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O espetáculo será cobrado

Como acontece semanalmente, mais um treinador do futebol brasileiro foi demitido. Celso Roth, com 62% de aproveitamento em 2011, “caiu” dias após a derrota por 1 a 0 para o Jaguares, válida pela 5ª rodada da fase de grupos da Copa Libertadores.

O substituto: Paulo Roberto Falcão, ídolo da torcida colorada na década de 70 e um dos grandes nomes do futebol mundial com passagem marcante pelo Roma-ITA, recebeu o convite dos dirigentes do Inter-RS para reingressar à profissão de treinador mais de 15 anos após breves experiências no comando da equipe gaúcha, da seleção brasileira e do América-MEX.

A missão: levar o Internacional à conquista do torneio continental e, consequentemente, à disputa do título mundial após fracasso em 2010 diante do Mazembe-CON.

A declaração: na coletiva de imprensa, com dirigentes, repórteres, jornalistas e alguns jogadores, Falcão afirmou que irá para o banco com a certeza de que verá um espetáculo!

Todo treinador (e sua comissão) deve ter uma ideia de jogo na cabeça. A sua ideia de jogo nada mais é do
que o comportamento esperado por ele (e por sua comissão), de cada jogador, em qualquer ação (ofensiva, defensiva ou de transições), perante cada circunstância (vitória, empate, derrota, tempo de jogo, situação na competição), ao longo de 90 minutos.

Falcão, ex-comentarista, provavelmente deve ter a sua. Para construí-la na prática (afinal, a permanência dela como ideia não se traduz em vitórias) será necessária uma gama de competências profissionais oriundas do conhecimento acadêmico, das ciências humanas, biológicas, da experiência prática e, por que não, do conhecimento empírico.

Não é objetivo desta coluna discorrer detalhadamente sobre as competências do profissional de futebol (principalmente do treinador), porém, é pertinente lembrá-las para reiterar a reflexão final que este texto proporá.

O conhecimento acadêmico específico acerca do futebol cada vez mais se estabelece como um saber significativo para os profissionais da área. Dominar os conteúdos táticos, técnicos, físicos, estratégicos, análises quantitativas e qualitativas de jogos têm sido objetos de estudo. Há ainda, o estudo da ecologia, que entende o futebol a partir de uma perspectiva sistêmica, o domínio da gestão de conflitos, da gestão de pessoas, compreensão do macro-ambiente, liderança, motivação, inspiração, inovação, auto-conhecimento, comunicação, psicologia, filosofia, planejamento estratégico, comportamento humano, coaching, fisiologia, nutrição, bioquímica, enfim, muitas (e complexas) são as competências que devem ser desenvolvidas por um bom treinador.

É certo, porém, que parte importante das demais “competências” compreende tempo de prática, visibilidade atingida como atleta profissional, bom relacionamento com dirigentes e empresários, além de vínculos afetivos construídos com torcedores e agremiações.

Diante disto, permite-se a seguinte pergunta para os dirigentes do Internacional (que recentemente remanejaram Clemer de preparador de goleiros do profissional para técnico do sub-17): quais competências profissionais foram consideradas na contratação de Falcão?

Quase 20 anos como atleta profissional; mais da metade deles na equipe colorada; prestígio mundial que lhe conferiu o título de “Rei de Roma” e inteligência de jogo indiscutível. Com estes fatos a resposta parece fácil!

E, também diante disso, permite-se outra pergunta, agora para os leitores: um indivíduo com domínio exclusivo do conhecimento acadêmico acerca do futebol estaria preparado para assumir a função de técnico do Internacional?

O ambiente atual (torcedores, mídia, diretoria) pede um Inter mais ofensivo; uma derrota no próximo jogo da Libertadores pode custar a classificação para a próxima fase; alguns jogadores estão aquém do desempenho uma vez apresentado; o tempo de treinamento até o jogo de estreia é de somente quatro dias e o resultado precisa ser imediato. A resposta, nesta situação, também parece fácil!

No futebol profissional atual, o predomínio do comando pertence aos ex-jogadores. Nas categorias de base, além de ex-jogadores, profissionais com formação acadêmica conquistam espaço gradativamente. De quem o futebol precisa? De todos os que estiverem dispostos à capacitação. Pois, se de um lado ex-jogadores estão desatualizados ao reproduzirem treinos que fizeram enquanto atletas, por outro, treinadores e demais membros de comissões técnicas devidamente graduados insistem em aplicar sessões de treino com exercícios distantes da realidade do jogo.

E o Falcão? Quais (e em que nível se encontram) as competências do novo treinador de um dos maiores clubes do futebol brasileiro?

A resposta poderá ser observada nos jogos da equipe colorada ao longo do ano. A função de Falcão será, partindo da análise do desempenho atual da equipe ao desempenho que é almejado (sua ideia de jogo), construir no processo de treinamento o declarado “espetáculo”.

Espetáculo, que traduzido do dicionário da língua portuguesa, refere-se a tudo aquilo que atrai o olhar e que pode ser contemplado.

Espetáculo, que demanda tempo em ser criado. Tempo que inexiste para os dirigentes brasileiros.

Espetáculo que, a cada apresentação (jogo) de seus artistas (atletas), evidenciará as competências que o diretor (treinador) possui e que foram aplicadas nos ensaios (treinos).

E, para concluir, espetáculo que, com merecimento e reconhecimento da plateia, poderá atrair olhares, receber aplausos em pé e, principalmente, ter o agradecimento do futebol brasileiro!

Você, leitor, pensa que veremos o espetáculo?

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br  

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Despedida?

Escrevo aqui há quase cinco anos.
Durante o tempo que publiquei minhas colunas, o Brasil perdeu duas Copas.
Zica pura.

Zica e tempo. Bastante tempo.
Quando comecei, não tinha nem barba.
Continuo não tendo, mas o bigode pelo menos cresce com maior frequência.
Também achava que sabia bastante de futebol.
Não sabia. Continuo sem saber.
Vou aprendendo aos poucos, como todo mundo.

Quando comecei por aqui, tinha recém começado meu PhD.
Agora, com a minha tese chegando aos finalmentes, ainda bem, é hora de eu começar a pensar em passar o bastão.

O espaço é muito nobre. E o tempo é muito exíguo para escrever algo mais elaborado, ou minimamente menos esdrúxulo do que aquilo que eu vinha conseguindo produzir.
Estava fraco e inconstante. É um sinal de que é hora de pedir substituição.

Há uns seis meses, assumi uma responsabilidade que me toma qualquer tempo minimamente sensato de me portar como uma pessoa comum. A falta de tempo chega a ser ridícula. Não tem como pensar em nada que não seja em dormir. Não tem como sequer tentar pensar em um assunto que possa ser do interesse dos alguns que imagino que leem o que escrevo. Depois de quase cinco anos, sinto que a repetição me afetou. Para piorar, questões profissionais cerceiam muitos temas que poderiam ser debatidos com maior intensidade em outra situação. Os assuntos rarearam. As colunas também.

Nesses quase cinco anos, devo ter escrito mais de duzentas colunas. Dessas, pela minha contagem, no máximo dez se salvam. E olhe lá. Escrevi até sobre velocidade de olas, se não me falhe a memória. Mas a batalha incessante sempre foi pela busca pela razão. Porque o futebol não é uma caixinha de surpresa pra quem procura saber o que está fazendo. Mas pra isso tem que estudar. Tem que ler. Tem que aprender. E tem que conseguir analisar a fundo. Sem imediatismos. Sem superficialidades. Sem opiniões pessoais. O fato objetivo é o fato. A subjetividade lhe distorce. E qualquer coisa subjetiva está mais do que sujeita a não representar as coisas como elas verdadeiramente são. Nada mais fatal para um mercado. O futebol que o diga.

Não sei dizer se isso aqui é uma despedida, até porque vou continuar a colaborar com a Universidade do Futebol. Serei apenas mais esporádico, se é que isso é possível. Mas vou dar um passinho pra lá para abrir uma vaga para alguém certamente muito mais competente e capaz. Aqui, haverá uma troca de seis por uma dúzia.

Não acho que minha coluna cumpriu seu papel, uma vez que o futebol ainda é uma zona. Também não imagino que muita gente vá se preocupar com a minha ausência. Mas pelo menos pude fazer dos poucos leitores alguns bons amigos que hoje geram riquíssimas trocas de ideia e de conhecimento. Que é, no fim, o que a indústria precisa para conseguir evoluir. E ela vem evoluindo. Em passos lentos, por vezes contrários, mas uma evolução mesmo assim. E vai melhorar. Profissionais estão sendo formados. Responsabilidades estão sendo criadas. Compromissos sérios estão sendo assumidos.

Em cinco anos, a indústria evoluiu significativamente. Espero ter contribuído pelo menos um mínimo com isso. É certo que em cinco anos, ela vai evoluir ainda mais. Ainda assim, minha barba não terá crescido.

Veremos.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br  

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O dilema da profissionalização – parte II

Conforme abordado na semana passada, a profissionalização deve começar por entender fundamentalmente a cultura dos clubes. É muito bonito falarmos que nossos dirigentes são amadores e virmos com um caminhão de estratégias como se ela fosse solucionar todos os problemas da instituição.

É preciso, em um processo de transição para um modelo de gestão profissional, entender e respeitar questões básicas sobre a cultura e a história que determinou a constituição daquela entidade e compreender como aqueles dirigentes lá chegaram – e porque se dedicam tanto ao clube, mesmo não sendo remunerados para isso. Alguma coisa os move a estar lá, a responder e a brigar por tudo que diz respeito à organização.

Neste campo, me baseio pelo pensamento do Prof. Luís Miguel Cunha, da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa-Portugal que, em uma de nossas conversas, abordou o aspecto cultural que possui as entidades de prática do desporto em terras lusas e, por tabela, se reproduz perfeitamente para o território tupiniquim.

A razão de existir de um clube são justamente os dirigentes não-remunerados, ou seja, amadores. Este é o aspecto fulcral que sustenta essas entidades. É pela crença no manto e na história clubística que se baseia todo o enredo de adoração pela marca, cores, mascote, costumes e por aí vai. Os torcedores-consumidores alimentam seu fascínio e fidelidade por tudo isso que norteia a entidade, por todo esse imaginário.

Assim, a profissionalização deve surgir no meio de uma escala hierárquica, partindo do interesse dos dirigentes (amadores), que hão de contratar executivos para o campo estratégico e operacional. Esses profissionais devem, sobretudo, respeitar seus limites de atuação, especialmente naquilo que está ligado à “paixão” de algumas pessoas pelo clube.

As tomadas de decisão passam a ser um conjunto de pensamentos, em que o respeito aos costumes daquele ambiente deve, em certos momentos, prevalecer em detrimento daquilo que parece ser a forma mais correta a fazer pelas teorias da administração – e é isso que acaba, em muitos casos, determinando o sucesso ou o fracasso da organização.

É preciso profissionalizar? Sim, é fundamental para a sobrevivência destas entidades hoje, uma vez que elas passaram a lidar com outras que até então eram alheias às questões econômicas que estão ligadas ao mundo do esporte. A televisão e os patrocinadores são um exemplo de organismos que antes até participavam, mas ficavam à margem de qualquer interesse comercial mais robusto, atuando ora como parceiro, ora como filantropo – atualmente está clara a intenção de se apropriar do esporte e aferir resultados econômicos para si, vendo o negócio efetivamente como negócio.

É possível mudar uma cultura? Sim, é possível, mas leva tempo. A grande pergunta passa por saber se é interessante mudar determinadas culturas de clubes e se essa mudança seria positiva para a estrutura econômica e esportiva da instituição. A inteligência de um trabalho de profissionalização é saber perceber essas nuanças e utilizá-las a seu favor.

O sucesso de um processo de profissionalização passa, portanto, pelo tripé da honestidade, confiança e consciência. Honestidade dos dirigentes em não utilizar o clube para serviço próprio; confiança sobre os executivos, que hão de tomar decisões em nome do clube; consciência para contratar profissionais competentes, além de respeitar e entender o espaço de cada pessoa inserida no clube de futebol.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

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Ausência

Caro leitor,

Excepcionalmente nas próximas semanas não teremos a coluna de Eduardo Fantato. O colunista estará em recesso até 25 de abril, voltando com seus textos semanais no dia seguinte.

Um grande abraço,

Equipe Universidade do Futebol

Leia mais:
Veja as últimas colunas de Fantato na Universidade do Futebol

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O jornalismo-show

A semana que passou fez com que, pela primeira vez, o Brasil sentisse na pele um pouco da tragédia que acomete os americanos de tempos em tempos. O massacre na escola de Realengo, no Rio de Janeiro, mostrou o quão despreparados ainda estamos para pensarmos numa evolução da espécie, da vida em sociedade e do respeito ao próximo.

Mas, pior do que isso, a cobertura da imprensa sobre a tragédia revelou o quanto o jornalismo-show, que acomete cada dia mais as redações, pode desvirtuar completamente o sentido de existência de uma imprensa capaz de informar e formar as pessoas.

O que se viu na sequência da tragédia fluminense foi um total desserviço da mídia. A notícia foi substituída pelo espetáculo. A informação era o massacre, mas rapidamente passou a ser a vida abruptamente interrompida das crianças, o fim do sonho de uma vida (como se alguma criança soubesse qual o projeto de vida que lhes cabe), o desespero de familiares, os detalhes sórdidos da carta de despedida do assassino…

O show deu a tônica de toda a cobertura da mídia. O importante é chocar, como se o choque natural de todos nós não fosse mais do que suficiente para impressionar. Mas não. Em busca de cliques, de vendas, de pessoas sintonizadas e de pontos na audiência, trocamos a informação pelo espetáculo.

A mídia só se interessou em ficar no raso da tragédia, em contar a história triste de vidas interrompidas. Não houve qualquer espaço para o debate dos motivos que levam uma pessoa a não apenas tirar sua própria vida, mas também a de outras pessoas, num espetáculo brutal de selvageria e descontrole.

Talvez a esfera da mídia não fosse, realmente, a melhor para esse tipo de discussão. Rapidamente o questionamento não seria apenas a vida difícil que o assassino tinha, mas também o espetáculo que a mídia costuma fazer em situações como essa, estimulando os outros a seguirem um caminho parecido.

O jornalismo-show é uma das pragas trazidas pela cobertura esportiva, em que a promoção do entretenimento tem de ser a regra, e não a exceção no exercício do jornalismo. Mas uma coisa é tentar transformar o esporte em entretenimento. Até porque, desde sempre estamos acostumados a tentar “levar a vida na esportiva”, o que demonstra o quão importante o esporte tem de ser em nosso cotidiano.

O entretenimento é parte importante de nossas vidas. Mas, quando há um fato jornalístico, transformá-lo em uma espécie de show é prestar um desserviço. Não é de duvidar que, nos próximos anos, tenhamos novos massacres de Realengo acontecendo em nosso país.

Infelizmente o show da cobertura da tragédia, em vez de nos fazer parar para pensar, só estimula novos corações aflitos a buscarem seus 15 minutos de fama. Nem que, para isso, ela seja uma fama póstuma.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br  

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Amigos do Paraná e Amigos do Japão

Na última quinta-feira, em Curitiba, presenciamos um grande exemplo de solidariedade.

Um jogo de futebol beneficente, na Arena da Baixada, do Clube Atlético Paranaense, em prol das pessoas que sofreram com o tsunami no Japão, bem como com as chuvas que assolaram o litoral do Paraná em março.

O “Jogo da Solidariedade”, como ficou conhecido, também pode ser referido como Amigos do Paraná e Amigos do Japão.

Isso. Não Amigos do Paraná x Amigos do Japão.

As duas equipes de estrelas do futebol nacional somaram esforços para fazer do esporte um instrumento de integração social, cidadania e solidariedade.

Estádio lotado, com mais de 20 mil pessoas – famílias felizes em frequentar o estádio, sem violência e podendo ajudar outras pessoas – e grandes figuras do nosso futebol, liderados por Zico e Alcindo, que foram consagrados também no Japão, além de Paulo Rink e Raí, que já assumiram o DNA da solidariedade.

Raí, na Fundação Gol de Letra. E Paulo Rink, grande ícone do futebol no Paraná, que sempre está envolvido na beneficência em eventos no Brasil e na Europa.

Esses jogadores têm se notabilizado por liderar o apoio às causas que utilizam o esporte como meio de transformação do mundo em que vivemos.

Ao mesmo tempo, lamento pelo triste episódio ocorrido, na mesma data, no Rio de Janeiro, onde um jovem provocou uma tragédia em uma escola de Realengo, a mesma em que estudara, assassinando 12 crianças.

E, repetindo a pergunta de um apresentador da ESPN Brasil, na noite daquele dia: “O que o futebol tem a ver com essa tragédia pra ser abordado aqui?”.

O futebol deve ter muito, mas muito mais da energia positiva gerada pelo evento beneficente, como o “Jogo da Solidariedade”, e ser compartilhado pela sociedade.

O esporte é um grande valor social, um mecanismo de construção da cidadania.

Por isso que esses temas são pertinentes à coluna que escrevo.

A todos os envolvidos na organização do evento, como cidadão e ser humano, agradeço pelo gesto e parabenizo pela grandeza de espírito.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br  

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Mais jogadores à frente da linha da bola: nenhum gol em casa, três feitos na Allianz Arena e cinco sofridos no San Siro

Leitores,

Este é meu texto de abertura como colunista da Universidade do Futebol. Antes de iniciar as questões táticas referentes ao tema desta semana, gostaria de agradecer a indicação do treinador Rodrigo Leitão, a quem substituo, parabenizá-lo pelas mais de quinhentas páginas (muito bem escritas) sobre assuntos direta ou indiretamente relacionados ao futebol e, também, agradecer ao convite feito pela Universidade do Futebol, que foi orgulhosamente aceito por mim.

Estou ciente da responsabilidade e, desde a primeira coluna, comprometo-me a manter a qualidade dos temas discutidos, obviamente com a minha identidade, além de proporcionar ambientes de discussão a partir de conteúdos teórico-práticos da modalidade.

A organização ofensiva de uma equipe pode ser construída de diferentes maneiras. Com estruturas fixas, móveis, com jogo apoiado, vertical, com predomínio de finalizações a curta ou média distância, com cruzamentos, maior ou menor amplitude, penetrações frequentes, dribles, além de quaisquer outras ações que privilegiem a aproximação à zona de risco do adversário. Com a posse, é certo também que, quanto maior a quantidade de jogadores à frente da linha da bola, maiores são as possibilidades de criar linhas de passe verticais, vantagem numérica e obter êxito nas movimentações ofensivas para se aproximar do alvo adversário. No entanto, é importante lembrar que quanto mais jogadores participarem à frente da linha da bola, menos jogadores ficarão responsáveis pelo balanço defensivo da equipe.

Em cada um dos seus três últimos jogos na Champions League, a Inter de Milão, do técnico brasileiro Leonardo, apresentou comportamentos ofensivos distintos, influenciados por mudanças de plataforma, características e regras de ação dos jogadores, e que serão explicitadas a seguir.

No primeiro confronto da 8ª de final, contra o Bayern de Munique, a Inter foi a campo em um 1-4-3-2-1 como pode ser observado na imagem abaixo:


 

Durante todo o jogo a Inter defendeu com pelo menos oito jogadores atrás da linha da bola e, ao roubá-la, a passagem por Sneijder (que busca constantes desmarcações) era a melhor opção nas transições ofensivas. As que foram realizadas com passes longos beneficiaram a equipe alemã.

Na fase ofensiva, com a bola em seus pés, Sneijder tinha quase sempre somente duas opções: Stankovic, pela direita, tentando criar linhas de passe com menor agilidade que o holandês, e Samuel Eto’o, que incomodava ao menos três defensores alemães e recuava entre linhas defensivas do adversário para a função de pivô.

Veja, no pequeno trecho a seguir, duas ações ofensivas com a participação dos meias e do atacante da equipe italiana:
 


 

Num jogo em que a equipe de Milão não se expôs ofensivamente, atacando com poucos jogadores, criou três chances de gol a partir de bola parada, outros três em transições ofensivas, sendo duas com Cambiasso e uma com Maicon, além de uma finalização de Kharja após mais uma bem sucedida função de pivô, seguida de assistência, feita pelo Eto’o.

O placar do jogo, como todos sabem, foi 1 a 0 para os alemães com uma falha (que nem todos sabem) que não foi exclusiva de Júlio César.

No confronto seguinte, em Munique, mudanças na equipe nerazurra: 1-4-2-3-1, entrou Pandev, saiu Zanetti e a necessidade da vitória para permanência na competição. Ao longo do jogo, ao invés de dois jogadores à frente da linha da bola, o meia criativo Sneijder tinha três (Pandev, Stankovic e Eto’o). Mais ofensivos, apoiavam ao ataque em amplitude Maicon e Chivu, dando espaços para Ribery e Robben nas transições.

Como foi escrito anteriormente, com mais jogadores à frente da linha da bola, “maiores são as possibilidades de criar linhas de passe verticais, vantagem numérica e obter êxito nas movimentações ofensivas”. Logo no início da partida, 1 a 0 Inter.
 


 

Ainda no primeiro tempo, o Bayern empatou em um rebote que Gomez aproveitou depois de jogada individual e finalização de Robben e virou após um passe que foi mal interceptado e sobrou para Müller deslocar o goleiro. Mais duas chances claras de gol foram criadas em transições ofensivas, com Gomez e Ribery, porém, o primeiro tempo terminou 2 a 1 para a equipe local.

No segundo tempo, a entrada de Philipe Coutinho e a maior mobilidade com a equipe em posse aumentaram o desempenho ofensivo dos italianos que, numa jogada com três jogadores à frente da linha da bola e a função de pivô de Eto’o, terminou em finalização de Sneijder e empate no placar:
 


 

O poder ofensivo dos alemães não foi o mesmo da etapa inicial. Robben foi substituído, a mobilidade ofensiva da Inter não resultava em finalizações, com exceção de um chute de Pandev e, aos 42 minutos, Eto’o (aquele que incomodava ao menos três defensores) recebe um chutão de Sneijder e novamente na função de pivô serve Pandev, que finaliza sem chances para Kraft: 3 a 2 Inter e vaga nas quartas de final.
 


 

O adversário, Schalke 04, “modesto” 10º colocado do Campeonato Alemão. A mídia e alguns dos jogadores imaginavam um duelo relativamente fácil, creditando vantagem à equipe italiana, que jogaria no San Siro. Lúcio, suspenso, deu entrevista pedindo humildade, entretanto, agradecia o sorteio e o não chaveamento com Real ou Barça pós-classificação.

Com nova alteração na plataforma e jogadores, saíram Lúcio e Pandev e entraram Zanetti e Milito, com a equipe distribuída em campo no 1-4-4-2 (losango), como mostra a figura abaixo:


 

Assim como na vida, as explicações do futebol são complexas e, seguramente, o resultado obtido em um jogo não advém somente da quantidade de jogadores à frente da linha da bola. No duelo da última terça, em que a todo o momento as opções ofensivas de Sneijder eram pelo menos quatro (Milito, Eto’o, Stankovic/Kharja, Cambiasso, e às vezes Maicon e Thiago Motta), o excesso de exposição ofensiva e a lentidão (física, técnica, tática e emocional) nas transições defensivas facilitaram o jogo apoiado do Schalke que, nesta ordem, fez um gol de bola parada, um a partir de transição ofensiva, dois gols a partir de posse em progressão e, o último, também em transição ofensiva.


 

Como exemplo, veja o segundo gol dos alemães, no fim do primeiro tempo, construído em uma transição ofensiva alemã, em que o volante Thiago Motta saiu do seu s
etor e, após a perda da bola e fragilidade no balanço defensivo, o atacante do Schalke Edu recebeu um belo passe e empatou o jogo.
 


 

O placar final todos já sabem: 5 a 2 e uma boa vantagem (adquirida e não creditada) para o jogo de volta.

O desempenho da equipe italiana (e não somente o resultado) traz algumas reflexões:

– Eram necessários tantos jogadores à frente da linha da bola, considerando que Lúcio estava suspenso e a performance defensiva da equipe poderia ser prejudicada?

– Milito ocupou o espaço (e fez a função) que Eto’o vinha ocupando nos jogos anteriores?

– Com Eto’o predominantemente na faixa lateral esquerda do campo, a função de pivô foi eficaz?

– Com a expulsão de Chivu, Eto’o não poderia ocupar um espaço no meio-campo, como já o fez com Mourinho?

– Kharja ou Philipe Coutinho?

– Sneijder “para de pensar” quando está perdendo?

Essas reflexões (e muitas outras) Leonardo e sua comissão técnica terão que fazer para definir o comportamento da equipe no que será o jogo do ano para a Internazionale. Uma das grandes características deste time (transições ofensivas com rápida aproximação ao alvo oponente) pode não ser possível com um adversário que classifica perdendo por até três gols de diferença. Pelo que apresentou nas últimas partidas, faltam características no comportamento da equipe (e jogadores) para a construção de um jogo apoiado. O Schalke, de mero coadjuvante das quartas, passou a forte candidato das semifinais, creditado(???) por ter goleado a atual campeã do torneio.

No futebol, assim como na vida, as explicações são complexas…

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br  

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Caso Neymar

Caros amigos da Universidade do Futebol,

vimos nesta semana o caso das expulsões dos atletas do Santos em jogo válido pela Copa Libertadores da América de 2011. O que nos chamou mais a atenção foi o do Neymar, que, não tendo praticado qualquer ato que pudesse representar ofensa ao árbitro, adversários ou torcedores, acabou sendo punido com o segundo cartão amarelo e, consequentemente, com a expulsão do jogo.

E, de fato, o árbitro não errou. Ele simplesmente cumpriu a regra e a orientação da Fifa, que decorre da evolução histórica da entidade.

Com a evolução da comercialização do jogo, o órgão máximo do futebol mostra-se, a cada dia, mais preocupado em agradar seus parceiros comerciais. Essa é uma tendência de qualquer organização esportiva, a exemplo do que há muito ocorre nos Estados Unidos, mestres em agradarem os sponsors.

Com o passar dos tempos, algumas empresas conseguiram usar a imagem do futebol para promover suas marcas de forma gratuita. É o fenômeno hoje conhecido por “marketing de emboscada”.

Essa prática acontecia, entre outros momentos e locais, no ato do gol, momento máximo desse esporte. Jogadores levantavam os uniformes e mostravam mensagens de cunho comercial de empresas que não aquelas patrocinadoras oficiais do evento ou dos organizadores.

Para coibir essa prática, a única alternativa era punir aqueles que se envolviam com ela e sobre os quais os organizadores possuem alguma relação contratual ou institucional; nesse caso, os jogadores. Para tanto, incluiu nas regras do jogo que os atletas não podem utilizar nada que não for previamente aprovado pelos organizadores.

Essa norma consegue proibir a conduta indesejável, mas, por outro lado, pune um atleta desavisado que aparentemente não procurava promover qualquer ação de marketing de emboscada.

É por isso que os jogadores devem sempre procurar ler e entender todas as regras do jogo, para evitar prejuízos aos seus clubes. O jogo é hoje um negócio, e o Santos fora da Libertadores representa um grande prejuízo ao clube.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

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O dilema da profissionalização – parte I

Já virou papo de botequim. O dilema da profissionalização no futebol brasileiro caiu na boca do povo e é tratado hoje quase que no mesmo tom do folclore que abarca a modalidade. Não são raros os casos em que dirigentes se tornam tão celebridades quanto os festejados jogadores e treinadores de sua equipe.

Na coluna desta e da próxima semana abordarei a questão da famigerada profissionalização no futebol para tentar entender por que ela é tão difícil de ser aplicada, mesmo com toda a informação disponível atualmente.

Em primeiro lugar cabe uma pergunta, que pode ser considerada chave para este ensaio: como? Exatamente, o “como” deve permear a nossa esfera de raciocínio, pois devemos considerar, neste caso, dois aspectos: (1) a capacitação e capacidade de atuação profissional; (2) a disponibilidade de profissionais no mercado.

Pela capacitação e capacidade de atuação, é possível perceber uma lacuna entre a área da educação física/ciências do esporte com o conhecimento sobre as ciências humanas, nomeadamente a administração, economia, marketing, contabilidade etc., e vice-versa.

Os profissionais formados na área da educação física devem buscar um aprofundamento paralelo ou posterior na gestão, enquanto que aquele formado em administração precisa completar seus estudos com conhecimentos sobre esporte – o que retarda bastante a formação e entrega para o mercado de pessoas com tal capacitação.

Depois, que são poucos os cursos de especialização que operam com qualidade suficientemente boa a ponto de suprir a demanda – até porque, por se tratar de uma área de conhecimento relativamente nova, os formadores são provenientes do mercado, apresentando vez por outra estudos de caso pelas suas práticas, ou seja, conhecimento tácito. O conhecimento explícito da gestão do esporte no Brasil ainda está por se construir efetivamente.

A lacuna da capacitação surge, portanto, da inexistência de cursos de graduação na área de gestão do esporte. Esse fato, por sua vez, está estreitamente ligado ao segundo aspecto, que é a disponibilidade.

Por disponibilidade basta levar em conta que não há tantos profissionais disponíveis e capacitados quanto todas as necessidades que o mercado apresenta. O “apagão da mão-de-obra” no Brasil também tem sido abordado com certa ênfase por especialistas da área de recursos humanos, em todas as áreas de conhecimento, alavancado sobretudo pela aceleração da economia que é incompatível com a negligência histórica que se tem com a educação no nosso país.

Assim, de nada adianta querer e sonhar com a profissionalização do esporte se no ambiente externo não há expertise suficientemente capaz de atender a complexidade e multidisciplinaridade do mundo esportivo. A frase que traduz um pouco isso é mais ou menos como: “se não gosta de nosso trabalho no clube, então venha e faça melhor”.

Lógico que a frase pode se apresentar com uma visão míope em um primeiro momento (até porque ela já foi falada algumas vezes por velhos dirigentes que, sem argumentos de defesa, preferem o ataque), uma vez que, em não havendo conhecimento e pessoas disponíveis, é plenamente possível a organização assumir esse papel e formá-las, como fazem algumas empresas, com a criação de universidades corporativas, bastando boa vontade para isso – temos inclusive exemplos no Brasil desse tipo de ação, como o Internacional, de Porto Alegre e também na Europa, com o Real Madrid, apenas para citarmos alguns modelos.

É que somado a tudo isso temos um pequeno problema (ou solução): a questão cultural dos clubes. Mas este assunto ficará para a próxima semana, quando falarei sobre a relação de identidade e passado com vínculo estreito entre as pessoas e as organizações clubísticas no Brasil.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

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Choque de gestão no futebol: os cabelos estão arrepiados

“Ele é um excelente profissional, muito bom caráter, um homem sério, mas nós que convivemos no dia a dia achamos que é necessário fazer um choque de gestão”.

Com essa frase, a diretoria do Atlético Goianiense justificou a demissão de René Simões do comando da equipe, técnico que conseguiu evitar o rebaixamento no ano anterior e que liderava o campeonato estadual.

Virou moda.

Agora no futebol a onda é fazer um choque de gestão. Choque de gestão virou desculpa para fracasso, virou desculpa para erro e agora, ainda mais, virou justificativa para o famoso “me deu na telha trocar tudo”.

O futebol precisa, cada vez mais, de uma central de informações e recursos tecnológicos que auxiliem a avaliar, medir desempenho, e forneçam informações que possam ser transformadas em conhecimento.

Mas isso não basta, se as pessoas que decidem não souberem o que fazer com elas. Ou, o que é pior, tomarem decisões sem ao menos olhar para informações: o tal “choque” não fará nem cócegas.

Nos últimos anos vimos com frequência o termo ser utilizado no futebol. Atlético- MG já utilizou, Corinthians recentemente para justificar o fracasso da Libertadores, o Flamengo, o Goiás, enfim, tantos dizendo sem dizer.

O futebol precisa aprender com o mercado, porém, não adianta só fazê-lo no nome e da boca para fora. Choque de gestão, em resumo simples, remete a mudança no rumo e na forma de gerir, ou seja, o dirigente que o propõe deve estar amparado em informações para tomar tal decisão e não tomar a decisão e justificar com tal alcunha.

Como um choque de gestão pode ser aplicado se não existem parâmetros, critérios e ferramentas que possam avaliar os rumos? Um técnico com 70% de aproveitamento é alvo de choque de gestão, técnico invicto também, técnico rebaixado, técnico interino, enfim, toda mudança de técnico virou choque de gestão.

Independentemente do nome, é importante que as decisões de mudança de rumos, que nem sempre se concretizam com a simples mudança de uma peça (treinador), sejam amparadas com argumentos, informações, dados, análises, critérios, e não apenas no feeling de uns e outros.

O feeling é extremamente importante e não pode ser descartado, porém, os gestores do futebol brasileiro se apegam a ele como justificativa: “senti que era hora de mudar”.

Precisamos de critérios para tomar decisões. Se no futebol os resultados justificam tudo, vamos avaliar resultados, sejam eles de jogo, sejam eles de retorno de marketing, sejam eles de investimentos ou da natureza que for. Caso contrário, vamos ser todos eletrocutados com tanto choque à toa e continuaremos com nossos cabelos arrepiados.

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