Categorias
Sem categoria

Futebol e cultura – potências nacionais que podem abrir portas para o Brasil

A genial ação de marketing do Burger King, que envolveu uma equipe da 4ª divisão inglesa masculina, o Stevenage FC, videogame – FIFA – e a distribuição promocional de produtos da rede de fast-food, tomou a internet na última semana, quando foi divulgada de maneira oficial nas redes sociais do clube. Oferecendo prêmios aos jogadores virtuais que escolhessem o Stevenage como equipe no jogo, o Burger King, atingiu resultados impressionantes desde o início da campanha como os mais de 25 mil gols do clube inglês feitos pelos jogadores virtuais e compartilhados nas redes sociais, obviamente com o logo da companhia estampado na camiseta da equipe. A equipe inglesa passou a ser a mais escolhida do modo carreira do jogo e pela primeira vez na história do clube o estoque de camisas foi esgotado.

Abaixo você pode conferir o vídeo de divulgação dos resultados da campanha compartilhado nas redes sociais do Stevenage (o material está em inglês).

É possível que você não tenha notado, mas além de Neymar, temos outra presença brasileira no vídeo que é o funk. A trilha sonora do material de divulgação traz referências claras ao ritmo brasileiro, muitas vezes desvalorizado e até perseguido em sua terra natal.

Assim como o futebol, que é, provavelmente, o maior símbolo da identidade brasileira ao redor do mundo, a música, e a cultura de maneira geral, também tem um grande potencial para aproximar o país do público global. Esse poder de atração que a cultura e o futebol podem exercer no âmbito global está relacionado ao conceito conhecido nas relações internacionais como soft power. O soft power, ou poder suave, de um país consiste na capacidade daquela nação de abrir portas e atingir seus objetivos por meio da persuasão, evitando o uso da violência ou ameaça militar e até mesmo econômica. Vale aqui mencionar o livro “Clube empresa: abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol” que se aprofunda em exemplos atuais de como o futebol vem sendo utilizado como instrumento de soft power por diferentes países.

Apenas pela definição do que é o soft power talvez não fique tão claro como ele funciona na prática, um exemplo que pode ajudar a ilustrar essa dinâmica é o da Coreia do Sul e o grande investimento feito pelo país em seu setor cultural. No final da década de 90, o governo coreano, que buscava alternativas para ajudar o país a sair da crise econômica que atingia a região, decidiu investir em sua indústria criativa. Foi a partir desse movimento que o K-Pop, estilo que conquistou o mundo nos últimos anos, ganhou espaço e investimento, ganhando até um departamento próprio dentro do Ministério da Cultura do país. No longo prazo, o investimento e a valorização da música e dos artistas locais trouxe como fruto o reconhecimento internacional, e os milhões de fãs do gênero e de seus grupos musicais que vem ajudando a aquecer a economia local. O interesse pela música e suas bandas tem feito aumentar o interesse e até a simpatia pelo país, 1 a cada 13 turistas citou o BTS, o principal grupo musical do estilo como motivo de escolher visitar a Coreia do Sul, de acordo com o Instituto Hyundai. O turismo total no país triplicou em um período de 15 anos.

A admiração que ultrapassou as fronteiras do território nacional também ajuda a quebrar barreiras tidas normalmente como intransponíveis como na relação das Coreias do Sul e do Norte. Em 2018, um acordo entre os dois países permitiu que shows do gênero fossem realizadas na Coreia do Norte. Também em 2018, o BTS foi convidado para discursar na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas – ONU – durante o lançamento de um projeto que visa aumentar o investimento na melhoria de vida de crianças e jovens em todo o mundo.

O impacto econômico do fenômeno do K-Pop também é relevante para o país. Em 2018, a indústria musical local cresceu 17,9%, apenas o gênero rende mais de US$ 4,7 bilhões ao ano. Para efeito de comparação, todo o futebol brasileiro movimentou R$ 52,9 bilhões – ou US$ 13,56 bilhões considerando a cotação da época no fim de 2018, que era de cerca de R$ 3,90.

As portas que a Coreia do Sul vem abrindo por meio do investimento na cultura, com o K-Pop e também com outras manifestações como o cinema, cabe lembrar o filme “Parasita” que venceu o Oscar de melhor filme em 2019, costumam ser abertas pelo Brasil e pelos brasileiros com uma tal camisa amarela acompanhada de 5 estrelas bordadas e um número 10 nas costas. Não faltam relatos de viajantes brasileiros sobre como, quando a coisa aperta, mencionar o país de origem e o futebol pode salvar de enrascadas. Mas será que não poderíamos fazer mais? Quantas pessoas visitam o Brasil por conta da nossa música? E para conhecer algum clube? O Museu do Futebol ou da Seleção Brasileira? O Maracanã?

Grandes jogadores e jogadoras brasileiros costumam, além de desfilar um talento único pelos gramados do mundo, fazer boas tabelas com a música e cultura nacional. O último movimento de destaque foi o de Neymar e sua “JBL” nas finais da Champions League, já em 2011, a comemoração de Marcelo e Cristiano Ronaldo ajudaram a fazer bombar o hit “Ai se eu te pego” que rodou o mundo na época. Voltando para os videogames a cantora Anitta, que já há algum tempo se movimenta para conquistar o mercado internacional, ganhou espaço de destaque na mais nova versão do FIFA, sendo uma das estrelas do show de lançamento do jogo. Além disso, Anitta terá música e uniforme especial dedicado à ela dentro do jogo.

Imagem
Neymar e sua JBL nas finais da Champions League, “o pai tava on” e o Brasil e mundo foram de carona. Crédito: redes sociais/UEFA

O carisma e irreverência brasileiros conquistam o mundo sem muita força. Com ações estratégicas e a valorização do futebol e da música, assim como como K-Pop e o cinema na Coreia, esse carisma natural tem tudo para alçar voos ainda mais altos e duradoros.

Categorias
Sem categoria

Aprendizados da “Rua Pernambuco”

Este texto se propõe contar algumas histórias vividas na rua Pernambuco, em uma cidade do litoral do Rio Grande do Sul, na década de 1990. Eu era a primeira filha de um casal recém-chegado ao local, assim como outras pessoas que foram até essa cidade em razão da urbanização e ocupação do território, durante os anos 1980. A rua era de paralelepípedos e havia alguns terrenos baldios ao redor das casas onde eu e meus vizinhos morávamos, meu irmão dois anos mais novo participava das brincadeiras, mas não gostava dos jogos de futebol. Assim, eu cresci rodeada de meninos, com a liberdade de brincar durante as tardes com eles, na rua Pernambuco e arredores.

Olhando para trás percebo o quanto aquela experiência foi importante para minha formação, como pessoa e como jogadora de futebol (não cheguei ao estágio profissional, mas pratiquei e pratico até hoje). Jogar com os meninos sempre foi desafiador, tínhamos quase a mesma idade, mas algumas questões físicas e de experiência mesmo acabavam pesando. Mas sempre nos acertávamos nas regras e nas trocas de aprendizados: por que eu sempre caía quando eles me acertavam com o famoso “carrinho”, e quando eu tentava a artimanha, eles facilmente escapavam? O jogo corria no pátio dos fundos de casa, era uma tarde cinza de inverno, até que eu perguntei qual era o segredo, a resposta veio entre risos: tu precisa levantar um pouco a perna, para o adversário não conseguir pular ou desviar. Pronto! Agora já sei, todos sabíamos.

O primeiro “campinho” foi no terreno bem em frente à minha casa, não lembro com precisão, mas algum adulto nos ajudou a construir a goleira, tinha rede e marcação da área. A parede atrás da goleira era de uma casa de pessoas conhecidas, “veranistas” que raramente apareciam no inverno, mas sabíamos que poderíamos ter problemas com as “boladas” na parede. Quantos jogos de 3 dentro, 3 fora disputamos lá! Era cada “bomba” na parede! Ela segue em pé até hoje.

Não lembro a razão, mas nosso “campinho” precisou ser transferido, acho que os “veranistas” não estavam gostando da bola pegando na parede deles, nem quando subíamos no telhado para recuperá-la. Onde seria o nosso novo espaço sagrado? Jogamos pelos pátios por um tempo (naquela época as casas não contavam com grades nem muros altos, bons tempos!) e, em seguida, encontramos o lugar ideal. Ficava mais adiante da minha casa, um espaço um tanto mais baixo que a rua, uns 30 ou 40 metros de largura, fazendo divisa com casas atrás das duas goleiras. Minha lembrança não ajuda muito, o que ficou nítido é que, quando tínhamos tempos de chuva, o jogo na lama era pura diversão, depois a gente via como limpar as roupas, a alegria e a parceria eram garantidas. Algumas pessoas mais velhas, tios, primos, amigos(as) apareciam para jogar e algumas vezes tivemos boas disputas no nosso campinho.

Eu estudava pela manhã, então às tardes podia brincar com os meninos, jogar bola, óbvio. As vezes jogávamos com a minha bola, outras vezes, com a bola do vizinho da frente. Alguém batia palmas lá na frente de casa e íamos convidando uns aos outros no caminho até o campo. Jogávamos gol a gol, driblezinho, bobinho, goleirinha de chinelo. Tudo era motivo de aprendizado, para todos um momento importante e aguardado do dia. Quando tinha alguém de castigo era uma tristeza, por que o fulano não ia brincar?

As lembranças são de um tempo divertido, de aventuras, de descobertas. Certo dia um deles comentou que começaria a jogar em uma escolinha, que máximo! O que seria isso? pensei. Ele era muito bom de bola mesmo, ia ser profissional. O pai dele e meu tio jogavam no campo da associação do bairro, meu pai e eu sempre íamos assistir. Ficava na grade observando os lances, comentando com meu pai, perguntando, ouvindo o que falavam. Como o mundo era legal!

Teve um tempo em que formamos um time de verdade. E nos sábados éramos desafiados ou desafiávamos times de outros bairros. Os jogos aconteciam nas praças que tinham campos bem grandes, com goleiras, as marcações eram definidas minutos antes do jogo: a calçada é o limite da lateral, vamos cravar essa estaca para marcar o escanteio e a linha de fundo. E assim seguia o jogo. Algumas famílias sempre acompanhavam, meu pai sempre estava junto, entusiasta do esporte (mesmo não jogando).

Não saberia dizer qual e quando foi nossa despedida dos campos da rua Pernambuco, aos poucos os temas da escola ficaram mais intensos, as demandas para ajudar em casa começaram a aparecer, os tempos de festinhas e as mudanças de interesses. O jogo acompanhou e acompanha minha vida, comecei na rua de casa, depois na escola, na “escolinha”, depois no time da empresa, e, por último, no grupo de amigas. Naquela época parece que nenhum de nós sabia dos preconceitos, e não saber que esse esporte era “proibido” às meninas me ajudou a ultrapassar as barreiras que hoje enxergo, assim como o apoio da família.

Categorias
Sem categoria

Sobre os leitores e leitoras do bom futebol

Vocês sabem que eu estava lendo, outro dia, um pedaço de um desses livros que usei como referência na minha pesquisa de mestrado. Chama-se ‘Nietzsche & a Educação’, escrito por este brilhante filósofo que é o Jorge Larrosa – que já citei algumas vezes aqui. Num certo momento, analisando uma das passagens escritas pelo Nietzsche, Larrosa faz uma observação muito interessante, que gostaria de trabalhar com vocês. Diz ele o seguinte:

“É a vida em sua totalidade, e não só a inteligência, a que interpreta, a que lê. Mais ainda, viver é interpretar, dar um sentido ao mundo e atuar em função desse sentido. Por isso a incapacidade para ler um livro não implica tanto a falta de ‘preparação’ do leitor como a falta de uma comunidade de experiências com o livro que, em última instância, remete a uma diferença vital e tipológica. Ser ‘surdo’ a uma obra, mesmo que a tendo ‘compreendido’, supõe ter outra disposição diferente daquela que a obra expressa. Quando um livro expressa em uma linguagem inédita experiência muito pouco comuns, ou radicalmente novas, e um tipo vital fora do comum, quase ninguém poderá lê-lo.”

No ano passado, escrevi neste mesmo espaço um texto apresentando um pouco do que entendo como o jogador inteligente. Basicamente, usei a origem da palavra para defender que o jogador inteligente é aquele capaz de ler nas entrelinhas. Ou seja, enquanto os outros só conseguem enxergar o literal, o jogador inteligente enxerga além, enxerga entre, lê o que os outros não leem. Não sei se fica tão claro assim, mas podemos tirar pelo menos duas coisas daqui: a primeira é que o texto que se apresenta ao jogador inteligente é o mesmo texto que se apresenta aos outros – portanto, a diferença não está no ‘texto’ em si, mas na ‘leitura’ que se faz dele. A segunda é que isso não vale apenas para o jogador, vale também para treinadores, assistentes, analistas, fisiologistas, preparadores físicos, gestores e etc. A inteligência, enquanto capacidade de ler e de tentar compreender as entrelinhas, cabe a todos nós.

Mas repare que quando nos dispomos a assistir a um jogo de futebol, ou mesmo assistir às nossas sessões de treino, ou de outros colegas, quando nos dispomos a analisá-las e a interpretá-las, a inteligência em si não basta. O motivo por que citei aquela passagem do Larrosa é para questionar a nossa leitura do futebol, ou de qualquer outra modalidade, acontece de corpo inteiro ou não. Será que os olhos são suficientes para assistir ou analisar bem um jogo de futebol? A meu ver, não. É preciso ir além e refinar todos os sentidos, para uma educação capaz de ouvir ao jogo – para que não sejamos surdos a ele, de tocar o jogo – para que ele também nos toque, de sentir o aroma do jogo – para que saibamos reconhecer uma equipe pelo perfume, ou mesmo uma educação capaz de saborear o jogo – pois a palavra sabor, não se esqueça disso, tem a mesma origem da palavra saber. A visão, embora seja um sentido privilegiado, não basta. A inteligência também não.

Só que vocês haverão de convir comigo que nada disso é ensinado por aí, essas coisas não aparecem nos cursos de formação – pois há quem diga que não é ‘prático’. Afinal, acreditamos que o que nos faz melhores é a quantidade de conhecimento que acumularmos. Bom, isso não é um problema em si, mas basicamente significa que podemos cair facilmente no mesmo problema apresentado pelo Larrosa acima, ou seja, da ‘falta de preparação do leitor’. Porque quando nos dispomos a ler um determinado jogo, ou uma determinada metodologia, ou uma determinada sessão de treino, ou um determinado atleta, quando nos dispomos a ler a nós mesmos em relação com o mundo, não é preciso que nos defendamos – ou que nos escondamos – atrás da preparação, ou da suposta falta de preparação, ou dos saberes, ou da suposta falta de saberes, não é preciso – nem é inteligente – nos restringirmos com barreiras tão pequenas: podemos muito bem nos apoiar na comunidade de experiências que fazemos com o jogo, ou com o método, ou com o treino, ou com o atleta – e isso se faz de corpo inteiro. As coisas que precisamos saber não estão nas coisas em si, mas na qualidade das relações que estabelecemos com elas, no sentido que damos a elas, por isso cada saber é único, particular, não se repete. Não por acaso, aplicamos muitas vezes um mesmo conteúdo, de maneiras diferentes, no processo de treino: porque uma vivência apenas não basta, e quanto mais vezes voltarmos aquele conteúdo, provavelmente melhor e mais refinada será a relação que nós mesmos e os atletas estabelecemos com ele.

Para ser um bom leitor ou uma boa leitora de futebol, é preciso ler de corpo inteiro, não apenas com os olhos. E é justamente assim, lendo pela audição, pelo olfato, pelo tato, pelo paladar, lendo de corpo inteiro, que refinamos a nossa capacidade de dar sentido às coisas. Como diz o texto que citei no início: viver é interpretar. Eu realmente admiro a importância das avaliações mais objetivas e as colaborações das ciências mais duras em modalidades como o futebol, mas gostaria de pedir sinceramente a vocês que não confundam a razoabilidade dos saberes objetivos com uma completa negação da subjetividade, como ser sujeito fosse um problema e ser objeto, uma solução . Porque o sentido que eu dou ao jogo, ao método, ao treino ou ao atleta, será apenas e tão somente meu, assim como o sentido dado por você será apenas seu, assim como o sentido dado por um terceiro será apenas dele e portanto ninguém além de mim pode dar sentido às coisas como eu, ninguém além de você pode dar sentido às coisas como você – e assim sucessivamente. E é justamente nessa coisa meio plural, meio complexa, nessa coisa meio transitória, nessas contradições, nessa impureza, nessas diferenças – é nesses desencontros que eu, você e todos os outros nos fazemos únicos, nos tornarmos melhores leitores, do jogo que se joga mas não apenas dele, nos tornamos mais inteligentes. Nessas diferenças que o nosso saber contrai, relaxa, fadiga, supercompensa. Se não existem verdades próprias do jogo – me lembro aqui do Dostoieviski, tudo é possível.

E se tudo é possível, é melhor ler – e criar – de corpo inteiro.

Categorias
Sem categoria

A cultura esmaga a proatividade

Com mais de dois meses do retorno do futebol em todo o país, já temos uma fotografia bem clara do cenário envolvendo clubes, técnicos, jogadores e as ambições e projeções de todos. Para aqueles que defendem uma melhor qualidade do jogo o contexto não é nada animador. O fato é que temos a mesma conjuntura de anos anteriores: técnicos cobrados pela vitória custe o que custar e com isso a tendência natural a privilegiar a defesa, dificuldades gritantes para criar comportamentos ofensivos elaborados e coordenados e o que é pior neste ano: a ausência do elemento torcida no contexto tem tirado um pouco mais a velocidade dos jogos.

Fazendo um exercício de empatia e nos colocando no lugar dos técnicos é mais do que compreensível essa postura dentro de campo. Sabendo que a média de duração de um profissional no cargo é de apenas três meses, que com o calendário apertado as sessões de treino são escassas, que a cobrança é inteiramente a curto prazo e que não há paciência para colher os frutos de um processo pelo menos a médio prazo, são raros os que se arriscam a buscar algo diferente.

É claro que para desenvolver conceitos ofensivos é preciso ter muito conhecimento, principalmente uma metodologia de treinamento capaz de operacionalizar as ideias. Porém aqui a questão é mais de mentalidade do que capacidade técnica. Para fazer algo diferente, um técnico tem que ter a voracidade de se impor frente a um cenário caótico, a gana de triunfar com algo diferente frente a uma mesmice já desgastada e, sobretudo, confiança na própria capacidade. Reconheço que quando um treinador estrangeiro chega ele tem uma tolerância maior do ambiente para desenvolver tudo isso. Mas já passou da hora de termos um técnico brasileiro vencendo com ideias diferentes do que costumamos ver. Enfrentar a cultura não é pra qualquer um! 

Categorias
Sem categoria

Estamos preparados para o retorno do público às partidas?

Recentemente, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) apresentou ao Ministério da Saúde o plano para o retorno gradual do público aos estádios de futebol, em razão da redução do contágio do novo coronavírus, bem como da queda da média móvel do número de óbitos. O plano enviado pela CBF propõe a liberação dos estádios até 30% da capacidade de público, assim como a presença exclusiva da torcida do time do público do mandante. O Ministério da Saúde, em 22/09/2020, aprovou o referido plano, sendo que o retorno presencial da torcida nos jogos do Campeonato Brasileiro Série A ocorrerá em outubro/2020.

Não obstante as inúmeras discussões que surgem quando o assunto é a retomada gradual do público às partidas de futebol, principalmente relacionadas aos riscos de contágio da COVID-19, medidas de segurança e outros tópicos, proponho aqui o debate de um tema tão tormentoso quanto o coronavírus que é o assédio às mulheres que participam do cenário futebolístico, sejam como torcedoras ou profissionais. Tal tema nos faz refletir: estamos realmente preparados para o retorno do público às partidas de futebol?

Há muito, o futebol já se consolidou como a paixão de muitas mulheres, que participam ativamente do dia-a-dia dos seus clubes, praticam o esporte em seus momentos de lazer ou mesmo atuam de forma profissional no meio do esporte. Mesmo assim observamos com frequência nos estádios de futebol, a violação de nossos direitos fundamentais, somos alvos de comentários sexistas, machistas, misóginos e, até mesmo, assédio e violência.

São inúmeros os relatos de mulheres que tiveram seus direitos e garantias
fundamentais violados, especialmente a dignidade da pessoa humana, o que é repugnante e coloca em xeque toda nossa sociedade. Como exemplos, cito o caso da repórter que foi assediada sexualmente por dois
torcedores que tentaram beijá-la à força. Na mesma partida, uma torcedora foi agredida verbal e fisicamente nas arquibancadas do estádio. Tais casos foram amplamente divulgados na mídia, sendo certo que inúmeros outros sequer chegam a ser noticiados às autoridades competentes. Estas condutas, além de serem tipificadas como crimes, perpetuam o machismo estrutural e a retrógada ideologia de que futebol não é coisa para mulher, o que, lamentavelmente, está no consciente de muitas pessoas.

Ante a trágica situação, algumas mulheres estão se unindo, formando grupos que visam, basicamente, a busca pela igualdade na arquibancada, bem como apoio ao futebol feminino. As integrantes do grupo se reúnem antes das partidas e vão juntas para o estádio de futebol, ficando unidas e defendendo umas às outras. Assim, as mulheres podem exercer o direito básico de torcerem para os seus times, se sentindo mais seguras e acolhidas.

O papel desses grupos é fundamental para romper a cultura machista instalada no futebol, vez que reforçam que o lugar da mulher é onde ela quiser e sua escolha deve ser respeitada. Tais grupos aumentam a representatividade das mulheres no futebol e legitimam o direito de torcer sem sofrer assédio ou serem incomodadas com questionamentos sobre sua presença no estádio de futebol e até sobre o seu conhecimento sobre o tema. Porém, tais grupos são insipientes, sendo que a luta das mulheres por respeito à dignidade da pessoa humana e igualdade, direitos básicos, ainda é árdua e encontram inúmeros entraves.

Não bastasse a violência em campo sobre a qual temos uma oportunidade única para repensar refletir e transformar, a pandemia evidenciou os inúmeros casos de violência doméstica sofridas por mulheres, seja de forma física, psicológica e – ou – financeira.

Assim, reforço o questionamento, em um futuro próximo, estamos realmente preparados para o retorno do público aos estádios de futebol?

É evidente que, como sociedade, temos muito a evoluir, para que direitos fundamentais, garantidos a todos os seres humanos, notadamente as mulheres, sejam efetivados e respeitados. Nos estádios de futebol, não é diferente. É imperiosa a necessidade de mudança da realidade vivenciada pelas mulheres no cenário do futebol, devendo ser criados mecanismos efetivos de proteção à mulher.

Certamente, para que seja possível o retorno do público aos estádios de futebol, estes deverão ser adequados, a fim de que se respeite os procedimentos de segurança, a fim de conter a disseminação da COVID-19. Aproveitando as mudanças estruturais que deverão ser realizadas, em razão do novo coronavírus, os estádios podem providenciar a instalação de postos de combate à violência à mulher, contando com pessoal especializado para adotar as medidas cabíveis, inclusive posteriores ao crime cometido.

Ademais, os próprios clubes devem criar mecanismos de punição do torcedor agressor, como forma de coibir a prática de crimes. Tais medidas podem variar desde a suspensão de participação dos jogos, até a proibição. Lado outro, devem ser criadas campanhas de conscientização, a fim de evidenciar a violência às mulheres e as formas de combate.

Assim, como resposta ao questionamento feito acima, tenho certeza de que precisamos implementar mudanças substanciais, para que o retorno aos estádios seja seguro para todos, principalmente para as mulheres.

Categorias
Sem categoria

Quem treina o treinador de futebol no Brasil? O autoconhecimento

Salve, salve amantes do futebol! Na coluna anterior falamos sobre o autodidatismo do treinador de futebol no Brasil, suas vantagens/desvantagens e sugerimos algumas soluções para auxiliar no processo de formação desse treinador nos diferentes contextos de atuação, da participação ao alto rendimento. Hoje, falaremos sobre a importância do autoconhecimento na carreira de um treinador.

Estudos apontam que treinadores que possuem maior consciência acerca de sua identidade, filosofia (ideias, princípios, valores e crenças) e propósitos, tendem a ser mais eficazes e, portanto, atingem com mais frequência os objetivos estabelecidos para suas carreiras. Eles também acabam sendo mais assertivos em suas tomadas de decisões, já que possuem maior lucidez sobre quem são e o que almejam. E já que o autoconhecimento é tão relevante para os resultados e a carreira dos treinadores, como é possível desenvolvê-lo? De quem é o papel de torná lo mais consciente sobre si mesmo? Como se dá esse processo?

As competências intrapessoais podem e devem ser exercitadas no início da trajetória profissional. Porém, como nesse momento o treinador ainda é inexperiente, suas reflexões ainda são rasas e, principalmente, pautadas no que se lê, vê e ouve, diferente de alguém mais experiente que já dispõe de um campo maior de vivências. Mas se o iniciante for estimulado, desde o princípio, a dispender um tempo para refletir sobre sua prática, entender as razões que o fazem querer ser treinador e por que reage de uma ou outra forma nas diversas situações a que é exposto, ou seja praticar constantemente o exercício do autoconhecimento, quando mais experiente saberá desenvolver tais competências.

Portanto, para os treinadores que buscam desenvolver de maneira contínua o autoconhecimento e outras competências intrapessoais, recomenda-se:

a) Responder as seguintes perguntas: por que quero ser treinador? Quais valores, princípios e crenças norteiam meus comportamentos? Qual meu propósito?

b) Para treinadores iniciantes: tomar muito cuidado em assumir verdades absolutas pautadas no que se lê, vê e ouve. Lembre-se que a pouca experiência o impede de enxergar detalhes ambientais que, naturalmente, virão com o tempo. Foque em refletir sobre a sua experiência e escute mais

c) Para treinadores intermediários: Buscar um coach developer ou uma aprendizagem mais formal que auxilie a compreensão de suas vivências, preenchendo assim algumas lacunas que ficaram do início. Tentar rascunhar o que guia seu comportamento e ouvir treinadores mais experientes

d) Para treinadores mais experientes: Buscar um processo de mentoria, ou um mental coach, escrever/falar sobre sua trajetória, rascunhar sua filosofia (ideias) e procurar discernir sobre “convicção x adaptação” – quando devo manter a convicção? e até que ponto devo me adaptar?

Fez sentido? E você, já pensou em desenvolver o autoconhecimento? Traga mais sugestões! Continuaremos na semana que vem com mais uma coluna sobre treinar o treinador. Grande abraço e até lá!

Referências

Gould, D., Pierce, S., Cowburn, I., & Driska, A. (2017). How Coaching Philosophy Drives Coaching Action: A Case Study of Renowned Wrestling Coach J Robinson. International Sport Coaching Journal, 4(1), 13-37. doi: 10.1123/iscj.2016-0052

Sobre o autor

Gabriel Bussinger é treinador e instrutor da CBF academy. Mestre em Educação Física pela UFSC, com 3 pós graduações na área. Já atuou em categorias de base e profissional, no Brasil e Dinamarca. Possui as licenças C e B da CBF e é parceiro de conteúdo da Universidade do Futebol.

Acompanhe as redes sociais do Gabriel Bussinger: YouTube; LinkedIn; Telegram; Podcast – Diário do treinador; Instagram

Categorias
Sem categoria

Quem treina o treinador de futebol no Brasil? – O treinador autodidata

Salve, salve amantes do futebol! Na coluna anterior falamos sobre a importância do treinador conhecer e dominar os diferentes contextos de atuação, a fim de que tenha uma prática eficaz. Nesta, falaremos sobre os perigos do “autodidatismo” dos treinadores brasileiros e como podemos contribuir para recalcular essa rota.

A trajetória de um treinador esportivo não é linear, sendo cheia de altos e baixos. Em algumas fases da carreira, é possível sentir o desenvolvimento e o crescimento profissional, já quando chegam as derrotas, demissões, “rebaixamento” de cargos, o treinador precisa ter paciência e clareza para compreender que todos passam por isso e que momentos como esses são essenciais para sua aprendizagem. Porém, quem vai dizer isso a ele? Quem pode treiná-lo para refletir e digerir essas situações da melhor forma?

Treinadores brasileiros mais experientes, ao refletirem sobre suas trajetórias, talvez estejam pensando que aprenderam a passar por isso sozinhos e que, por isso, todos também devem passar. Será? Será que ser autodidata durante toda sua carreira é o melhor, ou o único, caminho para o desenvolvimento do treinador? Por outro lado, será que ser guiado e mediado durante toda carreira também pode trazer como consequência um perfil de treinador limitado e pouco preparado para a dureza da profissão?

O fato é que os dois extremos são perigosos. Um processo de desenvolvimento do treinador demasiadamente mediado e formal pode tirar a sua autonomia e podar o seu talento. Em contrapartida, um treinador exclusivamente autodidata (situação mais frequente na construção da carreira da maioria dos treinadores de futebol no Brasil), terá uma defasagem na sua formação, principalmente no início de sua carreira, momento em que mais necessita de mediação e formação. Mas afinal, como fazer para “recalcular essa rota”, já que a maioria experiente já é autodidata e muitos que estão iniciando uma trajetória?

Diante de um cenário tão heterogêneo em que alguns são graduados em educação física e outros não, alguns são autodidatas e outros não, alguns são ex-atletas e outros não, podemos entregar as seguintes sugestões:

a) Pesquisar sobre toda a aprendizagem que os mais experientes (autodidatas) vivenciaram durante suas trajetórias e sistematizar esse conhecimento para transmitir em cursos formais para iniciantes

b) Esboçar um currículo de formação para uma escola de treinadores na qual exige-se que, no início da trajetória, o treinador aprenda a aprender e aprenda a refletir, para que quando mais experiente desenvolva a capacidade de extrair aprendizagem de forma autônoma (fase na qual ser “autodidata” se torna mais salutar)

c) Identificar lacunas de aprendizagem em treinadores intermediários e colocar nas ementas de cursos de formação

d) Conscientizar treinadores que ser um autodidata supercompetente é exceção e não regra, e que o caminho pode ser encurtado, ao se aprender com erros já cometidos pelos mais experientes

e) Conscientizar treinadores mais experientes a buscarem suportes de aprendizagens com MENTORIAS de profissionais que sejam referência para estes mais experientes.

Fez sentido? E você, em que fase está e como procura se desenvolver? Traga mais sugestões! Continuaremos na semana que vem com mais uma coluna sobre treinar o treinador. Grande abraço e até lá!

Sobre o autor

Gabriel Bussinger é treinador e instrutor da CBF academy. Mestre em Educação Física pela UFSC, com 3 pós graduações na área. Já atuou em categorias de base e profissional, no Brasil e Dinamarca. Possui as licenças C e B da CBF e é parceiro de conteúdo da Universidade do Futebol.

Acompanhe as redes sociais do Gabriel Bussinger: YouTube Telegram; Podcast – Diário do treinador; Instagram

Referências

JARVIS, P. Democracy, lifelong learning and the learning society: Active citizenship in a late modern age. Abingdon: Routledge, 2008.

http://149.28.100.147/udof_migrate/especial-a-importancia-de-um-curriculo-do-treinador-de-futebol-parte-final/

Categorias
Sem categoria

Quem treina o treinador? – O contexto de atuação

Salve, salve amantes do futebol! Em nossa primeira coluna abordando as questões que envolvem a formação dos treinadores, ou o que chamamos de treinar o treinador, falamos um pouco acerca do que se deve fazer para iniciar uma trajetória profissional na área aqui no Brasil. Já na coluna de hoje, falaremos sobre preparar o treinador para atuar nos diferentes contextos que compreendem essa função.

Geralmente, treinadores que atuam em escolas desejam atuar em categorias de base, e a maioria dos que atuam em base almejam trabalhar no profissional. Entretanto, quem treina o treinador para que este saiba adequar a didática, metodologia, comunicação, liderança e outras competências nesses diferentes contextos? Muitos, por não serem orientados ou por inexperiência, ao lerem um livro do Guardiola, Mourinho ou Klopp, ou assistirem treinamentos no youtube de Bielsa, Sampaoli ou Simeone, se precipitam e reproduzem o que leram/viram acriticamente e de forma descontextualizada. Essa precipitação no processo de ensino do futebol é conhecida entre os pesquisadores como ansiedade pedagógica.

De modo geral, os contextos que mencionamos acima podem ter 4 diferentes classificações, dentro de dois grandes ambientes, o da participação e o do rendimento, conforme apresentado abaixo:

a) ESCOLAS E PROJETOS SOCIAIS – Contexto de PARTICIPAÇÃO crianças e jovens
b) RECREAÇÃO E AMADOR – Contexto de PARTICIPAÇÃO adulto
c) CATEGORIAS DE BASE – Contexto de RENDIMENTO crianças e jovens
d) PROFISSIONAL – Contexto de RENDIMENTO adulto

Nesse sentido, para que o treinador tenha uma prática eficaz, o mesmo deve adequar suas competências aos diferentes contextos nos quais ele pode atuar ao longo de sua carreira. Além disso, a melhor maneira de desenvolver-se, independente do meio onde o profissional está inserido, é por meio da prática deliberada, como vimos na semana passada. Portanto, para quem quer atuar em um ambiente diferente, recomenda-se:

a) atuar como auxiliar de um treinador expert contextual, ou seja, aprender com um treinador que possui experiência no contexto no qual se pretende trabalhar;

b) após vivenciar a nova conjuntura, realizar cursos que abordam tal realidade;

c) dialogar com pares mais experientes no referido contexto;

d) obter licenças de atuação para o novo contexto;

e) refletir sobre erros e tratar as “dores” do novo cenário (porque vão existir muitos no início);

f) criar links e adaptar criticamente os conhecimentos do contexto anterior;

g) buscar uma mentoria.

Fez sentido? Continuaremos na semana que vem com mais uma coluna sobre treinar o treinador. Grande abraço e até lá!

Referências

CÔTÉ, J.; GILBERT, W. An Integrative Definition of Coaching Effectiveness and Expertise. International Journal of Sports Science and Coaching. v. 4, n. 3, p. 307-323, 2009.

Sobre o autor

Gabriel Bussinger é treinador e instrutor da CBF academy. Mestre em Educação Física pela UFSC, com 3 pós graduações na área. Já atuou em categorias de base e profissional, no Brasil e Dinamarca. Possui as licenças C e B da CBF e é parceiro de conteúdo da Universidade do Futebol.

Acompanhe as redes sociais do Gabriel Bussinger: YouTube Telegram; Podcast – Diário do treinador; Instagram

Categorias
Sem categoria

Quem treina o treinador de futebol no Brasil?

Salve, salve amantes do futebol! O que é possível responder para alguém que deseja tornar-se treinador de futebol no Brasil, e quer saber por onde começar? Que deveria cursar Educação Física? Que deveria ter sido atleta de futebol? Que deve realizar os cursos da CBF Academy ou ABTF? Ou realizar os diferentes cursos de sindicatos de treinadores regionais ofertados no país? Qual trajetória sugerir?

Os cursos de bacharelado no Brasil possuem caráter generalista, com menos de 1/5 de carga horária voltada a treinadores esportivos. A experiência como atleta de futebol contribui para um conhecimento contextual da modalidade, mas não prepara o profissional para exercer a função de treinador, já que são exigidas diferentes competências. Já os cursos não-formais, de curta duração, podem agregar valor e até licenciar para atuar, mas também não asseguram uma formação profissional completa. Desse modo, não existe uma “escola de treinadores brasileiros” formalizada e esses, para se tornarem treinadores, precisam construir o seu próprio caminho,  o que acaba sendo prejudicial a sua formação

Alguns estudos apontam que a fase inicial de alguém que deseja se tornar treinador deve ser MEDIADA/FORMAL. Isto é, um mestre/professor deve mediar o conhecimento do aprendiz que ainda é inexperiente e necessita de competências básicas. Entretanto, os mesmos estudos evidenciam que quanto mais experiente é o treinador, melhor é a sua aprendizagem NÃO MEDIADA. É o momento para aprender “por conta própria”.

Portanto, quem deseja se tornar um treinador deve: a) praticar ser treinador, afinal a prática é o que mais evolui o profissional; b) no início da carreira, buscar uma aprendizagem formal/mediada simultânea à prática; c) procurar licenciar-se para estar apto pela lei; d) realizar uma formação continuada, seja mediado por um professor, seja uma aprendizagem não mediada (autodidata). Afinal, nunca paramos de aprender.

Quer saber mais dicas? Encontre-me na coluna da semana que vem. Grande abraço e até lá!

Gabriel Bussinger é treinador e instrutor da CBF academy. Mestre em Educação Física pela UFSC, com 3 pós graduações na área. Já atuou em categorias de base e profissional, no Brasil e Dinamarca. Possui as licenças C e B da CBF e é parceiro de conteúdo da Universidade do Futebol.

Acompanhe as redes sociais do Gabriel Bussinger: YouTube ; Linked In; Telegram; Podcast – Diário do treinador; Instagram

Referências 

Michel Milistetd, Vitor Ciampolini, William Das Neves Salles, Valmor Ramos, Larissa Rafaela Galatti & Juarez Vieira do Nascimento (2016) Coaches’ development in Brazil: structure of sports organizational programmes, Sports Coaching Review, 5:2, 138-152, DOI: 10.1080/21640629.2016.1201356

Trudel, P., Culver, D., & Werthner, P. (2013). Looking at coach development from the
coachlearner‟s perspective: Consideration for coach development administrators. In P. Potrac,
W. Gilbert, & J. Denison (Eds.), Routledge Handbook of Sports Coaching (pp. 375–387).
London: Routledge.

CÔTÉ, J.; GILBERT, W. An Integrative Definition of Coaching Effectiveness and Expertise. International Journal of Sports Science and Coaching. v. 4, n. 3, p. 307-323, 2009.

Categorias
Sem categoria

Carta a um jovem atleta

Prezado atleta,

São grandes as chances de não nos conhecermos pessoalmente. Na verdade, talvez você nem saiba da minha existência, como eu posso não saber da sua. Mas de um ponto de vista prático, isso não faz muita diferença. O bom leitor sabe que um pingo é letra. O fato de não sabermos um do outro com detalhes não impede que saibamos um do outro. Lembre-se disso no futuro.

Você ainda é muito jovem, embora não tenha a exata noção do que significa a juventude. Na verdade, a própria noção da juventude só vem com o tempo. E tempo é aquilo que, hoje, você tem e não tem: por um lado, você não tem tempo porque de fato ainda viveu muito pouco, juntou poucos anos no quebra-cabeças da vida e ainda está grávido ou grávida da vida adulta – e talvez nem saiba disso. Por outro lado, ainda te resta demasiado tempo de vida: a vida que ainda não veio é muito grande e comprida, de modo que, sim, você tem muito tempo. Isso é motivo de alegria! Mas também deve ser motivo de cuidado.

Talvez você já tenha ouvido, aqui e ali, alguém dizendo que o atleta morre duas vezes. O atleta morre quando deixa de ser atleta e morre quando deixa de viver. Às vezes, uma coisa é igual a outra. Mas às vezes não, e quero que você repare nas diferenças entre os dois casos: a morte do atleta, salvo uma lesão grave ou algum outro problema extraordinário, geralmente é uma escolha: um acordo com o próprio corpo ou com a própria vida em que os dois, enviando sinais recíprocos, decidem que aquele tempo, o tempo de atleta, acabou (esse tempo, aliás, geralmente acaba rápido). No caso da morte de uma pessoa, infelizmente não se trata de uma escolha: da mesma forma como não se escolhe nascer, também não se pode escolher o contrário. É justamente por isso, pela sua responsabilidade enquanto atleta, que você não pode ser cúmplice do arrependimento: enquanto atleta, faça tudo o que puder. O depois é uma ilusão, o antes também. O tempo que te existe é o tempo do agora.

Pode ser que você se ache muito bom – talvez até muito melhor do que os outros. Ou pode ser que não, que você não se ache tão bom assim – talvez pense ser muito pior do que todos os outros. Nos dois casos, você provavelmente está errado. Se não se acha tão bom assim, você certamente não se conhece o suficiente: veja bem, não existe outro exemplar seu no mundo. Por isso, não te cabe ser igual aos outros – é preciso ser quem você é. Aquilo que te falta geralmente serve para esconder as coisas que te sobram: se te falta o drible, talvez te sobre o passe. Se te falta o passe, talvez te sobre potência. Se te falta potência, talvez você seja um líder. E se não for um líder, você pode se preparar para sê-lo. O que você não pode é acreditar no mundo quando ele disser que você não é nada: o mundo é especialista nisso, ele fará o possível para te afastar de quem você realmente é, mas cabe a você escolher entre acreditar consistentemente nele ou não. Por outro lado, se você estiver no primeiro grupo, dos que se acham bons demais, saiba que você está em desvantagem: comparado aos outros, o seu tombo pode ser muito maior. Para saber se você é realmente especial, trabalhe muito. Ninguém se torna especial de véspera.

Da mesma forma, não se esqueça dos porquês que te fazem ser atleta e seja honesto consigo mesmo. Você quer ser atleta ou quer apenas os holofotes? Você quer ser atleta ou quer apenas enriquecer (não se esqueça, aliás, que é possível ter muito dinheiro e não ser rico)? Você está disposto a eventualmente ganhar pouco, não ganhar nada? Ser rejeitado uma, duas, três, dez vezes? Trabalhar eventualmente nas piores condições possíveis? Você se importaria em passar toda uma carreira como anônimo, finanças moderadas, motivado especialmente pelo coração? Se não, veja bem, não se sinta mal: apenas lembre-se de que, infelizmente, há poucos ingressos para as melhores festas – e sim, muita gente boa não costuma frequentá-las. O peso que a vida faz sobre a gente é maior do que o peso que a gente faz sobre a vida. E o bom marinheiro, você sabe, não reclama do mar – ele apenas navega. O esforço não é dispensável, mas mesmo o maior dos esforços pode ser insuficiente. E isso não deve ser motivo de lamento, mas de orgulho.
Aliás, muita gente dirá que tudo só depende de você. Não é verdade.

Depende uma parte de você e outra parte do mundo. Não é por acaso que existem companheiros, existem adversários, existe uma equipe de arbitragem, existem os outros profissionais de um clube, existe a imprensa, existe a sua família e existem os seus amigos, existem pessoas que gostam de você e torcerão incansavelmente pelo seu trabalho, assim como existem pessoas que não gostam de você e, saiba disso, não torcerão nem um pouco pelo seu trabalho. Você percebe que, exceção feita a você mesmo, não te cabe controlar nada do resto? Não brinque de fantoches com a vida e não tente ser mais, nem menos: de novo, seja exatamente quem é. Assim, te será possível separar o que deve e o que não deve ser feito, o que merece e o que não merece a sua atenção (e quem a merece ou não), saberá jogar o jogo de abrir mão.

Isso fará toda a diferença na sua vida enquanto atleta. Não se trata de ser mais, mas de ser melhor. O excesso (inclusive de ambição) é perda.
E talvez agora, depois dessas linhas, você perceba que não, de fato nós não nos conhecemos, mas que sim, nós sabemos algumas coisas. O fato de não sabermos um do outro com detalhes não impede que saibamos um do outro.

Lembre-se bem disso no futuro.