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A formação dos goleiros e os momentos do jogo

Com a evolução do jogo de futebol e sua compreensão a partir das teorias da complexidade, admite-se que a contribuição de cada jogador (unidade funcional) para o bom desempenho da equipe (sistema complexo) seja dada pela totalidade (ofensiva, defensiva e transições) que compõe o jogo.

Desta forma, tem-se como pré-requisito a participação efetiva de todos em cada um dos momentos do jogo, respeitando, obviamente, as particularidades de cada modelo, o conceito de que o todo deve ser maior que a soma de suas partes e as regras de ação referentes a cada uma das funções no campo de jogo.

Como no futebol brasileiro, para muitos, a compreensão/intervenção sistêmica está longe de ser atingida, as implicações no jogo resultam num desempenho coletivo aquém do apresentado pelas equipes-referência do futebol mundial.

Se considerarmos as equipes que buscam o controle do jogo com a troca de passes enquanto progridem o mais rápido possível ao gol adversário e que as mudanças do futebol profissional dependem do que é feito hoje nas categorias de base, precisaremos, com urgência, readequar os treinamentos dos goleiros nos centros de formação espalhados pelo país.

Pelo que se tem observado na maioria dos clubes, a preocupação em relação aos goleiros se dá, exacerbadamente (muitas vezes exclusivamente), no momento defensivo. Porém, a mencionada evolução do futebol pede goleiros completos, inteligentes e participativos nos demais momentos do jogo.

Para saber como estão as preocupações da comissão técnica quanto à formação e ao treinamento dos goleiros, abaixo, algumas perguntas:

Em qual local o seu goleiro fica quando sua equipe está em posse no campo de ataque?

O seu goleiro usa bem os pés?

Das reposições que seu goleiro faz no jogo, quantas a equipe se mantém com a posse de bola?

Quantas reposições são feitas no campo de ataque?

Quantas reposições são feitas no campo de defesa?

Quanto tempo o goleiro demora para fazer a reposição?

Quantas coberturas defensivas o goleiro realiza por jogo?

O goleiro escolhe a melhor opção para fazer a reposição?

Quando a equipe está no campo de defesa sem opção de passe ofensivo, o goleiro abre linha de passe adequadamente para ser uma opção na circulação da posse de bola?

Se você é treinador e não está atento a nenhuma destas questões, provavelmente sua equipe irá se desfazer da posse de bola quando a mesma estiver com o seu goleiro ou, no máximo, irá brigar pela "segunda bola".

Se você é treinador de goleiros e para você estas questões são pouco importantes, provavelmente você faz parte do grupo que se preocupa somente com o momento defensivo do jogo.

Se você é preparador físico ou auxiliar técnico, é evidente que para cada erro a equipe terá que correr mais até recuperar a posse de bola. Tal fato precisa ser registrado.

Se não modificarmos a maneira que interpretamos o jogo, continuaremos formando goleiros com gestual técnico perfeito, potentes, com boa velocidade de reação e com boa tomada de decisão para ações defensivas. No entanto, teremos que estar cientes que ignoraremos a inteireza do jogo.

Com uma visão sistêmica, entenderemos as funções do goleiro sob o viés coletivo, onde o sucesso de sua ação de jogo individual dependerá, por exemplo, da rápida mudança de atitude dos laterais para facilitar a reposição, do bom posicionamento do zagueiro para facilitar circulação ou da pressão de espaço e tempo dos meias e atacantes na região em que se encontra a bola para facilitar a cobertura defensiva no chutão do adversário.

Como você treina o seu goleiro?

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Conmebol inaugura era da disciplina

Durante uma partida de futebol, catimba, jogadas violentas, confusões entre torcidas e problemas de acessos aos vestiários e estádios são ingredientes comuns, especialmente no futebol sul-americano.

Entretanto, nas competições promovidas pela Conmebol até o ano passado não havia um Tribunal ou Código Disciplinar, diferentemente do que ocorre no futebol brasileiro que possui Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) e um Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD).

Assim, com o objetivo de trazer maior disciplina às competições sul-americanas, este ano foi criado o Código de Disciplina da Conmebol, em casos de distúrbios nos jogos ou problemas extracampo.

Elaborado ao longo de 2012, o documento é o embasamento legislativo do Tribunal de Disciplina e da Câmara de Apelações, órgãos judiciais recém-criados que entraram em janeiro. Estes tribunais são formados por um advogado de cada um dos dez países membros da Conmebol, distribuídos em cinco para cada câmara, e responsáveis por disciplinar as competições.

Na Conmebol, não há a figura da procuradoria, responsável pelas denúncias. Os clubes que se sentirem lesados poderão entrar com um comunicado formal, através da federação de seu país, para instaurar o procedimento.

Presidido pelo brasileiro Caio César Rocha, o Tribunal de Disciplina compõe-se, ainda, o uruguaio Adrián Leiza (vice-presidente), o chileno Carlos Tapia Aravena, o colombiano Orlando Morales e o boliviano Alberto Lozada. A sua função é fazer o julgamento em primeira instância, analisar os lances violentos, as expulsões e os problemas extracampo dentro de um prazo de até 48 horas.

Os julgamentos ocorrem a portas fechadas e não precisam ser presenciais, e tudo se dá por escrito.

A Câmara de Apelações tem o equatoriano Guillermo Saltos como presidente e é composta ainda pelo peruano Miguel Morales Lavaud (vice-presidente), o argentino Alejandro Marón, o venezuelano Carlos Manuel Terán e o paraguaio Eduardo Gross Brown.

Trata-se de órgão de segunda instância que julgará apenas os casos mais complexos, como doping, corrupção ou casos de penas de maior gravidade, seja pela sanção imposta ou pela infração. Ele não tem tanta preocupação com a questão do tempo e, eventualmente, poderá conceder efeitos suspensivos.

Com a formação da Justiça Desportiva no âmbito da Conmebol, a expectativa é que o "fair play" e a disciplina tornem-se constantes nas competições sul-americanas.

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A história se repete

Há uma máxima entre muitos historiadores que dão conta que a história é cíclica, seguindo processos repetidos ao longo do tempo. Talvez, das poucas coisas que mudam drasticamente a história são as evoluções tecnológicas, cujo tema não é o foco deste texto.

A breve reflexão histórica tem a ver com o comportamento, tanto das grandes estrelas do futebol (ou do esporte) quanto das entidades esportivas em seu modo de gestão. Em ambos, assistimos constantemente casos fortuitos, de erros repetidos, que prejudicam suas respectivas imagens ou trajetória profissional.

Dos atletas, fatos como os de Jobson, Adriano e Bruno (para ficar apenas com atletas brasileiros do futebol) se reproduziram em espelho após Garrincha, Reinaldo e Paulo César Caju, sem a devida compreensão e aprendizagem sobre as consequências de uma vida desregrada na sociedade que afetam a evolução de suas carreiras e pós-carreira.

Seria isso evitável sob a ótica da sociedade ou a “organização futebol” ou a “organização esportiva” poderia adotar medidas profiláticas para que tais fatos não se sobressaiam ante a natureza real da sua prática?

No que se refere às entidades esportivas, será que elas estão devidamente preparadas para tratar com cuidado de questões de ordem pessoal dos atletas? E quais poderiam ser os reais benefícios de medidas que induzam um melhor comportamento de todos os agentes envolvidos neste meio?

A verdade é que os desvios comportamentais são inerentes da condição humana. Em organizações mais evoluídas, como a NBA, ocorrem periodicamente casos de desvios de conduta por parte dos atletas, possuindo, uma resposta e uma atitude mais clara e precisa da entidade para a manutenção de sua imagem corporativa.

O risco de atitudes como a que assistimos de Oscar Pistorius na semana passada, a ponto de manchar a sua idolatria nacional e mundial, além de arrastar todo um segmento que vinha se desenvolvendo em um sentido exponencial e positivo por conta dele para um grande ponto de interrogação pode ser minimizado por estratégias de gestão de crises pelas entidades que o cercam. E isso não é diferente na indústria do futebol.

 

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Você não conhece Bo

Seria possível alguém ser tão bom em dois esportes simultaneamente? E ainda, em nível profissional de atuação? Como se, por exemplo, no Brasil, um atleta de vôlei jogar de centroavante ou zagueiro num clube da Série A do futebol?

Você deve se perguntar se isso já existiu alguma vez, em algum lugar do mundo. Eu também tive esta reação: duvidar, até com certo riso de ironia, se isso seria possível em um mundo de limitações ao talento, particularmente em tempos de competitividade acirrada.

Pois saiba que esta história existe e o personagem ainda vive para incontáveis horas de reflexão, deleite e perplexidade. Vincent "Bo" Jackson foi um garoto-prodígio dos EUA. Desde adolescente, era um fenômeno no atletismo do colégio na mesma proporção em que rebatia bolas no beisebol e corria centenas de jardas no futebol americano.

Sua trajetória está muito bem retratada no documentário da ESPN Films intitulado You don’t know Bo (Você não conhece Bo).

 

Dentre seus feitos, foi o único até hoje a figurar em All-Star Game de dois esportes diferentes nos EUA; ganhou o troféu Heisman como melhor jogador universitário do país e o recorde de 100 m em menor tempo no futebol americano.

Intercalava sua atuação entre temporada de beisebol e de futebol americano, mantendo o mesmo nível físico e técnico. Foi um dos primeiros garotos-propaganda da Nike, ao estrelar uma campanha famosíssima que brincava com o fato de que Bo sabia fazer tudo (Bo knows), além de estrelar videogames.

Sua carreira foi prejudicada e dirigida ao final após uma grave lesão no quadril, quando estava no auge e tudo indicava que iria quebrar muitos recordes. Talento puro, pois os treinadores e ele mesmo diziam que não precisava treinar, ou somente muito pouco, para absorver os fundamentos dos dois esportes.

Hoje, outro ícone do esporte mundial, Michael Jordan, completa 50 anos de idade. Todos os números e feitos de Jordan são superlativos e inesquecíveis.

Jordan, de fato, também desfrutava de um talento inato. Porém, ao contrário de Bo, alguns episódios de insucesso em sua infância e juventude forjaram sua obsessão pela dedicação, treinamento, persistência e convicção que errar era preciso.

Sim, errar era preciso, pois isso o fez buscar sempre a evolução. Seu irmão mais velho era também o mais talentoso em casa. Isso lhe impulsionava a treinar mais para não ficar atrás. Suas mais irmãs estudavam mais do que ele.

No colégio, foi cortado do time. Na faculdade, seu colega de quarto foi escolhido o jogador do ano – embora ele discordasse. Nem entrou na lista de prováveis promessas da universidade.

Em 14 temporadas na NBA fez a história se lembrar dele como o melhor de todos. Porque, em todo treino, levava todos do grupo ao limite, inspirando-lhes vontade de competir e avançar.

"Um dia você pode olhar e me ver jogando aos 50. Não riam. Nunca diga nunca. Porque limite, assim como medos, frequentemente são apenas ilusões", afirmou Jordan.

E como diz Jorge Valdano, um dos fatores mais importantes para o talento evoluir é que se lhe dê e se lhe tenha confiança. Seja para Bo ou para Jordan.

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Quem conta a história

Jacques Lacan, um dos maiores teóricos da comunicação, certa vez usou o seguinte exemplo para explicar a relevância do tema: "Uma cadeira está em uma sala, mas a percepção sobre isso só acontece a partir do momento em que alguém diz isso".

De uma forma extrema, é como se o elemento só existisse porque alguém o nota. Quem conta a história é tão importante quanto o fato.

Não são raros os exemplos de livros e filmes que se tornaram clássicos a despeito de terem tramas rasas. Muitas vezes, o que define a qualidade de uma história é como ela é contada.

Em um exemplo mais cotidiano, para facilitar o entendimento, é como uma piada. A brincadeira pode até ser sem graça, mas um bom intérprete dá a ela um ritmo e um formato interessantes. Nas mãos de um contador ruim, porém, até uma anedota muito divertida pode perder o élan.

Não vi ao vivo o jogo do São Paulo no último fim de semana. Horas depois, li relatos de portais e redes sociais sobre a vitória da equipe tricolor. Pincei expressões como "frango histórico" e "erro bizarro" para descrever a falha de Rogério Ceni no primeiro gol do Ituano.

A falha de Ceni foi expressiva, e isso é claro. No entanto, quando assisti ao lance, não notei nada de "histórico". O esporte, assim como a vida, é uma enorme sucessão de erros.

Temos uma tendência, sobretudo no Brasil, para o rótulo. O esporte mimetiza isso, e o herói de um fim de semana pode ser questionado na partida – ou até no lance – seguinte.

Em dezembro, quando foi eleito pela Fifa o melhor em campo na decisão do Mundial de clubes, Cássio foi alçado ao patamar de herói. Em 90 minutos, tornou-se um goleiro de talento acima da média e de futuro certo na seleção.

Acabou o ano, e Cássio perdeu o início da temporada 2013 por estar no departamento médico. Voltou à meta do Corinthians contra o São Caetano, e falhou feio no segundo jogo, contra o Palmeiras, no último fim de semana. O camisa 12 tentou cortar um cruzamento de Wesley, mas errou a bola e socou o ar. Atrás dele, Vinícius marcou de cabeça o segundo gol alviverde no empate por 2 a 2.

Os 90 minutos contra o Chelsea não são suficientes para julgar Cássio. Os 90 minutos contra o Palmeiras, tampouco. Análises açodadas podem pespegar em atletas algumas características extremamente injustas.

Pense em quantos jogadores de futebol foram "queimados" por um lance ou por um jogo ruim. Muitos deles mudaram de clube e reagiram. Outros sucumbiram ao julgamento popular.

Sempre que vejo julgamentos apressados, lembro de um exemplo extremo. Em 1994, um colégio foi fechado em São Paulo. Proprietários e uma professora foram acusados de abusar sexualmente de alunos de quatro anos. A mídia e o público julgaram prontamente, e a escola Base foi transformada em antro de tudo ruim.

A vida dos envolvidos no caso foi totalmente estraçalhada. E depois, a Justiça mostrou que todos eram inocentes. Mas quem vai restaurar o abalo causado pelo julgamento público a que eles foram submetidos anteriormente?

Na madrugada de quinta-feira, o sul-africano Oscar Pistorius foi preso. Ele é o principal suspeito de ter assassinado a namorada, Reeva Stenkamp, que trabalhava como modelo e levou quatro tiros na mansão do atleta.

O caso levou a fabricante de material esportivo Nike a interromper uma campanha que era protagonizada por Pistorius. Contudo, a empresa emitiu comunicado oficial para dizer que o contrato com o atleta não será rompido até que a Justiça conclua as investigações.

O mesmo tom cauteloso foi adotado pela BT, empresa de telecomunicações que também patrocina Pistorius. Em nota à imprensa, a companhia pediu calma antes de definir o que será da parceria com o atleta.

As posturas de Nike e BT são exemplos de como a comunicação deve se portar diante de um escândalo. Manter associação com o atleta pode até causar algum problema para as empresas se ele for condenado, mas deixá-lo agora seria fazer um julgamento extremamente precipitado.

É claro que o caso de Pistorius é extremo e que extrapola os limites do esporte. Mas se a cautela é um caminho evidente nessa situação, por que não usamos a mesma parcimônia em análises cotidianas sobre o esporte?

Se fôssemos mais comedidos, evitaríamos a criação de heróis inconsistentes. E isso vale para mídia, clubes, entidades e empresas.

Há um conto de Julio Cortázar no livro "Todos os fogos o fogo" em que os personagens alteram constantemente, às vezes em um mesmo parágrafo, o comando da narrativa. Cada um relata os fatos de um modo, e a sobreposição forma a história.

Na vida, infelizmente, são raros os momentos em que mais de uma pessoa conta uma versão sobre um fato. "A história é contada pelos vencedores", diz o aforismo.

Quem trabalha com comunicação precisa ter a exata dimensão do que isso representa. Singelezas no texto ou na postura podem mudar radicalmente o rumo de uma história.

Tive um professor que era radical ao projetar o futuro ideal para a comunicação. Ele não acreditava em imparcialidade, e por isso achava que um caminho viável era o caminho radicalmente oposto.

No esporte, por exemplo, o professor defendia a adoção de relatos tendenciosos e direcionados. Eles seriam cruzados com os dados dos leitores ou espectadores – um torcedor do Flamengo teria uma visão sobre o clássico do último domingo, mas o adepto do Botafogo veria uma versão radicalmente diferente.

Não sei se esse é o futuro para a comunicação, mas considero o caminho mais honesto. A publicação que defende abertamente um candidato é mais verdadeira na cobertura política, ainda que seja parcial.

Tenho amigos que só leem relatos de jogos nos sites oficiais dos times de seus corações. Assim, evitam ficar nervosos com análises falsamente imparciais.

O problema é encontrar o limite para esse conteúdo parcial. O site da Ponte Preta é um caso de quem extrapolou. No último domingo, a página replicou piada de redes sociais e disse que Neymar havia sido expulso no jogo contra a equipe de Campinas apenas para poder ver a participação da namorada em um programa de TV. Foi uma tentativa de fazer graça, ok, mas é o tipo de provocação desnecessária e desmedida.

Quem conta influencia a história. Não há como ser de outra forma. No esporte, que vive de heróis e vilões, é fundamental que os cronistas saibam conduzir dicotomias e resolver conflitos, mas que não busquem saídas definitivas. As certezas são tão volúveis quanto ameaçadoras.

Para interagir com o autor: guilherme.costa@universidadedofutebol.com.br

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O peso das derrotas

Caros leitores,

Trabalhar no futebol é conviver diariamente com a instabilidade profissional. Seja por questões políticas, administrativas ou técnicas, motivos (???) não faltam para que ocorram trocas constantes nas milhares de comissões técnicas espalhadas pelo país. Como sabemos, um motivo em particular potencializa tal instabilidade: as derrotas.

E é sobre elas que discorrerei esta semana.

Sentar, refletir e escrever quando os resultados são favoráveis é muito mais simples. As ideias surgem com fluidez, os argumentos não faltam e as vitórias (para muitos, somente elas) respaldam cada parágrafo que vai sendo produzido.

Se na última temporada a equipe em que trabalho foi derrotada somente por três vezes em vinte e oito jogos, no cenário atual, após quatro partidas, os três resultados negativos consecutivos (3×0; 3×4 e 3×2) já se equivalem aos reveses de 2012.

Tais resultados negativos causaram reações diversas em todos (imprensa, diretoria, atletas, comissão técnica, torcida). Da insegurança dos jogadores à revolta da imprensa que já questionou a permanência do treinador, o momento pede que a derrota seja bem gerida. Para uma boa gestão do fracasso temporário, analisar TODO o ambiente e tentar ser preciso nos procedimentos até o jogo seguinte é fundamental.

Durante a análise do ambiente, muitas reflexões vêm à mente sobre o que fazer diante das derrotas. Eis algumas delas:

Será momento de mudar a maneira que o trabalho é conduzido? Será momento de achar culpados e transferir as responsabilidades do resultado negativo? Será momento de rebater as críticas que temos recebido? O momento pede (tentativas de) substituições significativas no Modelo de Jogo? O momento pede mudanças de jogadores? O momento pede cobranças excessivas aos jogadores? O momento pede contratações?

Além destas, inúmeras outras perguntas certamente renderiam horas e horas de discussão. Como no futebol não há muito tempo para conversa, após um bom diálogo com o treinador, iniciamos os trabalhos da semana cientes de nossas funções na tentativa de revertermos o quadro atual.

É uma semana de pressão, que deve ser amenizada pela comissão para que os jogadores não transportem esta carga para o jogo de domingo. É uma semana de muito trabalho, nem mais, nem menos que nas semanas anteriores, “apenas” muito trabalho. Semana de um maior número de intervenções, de reforços positivos, de feedbacks.

Semana em que a crise não pode ser instalada, a cobrança deve incentivar a melhora e que a vontade de vencer potencializada no ambiente de treino não se confunda com desespero ou desorganização.

É também uma semana de ouvir os jogadores, escutar o que estão pensando, como estão se sentindo e como estão lidando com a adversidade. Ouvir sugestões de melhorias para o desenvolvimento do trabalho pode deixá-los confortáveis para desempenharem o seu melhor.

Você que trabalha com futebol profissional provavelmente já deve ter passado por situações, sentimentos e sensações semelhantes. Como você se comportou? Para você que almeja trabalhar, prepare-se, pois lidar com as derrotas, mais cedo ou mais tarde, será inevitável.

A partir do dia 17/02 todos saberão se os primeiros passos para a reabilitação foram dados. Se sim, estejam certos de que um grande peso (o das derrotas) terá saído das costas de todos. Se não, vamos erguer a cabeça e continuar buscando soluções cientes de que fizemos o melhor que poderíamos.

Encerro afirmando que o que escrevi referente à maneira de enfrentar/interpretar as derrotas advém de opiniões formadas por experiências profissionais e pessoais diversas. Leituras, relacionamentos, acertos, erros, práticas, vivências, estudos, formam a totalidade que é a minha existência, expressa, neste caso, na minha atuação profissional.

Que as minhas opiniões não sejam consideradas uma verdade absoluta e que as derrotas nos sirvam, no mínimo, de aprendizado.

Até a próxima semana!
 

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Depois do carnaval começam os cursos de direito desportivo

É pública e notória a crescente demanda por profissionais com formação nas áreas desportivas, em virtude de Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. Neste esteio três cursos para públicos diferentes começaram a receber matrícula.

Para quem procura um curso que traga conhecimentos amplos em Direito Desportivo como um todo e também em Gestão a SATeducacional (www.sateducacional.com.br) oferece curso de capacitação à distância com início em maio. Este curso conta com apoio de entidades internacionais como a Associação Portuguesa de Direito Desportivo e tem sido procurado, além de brasileiros, por angolanos, moçambiquenses e portugueses.

Aos interessados por curso de especialização (pós-graduação lato sensu), a PUC de Minas Gerais (www.pucminas.br) está recebendo matrículas para seu curso presencial e à distância.

Finalmente, para quem já possui algum conhecimento na área de direito desportivo e pretende alçar voos mais altos, está na iminência de ser lançado, pelas Universidade de Limoges (França) e a Universidad Nacional del Este (Paraguay) (ayca_cap@adsl.net.py) com apoio do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo, o "Master en Derecho, Economía y Gestión del Deporte".

Com titulação de ambas as universidades, este curso conferirá título de mestrado na Europa e em países signatários de tratado do Mercosul, o que auxiliará no reconhecimento pelo MEC.

Além do conhecimento, o curso oportunizará intercâmbio com alunos e profissionais de todo o mundo, bem como poderá abrir portas no mercado internacional.

Urge acrescer que os interessados em cursos de curta duração também possuem alternativas, como curso da Lex Magister (www.lexmagister.com.br) que trata dos Grandes Eventos Esportivos, Direitos do Torcedor e Marketing.

Diante do exposto, o profissional possui um vasto leque de opções para todos os interesses e bolsos a fim de que possa se capacitar e aproveitar as oportunidades emergentes.

Portanto, mãos à obra.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br

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Space dive

Quanto tempo você acha que leva a preparação de um homem para realizar uma grande façanha? Quebrar um recorde mundial? E como se chega até lá? Golpes de sorte, com a ajuda do talento inato? Ou muito planejamento, preparação e capacidade de execução?

Assisti a um documentário que revela os bastidores do fantástico desafio em que se lançou o austríaco Felix Baumgartner, batizado de "Space Dive" (Mergulho no Espaço).

O filme mostra como o "Projeto Red Bull Stratos" (http://www.redbullstratos.com) foi concebido para que um recorde de 50 anos fosse batido: o austríaco voador deveria subir à estratosfera e saltar em queda livre.

O homem que era o detentor do recorde, um coronel aposentado da Força Aérea Americana chamado Joe Kittinger, fora escalado por Felix para ser o chefe de operações na base do Novo México.

Sabiamente, convocou a pessoa que já havia passado por este grande desafio, 50 anos antes, para lhe transmitir toda a experiência e confiança necessárias para alcançar estes números impressionantes: 39 km de altitude; 4min22s em queda livre e a velocidade de 1342 km/h.

Mas, o filme evidencia todas as dificuldades de liderança e gestão de um projeto que envolveu várias pessoas de diferentes especialidades técnicas: médicos, engenheiros, fabricantes de equipamentos.

Foram inúmeros testes e saltos com a roupa que deveria ser utilizada; simulações de laboratório para avaliar riscos de submeter o corpo a situações extremas; uma vez abortada a missão no dia marcado, em decorrência da súbita mudança do clima.

E, após, quatro anos e meio, em 14 de outubro de 2012, os recordes foram quebrados, contando com um investimento de 16 milhões de libras esterlinas.

No futebol, costuma-se analisar e valorizar apenas o momento – normalmente se considera apenas uma dada temporada para que imprensa, torcida e palpiteiros, vaticinem se o resultado final do clube foi de êxito ou de fracassos.

Não se procura analisar um período maior para que, ao menos, uma linha de tendência na evolução ou involução amparasse os acalorados comentários de fim de semana, ao sabor da partida daquela rodada.

Ainda mais constrangedor, nesses casos, é que são poucos os clubes, particularmente no Brasil – o país do futebol, em que todos padecem da soberba e da mania de grandeza – que estabelecem claros e factíveis objetivos.

Todos querem ser campeões de qualquer coisa. Para isso, iludem seus torcedores (sócios) com a anunciação deste objetivo. E se esquecem de bem administrar o patrimônio do clube (aqui incluindo-se a marca e a relação dela com o mercado em sentido amplo); sanar dívidas; não gastar além do que o orçamento indica (que orçamento?); gerir as categorias de base, onde está o DNA criativo do clube e sua fonte permanente de geração de talento e valor financeiro.

Pensa-se que administrar o futebol é um mergulho belíssimo no espaço. Mas não há preocupação com o caminho de volta à Terra.

Muitos não sabem de muita coisa necessária a se fazer no meio desse caminho. Não basta apenas confiar no paraquedas para que abra antes do pouso.

O próprio Felix se equivocou, na fase de testes, sobre qual alavanca acionar. Como estava preparadíssimo, conseguiu ajustar a tempo e chegou bem ao solo.

No futebol brasileiro, sempre houve mais de um paraquedas para salvar os aventureiros. Esse é o problema que impede nossa gestão de evoluir: a crença absoluta na salvação dos devaneios administrativos em clubes e federações.

Ao contrário, Felix acredita em sua competência e em dois paraquedas. Não mais do que isso.

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Tecnologias e o jogo tradicional

Não é nenhuma novidade o amplo e crescente uso das tecnologias pelo homem, aumentando a conectividade com outras pessoas e substituindo as antigas formas de lazer.

Neste aspecto, os jogos eletrônicos aparecem como uma das principais plataformas de diversão para a nossa juventude. O Brasil é tido como a 4º maior indústria de "games" do mundo, movimentando aproximadamente R$ 1 bilhão anualmente, de acordo com a Abragames em publicação no Portal R7 (http://noticias.r7.com/tecnologia-e-ciencia/noticias/mercado-de-jogos-eletronicos-ja-movimenta-quase-r-1-bilhao-por-ano-no-brasil-20121103.html?question=0).

O breve posicionamento do assunto e a busca por números servem para destacar um fenômeno interessante em face dos esportes tradicionais: a fixação da atenção por crianças e adolescentes para o espetáculo esportivo dentro de uma arena de competição.

Digo isso, pois, nesta semana e na anterior, me deparei com situações similares em dois eventos esportivos que tive presente. Em uma competição de tênis de campo (com grandes atletas de calibre mundial) e um campeonato estadual de futebol (com a presença de grandes clubes em campo), percebi que, enquanto os pais acompanhavam o jogo em si, seu(s) filho(s) jogavam "games" em dispositivos portáteis, com baixa ou nenhuma atenção sobre o que ocorria no evento propriamente dito.

Desta constatação, que muitos já devem ter feito, nota-se um distanciamento da linguagem do jovem para com as modalidades esportivas tradicionais.

E a pergunta que fica é: o que precisa ser feito para que a nova geração tenha apreço significativo sobre o esporte? Será que, em um futuro não tão distante, veremos o sumiço em massa de modalidades popularmente conhecidas nos dias de hoje? Qual a dosagem e a medida para o implemento de inovações?

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

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Quando o silêncio é fundamental

Pode parecer paradoxal, mas poucas coisas são mais importantes na comunicação do que o silêncio. Saber quando falar e saber o que falar são coisas que dependem essencialmente dos intervalos. O problema é que a ausência de som tem se tornado cada vez mais rara.

Uma das explicações para isso é a característica da atual sociedade. O advento das redes sociais consolidou um perfil de pessoas que são suas próprias mídias. Todo mundo sempre quis falar e ser ouvido, mas a tecnologia encurtou o caminho para isso.

As redes sociais foram constituídas com a ideia de reproduzir interações reais, ainda que exageradas ou baseadas em personagens falsos. Todo mundo é bonito, inteligente e tem uma vida emocionante na internet – o que, aliás, não é muito diferente do que acontece em um bar ou na pista de uma casa noturna.

A grande diferença entre a internet e o mundo real é o tempo de reação. O comentarista raivoso de um blog ou de um texto talvez fosse amainado se recebesse uma resposta imediata e convincente.

"O que possibilita ou impossibilita a comunicação é, em última instância, o silêncio", escreveu Eduardo Cañizal, pesquisador focado em linguagem não verbal.

Não por acaso, estudos sobre comunicação dão atenção destacada ao silêncio. Até psicanalistas freudianos, que baseiam o tratamento na palavra, valorizam os efeitos promovidos pelos intervalos.

Entender isso é fundamental para qualquer plano de comunicação, e o esporte não é diferente. Ainda assim, há poucos estudos sobre o uso do silêncio nessa seara. E o problema é que, para variar, a ausência de base teórica promove um festival de empirismo, o que aumenta consideravelmente a margem de erro.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com o Atlético-PR. O time rubro-negro decidiu valorizar o site oficial. Para isso, limitou drasticamente o acesso da imprensa durante a disputa do Estadual de 2013.

José Roberto Guimarães, técnico do Amil/Campinas e da seleção brasileira de vôlei feminino, causou polêmica semelhante ao reclamar dos microfones durante um jogo da Superliga. Ele pediu que os artefatos fossem retirados e que a transmissão respeitasse a liberdade do trabalho do treinador.

Nos dois casos, porém, faltou colocar as coisas em perspectiva. É válido que o Atlético-PR tente valorizar o site oficial, mas restringir o acesso da imprensa pode diminuir o impacto – e a relevância, por consequência – das notícias relacionadas ao clube. Zé Roberto, por sua vez, tem de entender que as informações e o áudio são diferenciais fundamentais para a TV, que é parceira e parte fundamental para a existência da Superliga.

Blindagem e restrição à informação são fundamentais para planejar o silêncio, mas levar isso ao extremo pode jogar contra. O esporte, assim como outras searas, precisa entender que o silêncio exagerado pode minar o interesse.

Porque restringir, na comunicação ou na vida, é quase sempre a saída mais fácil. A mais eficiente, porém, é mudar a cultura. Nenhuma lei é tão útil quanto ensinar ao público a importância de determinado comportamento.

Um exemplo contrário foi dado pelo Paris Saint-Germain. O time da capital francesa contratou o astro inglês David Beckham, e uma entrevista coletiva foi agendada para oficializar o acordo com o meio-campista. O evento foi sóbrio e minimalista, mas teve transmissão global pelo site oficial da equipe.

Com um assunto relevante e um serviço de qualidade, o PSG conseguiu turbinar de forma consistente o número de acessos da página do clube. E se a diretoria conseguir aliar isso a uma boa estratégia de produção e distribuição, é possível que o interesse se transforme em receita.

Hoje em dia, são poucos os sites ou veículos de mídia que conseguem vender publicidade e viver disso. Essa regra também vale para plataformas oficiais de clubes ou entidades de futebol.

A dificuldade de vender publicidade, contudo, não se deve à ausência de público. Sites de clubes têm alto contingente de acessos, mas não vendem por terem pouca relevância. E o caminho para a relevância não pode exigir restrição a outros conteúdos.

O caminho para a relevância, como ensinou o caso do PSG, é a oferta de serviços. O que pode intensificar a relação do público com uma página oficial é entender quais são as necessidades dessas pessoas.

É por isso que os sites oficiais de clubes e entidades esportivas em outros países investem cada vez mais em opções variadas. As páginas apresentam estatísticas, produtos, ingressos, planos de sócios e notícias. Conteúdo deve ser visto assim, como um aspecto em um pacote.

Há um aspecto de formação cultural aqui: um bebê que chora é normalmente associado a um problema. Ele reclama por ter fome, sono ou carência, por exemplo. É o tal do "Quem não chora não mama", que se torna uma regra tácita com o passar dos anos.

Bombardear as pessoas de informações pode diminuir a relevância do que é dito. Limitar totalmente o acesso também é um caminho complicado. A distância entre os dois casos, que o futebol ainda precisa aprimorar, é percorrida com pesquisa e planejamento.

Para interagir com o autor: guilherme.costa@universidadedofutebol.com.br