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Manutenção da posse da bola no campo de ataque: diferenças entre o FC Barcelona de Guardiola e do FC Barcelona pós Guardiola

Para os que acompanham ou estudam futebol europeu a mais tempo, quando o FC Barcelona venceu o Santos na final do Mundial de Clubes da Fifa 2011, nenhuma surpresa emergiu daquele belo, contagiante e eficaz futebol.

Para os que viam pela primeira vez a equipe catalã, inevitável o êxtase futebolístico.

Uma equipe rápida na transmissão da posse da bola, com grande voracidade para recuperar-la, de pouquíssimos erros de passe, um tempo em sua posse, impressionante e além de tudo, baixa (em estatura).

O treinador na época, Josep Guardiola.

O tempo passou, o FC Barcelona mudou de treinador e aumentou a expectativa para saber se aquele esplendoroso time na forma de jogar era um Barcelona de Guardiola, ou se Guardiola é que era um treinador de Barcelona.

A dúvida que pairava entre linhas, sobre a contribuição do treinador para o “jogar” da equipe, poderia se extinguir com a sua saída – bastaria para isso continuar acompanhando os jogos da equipe catalã.

Pois bem.

O tempo passou, e muitos jogos depois algumas constatações podem ser feitas.

A primeira delas é de que sobre o Modelo de Jogo, em sua essência, nada de muito diferente – e o que se apresenta diferente, talvez seja mais resultado de uma auto-organização coletiva por parte dos jogadores do que de uma concepção diferente para se jogar.

De qualquer forma, é sobre uma dessas diferenças que pretendo debater rapidamente.

E ela trata exatamente de algo que na essência parece não ter mudado, mas que na forma e conteúdo tem lá algumas alterações: falo da manutenção da posse da bola no campo de ataque da equipe do FC Barcelona.

De maneira geral, o time de Guardiola e o time pós Guardiola, apesar de manterem a posse da bola como característica, apresentam algumas coisas que merecem destaque. Especialmente, porque o Barcelona pós Pep parece ter que se esforçar mais para atingir melhores níveis de jogo, com relação a esse quesito, do que o de Pep (Guardiola).

Uma das coisas que mudou tem relação com a diferença na estruturação dos espaços por parte dos jogadores, no momento de compor a geometria da equipe no campo de ataque para tentar circular a bola.

No pós Guardiola, ainda que o esquema tático matriz continue sendo o 1-4-3-3 (variando bem menos para o 1-3-4-3), já no campo de ataque e em organização de posse de bola, ele se transforma dinamicamente em um 1-2-4-1-3 que varia para um 1-2-3-1-4.

Nesses esquemas (1-2-4-1-3 e 1-2-3-1-4), há uma aparente preocupação em tentar construir mais solidamente um 1-2-4-4; porém por vezes a linha do meio e por vezes a linha de ataque “cedem” um de seus jogadores para fazer o “1” entre elas.

Em geral, a linha de ataque de quatro jogadores se constrói com os atacantes e um dos laterais e/ou um dos meias.

Há, porém, no Barcelona pós Guardiola uma dificuldade maior para circular a bola de um lado ao outro do campo sem que ela tenha que passar pelos zagueiros da equipe.

Isso de certa forma aumenta a dificuldade para que a equipe encontre vantagem numérica pelas laterais do campo em jogo apoiado – gerando maior necessidade de que os zagueiros apostem em diagonais mais longas para os jogadores da “amplitude” da equipe.

A necessidade de utilizar os zagueiros com mais frequência acaba baixando muito o jogo da equipe – exigindo maior movimentação vertical de meias, volante, laterais e atacantes.

A posição do “volante” da equipe, seja talvez a mudança estrutural mais importante, por que sua entrada na linha de quatro jogadores do meio campo força muitas vezes a circulação para trás (para os zagueiros) quando a bola está com um dos laterais, ou que eles tentem passes de maior risco buscando pelos meias da equipe.

Na “era Guardiola”, o esquema tático matriz também era o 1-4-3-3 (variando bastante para o 1-3-4-3). No campo de ataque e em organização de posse de bola, uma estrutura bem dinâmica, a partir de um 1-2-1-4-3 variando para um 1-2-1-3-4.

E aí já se evidencia uma grande diferença, porque o “1” nesse caso é uma posição entre a linha dos dois zagueiros e da linha de meio, de três ou quatro jogadores (e não entre a linha do meio e de ataque).

Claro que como a linha de ataque varia entre três e quatro jogadores (1-2-1-4-3 ou 1-2-1-3-4), há uma chance permanente de um jogador transitório estar entre essas linhas quando está trocando de uma para outra.

É importante então destacar que o FC Barcelona de Guardiola conseguia mais facilmente manter a bola no campo de ataque, circulando-a sem ter que baixar demais sua linha, justamente pela preocupação posicional com jogador na função/posição de volante.

A ocupação do espaço do “volante” também garantia maior mobilidade e troca de posições entre zagueiros e o próprio volante – algo muito mais frequente na “era Guardiola”.

A equipe de Josep Guardiola, sempre com muita amplitude na ocupação do espaço de jogo, tratava dessa variável como responsabilidade direta dos laterais e ou meias para dar mais liberdade aos atacantes, tanto do lado da bola quanto o do lado oposto a ela.

Apesar do FC Barcelona pós Pep também fazer uso dos laterais e meias na amplitude da equipe, ele (o uso) se dá mais na região da intermediária ofensiva do que na segunda metade (metade final) do campo de ataque.

A possibilidade direta de contar com laterais e meias trocando de posição para dar amplitude a equipe possibilitava também ao FC Barcelona de Guardiola uma incrível mobilidade por parte dos atacantes (horizontalmente falando) e dos próprios meias entre si.

A disposição diferente para ocupar o
espaço do campo de ataque em posse de bola para circulação, na equipe de Guardiola, conseguia pelo tipo de interação e proximidade setorial entre os jogadores, também ter uma transição defensiva mais agressiva e efetiva – já que muitas vezes permitia a equipe recuperar a bola no campo de ataque e ainda mantê-la por lá (sem sobrecarregar demais, especialmente os laterais do time).

Claro, como mencionei no início, o Modelo de Jogo do FC Barcelona, com ou sem Guardiola, continua sendo, em sua essência, o mesmo – especialmente pela bem definida Filosofia de Jogo do clube.

Mas que as coisas mudaram, mudaram.

Esse foi só um pequeno exemplo, que pode nos ajudar a entender por que certos padrões não se sustentaram facilmente e espontaneamente com a troca de treinadores.

Vamos agora esperar o Guardiola no alemão Bayern de Munique e ver o que acontece.

Por hoje é isso…
 

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

 

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O treinamento da organização defensiva

A construção dos comportamentos coletivos de organização defensiva pode ser feita de diversas maneiras. Com um treinamento em forma de situações de jogo, os atletas vivenciam um ambiente semelhante ao da competição e, dessa forma, podem estar mais preparados para responderem adequadamente a imprevisibilidade, inerente ao futebol.

Estudiosos da modalidade afirmam que defender organizadamente é pré-requisito para atacar bem, afinal, ao se cumprir com o objetivo da organização defensiva (recuperação da posse de bola) a equipe deve estar distribuída espacialmente de forma a facilitar a transição e organização ofensivas.

Dando continuidade às sugestões de regras para treinamentos que favoreçam um jogar de qualidade, tema abordado em quatro colunas ao longo do ano passado (parte I, parte II, parte III, parte IV), nesta semana as regras propostas pretendem levar ao aperfeiçoamento da fase defensiva.

Para aperfeiçoar o pressing setorial, lembrando da importância da manutenção da plataforma de jogo da equipe durante esta ação coletiva, seguem as sugestões de regras:

•Marcar o campo com diversos gols-caixote e dar ponto a equipe que conseguir efetuar um passe certo, ou então conseguir passar com a bola dominada, entre o gol caixote. Distribuir pelo menos quatro gols-caixote ao longo da mesma linha horizontal do campo de jogo. Na medida em que a equipe aperfeiçoar o mecanismo de pressão espaço-temporal, deve-se diminuir a distância vertical entre os gols-caixote. Proteger diversos gols caixote além do gol oficial induz os jogadores a subirem a linha de marcação de acordo com o setor em que iniciará as pontuações;

•Demarcar setores do campo em que, obrigatoriamente, o adversário deverá ter sido pressionado por mais de um jogador antes de efetuar o passe ou sair do setor com a bola dominada. Caso a pressão (espaço-temporal) não aconteça, a equipe que tem a posse de bola pontua;

•Demarcar setores do campo que, estrategicamente, são regiões em que a equipe tentará a recuperação da posse de bola. Recuperar a posse nestas regiões, ou o adversário errar um passe com ao menos um defensor na região (na tentativa de forçar o erro) no momento do passe, vale ponto para a equipe que defende;

•Qualquer troca de passe pra frente vale ponto para equipe que ataca. Se houver quatro passes consecutivos, a pontuação é dobrada. Esta regra pode ser realizada em toda a extensão do terreno de jogo, porém, aconselha-se utilizar a regra, inicialmente, em áreas menores;

Muitas vezes, as ações de reposição e bolas paradas relativamente distantes do gol geram surpresas fatais (que terminam em gols) à equipe que está se defendendo, pois a mesma demora a se organizar após a interrupção do jogo, seja pelo apito do árbitro, seja pela saída da bola.

A equipe ter um mecanismo coletivo defensivo que aumente a incidência de recuperações da posse neste tipo de situação pode ajudá-la a cumprir a Lógica do Jogo. Sendo assim, nos treinamento, deve-se punir a ineficiência desta ação defensiva, pois, com o jogo interrompido, a equipe tem condições de partir da organização no caótico sistema-jogo. E como defender é mais fácil do que atacar, a referida organização deve recuperar a posse de bola ou, no mínimo, afastar a bola do próprio alvo.

Abaixo, alguns exemplos de regras:

•Toda reposição no campo de defesa em que a equipe que estiver com a posse de bola conseguir ultrapassar o meio campo com a bola dominada, por condução ou passe é ponto. Esta regra obriga o rápido posicionamento da equipe sem bola próximo ao setor da reposição, neutralizando adversários e regiões perigosos;

•Toda reposição de lateral cobrada no campo de ataque verticalmente (no sentido da meta adversária) em que a equipe que está com a posse conseguir dominar a bola, vale ponto;

•Toda cobrança de falta na região intermediária de ataque (entre as linhas 2 e 3) em que a equipe conseguir trocar dois passes verticais, invadindo o último quarto do campo, equivalem a ponto. Esta regra induz à rápida organização defensiva, evitando cobranças curtas que terminem em cruzamentos ou finalizações.

•Aumentar a pontuação do gol sofrido a partir de situações de reposição e bolas paradas;

Todo treinamento deve promover o enriquecimento do nível de desempenho coletivo apresentado pela equipe. Com isso, pretende-se que todos os atletas consigam interpretar os problemas que acontecem no jogo da mesma forma e que as interpretações coincidam com aquilo que são suas ideias de jogo. Para facilitar a interpretação dos problemas defensivos por parte dos jogadores, dominar as referências como, regiões do campo, adversários, bolas paradas, reposições e própria meta, será indispensável.

Se este processo for respeitado, seguramente, passos importantes para a vitória estarão sendo dados, pois, ratificando, defende-se bem para atacar melhor!

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

 

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Os incidentes ocorridos na reinauguração do Mineirão e os direitos do torcedor

No último domingo, 3 de fevereiro de 2013, enfim, o estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, foi reinaugurado após reformas necessárias para receber partidas da Copa das Confederações e da Copa do Mundo. Para tanto, não poderia haver oportunidade melhor do que o maior clássico das "Minas Gerais", um Atlético e Cruzeiro, valendo pelo Campeonato Mineiro.

Entretanto, a organização do evento não correspondeu à sua magnitude. Os problemas começaram já na venda dos ingressos. Sistemas indisponíveis, desorganização e longas filas foram a tônica das vendas. Como se não bastasse, os ingressos estamparam nome incorreto do mandante. Ao invés de Cruzeiro Esporte Clube, constou Cruzeiro Futebol Clube.

No caminho do estádio não foi diferente. Vias congestionadas, filas para entrar no estacionamento, ausência de vagas, transporte público ineficiente. Para piorar, os novos estacionamentos do estádio, além de possuírem menos vagas do que o recomendado pela Fifa (que exige uma para cada seis torcedores), somente foram abertos duas horas antes da partida.

A isto soma-se o fato de não haver placas indicativas de localização e total desinformação dos orientadores que pouco sabiam informar.

Ao adentrar no estádio, os problemas não cessaram. Ao contrário, foram agravados. Havia apenas dois bares abertos para quase 60 mil presentes. Torcedores que se programaram para comer no Mineirão sofreram com a ausência de alimentos. A falta de água para vender foi agravada pelas imensas filas nos bebedouros e, mais tarde, pela interrupção no fornecimento de água.

Nos banheiros, não havia papel higiênico e tampa de vaso, além de estarem sujos e com inúmeras goteiras. Aliás, goteiras, paredes sem reboco, detalhes de construção inacabados encontrava-se em toda extensão do estádio.

Diante de todo caos, o esperado era que os orientadores estivessem preparados. Não obstante isso, os orientadores estavam completamente perdidos, não sabiam conferir as informações adequadas, não controlaram os assentos, deixaram de fiscalizar e permitiram que torcedores assentassem nas escadas, debruçassem nos parapeitos e circulassem livremente entre os diferentes setores e quem procurou atendimento médico surpreendeu-se com a informação de que só havia um posto médico.

Medidas simples de segurança, obrigatórias nos eventos da Fifa foram inobservados, como controle de ingressos metros antes do estádio, retirada de entulhos e escada de construção e controle de circulação de torcedores entre os setores.

Enfim, no que tange ao respeito dos direitos do torcedor, instalou-se um caos e uma tarde de diversão transformou-se em tortura. Muitos torcedores foram embora no intervalo.

Muito se fala da responsabilidade da Minas Arena, concessionária responsável pela administração do local. Entretanto, nos termos dos artigos 3º e 14 do Estatuto do Torcedor, o Cruzeiro, mandante, seus dirigentes e a Federação Mineira de Futebol, organizadora da competição, são corresponsáveis pela atenção aos direitos do consumidor no evento esportivo com a previsão, inclusive, de destituição e suspensão de dirigentes.

O artigo 28 do Estatuto do Torcedor determina que os alimentos tenham qualidade com preços não excessivos. O que se viu, foi a inexistência de alimentos para o volume de torcedores e preços extremamente abusivos com refrigerantes e picolés de fruta a seis reais.

Diante de tudo isso, restou clara a existência de vícios (defeitos) nos serviços prestados, o que enseja nos termos do artigo 20 do Código de Defesa do Consumidor (aplicável subsidiariamente ao Estatuto do Torcedor) restituição ou devolução na quantia paga.

Ademais, estes torcedores sofreram danos morais ao serem submetidos à falta de segurança, à falta de água, de comida, de banheiros adequados, enfim, às condições mínimas de permanência no evento esportivo. A isso, some-se o fato de que, apesar de ter havido venda diferenciada de ingressos, todos puderam compartilhar do espaço como um todo. Enfim, criou-se toda uma expectativa para uma tarde de diversão, que tornou-se um pesadelo.

A fim de buscarem o ressarcimento pelos danos sofridos, os torcedores devem procurar os órgãos de proteção às relações de consumo, como Procon e Juizados Especiais, bem como contatar advogado de sua confiança.

O que se espera é que os fatos lamentáveis não voltem a se repetir e que o cidadão prejudicado exerça seu dever de buscar nas autoridades competentes medidas repressivas e punitivas aos responsáveis, eis que o respeito aos direitos conquista-se pelo seu uso reiterado.

Apesar de ter errado ao receber a obra sem os ajustes finais, o Estado de Minas Gerais deu o primeiro passo ao multar a concessionária Minas Arena em um R$ 1 milhão pelo desrespeito aos torcedores.

Entretanto, as medidas contrárias aos responsáveis pelos fatos relatados devem se estender, eis que tem-se notícias de grupos de torcedores se organizando para adotarem medidas judiciais e de instauração de inquérito civil pelo Ministério Público de Minas Gerais.

Portanto, ante o exposto, percebe-se que houve graves violações ao Estatuto do Torcedor e ao Código de Defesa do Consumidor passíveis de punição e indenização aos torcedores/consumidores prejudicados.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br

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José Mourinho e o método da complexidade

José Mourinho é já um nome marcante da história do futebol. Ainda ele não tinha vencido qualquer competição internacional já eu escrevia sem receio que ele seria, para o treino, o que o Pelé e o Maradona tinham sido para a prática do futebol.

Hoje, sinto-me mais afoito para adiantar que o José Mourinho não tem par como treinador – como o Pelé e o Maradona e ainda Cristiano Ronaldo e Leo Messi não têm par, no meu modesto entender, como jogadores de futebol. Acrescento ainda: ele é e será uma das principais referências para uma compreensão do futebol atual. E por quê? Porque foi o primeiro treinador a utilizar (e com indiscutível sucesso) o método da complexidade! Já escrevi inúmeras vezes: "É o homem que se é que triunfa no treinador que se pode ser".

Quero eu dizer na minha que, sem capacidade de liderança, sem eloquência natural, sem uma sábia leitura de jogo, sem uma comunicação que permita uma constante motivação – não é possível exercer-se a profissão de treinador de futebol. Mas, para o nosso tempo, no futebol, como em qualquer outra área do saber, há necessidade que o treinador seja um "trabalhador do conhecimento", liderando uma equipa técnica de "trabalhadores do conhecimento". E qual é o tipo de conhecimento em que deve especializar-se um treinador? Numa nova ciência hermenêutico-humana…

Em 1982, frequentava o José Mourinho o primeiro ano da universidade e era eu o seu professor de Filosofia. Perguntei-lhe um dia o que pretendia ser ele, depois de licenciado. Respondeu-me, no seu estilo breve e lapidar: "Quero ser treinador de futebol!".

Diante da sua firme convicção (que me enterneceu, pois que se tratava do sonho de um jovem) respondi-lhe: "Mas nunca se esqueça de que, para saber de futebol, é preciso saber mais do que futebol!". Há mais de 40 anos que venho insistindo: "Para saber de desporto, é preciso saber mais do que desporto". E por quê? Porque o desporto (e, portanto, o futebol também) não é só uma atividade física, é verdadeiramente uma atividade humana!

O que está em jogo no futebol é a complexidade humana. No tempo em que José Mourinho era universitário, ainda o saber científico dominante era disjuntivo e analítico: separava, isolava para conhecer. A dispersão era a sua marca mais evidente. Hoje, é preciso dizer "não" a Descartes e unir… para conhecer!

E, quando no futebol (como o José Mourinho o faz de modo incomparável) se junta, na mesma totalidade, o físico, o biológico, o emocional, o intelectual, o espiritual, o moral – o simples é aparência, o fundo do ser é complexo e, portanto, onde tudo está em rede, onde tudo tem a ver com tudo! Enganam-se os que pensam que o futebol é uma coisa simples. Porque é uma atividade humana, é indubitavelmente complexa. No futebol (como no desporto) não há saltos, mas pessoas que saltam; não há chutes, mas pessoas que chutam. Se não conhecer as pessoas que saltam e chutam, jamais conhecerei os saltos e os chutos.

O doutor José Mourinho (ele é doutor pela Universidade Técnica de Lisboa) viu, antes de qualquer outro treinador, que o futebol deveria estudar-se, analisar-se, investigar-se, à luz das ciências humanas e o método a utilizar-se seria o da complexidade. E foi porque descobriu a complexidade, no futebol, antes dos seus colegas de ofício, que ele começou por mostrar a sua genialidade.

A grande revolução que é preciso, imperioso e urgente realizar no futebol foi a que ele fez e vem fazendo: numa equipe de futebol, o jogador é mais importante do que a tática porque, sem o jogador, não há tática. Já não basta uma periodização tática, é necessária, e com urgência, uma periodização antropológica e tática. É isto o que nos exige o método da complexidade de que o doutor José Mourinho é um magnífico cultor.

Um ponto a salientar: quanto mais complexos são os processos, maior é a zona de indeterminação. Mas é precisamente nos momentos de indeterminação que deverão surgir a lucidez e a serenidade do líder que há de ser, acima do mais, um grande "mestre da vida". Engana-se o homem que, por ser violento, julga que é forte. A violência, doença da força, só conduz aos triunfos efémeros. As grandes vitórias pertencem às naturezas calmas, aos heróis tranquilos que, antes de pretenderem dominar os outros, aprenderam a dominar-se a si mesmos.

O futebol é o fenômeno cultural de maior magia, no mundo atual. E, por isso, problemático, excessivo de sentidos e uma inesgotável rede de significações. Pensar é dialogar com o mundo convulso que nos rodeia e transformar a anarquia dos sinais no princípio de um mundo diferente. Um futebol absolutamente ordenado não existe (ao nível do mundo todo, antes de nós, já o compreenderam Aristóteles e Hegel).

Mas, existe o meu querido amigo José Mourinho que, no meio de um futebol anárquico, soube encontrar o sentido de um futebol novo. Daí, a sua genialidade. Não, o José Mourinho não é um gênio porque aparece, esplendoroso, na comunicação social e no mundo digital. Por lá, saltita muita gente que o tempo apagará depressa. Ele é, de fato, um gênio, porque viu o novo, antes dos outros.

As grandes revoluções científicas não nascem da subordinação ao que está estabelecido – nascem da recusa do que está estabelecido! Com José Mourinho nasceu um novo tempo no futebol, porque ele disse "não" ao saber dominante. Furtando-se à simples linearidade na história, recusando uma evolução que não passa de repetição, assumindo um corte epistemológico – José Mourinho aparece em toda a sua grandeza de fazedor de um corte epistemológico na história do futebol. E, portanto, de um novo logos, de um novo método, de um novo sentido, que um sem número de vitórias inolvidáveis assinalam e confirmam.

Não me interessa falar de um José Mourinho efêmero, sujeito às contingências da opinião pública, mas do José Mourinho eterno, criador de ciência e de conhecimento. Para um homem da sua estatura intelectual e com o seu currículo desportivo, importa esquecer o que não há interesse em ser lembrado e lembrar o que seria injusto que ficasse esquecido.

Como treinador de futebol, José Mourinho, pelo seu currículo, é o melhor treinador da história do futebol. Os adeptos do Real Madrid vão concluir isto mesmo, no dia em que ele abandonar os "merengues". É que o treinador que vier, depois dele, não faz melhor, nem se aproxima sequer do seu desempenho.

Enquanto não entendermos que o José Mourinho é um treinador genial, ficaremos sempre muito aquém de uma explicação (e compreensão) científica do atual treina
dor do Real Madrid. Científica? Sim, científica. No futebol (repito-me) encontramo-nos na área das ciências humanas, onde o método é o que decorre do pensamento complexo. Coisas que o José Mourinho sabe, há trinta anos!

*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.

Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br

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Novos estádios, velhos hábitos

Assistimos no último final de semana o clássico entre Cruzeiro e Atlético-MG na reabertura do belíssimo Mineirão, lotado, em uma arena concebida com todas as características exigidas pela Fifa. Até aqui, tudo ótimo.

Os problemas começaram a aparecer na operação do equipamento, que foram amplamente relatados e mostrados pelos meios de comunicação e que culminou com a punição ao consórcio gestor pelo poder público.

O breve relato e contextualização não deve ser novidade para o leitor. A reflexão sobre o ocorrido deve ser norteada para um ponto que temos debatido há algum tempo: como transformar a frequência do torcedor em um movimento mais contínuo, permanente, sem os altos e baixos dos resultados esportivos?

A resposta clara e lógica está aí: tratar bem o torcedor, nos mínimos detalhes. Portanto, se queremos que a taxa de ocupação nos novos estádios seja elevada precisamos fazer o simples, que qualquer manual de atendimento ao consumidor nos recomenda, como reduzir o tempo de espera para atendimento em quiosques e restaurantes (equipando o local para um número proporcional de pessoas), ter água no banheiro, ter um local amplo e de fácil locomoção interna e externa e assim por diante.

Se, após a correção da qualidade dos serviços nos estádios for feita, a adaptação de preços de mercado para os ingressos e a continuidade de investimento no espetáculo em si não tivermos resultados concretos sobre o aumento nas taxas de ocupação, é que poderemos recomeçar o debate sobre os horários dos jogos, a violência, o transporte público e por aí vai. Por enquanto, precisamos resolver nossos problemas internos…

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

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Problemas daqui e problemas de lá

Tudo aconteceu no último fim de semana: na Europa, a Europol desmantelou um esquema de manipulação de resultados em diferentes competições de futebol; nos Estados Unidos, uma queda de energia paralisou durante mais de 30 minutos o Super Bowl, jogo que decide a liga profissional de futebol americano (NFL); no Brasil, falta de água corroborou uma extensa lista de defeitos do reformado Mineirão, reinaugurado no domingo. Independentemente de lugar, perfil ou proporção, todo evento é suscetível a contratempos.

O que diferencia as realidades (e as consequências delas, obviamente) é como os responsáveis se comportam. Problemas acontecem, mas uma comunicação eficiente pode evitar que eles reverberem.

No Super Bowl, por exemplo, o serviço de comunicação do estádio em Nova Orleans deu constantes satisfações sobre a queda de energia. Foram 36 minutos de paralisação, mas ninguém que estava no local ficou abandonado ou desinformado.

O público em casa, que via pela TV o duelo entre San Francisco 49ers e Baltimore Ravens, também recebeu constantes informações sobre o prazo até o jogo ser retomado. Ainda assim, houve vaias no estádio e críticas fora dele.

Na manhã de segunda-feira, Eric Grubman,vice-presidente de negócios e operações da NFL, concedeu entrevista coletiva para falar sobre o Super Bowl. E o apagão, é claro, foi um dos principais temas. "Nós fomos rápidos para determinar que não era algo definitivo e que seria possível arrumar o problema em pouco tempo", minimizou o dirigente.

O roteiro no Brasil foi bem diferente. Atlético-MG e Cruzeiro disputaram clássico no Mineirão, estádio que foi reaberto depois de reforma para receber a Copa das Confederações de 2013 e a Copa do Mundo de 2014. Houve enorme confusão na venda de ingressos, e o equipamento estava claramente inacabado. Além dos problemas comuns em um primeiro evento, houve um aspecto mais grave: faltou água em banheiros e bebedouros.

A reação imediata foi uma multa à concessionária Minas Arena, empresa criada para gerir o novo Mineirão. Mas não houve, antes, durante ou depois do jogo, uma comunicação voltada a minimizar as críticas. Não houve sequer um pedido de desculpas aos torcedores que foram maltratados no estádio reformado.

O caminho na Europa é ainda mais moroso. A Europol desmontou um esquema de manipulação de resultados em jogos oficiais de futebol, mas isso ainda não gerou comoção. A investigação já citou mais de 300 jogos, mas há uma crença de que a crise pode ser maior e mais abrangente.

Não há nada mais importante para comunicação do que planejamento. É importante que os responsáveis por um evento tentem prever problemas, falhas e erros. É importante que eles estejam preparados para isso. Mas quando as coisas fogem do script é que o talento desses profissionais é realmente testado.

Isso não vale apenas para o esporte, evidentemente. No entanto, o esporte tem um componente diferente de outras searas. Por ser mais emocional e mais passional, o segmento acompanha reações bem mais exacerbadas. A repercussão é maior.

Os exemplos do último fim de semana são extremos, mas não é preciso chegar a isso. Qualquer crise ou sequência de resultados negativos oferece no esporte a chance de uma comunicação que contenha crises. Para isso, é fundamental seguir o roteiro do Super Bowl: blindagem, informações com perfil oficial, satisfação ao cliente e respostas contemporizadoras.

E por falar de futebol americano, um jogador da NFL deu uma aula de como usar a mídia para consolidar idolatrias. A história foi protagonizada por JJ Watt, que defende o Houston Texans.

Tudo começou com uma garotinha, em um vídeo que os pais dela publicaram no Youtube. A menina diz que gostaria de ter 25 anos, e a mãe pergunta por quê. Ela responde que quer se casar com Watt.

O vídeo repercutiu e chegou ao jogador dos Texans, que resolveu responder. Watt pediu ajuda nas redes sociais para localizar a garota. Na última semana, encontrou-se com ela e a pediu em casamento "de mentirinha", com direito a flores e anel.

Nos maus e nos bons momentos, a comunicação eficiente depende de uma dose alta de preocupação com quem está do outro lado. Watt não seria menos ídolo da garotinha se tivesse ficado calado, mas tornou-se ainda mais importante para ela por ter respondido de forma tão carinhosa.

Oportunidades aparecem constantemente para quem trabalha em comunicação. Para quem tem capacidade de improviso e competência, até uma crise pode ser motivo para se aproximar do público.

Afinal, quando manifesta amor ou quando vaia uma queda de energia, o público é a verdadeira razão de o esporte existir.

Para interagir com o autor: guilherme.costa@universidadedofutebol.com.br

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Futebol e dialética

Leio, ainda, sem tê-lo finalizado, a biografia “The King of the World”, sobre Muhammad Ali.

Em português, encontra-se a versão “O Rei do Mundo”.

Escrito pelo ganhador do Prêmio Pulitzer nos EUA, David Remnick, o livro busca abordar a importância de Ali como grande ícone social, cultural, político e, obviamente, esportivo, no país.

Mais do que se preocupar com situações comezinhas da vida do lutador, conhecido como The Greatest (“O Maior”), a narrativa desconstrói o papel dos boxeadores na sociedade, o racismo, luta pelos direitos civis, suas relações com a máfia que controlava o esporte, e o protagonismo de Ali, como representante de transformações a partir de sua carreira profissional vitoriosa.

E o autor adotou um caminho muito interessante para alcançar esse desafio.

Inicia o livro descrevendo os dois grandes lutadores que antecederam Ali como número dos Pesos-Pesados do boxe mundial: Sonny Liston e Floy Patterson.

Sonny cumpria o papel de o “Negro Bom”. Essencialmente, isso significava que era tido como bom moço pela opinião pública; que ascendera socialmente através do esporte; que não se envolvia em polêmicas dentro ou fora dos ringues; que não contestava esse papel, pois com ele se conformava.

Já Patterson era o “Negro Mau”. Infância e juventude turbulentas; problemas e desajustes familiares; delitos como agressão, porte ilegal de armas; perfil agressivo com a imprensa; revoltado com a sociedade que lhe criara dessa maneira; envolvimento umbilical com a máfia que controlava o esporte.

Um deles poderia ser a tese do que se deveria esperar de um boxeador na teia social. O outro, a antítese, não apenas no aspecto moral, mas como grande diferença que havia em comparação ao seu par.

E Ali surge para ser a síntese dos dois lutadores, transcendendo a figura de cada um deles para se tornar o maior.

Consciente de sua influência, ele foi contestador das desigualdades e dificuldades sociais, raciais e religiosas nos EUA; combativo politicamente, particularmente ao defender a luta pelos direitos civis; provocador dos seus adversários; domador da imprensa enlatada que cobria o esporte à época; desafiador do Estado que lhe queria impor o serviço militar no Vietnã; insurreto junto à máfia.

Jamais se curvou perante alguém. Defendeu ativamente seus pontos de vista, suas decisões e suas ações.

Esse foi seu grande e inspirador legado, já há algum tempo muito bem administrado e compartilhado pelo Ali Center, fundação em Louisville, Kentucky.

Resumidamente, a transcendência representada por Ali, em sua trajetória, pode ser bem compreendida pelos “seis princípios básicos para inspirar jovens e adultos para alcançar a grandeza em suas vidas, comunidades e países”:

1. Confiança: acreditar em si, em suas habilidades e em seu futuro;

2. Convicção
: firme crença que lhe dá coragem para sustentá-la, apesar da pressão para fazer o contrário;

3. Dedicação
: o ato de devotar toda energia, esforço e habilidade para determinada tarefa;

4. Doação
: agir voluntariamente sem esperar nada em troca;

5. Respeito
: estima, ou senso de valor e excelência, por si e pelos outros;

6. Espiritualidade
: senso de veneração, reverência e paz interior, inspirado por uma ligação com toda a criação e/ou com aquilo que é maior que a si mesmo.

Convido a uma reflexão a respeito do que poderíamos extrair como exemplo, ou, até mesmo, criar, construir, em nosso futebol.

Penso que o ponto de partida seria seguir tentando chamar a atenção, criticamente, para o importante papel do futebol como meio de transformação social no Brasil e no mundo.

A partir disso, construir teses que, por sua vez, provocariam o surgimento de antíteses, sintetizando a evolução social. Que se converteriam em novas teses.

Num contínuo processo dialético em que o futebol seria protagonista.

Já passamos por períodos “bons” e períodos “maus”.

Podemos começar a imaginar um cenário que os transcenda.
 

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

 

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A formação, o futsal e a especificidade

Dia após dia, a discussão sobre a formação de atletas no Brasil vem ganhando força. Do viés administrativo, relacionado à necessidade de investimentos de infraestrutura e aperfeiçoamento gerencial, ao técnico, correspondente à qualificação do corpo técnico e consequente evolução dos métodos de treino, é nítida a movimentação de pessoas, clubes e instituições que buscam e aplicam novos processos no futebol de base.

Diante deste cenário (que não será modificado mesmo com exemplos recentes de incompetência), dentre os inúmeros temas, um sempre gera calorosas discussões: a importância do futsal na formação de atletas.

A corrente de profissionais que defende a prática deste esporte nas idades iniciais da formação, entre 11 e 15 anos, é vasta. Como argumentos a favor da modalidade, referem-se à grande quantidade de ações com bola devido ao menor número de jogadores que o futebol de campo, a necessidade da tomada de decisão mais rápida e o ambiente propício ao surgimento de jogadores habilidosos em função das resoluções de problemas em espaços reduzidos.

Os argumentos utilizados seriam inquestionáveis se não estabelecessem comparativos com o futebol de campo. Ou seja, praticar futsal pode proporcionar um bom número de ações com bola, melhorar a tomada de decisão e favorecer o aparecimento de jogadores habilidosos, porém, comparar o efeito da prática desta modalidade com o futebol significa desconsiderar o princípio básico do treinamento esportivo: a especificidade.

As competências exigidas para jogar bem futsal são distintas das exigidas para jogar bem futebol de campo. Para exemplificar, a frequente pisada na bola para recepcionar um passe e a ausência da regra do impedimento são dois dos elementos que diferenciam, significativamente, um jogo do outro.

Sabemos que um dos objetivos das categorias de base é aumentar o nível de inteligência de jogo dos praticantes de acordo com as tendências do futebol moderno, para que, concluído o período formativo, o atleta esteja apto a jogar em alto nível no futebol profissional. Se, durante o referido período de formação um atleta concorre à aprendizagem do futebol de campo com a prática do futsal, horas preciosas para a expertise serão perdidas.

Então, se o futsal é prejudicial (ou menos benéfico) na formação de atletas, qual é a solução?

A solução consiste em adaptar o futebol formal (alterando regras, número de jogadores, espaço, forma de pontuar, etc) criando jogos que favoreçam a aquisição de competências específicas do futebol. E isso é bem diferente de jogar futsal…

Dos 11 aos 15 anos, os atletas devem aprender sobre o funcionamento da unidade complexa (equipe) progressivamente, se aproximando do 11×11. Sendo assim, quanto melhor a compreensão do jogo coletivo, melhor a manifestação das competências essenciais (relação com a bola, estruturação do espaço e comunicação na ação). E tal manifestação deve compreender elementos incomuns no futsal; eis alguns deles: reposição do goleiro com os pés; sair jogando com goleiro, linha de defesa e volantes; circular a bola com volantes, meias e atacantes; defender e atacar em bolas paradas; variação das plataformas de jogo com três linhas de jogadores, além do goleiro; realização de ações táticas de ultrapassagem, penetração e tabelas; organização ofensiva e defensiva em cruzamentos; cumprimento de uma posição no campo de jogo (que não é fixo, ala ou pivô).

O processo de ensino-aprendizagem-treinamento é maximizado se os atletas são submetidos a estímulos adequados. A aplicação destes estímulos exige um profundo conhecimento teórico-prático de quem assume o compromisso pedagógico de, como afirma João Batista Freire, ensinar bem futebol a todos.

Para os críticos que defendem que o surgimento de inúmeros craques brasileiros advém do futsal, não esqueçam que durante a iniciação esportiva (até os 10 anos de idade), todo e qualquer ambiente que seja possível brincar de bola com os pés é enriquecedor para o aprendizado do futuro esportista e, passada esta faixa etária, na transição da iniciação para a especialização, para formarmos grandes jogadores de futebol, precisamos de praticantes de futebol. Se muitos craques vieram do futsal, imaginem quantos mais não teríamos na atualidade se ensinássemos melhor o próprio futebol de campo?

A mínima fração de tempo que envolve a precisa tomada de decisão do craque aliada à capacidade de resolver problemas imprevisíveis circunstancialmente deve ser muito estimulada. No futsal, os estímulos são de outro jogo, que exige outras competências e, acima de tudo, tem outra lógica! Que façamos como muitos clubes, pessoas e instituições e não desperdicemos o precioso tempo da formação!

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

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A tragédia em Santa Maria e as lições para os eventos esportivos

A semana começou nebulosa com a morte de quase três centenas de jovens em razão de um incêndio ocorrido em casa noturna da cidade universitária de Santa Maria, Rio Grande do Sul. As autoridades ainda estão no início das investigações, mas, algumas causas são bem evidentes e relacionam-se com a falta de medidas de segurança adequadas.

Sabe-se que o Brasil está na iminência de organizar a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 e, para tanto, está construindo novos cenários esportivos e reformando os antigos.

Um grande evento esportivo é capaz de reunir em um curto espaço mais de dez vezes mais pessoas que havia na boate de Santa Maria e, uma tragédia poderia ser ainda maior. Por essa razão, os cenários esportivos devem seguir padrões internacionais de segurança, atentando-se com medidas anti-incêndio, anti-violência, dentre outros.

As construções devem permitir que um estádio de futebol ou um ginásio seja esvaziado em, no máximo, oito minutos em caso de alguma necessidade. Ademais, deve haver acesso aos gramados/quadras, razão pela qual as fossas devem ser extirpadas.

Considerando que as escadas e corredores constituem vias de acesso e, portanto, devem ficar desobstruídas para que, em caso, de tumulto ou necessidade de escoamento, os caminhos estejam livres.

Os portões dos cenários desportivos devem abrir para o exterior e ser passíveis de serem abertos sempre por dentro, a fim de se minimizarem os riscos de emperramento.

Finalmente, as escadas devem ser rodeadas de corrimãos e de com mecanismos anti-fogo, como extintores e canos de água acionáveis por calor.

Para que tudo seja cumprido é imprescindível que o poder público, ao contrário do lamentável caso de Santa Maria, exerça a sua função constitucional de poder de polícia administrativa, fiscalizando todos os cenários esportivos e aplicando-se as penalidades cabíveis àqueles inadequados para que tragédias como as do Rio Grande do Sul, ou as de São Januário (2000) e da Fonte Nova (2007) sejam extirpadas eternamente de nosso país.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br

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Para atender a demanda

Estádios vazios, jogos ruins e atletas de pouca expressão. Não, não estamos falando de alguns dos famigerados campeonatos regionais pelo Brasil. O caso é o da Copa Africana de Nações, que está sendo realizada na África do Sul, servindo como alerta para o futuro país da Copa do Mundo.

A projeção de estádios que atendem demandas pontuais não costumam ser balizadores para as demandas futuras. A sustentabilidade de arenas não significa apenas construir estádios “verdes”, com captação de água da chuva, energia solar ou coleta seletiva de lixo.

Pensar estrategicamente e conceber arenas implica em projetar uma demanda modulada, que permita flexibilizar o espaço para suportar pequenos, médios e grandes eventos, conforme o calendário, o crescimento da torcida e da população de abrangência, a qualificação do espetáculo etc.

E chegamos novamente ao caso africano: se o tamanho dos estádios de 2010 para a Copa do Mundo estava adequado, o mínimo seria imaginar a redução de sua capacidade para atendimento dos eventos de futebol daquele país e de outras competições internacionais de menor expressão.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br