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Ambiente instável

Acompanhando o Mundial de Clubes e refletindo: como as entidades do futebol vivem um ambiente extremamente instável, em que algumas vezes a explicação está no inexplicável. E aí pergunto: como adotar um modelo de gestão sem que situações pontuais atrapalhem a sustentabilidade e os projetos no médio/longo prazo?

O caso em voga é o do Internacional de Porto Alegre, que foi eliminado prematuramente pelo Mazembe, do Congo, no Mundial de Clubes de 2010 realizado em Abu Dhabi, e foi do céu ao inferno em apenas 90 minutos – assim como os mais de cinco mil colorados que viajaram do Brasil para o Oriente Médio. Perder para a Inter de Milão, que seria a mais previsível final do torneio, não seria lá um grande desastre, é bom que se diga.

Falando objetivamente sobre gestão, é possível afirmar que são nesses momentos que podemos e devemos visualizar e mensurar a qualidade dos gestores à frente dos processos de trabalho. Saber filtrar aquilo que foi construído até então, sem que um fato contamine os próximos passos da organização, podem ser classificadas como as principais virtudes dentro do todo que foi construído.

O mais importante é fazer com que as pessoas que tomam decisões nas organizações de esporte passem a adotar um posicionamento mais racional e menos emocional sobre aspectos análogos. Precipitar-se, com base em um momento único, nem sempre é a melhor solução.

O Prof. Gustavo Pires (2007) nos ensina que “uma das mais significativas mudanças organizacionais da próxima década terá a ver com a atitude cultural das pessoas acerca da própria mudança. A responsabilidade, os processos de tomada de decisão, os sistemas de ligação. Nestes domínios esperam-se e desejam-se grandes mudanças no mundo das organizações desportivas que é um mundo tradicional e, muitas vezes, irresponsável”.

Assim, superar esse tipo de percalço com sabedoria, que ocorre com certa frequência em vários clubes, ano após ano, dentro de sua escala de atuação e abrangência, é o que diferencia as organizações de elevado sucesso no futebol daquelas medíocres, que respondem e reagem pelo momento e não pelo contexto. Que tentam explicar o inexplicável, olhando para trás, sem a devida reparação de seus erros e com um olhar profundo sobre o futuro.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

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Liverpool e gestão de conhecimento: um exemplo prático de como é simples

Neste fim de semana assistia à uma matéria na televisão com o jogador Lucas, do Liverpool. Na reportagem, o jornalista Décio Lopes acompanhou o volante até os vestiários dos atletas e demais bastidores do clube.

Muito mais do que a tecnologia propriamente dita, me chamou a atenção a relação de confiança que se estabelece com o atleta.

Num determinado momento, Lucas apresenta uma balança localizada de frente para um aparelho de TV. Lucas disse que ali os atletas se pesam e anotam na TV (touchscreen) a informação, e esta já fica registrada para todos os departamentos. Ainda nesse monitor, o atleta pode indicar se apresenta algum desconforto muscular, dor, mal estar, indicando de 0 a 10 o nível do incômodo. Esse indicativo fica, automaticamente, registrado para todos os departamentos: fisioterapia, médico, preparação física, etc.

Na conversa informal entre Lucas e Décio Lopes é possível identificarmos por trás uma rotina contada pelo atleta de forma simples, que denota aquilo que sempre discutimos sobre tecnologia não ser apenas recursos e equipamentos, mas sobretudo processos. Um pouco mais adiante na reportagem, Lucas aponta um quadro branco no qual os atletas podem declarar interesse e agendar se querem ou não receber massagens.

Qual a diferença entre a balança de frente para o monitor touchscreen e o quadro branco? Apenas os recursos tecnológicos empregados, mas o processo que rege o funcionamento de ambos é o mesmo. E é o que merece destaque. É um modelo simples e objetivo de como pode ser utilizada a gestão do conhecimento no futebol. É certo que estamos simplificando o que esse tipo de gestão pode agregar, mas já é uma mostra clara de como as coisas são muito mais simples do que muitos imaginam e acabam se tornando resistentes à adoção de novos modelos tecnológicos e gerências no futebol.


 

O primeiro aspecto desse processo que Lucas demonstrou e que deve ser destacado tem um vínculo cultural que é importante, porque não significa que o mesmo modelo daria certo no Brasil. Esse ponto é justamente a confiança que o departamento de futebol deposita no atleta, na auto-avaliação do jogador sobre suas condições físicas e do comprometimento do mesmo de seguir os procedimentos indicados. Provavelmente (e isso fica no campo da suposição, pois a entrevista não nos permitiu ter clareza do que pode ser tomada como ação) o atleta que mente ou faz o famoso “migué”, seja nas informações sobre condição física ou no cumprimento dos procedimentos, deve ser cobrado e punido por isso. Talvez esse cumprimento à regra seja uma parte que dificulte o processo no futebol nacional.

Mesmo que os valores culturais possam criar certa distância, é imprescindível que esse compartilhamento de informações, que no caso inglês começa com o atleta, seja de fato valorizado dentro do clube, que exista o diálogo entre os departamentos, e que esse diálogo não fique apenas no discurso para “inglês” ver (sem querer forçar o trocadilho).

A disponibilização das informações, o compartilhamento das mesmas, facilita o histórico e a intervenção sobre uma determinada situação. Para isso o próprio Liverpool nos dá o exemplo de que seja com o advento tecnológico ou com uma simples lousa, a gestão do conhecimento acontece por estar pautada em processo.

Nada muito complexo, mas pode ser que para o futebol brasileiro, que insiste em considerar o processo um retrocesso, isso tudo possa ser um paradoxo, e o que é pior, um paradoxo do avesso, à medida que as informações compartilhadas precisam ser assumidas como verdade, e aí…

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

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Allez, Guga!

Que raios tem a ver falar de Guga num site sobre futebol? Pois é. Estava pensando exatamente isso na noite de sábado, enquanto tentava conter as lágrimas dentro da garganta vendo o choro do maior fenômeno que o tênis brasileiro produziu e, muito provavelmente, produzirá na sua história.

O que Guga tem a ver com o futebol, além das básicas associações ao Avaí, ao Jacaré e ao bordão “rede é gol” que a Pepsi soube brilhantemente criar durante o auge da tão curta carreira do nosso tenista.

Mas a luz veio clara na cabeça quando pensei no “Allez, Guga”, que os torcedores franceses souberam entoar durante os cinco maravilhosos anos em que ele foi o Rei de Roland Garros. Guga era o cara que, entre 97 e 2002, queríamos ver, saber o que ele fazia, consumir o que ele consumia, seguir seu estilo de vida.

Guga foi o que falta, e muito, para o futebol brasileiro da atualidade. Um ídolo carismático, simpático, alegre, vencedor. Um cara que nos dê orgulho de ter nascido no mesmo país dele, que nos motive a sonhar mais alto, a querer ser melhor, a ser tão competente quanto ele.

Ídolo que hoje é uma palavra tão ausente do cotidiano do futebol brasileiro. Jogadores que se deixam levar rapidamente pelo grande dinheiro que circula em outros países, que não tentam entender a importância de se criar um vínculo com suas origens, com suas raízes, que são massacrados pela vontade de lucrar de clubes, empresários, família, dirigentes, etc.


 

Talvez fosse preciso que o futebol, no Brasil, adotasse o estilo Guga de levar as coisas. De fazer um “Allez, Guga” com seus jogadores, incentivando-os a permanecer em seus clubes e, mais do que isso, a continuarem próximos dos torcedores.

Guga consegue, ainda hoje, deixar o torcedor próximo do tênis. Para um esporte carente de ídolos, seu trabalho é fundamental para ajudar no crescimento da modalidade. O futebol brasileiro não precisa do ídolo para manter a chama do torcedor acesa. A paixão pelo clube garante que tenhamos uma conexão imediata da pessoa com o time.

Mas a ausência do ídolo, no longo prazo, é extremamente prejudicial para o interesse do torcedor pelo clube. Sem ter para quem torcer ou, pior, tendo para quem torcer apenas fora do país, ele se distancia daquela que deveria ser a sua grande paixão.

Que tenhamos mais Gugas no futebol de hoje.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br  

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Amostragem

A carência por conhecimento científico na administração do futebol mundial é bastante conhecida. No Brasil, então, nem se fale.

Há, porém, tentativas bastante honestas de solucionar esse problema. Ao final de todo ano, buscam-se números de onde é possível para construir métricas de performance que indiquem fatos e tendências. Nada mais louvável.

Com dados em mãos, iniciam-se discussões quase intermináveis sobre os rumos futuros do futebol e sobre a qualificação ou não de determinadas pessoas e suas ações. Tal clube está bem administrado, outro clube não está, fulano é supervalorizado, sicrano é subvalorizado, e assim por diante.

No caso de jogadores, esse fenômeno é bastante evidente. Se um cara é artilheiro do campeonato, é quase certo que ele vai conseguir uma boa renovação de contrato ou será transferido para um clube com mais prestígio. Se ele é eleito para a seleção do campeonato, idem. Tudo fruto da percepção de valor construída baseada nas métricas mais simples que existem.

O problema, porém, é que por diversas vezes as tendências construídas não se consolidam no futuro breve. Quantos artilheiros de campeonato foram transferidos para outros clubes mas não conseguiram se destacar no ano seguinte? Quantos jogadores apontados como destaques de um ano nunca mais conseguiram brilhar em seus clubes? Muitos.

A razão para isso é bastante simples. No futebol, a amostragem de dados que ajudam a construir argumentos tende a ser muito, muito pequena. E isso gera conclusões ilusórias, que podem não representar o fato em si, mas apenas indicar a exceção. Por exemplo: suponhamos que um jogador se profissionalize aos 18 anos e consiga ser o artilheiro do Campeonato Brasileiro aos 26, com 32 gols. Nos oito anos anteriores, a média de gols dele era de nove gols por Campeonato Brasileiro. No final do ano em que se tornou artilheiro, ele será apontado como um grande goleador e possivelmente ganhará um aumento ou uma grande transferência. A probabilidade, porém, é que ele volte a marcar oito gols no ano seguinte, ou até menos, uma vez que a amostragem ampliada mostra que os 32 gols é a exceção, e não a regra.

Por isso, nesse final de ano em que um monte de conclusões começam a pipocar, tenha bastante cuidado com aquilo que você absorverá com verdade. A maioria delas estará limitada à análise de dados de um período muito curto, o que inevitavelmente cria grandes distorções. Essa é a regra. Resta esperar pra ver se o Jonas será a exceção.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br  

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Podemos explicar o campeão?

Em setembro, uma de minhas colunas abordou a possível explicação para o rebaixamento de alguns clubes no cenário das competições nacionais e a discussão sobre como agremiações tradicionais desceram ladeira ano após ano.

Desde o final de semana venho pensando em abrir uma discussão a respeito do lado inverso, ou seja, o que explicaria o título em uma competição, como o fez Erich Beting na sua coluna semanal na Universidade do Futebol (Viva o planejamento!), atribuindo ao planejamento e à manutenção de um elenco e comissão técnica por parte do Fluminense como sendo as peças-chave para o sucesso da equipe em 2010.

De fato, consigo enxergar um plano de trabalho consistente por parte da competente comissão técnica tricolor, liderada pelo multicampeão Muricy Ramalho que, há algum tempo, realiza com excelência suas obrigações junto aos clubes por onde passa. No entanto, me parece mais uma célula a parte dentro da estrutura geral da organização do que propriamente um conjunto de ações que levam aos resultados esportivos.

O que estou tentando dizer é que o planejamento deve ser fruto de um processo global, abrangendo o todo de uma organização. Não devemos e não podemos enxergar com olhos míopes para aquilo que aconteceu nos 90 minutos do domingo. Do contrário, cairemos na análise fria e sem sentido que tomou conta das conversas de bastidores em 2009, quando chegaram a falar que o modelo bagunçado do Flamengo é que era o correto – que acabou se comprovando em 2010 como falacioso pela pífia campanha protagonizada pelo clube mais popular do país.

A dúvida que coloco é: e se Muricy e companhia saírem amanhã do Fluminense, o mesmo continuará a brigar por títulos ou irá figurar na parte de baixo da tabela, como o fez nos campeonatos anteriores? Coloquei o Muricy como centro da pergunta por motivos óbvios, mas entendo que existam outros treinadores e comissões técnicas capazes de fazer campanhas pontuais de sucesso mesmo dentro da “desestrutura” de alguns clubes brasileiros.

Penso, portanto, que para a implantação de um planejamento consistente, com durabilidade, as questões devem ser ainda mais complexas e profundas, passando por toda a montagem da equipe alinhada com a comissão técnica, o departamento de marketing, a estrutura física, os organismos e departamentos administrativos do clube buscando a inovação constante e registrando os processos de aprendizagem ao longo do tempo para que ocorra a tão sonhada manutenção dos níveis de excelência.

Do contrário, assistiremos cada vez mais esse tal efeito gangorra, em que muitos títulos são conquistados em partes pelo mérito pontual da equipe naquela temporada e pelo despreparo de seus adversários no mesmo período. E o ano seguinte? “Ah, sabemos que ele terá 365 dias, divididos em 12 meses e 52 semanas”.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

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É hora de planejar, não sem antes avaliar

Acabou o Brasileirão 2010, e nesta semana vivemos um misto de justificativas com perspectivas. É imprescindível que o planejamento da nova temporada seja precedido pela avaliação da que se encerrou há instantes. Mas nem sempre isso é tomado como verdade nos clubes.

 

Não consigo imaginar um clube desenvolver seu planejamento sem uma avaliação do que fez na atual temporada. Neste planejamento deve estar incluso todo e qualquer tipo de informação. E será que os clubes têm um banco de informações, será que detêm uma gestão de conhecimento que os permitam fazer essas avaliações?

E que informações poderiam ser analisadas com auxílio da tecnologia da informação?

Bom, são várias as possibilidades e cada uma com certeza gera assunto bem interessante, portanto, no texto desta semana, vamos apenas sondar que itens os clubes poderiam consultar na sua base de informações.

Do ponto de vista financeiro, avaliar os gastos com viagens e logísticas de hospedagem, concentração etc.;

Do ponto de vista financeiro e técnico, avaliar as contratações e salários dos atletas, qual perfil de contratação não deu certo, quais outras contratações foram mais impactantes no desempenho da equipe;

Do ponto de vista do marketing, que momentos foram mais bem explorados, relacionados diretamente ou não com a atuação da equipe e quais não deram a repercussão esperada seja em visibilidade ou mesmo retorno monetário;

Do ponto de vista do jogo propriamente dito, que jogos foram determinantes para o sucesso ou insucesso da equipe. E nesse aspecto poderíamos nos alongar um pouco mais.

Será que em alguns dos jogos perdidos, a análise do adversário foi bem feita? Algo poderia ter sido diagnosticado? Algo foi identificado, porém, não foi transferido para a questão do jogo? Tudo ocorreu pela imprevisibilidade do futebol ou teve algo que poderia ter sido mapeado e evitado?

Com essas perguntas caímos novamente na questão do uso dos scouts e análises, que podem ter uma ação transversal na análise jogo a jogo e também uma longitudinal, ao final da temporada como estamos insinuando nesse momento.

É como um nadador ao acabar uma temporada ver os motivos dos milésimos de segundo que o fizerem perder a medalha de ouro. A angulação do movimento, a intensidade, o preparo mental, a virada de pescoço, a braçada mais alongada no momento da virada, enfim, uma análise de todo os fatores que interferiam no seu desempenho e podem ter feito a diferença.

A mesma coisa acontece com os clubes, ou será que Corinthians e Cruzeiro não estão buscando onde estariam os pontos que faltaram para o título?

E é nisso que devemos pensar como uma das possibilidades do scout. O scout não dá resposta, como muitas vezes as pessoas esperam e exigem – quem trabalha com isso é cobrado por respostas. Mas essa ferramenta ajuda a formular perguntas, e muitas vezes uma pergunta bem feita é a chave para a uma boa resposta.

É hora de planejar, não sem antes avaliar.

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br  

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Viva o planejamento!

Sim, o Fluminense foi o merecido campeão brasileiro porque soube jogar 38 rodadas, apesar de falhas, deficiências e outros erros que foram cometidos pelo Flu ao longo da campanha pelo bicampeonato.

Mas, ao término do campeonato, não há o que discutir: ganhou aquele que foi mais consistente e previsível durante toda a competição.

Fluminense, que foi o único entre os 20 clubes que disputaram a Série A do Campeonato Brasileiro a começar e terminar a competição com o mesmo treinador no banco de reservas, que contratou reforços importantes ao longo do torneio e não se desfez de nenhum jogador fundamental para a conquista.

Regularidade é a regra para quem quer ser campeão nos pontos corridos. Planejar e executar, duas palavras que muitas vezes fazem falta no vocabulário brasileiro no cotidiano, são fundamentais para que tenhamos o campeão dentro desse sistema que ainda não conseguiu, por incrível que pareça, ser compreendido pelo dirigente de grande parte dos clubes.

O brasileiro vinha se acostumando com essa lógica até 2008, quando o São Paulo foi tricampeão nacional por ser absolutamente constante, lógico, previsível. No ano passado houve um hiato com o Flamengo, que mesmo errando tudo (demitiu treinador, apostou em atletas que estavam renegados, mudou o time no meio do campeonato, etc.) foi o campeão.

Agora, 2010 devolve a lógica aos pontos corridos. Quem é previsível geralmente se dá bem. Não precisa ser brilhante, basta ser coerente em planejar o ano para disputar um torneio durante oito meses em que a regularidade é mais eficiente que o brilhantismo.

E, para ratificar ainda mais essa tese, o Goiás ajudou a ser o protagonista dessa história. O Flu corria o risco de passar para a história como o campeão que foi ajudado por papelões protagonizados por Palmeiras e São Paulo, que claramente fizeram corpo mole quando enfrentaram o Tricolor carioca para não beneficiar o Corinthians.

Mas o Goiás pregou uma boa peça ao apenas empatar com o Timão. O empate em Goiânia foi daqueles para devolver a lógica ao futebol. Campeão é quem vence mais. E pronto! Resta saber se, nesta quarta-feira, o Goiás prega outra peça no Brasileirão, “roubando” a vaga na Libertadores do Grêmio.

Eis que, no apagar das luzes de 2010, o maior protagonista do futebol brasileiro é justamente uma equipe rebaixada para a Série B. O Goiás virou o time do momento, mesmo com o Flu campeão!

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br  

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Nunca antes na história deste país…

Nunca antes na história deste país, teríamos dois eventos esportivos, de abrangência internacional, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos.

Nunca antes na história deste país, eventos deste porte, em 2014 e em 2016, exigiriam comprometimento dos governos para melhorar a infraestrutura geral do Brasil.

Nunca antes na história deste país, teríamos um fluxo de turistas muito maior do que a média anual que recebemos.

Nunca antes na história deste país, os interesses da indústria esportiva mundial voltariam os olhos para as oportunidades de um mercado emergente e com potencial de desenvolvimento junto a 200 milhoes de pessoas.

Nunca antes na história deste país, teríamos que qualificar mão-de-obra em todas as frentes envolvidas na realização destes eventos – de garçons a presidentes de clubes e federações, passando por arquitetos e engenheiros, advogados e médicos, jornalistas e tradutores.

Nunca antes na história deste país, teríamos que enfrentar os problemas de segurança pública como exigem as circunstâncias – mais ação, menos discurso – que, em alguns casos, se assemelham a uma guerra civil.

Nunca antes na história deste país, fomos impulsionados a pensar em legado esportivo e criar condições para a prática e desenvolvimento duradouros e sustentáveis, levando-se em conta o relevante papel que o esporte preenche na sociedade.

Nunca antes de agora.

Tenho visitado recentemente São Paulo e Rio de Janeiro, as duas maiores metrópoles do Brasil hoje e que serão na época da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos.

Encontrar vaga em hotel, em ambas, é muito difícil.

Vôos cancelados e aeroportos congestionados, então, nem se fala.

Problemas de segurança – preventiva, não repressiva – são inúmeros.

Trânsito caótico e atrasos no caminho justificavam a falta de pontualidade brasileira.

A Soccerex (e seus frequentadores), uma das maiores feiras da indústria do futebol mundial, no RJ, padeceu destes problemas.

Sem contar que todo mundo que estava lá queria vender alguma coisa. Ninguém queria comprar nada.

Talvez porque nunca antes na história deste país, havia sido organizada uma feira internacional de negócios do futebol, cuja simples necessidade de se falar uma língua estrangeira, como o inglês, não permitia os players do futebol brasileiro atuarem com desenvoltura para fechar bons negócios.

Imaginem os garçons, camareiros, taxistas, ambulantes, seguranças, espalhados pelas 12 cidades-sede da Copa.

Vão ter que aprender inglês no mesmo tempo em que o Brasil constrói o trem-bala, os estádios, as rodovias, os aeroportos, os portos…

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

 

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FC Barcelona: avassalador

A equipe do Barcelona não muda. Invariavelmente apresenta, e quase que impõe, seu jeito de jogar.

Tem um modelo de jogo muito bem definido – e mais do que isso, tem uma cultura de jogo bem definida.

Gosta de ficar com a bola, e quando está com ela, de passes curtos e rápidos, de muita amplitude e profundidade de jogo (faz o campo “crescer”). Envolve os adversários com certa facilidade e quando perde sua posse, com uma ocupação do espaço bem definida, ataca a bola com invejável pressing.

Com uma cultura de jogo bem estabelecida, encontra os jogadores certos para aquilo que precisa, desde as categorias de base, e na construção do seu jogo, treina exatamente como quer jogar.

Nos últimos anos tenho acompanhado boa parte dos jogos da equipe do Barcelona. Já o vi ter dificuldades com algumas equipes (poucas). Cada uma delas com algumas estratégias de jogo em comum, mas todas elas com modelos de jogo pouco estabelecidos.

Grande parte dos times que acompanhei, enfrentado o Barcelona, o fez marcando nas proximidades da linha “3”, com 10 ou 11 jogadores atrás da linha da bola, com tentativas de rápidas transições ofensivas com jogo não apoiado.

A maioria destes times ofereceu certa dificuldade defensiva inicial e quase nenhuma ofensiva (por viverem a base de lançamentos e chutões para jogadores, que pouca facilidade tinham no 1 vs 1).

As poucas equipes que levaram alguma vantagem neste tipo de jogo foram aquelas que tinham dois ou três jogadores muito rápidos e com mais chances de romper confrontos 1 vs 1.

Vi pouquíssimos adversários proporem confrontos ao Barcelona, pressionando alto.

Introdução aos Aspectos Táticos do Futebol“: conheça o novo curso on-line oferecido pela Universidade do Futebol

Alguns desses também trouxeram alguma dificuldade defensiva inicial, e certas vezes, por conseguirem recuperar a bola em setores próximos ao “alvo” de ataque, também levaram algum perigo ofensivo.

O principal, porém, é que foram raras as vezes que algum adversário conseguiu fazer o Barcelona ter que mudar alguma coisa em sua forma de jogar.

Senão vejamos:
 

  1. O FC Barcelona ao se defender: busca recuperar rápido a posse da bola, pressionando o adversário normalmente entre as linhas “2” e “1”.
     
  2. O FC Barcelona ao atacar: busca manutenção da posse da bola com progressão apoiada ao campo de ataque, com alternância de corredores do campo de jogo.
     
  3. O FC Barcelona ao fazer a transição defensiva: busca o ataque a bola (jogadores próximos a região em que ela foi perdida), enquanto uma estrutura de 3 ou 4 jogadores recompõem a linha de defesa.
     
  4. O FC Barcelona ao fazer a transição ofensiva: busca retirar a bola da zona de pressão .

No nível estratégico, quando uma equipe enfrenta o Barcelona, marcando atrás da linha “3”, estará reforçando aquilo que gosta de fazer o time espanhol – ficar com a bola. Isso pode, ou não, ser um problema, porque vai depender do quanto eficiente, essa proposta poderá se mostrar.

Devo lembrar aqui que normalmente o FC Barcelona está mais acostumado a romper com esse tipo de estratégia defensiva, do que o adversário em cumpri-la contra uma equipe de altíssima qualidade e muito “adaptada” a este tipo de jogo.

Defensivamente, como chamei a atenção anteriormente, a equipe espanhola procura retomar rapidamente a posse da bola, pressionando alto. Então, no nível estratégico, o que ela não está acostumada é recuperar a bola já no seu campo de defesa (linhas “4” e “5”).

Isto pressupõe então que talvez possa ser vantajoso ao adversário não tentar um jogo apoiado de manutenção da posse da bola, mas sim, um de progressão constante ao campo de ataque, de maneira que ainda que se perca a bola, isso ocorra bem longe da meta de defesa.

Então, da mesma maneira, devo acrescentar que, para fazer o jogo de progressão ser satisfatório, é necessário também que a pressão sobre a bola, ao perdê-la, seja imediata e em linhas avançadas, para que ao invés de permitir ao Barcelona reforçar seu comportamento habitual de ficar com a bola, fosse ele induzido a ter que progredir mais rapidamente do que está acostumado e sem seu característico jogo apoiado.

Nas últimas derrotas que assisti do FC Barcelona, não coincidentemente, os adversários apresentaram em suas estratégias algo bem próximo do que apontei acima.

Obviamente que se não houver os jogadores certos para isso, e os treinos certos para construir tal comportamento ou estratégia, qualquer que sejam eles (estratégia ou comportamento), não estarão prontos para interferir no modelo de jogo do time catalão.

E aí, no jogo contra o Real Madrid…

Bom, o jogo contra o Real merece um texto só para falar dele.

Por ora, o que poso dizer é que foi a prevalência maciça de um modelo e de uma cultura de jogo (do Barcelona) sobre a estratégia de uma equipe (o Real Madrid), que não deu certo. E por quê?

Por enquanto a resposta é com vocês…
 

 

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br  

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Afinal, Esporte ou Desporto?

O artigo 217 de nossa Constituição Cidadã trata do Desporto. “É dever do Estado fomentar práticas desportivas formais e não-formais, como direito de cada um…”, afirma ele de forma inconteste…

… O Ministério é do Esporte – assim mesmo, no singular, pois ele é uma prática social com origem moderna vinculada ao advento da sociedade industrial -, mas já tivemos há bem pouco tempo atrás, no Governo Itamar, o Ministério de Educação e Desporto e antes dele, no Brasil Novo de Collor, uma Secretária Especial do Desporto, que por sua vez veio no lugar da SEED, Secretaria de Educação Física e Desporto que, por dentro do Ministério da Educação e Cultura no final da década de 70 e toda de 80 do século passado, ditou os caminhos da política da área…

… A justiça (!) é Desportiva e ser esportivo é sinônimo de não levar as coisas a ferro e fogo e sim com fair play, para cuja expressão Galvão Bueno, por ocasião da mais recente versão da Copa do Mundo de Futebol, como se tivesse descoberto a pólvora, se valeu do termo desportividade… Tudo isso sem esquecer os desavisados que com trejeitos científicos relacionam o esporte às práticas corporais não competitivas e o desporto àquelas associadas ao alto rendimento, à performance…

Não é a primeira vez que trato deste assunto, e se resolvo fazê-lo agora é por falta de inspiração para voos maiores neste momento em que somos desmotivados a continuar acreditando na raça humana, dada a imbecilidade que imperou na campanha eleitoral, onde os candidatos teimaram em nos tratar como tolos… Sim, eu sei… O problema é da nossa democracia… Mas não de seu excesso e sim de sua ainda escassez, incipiência, fragilidade e imaturidade motivadas pelo pouco tempo que temos de aprendizado democrático, reiniciado depois de uma eternidade mergulhados nas trevas da ditadura militar… Sim, eu sei, perseverar é preciso…

De uma das vezes, me lembro, já se vão 10 anos, quando estávamos às voltas com as festividades patrocinadas pelo governo brasileiro alusivas aos 500 anos de descobrimento (sic) do Brasil pelos portugueses. Não por acaso, pois então suspeitava que a expressão desporto presente em nosso vocábulo tinha muito mais a ver com os portugueses do que com os ingleses ou nossos irmãos latinoamericanos ciosos no uso da expressão Deporte… Suspeitas essas que se demonstraram relativamente corretas, como veremos adiante…

Bem… Como comecei apontando neste artigo, a Constituição Federal Brasileira de 05/10/88 trata em seu Capítulo III, Seção III, do Desporto. Então, a expressão Esporte é errada? Possui outro significado? João Lyra Filho (mentor intelectual do Decreto-lei no 3.199/41, primeiro documento legal voltado para a normatização do esporte nacional), logo após o prefácio do Professor Gilberto de Macedo à 3a edição (1974) de seu livro Introdução à Sociologia do Desporto e antes do Preâmbulo, nos apresenta as seguintes considerações sobre o assunto:

“Desporto, Sport ou Esporte? Pedi uma resposta ao saudoso mestre Antenor Nascentes, que se manifestou assim: – ‘Nem desporto nem sport, esporte. Desporto é um arcaísmo que Coelho Neto procurou reviver quando se criou a respectiva Confederação. Coelho Neto era muito amante de neologismos. Haja vista o paredro. A palavra inglesa há muito tempo está aportuguesada e bem aportuguesada; é usada por toda a gente. Devemos usar a linguagem de todos, para não nos singularizarmos. Não está de acordo?

E continua João Lyra Filho: Respondi-lhe, com a vênia devida, que permaneço na dúvida. Não desconheço a influência do gosto popular e estimo deveras as dominantes da literatura oral. Mas indo às origens do nosso vernáculo, identifico o uso da palavra desporto nas letras e na boca de Portugal. Não só os quinhentistas, inclusive Sá de Miranda, empregavam desporto. Não tem havido outra opção no escrever e no falar dos portugueses. A palavra desport já era de uso no francês antigo, significando prazer, descanso, espairecimento, recreio; com este sentido, figura em poesias de Chaucer. Os ingleses a tomaram por empréstimo, convertendo-a, depois, no vocábulo sport. Uma nova razão faz-me permanecer adepto do vocábulo arcaico: ele foi atraído à própria Constituição desta nossa República Federativa. O artigo 8o, sobre a competência da União, dispõe na alínea q do item XVII: ‘legislar sobre diretrizes e bases da educação nacional; normas gerais sobre desportos’. Não desejo ser denunciado como infrator da nossa Carta Magna… Mas a denúncia pode prosperar, com mudança de acusado, pois não são raras, na legislação do país, as vezes em que os autores dos respectivos textos oficializam o vocábulo esporte.”

Se já naquela época não eram poucas as ocasiões em que se optava pelo uso da expressão esporte no lugar da desporto, hoje em dia a opção por esporte é ainda mais evidente…Até nos arriscamos a criar neologismos! No meio acadêmico da área Educação Física é comum presenciarmos o uso de um: Esportivização, utilizado nas vezes – cada vez mais comum – em que assistimos o processo de submeter as práticas corporais aos ritos do esporte…

O professor Gaudêncio Frigotto, no seu escrito “A Formação e a profissionalização do educador: novos desafios” se reporta a Conceitos como sendo as “representações no plano do pensamento, do movimento da realidade”. Como tal, afirma não serem eles “alheios às relações de poder e às relações de classe presentes na sociedade. Pelo contrário, são mediações de sua explicitação ou de seu mascaramento”.

Pois me valendo da compreensão de Conceito atribuída por Frigotto, defendo o uso da nossa – brasileira – expressão Esporte, que não nega sua origem portuguesa nem tampouco nossa aproximação com o britânico Sport, mas expressa a vontade política de buscar suas próprias palavras para apontar o desejo de configuração de sua identidade… Pois não é o Futebol – e não o soccer ou football – que sinaliza ao mundo a identidade cultural esportiva do brasileiro?

Para interagir com o autor: lino@universidadedofutebol.com.br