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Perdeu-se a chance

O anúncio do calendário do futebol brasileiro para 2014 trouxe à baila novos e antigos debates. De positivo, os primeiros ensaios para a constituição de uma associação de jogadores de futebol, que está se unindo para debater a organização do futebol e, sobretudo, protegê-los, tendo em vista que eles são os grandes atores do espetáculo.

De negativo, um calendário apertado, que não agrada ninguém: nem a parte técnica-física da prática, que deveria tentar preservar minimamente o atleta para a entrega de bons espetáculos; nem a área de gestão e marketing, que pensa na entrega de um bom produto; tampouco os torcedores, que irão acompanhar jogos em grande quantidade e de baixa qualidade, tornando-se pouco atrativo.

Perdemos, a bem da verdade, a chance de reorganizar o malfadado calendário do futebol brasileiro. A oportunidade era agora, com o "caos" da Copa (caos no sentido de influenciar a organização da temporada regular), quando se poderia encontrar inúmeras justificativas para este ajuste.

Alguns dirigentes continuam com a defesa de argumentos respaldada na "soberania nacional", ou seja, em afirmar que seguir um "modelo europeu" seria uma afronta para o Brasil. É a berlinda das desculpas, quando não se acha mais justificativas plausíveis, em um mundo globalizado e hiperconectado, para enxergar o óbvio.

Enfim, resta esperar mais algum tempo para a mudança inevitável. E que a organização que se está tentando fazer por meio dos jogadores siga um rumo sólido e consistente, que não baixe a guarda com pressões de dirigentes (que virão no curto prazo), e possam promover, de fato, ações transformadoras para o futebol brasileiro.

 

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Pré-temporada e adequação à Europa são algumas das exigências dos jogadores

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Quando o campo fala

Líder da temporada 2013/2014 do Campeonato Espanhol, o Barcelona jogou fora de casa contra o Rayo Vallecano no último sábado e venceu por 4 a 0. O resultado positivo, porém, não impediu um revés da equipe catalã, que teve menos posse de bola do que o rival.

O Barcelona ficou com a bola em 49% do jogo de sábado. O Rayo Vallecano, 51%. O time catalão não tinha menos posse do que um rival em partidas oficiais desde 7 de maio de 2008, quando foi goleado pelo Real Madrid por 4 a 1.

Nesse ínterim, o Barcelona disputou 316 jogos e conquistou 16 títulos. Foram 228 triunfos (72,2%), 58 empates (18,4%) e 30 reveses (9,4%) em que os catalães dominaram mais a bola do que qualquer adversário.

O saldo de gols do período também é impressionante: o Barcelona marcou 822 vezes no período em que foi soberano na posse de bola. Nesses mesmos 316 jogos, o time foi vazado apenas 262 vezes.

Na pré-temporada que antecedeu as disputas de 2013/2014, o Barcelona já havia tido menos posse de bola do que o Bayern de Munique, time comandado por Pep Guardiola, técnico dos catalães no auge desse período vencedor. No entanto, isso foi registrado em uma partida amistosa.

Contra o Rayo Vallecano, não havia a ressalva de se tratar de um amistoso. Tampouco o alento de ser uma equipe extremamente poderosa e comandada pelo treinador que resgatou o estilo holandês-catalão de o Barcelona jogar.

Guardiola ficou no Barcelona entre 2008 e 2012. Ele foi substituído por Tito Vilanova, que era auxiliar e comandou a equipe catalã até este ano.

Quando um problema de saúde impediu Vilanova de seguir no Barcelona, o time não repetiu a iniciativa de buscar em seu quadro de funcionários um profissional. Em vez disso, contratou o argentino Gerardo “Tata” Martino, ex-Newell’s Old Boys.

Foi o Barcelona de Tata Martino o responsável pela queda da longeva soberania da equipe na posse de bola. Em pouco tempo, o argentino mudou de forma contundente a postura dos catalães. O toque de bola insistente e o jogo horizontal ganharam companhia de lançamentos e objetividade na definição dos lances.

“A posse da bola é sempre importante para o Barcelona, assim como era para o Newell’s Old Boys. Quando uma equipe atinge a excelência no futebol, é natural que as pessoas falem sempre sobre o estilo que assegurou isso”, ponderou Martino em entrevista coletiva após o jogo de sábado.

Depois do triunfo por 4 a 0 sobre o Ajax na primeira rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões da Uefa, o uso das bolas longas já havia chamado atenção. Na época, Martino disse que estava tentando apenas “adicionar algumas coisas ao repertório do Barcelona”.

O jogo mais incisivo pode ser benéfico para o Barcelona. Se o time catalão seguir pressionando a saída de bola de seus rivais e associar a retomada da posse a uma definição rápida, terá mais espaços do que encontrava na versão “mais paciente”.

A lógica é clara: o Barcelona pré-Martino era eficiente, mas levava mais tempo para definir os lances. Com isso, tinha de encontrar espaços em defesas mais bem postadas.

A marcação pressão e o contragolpe são eficientes porque proporcionam superioridade numérica em ações ofensivas. A velocidade de transição e definição é determinante para estipular o tamanho dessa soberania.

Na teoria, portanto, o Barcelona está adicionando elementos positivos ao jeito de a equipe jogar. Com a adição de bolas longas e uma transição mais rápida, Martino cria um time que pode ser mais seguro e letal.

Contudo, o risco que o Barcelona de Martino corre é contrariar o que se transformou em essência da equipe. Os catalães podem ser igualmente eficientes e igualmente vencedores, mas não seguirão sendo especiais se abdicarem do que os tornou únicos.

Guardiola não inventou um jogo de o Barcelona jogar, mas reuniu uma série de características que geraram orgulho na torcida catalã em times anteriores. Mais do que vencer, o grupo que ele moldou traduzia o que a torcida esperava ver em campo.

A pergunta, portanto, é o que motiva de verdade o torcedor no esporte profissional. O adepto quer vencer a qualquer custo ou quer ver no campo de jogo, independentemente da modalidade, atletas que representem o que ele pensa sobre o esporte?

Pense em quantas vezes você viu, em diferentes modalidades, atletas serem aplaudidos porque fizeram, a despeito do resultado, o que o público queria ver. Pense em quantos derrotados conseguiram simpatia, respeito e até um carinho da torcida.

O objetivo explícito do esporte é vencer, mas o esporte não seria o que é se não tivesse metas tácitas. É uma atividade em que valem inspiração, sonho e representatividade. O Barcelona dos últimos cinco anos mostrou isso. Martino pode até criar uma equipe mais eficiente, mas o início dele contradiz a essência do clube.

Até o momento, o discurso de ampliar o repertório tem sido eficiente. Se o Barcelona mantiver a rotina de vitórias, Martino ganhará argumentos muito contundentes.

Em algum momento, porém, técnico e diretoria precisarão questionar o que desejam fazer no futebol. O campo fala, e os recados do Barcelona de Tata Martino até aqui não são nada animadores.

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O futebol, os paradigmas, os métodos, os modelos, a lógica e o livro "Os números do jogo"

O futebol jogado no mundo todo, sofre, continuamente, transformações. Do mais distante ao mais próximo passado, da mais, até a menos tradicional cultura futebolística continente à fora, é fato que ao longo de sua história, o futebol – e mais pontualmente a maneira de jogá-lo – vem ganhando em organização, em sofisticação estratégica, e em elaboração coletiva.

Os sistemas de preparação desportiva futebolística estão cada vez melhores, os jogadores estão cada vez mais bem preparados, a análise do desempenho vem contribuindo cada vez mais para correções de rotas, a velocidade do jogo aumentou e os futebolistas vêm mostrando uma capacidade cada vez maior de tomar decisões exatas e rápidas.

Já escrevi outras colunas, aqui mesmo neste espaço, com intuito de chamar atenção para o fato de que a evolução do jogo de futebol, mais especificamente do "jogar futebol" traria (e traz) consigo a necessidade emergente e urgente de um entendimento mais qualificado sobre o jogo.

Ora, se o jogar futebol que concebemos e operacionalizamos nos treinamentos, é resultado da maneira que enxergamos e entendemos o jogo, nada mais óbvio do que a necessidade de enxergá-lo (o jogo) melhor e mais claramente.

É inegável o fato de que há mais de uma década, a busca pelo "enxergar melhor e mais claramente" tem trazido à tona uma série de conflitos – paradigmas foram, estão e serão quebrados. "Durante muito tempo, quatro palavras dominaram o futebol: "sempre foi feito assim".

O jogo bonito está arraigado na tradição. O jogo bonito agarra-se a seus dogmas e truísmos, a suas crenças e credos. O jogo bonito pertence a homens que não querem ver seu domínio ameaçado por intrusos que sabem que enxergam o jogo como ele realmente é.

Esses homens não querem que lhes digam que há mais de um século eles estão deixando de perceber alguns fatos. Que existe um conhecimento que eles não possuem. Que o jeito como eles sempre fizeram as coisas não é como as coisas devem ser feitas." (livro: "Os números do jogo", de Chris Anderson e David Sally – página 13)

Avançar a linha limite, que estabelece ideias, ideais, conceitos e verdades é avançar a barreira, que esconde atrás dela, um mundo novo e desconhecido.

Nunca é fácil passar por essa barreira. O certo, é que a maneira que escolhemos passar por ela pode determinar as dificuldades e resistências que encontraremos logo à frente.

Muitos são os caminhos que levam às vitórias. A história do futebol nos mostra isso muito claramente!

Não deveríamos brigar por métodos "A" ou "B". Não! Não deveríamos brigar por um modelo "C" ou "D". Precisamos entender no cerne o que o jogo, propriamente dito, a partir de sua inexorável lógica tem para nos dizer.

Vitórias podem ser alcançadas pelos métodos "A" e "B", mas também pelo "X", pelo "Y" ou pelo "Z"; equipes podem jogar bem a partir dos modelos "C", "D" ou "E" – mas indiscutivelmente jogos não podem ser vencidos e/ou bem jogados se o "jogar" – e logo, a preparação para o jogar – não estiverem em conexão, na essência, com o cumprimento da lógica do jogo.

A negação ou não compreensão sobre o passado (da preparação para o "jogar", e do "jogar" propriamente dito) trarão ilusões para o presente e dificuldades para o planejamento do futuro.

"Não dá para dizer que todas as tradições estão erradas. Os dados que hoje podemos reunir e analisar confirmam que parte daquilo que sempre se acreditou ser verdade é, de fato, verdade. Para além disso, porém, os números nos oferecem outras verdades, esclarecem coisas que não temos como saber intuitivamente e expõe a falsidade do "sempre foi feito assim".

O maior problema de seguir um tradição venerável e um dogma estabelecido é que ambos raramente são questionados. O conhecimento fica estagnado, enquanto o próprio esporte e o mundo em torno dele mudam." (do mesmo livro: "Os números do jogo", de Chris Anderson e David Sally – página 14)

Filosófico ou não, por hoje é isso!

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A utilização de curingas no treinamento com jogos

Sabemos que o desempenho esportivo é multifatorial. Posto isso, acreditar que o sucesso advém exclusiva ou predominantemente de uma variável reduz o olhar sobre a complexidade que envolve o jogo de futebol.

Para os profissionais da modalidade, a variável metodologia de treinamento é uma das que tende a ganhar exclusividade e sempre proporciona calorosas discussões. Para justificar a utilização do método analítico, integrado, sistêmico ou suas combinações, diversas opiniões são expressas, contendo os argumentos e os porquês da preferência por um ou outro método.

Quem acompanha as colunas que publico na Universidade do Futebol tem ciência que opto por uma metodologia sistêmica que, numa sessão de treino, não separa as vertentes do jogo.

E, invariavelmente, todos os profissionais do futebol, querendo ou não, pelo menos por algum momento fazem uso do método sistêmico. Afinal, o que é o treinamento coletivo senão uma atividade global, semelhante ao jogo, portanto, sistêmica?

Considerações à parte, já são muitos os profissionais do futebol que optam, para além do trabalho coletivo, pelo método de treino sistêmico. Para isso, fazem uso de diversos elementos (manipulação das regras, redução do número de jogadores, alteração nas dimensões do campo, delimitação de setores, etc.) para a elaboração do treinamento tentando proporcionar situações-problema próximas as que ocorrerão nas partidas oficiais.

Um dos elementos muito utilizados é o dos curingas durante as atividades. Geralmente, os curingas são utilizados nos jogos em que a comissão técnica pretende facilitar a ocorrência da superioridade numérica para a equipe que detém a posse de bola. Sendo assim, com as duas equipes no jogo o curinga sempre participa ofensivamente auxiliando o ataque para uma equipe. Caso esta equipe perca a posse de bola, imediatamente o curinga passa a jogar para a equipe que a recuperou.

Algumas limitações em relação à inteireza/totalidade do jogo são oriundas da utilização deste tipo de recurso. São elas:

• Restrição da participação do curinga em dois momentos do jogo: a organização defensiva e a transição defensiva. Esta restrição limita consideravelmente a leitura de jogo do atleta. Como ele sempre tem a posse de bola não lhe é exigido a reação imediata de transição defensiva. Além disso, atacar exclusivamente pode criar o mau hábito de não assumir riscos na organização ofensiva, pois independentemente de sua decisão voltará a atacar.

• A transição ofensiva com estruturação de espaço inadequada. Apesar da sua ocorrência (quando o curinga muda de equipe), o referido momento do jogo também é influenciado negativamente. O ideal para a construção da transição defesa-ataque é ter uma equipe organizada em seu momento defensivo para que a ocupação do espaço, de acordo com a circunstância, permita um bom início do ataque com todos os membros da equipe cientes de como estão posicionados. Como o curinga não participa da organização defensiva, ao adversário recuperar a bola, ele não está posicionado em função da equipe que ele passará a auxiliar.

• Ausência de jogo, portanto, de "estado de jogo". Como o atleta sempre ataca, ele não participa da atividade podendo perder, empatar ou ganhar. Logo, os pressupostos necessários para que ele “mergulhe” num ambiente de jogo, que potencialize sua aprendizagem, fica comprometido.

Estas limitações impactam no princípio da especificidade, norteador do processo de treinamento. Quem opta pela utilização do curinga, deve saber em que nível se encontra o jogador para que os efeitos da atividade com superioridade numérica, em uma parte importante do sistema, não sejam indesejados.

E, para não perder o costume: você utiliza curingas em suas atividades?

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Tupi x Aparecidense: a polêmica continua

Conforme tratamos na semana passada, o futebol brasileiro proporcionou um dos lances mais bizarros e surreais da história do futebol na partida disputada entre o Tupi de Juiz de Fora e a Aparecidense de Goiás pelas oitavas de final da Série D do Campeonato Brasileiro.

No julgamento, ocorrido nesta segunda, atendendo ao pleito do advogado do Tupi, o STJD desqualificou o fato do artigo 243-A para o 205, e determinou a eliminação da Aparecidense, razão pela qual o placar do jogo, que terminou empatado por 2 a 2 depois que o massagista evitou o terceiro gol do clube mineiro, foi alterado para 3 a 1, garantindo ao time de Juiz de Fora a vaga à próxima fase.

Veja o que estabelece o art. 205, do CBJD:

Art. 205. Impedir o prosseguimento de partida, prova ou equivalente que estiver disputando, por insuficiência numérica intencional de seus atletas ou POR QUALQUER OUTRA FORMA (grifo nosso).

PENA: multa, de R$ 100,00 (cem reais) a R$ 100.000,00 (cem mil reais), e perda dos pontos em disputa a favor do adversário, na forma do regulamento.

§ 2º Se da infração resultar benefício ou prejuízo desportivo a terceiro, o órgão judicante poderá aplicar a pena de exclusão do campeonato, torneio ou equivalente em disputa.

Tanto a Aparecidense quanto a Procuradoria irão recorrer da decisão. Segundo o presidente do clube goiano, a equipe foi incursa em um artigo que não condiz com a realidade, eis que não teria havido impedimento à continuidade do jogo.

No que tange à Procuradoria o entendimento é de que o ocorrido estaria previsto no artigo 243 (atuar de forma contrária à ética desportiva, com o fim de influenciar o resultado de partida, prova ou equivalente), o que faria com que a partida fosse anulada, já que a partida chegou até o final e não foi paralisada no meio.

Apesar de toda a polêmica e de todo debate e embate jurídico, a decisão do STJD é emblemática, especialmente neste momento em que no âmbito judiciário, a Corte maior do país divide-se entre o tecnicismo e a moralidade. No caso da partida entre o Tupi e a Aparecidense, a corte maior do desporto ocupou-se de aplicar o princípio da moralidade (previsto no art. 37, da Constituição Brasileira) em detrimento do tecnicismo jurídico, inclusive, citando Aristóteles..

Ora, caso ocorra nova partida, a Aparecidense terá o benefício de tentar a classificação, apesar dos meios não convencionais utilizados para evitar o gol do Tupi e a decisão do STJD coloca a moralidade e a lisura desportiva no seu prumo, apesar a interpretação extensiva (ao extremo) do art. 205, do CBJD.

O que falta neste país são pessoas de fibra dispostas a fazer diferente, a sair da mesmice e buscar caminhos e soluções alternativas para a crise moral que assola o Brasil. Se hoje os EUA são o que são é porque um dia homens como George Washington e Abrahan Lincoln não pouparam esforços para colocar o país nos trilhos da honestidade.

O fato é que independente do resultado final, a decisão do STJD mostrou que é possível sim aplicar a legislação brasileira de forma principiológica atentando-se à moralidade das instituições, como bem destaca o jurista uruguaio Eduardo Couture:

"Teu dever é lutar pelo direito, mas no dia em que encontrares o direito em conflito com a justiça, luta pela justiça".

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Respeito ao futebol, um patrimônio nacional

Eventualmente me pergunto sobre quando teremos respeito e decência no meio do futebol brasileiro. Aliás, me pergunto quando haverá um genuíno relacionamento profissional dentro dos clubes de futebol e das instituições relacionadas ao esporte.

Mas, pensando bem, me parece que tudo que presenciamos no futebol nada mais é do que um reflexo da nossa própria sociedade, repleta de impunidades e de desrespeito.

O futebol é um dos patrimônios do Brasil, um país carente de heróis e que deposita sua esperança em seres humanos muitas vezes despreparados para assumir tal responsabilidade de super-herói. Os atletas de uma forma geral, não tem o adequado desenvolvimento intelectual para perceber o papel que exercem na sociedade.

E não penso ser culpa dos atletas este cenário, mas credito uma boa parte sim àqueles que dirigem o futebol de uma maneira geral, sem a necessidade de citar casos específicos. Qualquer pessoa que acompanhe o nosso futebol há pelo menos uns cinco anos consegue relatar algum fato inusitado de irregularidade e impunidade em alguma situação envolvendo o esporte. Há algumas situações mais antigas inclusive, que se não fossem trágicas para o nosso futebol, seriam cômicas.

Aqui, me permito, mais uma vez, abordar a questão da liderança no futebol, principalmente dos executivos; estes que por serem muitas vezes grandes apaixonados tomam decisões baseadas em pura emoção, mas sem qualquer razão e ignoram parcial ou completamente os impactos de suas decisões para a entidade esportiva; outros que muitas vezes acreditam que o futebol seja uma mina de ouro pensando apenas em tirar algum proveito financeiro particular, por atuar de maneira executiva dentro de alguma instituição esportiva ligada ao futebol.

E os agentes de atletas ou mais comumente conhecidos como empresários? Esses também são líderes pelo simples fato de formarem opinião dos atletas, mas também negligenciam a congruência de sua liderança e muitas vezes querem inclusive se comportar como se fossem os atletas, utilizando até a mesma forma de vestir dos jogadores.

Pobre futebol, que apesar de tudo e de todos, ainda continua a encantar (na medida do possível) milhares de torcedores, de qualquer idade e sexo com suas partidas improváveis e seus jogos memoráveis. Jogos estes que muitas vezes ficam eternizados na memória destes desconhecidos ilustres, chamados torcedores.

Então, aqui cabe a pergunta: quando nós como profissionais do esporte e formadores de opinião, seja pela nossa atuação direta ou indireta no futebol, iremos passar a respeita-lo com a dignidade e decência que ele merece?!

Vou além: até quando nós enquanto líderes na sociedade iremos jogar o jogo do "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço"?

Por vir, está uma geração de jovens que não aceitam mais o discurso sem congruência e desconexo da visão convergente entre atitudes e promessas. Você. amigo leitor, acredita sinceramente que tanto os executivos de qualidade profissional duvidosa (que merecem ser chamados ainda de cartolas, no sentido pejorativo da palavra como se ela por si só já pudesse desqualifica-los frente a nossa safra de gestores que esperamos aparecer no futebol brasileiro) quanto os agentes igualmente despreparados ou gananciosos, estejam preparados para assumirem posições executivas em outro mercado de trabalho que não fosse o futebol?! Penso que não!

E mais: imagino que sua postura e comportamentos em sua vida pessoal possuam semelhanças com o que vemos em suas posturas no futebol. Ou seja, talvez eventualmente também se deixem levar pela vicissitude da facilidade financeira em prol da sua própria prosperidade, exatamente como eventualmente fazem ao deixar de cuidar genuinamente dos interesses das instituições esportivas e consequentemente do nosso querido futebol.

E não precisamos ir longe para vermos inúmeros exemplos de comportamentos ruins na própria sociedade, ou são raras no cotidiano situações como pagar uma propina para estacionar em local proibido ou estacionar em vaga exclusiva para deficientes ou até um simples avançar de sinal de trânsito; isso referindo-nos apenas ao comportamento quanto condutores de veículos.

Sabemos que existem outras situações de comportamentos equivocados, tais como a relação com o imposto de renda e por aí vai. E aí, quem pratica essas pequenas irregularidades no dia a dia estão agindo com honestidade, respeito e congruência?

Amigo leitor, se chegou a este parágrafo desta coluna peço que reflita: cabe a nós promovermos esta mudança no futebol. E como poderemos fazer isso?

Ah, a resposta parece simples e está estampada em todos os MBA’s de Gestão Esportiva da atualidade: buscando se desenvolver através de uma nova capacitação, adquirindo novas habilidades de gestão no esporte, desenvolvendo novas competências de liderança, realizando intercambio em grandes clubes da Europa, etc. Mas, sinceramente, acho que falta mais uma coisa a fazer: fomentar a mudança de atitude!

Não sejamos vencidos pelo paradigma de que "no futebol tudo sempre foi assim", é momento de sermos cada vez mais profissionais dentro do esporte, encará-lo como um mercado de trabalho e respeitá-lo com uma atuação profissional, honesta e transparente.

Finalmente, cabe a nós iniciarmos o processo de alívio de peso dos ombros do nosso futebol e desta forma sim contribuir para que ele possa se recuperar para voltar a ser, um dia quem sabe, saudável e sem as doenças causadas pelos parasitas que por muito tempo lhe habitaram o organismo.

E você, concorda?!

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Um mar de oportunidades (2)

Dando sequência ao tema da semana passada, cabe avançar sobre os aspectos relacionados aos investimentos no esporte e as inúmeras oportunidades inerentes a estes, contemplando diferentes tamanhos de bolso.

Um erro muito comum é olhar para os grandes números, especialmente aqueles relacionados aos clubes mais tradicionais do futebol, e acreditar que a dinâmica da indústria do esporte se repete em uma escala linear e simétrica.

Acreditar, ainda, que só existe oportunidades de bons investimentos lá na ponta da pirâmide, onde estão as maiores atenções da mídia e do grande público.

Na realidade, estamos diante de produtos e mercados de nicho, seja por uma penetração mais regionalizada – em que se é possível desde a atração de patrocinadores locais ou mesmo de comercialização de conteúdo para a região de abrangência da equipe –, seja pelas características que diferentes formas de prática ou organizações possuem perante seu público consumidor.

O segredo, no final das contas, é entender exatamente os objetivos de comunicação das marcas, encontrando sinergias com as propriedades esportivas e que complemente, de maneira coesa, com as demais plataformas de comunicação da organização. Há, certamente, muita coisa por ser feita…

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Quem é dono da informação?

Por que uma empresa investe em esporte? Quais são os diferenciais do setor? Há várias respostas possíveis para essas perguntas, mas o fundamental é que elas sejam feitas. Entender as possibilidades do segmento é um passo básico para saber como tirar proveito dele.

Quando Henry Ford começou a investir em esporte, no início do século 20, a relação era clara: mostrar que os carros da montadora dele eram mais velozes e mais seguros do que os outros.

Hoje em dia, algumas marcas ainda podem dizer que investem no automobilismo para mostrar que são mais eficientes do que as outras. E o que explica, então, todo o aporte feito pelas empresas associadas aos carros que estão no fim do grid?

No esporte, assim como na vida, entender os porquês é questionar a essência das coisas. As empresas podem buscar associação a valores da modalidade ou a personalidades que fazem parte da disputa, por exemplo. Podem pensar em atributos, no perfil de público que acompanha o evento ou apenas na visibilidade que ele oferece.

Em toda a história, a mídia sempre foi um argumento de venda do esporte. A lógica de que o patrocínio é uma forma de a marca "aparecer" para quem acompanha um campeonato é praticamente um axioma, algo difundido de torneios colegiais a ligas profissionais.

O problema é que essa linha de pensamento alterou drasticamente a relação do esporte com a mídia. Quando entenderam o papel que exerciam na venda, veículos passaram a influenciar destinos e exercer controle sobre o segmento.

Essa realidade é ainda mais presente no Brasil, país em que a mídia convive há décadas com cenário de monopólio. O esporte sabe que estar na Globo, por exemplo, é um argumento de venda para patrocinadores e ajuda na própria disseminação da modalidade. A TV também entende esse processo, e a partir disso exige que o "produto" cumpra demandas de grade e de perfil.

É assim o ciclo que define a relação do futebol com a mídia no Brasil: o esporte depende da TV aberta para ter mais popularidade e vender mais patrocínios. A TV aberta precisa do esporte para atingir determinado perfil de público e de anunciantes, mas não precisa a ponto de abrir mão de outros produtos. Então, aproveita a posição favorável na negociação e exige adequação do esporte. Isso justifica, por exemplo, os horários de transmissões de jogos.

O futebol não passa às 22h de quarta-feira simplesmente porque a TV quer. O esporte ocupa esse espaço porque é menos relevante, em audiência e comercial, do que a novela. E a novela é apenas um exemplo de produto que ocupa uma faixa mais nobre da programação.

Também é essa a explicação do que acontece com outras modalidades. A Superliga de vôlei precisou fazer uma série de adaptações e concessões para ter espaço na TV aberta. A lista de mudanças vai de decisão em jogo único até a redução da duração dos sets.

A liga nacional de basquete (NBB) passou por um processo semelhante para conseguir espaço na TV. A Stock Car também fez alterações drásticas no regulamento e no modelo de disputa. Tudo em nome da mídia.

Enquanto o esporte enxergar a mídia como argumento de venda e depender da exposição que ela oferece, essa relação sempre penderá para os interesses de quem controla a exposição.

A Red Bull é um exemplo de como subverter esse ciclo que baliza a relação entre esporte e mídia. Esse é um dos muitos paradigmas que a empresa derrubou com o modelo de comunicação adotado nos últimos anos.

Em 2007, a Red Bull lançou um conceito chamado Red Bull Media House. Trata-se de uma produtora de conteúdo com abrangência multimídia. Gradativamente, as coisas que esse braço da empresa faz vão substituindo os comerciais e o investimento em comerciais tradicionais.

Em vez de comprar espaço nos intervalos comerciais de rádios e TVs ou nas áreas publicitárias de mídia escrita, a Red Bull decidiu ser a própria mídia. Ao assumir a produção, a empresa passou a ocupar locais destinados ao conteúdo.

Hoje em dia, a Red Bull não precisa mais da TV aberta. Aliás, a empresa depende pouco de qualquer mídia que não seja a dela. Tudo que a companhia faz repercute muito, e a receita para esse alcance é baseada em relevância, ousadia e foco.

Ok, a Red Bull é uma empresa gigantesca e investe milhões na Fórmula 1, que é uma plataforma midiática e está na TV aberta. Além disso, fez anúncios em mídia tradicional durante anos até atingir esse patamar. Mas o que dizer, então, do coletivo de humor chamado Porta dos Fundos?

O Porta dos Fundos não precisou de TV aberta para ganhar fama. Tudo que eles têm é oriundo das próprias mídias – o grupo é formado por blogueiros, atores e comediantes que já tinham algum sucesso individualmente.

O que os humoristas do Porta dos Fundos fazem condensa uma série de atributos positivos. Talvez seja precoce discutir os porquês de a fórmula deles funcionar, mas é inegável que há pilares como qualidade e linguagem adequada a um determinado público.

Independentemente do formato, o que eles fizeram é um modelo para a comunicação no esporte. É fundamental que o segmento deixe de depender da mídia convencional e da exposição gerada por ela.

O esporte tem potencial para atrair atenção e negócios de uma série de outras maneiras. Para isso, porém, é fundamental que tente entender a própria essência. Por que uma empresa investe em esporte? Quais são os diferenciais do setor?

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Atletas pelo Brasil

O esporte brasileiro sempre nos brindou com grandes ídolos. Pelé, Garrincha, Senna, Zico, Sócrates, Irmãos Grael, Oscar, Romário, Eder Jofre, Guga, Robert Scheidt, Adhemar Ferreira da Silva, João do Pulo, Hortência, Paula, Bernardinho, Gustavo Borges, dentre tantos outros que, desculpas à minha mistura de falta de memória com ignorância, acabo por esquecer de listar, aqui, no panteão.

Nessa constelação, porém, destacam-se dois nomes de absoluta relevância ao esporte nacional, no presente, cujo legado de luta será ainda mais valioso no futuro (breve).

Ana Moser e Raí. Líderes do movimento "Atletas pelo Brasil" que, antes, muito apropriadamente, chamava-se "Atletas pela Cidadania".

O papel desempenhado por estes dois grandes ícones do nosso esporte na articulação e união dos atletas do país para transformar a sociedade é digno de absoluto elogio.

Além de comandarem suas prestigiadas ONGs – Instituto Esporte Educação e Fundação Gol de Letra – que executam programas de inclusão social através do esporte, sobra-lhes tempo para mobilizar a categoria de atletas e ex-atletas para que a transformação social esteja na sua pauta.

Uma dos importantes sonhos pleiteados pelo grupo é que se dê importância ao papel educacional que o esporte possui e, naturalmente, 100% das escolas tenham infraestrutura de quadras poliesportivas e de profissionais de educação física habilitados para trabalhar com a mais moderna concepção do esporte integrado à cidadania (questões de gênero, acessibilidade, pluralidade de modalidades esportivas, etc.)

A mais recente luta, com vitória parcial até agora, foi a aprovação da Medida Provisória n. 620/2013, que altera a Lei Pelé.
Parcial vitória, pois a aprovação ocorreu na Câmara dos Deputados e precisa ser apreciada e votada, ainda, no Senado, para que possa ser sancionada e entrar em vigor.

Basicamente, os pontos em que se sustenta a emenda à Lei Pelé, para se criar e fortalecer um marco de governança corporativa para as entidades de administração do esporte que receberem recursos públicos são os seguintes:

Profissionalização – Obrigatoriedade de remuneração de dirigentes que atuem efetivamente na gestão executiva das entidades.

Alternância – Para entidades que recebam verbas públicas, limitação de apenas uma reeleição em mandatos de quatro anos.

Participação – Garantia de representação da categoria de atletas no âmbito de órgãos e conselhos técnicos.

Contas – Transparência na gestão, inclusive quanto a dados financeiros, contratos, patrocínios e outros aspectos.

E o futebol?

A CBF não recebe dinheiro público. Nunca quis. Para nunca prestar contas a ninguém. Nem aos órgãos de fiscalização. Nem ao povo. Nem ao próprio futebol brasileiro, no que diz respeito ao desenvolvimento da modalidade segundo conceitos modernos de gestão esportiva, como se vê em federações lá fora.

A CBF está de costas para todo mundo. Lá em Miami. E dando de ombros para tudo isso que acontece por aqui.

Mas, não importa. Quanto mais se adia o pagamento dessa dívida social, maior vai ficar a conta, cobrada por todos os Atletas pelo Brasil e, nós, que abaixo assinamos.

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O treino recreativo no planejamento semanal

É procedimento padrão nos clubes de futebol, em diferentes categorias, encerrar a semana de treinamentos com um jogo recreativo. Nesta atividade, os atletas jogam fora de suas posições de origem e, muitas vezes, até os membros da comissão técnica participam.

Com o objetivo de descontrair o grupo e deixar o ambiente "leve" para a partida do dia seguinte, cerca de vinte minutos do tempo de treino semanal são consumidos para dedicar a uma prática sem qualquer relação com o jogar da equipe ou então com o próximo adversário.

E como em nossa atuação profissional devemos buscar a excelência, reflexões e questionamentos sobre os costumes (muitas vezes empíricos) da modalidade devem ser feitos constantemente com o intuito de aperfeiçoá-la.

Sendo assim, surge uma reflexão sobre o tema: será que o treino recreativo é a melhor atividade para encerrar a semana de treinamentos?

Sabemos que, durante um microciclo, a correta distribuição da carga de treino é fundamental para que a equipe tenha condições de atingir o pico de performance na competição. E esta carga (física, técnica, tática, psicológica), interrelacionada para alguns, integrada para outros, ou isolada para outros mais, diminui consideravelmente na véspera da partida.

Apesar da diminuição da carga, o ideal é que a sessão de treino, mesmo com um menor desgaste complexo, proporcione adaptações positivas no sistema.

Sistema que, rodada a rodada, está sujeito a alterações, seja por lesões, suspensões, ajustes na construção diária do modelo de jogo ou até substituições por nível de desempenho.

Com todas estas alterações, os vinte minutos dedicados ao Recreativo podem ser melhor utilizados com repetições de situações de jogo que fortaleçam o sistema e direcione-o para o cumprimento da lógica do jogo.

Inúmeras ações do jogo podem ser reproduzidas com uma baixa densidade. Basta a comissão técnica estar atenta em relação a quais intervenções são necessárias e controlar os estímulos para preservar o metabolismo de jogo, que será utilizado no dia seguinte.

Bolas paradas ofensivas e defensivas, reposições em tiros de meta, primeira e segunda bola, movimentações em arremesso lateral, setor de pressão, distribuição das peças no campo de ataque, saída jogando, ações ofensivas do adversário, ação em setores vulneráveis do adversário, são apenas alguns exemplos do que pode ser treinado na véspera do jogo.

Mas e o Recreativo? Deve ser abolido do futebol?

Se na véspera do jogo a atenção das atividades deve estar voltada para os ajustes necessários da equipe e para o próximo adversário, o início da semana pode ser o dia ideal para esta prática culturalmente inserida no futebol brasileiro.

No início da semana, ainda sem maiores preocupações com o próximo jogo e ainda num processo de recuperação da partida anterior, a justificativa para descontrair o grupo parece mais coerente.

Surgirá então, outro problema: as equipes que perderem na partida anterior também poderão fazer o treino recreativo?

Aguardo sua opinião, caro leitor!

A propósito: quando você realiza o treino recreativo?