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Um fio de esperança

Crédito imagem: FIFA.Com

A busca utópica pelo atalho ao sucesso esportivo no futebol brasileiro ganhou um novo capítulo ao ser registrada como alternativa oficial no regulamento da principal competição nacional a partir de 2021. Notícia que chamou a atenção do mundo, desde os vizinhos sul-americanos (Argentina, Chile, Colômbia, Paraguai, Peru, Uruguai), passando por EUA, Alemanha, Inglaterra, França, Espanha, Portugal e até mesmo África do Sul. Especialmente na Europa, a atual narrativa aponta que o Brasileirão poderá servir como um estudo de caso a ser replicado por outras ligas se a implementação da nova regra for bem-sucedida. Chance de acesso à credibilidade!

Tal como qualquer tema polarizador, controverso ou polêmico, o debate (comumente opinativo) em torno das trocas de treinadores costuma liderar as divergências de quem acompanha ou comunica a modalidade à opinião pública no país, seguido pelo calendário de jogos e pela arbitragem.

Desvinculado de achismos (a favor ou contra a escolha do treinador A em detrimento do treinador B no clube X), o primeiro estudo científico que configuramos sobre as mudanças de comando técnico no futebol brasileiro contextualizou o cenário nacional para investigar as causas e as consequências das decisões recorrentes (e absurdamente fora de qualquer parâmetro comparativo internacional) que imperam na Série A desde o seu primeiro ano de implementação no formato de pontos corridos (2003) até a temporada 2018. Por meio da inteligência analítica, equacionando cálculos econométricos sobre uma amostra de 6506 jogos, 264 treinadores e 594 trocas entre efetivos e interinos (paralelo a todas as não-mudanças), dissecamos as evidências nos mínimos detalhes ao identificarmos os principais critérios que norteiam a tomada de decisão dos dirigentes, bem como a ineficácia das trocas no Brasil (aliada a necessidade de valorização primordial do tempo de trabalho de um novo líder técnico junto ao seu novo grupo de comandados).

Aos interessados, é possível escolher entre a versão do estudo em português e o artigo científico original em inglês (publicado oficialmente pelo jornal Sport, Business and Management em dezembro/2020).

Atualizando os números gerais (também conhecidos como estatísticas descritivas na academia), a temporada 2019 testemunhou um total de 33 mudanças e 41 treinadores durante o Brasileirão (cuja composição inclui 13 nomes inéditos no formato de pontos corridos). Já a temporada 2020/21 (Covid) apresentou um total de 42 mudanças e 55 treinadores somente na Série A (incluindo 17 nomes inéditos no sistema).

Ou seja, o volume absoluto (contabilizando todos os efetivos e interinos) subiu para 669 mudanças em 18 temporadas. A média de trocas continua em 37 por temporada. A volatilidade no cargo durante a competição permanece crônica entre todos os 294 treinadores e todos os 43 clubes que já participaram da Série A desde 2003 até 2020/21. E o treinador de futebol segue trabalhando para tentar sobreviver pouco mais de 2 meses durante o Brasileirão ou 6 meses durante o ano (salvo exceções).

Em suma, muito se mudou, porém nada mudou. Aliás, muito se troca, mas nada muda.

Naturalmente em um país com baixo investimento em educação, a ciência, a pesquisa e o desenvolvimento enfrentam maiores desafios de aceitação e até mesmo de compreensão, pois confrontam avaliações objetivas com construções subjetivas. Em outras palavras, a evidência é apresentada ao achismo, causando um desconforto inicial devido à quebra de paradigmas ou pré-conceitos.

Aproveitando o raciocínio, vale esclarecer como funciona a autonomia do esporte quanto ao seu regime, condução e resolução.

Um jogo de futebol é conduzido por regras que tornam possível a sua prática como modalidade esportiva. Já uma competição (seja um campeonato, torneio, liga, copa) é conduzida seguindo um regulamento em comum acordo entre os clubes participantes (ou federações, confederações). Dentro desse cenário, eventuais resoluções de conflito são tratadas em tribunais de justiça desportiva, cuja instância máxima é o CAS (Tribunal Arbitral do Esporte) na Suíça.

A lei trabalhista, assim como a legislação que rege cada país, permanece soberana no estado. Com base nisso, modificações ou inovações em regulamentos esportivos devem sempre considerar ajustes que não venham a infringir a relação social entre empregado e empregador na atividade econômica.

Portanto, no caso de uma medida preventiva que tente frear as mudanças de comando técnico durante o Brasileirão, trata-se de uma regra e não de uma lei. E isso é viável e pode ser autorizado pela autonomia do esporte.

Tal regra define que os clubes pertencentes àquela competição chegaram ao comum acordo de limitar o registro de treinadores durante a vigência do campeonato. Os clubes permanecem livres para contratar e demitir o volume de treinadores que bem entenderem e quiserem ao longo do ano, porém durante o campeonato nacional (do ano sob análise) fica permitido o registro máximo de X treinadores por equipe. Igualmente aos treinadores, que permanecem livres para assinar ou romper contratos de trabalho com o clube que bem entenderem ao longo do ano, mas cientes de que não haverá registros ilimitados durante a vigência da competição nacional no ano sob análise.

A mesma essência do raciocínio se aplica à limitação no registro de jogadores, à limitação no número e tipos de profissionais autorizados a acessar o banco de reservas, à limitação do mando de campo e aos demais componentes do regulamento da competição. Isso acontece pois o esporte (neste caso o futebol) é representado por um caráter simultâneo competitivo e colaborativo. Não há jogo de futebol com uma única equipe, tampouco há campeonato com uma única equipe.

A parte mais importante do progresso é o desejo de progredir” – Sêneca

É verdade que matematicamente, contudo, a nova regra não terá condições de assegurar uma alteração do histórico até o momento, pois se os 20 clubes participantes do Brasileirão exercerem a alternativa do regulamento nas duas ocasiões autorizadas (uma troca efetiva e uma troca interna), chegaremos ao volume de 40 mudanças de comando ao fim do campeonato (sem contabilizar eventuais saídas voluntárias dos treinadores). Logo, se a média desde 2003 é de 37 trocas por temporada, a nova regra mantém o espaço aberto para replicar as alternâncias em mais um ano de Série A.

Mesmo assim, podemos enxergar a medida preventiva com otimismo, pois a nova regra exemplifica uma alternativa de curto prazo para tentar frear a oscilação dos líderes técnicos sobre o futebol que se tenta praticar nas camadas mais altas do Brasil, servindo de exemplo a divisões inferiores. Um sinal de esperança, ainda que mínimo e cheio de lacunas, mas que pode (e até deve) ser comemorado.

Mesmo se não houver sensibilidade na implementação logo no primeiro ano, já visualizamos um passo adiante por estimular discussões que vão além do treinador (independente se ele for o sujeito A, B ou C). Apenas com o anúncio da medida já é possível testemunhar que todos os atores que participam da cadeia de valor do futebol nacional precisam colocar a mão na consciência para que o nível técnico, operacional, esportivo possa recuperar o caminho de prestígio no país.

  • Torcedores – ao cobrarem transparência dos dirigentes de seus clubes de coração; ao repensarem a pressão desproporcional que se volta ao treinador em fases desfavoráveis; ou até mesmo ao escolherem friamente por onde e como consumir conteúdo de mídia esportiva.
  • Dirigentes (estatutários e executivos) – ao atenderem de forma profissional os processos de seleção, monitoramento e transição de seus treinadores e comissões técnicas durante e entre temporadas; ao avaliarem o legado deficitário (financeiro e técnico) que pode permanecer na instituição; e também ao identificarem os pontos de melhoria com o aprendizado da nova regra.
  • Jornalistas (e demais profissionais ligados à mídia esportiva) – ao redirecionarem o holofote e a discussão aos responsáveis pela volatilidade de treinadores; ao reconhecerem que também contribuem com as decisões das trocas recorrentes por meio de estímulos verbais e audiovisuais na imprensa e em plataformas de rede social; e também ao auxiliarem na crítica construtiva pelo aprimoramento da medida preventiva de curto prazo, aliada a conscientização e reeducação de longo prazo.
  • Treinadores – ao abraçarem a oportunidade de agir com mais estratégia e cuidado nas escolhas de carreira; ao defenderem o posicionamento da classe na prática de forma coletiva, a fim de potencializar a profissão no país; e também ao evitarem saídas voluntárias durante a temporada, mesmo quando a crônica do senso comum apontar que esse seria um caminho normal e aceitável.

Vanderlei Luxemburgo no Roda Vida da TV Cultura em 1995

O futebol brasileiro ainda se apresenta como especulativo. Antes mesmo de ser imediatista ou resultadista, especula-se vitórias, títulos e campanhas com orientação a expectativas desproporcionais à realidade que traz circunstâncias muito distintas, originando frustrações desnecessárias. Mas é possível mudar essa postura.

Novas ações podem gerar novos hábitos, que por sua vez podem influenciar gradativamente um novo comportamento. E se mudarmos o comportamento, teremos uma nova cultura com progresso estruturado.

Nesse raciocínio, medidas preventivas podem combater o senso de urgência no curto prazo, aliadas a uma conscientização e reeducação em cadeia no longo prazo, ouvindo as críticas construtivas de quem se opõe ou levanta dúvidas, a fim de experimentar e vivenciar ações progressistas em um processo democrático.

Nada vai mudar drasticamente da noite para o dia, mas testemunhamos, enfim, um fio de esperança!

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Epistemologias nossas de cada dia III – (inter)agir

Crédito imagem: Site oficial/Palmeiras

‘O todo é maior do que a simples soma de suas partes’

Do inatismo e do empirismo, aquelas teorias do conhecimento que sustentam numa visão paradigmática positivista, tradicional, racional e linear, já conversamos – suas mazelas e influências no ensino, aprendizagem e treinamento do futebol, ainda no Século XXI. Falemos agora do interacionismo, a corrente epistemológica que propõe romper, sem lá muito carinho, o que estava posto e deixar guardada na gaveta as lentes de contato com o mundo que já não dão conta de nossa miopia mental e social.

 O interacionismo, seguindo o pensamento epigenético arquitetado pelo professor e epistemólogo suíço, Jean Piaget, confia que nossos saberes são constituídos não pelo dom, pelo genoma, pela quantidade de experiências ou pela racionalização técnica, mas pela qualidade das relações. Conhecimento é produto da interação. Somos, os humanos, seres essencialmente relacionais. Preciso do outro para aprender algo e o outro precisa de mim. Carecemos e dependemos uns dos outros e do meio, qualquer meio, para viver.

A não ser que seja um ou uma eremita, desconfio fortemente que você há de concordar das últimas três afirmações do parágrafo acima. Todos e todas somos interacionistas, porque nos comunicamos, agimos, nos relacionamos e ressignifcamos os ambientes que constituem nossas vidas e a nós mesmos. O que sou hoje é diferente do que fui ontem, que, por sua vez, será diferente do que serei amanhã. Óbvio, até demais. Mas raciocínio necessário para evidenciar que o interacionismo não é o futuro, mas constitui o presente e foi, ainda que sem tanta consciência, fundamental ao passado.

Ocorre que ao conceber tão bem as relações sujeito-sujeito e o sujeito-meio, mais ainda à medida em que estudiosos como Frank Capra, Thomas Kuhn e Edgar Morin jogavam luz ao paradigma emergente e contra-positivista, o interacionismo pressupõe descontrole e imprevisibilidade, termos estes que trazem calafrios às classes economicamente dominantes, que, em favor da manutenção de certos privilégios, não se furtaram em patrocinar o ranço ao que não pode ser manejado sem restrição aos ambientes educacionais e, evidentemente, ao esporte, principalmente ao de alto rendimento. Não à toa, o pensamento empirista cumpre há, no mínimo, três décadas sua função de antídoto à fuga de ordem: manipula comportamentos, cria conteúdos-padrões, estabelece relações hierarquizadas, enfatiza a técnica, a memorização e a objetividade em nome do resultado.

Ao pensarmos, todavia, o esporte e, em específico, o futebol, como manifestações regidas pelo ato de jogar, temos uma enorme e custosa contradição. O jogo, por natureza, é autotélico, imprevisível, irredutível e caótico – chancelaram estudiosos como Roger Callois e John Huizinga. Porque nos sentimos desafiados, jogamos. Por não ter certeza dos quês, comos e quandos de uma partida, nos envolvemos com o jogo. O jogo encontra sentido na não linearidade nas relações que eu, que jogo, tenho com meus colegas de equipe, com o terreno de prática, bola, adversários, arbitragem, comissão técnica, jornalistas, torcedores, dirigentes e, claro, comigo mesmo. É, portanto, representação instintiva do interacionismo. 

Ainda assim ou por isso, foi – e permanece sendo – domado pelo tecnicismo empirista. Há, no futebol, uma resistência significativamente maior à autocrítica em relação aos contextos de formação escolares, por exemplo, para a aplicação de didáticas e metodologias de treinamento, que, a partir do jogo, evoquem o interacionismo. O esporte-bretão é resistência, sim – mas trata-se de um resistir nem sempre adequado às lentes de contato da ‘moda’ no Século XXI.

Virou, o futebol, refúgio de valores tóxicos, sejam morais, éticos, sociais, educacionais e econômicos. Ali, são mantidos e reforçados a naturalização do machismo estrutural e declarado, o racismo, a objetificação humana, o desprezo com o próximo. O ópio do povo se disfarça em privada legal para excretar, sem grandes ressentimentos, ódios e frustrações internas, suavizados por discursos passionais: ‘sempre foi assim’, ‘é dinâmico’, ‘errou, sai’, ‘perdeu, troca’.

Nem surpreende, portanto, que até chefes de estado encontrem, no futebol, o eco ardiloso e necessário para que certas narrativas continuem a sustentar o discurso retrógrado de projeto de poder de natureza medieval e anti-vida. Vale tudo – e nem essa expressão escapou do complemento tóxico – para reiterar a não afeição à mudanças, a algo mambembe, míope, que não dá conta da inteireza do ser humano. Mas o que é a inteireza humana perto de três pontos suados ou o fim de um jejum de títulos incômodo? Meu time acima de tudo, resultado acima de todos.

Tal reflexão é necessária, porque o pensamento interacionista, ao derivar do paradigma emergente, é primordial na contraposição ao tradicionalismo. O que não significa que ele, o interacionismo, seja imune às limitações de dado contexto – e muito menos, que abra mão do produto final, o resultado.

Mostra, porém, que, para alcança-lo, um olhar cuidadoso – e nem sempre imediatista – aos processos faz um bem danado. Tomo emprestado a fala e o capital simbólico de quem teve, recentemente, uma importante conquista: ‘quando mais você se concentra no resultado, mais ansioso fica. Não tem sentido se preocupar se vai passar ou não numa prova: você tem que estudar para ela. Cuide do processo de aprendizagem e o resultado virá’. Recomendo, aliás, a leitura atenta de toda fala de Abel Ferreira ao excelente The Coaches Voice. Interacionismo em estado puro.

Conceber as relações entre humanos e com o próprio humano como fundamental à construção de saberes e estruturar tarefas que contemplem a essência do jogo no ensino, aprendizagem e treinamento do futebol, em detrimento do tecnicismo (e não dá técnica, como colocado na conversa anterior) são premissas básicas do pensamento interacionista. Que apesar da supracitada resistência tradicionalista, tem avançado e pautado discussões país afora, também pela promoção de espaços de debates fomentados como este entre bem-intencionados e intencionadas, no jornalismo, nos espaços acadêmicos e no próprio meio esportivo.

O futebol, afinal, (ainda) depende do humano para existir. Cuidemos bem dele. 

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Para quando chegar a hora – a volta dos torcedores aos estádios

No início do mês de março, a federação carioca de futebol e os clubes se reuniram para discutir da volta dos torcedores aos estádios. Felizmente, a iniciativa não foi aprovada. O número de mortos deste então só aumenta, e o retorno do público para as arquibancadas poderia deixar a situação ainda pior. No entanto, o assunto tem sido levantado em outros países do mundo, seja em tom de esperança por estádios cheios ou de cautela. Esta coluna surge a partir disso para analisar o que clubes, federações e demais entidades precisarão considerar no momento de receber seus torcedores novamente.

É importante ressaltar que este não se trata de um texto fazendo campanha pelo público nos estádios, longe disso. O que busco aqui é debater os desafios que a indústria terá no retorno dos torcedores, enfrentando alguns destes de maneira inédita, em consequência de algumas mudanças no comportamento destes fãs.

O primeiro desafio é em relação à saúde. Por mais que a retomada aconteça com grande parte da população vacinada, alguns comportamentos adquiridos na pandemia irão permanecer na rotina de todos. Dentre estes, está o uso de novas formas de pagamento ou de acesso, que deixem as pessoas menos expostas a qualquer tipo de vírus. O dinheiro de papel, além dos ingressos físicos, deve estar com os dias contados, favorecendo a utilização de meios digitais que evitem ou diminuam ao máximo o contato. Trago aqui três exemplos de novos meios que ganharam força nos últimos meses:

Pagamentos pelo app: esse é o meio mais simples e já era utilizado anteriormente em diversos serviços, com o cliente realizando todo processo pelo aplicativo e apenas retirando o pedido na loja ou local onde o produto é feito.

Tecnologia de aproximação: o meio que ganhou mais força na pandemia. Segundo pesquisa do Itaú, divulgada em fevereiro de 2021, a quantidade de pagamentos realizados por aproximação, com soluções conhecidas pela sigla NFC (Near Field Communication), cresceu 326% em 2020. Esta forma de pagamento era vista em grandes festivais como o Rock in Rio, mas deve ser aprimorada para o retorno do público.

Reconhecimento facial: uma tecnologia mais avançada, mas que vem sendo testada em diversos países. A grande dificuldade seria em momentos de grande movimentação, onde um sistema novo poderia causar demora para entrar no estádio.

Outro aspecto que deverá ser observado está relacionado com as experiências para o torcedor no dia da partida. Essa tendência já era observada antes da pandemia, mas ganha importância uma vez que o público tem se acostumado com os pontos positivos que assistir ao jogo em casa traz: conforto, segurança e custos reduzidos. Por isso, as entidades esportivas terão que entregar experiências memoráveis ao fã, que o convença a voltar na semana seguinte.

Existem alguns pontos que, reunidos, podem favorecer a montagem destas ações que ficarão na memória dos torcedores. Pensando no cenário brasileiro, o mais importante a ser trabalhado é a conexão de internet nos estádios, permitindo que alguns hábitos adquiridos em casa possam ser mantidos diretamente do palco do jogo. Segundo o relatório The Future of the Sports Fan, 3 em cada 4 torcedores postam em suas redes sociais enquanto estão vendo a partida. Além disso, 75% destes costumam olhar o replay das jogadas mesmo estando presente na arquibancada. Como fazer isso sem uma boa conexão?

A maioria das iniciativas anteriores devem ser executadas pelos clubes. No entanto, cabe a CBF decidir quando será permitido que torcedores ocupem as arquibancadas em partidas de seus campeonatos, e em que quantidade. Para isso, a confederação brasileira possui uma vantagem que não deve ser comemorada. Por estarem em melhores situações sanitárias, muitos países devem abrir seus estádios ao público antes do Brasil. Aqui será possível entender as melhores práticas adotadas em outros cenários e aplicá-las a nossa realidade.

Para citar outros grandes centros, a UEFA já pensa em receber torcedores durante a Eurocopa, marcada para iniciar dia 11 de junho. As ligas nacionais mais otimistas são da Espanha e Itália, onde se fala em abrir as arquibancadas, ainda que para um público reduzido, no final desta temporada. Já a Alemanha adota um discurso mais cauteloso, visando ter público nos estádios apenas na próxima temporada, no final do mês de julho.

Como foi visto ao longo do texto, a tecnologia terá papel fundamental no retorno do público aos estádios. Enquanto esse momento não chega, clubes devem aproveitar para estudar as ferramentas necessárias para garantir segurança e experiências memoráveis aos fãs, que aguardam ansiosamente sua hora de voltar para as arquibancadas.

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Sobre o modelo de jogo como um organismo vivo

Crédito imagem: Paul Hazlewood/Brighton&Hove Albion

Foi neste mesmo espaço, por algumas vezes, que conversamos sobre o quão importante pode ser olhar para as estruturas táticas de uma equipe (ou sistemas, ou qualquer outro nome) não como fundamentos rígidos e imóveis, mas como organismos abertos, fluidos – cuja existência acontece pelo movimento, e não apesar dele. Se você preferir, considere os sistemas como princípios – referências iniciais a partir das quais ocupamos o espaço, seja de forma individual, grupal ou coletiva. Desse modo, as estruturas não são exatamente um fim.   

As estruturas táticas de uma equipe não são exatamente um fim por pelo menos dois motivos. Em primeiro lugar, porque o papel das estruturas no acabamento de uma equipe (aqui, vamos entender acabamento como sinônimo de desempenho) é razoavelmente limitado, não porque o 4-3-3 ou o 4-4-2 não tenham valor, mas porque o seu valor não está neles mesmos, está na qualidade das relações que se faz dentro deles. Por isso, aliás, as estruturas também não podem ser vistas como fins porque servem, necessariamente, a um senhor anterior a elas – o modelo de jogo. É bem verdade que mesmo o modelo de jogo pode não ser exatamente um fim (porque o próprio modelo, por sua vez, serve a um senhor ainda maior, que é o próprio jogo), mas não deixa de ser importante considerá-lo como uma dimensão superior, a partir da qual vários de nós, se não todos e todas, pensamos nossas formas de jogar. O ponto é que, no caso do modelo de jogo, ainda que isso não seja dito de maneira explícita, parece que existe uma certa tendência para se pensar na contra-mão, quando o comparamos com aquela fluidez das estruturas, de que falávamos no começo: não são poucas as sugestões de que o modelo de jogo seria, na verdade, uma entidade meio etérea – portanto abstrata, reduzida ao campo das ideias – como também que o modelo de jogo seria uma entidade meio que rígida, fechada, inegociável e que, depois de definida, deve apenas ser o que é.

No primeiro caso, do modelo enquanto uma entidade etérea, me permitam fazer uma analogia: faz algum tempo que penso nas semelhanças desse nosso conceito de modelo de jogo, talvez não apenas no futebol mas também nas outras modalidades coletivas de invasão, com o conceito de areté dos gregos. A areté nada mais era do que um certo ideal de excelência, uma espécie de meta de perfeição moral a partir da qual se organizava a paideia, a educação do sujeito. Para citar dois exemplos rápidos, Homero e Hesíodo, poetas clássicos do entorno do século X a.C.: no primeiro caso, o ideal de excelência estava no belo e no bom (ou seja, numa junção de estética e ética); no segundo caso, o ideal era bem diferente, boa reputação e posses moderadas. Mas reparem numa característica, em especial, que é a que me faz lembrar da nossa noção de modelo de jogo: nos dois casos, ainda que nas entrelinhas, nunca se faz referência ao que se é. Pelo contrário, sendo um ideal, é uma referência ao que gostaríamos que fosse – logo, tanto a areté quanto o modelo de jogo seriam meio que bússolas a partir das quais norteamos as nossas ações.

Não deixa de ser uma comparação interessante porque o modelo de jogo também tem uma conotação pedagógica muito forte: seja de um ponto de vista agudo – porque de fato é preciso educar-se (literalmente ou não) para se jogar num certo modelo – ou de um ponto de vista crônico (pensando nos clubes cuja formação acontece a partir do modelo de jogo da equipe principal) o modelo de jogo não modela apenas um certo tipo de performance coletiva, mas modela o tipo de regras de ação que, como diz o próprio termo, rege as decisões de cada jogador dentro daquele sistema (aqui, diga-se, indico a entrevista do ótimo Gonzalo Villar, da Roma, publicada outro dia no El Pais). O ponto é que, assim como sabiam os gregos, a arte do jogo não se resume ao controle nem aos ideais deliberados, mas depende fortemente do que eles chamavam de tykhe – que os romanos chamariam de fortuna, e que nada mais é do que o acaso ao qual todos nós estamos submetidos. Coincidentemente, é um dos fundamentos de todos os bons estudos sobre o jogo, que geralmente aparece sob o nome de imprevisibilidade.

É por isso que proponho, desde o título, que o modelo de jogo seja pensado como um organismo vivo. Se os modelos, as aretés, ou qualquer outro ideal de excelência fossem apenas fechados, rígidos e imóveis, basicamente eles seriam uma negação do ambiente onde se criam – e, se fosse assim, seriam uma negação deles mesmos. Esse é outro motivo porque o modelo de jogo, como dizíamos ali em cima, não existe em si: ele depende não apenas da relação que faz com o ambiente, mas da nossa capacidade de interpretar, de dar sentido às respostas que o ambiente nos dá sobre o modelo que idealizamos. Se estivermos em sintonia com os movimentos do jogo (que acabam sendo, de alguma forma, os movimentos da vida que se vive), não há como não pensarmos no modelo de jogo como um organismo vivo, em constante mutação, sensível ao meio (seja esse ‘meio’ um certo tipo de interações em ou mais setores do campo, uma ou mais lesões ao longo da temporada, um determinado mecanismo de ataque, defesa ou transições que se mostra potencialmente interessante com o tempo, ainda que não o tivéssemos planejado e etc), e que portanto é constantemente adaptável, só pode existir, na sua plenitude, se estiver em aberto. Isso não significa, em hipótese alguma, que o modelo de jogo seja uma coisa anárquica que vai sendo amassada de um dia para o outro. Significa, na verdade, que o modelo sim ser negociável, especialmente nos seus pormenores, nos seus princípios micro, de acordo com as respostas que o ambiente (tykhe) nos dá. E isso, para além da razão, exige sensibilidade.

A mesma sensibilidade com a qual gostaria que vocês pensassem na seguinte provocação: será que o modelo de jogo de fato se resume ao ideal de excelência que procuramos ou será que o modelo, de um ponto de vista do jogo, pode ser menos o ideal que gostaríamos de alcançar e mais o real que nossas equipes já demonstram no treino e jogo? Será que o modelo, ao invés de ser o que gostaríamos que fosse, não é o que as nossas equipes já são, nas virtudes e nos vícios, independentemente das ideias de excelência?

Sobre isso, continuamos em breve.

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Praticando a visão sistêmica e o pensamento complexo no futebol

Crédito imagem – Rafael Vieira/AGIF/CBF

Tivemos a oportunidade de introduzir em textos anteriores – aqui e aqui – o tema da complexidade no futebol, buscando alguns referenciais para uma reflexão crítica que nos permitisse enxergar o futebol em uma perspectiva distinta daquela adotada pelo senso comum.  Nesta visão tradicional, calcada no paradigma cartesiano, linear, mecanicista, existe uma predisposição para que, ao se buscar aprofundar o conhecimento em torno de um determinado objeto ou fenômeno, divide-se o todo em partes, muitas vezes fragmentando-o e impedindo uma compreensão mais geral e contextualizada do todo, aqui entendido por meio de seus sistemas.  

Portanto, desenvolvemos algumas ideias procurando demonstrar que a compreensão da realidade (do futebol, da sociedade, da natureza, do mundo) pode ser ampliada e melhorada se adotarmos o paradigma da complexidade em nossa cosmovisão ou visão de mundo, onde o pensamento sistêmico e o pensamento complexo são referências indispensáveis a serem adotadas.

Dentro desta abordagem, temos que entender a realidade através de princípios que caracterizam o próprio sistema. Destacaremos aqui alguns deles:

  • O sistema possui vários elementos que interagem entre si, de forma dinâmica, penetrante e não-linear.
  • Esses elementos são abertos e atuam ou interatuam entre si, influenciando e sendo influenciados pelo seu entorno e ambiente.
  • Todo sistema vivo e não mecânico funciona de forma recursiva (circular), incerta e imprevisível.
  • Também funciona longe do equilíbrio estático, confrontando-se com forças contrárias o tempo todo.
  • Os sistemas orgânicos – e, por extensão, toda a realidade que envolve o ser humano, a sociedade e a natureza – são sempre permeados pela subjetividade e a intersubjetividade.

Todos sabemos que somos seres biopsicossociais que interagimos permanentemente entre nós mesmos, bem como com a sociedade e a natureza das quais somos parte integrante. Porém, pouco pensamos sobre o como estas interações se dão e o quanto somos capazes de influenciar e sermos influenciados pela nossa cultura e nossa história. Muitas vezes não nos damos conta sobre o fato de que somos ao mesmo tempo produtos e produtores de cultura e história. Ou seja, ao mesmo tempo que somos frutos de todo um contexto cultural e histórico, também nele podemos atuar dialeticamente modificando nosso próprio ambiente cultural e histórico. Todo ser humano vive e é capaz de se desenvolver dentro de todas as suas dimensões (materiais, biológicas, psíquicas, intelectuais, morais, espirituais etc.), procurando dar sentido às suas vidas e podendo, assim, se regenerar ou se degenerar a cada momento da existência. Aqui vale citar a frase do sociólogo e pensador Edgar Morin que afirma “o que não se regenera, se degenera”, como fonte inspiradora do nosso pensar e do nosso agir.   

Dito isso, podemos considerar alguns pressupostos que nos permitirão elaborar as nossas estratégias na direção de colocarmos em prática o nosso pensar sistêmico e complexo no universo do futebol.

PRESSUPOSTOS:

  1. Não se pode entender as partes de um sistema de forma descontextualizada do todo e nem entender o todo desconectado de suas partes constitutivas.
    Exemplo: A condição atlética de um jogador de futebol só faz sentido se analisada e percebida dentro do contexto de sua participação integral em uma partida. Também o jogo não pode ser visto dentro de toda a sua realidade e complexidade, sem considerarmos todos os elementos internos e externos que o constitui.
  2. Todo sistema é formado por um conjunto de elementos interagindo entre si, influenciando-se mutualmente e influenciando o sistema como um todo que, por sua vez, interfere em seus elementos fazendo emergir permanentemente novas situações, instáveis e imprevisíveis. Diante desta dinâmica é mais sensato pensar que os fenômenos, as coisas, as pessoas mais “estão” do que “são”. O movimento da vida é constante, intermitente e muda a cada instante.
    Exemplo: O pressuposto linear e mecanicista – ainda tão comum no futebol – que afirma que “em time que está ganhando não se mexe” não serve para este pressuposto sistêmico, pois como já destacamos, tudo muda a cada instante dentro de um sistema. Ainda dentro desta perspectiva não podemos afirmar que um jogador (ou um time) é bom ou ruim, mas sim que este jogador (ou time) está bem ou mal dentro de determinadas circunstâncias.
  3. A vida humana é permeada incessantemente por relações interpessoais e subjetivas (intersubjetividade) que precisam ser entendidas e acolhidas para que se possamos caminhar juntos, identificando-se os propósitos comuns entre as pessoas.
    Exemplo: A formação, participação e engajamento de uma equipe de futebol que busca a alta performance depende fundamentalmente de como os seus elementos se identificam e se comprometem com os objetivos comuns traçados. Para isso é essencial que as lideranças identifiquem as diferentes visões em torno dos seus propósitos comuns, potencializando-os.
  4. Na perspectiva sistêmica e complexa, todo conhecimento deve ser entendido como algo precário e provisório e que pode nos induzir a erros, ilusões ou até a alucinações. Por isso, o exercício em busca do conhecimento lúcido e amplo deve ser sempre acompanhado de cuidados, balizado por nossos limites ou limitações.
    Exemplo: Um especialista (treinador, preparador atlético, fisiologista, psicólogo, nutricionista etc.) pode ser facilmente induzido ao erro se não tiver uma noção – a mais clara possível – do todo, ou seja, de todos os fatores (além dos inerentes à sua especialidade) que podem interferir no desempenho dos atletas e da equipe de forma geral, incluindo-se aqui os macro e microssistemas que interferem no treino, no jogo e na vida de cada um e de todos.

A expectativa é que estes pressupostos e os exemplos apresentados, possam servir de inspiração ao contínuo exercício e desenvolvimento em busca de uma visão de mundo emergente capaz de abarcar os fenômenos do futebol e da vida, minimizando-se os eventuais erros que cometemos e fazendo-nos refletir com mais sabedoria sobre nossas ações individuais e coletivas.     

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A posse de bola é meio, e não fim no futebol

Crédito imagem – Site oficial Manchester City

O futebol é pautado por tendências e atualizações que vão se renovando e são cíclicas. Tudo muda, tudo evolui, apesar de a lógica e o objetivo do jogo serem os mesmos desde os primórdios. A atual geração tem em Pep Guardiola um treinador que mudou o curso das coisas. O Barcelona dele ditou o rumo de todos os estudos táticos e metodológicos dos últimos dez anos. E as aulas do treinador catalão não param. O Manchester City dele ainda é uma pós-graduação que a cada dia traz coisas novas. Porém, Guardiola apresentou uma maneira de se chegar ao êxito.Não a única. Nunca nenhuma equipe jogará exatamente como outra. Mesmo com as mesmas ideias, mesmos conceitos e mesma metodologia de treinamento. Isso porque quem executa e toma as decisões são os jogadores. E cada jogador tem suas particularidades e a sinergia entre onze atletas nunca será igual a nenhuma outra.

Não descarto ter inspirações. Mas no mundo peculiar do futebol, com tanta complexidade – não só essa de jogadores que citei – como também de ambiente, contexto e relações interpessoais entre departamentos tanto de clubes como de seleções, é contraproducente buscar princípios e subprincípios de jogo para seguir a ferro e fogo, custo o que custar. 

Se convencionou no Brasil que apenas é bonito e refinado jogar com a posse de bola. Há treinadores que buscam estar embalados por esse rótulo apenas para estar ‘na moda’. Mas se a posse for um fim e não um meio voltamos à estaca zero e não cumprimos a lógica do jogo, que já citamos que é imutável desde a criação do futebol. 

Ter uma ideia clara do jogo a ser desenvolvido é fundamental. Mas ela tem que ser flexível e adaptável. Caso contrário continuaremos a ver equipes buscarem o número de mais posse de bola na estatística final do jogo sem que isso as aproxime da vitória. A posse que vale é aquela no último terço, agressiva, que gere situação real de gol. O número final pode ser dez por cento no total, por exemplo. Mas o que dá três pontos na tabela é marcar mais gols que o adversário e não porcentagem maior de posse. Questão de foco, entendimento e até personalidade. 

*As opiniões de nossos parceiros não correspondem, necessariamente, à visão da Universidade do Futebol

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Raio X da gestão do marketing nos clubes de futebol – conclusões e recomendações

Chegamos à última parte da série sobre a gestão do marketing em clubes de futebol, onde foram apresentados os resultados da pesquisa de campo realizada na tese de doutorado intitulada “Gestão do Marketing Esportivo no futebol: proposta de modelo teórico/prático para clubes profissionais brasileiros”, finalizada em maio de 2020 na Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo.

Em 14 clubes que participaram da edição de 2018 da Série A1 do Campeonato Paulista foram analisados 35 itens sobre a gestão do Marketing por meio de entrevistas em profundidade com os responsáveis pela área. Dos itens analisados foi verificado que:

Foi constatada uma baixa utilização de itens ligados aos processos de execução e controle/avaliação, em muito devido aos limitados recursos e profissionais dedicados a área. A partir da análise dos clubes e da comparação com a literatura e com clubes europeus de referência no marketing os 14 clubes foram classificados em quatro níveis conforme a área de marketing:

Destaque para o fato de que dos cinco clubes classificados com um marketing bom dois disputavam divisões inferiores do Campeonato Brasileiro, de forma que o departamento de marketing era mais avançado que a parte esportiva. Já dos clubes com marketing classificado como fraco um participava de divisões elevadas do Brasileirão e outro possuía uma estrutura limitada apesar da elevada capacidade de investimento financeiro.

De uma forma geral, a pesquisa identificou que a profundidade e a qualidade da gestão do marketing nos clubes analisados não estavam relacionados à participação em competições nacionais superiores e à obtenção de resultados esportivos positivos. Os principais pontos que afetavam a gestão do marketing eram:

Diversos pontos negativos e positivos da gestão do marketing realizada pelos clubes foram identificados e analisados e deram subsídios para a elaboração de um modelo teórico/prático para a gestão do marketing nos clubes de futebol brasileiros adequado a realidade do país e adaptável a diferentes tipos de clubes. Fica evidente a necessidade de investimentos e aperfeiçoamentos para que o marketing seja devidamente gerido pelos clubes, independentemente do porte e da realidade, inclusive esportiva. Só com esses avanços é que o marketing poderá cumprir totalmente o seu papel de gerar receitas e atrair e fidelizar os torcedores/consumidores, garantindo a sustentabilidade dos clubes brasileiros.

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Sobre a ecologia da ação no futebol – e outras ideias

Crédito imagens: Redes Sociais Fiorentina

Na última semana, vocês vão se lembrar, falávamos aqui sobre uma certa transição no nosso pensamento sobre futebol: se houve um tempo em que o jogo era bem mais pertencente aos jogadores, por uma série de razões, hoje parece claro que o jogo pertence, na sua maioria, aos treinadores. Não por acaso, tomou-se como imperativo que o rendimento de uma equipe num campo de futebol é especialmente reflexo da qualidade de um certo sistema de ideias. Sobre isso, meus argumentos são dois: I) embora as ideias sejam importantes, elas ainda são secundárias dentro da cadeia de forças do jogo e II) a crença inquestionável nas ideias, ainda que sem querer, patrocina o sistema doentio de demissão de treinadores no futebol profissional – afinal, numa análise simplista, se uma equipe não tem performance, deve ser pela falta de ideias do treinador. Bom, vamos falar um pouquinho mais disso.

***

Numa entrevista dada à Folha de São Paulo, em 1994, o Edgar Morin – muito citado, nem sempre lido – foi perguntado sobre um conceito importante da sua obra, chamado ecologia da ação. Ele respondeu o seguinte:

“Desde que você começa uma ação, política por exemplo, ela vai escapar progressivamente ao seu controle para entrar num jogo de interação e retroação no meio em que ela se produz. (…) Ninguém pode determinar as consequências futuras da ação. Há um princípio de incerteza fundamental.“ 

Não há uma linha sequer da resposta que fale diretamente sobre futebol – mas para o bom entendedor, um pingo é letra. O escape progressivo ao nosso controle e a consequente entrada num jogo de interações e retroações é precisamente o que se passa no jogo de futebol, e podemos sentir isso num único exercício de uma única sessão de treino. De um ponto de vista do jogo – não apenas do jogo de futebol, mas do jogo (sobre o qual o professor Alcides Scaglia escreve tão bem), que antecede ao jogo de futebol – é imperativo considerarmos que um determinado sistema de ideias, que baseia uma série de comportamentos individuais e coletivos, é uma variável significativa, mas num sistema de inúmeras outras variáveis. Se de fato quisermos lançar mão de um pensamento complexo, em que tudo está tecido junto, num sistema de profundas interações e retroações, entre onze companheiros e onze adversários, sendo cada um dos vinte e dois sujeitos absolutamentes diferentes, então é preciso localizarmos bem as ideias – não porque não sejam importantes, é óbvio que são, pois porque há outras forças, para além das ideias, se afirmando e se negando continuamente no campo de jogo. Embora todos nós, como sujeitos humanos, tenhamos nossas ideias (por isso, aliás, não há quem seja ‘deserto de ideias’) é preciso considerarmos que o jogo, inclusive enquanto antecessor da cultura (Huizinga) também tem um sistema de ideias próprio, absolutamente alheio à razão humana. É bem verdade que sim, o jogo pode ser sensível às nossas respostas, mas isso não significa que a narrativa do jogo está exclusivamente sob nosso controle.     

Como a boa ciência e a boa filosofia dos séculos XIX e XX nos mostraram (Bachelard, Popper, Nietzsche…), o funcionamento das coisas pode não ser exatamente fruto de causalidades – como disse o Morin ali em cima, há um princípio de incerteza fundamental. Não é por acaso que tenta-se impor uma certa ordem humana à profunda incerteza do mundo – inclusive como reconhecimento sutil da nossa mais profunda fragilidade. E para saber disso, vejam bem, não é preciso termos lido ninguém: por que raios quando éramos crianças e jogávamos bola na rua, criávamos tantas jogadas ensaiadas, de tudo quanto é jeito, e nenhuma delas dava certo? Por que, quando mudávamos de casa ou de escola, e jogávamos pela primeira vez com um grupo novo, éramos capazes de jogar tão, mas tão bem futebol, como se conhecêssemos aquelas pessoas de vidas passadas? E por que depois, quando já conhecíamos de fato, quando estamos cheios de conhecimentos, em um time cheio de ideias, que atrai-fixa-liberta, que ocupa espaços entrelinhas ao mesmo tempo em que oferece amplitude máxima com os extremos no segundo terço do campo, que treina as mais impressionantes sequências ofensivas, com tudo quanto é tipo de apoio, mobilidade, ultrapassagem, segundo homem, terceiro homem, quarto homem, superioridades numéricas, posicionais, qualitativas etc etc – porque mesmo assim somos perfeitamente capazes de entrar em campo e não jogar absolutamente nada?  Porque o controle do jogo jogado não é apenas nosso – é do jogo. Quando defendo, como vários outros colegas, que o jogo seja visto como um microcosmo da vida que se vive, quero dizer exatamente isso: da mesma forma como a vida vivida não depende apenas da qualidade das nossas ideias – muito pelo contrário, há um mundo de forças agindo e retroagindo sobre nós, basta olharmos o nosso tamaninho sanitário -, o jogo jogado também não é reflexo exclusivo das ideias. Não por acaso, aliás, considere-se que a qualidade do jogo que se joga, individual e coletivamente, possa sim ter relação muito importante com o sentido que se dá à vida que se vive.

Mas não nos esqueçamos que mesmo o sistema de ideias é dependente de uma certa harmonia do sujeito. Sabendo disso, não me surpreende nem um pouco, embora me sensibilize bastante, a carta do Cesare Prandelli, que se demitiu da Fiorentina na última terça-feira. Embora ele não seja suficientemente claro sobre os problemas que enfrenta, deixa nas entrelinhas se tratar de algo emocional, razoavelmente profundo e eventualmente grave. Enquanto isso, a Fiorentina amargava apenas o décimo quarto lugar na Serie A italiana. De um ponto de vista simplista, não seria difícil atribuir uma suposta falta de ideias ao Prandelli – mas considerando o todo, será mesmo que uma análise dos comportamentos tático-técnicos da equipe, por mais minuciosa que fosse, daria conta da complexidade do problema? Não me parece.

Este é um terreno importante, que tangenciei na semana passada, que é o terreno da humanização do treino e do jogo de futebol. Vejam bem, o futebol não é um mundo à parte do mundo da vida, é parte inseparável da vida que se vive. E especialmente a partir do final do último século, foi se criando com ainda mais força essa noção de que nós, pessoas humanas em movimento, devemos ser sujeitos de performance: vejam, por exemplo, a facilidade com que se reproduz esse discurso da produtividade doentia – com seus rituais mirabolantes – assim como a facilidade com que naturalizamos, de alguma forma, a noção de que somos empresas de nós mesmos, cuja finalidade última é nos garimparmos cada vez mais.

Numa sociedade de performance, tudo aquilo que não é performático não será apenas questionado, mas será excluído – ou, numa linguagem moderna, convidado a se reciclar, como se recicla um resíduo qualquer. É precisamente aqui que se encontra a importância da humanização, não apenas porque as circunstâncias do mundo estão nos fazendo esquecer de como se trata gente como gente (e vocês sabem muito bem as coisas que se passam no futebol) mas também porque grande parte do jogo que joga e da vida que vive, como estávamos dizendo, estão para além do controle humano. Tendo em conta que um dos braços desse sistema é o individualismo, a partir de uma profunda convicção de que as vontades individuais são capazes de controlar as vontades do mundo, não surpreende que, diretamente ou não, façamos leituras tão individuais no futebol: se um dado jogador não rende, talvez seja porque não quer. Se uma dada equipe não rende, num futebol tão demasiadamente marcado pelas ideias (como faziam os cartesianos, diga-se), é porque elas eventualmente estão em falta.

Mas, lembrem-se, talvez não seja exatamente isso.

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A próxima vitória está no novo

Crédito imagem: César Greco/Palmeiras

Um dos clichês que mais ficou arraigado no nosso futebol é “em time que está ganhando não se mexe”. Nada mais simplista e não correspondente com a realidade, em se tratando de algo tão complexo e imprevisível como o jogo de futebol.

O conceito de desconforto é pouco explorado em muitas equipes de alto rendimento. Se em vários aspectos de nossa vida sabemos e até aplicamos de maneira intencional uma saída da ‘zona de conforto’ ainda há barreiras para essa ideia no esporte. Isso porque em casos de vitórias, seja de títulos ou até mesmo de alguns jogos, se cria internamente a ideia do ‘já está bom’. A ideia do ‘basta repetir que os mesmos resultados virão’. Ledo engano…

O ambiente e nossas interações com ele mudam a todo momento. No jogo, em que impera o caos, já que uma simples ação desencadeia uma serie de outras totalmente imprevisíveis, isso é ainda mais evidente. E se tudo é novo e nenhuma jogada é igual, já que há inúmeras relações possíveis entre o jogador, a bola, o adversário, o espaço e o tempo, como cravar que “em time que está ganhando não se mexe”?

Dentro de um viés de complexidade, não falo aqui de escalação. Falo de ideias, criar novas situações com e sem a bola, desenvolver diferentes relações entre os jogadores…até porque tudo o que é repetido se torna fácil de ser anulado pelo oponente.

Essa pode ser a chave para muitos times que não entendem porque as vitórias não estão mais vindo, já que nada mudou. Justamente porque nada mudou, as vitórias do passado não foram transportadas para o presente.

*As opiniões de nossos parceiros não correspondem, necessariamente, à visão da Universidade do Futebol

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Governança Corporativa – a controladoria

Créditos imagem: Kely Pereira – AGIF – CBF

Dando sequência ao tema Governança Corporativa no Futebol, neste 3º artigo iremos dissertar sobre a importância e o papel da área de controladoria nas organizações e os desafios a serem superados pelo respectivo profissional dentro dos clubes esportivos.

Cesar Grafietti defende que não há um modelo de gestão certo ou errado, independentemente do tipo e tamanho da organização. Concordamos com ele, mas indago sobre a atuação de um Controller ou gerente de controladoria em grandes instituições, especialmente naquelas em que o gestor trabalha após o horário comercial, o exercício de seu mandato possui curtíssimo período (três anos), mas o mandatário supracitado anseia por resultados esportivos paralelos ao exercício de seu poder, e, como observamos em algumas entidades de práticas esportivas, o orçamento e o potencial financeiro são ignorados ou inexistentes.

É de conhecimento comum que, de modo reduzido, o gerente de controladoria é responsável pelo planejamento, coordenação, direção e controle de atividades de curto, médio e longo prazo executadas nas áreas de planejamento, controladoria e finanças. Este profissional deve extrair e materializar informações pertinentes e legítimas, elaborando relatórios que auxiliem no processo decisório dos gestores de cada área, até mesmo dos diretores da organização. Os boletins informativos oriundos da gerência de controladoria devem conter elementos das atividades internas da corporação como do mercado no qual a instituição atue.

Gestores autocentrados são opinativos têm palpites excessivos, demitem técnicos, contratam inadequadamente atletas, desconsiderando as diretrizes orçamentárias. Tudo isso dificulta ou até mesmo anula a gerência de controladoria. Obviamente, não são demônios os gestores eleitos, muitos executam trabalhos primorosos, mas tantos outros colocam seu ego e sua vaidade além dos interesses do clube, comprometendo a governança.

O clube deve ser gerido para ser sustentável no longo prazo em um ambiente extremamente competitivo, e toda organização interessada na longevidade deve primar por boas práticas gestão e capacidade de execução dos planejamentos, o que invariavelmente exige como prerrogativa: avaliação, correção e compliance, convergindo aos valores organizacionais.

Imperativamente, sem esses passos a discussão sobre a implantação de uma área de controladoria será frívola. Não obstante, a existência de departamento de controladoria ainda não é pertencente à cultura organizacional (Figura 1 e 2) dos clubes de futebol. Em contraposição às demais organizações (Figura 3).

Figura 1: Organograma do Botafogo Futebol Clube (SP). Fonte: Bressan, Lucente e Louzada. Análise da estrutura organizacional de um clube de futebol do interior paulista: o estudo do Botafogo Futebol Clube, 2014.
Figura 2: Organograma de um Clube Europeu. Fonte: Bezerra, Feitosa e Gomes. Internacionalização de clubes de futebol: paralelo entre clubes europeus e brasileiros, 2017.

Figura 3: Posicionamento da Controladoria no Organograma Organizacional. Fonte: Lunkes, Schnorrenberger, Rosa e Alexandre. Funções da Controladoria: um estudo sobre a percepção dos gestores e do controller em uma empresa de tecnologia, 2015.

Lunkes, Gasparetto e Schnorrenberger apoiados na realidade organizacional alemã defenderam que a controladoria deve contribuir ao planejamento, sistema de informação, controle, gerência de pessoas e organizacional sem permitir a existência de lacunas com as funções primárias.

Concluindo, a controladoria favorece positivamente a administração ampla de qualquer organização, contribuindo à elevação da credibilidade, imagem positiva e alinhamento aos valores e propósito institucionais. Portanto, caracterizada como uma engrenagem necessária à governança.

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Governança Corporativa – Os órgãos de governança – Ler mais