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O currículo e a formação dos futebolistas do futuro

Em sua recém publicada tese “O futebol e os futebolistas do futuro: análise do currículo presente na formação de futebolistas de alto rendimento a partir de um estudo de caso”, orientada pelo professor Alcides Scaglia e aprovada na Faculdade de Educação Física da Unicamp, o pesquisador Carlos Thiengo discute o papel do currículo no processo de formação de jogadores e jogadoras em um estudo que investigou a influência da história de um clube e de uma cidade no campo de jogo.

Para isso, Thiengo, que é agora doutor em Educação Física, na área da Pedagogia do Esporte e idealizador da proposta pedagógica “Ginga, futebol com alegria”, foi até Araraquara, visitou museus, caminhou pela cidade, analisou documentos e fez uma espécie de período de residência na Ferroviária, onde conversou com gestores e treinadores, observou os treinos e estudou o currículo de formação de jogadores elaborado pelo clube.

O estudo alcançou o terceiro lugar na edição 19/20 do Prêmio Brasil de Teses e Dissertações sobre Futebol e Direitos do Torcedor, e por conta da premiação também será publicado como livro.

As descobertas contidas na tese, que propõe uma revolução no modo de entender o processo de formação de jogadoras e jogadores e o ensino do futebol, você confere nas linhas a seguir.

Universidade do FutebolQuais foram os objetivos da pesquisa e como é trabalhar com as ciências humanas e o estudo do futebol? 

Carlos Thiengo – Obrigado pela oportunidade de dialogar com vocês e pelo espaço para divulgação do estudo. Mas, antes de responder a primeira questão gostaria de fazer dois agradecimentos. Primeiro, agradecer imensamente a Ferroviária por me ter aberto as portas para realizar o estudo. Além disso, não poderia deixar de mencionar a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) pelo financiamento à pesquisa.

Nas ciências humanas a neutralidade do pesquisador não existe. Quando vamos para o campo de pesquisa, a percepção que temos do participante, do cenário, dos objetos estudados, de maneira geral, até a sua própria definição se confundem com a nossa história de vida. Eu, por exemplo, tentei ser jogador de futebol, assim como grande parte dos garotos brasileiros, e tenho uma forte relação afetiva com a modalidade, especialmente com o processo de formação de jogadores. 

Então, a forma de construir o estudo não tem como estar separada da maneira como me construí como profissional e como pessoa, em um processo que envolveu a minha formação enquanto aspirante a jogador e depois como profissional trabalhando no futebol. Esse foi o caminho percorrido para que se desenvolvesse o tema da tese, que é estudar a formação do jogador e, especialmente, o currículo, buscando entender quais são as iniciativas e os pontos de partida para se formar e se estabelecer o currículo para formação de jogadores de futebol na etapa de especialização esportiva que a gente conhece como categoria de base, que é o momento onde os e as jovens se preparam para atuar no futebol profissional. Aqui no Brasil essa é a etapa na qual os garotos ingressam nos alojamentos dos clubes, o que por características legais do país ocorre aos 14 anos.

Agora, definindo de maneira mais direta, o objetivo da pesquisa foi investigar essa construção, os aspectos que circundam a estruturação, a efetivação e a operacionalização de um currículo em um clube  que possui relevância nesse processo. Essa escolha se deu, voltando ao vínculo meu vínculo como pesquisador com o objeto estudado, pois minha trajetória me mostrou que existe uma secundarização nos processos na formação de jogadores. O que temos, via de regra, é a naturalização do rendimento de um jogador de futebol e quando se naturaliza o rendimento do jogador de futebol se desvaloriza o processo. Por conta dessas questões é que se buscou entender como o currículo, que é a organização do processo pedagógico, é construído e colocado em prática.

A partir desse objetivo e do entendimento do futebol como um fenômeno humano,  emergem os objetivos específicos da pesquisa que são entender como os aspectos culturais interferem na construção do currículo, como a concepção sobre a origem do rendimento esportivo, do talento, interfere nesse currículo e a partir daí fizemos uma pesquisa de caráter qualitativo.

UdoFO que é ser jogador profissional no Brasil?

Carlos Thiengo – É um desafio de proporções gigantescas. Muitas vezes não temos tanta dimensão, do que é esse esporte, em um país como o nosso no qual o futebol é a principal manifestação da cultura corporal, que tem uma tradição vencedora, sendo a nação com o maior sucesso da história. Isso cria um ambiente com uma relação afetiva muito bacana com a modalidade e que desperta um sentimento que une as pessoas, principalmente na iniciação, que é o momento que a criança é apresentada a modalidade. Entretanto, no que tange o futebol como uma profissão, tanto para os jogadores como para os demais profissionais, o cenário é extremamente desafiador em todos os sentidos. A quantidade de pessoas praticando e as características que essa profissão assume nos níveis nacionais e internacionais trazem uma competição elevadíssima para todos os seus atores. O antropólogo Roberto Da Matta diz que o futebol é uma manifestação simbólica, uma dramatização do brasileiro, essa fala dele se faz muito presente quando observamos as condições sociais e de trabalho que geralmente são oferecidos aos profissionais que atuam no futebol aqui no país, e constatamos que, as dificuldades que o brasileiro tem no trabalho esses profissionais “da bola” enfrentam até de uma forma ampliada. Em relação às condições de trabalho, quando saímos das principais competições e das principais equipes, a gente tem um cenário, que é bem documentado pelos órgãos oficiais, reportagens e outros estudos, que nos permite afirmar que ser jogador de futebol no Brasil é uma tarefa extremamente desafiadora. 

Tudo isso traz consequências para a formação dos jogadores muito significativas. Esses jovens passam por esse processo em um momento da vida no qual não estão formados ainda como adultos e com essa exigência que vem se tornando cada vez mais precoce, as implicações para a vida desses jovens são  bastante relevantes, até para aqueles que conseguem jogar no primeiro nível nacional e internacional. Atingir este nível significa ter as melhores experiências profissionais e, no aspecto financeiro, talvez sejam suficientes para proporcionar uma vida confortável após o encerramento da carreira, mas mesmo esses jogadores têm exigências muito significativas para própria reinserção social, pois essa atividade laboral é extremamente exigente e específica. Então, acredito que nesse ponto, é preciso muita cautela para poder um cenário de tamanha complexidade. Ser jogador de futebol no Brasil é uma das atividades mais desafiadoras que temos.

UdoFPartindo agora mais diretamente para sua tese, você investigou a construção e a aplicação do currículo no processo de formação de jogadores. Então, começando pelo principal, o que é currículo?

Carlos Thiengo – O currículo é o processo de ações organizadas de forma pedagógica e administrativas que conduzem a uma formação pretendida. Citando Jonnaert, Ettayebi e Defise, o currículo está para a educação assim como a Constituição está para o país. O currículo é a bússola, o mapa, que vai indicar o caminho que vamos tomar. Dessa forma, ele permite uma visualização mais clara e formalizada de como será conduzida a formação dessas pessoas que estão sob nossa responsabilidade, e da respectiva instituição educacional ou esportiva. Essa é uma definição que já está muito clara na educação formal, na escola, mas ainda um pouco mais incipiente no campo esportivo.

UdoFQual o atual estágio da aplicação do currículo dentro futebol e no processo de formação de jogadores?

Carlos Thiengo – Ela é incipiente no Brasil. Possuir um currículo nas categorias formativas é um anseio hegemônico, mas não uma prática hegemônica. O que se vê atualmente é apenas esse desejo. Essa situação está muito ligada com o terceiro objetivo específico da pesquisa, que é a relação da concepção do talento do jogador com o currículo. Predominantemente, a concepção do jogador é ainda a inatista, onde os processos de seleção e identificação de talentos, predominam em relação aos processos de formação. Aí, se vou selecionar, tendo ainda um número suficiente de jovens para que isso ocorra, como no caso do Brasil e os milhões de jovens que buscam oportunidades no futebol, para que vou investir no processo?  

Dentro de um olhar histórico, essa apropriação do currículo, não necessariamente com o uso formal da expressão currículo, pelo esporte é muito recente, mas as tentativas de sistematizar e organizar os conteúdos com o objetivo de aprimorar a formação esportiva vêm acontecendo em diversos países, tanto em se tratando de instituições esportivas, como na produção acadêmica. Nesse sentido, a obra mais acabada no que se refere a um currículo de formação esportiva é o currículo do Ajax, da Holanda. São documentos em diferentes formatos, inclusive audiovisual, que abordam os conteúdos de maneira aplicada apresentando também os seus processos. A primeira versão desse currículo é de 1995, o que ajuda a dar uma ideia de como a disseminação das discussões e a aplicação do currículo no âmbito esportivo, nos clubes de futebol, são recentes.

O futebol é uma escola para a vida ou ao menos deveria ser encarado dessa forma, especialmente pelo que você perguntou sobre o que é ser jogador de futebol e todas as características dessa carreira, essa volatilidade. O que fazer com jogadores que investiram grande parte de sua infância e juventude e que não atingem o nível do alto rendimento? A própria FIFA indica para a gente em seus documentos – Grassroot, Fútbol Juvenil e o Manual de Dirección Técnica – FIFA Coaching, que é preciso ter uma preocupação educacional, e o futebol vem se apropriando disso. 

Outro ponto interessante é que, assim como nas instituições educacionais, estão presentes no currículo dos clubes as influências culturais das localidades nas quais eles se situam. Essas demandas históricas e sociais de cada contexto são totalmente identificáveis nos currículos, tanto de forma consciente, formalizadas em um documento como a gente identificou na Ferroviária, como inconsciente, quando você não tem um documento, mas aquelas demandas permeiam todo o processo de formação. 

O currículo, de maneira formal e organizada ou não, está presente na concepção das pessoas que estão fazendo educação. Formar humanos futebolistas é um processo educacional.

UdoFComo você verificou na prática, dentro do campo de jogo, a influência da história e do contexto social de Araraquara no processo de formação de jogadores da Ferroviária? Como é possível identificar esses elementos em outras agremiações, como no caso clássico do tão alardeado “DNA do Barcelona”, por exemplo?

Carlos Thiengo – Esse é um tema que tem atraído muito interesse das pessoas, é um momento no qual se procura muito esse tipo de resposta. Essa pergunta é a mais importante em relação a esse trabalho. As pessoas querem saber muito como se constrói o currículo e a gente faz isso no final da tese, mas não com os conteúdos para um clube ou uma cidade em específico. O que apresento nas implicações práticas ao final da tese são indicativos, considerando que diferentes finalidades necessitam de diferentes conteúdos educacionais. Não é possível sugerir o que tem de conteúdo, mas sim os tópicos que poderão trazer os conteúdos. 

Dito isso, a pergunta me permite citar, o que eu acredito ser a parte mais legal do trabalho, que é a criação e o aperfeiçoamento de uma matriz de pesquisa qualitativa ou um desenho metodológico que permite considerar a presença do pesquisador, ajudando a trazer para a consciência aquilo que está no inconsciente.

Por exemplo, na pesquisa bibliográfica, eu precisava entender o que era a Ferroviária, esse clube, e Araraquara, qual a história dessa cidade? Para isso, fomos estudar Araraquara, a sua construção histórica, os seus aspectos sociais e políticos. Depois fui tentar entender a instituição Ferroviária, as pessoas que vieram trabalhar especialmente após a grande migração europeia ao final do século XIX, quais os postos que elas assumiram, as razões de terem migrado para determinadas regiões, e como elas ajudaram a desenvolve-las. Em Araraquara existe uma forte influência, principalmente, italiana, portuguesa e espanhola, esses migrantes chegaram na região para ser agricultores, dado que a região tem um tipo de solo, que é conhecido como “a terra roxa”, excelente para o cultivo. Esses imigrantes começaram trabalhando na produção do café e depois da laranja. Não por coincidência, é em Araraquara que está sediada uma das maiores empresas de citricultura do mundo.

Voltando ao passado e às origens da Ferroviária, de acordo com o livro Araraquara, Futebol e Política, de Luís  Marcelo Inaco Filho, os filhos dos imigrantes europeus que vieram para Araraquara, especialmente os italianos tinham o hábito de praticar o futebol depois do trabalho, o que eles chamavam de “doppolavoro”. Isso contrastava com o acesso dos filhos dos fazendeiros que estudavam em colégios que possibilitavam o acesso à prática do futebol. Outro ponto sobre Araraquara é que ela é uma cidade planejada, criada para ser um dos pontos de distribuição da produção cafeeira do interior do estado para o porto de Santos. Esse grupo de ferroviários é que funda o clube em 1950, 12 de abril de 1950, pessoas que vivem, convivem, constroem e transformam a cidade. 

Para conhecer todo esse contexto se deu a fase fase da pesquisa documental, na qual fui até Araraquara para visitar os museus da cidade, o museu do próprio clube, o museu dos ferroviários, o museu do município. Araraquara é uma cidade culturalmente muito rica, o MAPA, por exemplo, é o museu de arqueologia e paleontologia do município. Também realizei a etapa de observação direta extensiva que foi o questionário para os participantes da pesquisa e a observação participante que era observar os treinos das categorias de base do clube e, além disso, visitar a cidade e conversar com as pessoas. É por meio de todas essas ferramentas que fui percebendo que o que tem no documento, no currículo definido pelo clube, como os valores institucionais, que estão presentes também na forma pela qual aquele povo se constituiu como sociedade. 

Acredito que a tese ajuda a apresentar de forma mais clara como a gente pode investigar a presença de todos esses fatores. Por exemplo, lá no sub-20 da Ferroviária, eles buscam no perfil do egresso, ou seja, o perfil dos jogadores que serão formados pela instituição, um jogador que tem uma alta taxa de sacrifício, isso está registrado no documento do clube. E aí, no museu da cidade no centro da cidade, no segundo andar do museu tem uma imagem do Senhor dos Passos que, coincidentemente ou não, tem um manto grená. Aquele Senhor dos Passos simboliza a paixão de cristo, que é uma história de sacrifício da religião católica, a religião predominante do povo que ajudou a constituir a cidade de Araraquara, que são os espanhóis, portugueses e italianos. E a Ferroviária tem como alguns valores a coragem e esforço, eles não negociam esforço, é a história da cidade e de quem a construiu entrando em campo. Esses imigrantes não tinham como voltar para os seus países de origem, eles vieram para ficar e a única forma deles poderem conseguirem isso era o trabalho pesado que sustentava as suas famílias. Nesse contexto, o clube nada mais é do que, a identidade da cidade. 

Um outro ponto, joguei “essa bola pra cima” na tese, é que se atribui a influência da cor do clube aos vagões da EFA, que eram grenás. Porém, quando fui visitar o museu do ferroviário observei que os utensílios utilizados pelos ferroviários, pelo pessoal que trabalhava na construção das ferrovias e na manutenção dos trilhos, o local que eles tocavam com as mãos, tinham a cor grená. Então eles aos restaurarem as peças originais, os equipamentos que utilizam no trabalho diário, esses utensílios foram pintados de grená em alguns locais. Ao observar isso, o que me ocorreu foi: a pintura se deu pelo fato deles colocarem as mãos e sujarem com a cor do solo, ou eles pintavam daquela cor os instrumentos, naqueles locais específicos porque estes, com o tempo iriam assumir aquela cor. Porque pensei isso? Pois andando pela cidade, comecei a perceber que a cor da camisa da Ferroviária é também a cor do solo da cidade. A Ferroviária veio de uma transformação muito significativa quando em 2003 ela alterou o seu estatuto, passou a ser gerida de forma empresarial, ela mudou até o seu modelo de gestão, mas não negocia o grená. O grená é inegociável pois, na minha visão, o grená para eles é o que significa aquele solo, é o que significa a razão daquela cidade existir, é o símbolo da razão da existência daquela gente, é um símbolo como o Jorge Castelo afirma, é um sub-sistema cultural, que manifesta o que para eles existe de mais importante.

Então quando olhamos para isso pensamos o que em determinado clube pode ter que é inegociável para aquela instituição. Pegando o exemplo aí do tão falado DNA do Barcelona, o que significa o jogo de posição catalão? Que se configura diferente do jogo de posição dos holandeses, levado pela influência holandesa para Espanha. A posse de bola para o catalão tem um significado simbólico. No livro  Sendas de Campeones, o jornalista Martí Perarnau [autor também da série sobre o técnico Pep Guardiola], discorre sobre isso.  Sendo assim, podemos  dizer que o significado simbólico que é ter a bola para o catalão, está para o Barcelona como o significado simbólico do grena tem para a Ferroviária. 

O desafio da tese é explicar qual é esse significado simbólico e como ele se manifesta no currículo. O currículo é influenciado por questões geográficas, religiosas, etc, e aí ele se manifesta.  Por exemplo, o jogador na Ferroviária não pode negar o esforço, e o currículo também traz que o jogador deve ter as suas qualidades técnicas, o que faz parte da cultura brasileira, de modo mais amplo. As coisas vão se misturando numa grande trilha de complexidade, e isso só foi possível de perceber pois a lente da pesquisa qualitativa, por meio de diversas técnicas, permitiu olhar os fenômenos por ângulos que talvez não sejam os mais comuns.

UdoFE essa identidade se transforma?

Carlos Thiengo – Não tenha dúvidas, como diz o Bauman, quando a gente fala de identidade, desse ethos institucional, a alma, o espírito… o intangível sempre presente! No mundo contemporâneo no qual nós vivemos, das relações que a gente estabelece, falamos de um objeto em constante mutação. A gente tem que conseguir identificar: a identidade é aquilo que é mais profundo. Não é que é natural, mas isso vai sendo construído e reconstruído. Tem espaço, muito espaço para essa reconstrução, vão existindo outras influências, crises. A identidade não é algo estático. O que vejo é que em alguns lugares assumiram essa identidade 

A gente demora um tempo de nossa vida para descobrirmos que nós somos de verdade, aceitarmos como nós somos, isso também acontece com uma instituição. Ela demora tempo para entender quem é. Às vezes as instituições, por várias influências, vão mudando, igual as pessoas. A cultura é uma constante produção e produto humano e a identidade não seria diferente. Características identitárias que são mais profundas se manifestam no jogar, mas nem tudo o que se manifesta no jogar de equipe é fruto exclusivamente desta identidade.

UdoFJogador de qualidade técnica? Quem não quer esse jogador? Quem vai querer uma identidade que englobe jogadores ruins?

Carlos Thiengo – Nós brasileiros ligamos a questão da técnica, geralmente a relação que os jogadores estabelecem com a bola e a um tipo de jogo específico, que foi construído culturalmente por nós. Nos esportes individuais, a técnica tem como principal característica a eficiência mecânica, gastar menos energia para cumprir uma tarefa. Por exemplo, nos últimos anos a gente viu o Usaín Bolt ter uma vantagem mecânica em relação aos outros concorrentes, ao conseguir se deslocar uma mesma  distância com um número de passos menor, marcando uma reconstrução paradigmática naquele esporte. Já no futebol, e em outros esportes coletivos, a técnica corporal assume o papel eficácia, da eficácia simbólica, como nos ajuda a compreender Marcel Mauss. Para este autor a técnica é o uso do corpo, e a forma pela qual uso meu corpo é uma construção cultural, logo, o que é bom para mim, não necessariamente é bom para o outro. E aí a gente acaba fazendo juízo de valor sobre o que é melhor e o que é pior em relação à uma determinada técnica, àqueles movimentos que mais nos encantam e nos seduzem. 

Então, o  jogador que utilize seu corpo de forma que se aproxime ao que é considerado melhor, mas ser um bom jogador e agradar não necessariamente é igual em todos os lugares, podendo um jogador contemplar a utilização mais preponderante nas suas ações dos aspectos físicos, por exemplo, e aquilo vai ter  outro significado para aquele povo e agradar também,

O futebol é um espaço de manifestação afetiva e às vezes nessa busca da mercantilização do rendimento, a gente quer uma técnica que seja universal. Isso não existe, porque essas “técnicas” são construções. Todo mundo quer o melhor jogador, que executa aquilo que emociona, igual música, você quer uma música que te emociona, que te dá prazer, podemos usar o exemplo da gastronomia também, a comida não gera apenas uma saciedade biológica, mas traz todo um entorno de satisfação com fatores que vem à reboque, e assim funciona com o futebol e o nosso gosto técnico. 

Essas sensações que eu descrevi muitos procuram, mas o caminho para atingi-las não são iguais para diferentes pessoas, grupos, países, etc. No Brasil, arroz com feijão é um prato típico, mas o tempero, suas sutilezas, variam… o que confere sabores distintos

UdoFEntão nem todo mundo quer o Messi [inserir aqui outro jogador ou jogadora de sua preferência]?

Carlos Thiengo – Sem dúvidas que todos querem o Messi ou um jogador com a capacidade similar a que ele apresenta. Mas, ele atua apenas em uma equipe. Desta forma penso que apesar de todos o quererem, a maior parte dos apreciadores do futebol conseguem ser felizes sem ter ele na equipe de sua preferência! Existe o futebol genial que ele pratica e existe o futebol genial que outros praticam, e aí está o segredo do Brasil, a grande sacada da nossa identidade, que é essa pluralidade. A gente teve jogadores igual o Messi, e jogadores com as mais diversas características que também foram encantadores. Nós, temos essa capacidade, com a nossa enorme dimensão territorial e diversidade cultural, essa pluralidade, nós temos jogadores e jogadoras, com privilégio de sermos o único país do mundo a possuir o e a melhor do mundo da história da modalidade, das mais diversas características, os elegantes, os velozes, os lentos, os fortes. Essa é uma característica identitária muito presente no Brasil. Então, a questão é que nem todo mundo, apesar de querer, precisa dele, um perfil único de jogador para fazer um futebol genial, outros fizeram de outra forma e também foram encantadores.

UdoFVoltando para a sua tese, quais foram os resultados do estudo? 

Carlos Thiengo – Em relação aos três objetivos específicos que foram propostos, de certa forma conseguimos trazer de forma bem sólida a influência desse arcabouço histórico-cultural na construção do currículo da Ferroviária.

O segundo ponto é que a gente mostra ali na tese como os aspectos estruturais interferem na operacionalização do currículo desejado ou planejado. Quando a gente ouve os profissionais, algumas dimensões do rendimento, como a técnica, a física, entre outras são apontadas como as mais importantes, prioritárias, mas quando a gente vai ver no treino, outras dimensões aparecem de forma mais destacada.

Por fim, a gente observou que a Ferroviária, especificamente, identificou a necessidade de introduzir os processos nas suas categorias e essa escolha começa a aparecer de forma mais destacada do que a seleção de jogadores. Essa mudança abarca uma das discussões centrais da tese que é sobre a concepção do talento, com a estruturação do seu currículo de formação, a Ferroviária é um exemplo de instituição que vem trazendo uma mudança paradigmática, direcionando seu olhar um pouco mais para o processo de formação e menos para a seleção, como ainda é a prática e entendimento predominante.

UdoF Você enxerga que a Ferroviária, como instituição esportiva, vem, com esse movimento, superando a concepção do dom, de que a criança nasce “pronta para jogar”?

Carlos Thiengo – Sim. A tentativa é institucional, o que marca um avanço, como aponto na tese, é um esforço institucional. Romper paradigmas não é um fenômeno que ocorre de maneira abrupta, as concepções vão coexistindo, a ciência, por exemplo como paradigma coexiste com correntes filosóficas, religiosas, entre outras…Em alguns momentos certas ideias predominam sobre as outras, mas elas coexistem. 

Apesar dos desafios que estão presentes, sou extremamente otimista com o desenvolvimento e as perspectivas futuras quanto a formação de futebolistas no pais. E, novamente reitero os meus agradecimentos às instituições que possibilitaram a realização do estudo e contribuem com o desenvolvimento do futebol, bem como a você Arthur pelo espaço concedido. Muito obrigado.


Para acessar a tese completa é só clicar aqui.

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Novos campeonatos para atrair o torcedor

O projeto de criação de uma liga europeia, que nas últimas semanas tomou os noticiários esportivos não é uma ideia nova. Desta vez, as possíveis mudanças na Premier League, tiveram como destaque o movimento de Liverpool e Manchester United. Pelo lados dos grandes clubes europeus, o surgimento de novas competições ou alterações nos campeonatos atuais tem como justificativas, a expansão de suas marcas pelo mundo e disputas de poder que vão além das instituições. Mas não é só isso. Estas mudanças em estruturas atuais podem ser fundamentais para continuar atraindo a atenção dos torcedores no futuro do esporte. Este texto surge para tratar desta necessidade, observando as iniciativas pelo mundo e como o Brasil se encaixa nisso tudo.

Há algum tempo o futebol faz parte da indústria do entretenimento, como já abordamos aqui. É sob essa perspectiva que vamos analisar a maneira como o esporte é entendido. Dentro do mercado do entretenimento, o jogo ganhou fortes concorrentes, principalmente pela atenção de um público mais novo, como as plataformas de streaming Netflix e Amazon Prime, além dos eSports. Surgiram fenômenos como a segunda e terceira tela, cada vez mais consolidados no mercado, quando o espectador divide a atenção entre a televisão e seu telefone, notebook e outros dispositivos. A partir disso, clubes e federações começaram a perceber que precisam modificar seus produtos. Jogos com pouco relevância e emoção tendem a distanciar o público do futebol.

Uma das soluções analisadas por quem comanda o esporte é a mudança de estruturas atuais, mais especificamente no que se refere ao formato dos torneios. A UEFA Nations League foi a primeira iniciativa a ser feita nesta direção. O torneio da federação europeia foi criado para substituir os amistosos que ocorriam nas datas FIFA. As poucas partidas na fase inicial, bem como os playoffs decisivos que deram o título para Portugal na primeira edição, conseguiram melhorar o nível de competição em relação aos sonolentos amistosos. A FIFA deve seguir pelo mesmo caminho em relação ao Mundial de Clubes. O formato com apenas os campeões de cada continente não possuía emoção alguma, graças a distância técnica crescente entre os clubes europeus e o restante do mundo. A fala de Gianni Infantino, presidente da entidade, mostra porque a nova estrutura deve atrair facilmente a atenção dos fãs: “O novo torneio será uma competição que toda pessoa … qualquer um que ama futebol, está ansioso por ver. É a primeira Copa do Mundo real e verdadeira onde os melhores clubes competirão. Ela contará com 24 equipes e será realizada entre junho e julho de 2021”.

Dois dos maiores clubes da Premier League em faturamento, Manchester United e Liverpool, também perceberam que os formatos atuais trazem desvantagens na disputa pela atenção dos fãs. A partir disso, a dupla vem trabalhando a cerca de três anos em um projeto chamado de Project Big Picture. A iniciativa daria maior poder de decisão para as grandes equipes da Premier League, permitindo que mudanças que os favorecessem fossem postas em prática. No plano inicial, divulgado no início de outubro, a única novidade em relação aos torneios seria a alteração no número de equipes que disputam a primeira divisão da Inglaterra, passando de 20 para 18. Seriam menos jogos contra equipes de menor alcance nacional e internacional, abrindo possibilidade para novas competições entre os principais clubes do planeta.

A iniciativa mais relevante neste sentido irá envolver instituições de todo o continente europeu. Trata-se da Superliga Europeia, competição que reuniria as melhores equipes de Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália. Contando com 16 ou 18 participantes, haveria uma fase inicial com todos jogando contra todos em ida e volta, além de um playoff em sede única para decidir o título. A primeira edição do torneio tem previsão para 2022, e conta com o banco JP Morgan como um possível investidor, com a quantia inicial de investimentos de US$6 bilhões. A especulação sobre esta liga dividiu opiniões das grandes confederações. Enquanto a FIFA parece apoiar tal iniciativa, a UEFA acredita que um torneio neste modelo serviria apenas para aumentar a desigualdade na distribuição de renda do futebol mundial.

Um aspecto em comum entre as novas estruturas é a utilização do formato de mata-mata em momentos decisivos do torneio. As decisões têm maior facilidade para atrair a atenção das pessoas, já que aquela pode ser a última partida do seu time ou jogador preferido. Pode ser também o dia em que o craque terá uma atuação que ficará guardada na memória dos fãs por anos. É um formato que favorece a criação de experiências memoráveis, uma necessidade dos torcedores da nova geração e algo difícil de existir em um campeonato que seu time jogará 38 jogos. Um exemplo recente disso foi o sucesso que a UEFA teve no mini torneio organizado em Lisboa para terminar a Champions League de 2019/20 após a paralisação pelo novo coronavírus. O brasileiro Neymar também soube rentabilizar a torneio, transformando sua chegada no estádio em um momento aguardado por todos nas redes sociais.

Tratando sobre aspectos de mídia, a Rede Globo já notou que partidas eliminatórias garantem uma audiência melhor. Considerando números de 2019, até mesmo os estaduais conseguiram gerar uma boa audiência em jogos eliminatórios, tendência que não foi vista em partidas que valem três pontos na classificação. Além disso, os patrocinadores ganham mais visibilidade e poder de atuação se o evento atrair a atenção dos torcedores com maior facilidade. Se os fãs pararem de assistir aos jogos por falta de emoção, as marcas começarão a retirar seu dinheiro e haverá um grande problema por aqui.

Todas estas considerações deveriam servir de recado para o futebol brasileiro em relação aos campeonatos estaduais e suas fases iniciais intermináveis. Seguimos ano após ano com três meses de calendário ocupados por torneios de pouca relevância. Quem vai se interessar por um Flamengo x Bangu, em fevereiro, pela fase de grupos do primeiro turno do campeonato carioca?

Cabe ressaltar que essas mudanças precisam abranger não apenas os grandes clubes da indústria do futebol. Os clubes considerados menores também devem entender as modificações da indústria e pesquisar alternativas para atrair seu torcedor daqui para frente. Criar rivalidades locais e buscar cada vez mais uma integração com sua comunidade podem ser algumas das soluções. O mundo do futebol está se transformando e aqueles que não souberem trabalhar em cima disso ficarão para trás.

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Porque defendo e gosto tanto de Tite

A avaliação de qualquer trabalho, seja positiva ou negativa, não pode ser rasa e imediata. A cruel rapidez com que se espera resultados no futebol brasileiro vai na contramão disso, eu sei. Porém sempre busco o maior número de elementos para adjetivar jogadores, técnicos, dirigentes e etc. E – resumidamente – é pelo histórico, pela cronologia e pelos pontos fortes e fracos que classifico não só personagens, como também times, clubes e seleções.

Por todo esse conjunto da obra, Tite é o melhor técnico brasileiro. Disparado. E o segundo pelotão aparece muito distante dele. Tite é perfeito? Não, longe disso. Sei que para ele faltam algumas competências para trabalhar na primeira divisão do futebol mundial, que é o cenário europeu. Entretanto nenhum outro treinador nascido em solo nacional reúne tantas habilidades como o atual comandante da nossa seleção.

Para facilitar o entendimento, divido as competências de um técnico em duas partes: a primeira é a de campo. Conhecimentos de jogo, sistemas, táticas, metodologia de treino, intervenção durante uma partida, etc. A segunda se refere a gestão do ambiente: comunicação, liderança, relacionamentos, etc. E quando coloco Tite como o melhor que temos nessas duas esferas, gosto de salientar o esforço pessoal dele em aprimorar todas as competências necessárias para aumentar a probabilidade de sucesso.  Acompanho a carreira de Tite desde 2001, quando chegou com o Grêmio ao título da Copa do Brasil. E é nítido que há quase vinte anos atrás ele não dominava tantos princípios e subprincípios ofensivos como agora. E que a comunicação dele, um pouco professoral à época, não causava os efeitos positivos na maioria dos atletas como agora.  

O cargo de técnico da seleção tem uma exposição acima do normal. Os extremos, principalmente os negativos, aparecem muito – basta um jogo ruim ou uma convocação discutível, para aparecer uma avalanche de críticas. Mas com toda a frieza que uma análise como essa requer, ratifico: Tite é o profissional mais completo que temos. E o que é legal, ele não nasceu assim. Se esforçou para evoluir. E hoje merece estar onde está. 

*As opiniões dos nossos autores parceiros não refletem, necessariamente, a visão da Universidade do Futebol

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Renegociação das dívidas tributárias no futebol

Em abril de 2020 entrou em vigor a Lei Federal nº 13.988/2020, denominada “Lei do Contribuinte Legal”, que prevê requisitos e condições especiais para viabilizar as transações tributárias entre contribuintes – clubes de futebol e a União Federal, e a negociarem os débitos tributários federais inscritos em dívida ativa ou objeto de contencioso judicial ou administrativo.

O objetivo da Lei é permitir que os bons pagadores, ou seja, aqueles que muito embora não possam, momentaneamente, arcar com seus débitos tributários, encontrem maneiras flexíveis e que enquadrem a sua realidade atual de maneira a renegociar os débitos tributários, possibilitando uma redução de até 50%referentes a descontos nos juros e multas. Para isso, basta que os clubes não sejam considerados infratores contumazes.

Trata-se da primeira lei brasileira que regulamenta o instituto da transação em matéria tributária, previsto no artigo 171 do Código Tributário Nacional – CTN, e faz parte da reforma tributária que se pretende implementar no Brasil, atendendo à produção, com a restauração da confiança e diminuição da interferência do Estado na economia.

A transação tributária tem como principal objetivo a redução de litígios tributários, promovendo a extinção de créditos tributários federais objeto de discussão, estimulando o contribuinte – clubes de futebol – a desistir da discussão em troca de uma redução no valor dos consectários da dívida.

Cabe ressaltar que a transação não se equipara a uma anistia ou parcelamento incentivado, como os diversos programas propostos nos últimos anos. Isto porque os referidos programas visavam a atingir determinados períodos de débitos, bem como tinham prazo para adesão. Caso não fosse feita a adesão e posterior consolidação dos débitos nos prazos previstos, os contribuintes não poderiam se beneficiar dos descontos de juros e multa, prazos alargados de parcelamento, dentre outros benefícios previstos pelos referidos programas.

A lei 13.988/20 dispõe sobre três modalidades de transação:

i) por proposta individual ou por adesão, na cobrança de créditos inscritos na dívida ativa da União, de suas autarquias e fundações públicas, ou na cobrança de créditos que seja de competência da Procuradoria-Geral da União,

ii) por adesão, nos demais casos de contencioso judicial ou administrativo tributário, e

iii) por adesão no contencioso administrativo tributário de pequeno valor.

A proposta de transação deverá expor os meios para extinção do passivo tributário e estará condicionada, no mínimo, à assunção pelo devedor dos compromissos de:

i) Não utilizar a transação de forma abusiva, com a finalidade de limitar, falsear ou prejudicar a livre concorrência ou a livre iniciativa econômica;

ii) não utilizar pessoa natural ou jurídica interposta para ocultar ou dissimular a origem ou a destinação de bens, de direitos e de valores, os seus reais interesses ou a identidade dos beneficiários de seus atos, em prejuízo da Fazenda Pública federal;

iii) não alienar nem onerar bens ou direitos sem a devida comunicação ao órgão da Fazenda Pública competente, quando exigido em lei;

iv) desistir das impugnações ou dos recursos administrativos que tenham por objeto os créditos incluídos na transação e renunciar a quaisquer alegações de direito sobre as quais se fundem as referidas impugnações ou recursos; e

v) renunciar a quaisquer alegações de direito, atuais ou futuras, sobre as quais se fundem ações judiciais, inclusive as coletivas, ou recursos que tenham por objeto os créditos incluídos na transação, por meio de requerimento de extinção do respectivo processo com resolução de mérito, nos termos da alínea c do inciso III do caput do art. 487 da Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015 (Código de Processo Civil).

Nesse contexto, o ultimo case de sucesso sobre a transação tributária ocorreu com o Cruzeiro Esporte Clube que foi excluído do Programa de Modernização da Gestão e Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro – Profut, ao deixar de cumprir com os requisitos mínimos do programa, qual sejam, deixar de quitar três ou mais parcelas sucessivas ou de maneira alternada de modo recorrente.

Após a exclusão, o Clube procurou vias para sanar o passivo tributário e, ao analisar a Lei Federal 13.998/2020, vislumbrou a possibilidade de renegociar a dívida ativa e, consequentemente, reduzir o débito.

Para aderir a Lei 13.998/2020, o Clube precisou assumir alguns compromissos como a alienação de bens, renunciar todos os recursos às execuções fiscais, dentre outros requisitos que citamos acima, ao passo que a renegociação reduziu cerca de 45% da dívida do Clube, o que configura cerca de R$ 151.798.099 de um valor total estimado de R$ 334.182.840,98. O saldo restante a pagar foi parcelado em 145 meses, com as 12 primeiras parcelas no valor aproximado de R$ 350 mil mensais. Passados esses doze meses, as parcelas teriam valores progressivos, conforme informou o clube.

Como no case de sucesso citado acima, a legislação trouxe novas possibilidades de renegociações entre os Clubes para com a União. Para que isso se concretize, basta que os interessados cumpram os requisitos e apresentem uma proposta formal para que a União aceite o acordo de uma transação tributária, e, principalmente, os gestores do futebol brasileiro sejam finalmente compromissados com as finanças dos respectivos clubes que gerenciam.

Imagem destacada: Gustavo Aleixo/Cruzeiro/Divulgação

*As opiniões dos nossos autores parceiros não refletem, necessariamente, a visão da Universidade do Futebol

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O ataque do River de Marcelo Gallardo – A criação das jogadas

Na semana passada, iniciamos a nossa série sobre o ataque do River Plate do técnico Marcelo Gallardo discutindo a fase da construção das jogadas ofensivas da equipe. No texto de hoje vamos explorar o momento da criação das jogadas, nas zonas intermediárias onde as ações são realizadas com o intuito de propiciar as situações mais vantajosas na fase de finalização das jogadas ofensivas, que discutiremos na próxima semana.

Nessa fase a equipe do River preferencialmente inicia suas interações a partir de uma estrutura de segurança e circulação da bola utilizando três jogadores por trás, variando entre: médio + centrais (maior freqüência em 2018/2019) ou centrais + um dos laterais mais utilizado em 2014/2015. Essa estrutura favorece o avanço dos laterais em amplitude e permite a interação deles com os médios e atacantes para combinar jogadas pelos lados do campo. Veja alguns exemplos a seguir

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

A equipe argentina variou os jogadores que compunham a estrutura de segurança e circulação de bola nos três jogos analisados. Em 2014 ao alternar o lado do campo para atacar um dos laterais fechava pelo centro para liberar o lateral oposto, na figura 11 podemos ver Mercado fechando o corredor central e Casco avançando pela esquerda.

Já em 2018 a variação na utilização do médio “guardião” da região central Enzo Pérez que na figura 12 se posiciona entre os centrais e os laterais Casco e Montiel avançam, essa disposição oferece liberdade posicional para os médios Quintero e Palacios para flutuar pelos lados do campo e receber a bola de frente para o gol adversário.

Na figura 13, Enzo Pérez se posiciona ao lado de Maidana também permitindo o avanço de Montiel e Casco ao mesmo tempo pelos corredores laterais com mais segurança.

Organizando-se em 3 para iniciar seu ataque o River consegue não somente permitir o avanço dos seus laterais, mas também construir uma vantagem numérica diante de adversários que se organizam com atacantes numa estrutura de pressão.

Grêmio e Boca Juniors, foram equipes que escolheram essa alternativa e tiveram muitas dificuldades para recuperar a bola nessa zona do campo.

Ao estruturar-se com 3 apoios de segurança e circulação, os médios de Gallardo ficam livres para flutuar em diferentes espaços e permitindo interagir com os laterais que ganham profundidade. Outro benefício é que os médios controlam a bola de frente para a defesa adversária e conseguem ter uma visão de como está a situação dos atacantes que oferecem opções pelo centro; além de servir de apoios de segurança e circulação aos laterais para mudar o ponto de ataque com passes curtos ou longos em diagonal. Vejam dois exemplos dessas relações em jogos de 2014 E 2015

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

Nas figuras 14 e 15 podemos ver o médio Pisculichi localizado nas regiões laterais pelo lado direito para pode ter conexões de amplitude e profundidade.

Nas imagens abaixo de 2018 os médios se oferecem como apoio de segurança aos laterais caso não haja a progressão pelo lado. Ao serem acionados podem mudar o ponto de ataque com passes curtos (Figuras 16 e 17) ou longos em diagonal (Figura 18).

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

Essa estruturação posicional permite a equipe de Gallardo manter uma boa interação dos laterais com os atacantes para combinar jogadas pelo lado e garantir profundidade para atingir espaços nas costas da última linha defensiva do rival. Outro benefício, é que exige que o adversário recue para manter uma contenção e proteção segura, o que permite mais controle a equipe argentina e mais espaços livres para agredir e chegar ao gol adversário.

Imagem: Reprodução/Jonathan Silva

Na figura 19 de 2019 temos uma visão ampla dessa fase de disposição posicional. As opções de amplitude são estabelecidas com jogadores de características diferentes. O lateral Montiel está aberto pela direita como opção para progredir por fora e interagir com Nacho Fernandez.

Nas figuras 20 e 21 vemos o contrário, o lateral esquerdo Vangioni está por dentro e o atacante Cavenaghi está por fora, uma relação clara de alternância de largura. O cruzamento de Vangioni encontra Alario dentro da área que faz o primeiro gol da primeira conquista de Libertadores de Gallardo.

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

Nas figuras 22 e 23 o lateral Mercado se posiciona em amplitude enquanto Sanchez se projeta para o espaço de fundo do corredor lateral, atacando o intervalo entre o lateral e zagueiros da equipe colombiana, ao ser perseguido pelo zagueiro um espaço valioso é aberto na linha defensiva do Atlético Nacional. Ao mesmo tempo Alario e Mora se colocam como apoios de fixação pelo interior aguardando um cruzamento futuro para dentro da área.

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

Nas imagens 24 e 25 temos a variação da posição de amplitude, desta vez Sanchez está localizado mais aberto, enquanto o lateral Mercado se projeta pelo por dentro buscando o espaço nas costas da linha defensiva do LDU e novamente os atacantes Mora e Alario pelo centro invadem a área aguardando um cruzamento do lateral. Com essas combinações a equipe argentina vai ganhando profundidade e atacando espaços valiosos para concluir as jogadas.

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

Na próxima parte da série, que será publicada no próximo domingo, serão analisados os comportamentos do River Plate na fase de finalização do ataque.

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Sobre o jogo de futebol como um jogo de distração

Não faz muito tempo, falamos aqui sobre algumas características do jogador inteligente. Num primeiro momento, escrevi um pouco mais diretamente sobre a capacidade de ler nas entrelinhas, e a importância disso no jogo jogado. Outro dia, usei como exemplo o gol do Jordi Alba no jogo entre Espanha x Itália, em 2012, para ilustrar meu ponto: lendo as entrelinhas, Alba viu além.

Hoje, gostaria de acrescentar uma outra característica importante do jogador inteligente, que é a capacidade de distrair. De distrair para atrair ou, até antes disso, de perceber o jogo de futebol como um jogo de distração, no qual estamos constantemente buscando distrair o adversário, sem perder de vista as nossas intenções coletivas. Deixem-me falar um pouco melhor sobre isso.

***

Durante o período de quarentena, Daniel Alves fez uma live muito interessante com Bernardinho, treinador multicampeão no voleibol brasileiro e mundial. Num certo momento, Dani Alves relembra uma história de quando Guardiola disse, literalmente, que iria ensiná-lo a jogar sem bola. O próprio Dani diz não ter entendido – como assim seria possível jogar bem sem a bola? – afinal, é com a bola que jogamos futebol! Mas, na sequência, Guardiola teria ilustrado um pouco do que entende do jogo de futebol e, especialmente, um pouco do que pode ser o jogo de futebol quando pensamos a partir da distração. Segundo o próprio Dani Alves:

“Por exemplo, uma vez o Guardiola chegou pra mim, falou assim: ‘Dani, eu vou te ensinar uma coisa: vou te ensinar a jogar sem bola’. (…) Ele falou assim: ‘a bola tem que estar no pé do Messi, do Iniesta, do Xavi, porque eles são a distração. E você ataca o espaço sempre deixado por eles.’ Então eu comecei a entender ‘cara, eu não preciso estar com a bola no pé todo o tempo… eles precisam estar com a bola no pé todo o tempo!’ (…) Então é um jogo de distração (…) a bola distrai e quem é inteligente ocupa os espaços deixados.”

Quando pensamos no jogador inteligente, talvez fique subentendido que o jogador inteligente, de alguma forma, seja um tipo de protagonista, ou pelo menos tenha a responsabilidade de ser o protagonista, mas num jogo coletivo, com tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, não precisa ser necessariamente assim. O jogador inteligente pode muito bem não ser um protagonista com a bola, não porque não saiba ou não queira, mas porque entende que talvez outros atletas sejam ainda melhores com a bola do que ele, e que isso não vai limitá-lo, mas vai fazer dele ainda melhor do que é. Messi, Iniesta e Xavi – que não eram apenas eles, separados, mas as relações que faziam entre eles, juntos – decidiam muitos jogos, e justamente por isso atraiam tanta atenção dos adversários que, além de atrair, também eram capazes de distrair: abriam espaços para que os outros decidissem. Como dissemos antes, atrair para distrair.

Tenho trabalhado isso de uma forma bastante insistente com meus atletas já há algum tempo, especialmente nos jogos de manutenção da posse com restrição de toques. Vejam bem, quando fazemos um jogo de manutenção da posse – vamos supor um 6 v 6 num espaço de 40m x 30m – com um toque apenas na bola, é claro que ganhamos algum requinte de ritmo na circulação da posse, assim como refinamos a tomada de decisão, a importância do perfilamento o corpo e etc, mas também abrimos mão de algumas coisas, e uma delas é precisamente a possibilidade de distrair a partir do domínio. Num jogo de dois toques, por exemplo, fica muito mais claro o quanto a bola é uma isca, e o simples fato de dominá-la (bem) é capaz de atrair o adversário – exatamente para distrai-lo. O simples fato de retirá-lo de onde está em direção a bola pode abrir, às suas costas, o espaços de que precisamos para progredir. Domínio, atração, distração, passe.

Ao mesmo tempo, talvez o que também faça uma grande diferença para o jogador inteligente seja essa capacidade dupla, de tanto distrair para o outro, quanto de permitir, de acordo a situação do jogo, que o outro distraia para si. Nos dois casos, há uma ponte que os une: é preciso pensar no depois. Não é que a distração seja um fim nela mesma, é um meio para se chegar em algum outro lugar uma, duas, ou várias jogadas adiante. Neste sentido, a analogia com os jogadores de xadrez, que aparece logo nas primeiros linhas do livro Guardiola Confidencial – quando é relatado um encontro de Pep Guardiola com Garry Kasparov, é de fato muito verdadeira: o jogador de xadrez antevê diversos padrões do jogo, está pensando várias jogadas adiante e é capaz de fazer isso intuitivamente. É disso que também se trata o processo formativo: da capacidade de fazermos dos atletas tão atentos ao presente que são, inclusive, capazes de pensar repetidamente sobre o futuro sem distanciar-se dos problemas do instante. Não deixa de ser uma arte.

Como é uma arte todo o processo formativo – mas vamos falando sobre isso aos pouquinhos.

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A injusta demissão de Domenec no Flamengo

Que a fase do Flamengo não é das melhores está a vista de todos. Os números e o próprio desempenho escancaram isso – números, aqui, me refiro especificamente aos defensivos, em uma análise simples e quantitativa dos gols tomados e ao desempenho falo de uma análise mais qualitativa, envolvendo toda a complexidade do jogo, nos aspectos técnicos, táticos, físicos e emocionais.

É extremamente injusto e contraproducente comparar o Flamengo de Domenec Torrent com o de Jorge Jesus. Eu poderia fazer um texto enorme discorrendo sobre as diferenças de modelo de jogo, princípios e subprincípios ofensivos, defensivos e de transições, mas isso não é o que mais explica o atual momento do clube.

Domenec Torrent em ação pelo Flamengo. Crédito: Redes sociais do treinador/Divulgação

Na nossa cultura individualista de analisar o jogo o mais fácil é apontar que bastava Domenec dar sequência ao trabalho de Jesus que os resultados e performance seriam os mesmos. Porém se no futebol “antigo” isso até poderia funcionar já que diante de inúmeros talentos o bom técnico era aquele que menos atrapalhava, nos dias de hoje essa análise se torna rasa demais. O coletivo se sobressai mais do que nunca. E se estamos discutindo algo tão imprevisível, aleatório, complexo e humano como é o jogo de futebol, nunca podemos apontar um único problema e muito menos uma única solução.

Em um ano tão atípico, com o calendário cruelmente apertado e com casos de Covid explodindo em todos os elencos, a análise tem que ter um viés de complexidade ainda mais aguçado.Que tal se ao invés de falarmos sobre o Jogo de Posição não falássemos sobre relacionamento interpessoal entre Domenec e os jogadores? Ou então se no lugar de só constatarmos a defesa mais exposta não questionassemos se a fome e o espírito do grupo estão sendo tão estimulados como Jorge Jesus fazia? Ou até ampliarmos o debate para a liderança e a comunicação do ex-técnico flamenguista, se ela não gerava um impacto tão positivo como era com o treinador português? 

Que fique claro: sou um apaixonado por tática. Leio, estudo, vou atrás de tudo o que envolve essa vertente do jogo. Mas quanto mais estudo tática mais vejo que só ela não responde a todos os problemas.

*As opiniões dos nossos autores parceiros não refletem, necessariamente, a visão da Universidade do Futebol

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O impacto das mudanças de comando técnico no futebol brasileiro – possíveis caminhos

A partir de uma reflexão crítica sobre a alta rotatividade de treinadores no futebol brasileiro, nosso estudo investigou as principais causas e consequências das mudanças de comando técnico no Brasileirão por meio de uma avaliação econométrica compreensiva, cujos dados contemplam 16 temporadas (2003 a 2018). Respeitando regras, parâmetros e testes estatísticos estabelecidos pela metodologia científica que já reconhecemos na literatura de administração e economia do esporte (reunindo estudos similares em 15 países), chegamos a evidências contextualizadas à realidade do Brasil.

Durante o período da nossa amostra o Brasileirão apresentou taxas de mudança de comando técnico muito superiores a outras importantes ligas da Europa e América do Sul (conforme ilustrado na PARTE 1). Além dos números absolutos e relativos de trocas ao longo das 16 temporadas sob observação, também chamou a nossa atenção a incidência de treinadores repetidos em cada ano (22,7% em média), bem como a consistência de oportunidades a novos entrantes em cada edição da liga nacional (34,6% em média). Mesmo antes dos cálculos estatísticos, já foi possível perceber o alto nível de insegurança e volatilidade que os treinadores de futebol vivenciam no território nacional.

Ao avaliar as causas (PARTE 2), identificamos que o rendimento esportivo da equipe numa janela de 4 jogos sequenciais representa um sério indicador que afeta a permanência do treinador no cargo, evidenciando uma mentalidade de curtíssimo prazo por parte de dirigentes no Brasil. Já as expectativas por resultados positivos não apenas aparentam ser superestimadas pelos clubes, como também reforçam a miopia e a atitude especulativa na tomada de decisão sobre a continuidade do treinador na função. E de forma surpreendente, o desempenho em competições paralelas destacou-se como o fator de maior influência ao determinar mudanças de comando técnico no Brasil, já que uma eliminação da Copa Libertadores basicamente se traduz em uma rescisão contratual durante a liga nacional (muito embora as competições tenham formatos de disputa distintos sob um viés de alto rendimento no esporte).

Considerando o real impacto da rotatividade de treinadores e as consequências sobre o rendimento esportivo (PARTE 3), somente um sinal de influência mínima foi identificado após as trocas, porém é necessário aguardar 7 jogos até que uma coleta de pontos possa ser parcialmente assinalada como consequência da mudança de líderes na equipe (sem evidências adicionais que sustentem esse mínimo efeito após o sétimo jogo). Embasados pelos resultados estatísticos e pela literatura acadêmica, concluímos que o treinador de futebol no Brasil sofre com o ritual do bode expiatório (uma teoria reconhecida e estudada pela gestão do esporte mundialdesde a década de 1960). Na prática, as mudanças de treinadores respondem a outros interesses, sem associação à melhoria efetivado rendimento esportivo. Entre os resultados da nossa análise ao longo das 16 temporadas sob observação, fatores como o mando de campo e a diferença de pontos em comparação ao adversário (antes do jogo) revelam consequências maiores sobre o rendimento das equipes, com prognósticos superiores ao impacto de novos nomes assumindo o cargo. Aliás, o processo de recrutamento para a escolha do treinador deve ser conduzido de forma cuidadosa, uma vez que nossas estatísticas demonstram um efeito negativo
sobre a coleta de pontos quando o líder da equipe é estrangeiro ou preenche a função apenas como treinador interino.

Visando fornecer informações assertivas e com base científica para melhores decisões adiante, despertamos uma série de implicações práticas que podem apoiar a carreira dos treinadores, o trabalho dos dirigentes e o acompanhamento dos torcedores de clubes brasileiros.

Implicações práticas para os treinadores

Para os treinadores, o principal ponto crítico de reflexão extrapola a profissão. Isto porque, além de evidenciarmos a instabilidade crônica da sua função no país, também percebemos sinais de frustração, ansiedade e estresse reportados publicamente pelos profissionais brasileiros ao longo desta pesquisa acadêmica. Ou seja, a insegurança na carreira profissional carrega indícios prejudiciais à saúde mental e física dos treinadores, que sofrem com oscilações de temperamento, sono desregulado e até mesmo disfunções cardiovasculares em casos extremos. Consequentemente, não seria incomum o treinador testemunhar reações agressivas ou transtornos de impaciência na sua relação com jornalistas, com membros do próprio clube, ou até com familiares em situações mais agudas. Priorizando a sua condição humana com um cuidado maior à sua saúde pessoal, o treinador pode tentar amenizar a pressão recorrente no seu ambiente profissional.

Embora os resultados estatísticos do nosso estudo revelem alguns ângulos que podem estender a sobrevivência dos treinadores no cargo através de decisões estratégicas ao aceitar ou declinar propostas de emprego, ao evitar saídas voluntárias quando já empregados, e também ao exercer prioridades na disputa de competições paralelas ou dentro de uma sequência curta de jogos, não devemos restringir a interpretação final somente ao reflexo dos números. Coletivamente, o treinador tem menos espaço prático para o desenvolvimento do seu potencial no futebol brasileiro, dificultando sua projeção de carreira devido a decisões limitadas ao curto prazo no local onde o seu trabalho é julgado. Com isso, reivindicar avaliações objetivas por parte dos seus empregadores poderia ser uma defesa coletiva dos treinadores em todo o território nacional. Ainda assim, a união profissional somente fortalece a classe quando os indivíduos passam a defender a mesma teoria, executando-a de forma conjunta (e consistente) na prática.

Implicações práticas aos dirigentes

Para os dirigentes (leia-se diretores, conselheiros e presidentes dos clubes), os principais pontos críticos de reflexão são a racionalidade e a responsabilidade nas tomadas de decisão. Com números alarmantes em absolutamente todos os 41 clubes participantes do Brasileirão ao longo de 16 temporadas, não há mais como negar (ou tentar esconder) a parcela de (ir)responsabilidade que os dirigentes detêm na situação atual e histórica de seus clubes, cujas decisões irracionais atrasam o progresso qualitativo do futebol brasileiro.

Felizmente, medidas profissionais podem ajudar a modificar tal postura crônica, como a implementação de um recrutamento cuidadoso e criterioso na seleção dos treinadores, aliado a produção de conteúdo estratégico com o departamento de comunicação do clube (apoiando o treinador com iniciativas que transmitam uma visão construtiva do líder técnico aos seus torcedores), além do investimento primordial em ciência e tecnologia como mecanismos que potencializem o trabalho do treinador e sua comissão técnica, beneficiando o rendimento esportivo do clube em longo prazo.

Contudo, vale ressaltar que mudanças estruturais não reproduzem diferenças práticas se o comportamento cultural dos dirigentes permanecer o mesmo (independente da estrutura organizacional, seja em um clube-associativo ou clube-empresa, os resultados tendem a ser semelhantes até que a postura do dirigente se altere a parâmetros racionais). Em um sistema político como o futebol brasileiro, onde ainda prevalece a disputa pelo poder, mérito e atenção, decisões impulsivas, emotivas e com interesses desassociados ao aprimoramento profissional do clube são comuns e recorrentes.

Com os resultados da nossa avaliação econométrica em mente, torna-se nítida a necessidade por uma melhor administração das expectativas, bem como de critérios profissionais em detrimento a julgamentos subjetivos ao avaliar os treinadores no Brasil. Além disso, reagir de forma exagerada ou impulsiva após eliminações de competições paralelas (em especial na Copa Libertadores) não apenas escancara a falta de planejamento estratégico, como tende a comprometer objetivos mais realistas de longo prazo numa temporada (afinal, o Brasileirão não é disputado em formato eliminatório). Aceitar, assumir e dividir responsabilidades em momentos desfavoráveis pode ser o caminho profissional que avance e modifique o comportamento entre os dirigentes brasileiros, a fim de compartilhar publicamente a complexidade e a dinâmica de um esporte coletivo de alto rendimento sem realocar toda a pressão (interna e externa) ao treinador empregado no momento adverso.

Implicações práticas aos torcedores

Para os torcedores, o principal ponto crítico de reflexão volta-se à demanda por maior transparência de seus clubes de coração (e consumo). Após identificarmos que 264 indivíduos vivenciaram 594 mudanças de comando técnico sem carregar efeitos positivos sobre o rendimento esportivo no panorama completo com todos os 41 clubes participantes do Brasileirão entre 2003 a 2018, o sinal de alerta (ou insatisfação) dos torcedores deveria ser redirecionado aos responsáveis pelas decisões, em vez de aceitarem a narrativa crônica de que a solução sempre vem com a troca dos treinadores. Afinal, nenhum clube passou ileso, tampouco nenhum treinador passou imune ao comportamento dos dirigentes (independente da idade, nacionalidade ou experiência como jogador profissional).

Conforme revelamos entre os resultados, fatores como o mando de campo e as expectativas pré-jogo carregam prognósticos de grande influência na nossa análise estatística. Em ambos os casos, há o envolvimento dos torcedores como peças integrantes desses dois fatores, que ajudam a manifestar o peso da opinião pública sobre os clubes de futebol no Brasil. Aliado ao fato do torcedor ser essencialmente quem subsidia o sistema (ou financia as contas), seja de forma direta com a aquisição de ingressos e produtos oficiais, ou de forma indireta com o consumo de canais esportivos que detêm os direitos de transmissão das competições, exigir transparência significa monitorar tanto a alocação de recursos, como os objetivos e as decisões conduzidas dentro do clube. Afinal, baixos níveis de transparência prejudicam a sustentabilidade da organização e do esporte em todo o país.

Com preferência a opiniões arbitrárias e argumentos subjetivos em detrimento a teorias acadêmicas e embasamento científico, a cultura de relações sociais que rodeia o ambiente político de dirigentes no Brasil ainda desvaloriza o seu compromisso profissional perante os torcedores, manipulando a opinião pública de acordo com interesses temporários. Especificamente no tema do nosso estudo, quando um clube modifica rotas de liderança técnica na mesma temporada, não apenas o treinador permanece por tempo insuficiente para desenvolver o seu potencial, como a organização também se torna refém do curto prazo, apressando (ou negligenciando) o processo de recrutamento dos substitutos. Ou seja, enquanto o treinador tem poucas semanas para comprovar sua escolha, o clube tem ainda menos tempo para atualizar suas especulações, fomentando alternâncias cíclicas que não atraem melhoria efetiva ao rendimento esportivo. Acima de tudo, rescisões contratuais frequentes geram dívidas trabalhistas exponenciais, que nem sempre são honradas pelos empregadores, acumulando despesas financeiras com treinadores, advogados e demais credores envolvidos em cada um dos processos, os quais consequentemente afundam a organização esportiva enquanto a atenção pública se volta ao treinador (o protagonista no ritual do bode expiatório).

Limitações do estudo

Apesar de expandirmos a avaliação das mudanças de comando técnico no futebol brasileiro a níveis mais criteriosos por meio deste estudo científico, ainda reconhecemos algumas lacunas que merecem consideração em pesquisas acadêmicas posteriores.

Primeiro, não examinamos a influência de eleições (presidenciais e de conselho deliberativo) que acontecem a cada 2 ou 3 anos nos clubes do Brasil, afetando as decisões políticas que sustentam o julgamento de dirigentes em trocas contínuas de treinadores.

Segundo, infelizmente não foi possível mensurar o efeito das posições na tabela ao longo do período, pois o calendário de jogos do Brasileirão sofreu com disparidades na sua programação original em 15 dos 16 anos sob análise na nossa amostra (conforme adiantado na introdução do estudo) e, portanto, qualquer comparação histórica com as posições na tabela seria ilusória.

Terceiro, não estudamos a composição dos elencos dos clubes participantes, cujo entendimento certamente ajudaria a explicar tanto as mudanças de comando quanto os prognósticos de rendimento esportivo devido a diferenças em qualidade e quantidade de recursos humanos à disposição do treinador.

Quarto, não encontramos fontes confiáveis para coletar dados sobre os torcedores presentes nos estádios (em números absolutos e relativos) em todos os jogos da nossa amostra, que nos beneficiaria a compreender como o estímulo da torcida pode influenciar resultados ou decisões no Brasil.

E quinto, teríamos um grande diferencial se pudéssemos examinar as oscilações na narrativa, eloquência e retórica praticadas pela imprensa esportiva brasileira em fases de trocas de treinadores, a fim de verificar o efeito de reportagens, opiniões e cobertura editorial na construção ou manutenção da pressão externa, que evidentemente é repassada com maior intensidade ao treinador.

Conclusão

Esta investigação científica tem como objetivo revelar uma referência acadêmica valiosa para o melhor entendimento de treinadores, dirigentes e torcedores de futebol do Brasil sobre o que efetivamente influencia as mudanças de comando técnico no Brasileirão, além do real impacto das trocas de treinadores e as consequências sobre o rendimento esportivo de seus respectivos clubes.

Ao aplicar teoria na prática, a administração baseada em evidência já colaborou para dissolver julgamentos e suposições arbitrárias em outros ângulos no esporte, como por exemplo ao divulgar ineficiências na análise de desempenho de atletas no beisebol (Moneyball: O homem que mudou o jogo) ou reivindicar a implementação de novas políticas de saúde após constatações sobre riscos letais na prática do futebol americano (Concussion: Um homem entre gigantes). Tais cenários, embora não relacionados diretamente ao futebol brasileiro, costumavam ser tratados como assuntos de mero acúmulo de experiência prática até que a econometria, a ciência e a inteligência acadêmica romperam os argumentos subjetivos de gestores, dirigentes e políticos rumo a uma nova mentalidade no esporte profissional.

Portanto, ao fortalecer o pensamento crítico sobre avaliações objetivas no cenário do futebol brasileiro, o estudo em questão avança o processo de conhecimento e discussão teórica em um território que ainda carece de evidências científicas (contextualizadas à sua realidade) para contradizer alegações irracionais na gestão da modalidade esportiva que levou o Brasil a se tornar uma referência global há anos (ou décadas atrás). Mas, ainda hoje, insiste em queimar suas próprias cartas.

“Eu fico envergonhado quando vejo algum jogador meu errar um fundamento, porque na verdade a culpa não é dele. Sendo treinador, é minha obrigação ensiná-lo a como aprimorar sua técnica, mesmo que isso leve mais tempo do que o esperado. É para isso que eu trabalho”Telê Santana, 1992

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O ataque do River de Marcelo Gallardo

O River Plate de Marcelo Gallardo tem se estabelecido como um dos grandes destaques do futebol sul-americano e mundial. Não apenas pelos 6 títulos internacionais nos últimos 5 anos, mas pela sua autenticidade na maneira de jogar. O que “El Muñeco” Gallardo conseguiu construir nos últimos anos se trata de uma identidade de jogo que sobrevive, se renova e se fortalece a cada temporada, algo que emociona seus adeptos e desperta o interesse e admiração daqueles que são amantes de equipes que expressam personalidade forte e altas doses de paixão pelo jogo.

Um desses amantes é ninguém menos que Pep Guardiola, que manifestou em 2019 sua admiração pelo trabalho artesanal do treinador argentino

“Precisamos ver o futebol sul-americano. Parece que existe apenas a Europa no mundo, e eu não entendo como Gallardo não é indicado entre os melhores treinadores do mundo. Não apenas por um ano, mas sim por tanto tempo” – Pep Guardiola

A partir de agora vamos iniciar uma série que irá analisar as características ofensivas do supercampeão argentino e como Gallardo organiza sua equipe no momento de disposição da bola, observando como muitos mecanismos táticos ofensivos permanecem vivos e favorecendo a interação dos jogadores durante todo esse período.

A construção do jogo

O início de jogo depende muito da conduta do adversário que geralmente optam por pressionar em bloco alto. Então, o início de jogo com bola longa se torna uma reação imediata dos millonarios onde os laterais buscam uma posição mais avançada no campo e esperam um passe longo dos centrais, caso não haja vantagem em iniciar o jogo com passes curtos. Após o passe longo dos centrais ou do goleiro o comportamento dos laterais passa ser de reduzir opções dos adversários e de ganhar a 2ª bola com encaixes individuais na região central do campo. Toda essa estrutura formada pelos laterais e médios é protegida pelos centrais que ficam responsáveis pelas coberturas e pelos duelos com os atacantes adversários que tentam aproveitar os espaços livres das costas. Veja alguns exemplos a seguir:

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

As imagens mostram momentos diferentes desse jogo, mas representam os comportamentos que mais se reproduzem na fase de início de jogo do River.

Na figura 2, os laterais Mercado e Vangioni buscam uma vantagem posicional sobre os atacantes da equipe colombiana como primeira opção, posicionamento padrão dos laterais de Gallardo. Na figura 3, o volante Ponzio e o lateral Vangioni se projetam para realizar os encaixes individuais na região central do campo e o lateral direito Mercado tem a função de acompanhar esse movimento para também proteger o centro do campo.

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

O mesmo comportamento acontece nos exemplos acima, anos depois. Aqui temos os laterais Montiel e Casco avançando para esperar o passe longo dos centrais.

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

Nas três imagens percebemos claramente a estrutura de contenção central posicionada para ganhar a 2ª bola. Importante ressaltar a interação dos volantes Ponzio e Enzo Pérez que têm a função de auxiliar os laterais intensificando a pressão nessa região do campo.

Na figura 9, a bola é rebatida pela equipe gremista para as costas da estrutura de contenção central e vemos Pinola se preparando para a disputa da bola e Maidana se projetando para uma possível cobertura defensiva.

Na Figura 10 o mesmo acontece, a bola é rebatida pela equipe do Flamengo e também retorna para uma região central atrás na estrutura de contenção e quem se responsabiliza da próxima disputa é o central Pinola e quem estabelece a cobertura defensiva é Martínez Quarta que também divide sua atenção com a projeção de Éverton para um espaço importante deixado pelo avanço do lateral Casco.

Esses exemplos demonstram como a equipe de Gallardo assume riscos ao avançar seus laterais para recuperar a bola em profundidade, ainda que deixem espaços nas costas dos laterais. Nessa situação a preferência é apostar nos duelos defensivos dos bons centrais para garantir a posse de bola, eliminar a chance de gol e iniciar seu ataque posicional, que será o tema da continuação de nossa série sobre o ataque do River Plate, na semana que vem!

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Transmissão em Jogo – Extinção da MP 984 e Reaparecimento do Clube dos 13

Na última semana, passou a ser cogitada a hipótese de clubes de futebol fazerem negociação coletiva por direitos de transmissão. De acordo com o blog do Marcel Rizzo, do UOL, especula-se que os dirigentes de grandes entidades cogitam a chance de criar uma associação que pode culminar no ressurgimento de um novo Clube dos 13, um grupo que, por duas décadas, tratou internamente a repartição dos dividendos referentes aos direitos de imagem, mas terminou em 2011 após acordo entre clubes, emissoras de TV e CBF. 

Desde então, as negociações dos direitos de transmissão dos torneios são feitas de forma individual ou intermediadas pela CBF. A ideia de retomar a união de clubes para discutir os direitos de transmissão ainda é um projeto discutido por poucas entidades desportivas, gerando impactos positivos e negativos. Para avaliá-los, precisamos voltar um pouco no tempo.

A primeira lei que regula a transmissão de eventos esportivos no Brasil surgiu na década de 1970, chamada de Lei de Direitos Autorais – Lei nº 5.988/1973. 20 anos mais tarde, a Lei Zico – Lei 8.672 /1993, afirma que: “às entidades de prática desportiva pertence o direito de autorizar a fixação, transmissão ou retransmissão de imagem de espetáculo desportivo de que participem”. (BRASIL, 1993).

A Lei Pelé (Lei 9.615), publicada em 24 de março de 1998, revogou a necessidade de cobrança para acompanhamento dos eventos esportivos, garantindo às instituições do futebol a soberania nos processos de negociação e cobrança pelas transmissões de partidas. A negociação passou a ficar a critério de cada time, sendo sua decisão prevalente em relação aos jogadores que compõem o elenco do time, já que o interesse do público não está em um atleta apenas, mas no conjunto.

Por muitos anos, o contrato firmado entre as emissoras de televisão e os clubes de futebol foi considerado como o mais vantajoso, já que as instituições arrecadavam fundos com os valores recebidos da imprensa pela transmissão da partida e as emissoras, por sua vez, lucravam com os comerciais transmitidos durante a partida e nos intervalos dos jogos.

Para que as negociações fossem facilitadas, o Clube dos 13, que representava os maiores clubes do Brasil, cumpria todos os trâmites, mas, devido à divisão não-igualitária das cotas, os clubes passaram a tratar sobre os valores individualmente.

As diferenças dos valores negociados passaram, no entanto, a serem ainda mais evidentes, fazendo com que alguns clubes tenham uma disponibilidade de recursos muito superior a outros, interferindo nos investimentos dos times e, consequentemente, no nível de futebol apresentado por cada equipe.

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) defende que a negociação coletiva, como era feita pelo Clube dos 13, feria os princípios da livre concorrência e que, para adoção deste sistema, seria necessária a criação de uma lei para regulamentar estes processos.

Em 2010, o CADE avaliou um termo de compromisso que determinava a exclusão de cláusulas contratuais que favoreciam a renovação de contrato com emissoras e apresentava a possibilidade de ofertar os direitos de transmissão para outras TVs, sistema pay-per-view e plataformas digitais, abrangendo assim as transmissões via streaming. No que tange à legislação, portanto, ficam os clubes livres para negociarem a cobrança ou não do direito de imagem.

Assim, aqueles que passam a optar pelas transmissões via streaming, seja pelas redes sociais ou pelas plataformas pagas, têm o desafio de conseguir uma receita publicitária ao menos satisfatória em relação à receita oferecida nas transmissões convencionais.

Os valores recebidos pelas transmissões de partidas, sejam eles pagos pelas emissoras de TV ou por outras empresas de comunicação, representam mais de 40% dos dividendos dos clubes, de acordo com análise do Itaú BBA referente aos resultados financeiros de 25 grandes entidades do futebol. Sem contar com os valores referentes às vendas e cessão de direitos de jogadores, os valores referentes à transmissão dos jogos são a parte mais significativa do montante movimentado pelos grandes clubes – não é de se espantar que a MP 984/2020 tenha causado tanto burburinho no meio do futebol, já que concedia apenas ao mandante o direito de transmissão da partida.

Atualmente, se apenas um dos times cede os direitos de transmissão, a partida não pode ser exibida por termos legais; se a MP entrasse em vigor, esse impedimento de transmissão não aconteceria mais, caso o mandante autorizasse a transmissão do jogo em questão. O modelo, que é adotado em outros países, foi amplamente questionado e trouxe à tona outras questões referentes à exibição de partidas, como o uso do Youtube e plataformas de streaming para transmissão, por exemplo.

A discussão ultrapassou – e muito – as quatro linhas e os limites da tecnologia e afetou as relações entre as emissoras de TV, órgãos de comunicação e o governo, colocando em xeque direitos previamente adquiridos por emissoras – de transmissão e exclusividade – como no caso da Rede Globo de Televisão. Em meio à pandemia, quando os portões fechados dos estádios tiraram dos clubes a renda a partir da venda de ingressos, os times se viram diante de mais um impasse, que pode possibilitar maior liberdade para negociações, mas que, no entanto, pode trazer desequilíbrios ainda maiores na divisão de recursos e outras desvantagens futuras. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.