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Impacto da globalização nas atividades extracampo dos jogadores de futebol

A globalização consiste, de forma bem resumida, no processo de integração econômica, cultural, social e política, gerado pela necessidade do capitalismo de buscar e conquistar novos mercados. Mas qual seria a relação da globalização com o futebol?

Até o final da década de 70, a economia do futebol se limitava à manutenção do sistema federativo dos clubes, sendo uma atividade sem fins lucrativos. Já no início da década de 80, o futebol passou a ser um produto tipo exportação, iniciando-se um grande fluxo de dinheiro e influência neste mercado, abarcando jogadores, times, campeonatos, canais televisivos, patrocinadores etc.

Isso se deu pela internacionalização do esporte, ocasionada, justamente, pelo fenômeno da globalização. O futebol deixou de ser apenas uma prática esportiva, se tornando um dos maiores mercados financeiros mundial, sendo que um dos seus principais alavancadores foi o televisionamento dos jogos ao vivo, além da introdução da publicidade de grandes marcas.

Empresas multinacionais começaram a investir maciçamente nos campeonatos, times e, principalmente, jogadores, estampando suas marcas nos uniformes e ao redor dos gramados nos estádios. Assim, o futebol, e tudo aquilo ligado a ele, passou a ser tratado como mercadoria, em que há muito mais em jogo do que apenas fazer ou defender gols.

Há alguns anos, um braço da globalização começou a ganhar uma força surpreendente e, até mesmo, assombrosa, no mercado futebolístico. A internet, aqui mais representada pela mídia, seja ela manifestada através dos jornais, telejornais ou redes sociais, deixou de apenas informar sobre jogos e campeonatos, passando a buscar e divulgar informações internas dos clubes e, principalmente, das atividades extracampo dos jogadores.

Como tudo nessa vida, existe o lado bom e ruim da influência da internet no futebol. Enquanto algumas notícias divulgadas fazem times e jogadores aumentarem sua popularidade, expandindo não apenas os seus lucros, mas o de todas as empresas licenciadas e patrocinadoras envolvidas, há outras, em contrapartida, que podem desestabilizar por completo a realidade do clube e dos outros envoltos, leia-se: jogadores de futebol.

Um exemplo recente de como a mídia pode influenciar no mercado futebolístico, é o caso da recontratação do jogador Robinho pelo Santos Futebol Clube. 

Conforme amplamente divulgado, no sábado, 10 de outubro, o Santos anunciou a contratação de Robinho, sendo declarado pelo clube como “a última pedalada”. O que o clube e o próprio atleta não esperavam é que a notícia seria duramente criticada pelos torcedores e grande parte dos comentaristas influentes do país.

As críticas se deram pelo fato de Robinho ter sido condenado em primeira instância, em 2017, pela justiça italiana, a nove anos de prisão por violência sexual em grupo. Ele e cinco amigos foram acusados de violentarem sexualmente uma jovem albanesa em 2013 na cidade de Milão. A sentença foi dada de acordo com as evidências coletadas através de interceptações telefônicas realizadas contra os acusados.

Mesmo sabendo da condenação, o Santos preferiu realizar a contratação do atleta, se remetendo aos tempos de glória vivenciados pelo jogador no time como uma maneira desta contratação ser bem aceita pelos torcedores. Um dos principais motivos da contratação era financeiro: o clube tem um débito com o atacante e queria aproveitar os cinco meses de contrato para abater a dívida.

Mesmo sofrendo grande represália dos torcedores do Peixe e de outros amantes do futebol, além de pressão por parte dos patrocinadores, chegando até mesmo a perder o patrocínio da Orthopride, o Santos preferiu, no primeiro momento, seguir com a contratação de Robinho.

O estopim para a suspensão do contrato entre o clube e o atleta, foi a divulgação pelo Globo Esporte de parte das transcrições dos áudios entre Robinho e outros envolvidos no suposto crime. As falas do jogador geraram ainda mais repúdio à permanência dele no clube, além de ter levado o principal patrocinador do time santista ameaçar romper o contrato, o que fez com que o Santos se visse obrigado a suspender o contrato com o jogador.

Analisando a contratação de Robinho pelo lado jurídico, o fato de o jogador ter um processo criminal correndo em seu desfavor, não o impede de ser contratado por algum clube e/ou empresa – função social, sobretudo considerando que ainda existe discussão acerca do fato na justiça italiana.

Em que pese a decisão não ter transitado em julgado, restando ainda ser avaliada pelo Tribunal de Apelação, Robinho está sendo tratado como culpado pela internet, o que o leva a arcar com consequências que não atingem apenas sua vida privada, mas também seu lado profissional.

Se não fosse pela pressão da internet sobre os patrocinadores e clube, o contrato provavelmente estaria ativo, até mesmo por inexistir qualquer impedimento legal para a contratação e permanência do jogador no clube. 

Portanto, nos resta questionar até que ponto é saudável essa interferência da internet nas atividades extracampo dos jogadores.

Aqui estamos retratando um caso sensível, um crime abominável e que, se confirmado pelas próximas instâncias, os culpados não merecem qualquer ato de indulgência por parte da sociedade, devendo cumprir as rigorosas penas eventualmente culminadas.

Entretanto, há outros casos onde não envolvem crimes, mas opiniões pessoais dos jogadores e sua vida privada, que acabam prejudicando contratos, parcerias e até mesmo sua permanência no clube, por não serem aceitas no “Tribunal da Internet”, o que vai totalmente contra ao direito à liberdade de expressão garantido a todo cidadão.

Assim, em que pese a globalização ter ajudado e muito na propagação e crescimento do futebol e do mercado que o rege, a vida pessoal dos jogadores acabou virando um anexo de sua profissão, sendo que não importa mais apenas o que acontece dentro das quatro linhas do gramado, mas também tudo que sobrevém extracampo. 

Contudo, não podemos deixar de reconhecer a importância do avanço da inclusão no futebol de pautas antes consideradas tabus, como a luta contra o racismo, homofobia, machismo e outras formas de preconceitos, assim como o papel de apoio a esses movimentos que as grandes marcas estão desenvolvendo.

Atitudes imorais e que atentem contra a dignidade de qualquer pessoa, devem sim ser repudiadas e combatidas por toda a sociedade, não importando se está partindo de um cidadão anônimo ou de uma celebridade prestigiada, como o Robinho, devendo, no entanto, ser observado o bom senso e razoabilidade, para que imagens e carreiras não sejam manchadas por alegações e acusações que eventualmente não correspondam à realidade dos fatos.

*As opiniões dos nossos autores parceiros não refletem, necessariamente, a visão da Universidade do Futebol

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Bibliofut, a literatura do futebol brasileiro – um livro sobre livros de futebol

No Brasil, nascemos, crescemos e vivemos com o estigma de que somos um país sem memória.  Quando o assunto é a literatura do futebol, a coisa é diferente!!!! Podemos comemorar uma bela conquista. A obra “Bibliofut: a literatura do futebol brasileiro”, lançada em 2019, rompe com a lógica do esquecimento e desrespeito com a nossa história e celebra a cultura do ludopédio, esporte dos mais tupiniquins.

O livro é o resultado de estudos e pesquisas de um bibliófilo, Domingos Antonio D’Angelo, e de um bibliotecário, Ademir Takara, sobre obras publicadas na temática do futebol.

A obra se divide em duas partes:

A primeira, “um relato da literatura do futebol brasileiro”, buscou indicar os livros que tratam do ludopédio, divididos em cinco fases históricas e que merecem ser conhecidas, segundo a visão de um dos autores, Domingos D’Angelo.

A segunda, “bibiliografia brasileira de futebol”, é o resultado de uma ampla pesquisa de Ademir Takara que relaciona 4.570 livros publicados no Brasil até o ano de 2018. Temos, de acordo com uma classificação que respeita o conteúdo e as normas da biblioteconomia, um levantamento preciso da literatura especializada no futebol.

“Uma mina de ouro” – É com essa expressão que o jornalista e escritor Maurício Stycer intitula o “Prefácio” da obra. Ele afirma: “Pesquisadores interessados em futebol vão encontrar neste livro um mapa do tesouro para as mais variadas investigações. Editores atentos vão perceber que seu Domingos e Ademir estão colocando à disposição uma verdadeira mina de ouro, com sugestões de reedições de obras hoje esquecidas ou menos valorizadas do que mereceriam.”

Não pensem em obra com um viés acadêmico, muitas vezes maçante e de difícil leitura. Pelo contrário, com uma linguagem acessível e com belas ilustrações de capas dos livros que contam diversas histórias do futebol brasileiro, o alfarrábio é fruto de um trabalho de dois pesquisadores que amam este esporte jogado com os pés. O objetivo, segundo os autores, é permitir que outros pesquisadores, acadêmicos ou não, possam aprofundar a leitura ou identificar alguma publicação para suas pesquisas.

Na minha visão, além dos pesquisadores, os professores, jornalistas, bibliotecários, historiadores, atletas, técnicos, dirigentes, torcedores, curiosos e fãs da modalidade têm, neste livro, acesso a um conhecimento organizado e sistematizado que nos permite conhecer a linda trajetória do futebol canarinho.  

Uma boa leitura!!!

Ficha Bibliográfica

D´ANGELO, Domingos Antonio; TAKARA, Ademir. Bibliofut: a literatura do futebol brasileiro. Jundiaí: Editora In House, 2019. 386 p.

Domingos Antonio D’Angelo Jr., Consultor de Relações do Trabalho e Conselheiro Vitalício do São Paulo F.C. Chegou a ser um razoável volante/quarto-zagueiro do Estrela da Saúde F.C., mas preferiu seguir ligado ao futebol através da literatura e do estudo, tornando-se bibliófilo, dono de uma das principais bibliotecas particulares sobre futebol do Brasil e fundando o Memofut – Grupo de Literatura e Memória do Futebol.

E-mail para contato: bilvera@terra.com.br

Ademir Takara, Bibliotecário do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, desde 2011. Bacharel em Biblioteconomia e História pela Universidade de São Paulo (USP). Sua Seleção Brasileira de todos os tempos joga com Gilmar; Djalma Santos, Mauro, Domingos da Guia e Nilton Santos; Didi e Zizinho; Garrincha, Leônidas, Pelé e Friedenreich.

E-mail para contato: ademirbiblio@bol.com.br

O sumário da obra permite um melhor conhecimento do seu conteúdo:

SUMÁRIO

Prefácio, por Mauricio Stycer

Apresentação

1ª PARTE – UM RELATO DA LITERATURA DO FUTEBOL BRASILEIRO

Pré-Temporada

O Preconceito

Divisão Histórica

Preliminar

1º Tempo do Jogo: 1ª Fase – Era Amadora (1895-1930)

36 anos – Charles Miller/São Paulo Athletic Club; Friedenreich/Club Athletico Paulistano.

Destaques: Mario Cardim; João do Rio; Monteiro Lobato; Lima Barreto; Antônio Figueiredo; Leopoldo Sant’Anna; Graciliano Ramos; Mário de Andrade; Oswald de Andrade; Linguagem da Bola; Coelho Neto; Alcântara Machado.

2º Tempo do Jogo: 2ª Fase – Era Romântica (1931-1950)

20 anos – Profissionalização; Leônidas; Zizinho; Pacaembu; Copa do Mundo no Brasil; Rádio.

Destaques: Carlos Drummond de Andrade; Max Valentim (Affonso Várzea); Paulo Várzea; Floriano Peixoto; Gilberto Freyre; Thomaz Mazzoni; Mario Filho; José Lins do Rego.

Prorrogação: 3ª Fase – Era de Ouro (1951-1970)

20 anos – Brasil Campeão do Mundo; Pelé; Televisão.

Destaques: Nelson Rodrigues; Armando Nogueira; Orlando Duarte; João Saldanha; João Máximo; Concurso Literário; Pedro Zamora.

Decisão por Pênaltis: 4ª Fase – A Geração Perdida (1971-1990)

20 anos – O Negócio Futebol X Futebol Espetáculo.

Destaques: Anatol Rosenfeld; Edilberto Coutinho; Homero Homem; Renato Pompeu; Roberto DaMatta; Waldenyr Caldas.

Fim de Jogo: 5ª Fase – Era do Futebol Moderno (1991-2018)

28 anos – Futebol “Globalizado/Grande Negócio” – Evento.

Destaques: Os Clássicos: História do Futebol no Brasil; Biografias: Ruy Castro; André Ribeiro; Marcos Eduardo Neves, Rafael Casé; História dos Clubes: Francisco Michielin; Celso Unzelte; Odir Cunha; Marcelo Duarte; Fernando Galuppo; História das Copas do Mundo; História da Seleção Brasileira: Ivan Soter; História de Competições: Roberto Assaf; Sociologia, Pedagogia, Psicologia: Arlei Sander Damo; Bernardo Buarque de Hollanda; José Paulo Florenzano; Luiz Henrique de Toledo; Mauricio Murad; Ronaldo George Helal; Simoni Lahud Guedes; Victor Andrade de Melo; João Batista Freire; Alcides José Scaglia; A Linguagem da Bola/Jornalismo: Luiz Cesar Saraiva Feijó; Antologias; Poesia; Romances, Ficções, Crônicas: Décio de Almeida Prado; Décio Pignatari; Paulo Mendes Campos; Luís Fernando Veríssimo; José Roberto Torero; Eduardo Galeano; A Literatura do Futebol em Minas Gerais; Humor, “Estórias e Causos”: Sandro Moreyra; Renato Mauricio Prado; Victor Kingma; Eduardo Galeano.

2ª PARTE – BIBLIOGRAFIA BRASILEIRA DE FUTEBOL

Introdução, 2ª parte

1 – Referência

2 – Regras e Arbitragem

3 – Treino, Tática e Categoria de Base

4 – Biografia

4.1 – Jogadores e Comissão Técnica

4.2 – Coletâneas

4.3 – Árbitros, Dirigentes, Jornalistas e Torcedores

5 – Copa do Mundo e Seleção Brasileira

5.1 – Copas do Mundo no Geral

5.2 – Copas do Mundo por Edição

5.3 – Seleção Brasileira

6 – Clubes Brasileiros

6.1 – Coletânea

6.2 – Por Clubes

7 – História e Competições

7.1 – História do Futebol Brasileiro

7.2 – Competições Nacionais

7.3 – História e Competições por Estado

8 – Letras

8.1 – Linguística e Literatura

8.2 – Crônica

8.3 – Ficção

8.4 – Poesia, Cordel e Teatro

8.5 – Infantil

9 – Jornalismo

10 – Filosofia, Ciências Sociais e Religião

11 – Torcida

12 – Estádios e Arquitetura

13 – Artes

13.1 – Catálogos

13.2 – Fotografia

13.3 – Ilustração e Quadrinhos

13.4 – Cinema e Música

14 – Economia, Gestão e Negócios

15 – Direito

15.1 – Direito e Legislação

15.2 – Corrupção

16 – Psicologia e Medicina

17 – Mulher

18 – Futebol Internacional

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A importância de conhecer seu torcedor

O futebol brasileiro cresceu com um perfil bem claro de torcedor. O público do esporte era formado, em sua maioria, por homens, que consumiam os jogos pelo rádio, televisão e jornais, além das idas ao estádio. No ambiente da partida, não era preciso muito para agradar aqueles que se faziam presentes. A paixão prevalecia a qualquer tipo de adversidade e levar um copo de urina na cabeça era parte do folclore.

O mundo mudou e o esporte seguiu o mesmo caminho. As torcidas estão cada vez mais diversas e os fãs ganharam novas opções de entretenimento além do futebol, o que aumentou sua exigência quanto ao jogo. Séries, filmes e jogos eletrônicos são concorrentes do esporte e muitas pessoas não irão hesitar em trocar aquela partida de baixo nível técnico e sem valor competitivo do campeonato estadual pelo último lançamento da Netflix ou um jogo de esports. Clubes e federações precisam estar cada vez mais atentos a este novo comportamento.

Falando mais sobre o torcedor, o relatório ‘Fan of the Future’, publicado pela Associação de Clubes da Europa (ECA), evidencia que este também passa por transformações. Após pesquisa em sete países, incluindo o Brasil, sobre como torcedores encaram o futebol, a ECA chegou em seis categorias diferentes de fãs. A primeira é chamada no relatório de football fanatics, ou fanáticos por futebo em tradução livre, e são aquelas pessoas apaixonadas pelo esporte, que vão ao estádio para ter a experiência completa. Na sequência temos o grupo club loyalists, leais ao clube, indivíduos que acompanham o futebol principalmente por causa de seu clube do coração. O terceiro segmento é o icon imitators, imitadores de ídoles, que preferem jogar a assistir futebol e estão ligados aos grandes ídolos do esporte. A quarta categoria é chamada de FOMO – fear of missing out – followers, enturmados, formada por pessoas que se interessam pelo jogo apenas para não serem excluídas das conversas entre amigos, sem tanta emoção envolvida. O quinto grupo é o main eventers, ou de olho nos grandes eventos, que são os interessados principalmente nos maiores eventos, sem se importar muito com o resultado. Para fechar, o segmento tag alongs, aqueles que vão no embalo, cujo interesse no futebol é gerado a partir de amigos e família, não existindo um envolvimento emocional ou conhecimento sobre o esporte.

O surgimento e a identificação de tais categorias, bem como suas características específicas, obriga os clubes a conhecerem seus torcedores de fato. E aqui está um dos grandes problemas do futebol brasileiro. Por manter diversas práticas do passado, a relação com os fãs ainda é pensada para a realidade onde existia um único perfil consumindo o esporte, de maneira muito diferente do que é hoje. É possível dizer, a partir disso, que muitos clubes nacionais não conhecem seus torcedores, o que gera uma desvalorização de sua importância no ecossistema do futebol brasileiro.

A consequência disso pode ser mais grave do que se imagina. A atenção e o dinheiro destes fãs começam a ir cada vez mais para outras opções de entretenimento, outros esportes e outras ligas de futebol, como os campeonatos inglês e espanhol. O futebol brasileiro está ficando para trás.

Existem alguns conceitos fundamentais para que esta tendência mude. O principal deles é o chamado fan centricity, ou seja, colocar o torcedor no centro de suas estratégias, tomando decisões a partir de suas preferências e mantendo uma relação direta com os milhões que acompanham o clube ou esporte. Para auxiliar neste processo, a entrega de conteúdo é uma das formas de entender as preferências dos torcedores. Aqui a história começa a ficar mais complexa. Este conteúdo precisa estar presente não só no dia da partida, mas durante todos os momentos, aproveitando as plataformas disponíveis e as características de cada segmento da torcida entre os citados no relatório ‘fan of the future’.

Nos primeiros meses de pandemia, o parágrafo anterior foi muito bem utilizado pelos clubes brasileiros. Sem partidas para oferecer aos torcedores, as instituições precisaram pensar em alternativas diferentes para atrair torcedores e monetizar esta relação. Viu-se muito conteúdo nas redes sociais e novos formatos sendo criados, contando com a participação dos atletas em alguns casos. Produtos inéditos também surgiram como os ingressos virtuais, uma alternativa que ainda vem sendo utilizada enquanto os estádios não podem receber público. No entanto, observa-se que, assim que os clubes puderam oferecer o jogo como principal produto, diminuíram sua atenção para o resto do tempo. Reforçando, a partida é apenas parte da estratégia, o dia a dia é tão importante quanto.

Como qualquer mudança que ocorra em uma indústria, haverá resistência por parte de alguns envolvidos. No caso do futebol, será preciso mudar o comportamento de gestores que atuam na área há anos. Já são vistos dirigentes que conseguiram entenderem a importância de um relacionamento adequado com seus torcedores para um futuro vitorioso e estão pondo essas ideias em prática. Além disso, um grupo de fãs também pode estranhar a mudança na forma com que o clube se relaciona com os demais, sem entender que os conteúdos agora são personalizados e buscam atingir os diversos públicos existentes. A solução para isso é entregar o conteúdo constantemente, até que todos os envolvidos no ecossistema do futebol brasileiro compreendam como a situação precisa funcionar daqui para frente. 

Para concluir, é preciso dizer que a construção desta relação com o torcedor é um trabalho de longo prazo. O clube começa suas ações hoje e vai aprimorando ao longo da jornada. Para isso, gestores devem sair do pensamento comum e implementar ideias criativas em suas rotinas. O futuro vai mostrar a importância de conhecer seu torcedor.

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Raymond Verheijen, o homem que entendeu o que é o futebol!

A segunda vez que ouvi o nome do holandês Raymond Verheijen – RV –  foi em 2010 quando eu ainda era o preparador físico do Al Ain FC dos Emirados Árabes e o meu preparador físico assistente, o irlandês Mike McDermott, me contou sobre um estágio que havia feito com ele antes da Copa do Mundo da África do Sul, Ele me mostrou uma planilha de autoria do RV com uma progressão de conteúdos em campos reduzidos que poderia ser usada ao longo de toda uma temporada.

Antes disto, eu já havia lido alguma coisa sobre o excepcional trabalho feito pelo RV como consultor de performance – preparador físico –  na seleção da Coréia do Sul, na Copa de 2002, envolvendo a grande polêmica levantada por jornalistas italianos, insinuando que no confronto entre os dois países pelas oitavas de final, os coreanos pudessem estar dopados, tamanha foi a superioridade física demonstrada pelos orientais na prorrogação, levando-os à vitória e a alcançar o maior feito de sua história chegando às semifinais da competição.

Em 2016, encontrei na internet um anúncio de seu livro “How simple can it be?” – “Mais simples do que isto?” em tradução livre – que imediatamente me chamou a atenção. Li a resenha do livro, fiquei curioso e procurei então saber onde encontrá-lo. Assim que me chegou às mãos, devorei o livro! Empolgado, percebi que era tudo o que eu gostaria de ter escrito e, ao chegar às páginas finais, fui ficando até meio pesaroso por já estar acabando! A partir dali me tornei um fã e descobri no site da antiga World Football Academy – WFA, agora renomeada para Football Coach Evolution – FCE, que eles promoviam cursos em vários países ao redor do mundo, mas que nunca haviam realizado um no Brasil…

Sendo assim, me lancei na empreitada de tentar trazer os cursos da então WFA para o Brasil, idealizando contribuir com a elevação do nível de nosso futebol, principalmente após o colossal vexame do Brasil na Copa de 2014.

Realizamos então o nosso primeiro curso o “Football Periodisation” no Rio de Janeiro em Fevereiro de 2017. Sucesso absoluto! Na tarde do terceiro e último dia, pude testemunhar nos semblantes da maioria dos 50 alunos participantes, uma certa emoção e um sentimento de reflexão geradas por aquele evento. RV consegue sistematizar aquilo que tem a intenção de transmitir com pleno embasamento, muita simplicidade e uma didática simplesmente fenomenal!

Meses depois, fui convidado por ele para ir à Europa para fazer os seus cursos de verão: Football Coaching Mentorship, em Amsterdam, Football Periodisation Expert Meeting, na AD Benfica, em Lisboa e Football Periodisation Personal Development, também em Lisboa. Já no primeiro dia do curso em Amsterdam, fui para o meu quarto ao final do dia absolutamente emocionado! Cheguei a chorar e me perguntei: “Mas que diabos está acontecendo? Vim fazer um curso de futebol! Por que estou tão tocado assim?”. A resposta estava na excelência do conteúdo e nas respostas para vários dos meus questionamentos de anos e anos atuando no futebol!

Em seu livro mais famoso – “Football Periodisation”, para muitos uma verdadeira “Bíblia” do futebol, RV começa discorrendo de modo filosófico sobre uma chamada “Teoria do Futebol” – linguagem do futebol, ações e hierarquia do futebol – que serve como um embasamento perfeito para a compreensão e aceitação de seus conceitos e propostas, passando a seguir por temas como  performance, condicionamento, fisiologia, métodos de treinamento e modelo de periodização no futebol, mostrando os “o quês, porquês e como”, conteúdo, sequências, métodos, tamanhos de campo, número de jogadores, tempos de jogo, tempos de pausa, número de séries etc. Ele faz questão de enfatizar que não se trata de uma “receita de bolo”, mas sim de uma estruturação lógica que pode ser útil como norte no planejamento e organização dos treinamentos visando construir um time sempre em estado de alto condicionamento e simultaneamente de baixa fadiga, independente de cada contexto ou fator externo enfrentado por cada treinador.

Já em seu mais novo e denso livro, “Football Coaching Theory”, RV se aprofunda em estudos nas áreas da Psicologia e da evolução humana, aperfeiçoando suas teorias de modo ainda mais filosófico, mas igualmente embasado e prosseguindo em seu combate intransigente às subjetividades, achismos, ou meras experiências pessoais que ainda imperam no ambiente do futebol em todo o mundo. Assim, aborda temas como a linguagem, as referências e sub-referências universais do Futebol, “football thinking”, “football braining”, situações e referenciais no treinamento do futebol, competências no futebol, periodização da seleção natural no futebol, auto regulação de times e jogadores e seis princípios da evolução do treinamento do futebol.

RV é simplesmente genial, e como gênio, acabou por se tornar também controverso. Suas estratégias de “coaching”, algumas vezes não são compreendidas nem muito bem-vindas, por gerarem algum desconforto em situações às vezes constrangedoras para alguns alunos. Isto faz com que alguns o taxem como arrogante. Outro exemplo: No seu curso mais avançado, os seis dias do curso “WFA Football Evolution Pro Course – Tactics”, que cursei em maio de 2018 no Valencia CF da Espanha, as aulas começavam às 8:00 da manhã e terminavam invariavelmente às 3:00 da madrugada, TODOS os dias! Sim! Exatamente assim! Uma insanidade! RV não dorme… Ele medita!!! É sério!!! E a gente que se vire pra acompanhar o ritmo…

Ele é extremamente direto e deixa bem claro que sua intenção nos cursos nunca foi e nem será a de fazer amigos, mas sim a de elevar o nível dos profissionais que atuam no futebol e, consequentemente, elevar o nível do futebol como um todo.

RV se envolve frequentemente em contendas na mídia esportiva europeia com vários dos mais renomados treinadores ao questionar os métodos de trabalho adotados em alguns dos maiores clubes do mundo. Sua atuação como mentor da WFA/FCE, já promoveu mais de 300 cursos ao redor do planeta, tendo-a elevado à condição de mais respeitada instituição autônoma de capacitação de profissionais do futebol mundial! Clubes e seleções nacionais como: Barcelona, Chelsea, Manchester City, Glasgow Rangers, Zenith St. Petersburgo… Holanda, Argentina, Rússia, Coreia do Sul, País de Gales, dentre outros, também atestam o seu nível de excelência e merecida fama como uma das mentes mais brilhantes, ou talvez a mais brilhante do futebol mundial! Gênio é a melhor palavra para descrevê-lo!

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Sobre o jogador inteligente como um leitor atento

No ano passado, escrevi neste mesmo espaço um artigo pensando um pouquinho sobre o que entendo ser o jogador inteligente. Foi uma minhas tentativas de tratar deste assunto que, a meu ver, é um dos temas no coração do debate que se avizinha nos próximos tempos: quanto mais avançamos nos conhecimentos táticos, técnicos, físicos e mentais do jogo, mais próximos ficamos do tema do humano – que não é sinônimo daqueles outros temas porque, na verdade, é anterior e maior do que eles todos. Não acho que seja possível pensar sobre a inteligência sem pensar sobre a humanização no futebol.

Isto dito, gostaria de sugerir algumas características mais específicas para a formação desse jogador inteligente. São apenas algumas sugestões, sem nenhuma pretensão de fechamento. Com o tempo, retomamos e refinamos esses temas.

***

No texto a que me referi acima, defendi que o jogador inteligente é aquele capaz de ler nas entrelinhas. Talvez pareça uma ideia um pouco incômoda, porque geralmente temos expectativas muito concretas: gostamos que as pessoas nos digam o que e como devemos fazer determinadas coisas. A mim, sinceramente, isso não me agrada muito: não apenas não acho que sou capaz de dizer o que uma outra pessoa deve fazer como, além disso, acho uma certa violência dizer o que um terceiro deve fazer – não por acaso, sugerimos. Quando pensamos que o jogador inteligente é aquele capaz de ler nas entrelinhas, pensamos portanto em algo que não é exatamente concreto, mas que pode se tornar um concreto ainda melhor dependendo do que fazemos com ele.

Se o jogador inteligente precisa ler, portanto falamos da visão. De fato a leitura de um jogo é bastante similar à leitura de um livro. O leitor distraído ou mesmo o leitor inexperiente geralmente deixam passar muitas coisas de um livro. Mas, além deles, há um outro tipo de leitor: aquele que acha que o sentido do texto está somente no texto. Só que pode não ser bem assim: o sentido de alguma coisa pode estar exatamente na coisa, mas está nas relações que fazemos com ela. Percebe? Porque se pensarmos assim, então o jogador inteligente será não apenas um leitor atento, um leitor por vezes ativo – ou seja, à procura de sentido, ao invés de à espera de sentido, mas um leitor também por vezes passivo – ou seja, que se deixa levar pelo jogo sem ser refém dele, e um leitor que sabe que o jogo, em si, diz muitas coisas, e não por acaso diz uma coisa diferente para cada um de nós.

Deixem-me dar um exemplo mais claro: na final da Eurocopa 2012, Espanha x Itália – cujo primeiro tempo, aliás, foi um atropelo espanhol, me parece haver ao menos um exemplo muito nítido do que entendo pela capacidade de ler as entrelinhas do jogo. Repare no print abaixo, que retirei do lance que dá origem ao segundo gol da Espanha, marcado por Jordi Alba.

Exato instante em que Fabregas passa a bola para Jordi Alba. Ali, já havia um clarão, mas era preciso ler bem… Imagem: Reprodução

A jogada parte de uma subida do bloco italiano, que resulta numa passe pelo alto de Iker Casillas, buscando Cesc Fàbregas no corredor esquerdo. É Fàbregas quem faz a parede para Jordi Alba, que recebe a bola ainda na intermediária defensiva. Neste instante, a linha-base da Itália, laterais e zagueiros, não apenas está desfeita – Abate havia deixado a linha para marcar Iniesta – como está bem adiantada, deixando cerca de 40 metros às suas costas. Aqui, me parece, está o claro exemplo da capacidade de ler nas entrelinhas: tenho a impressão de que Jordi Alba, logo após receber e passar a bola, leu o espaço que havia às costas da zaga e dali, leu o término da jogada: o jogador inteligente flutua no tempo e percebe o futuro antes de sê-lo. Assim que passa a bola, Alba inicia um sprint de cerca de 30 metros, que termina num passe magistral de Xavi, entre Barzagli e Abate, que por sua vez termina com a bola dentro do gol. Uma jogada admirável.

Um jogador desatento, ou um atleta cuja leitura é somente reativa, jamais teria visto o que Alba viu cinco ou dez segundos antes do gol. Quando penso nas entrelinhas, penso também nisso: existem informações que não estão explícitas, que não estão claramente dadas, mas que precisam de algum refinamento, de um certo esforço, de uma certa atividade mental que faz toda a diferença para quem joga o jogo. Para o leitor reativo poucos livros servem: ele sempre espera que o livro lhe diga alguma coisa.

Mas para o leitor ativo, por outro lado, todos os livros têm valor: ainda que o livro diga algumas coisas, a diferença está na relação desse leitor com o livro. Ali ele descobre algumas coisas, e olhando com atenção descobre outras, e olhando melhor mais outras, e quando junta tudo aquilo, de outras formas, surgem outras e outras e mais outras coisas. Agora imagine a potência disso não apenas no sujeito, mas no todo. Imagine a potência disso ao longo do tempo, no processo de formação das pessoas que jogam…

Sobre isso, seguimos em breve.

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O Palmeiras pode mais

De 2015 para cá o Palmeiras vive uma era de títulos. São dois Campeonatos Brasileiros, uma Copa do Brasil e o recente Paulistão. O clube se fortaleceu e fincou os pés entre os melhores do país após o quase rebaixamento de 2014. Seria terrível cair três vezes em doze anos. Voltando as conquistas, chama a atenção que todos os troféus vieram com técnicos diferentes. E isso sinaliza muita coisa…

A falta de continuidade, as interrupções de trabalho, impedem o Palmeiras de ganhar ainda mais. E a aleatoriedade na escolha dos treinadores torna impossível identificarmos um ‘jeito Palmeiras’ de jogar, que seria fundamental para uma sequência avassaladora. O clube está forte. Tem uma lucrativa arena, um patrocinador robusto, um departamento de marketing perspicaz, dentre outras coisas. E muito das conquistas recentes vieram por conta dessa estrutura. Entretanto, a condução do futebol se mostra fraca quando vem as derrotas. Aí esse mesmo técnico que venceu é descartado. A cultura do futebol brasileiro no que tem de mais cruel esmaga uma estratégia e uma visão mais macro e a longo prazo.

Quando os dirigentes palmeirenses falam em buscar o DNA do clube, em trazer o que há de mais moderno e contemporâneo, soa como um discurso sem consistência. Até porque falar em DNA é sempre relativo: na gloriosa década de 90, Luxemburgo encantou a todos com um jeito de jogar e Felipão ganhou a Libertadores de outro. Como fica então o DNA? E a questão da modernidade foi rasgada quando o próprio Luxemburgo foi contratado no final do ano passado, já que ele mesmo prega que não há nada de novo no futebol atual. 

O Palmeiras se tornou forte como instituição e tem que arrastar isso pra parte de campo. Constantes trocas e perfis antagônicos de técnicos demonstram ausência de convicção. Pelo que é hoje fora de campo um ajuste como esse se torna crucial no Verdão.

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O impacto das mudanças de comando técnico no futebol brasileiro

Amplamente reconhecido como uma potência na produção de jogadores de alto nível, o futebol brasileiro renova, aprimora e exporta gerações de talentos com consistência à economia global da modalidade. Considerando apenas latino-americanos em 2020, o Brasil posiciona 1535 jogadores profissionais em território estrangeiro, superando o volume absoluto de argentinos (913), colombianos (457) e uruguaios (358). Além disso, ao relativizar quantidade e qualidade, é possível notar que a nacionalidade brasileira se mantém como a líder no quesito minutos em campo na principal competição de clubes do planeta pelo terceiro ano consecutivo (onde também permanece no TOP 3 há 16 temporadas, desde 2004-05 a 2019-20). Seja por uma defesa subjetiva ou levantamento quantitativo, o jogador de futebol produzido pelo sistema brasileiro segue valorizado pelo mercado consumidor ao redor do mundo.

No entanto, um dos agentes prioritários da cadeia de formação e desenvolvimento desses talentos tem sido subestimado dentro do seu próprio território nacional. Diferente do jogador, o treinador de futebol brasileiro aparenta enfrentar dificuldades crônicas para ser reconhecido e projetado em seu país de origem, bloqueando sua ascensão rumo a ligas de maior impacto internacional e afetando, sobretudo, o padrão de qualidade do esporte praticado no país. Nada obstante, se as criaturas formadas pelo sistema são nitidamente exaltadas, não há sentido negligenciar os seus criadores. Por isso, antes de julgamentos que tentem simplificar os profissionais atuantes na função, ou até mesmo questionamentos sobre a ausência de treinadores brasileiros nos principais centros europeus, é imprescindível avaliar a realidade que os cerca dentro do Brasil como ponto de partida para uma reflexão crítica.

Sustentado por literatura acadêmica, aplicação de metodologia científica e avaliação econométrica, o estudo em questão (conduzido na Universidade do Esporte da Alemanha em Köln – Deutsche Sporthochschule Köln) investigou 16 temporadas de Brasileirão no formato de pontos corridos, reunindo todos os 6506 jogos disputados, 264 treinadores empregados e 41 clubes participantes da Série A no período entre 2003 a 2018 (2019 não faz parte da amostra por ser o ano de conclusão da pesquisa).

Com uma base de dados compreensiva, nossa análise estatística avançada utilizou um volume superior a 1 milhão de pontos sob observação, sendo que a coleta de dados foi conduzida de forma precisa através de fontes públicas confiáveis para assegurar resultados assertivos que pudessem gerar interpretações realistas

Respeitando uma metodologia científica adequada para a aplicação econométrica, o estudo atendeu aos parâmetros, testes e regras estatísticas já definidos (além de revisados e aprovados) pela comunidade acadêmica internacional de gestão e economia do esporte. Seguindo este raciocínio, a investigação se destaca por trazer um material inédito ao cenário do esporte brasileiro em termos de abrangência, profundidade e análise de dados, esclarecendo informações com embasamento e evidência científica para melhores decisões adiante na administração do futebol nacional.

Conforme esclarecido por pesquisas já existentes na literatura administrativa e econômica do esporte (reunindo estudos similares em 15 países), o treinador de futebol detém uma posição de liderança dentro de um sistema altamente complexo, dinâmico e competitivo. Por isso, para examinar a sua contribuição, torna-se necessário uma avaliação racional, com métricas objetivas e que estejam de acordo com o ambiente onde o seu trabalho venha a ser julgado. Caso contrário, resoluções superficiais, com base em argumentos simplistas e tomadas de decisão subjetivas tendem a minimizar o contexto real de um esporte (coletivo) de alto rendimento. Sobretudo, quando efeitos sensíveis ao tempo são considerados (como é o caso na mudança de treinadores), é imperativo estender a análise estatística (avançada, não básica) a períodos maiores antes de qualquer comparação de resultados.

No Brasil, o calendário competitivo apresenta uma configuração muito particular, pois favorece o desgaste físico sem sequer oferecer tempo para a preparação no início do ano (uma vez que a pré-temporada dos clubes participantes do Brasileirão tende a durar menos de 30 dias em janeiro, com variações de duas a três semanas) e tampouco para a recuperação ao longo do panorama anual (devido à alta incidência de jogos com agendas apertadas de fevereiro a novembro). Ademais, duas janelas de transferência
inevitavelmente comprometem a composição dos elencos, sendo que a principal fase de negociação de jogadores da economia global ocorre no meio da temporada brasileira. Devido a essas particularidades, testemunhar flutuações no desempenho esportivo pode estar diretamente relacionado a falta de preparação, descanso e reposição de recursos, aliado a exposição dos jogadores a um maior volume de jogos e o risco iminente de lesões, que afetam a produtividade em longo prazo.

Além disso, desvios de programação são recorrentes no futebol brasileiro. Especificamente no período que integra a nossa pesquisa, somente o ano de 2015 respeitou o calendário de jogos original, conforme fora previamente estabelecido pela organização do campeonato. Todos os outros 15 anos que compõem a nossa amostra testemunharam uma série de jogos antecipados e adiados, envolvendo distintas equipes, datas e rodadas dentro da mesma temporada. Com isso, infelizmente tornou-se inviável estudar o efeito das posições na tabela durante o Brasileirão, pois a informação histórica disponível ao público não recalcula precisamente as disparidades do calendário conforme cada rodada acontecera. Para tornar a nossa análise precisa, assertiva e realista, todos os 6506 jogos das 16 temporadas foram reordenados de acordo com a sequência cronológica exata ao longo do período.

Já antecipando uma das implicações práticas deste estudo, o que percebemos após um profundo diagnóstico sobre o cenário de pontos corridos do Brasileirão desde 2003 a 2018 (lembrando que 2019 não faz parte da amostra por ser o ano de conclusão da pesquisa) é que, por estar desprovido de condições minimamente sustentáveis para exercer o seu trabalho, potencial e carreira, o treinador de futebol brasileiro tem visto o seu crescimento profissional ser barrado ao longo dos últimos anos (ou décadas) por fatores desassociados a uma avaliação racional no país.

Enraizados a um sistema político que privilegia ações impulsivas e benefícios de curto prazo, os dirigentes, diretores e presidentes de clubes de futebol no Brasil aparentam seguir tendenciosos ao engajamento de decisões subjetivas, emotivas e passionais, almejando atingir de forma desesperada os resultados desejados através da especulação no controle da liderança. Sob tais circunstâncias, descartar treinadores ressoa simplesmente como uma resposta arbitrária e sem esforço frente a pressão externa (ou conflito político interno), uma tensão que pode ser precipitada por derrotas, por expectativas superestimadas ou até mesmo pela manipulação da opinião pública em veículos de imprensa esportiva.

De fato, ao compararmos a média de trocas de comando técnico do Brasileirão a outras importantes ligas de futebol do planeta, o Brasil se destaca com números alarmantes e assume a posição isolada como o campeonato que detém a taxa mais alta de mudanças de treinadores (considerando apenas trocas realizadas durante o Brasileirão, desde o primeiro ao último jogo de cada temporada – sem contabilizar mudanças que ocorreram entre uma edição e outra da liga nacional, que naturalmente incluiria os campeonatos estaduais e aumentaria os números).

Para tornar viável o emprego de treinadores efetivos e interinos, o estudo em questão definiu que os técnicos que foram publicamente anunciados como interinos e permaneceram no cargo até no máximo 15 dias (durante a transição entre a saída de um líder efetivo e a entrada do seu substituto) receberam a classificação final como interino. Tal medida respeitou a aplicação de um critério métrico (evitando contradições subjetivas) ao calcular que um treinador interino poderia ficar no cargo até aproximadamente um quarto do tempo médio que um treinador efetivo permaneceu durante a vigência do Brasileirão (apenas 65 dias, em média – que ilustra uma janela de 8 a 10 jogos na liga nacional).

Vale ressaltar que até a liga nacional ser equilibrada (em 2006) com a composição atual de 20 equipes na disputa, os anos de 2003 e 2004 foram conduzidos com 24 clubes participantes, enquanto 2005 reuniu 22 clubes.

Em termos descritivos, entre todas as 594 mudanças de comando técnico identificadas ao longo das 16 temporadas de Brasileirão sob análise (2003 a 2018), 131 trocas referem-se a passagens de treinadores interinos na função, cuja participação total representa somente 1,48% da nossa amostra.

A fim de facilitar o entendimento sobre o formato de pontos corridos na disputa da liga nacional, registramos cada um dos 264 treinadores que atuaram no período respeitando a ordem cronológica de suas aparições na competição. Desta forma, visualizamos que, em média, 34,6% dos treinadores por temporada são novos entrantes na Série A (ou seja, novos treinadores entrando pela primeira vez na competição de pontos corridos do Brasileirão), que ajuda a ilustrar uma abertura do mercado brasileiro a novos profissionais (independente da idade ou experiência do treinador).

Muito embora novas oportunidades teoricamente recebam espaço constante na Série A, torna-se nítida a insegurança da profissão no topo do cenário nacional. Porém, apesar de reclamações, argumentos e discussões públicas iniciadas pelos próprios treinadores acerca da volatilidade na função, a incidência de profissionais que se repetem na mesma temporada chamou muito a nossa atenção, pois aparentemente quase um quarto dos indivíduos (por ano) não colocam em prática a teoria que a sua classe defende

Em média (por ano), 22,7% dos treinadores atuantes no Brasileirão aparecem duas ou mais vezes na mesma temporada. Isto significa que, em média, 10 profissionais por ano aceitam assumir o cargo de treinador em pelo menos duas situações distintas durante a mesma competição (apesar de argumentos públicos contrários às trocas por parte da classe de treinadores no país). Tal repetição pode ocorrer por quatro motivos: (a) treinador exerceu a função como interino pelo menos duas vezes; (b) treinador exerceu a função como interino e também como efetivo; (c) treinador exerceu a função em pelo menos dois clubes distintos; (d) treinador exerceu a função duas vezes no mesmo clube, sendo recontratado após uma rescisão (voluntária ou involuntária).

Considerando a importância da sucessão de líderes (técnicos) por meio de planejamento estratégico na gestão esportiva (além de assustados com números tão expressivos, porém nada invejáveis sob uma perspectiva econômica no esporte), resolvemos aprofundar o tema e examinar minuciosamente as potenciais causas que antecedem as mudanças de comando técnico no futebol brasileiro, bem como as consequências das trocas de treinadores sobre o rendimento esportivo.

Por meio da econometria, respondemos exatamente as duas perguntas abaixo:

  1. Sobre as CAUSAS:
    Quais são os fatores determinantes para as trocas de comando técnico no Brasil?
  2. Sobre as CONSEQUÊNCIAS:
    Como as trocas de comando técnico impactam o desempenho esportivo no Brasil?

Visão geral de todas as mudanças de comando técnico inclusas na amostra (em ordem cronológica, 2003 a 2018)

A PARTE 2 trará as respostas da primeira pergunta do estudo, dissecando a evidência científica sobre as causas que determinam asmudanças de comando técnico no Brasileirão.

Em seguida, a PARTE 3 irá tratar das respostas da segunda pergunta do estudo, explicando o impacto da alta rotatividade de treinadores e as reais consequências sobre o rendimento esportivo.

Por fim, a PARTE 4 concluirá o estudo, revisando as principais implicações práticas em torno dos treinadores, dirigentes e torcedores interessados no avanço do futebol brasileiro.

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Clube-Empresa e Governança Corporativa, a solução para a vida financeira dos clubes?

É sabido que o futebol brasileiro carece de uma gestão profissionalizada, com executivos profissionais, devidamente remunerados para tal, com dedicação quase, se não, exclusiva ao cargo de gestão que ocupam nos clubes de futebol.

Certamente, o modelo jurídico adotado pelo futebol brasileiro, qual seja, o modelo associativo, de certo modo, não estimula uma gestão organizada e profissional dos clubes de futebol, ao passo que, na grande maioria das vezes, a indicação do conselho gestor dos clubes ficam nas mãos dos conselheiros, que em sua maioria, são apaixonados pelo time mas não gozam de conhecimento técnico suficiente para indicação e, até mesmo, gestão de associações desportivas.

Neste cenário, o momento da pandemia veio reforçar ainda mais o quão enriquecedor pode ser o processo de transformação dos clubes de futebol em clubes empresas, mas por quê?

Primeiramente, sem adentrar ao mérito das questões tributárias que ainda estimulam os clubes a se manterem como associações desportivas sem fins lucrativos e que poderão ser objeto de outra coluna, há que se reparar que o momento de pandemia demonstrou, mais ainda, a fragilidade financeira dos clubes de futebol brasileiros bem como a dependência de determinadas receitas para a manutenção da estrutura financeira.

É notório que os clubes de futebol têm em seu orçamento, de forma relevante, a contabilização das receitas advindas de direito de transmissão, bilheteria, dentre outras receitas vinculadas às partidas de futebol, o que com a pandemia, foi duramente afetado.

Logo, ficou evidente que instituições que possuem bons parceiros financeiros, conseguiram manter o nível de contratações em patamar diferenciado, além de conseguir manter a totalidade, ou quase a totalidade, das despesas recorrentes em dia. Mas surge o questionamento: Como esses valores ingressam nos clubes? A que título isso é realizado?

De uma forma simples, muito destes valores ingressam nos clubes por meio de contratos de mútuo, que é um mecanismo legal para empréstimo de quantias financeiras (não só isso, mas iremos nos limitar no presente caso).

Observa-se, então, que no modelo associativo, os clubes de futebol sempre ficam na dependência de aportes de terceiros, muitas vezes, com contrapartidas que, na primeira vista, podem não “doer” aos cofres dos mencionados times, mas no médio prazo, certamente aumentará de forma significativa o endividamento da instituição, o que pode acarretar problemas irreparáveis, por se tornar “bola de neve”.

Mas o modelo clube empresa mudaria isso? Certamente, tudo que é novo causa uma certa estranheza e desconfiança, e cravar que seria a solução é algo arriscado, pois o modelo, por si só, não anda sozinho, mas orienta a ações de pessoas.

Todavia, o clube ao se organizar no modelo empresarial, surgem algumas obrigações legais que trazem conforto para possíveis investidores, para os seus sócios/acionistas, que podem vir a ser, inclusive, torcedores.

É sabido que modelos jurídicos como as Sociedades Anônimas, por exemplo, demandam regras mínimas de governança corporativa, que podem ser aprimoradas e aprofundadas por cada instituição, que garantem aos seus acionistas e pessoas interessadas, segurança suficiente para obter retornos transparentes sobre a gestão e dia a dia do clube.

Outro ponto relevante, diz respeito a possibilidade de criar um plano de negócios que possa efetivamente ser cumprido, com executivos profissionais, devidamente escolhidos por acionistas e/ou investidores, e que terão papeis bem definidos e responderão pelos seus atos, nos termos da lei.

Ou seja, a gestão do clube, ao se tornar mais transparente e profissional, faz com que aquele clube se torne mais atrativo para captação de recursos, e ainda, que não necessariamente entrariam como dívidas para a instituição, mas sim, mediante aporte de capital, por exemplo.

Ainda, ao tornar a instituição desportiva em uma sociedade com fins lucrativos, com regras de gestão bem definidas, cargos diretivos sendo executado por executivos profissionais e remunerados por isso, divulgando suas demonstrações financeiras de forma coerente e transparente, e retirando das mãos de pessoas não totalmente capacitadas, mesmo que bem intencionadas, a gestão do clube, minimamente, torna mais seguro e justificável para investidores aportarem capital nas mencionadas instituições.

Ou seja, a implementação de boas estruturas de governança corporativa, que muitas delas já são abordadas nas próprias legislações específicas (Código Civil e Lei de S.A), passam a dar uma cara mais profissional à gestão do futebol, o que, certamente, atrairá grandes players para esse mercado.

Seria a solução? Não podemos cravar que sim, mas, certamente, a implementação de medidas de controle e estruturas mais organizadas, como em todos os mercados, atrai investidores, e por qual motivo não atrairia em um mercado tão sedutor como o da bola?

*As opiniões dos nossos autores parceiros não refletem, necessariamente, a visão da Universidade do Futebol

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O ensino do futebol nas aulas de educação física

Um dos mais importantes filósofos gregos, Sócrates, acreditava que o reconhecimento da própria ignorância como ponto de partida é parte da abertura para o ato de conhecer, com sua famosa frase; “Só sei que nada sei”! O seu pensar remete para outras reflexões sobre as aulas de Educação Física na escola, como por exemplo, o conteúdo do esporte “futebol”, fenômeno na sociedade brasileira, carregado de características sociais e culturais. Conforme o pensamento do filósofo e estudioso da motricidade humana Prof. Manuel Sérgio: “Se o futebol é uma atividade humana e não só uma atividade física, tudo o que é humano lhe diz respeito. E não só o que é especificamente do futebol. No esporte, quem só sabe de esporte nada sabe de esporte”.

O encontro com essas reflexões abre portas para a compreensão das aulas de Educação Física e amplia a perspectiva das propostas de aulas nessa disciplina. Uma delas é a presença do futebol como conteúdo educacional, que embora seja um tema discutido há anos, ainda é visto com preconceito e restrição por muitos professores. É um tema debatido e as opiniões freqüentemente se polarizaram entre aqueles que são contra e os que são a favor desse conteúdo nas práticas escolares para todos alunos. Contudo, se por um lado a polarização pode fortalecer o preconceito, por outro, felizmente, é possível desfazê-lo por meio de discussões e leituras que possibilitem considerar o “jogar futebol” como um meio de ensino capaz de favorecer aprendizagem integral.  

Quando falamos a respeito das possibilidades do conteúdo do futebol favorecer aprendizagens significativas aos alunos, é porque,  ao mesmo que podem aprender a “jogar futebol”, logo, chutar a bola, a ter controle sobre seus movimentos, a fim de alcançar um determinado objetivo, também podem aprender a se relacionar com as seguintes qualidades: conhecimento sobre a identidade cultural brasileira, a copa do mundo, times europeus, a mídia, valorização do outro, participação, respeito à diversidade, regras, valores, atitudes.

Sendo assim, não se trata de excluir o esporte futebol das aulas de educação física, mas sim de sair do entendimento superficial e considerá-lo como um meio capaz de auxiliar no processo de formação integral do aluno. Contudo, o enfoque da técnica acabou por considerá-lo como um fim para essas aulas, selecionando os “mais habilidosos” como destaque.  Dessa forma, retomando a frase de Sócrates e o Prof. Prof. Manuel Sérgio, quando diz que “no esporte, quem só sabe de esporte nada sabe de esporte”, cabe perguntar: O que é saber jogar?

A pergunta é um bom convite para  entendermos que não existirá o conteúdo do futebol  nas aulas de educação física sem vivenciar o movimento de chutar a bola, porém, o objetivo desse conteúdo não termina na ação motora, afinal, antes de pensar na prática, é fundamental saber o que se pode aprender por meio dela.

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Clube-empresa – SA pode trazer governança e investimentos

A inesperada pandemia trouxe junto com a paralisação dos jogos, o aprofundamento de um debate que até então se enquadrava pouco na programação esportiva e nas pautas que tanto tratam de resultados de jogos e de contratações.

No Brasil há ao menos sete emissoras de canais de TV fechados produzindo todos os dias, exclusivamente, conteúdo relacionado a esportes, além dos programas esportivos em canais diversos, rádios AM, FM, Web, canais de vídeos na internet, e também páginas e mais páginas em redes sociais voltadas para o esporte. Quando fomos pegos pela impensável paralisação ocasionada pelo COVID 19, do que falar? O que fazer quando não se pode mais discorrer horas sobre as rodadas dos mais diversos campeonatos, sobre até quando este ou aquele treinador agüenta a pressão das derrotas, qual seria a melhor tática e a melhor escalação para ter vencido o jogo, ou os motivos que levaram à vitória? O que dizer quando os campos estão em silêncio?

A ausência de jogos e conseqüentemente do imediatismo “resultadista” da maioria dos profissionais da imprensa pode ter nos levado a um aprofundamento na complexidade do futebol como um todo, não somente do jogo.

A pandemia, de um lado escancarou os rombos financeiros daquelas instituições administradas de forma temerária e de outro evidenciou a organização das melhores gestões.

Nesse sentido, uma das discussões que ganhou destaque foi a transformação de clubes associativos em clubes empresa e em um dos formatos possíveis dentro do modelo empresa que são as sociedades anônimas. Possivelmente, uma das razões para que este fosse um tema de destaque é o fato de que, entre outras coisas, o futebol brasileiro pode estar chegando perto do seu teto de receitas. Por maior que seja a criatividade do departamento de marketing de um clube – como na ação do Esporte Clube Bahia com o programa Sócio Digital – não é possível elevar exponencialmente a arrecadação.

Isso pode ser percebido por meio de números divulgados nos balanços financeiros publicados pelos clubes. De acordo com estudo da Ernst&Young, as receitas comerciais dos 20 principais clubes do ranking da CBF não têm crescimento desde 2017. As únicas fontes de receitas com elevação relevante nos últimos três anos foram provenientes de premiações e transferências de atletas.

Os idealizadores do PL nº 5.516/19 que cria a Sociedade Anônima do Futebol – S.A.F (“PL SAF”), um dos dois projetos que tramitam no Senado para a transformação do modelo atual de organização dos clubes, defendem que a captação de receita mais eficaz e segura para essas instituições se dá através da venda de ações na bolsa de valores. E, diferente do que ocorre com as receitas comerciais dos clubes, a B3 – Bolsa de Valores do Brasil -registrou em maio deste ano, em meio a uma crise econômica mundial, uma alta de 41,8% com relação ao número de pessoas físicas que investiram no mesmo período do ano anterior, tal ascensão não é um fato isolado, mas uma constante. De março de 2017 a maio de 2020 o crescimento monetário do aporte de pessoas físicas foi de R$57 bilhões.

É importante salientar que até aqui, estamos tratando de relações comerciais, ou seja, pessoas físicas que investem em empresas que entendem ser lucrativas e vislumbram a possibilidade de retorno financeiro. No futebol temos a adição de um componente que provavelmente nenhuma empresa conseguirá equiparar, a paixão dos torcedores!

Com a inserção de clubes de futebol nesse mercado, a tendência seria um salto numérico ainda mais expressivo. Contudo, realizar essa transformação não é uma tarefa tão simples.

Um dos empecilhos para essa transformação é o aumento abissal na carga tributária decorrente da mudança de natureza dos clubes que no caso dos associativos são entidades sem fins lucrativos e arcam apenas com a tributação trabalhista. Em contrapartida, seriam concedidos benefícios fiscais, parcelamento de débitos com grande redução de multa, juros e completa isenção de encargos legais, possibilidade de recuperação judicial e um regime especial de administração e pagamento de débitos trabalhistas. Mesmo com os benefícios propostos e as concessões, o compromisso tributário, gera receio.

Há também uma imensa dificuldade na maior parte dos clubes em quebrar o paradigma da cultura política que vem se enraizando e fortalecendo ao longo de mais de 120 anos de existência das associações civis desportivas. As relações políticas estão arraigadas de tal forma nos clubes brasileiros que aparentemente faz mais sentido para os gestores que as comandam transferir como forma de receita, vários de nossos atletas mais talentosos para clubes como Manchester City, Arsenal, Bayern de Munique, por exemplo, agigantá-los com maior qualidade nos “espetáculos” e inclusive perder torcedores brasileiros para eles, do que abrir mão do poder que até então lhes cabe e que é disputado em cada novo processo eleitoral.

Para que essa transformação seja promissora é necessária uma legislação específica para o desporto, pois os modelos implementados por alguns poucos clubes até então sem essas adequações, se mostraram tão ou mais ineficazes que as associações existentes.

De qualquer forma, fica claro que os processos, sejam eleitorais, de gestão, ou outros tantos que estão obsoletos, clamam por transformações em prol do bom futebol, seja em clubes no modelo empresa ou não.

*As opiniões dos nossos autores parceiros não refletem, necessariamente, a visão da Universidade do Futebol