do educando para, depois disso, de forma sensível e sensata, aplicar o conhecimento junto aos alunos.

Por meio de 8 temas ou eixos – saúde, gênero, valorização do corpo, meio ambiente, cultura de paz, cultura, comunicação e mundo do trabalho – o futebol é o veículo capaz de levar a mensagem da educação e da transformação social.

Nesse sentido, o professor ocupa papel de destaque, uma vez que ele será o vetor de boas práticas na educação pelo esporte.

A “mão que balança o berço” é importante na formação de qualquer criança desde a mais tenra idade.

O Brasil precisa ser embalado por bons professores que acreditem no esporte como meio de educação, inclusão e cidadania. Bons professores passam por boas escolas formativas. Inspiram alunos a se tornarem professores.

E se sentirem orgulhosos do importante papel que desempenham na sociedade. Merecedores de homenagens e agradecimentos no seu dia.

Parabéns, professor!

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Banco de Jogos – jogo 9

A distribuição das atividades ao longo da semana deve ser feita de forma planejada e criteriosa. Para aumentar a densidade de alguns comportamentos de jogo que precisam ser aperfeiçoados, as reduções do número de participantes e das dimensões do campo são boas alternativas.

A coluna desta semana exemplifica uma atividade de ataque contra defesa em que as situações de finalização e de proteção da meta são constantemente estimuladas.

Jogo Conceitual de Finalização e Proteção do Alvo

– Dimensões do campo: ~ 26,5m x 60m;

 

– Número de Jogadores: 4 atacantes + 2 apoios laterais vs 3 defensores + goleiro, conforme ilustra a figura:

 

– Sugestão do tempo de jogo por série: 30 segundos;

Regras do Jogo

Ataque

1.Apoios laterais jogam com 2 toques e não podem invadir delimitação da grande área;

2.Toda reposição é em favor da equipe que ataca e não podem ser feitas aos apoios laterais;

3.É permitido 2 toques na bola sendo liberada a quantidade de toques para finalizar. Se o atleta der mais de 2 toques e não finalizar ou finalizar com interceptação da defesa = 1 ponto para a defesa;

4.Gol = 3 pontos;

5.Gol de fora da área, tirando do goleiro (entre o cone e a trave) ou de cruzamento = 5 pontos;

Defesa

6.É permitido 3 toques para os jogadores de defesa;

7.Atacante receber a bola em impedimento (inclusive os apoios laterais) = 1 ponto;

8.Defesa completa do goleiro = 1 ponto;

9.Uma série sem sofrer gol = 1 ponto;

Assista aos vídeos com os exemplos de algumas regras:
 

Regra 3

 

O jogador número 6 da equipe que ataca faz um passe para o jogador número 11. Ao receber o passe, o jogador dá mais do que 2 toques na bola e tenta a finalização, porém, ela é interceptada pelo jogador número 4 da equipe que defende. Esta ação vale 1 para a equipe de defesa.


Regra 5

 

Após cruzamento do jogador número 2, a bola sobra para o jogador número 11 que faz um passe ao jogador número 7. Em seguida, o jogador número 9 recebe um passe e finaliza no canto esquerdo do goleiro entre o cone e a trave. Esta ação vale 5 pontos para a equipe de ataque.


Regra 8

 

Após troca de passes da equipe que ataca, o jogador número 10 executa uma finalização e o goleiro realiza uma defesa completa. Esta ação vale 1 ponto para a equipe de defesa. Após a defesa, outra bola é reposta novamente para a equipe que ataca.

Aguardo dúvidas, críticas e sugestões. Abraços e bons treinos!

Leia mais:
Banco de jogos – jogo 1
Banco de jogos – jogo 2
Banco de jogos – jogo 3
Banco de jogos – jogo 4
Banco de jogos – jogo 5
Banco de jogos – jogo 6
Banco de jogos – jogo 7
Banco de jogos – jogo 8

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José Pedroto e Pinto da Costa: dois símbolos!

Parece que foi ontem e são passados 44 anos sobre a pergunta que José Maria Pedroto me fez, com ar seguro do êxito da sua interrogação: "Diga-me cá, porque diz que não há educação física e a preparação física está errada?".

O professor João Mota (felizmente ainda vivo e são – e que o seja por muitos anos) que, nessa altura, era seu amigo e confidente (julgo não exagerar) logo me segredou: "Se se lhe mete na cabeça que tem alguma coisa a aprender consigo, está feito, nunca mais o larga. Ele é assim!".

Eu, em matéria de treino, era, sou, serei discípulo do dr. David Monge da Silva, durante a década de 70, meu colega na docência, no ISEF, ele de Teoria e Metodologia do Treino Desportivo, eu de Filosofia das Atividades Corporais. O fato de ter por mim horas e horas de conversa com o Monge da Silva e ainda, com menor frequência, com o Jesualdo Ferreira, o Mirandela da Costa, o Carlos Queirós e o Nelo Vingada, que criaram a disciplina de futebol, no ISEF, permitiu-me que respondesse a José Pedroto, com alguma segurança e mesmo num ímpeto de entusiasmo: "Se não me engano, tanto a preparação física, como a educação física, que por aí andam, são dois produtos de Descartes".

Comecei assim, acompanhado pelo João Mota, um convívio fraterno com o José Maria Pedroto, que não passou de uma dúzia de encontros, sempre no Porto, na pastelaria Petúlia e no café Valasquez e um outro em Lamego, acompanhados pelas nossas mulheres (a dra. Cecília Pedroto não me deixa mentir).

Comecei assim uma aprendizagem que se aprimorou com o José Mourinho e o Jorge Jesus. E, aqui e além, com o Artur Jorge, o Toni e o André Vilas-Boas. E ainda um “homem do futebol”, injustamente esquecido: Fernando Vaz! Aqui, também não devo esquecer o Prof. Mário Moniz Pereira, o maior treinador da história do atletismo, (e não só do atletismo português) que muito me ensinou também em matéria do treino…

José Maria Pedroto, na galeria de retratos dos muitos treinadores de futebol que já conheci, era uma alma forte, de aço puro, mas com uma qualidade que distingue os sábios: sabia que não sabia. Defendo, hoje, a criação de um Gabinete de Inteligência Competitiva (GIC) e uma organização que permita aos clubes, com alta competição, transformarem-se em produtores de conhecimento, como o hospital, para os médicos, ou o tribunal, para os juristas.

Sem invocar a necessidade do estudo de autores como Bachelard, Althusser, Piaget, Popper, Kuhn, Feyerabend, Foucault e Habermas – podemos avançar sem receio que o trabalho científico, num departamento de futebol, se situa no âmbito das ciências hermenêutico-humanas, em interdisciplinaridade com todas as outras.

Porquê? Porque o futebol, como Atividade Humana que é (e não só Atividade Física) é o homem-futebolista que estuda e trabalha e não só o físico. A tradição positivista que fazia do anátomo-fisiológico a única valência a ter em conta, na medicina e no desporto, está morta definitivamente. Por isso, no futebol, não há remates, mas pessoas que rematam; não há fintas, mas pessoas que fintam; não há saltos, mas pessoas que saltam. Se eu não preparar pessoas para os remates, para as fintas, para os saltos – não há remates, nem fintas, nem saltos que possam servir à tática (ou táticas) que o treinador estabelece.

A grande revolução que há a fazer, hoje, no treino, decorre da resposta a esta interrogação que o treinador deve fazer, de si para si, antes de cada sessão: qual é o tipo de homem que eu quero que nasça deste treino?".

E, ao mesmo tempo que a tática se imprime na motricidade dos jogadores, qualidades intelectuais e morais e políticas se desenvolvem no seu ânimo, no seu entendimento da profissão que abraçaram. O futebol do futuro não vai contentar-se com o bom, vai exigir o melhor – que, no futebol, não é tática tão-só!

José Maria Pedroto, se ajudou à construção (lado a lado, com Pinto da Costa) do novo F.C.Porto, tal se deveu, em primeiro lugar, à amizade que o unia ao seu presidente, mas também à sua permanente vontade de mais informação. Ele rapidamente concluiu que eu, de futebol, bem pouco sabia. Mas, nem por isso deixou de pacientemente me escutar, porque até em mim, modestíssimo professor do ISEF de Lisboa, a sua argúcia poderia descobrir uma palavra, uma sugestão, com algum interesse à sua visão do futebol. Pedroto já sabia que não havia fronteiras rígidas entre os diferentes campos do saber.

Conservo uma carta extensa, que me escreveu e que bem merece uma séria reflexão interdisciplinar. De Jorge Nuno Pinto da Costa está tudo dito. É o líder admirado e respeitado de uma organização modelar, disciplinada (porque é numa organização modelar, disciplinada de trabalhadores do conhecimento que está o segredo). Mas, não deixo de acrescentar ainda que, com ele e José Maria Pedroto, o futuro do F.C.Porto deixou de confinar-se às sombras da dúvida e da ansiedade, para transformar-se numa força, num horizonte, numa luz, numa fé. Pinto da Costa e José Pedroto: dois símbolos, sem os quais o F.C.Porto não seria o que hoje é.

Edgar Morin, no seu livro Ciência com Consciência escreve: "Uma teoria, dotada de alguma complexidade, só pode conservar-se à custa de uma recriação intelectual permanente". Foi isto o que fez José Maria Pedroto; é isto o que faz Jorge Nuno Pinto da Costa. Com os resultados que se veem. Quais as escolas científicas e filosóficas, onde eles podem filiar-se? Ocorre-me a famosa passagem de Shakespeare: "Há mais verdades, no céu e na terra, do que podem discernir todas as filosofias do mundo".

Uma nótula a terminar: quando o Prof. José Mourinho treinava o futebol "portista", ele e eu dialogávamos, com alguma frequência um com o outro. Muitas vezes, por meio do "fax". Só que, de quando em vez, o "fax" não era escrito pelo José Mourinho, mas pelo sr. Antero Henrique que me dizia escrever em nome do seu treinador de então. No entanto, muitas vezes fiquei na dúvida sobre a autoria do texto que me era enviado.

Hoje, quando o vejo, nos jornais e na TV, lado a lado com o sr. Pinto da Costa, durante as sessões de treino do F.C.Porto, sou tentado a não ter dúvidas: havia dedo do sr. Antero Henrique, num ou noutro "fax" que me chegavam, em nome do meu querido e antigo aluno José Mourinho (hoje, sou eu o discípulo e ele o mestre). E, se assim for, é indesmentível a competência do sr. Antero Henrique. De fato, nestas coisas o presidente, raramente se engana…

 

*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela
Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.

Esse texto foi mantido em seu formato original, escrito na língua portuguesa, de Portugal.

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ABC pode perder mandos

Em partida válida pela 27ª rodada do Campeonato Brasileiro da Série B entre ABC-RN e Palmeiras o evento desportivo tornou-se pequeno diante de novas cenas de descaso e desrespeito ao torcedor.

De acordo com informações divulgadas pela imprensa, o ABC, clube mandante, disponibilizou número de ingressos superior ao autorizado pelo Corpo de Bombeiros.

Antes do início da partida, o grande número de torcedores em um dos acessos ao estádio Frasqueirão causou tumulto e até invasão de campo de pessoas em pânico atemorizadas com o iminente risco de esmagamento e pisoteamento.

Segundo informações de dirigentes do ABC, 16 mil ingressos foram colocados à venda, e o público presente foi de 15.636 pessoas. Entretanto, de acordo com o Corpo de Bombeiros Militar, o estádio Maria Lamas Farache, conhecido como Frasqueirão, tem capacidade máxima de 15 mil pessoas.

Destarte, o incidente causado pelo excesso de torcedores atrasou em 55 minutos a partida que foi vencida pelo clube potiguar por 3 a 2.

Dirigentes do ABC responsabilizaram a Polícia Militar sob o fundamento de que o clube havia solicitado um efetivo de 500 policiais para a segurança da partida, número pedido quando a expectativa de público supera as 12 mil pessoas. Entretanto, segundo o clube potiguar apenas 150 homens foram destacados para o jogo. A tese é reforçada sob o argumento de houve atraso na abertura dos portões em virtude de atraso dos policiais.

Apesar do alegado e ainda que as informações concedidas pelo ABC sejam verídicas, segundo o Estatuto do Torcedor a responsabilidade pela segurança dos torcedores é do clube mandante e da entidade organizadora do evento.

Ora, trata-se de evento privado e, portanto, em eventual falta de contingente de forças públicas de segurança, compete ao organizador e ao mandante providenciarem segurança privada.

No que concerne à venda de ingressos em número superior ao estabelecido pelo Corpo de Bombeiros, o Estatuto do Torcedor estabelece em seu art. 23. que perderá o mando de jogo por, no mínimo, seis meses, sem prejuízo das demais sanções cabíveis, a entidade de prática desportiva detentora do mando do jogo em que: tenha sido colocado à venda número de ingressos maior do que a capacidade de público do estádio; ou tenham entrado pessoas em número maior do que a capacidade de público do estádio; ou tenham sido disponibilizados portões de acesso ao estádio em número inferior ao recomendado pela autoridade pública.

Ou seja, comprovando-se a existência de um dos fatos acima, o clube potiguar deve ser severamente punido até para que sirva de exemplo para outros clubes.

O fato é que apesar das cenas lamentáveis, podia ter sido muito pior. Em 1989, em partida válida pela semi-final da Copa da Inglaterra, uma situação semelhante resultou a morte de quase uma centena de pessoas.

Mas, este resultado menos danoso não se deu por mérito dos organizadores, mas pela sorte dos torcedores terem conseguido acessar o campo de jogo impedindo-se o esmagamento nos alambrados.

O mais triste de tudo é perceber a indiferença dos organizadores do espetáculo que, ao invés de buscarem alternativas para atender melhor ao seu torcedor, tentam empurrar responsabilidades.

Portanto, espera-se uma punição exemplar para que a partir desta partida inicie-se uma midança de paradigmas no futebol brasileiro antes que tenhamos uma grande tragédia.

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25 anos de nossa Carta Magna e o esporte brasileiro: temos o que comemorar?

Dia 05 de outubro passado comemoramos as “bodas de prata” da Constituição Federal Brasileira. Batizada pelo seu relator, Ulysses Guimarães, de Constituição Cidadã, não recebeu ela, naquela ocasião, apoio do partido político que desde 2003 se encontra à frente do Governo Federal, por conta do entendimento nele presente de que os marcos regulatórios da Carta tinham seus limites no ordenamento societário estabelecido a partir do modo de produção capitalista, não antevendo anseios de sua superação..

25 anos depois, o processo de recrudescimento das forças conservadoras faz aquele mesmo partido – além de outros do campo da esquerda – defendê-la, por visualizar na conjuntura brasileira e mundial sérios indícios do esfacelamento daquilo que nela indicava avanços, ainda que consignados na lógica capitalista.

Se no âmbito geral o entendimento vai em direção ao acima apontado, o que temos a dizer acerca do seu capítulo destinado ao Esporte? Também em relação a ele ficamos com a compreensão de que devemos defendê-lo por identificar nele avanços hoje ameaçados?

Se há os que comemoram os “25 anos de Constitucionalização do Esporte brasileiro” – e não são poucos – existem também – e não são muitos – os que não enxergam no artigo 217 e seus parágrafos motivos para comemorações.

Primeiro, ao traduzir o desporto como “direito de cada um” (“É dever do Estado fomentar práticas desportivas formais e não formais, como direito de cada um…”), não deixa dúvidas sobre o porquê de sua não presença no conjunto dos direitos sociais (Art. 6º. São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. – Redação dada pela Emenda constitucional nº 64/2010).

Segundo, por dar base a uma lógica de organização esportiva formatada sob forte influência dos referenciais neoliberais de Estado e Governo que passaram a vigorar em nosso meio. As leis infraconstitucionais Zico (Lei 8672/93 e Decreto 981/93) e Pelé (Lei 9615/98 e Decreto 2574/98) deram margem ao descrito por Meily Assbú Linhales* como um processo de mudança dirigido fundamentalmente pelo confronto entre os interesses liberalizantes — que buscavam autonomia de mercado para o esporte — e os interesses conservadores, que entendiam essa liberalização como uma ameaça ao poder constituído oligarquicamente.

Pois o embate entre liberalizantes e conservadores foi responsável pelo surgimento da autonomia e da pluralidade como elementos de mudança, que contraditoriamente mesclavam-se aos traços deixados pela conservação de antigas práticas. Tal linha de reflexão — ainda de acordo Meily e por nós endossada — nos conduziu a um quadro onde, em nenhuma das duas direções, se consolidaram alternativas que vissem o Esporte como uma necessidade e/ou direito social, e tampouco o Estado como mediador e ponto de equilíbrio entre os interesses antagônicos existentes no setor esportivo.

Pois a chegada do PT ao Governo Federal, mesmo que limitada pelas alianças ao centro e dele, à direita, acenou para a possibilidade do até então contra-hegemônico traçar a indicação de parâmetros para que a democratização do Esporte (e da libertação do lazer de seu jugo) pudesse ocorrer e ser usufruída por todo o conjunto da população brasileira.

Derivou-se daí a necessidade de se estabelecer as condições para que se construísse o entendimento do espaço de vivência das práticas corporais e esportivas, como local privilegiado de elevação do nível de seu entendimento, enriquecendo-as de valores que interagissem na construção de uma cidadania (esportiva) plena.

É neste entendimento que se sustentaria o princípio da Inclusão: primeiramente, entendendo ser dever de o Estado garantir a toda sociedade o acesso ao Esporte e ao Lazer, neles identificando a capacidade privilegiada de vir a contribuir, ao lado de outras ações de governo, nos esforços de inclusão social (daí derivando-se o jargão inclusão social através do esporte) de parcela significativa da população brasileira.

Materializar-se-ia assim, o objetivo de sinalizar para a inversão da lógica da presença do Estado no campo esportivo, atribuindo-lhe prioritariamente caráter subsidiador, contudo, de outro sentido que não aquele reforçador do modelo concentrador, representado graficamente por uma pirâmide trazendo, em seu vértice, o esporte de alto rendimento e, em sua base e centro, respectivamente, o esporte de massa e o estudantil subordinados aos objetivos do “de cima”.

O que se almejava propor era a implantação de um modelo exemplificado por círculos autônomos e, ao mesmo tempo, interdependentes, nos quais o esporte recreativo (ou social, como também o chamam), o estudantil e o de alto rendimento fossem respeitados em suas especificidades e, em um mesmo momento, mantivessem canais de comunicação sinalizadores de um conceito de sistema esportivo construído em relações isonômicas e não hierarquizadas, respeitando-se para o financiamento público dessas suas dimensões, o estabelecido em nossa Constituição.

Em paralelo, desanuviando-se o quadro, visualizar-se-ia o Lazer em toda sua plenitude, cada vez mais livre das amarras da cultura do entretenimento e não mais submetido à dominação da instituição esportiva, cada vez mais propenso a ser assumido como política de estado de índole transversal e intersetorial.

Pois a esperança traduzida em possibilidade histórica não se traduziu em realidade histórica, frustrando a expectativa de muitos e empurrando para frente a materialização do que ainda permanece no universo da utopia.

O texto constitucional, referenciado no trabalho desenvolvido pela Comissão de Reformulação do Esporte Brasileiro (Decreto 91.452 – 19/07/85), constituída pelo então ministro da Educação da “Nova República” de José Sarney, Marco Maciel, e coordenada pelo liberal, capitão de fragata e professor Manoel José Gomes Tubino, responsável maior pelo Relatório “Uma nova política para o Desporto brasileiro: Esporte brasileiro, Questão de Estado” (1985), cedeu à pressão dos “senhores feudais do esporte” – expressão do professor acima, portanto livre de qualquer desvio esquerdista – criando um precedente hoje justificador da lógica de privilegiar a exceção (recursos públicos para o esporte performance) em detrimento da regra (recursos p&uacu
te;blicos prioritariamente para o esporte educacional e de participação), ainda que, se assim não fosse, daria no mesmo, pois na lógica piramidal acima exposta, ingressando os recursos onde quer que fosse, seu destino seria o alto rendimento, situação mantida até os dias atuais.

Mas ao pessimismo da razão devemos juntar o otimismo da ação, conforme lição Gramsciana, e nesse sentido devemos saudar a iniciativa legislativa — primeiro da Câmara Federal e em 17 de setembro passado, do Senado — de aprovação do Projeto de Lei de Conversão (PLV 22/2013), oriundo da Medida Provisória 620/2013, deliberando por regras impositivas da democratização, participação e transparência das entidades esportivas, tanto as de administração quanto as de prática do esporte, estando agora nas mãos da presidente Dilma sua sanção.

Que não precisemos esperar as bodas de ouro para termos o que festejar no terreno esportivo, mais do que nosso desejo é nosso esforço de trabalho e luta no campo das políticas esportivas.


*O pensamento da professora Meily aqui apropriado deriva de sua dissertação de Mestrado (“A trajetória política do esporte no Brasil: interesses envolvidos, setores excluídos”) defendida em 1996 junto à área de ciências políticas do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG.

 

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Nenhuma evolução

O ocorrido em Natal-RN no último sábado (05-out) no Estádio Frasqueirão, que retardou o início do jogo entre ABC e Palmeiras, jogo válido pelo Campeonato Brasileiro da Série B, não é simplesmente a cena do absurdo ou do descaso. É, na realidade, a prova cabal de que não evoluímos nada em termos de tratamento e cuidado com o torcedor.

E aqui não estamos falando em luxo, mordomias, cadeiras confortáveis e tantos outros complementos que caracterizam as novas arenas multiuso a que tanto defendemos.

Estamos diante do eterno descaso que se dá a segurança – e que acaba, naturalmente, se refletindo indiretamente nas simbologias de estádios modernos citadas no início deste parágrafo.

Se ainda não aprendemos o básico, não há como se esperar que haja a efetiva entrega de valor adicional ao torcedor.

Vamos comparar:
 

1989

Estádio Hillsborough, em Sheffield – Semifinais da Taça da Inglaterra entre Liverpool e Nottingham Forest

1992

Estádio Maracanã, Rio de Janeiro – Final do Campeonato Brasileiro entre Flamengo e Botafogo

2000

Estádio São Januário, Rio de Janeiro – Final do Campeonato Brasileiro entre Vasco da Gama e São Caetano

2013

Estádio Frasqueirão, Natal – Jogo válido pelo Campeonato Brasileiro da Série B entre ABC e Palmeiras

Não que a comparação com a Inglaterra seja o símbolo da perfeição de um lado com o do caos de outro. Mas, o fato é que, enquanto uma tragédia impactou em uma mudança de 180º no país da rainha, por aqui, continuamos a assistir situações de total descaso, sem que haja qualquer iniciativa, seja por parte dos clubes, seja por parte da entidade de administração do esporte, para que haja uma solução efetiva.

Já não adianta mais a punição pela punição, como a perda do mando de campo ou a aplicação de multa pecuniária. O Poder Público também tem se mostrado ineficiente quando o assunto é a responsabilização civil dos dirigentes. As sanções devem começar a impactar o resultado esportivo.

Enquanto isso não ocorrer, basta ficarmos, de camarote, assistindo ao próximo absurdo no tocante ao tratamento ao torcedor. E depois não adianta reclamar que este mesmo torcedor abandone o clube em momentos de crise da equipe ou que continue registrando taxas pífias de ocupação do estádio.

Basta sempre rememorar que não o respeitamos no momento que mais precisamos dele…

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Por que tudo que você sabe sobre futebol está errado

Rodrigo Leitão, ídolo e companheiro de coluna aqui na Universidade do Futebol, já havia abordado o tema em texto publicado no dia 22 de setembro deste ano.

Voltei a ouvir sobre o assunto em uma reunião de jornalistas, e essa segunda referência foi suficiente para aguçar demais a curiosidade. Fui atrás do livro “Os números do jogo – por que tudo que você sabe sobre futebol está errado”, de Chris Anderson e David Sally (Editora Paralela, 352 páginas), e desde então ainda não consegui desgrudar da obra.

Anderson chegou a tentar carreira como jogador de futebol, mas atualmente trabalha como professor de estatística na universidade Cornell, situada nos Estados Unidos. Sally também trocou o beisebol por uma vida como docente no ensino superior norte-americano – é funcionário da Tuck School of Business.

Os dois resolveram escrever um livro para esmiuçar o futebol por meio de dados estatísticos. A obra mistura histórias e dados que balizam uma série de conclusões dos autores sobre o jogo.

O livro conta, por exemplo, que o técnico David Moyes era um usuário contumaz de estatísticas quando comandava o Everton na elite do futebol inglês. O trabalho de análise no time de Liverpool é feito por Steve Brown e Paul Graley, que reúnem informações sobre adversários, possíveis reforços e os próprios atletas da equipe.

Antes de um jogo, Brown e Graley analisam vídeos das cinco partidas anteriores do rival do Everton. Buscam padrões e tentam identificar comportamentos que a equipe pode coibir para se aproximar de uma vitória.

Moyes teve trajetória de sucesso no Everton. Deixou o clube no meio deste ano para substituir o lendário Alex Ferguson no comando do Manchester United. No gigante inglês, manteve o apreço por estatísticas e dados analíticos. Até aqui, o resultado disso é o pior início da história do clube na Premier League.

É praticamente impossível ler o livro de Anderson e Sally sem fazer comparações com a história do filme “Moneyball”, obra dirigida por Bennett Miller em 2011. O longa-metragem conta a história real de Billy Beane, gerente do time de beisebol Oakland Athletics em 2002.

Naquela época, os A’s haviam perdido os três melhores jogadores. E Beane, em busca de reposição, apelou a uma metodologia baseada em números e estatísticas. Ele não apenas usou os números, mas interpretou esses dados de uma forma diferente.

Estatísticas são muito comuns no esporte dos Estados Unidos. LeBron James, maior jogador de basquete do planeta, é um fã do assunto. Ele defende o Miami Heat, time da liga de basquete profissional dos Estados Unidos (NBA), e a franquia conta com Shane Battier, outro atleta conhecido por ser muito estudioso.

Em entrevista concedida no ano passado, Battier revelou que ficou impressionado quando conheceu o apreço de James pelas estatísticas. O craque da equipe usa os dados diretamente no jogo – se ele está marcando alguém e esse atleta tem índices ruins em chutes no lado esquerdo, por exemplo, o camisa 6 força o rival a driblar nessa direção.

James precisa acionar o banco de dados mental em vários momentos de um jogo. O basquete é um esporte que envolve decisões urgentes e tem alto grau de exigência. Ainda assim, é possível tirar vantagem dos dados.

A repercussão sobre o livro de Anderson e Sally focou mais os dados que eles levantaram. Os pesquisadores analisaram dez temporadas da Premier League, por exemplo, e concluíram que um time faz um gol oriundo de cobrança de escanteio a cada dez partidas. O baixo aproveitamento sugere que fazer cruzamentos para a área não é a melhor opção nesse tipo de lance.

Os números obtidos pelos autores, contudo, são apenas parte da história. O futebol é um jogo complexo e oferece diferentes caminhos para a vitória. Um time pode optar por controlar a bola até encontrar espaços na defesa rival, por exemplo, ou tentar tomar a posse no campo de ataque e aproveitar um momento em que o adversário esteja menos arrumado. São duas estratégias distintas, que dependem de características e ações distintas.

É possível aproveitar a estatística de forma direta. Se o time rival tem um jogador com aproveitamento muito bom em cobranças de falta, a equipe precisa ser orientada a não cometer infrações que permitam tiros diretos. Esse é apenas um exemplo simples.

No entanto, o grande negócio é entender que tipo de comportamento esses números traduzem. É possível mapear a postura de um time a partir das estatísticas, mas como prever as reações dos atletas rivais às suas estratégias?

Traduzindo em exemplo: você pode identificar por meio de números que o rival tem uma fragilidade quando sai jogando pelo lado esquerdo da defesa. Você pode optar então por uma marcação que force a bola a passar por ali. E quando o lance estiver no setor, você pode adiantar a linha ofensiva para pressionar o adversário.

Tudo isso pode funcionar, mas também pode exigir do jogador pressionado uma decisão que abra caminho para um lance que ele não faria normalmente. Essa é a parte complexa da coisa.

O próprio livro de Anderson e Sally apresenta uma comparação entre vários esportes coletivos. Segundo os autores, o baixo número de gols marcados faz do futebol o evento mais imprevisível entre essas modalidades.

Os autores dizem que o time mais forte vence uma média de 70% dos jogos no handebol. O basquete e o futebol americano ficam um pouco abaixo desse índice, e o beisebol tem triunfos dos favoritos em 60% do tempo. No futebol, a incidência de resultados lógicos é pouco maior do que 50% das partidas.

Com base nisso, os próprios autores atribuem ao futebol um alto grau de imprevisibilidade. É possível mapear eventos e entender caminhos do esporte a partir de dados estatísticos, mas há vários componentes que não podem ser medidos.

Conheci um técnico uma vez que dizia sempre o seguinte: “Não há gol no futebol que não seja ocasionado após pelo menos oito erros do time vazado”. A tese dele é que, se você isolar componentes de um lance que acabou com bola na rede, vai perceber que quase todos os atletas tomaram decisões erradas. Ou que um mesmo jogador teve várias decisões errada.

Ainda não terminei de ler o livro de Anderson e Sally, mas recomendo muito. Eles estudaram, pesquisaram e mostraram uma série de informações que podem nortear o entendimento sobre o futebol. A obra é rica e tem um texto simples, com boa fluência. Não é um amontoado chato de estatísticas.

O que o livro deles não explica – e nem parece ter pretensão de explicar, diga-se – é o componente humano. Números podem reduzir drasticamente a margem de erro, mas as decisões vão seguir sendo tomadas por pessoas.