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Rótulo

Um dos fenômenos mais curiosos do processo eleitoral é o quanto a corrida é baseada em rótulos. Durante a disputa, tudo vira adjetivo. E adjetivos pespegam em candidatos como se fossem congênitos.

Análises sobre futebol também são assim. Não são raros os exemplos de jogadores que ficam marcados como “violentos”, “técnicos”, “decisivos” ou “inconstantes”. E não são raros os exemplos em que esses rótulos são construídos somente por um lance, um jogo ou uma fase.

Quando os rótulos influenciam análises, isso cria inconsistências e contradições. É o que acontece em muitas opiniões sobre substituições que os técnicos fazem durante jogos de futebol.

No último sábado, Náutico e Corinthians empatavam por 1 a 1 em Recife. O jogo era válido pelo Campeonato Brasileiro e, aos 18 minutos do segundo tempo, o técnico Tite, comandante da equipe alvinegra, fez uma modificação: tirou Danilo e colocou Edenílson em campo.

“Ele tirou um meia e colocou um volante. Isso chamou o Náutico para o campo de defesa do Corinthians”. Vi e ouvi muitos comentários com conteúdo próximo disso.

No entanto, na comparação entre os dois atletas, Danilo tem médias superiores a Edenílson em desarmes (7,3 contra 4,1) e faltas cometidas (1,9 contra 0,4) no Campeonato Brasileiro de 2012. O que faz com que a alteração seja taxada de defensivista, então?

A resposta é o rótulo. Edenílson é rotulado como um volante, ainda que seja usado frequentemente na linha de três armadores. Danilo é tratado como um meia, a despeito de auxiliar o sistema de marcação, fechar espaços e se posicionar no comando do ataque em muitos momentos de algumas partidas.

Há casos ainda mais contundentes. Júlio Baptista foi tratado durante muitos anos como um brucutu ou um meio-campista defensivo, talvez pela imagem que construiu quando defendia o São Paulo. Ele precisou de muitas temporadas (e muitos gols) na Europa para derrubar um pouco esse estigma.

Cesc Fàbregas, do Barcelona, pode ser atacante, meia-atacante ou armador, mas o posicionamento em campo ainda importa pouco para quem o rotulou como um segundo volante.

Esse tipo de estigma pode disseminar análises totalmente distorcidas. Dizer que um técnico recuou o time apenas porque colocou mais um zagueiro em campo é recorrente, mas nem sempre condiz com a realidade.

No futebol, assim como na vida, não há pessoas com apenas uma faceta. Além disso, um time não se faz de características individuais. Colocar um marcador a mais não torna um time necessariamente mais cauteloso. Isso pode, por exemplo, dar mais liberdade para outros atletas. Ou até contribuir para adiantar a linha de marcação.

A postura de uma equipe é um conceito muito mais complexo do que um simples somatório entre o número de volantes, o número de zagueiros e o número de atacantes. E o comportamento dos atletas em campo também é muito mais complexo do que os nomes das funções que eles originalmente desempenham.

Isso aconteceu quando o técnico Mano Menezes decidiu fazer uma alteração na escalação da seleção brasileira entre os amistosos contra África do Sul (vitória por 1 a 0 no Morumbi) e China (triunfo por 8 a 0 no estádio Arruda). O comandante tirou da equipe o centroavante Leandro Damião e escalou Hulk como titular.

Até o início do jogo, quase todas as análises previam Hulk como centroavante. O atacante do Zenit, que costuma atuar aberto no lado direito do campo, era a opção mais lógica para a função. Afinal, é forte, alto e tem potencial de finalização.

O que se viu em campo, porém, foi Hulk aberto. Neymar, outro que tradicionalmente joga pelos lados, foi o jogador com mais presença de área entre os atacantes do Brasil.

Aliás, “atacantes” é outro rótulo muitas vezes desnecessário. Lucas, jogador do São Paulo, é um meia que atua aberto pelos lados e aparece muito na área adversária ou um atacante que ajuda na marcação e se aproxima muito da linha de meio-campistas?

O que determina se um time é ofensivo não é o número de atacantes. O que determina se um jogador é atacante não é a posição que aparece na ficha técnica. Como qualquer jogo, o futebol tem alternância constante de ações. Muitas vezes, a explicação para um lance é mais complexa do que os limites do jogo ou do plano tático. Em outras situações, procuramos detalhes ou minúcias para sustentar argumentos que são apenas teorias. É difícil sintetizar o acaso.

Sobre rótulos, está nos cinemas brasileiros uma análise muito pertinente e delicada. É o filme “Intocáveis”, dirigido por Olivier Nakache e Eric Toledano. Baseada em uma história real, a obra francesa acompanha a relação entre um ricaço tetraplégico e um rapaz contratado para tomar conta dele. Vale a pena notar o quanto o roteiro desconstrói as ideias feitas de um lado e de outro.

No filme, assim como na política e no futebol, nenhum personagem é puro. Toda análise tem de considerar diversos aspectos que a influenciam. Rotular empobrece.

Para interagir com o autor: guilherme.costa@universidadedofutebol.com.br

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Apagão

Primeiro, no domingo passado, uma demonstração arcaica de violência no futebol.

Uma adolescente, que ganharia uma camisa do ídolo Lucas, do São Paulo, foi achacada nas arquibancadas do estádio Couto Pereira. Pela própria torcida do Coritiba, equipe para a qual torce e que, infelizmente, perpetrou esse ato de selvageria gratuita e insana.

Houve até tentativa de se imputar culpa à vítima, alegando-se que fazer o que fez – pedir a camisa do adversário nas arquibancadas da sua própria torcida – acirra os ânimos de todos e impulsiona ao descontrole geral.

Mencionou-se também que Lucas foi imprudente ao lançar a camisa tricolor para uma torcedora coxa-branca.

Isso aconteceu em Curitiba, que se jacta ser uma cidade-modelo, de primeiro mundo, civilizada, limpa, educada e evoluída.

Será? Mas, no futebol, as coisas são diferentes de tudo, afirmariam alguns.

Será mesmo? Não.

Deveríamos promover um pedido de desculpas a todos aqueles que desejam e entendem que o futebol pode conviver sem violência. Levar mais valores positivos aos estádios.

Se os homens não conseguem, deveríamos nos render às mulheres e crianças. Imagine se a punição fosse para o gênero masculino: durante algumas rodadas, apenas mulheres e crianças poderiam frequentar os estádios.

Isso já aconteceu com grande êxito na Turquia. Após invasão de campo, o Fenerbahce resolveu “punir” a torcida violenta, abrindo os portões para que 40 mil mulheres e crianças com menos de 12 anos acompanhassem dada partida do campeonato local.

Basta comparar os comportamentos:

Violência e omissão:
 


 

Alegria e celebração:
 


 

Parte do problema e da falta de criatividade e iniciativa para transformar essa triste realidade do futebol nacional tem uma pequena representação sobre como se administra o esporte no episódio do “apagão” ocorrido no amistoso entre Brasil e Argentina:
 


 

Enquanto faltar visão – ou ela ficar distorcida, deturpada, por “apagões” morais e de gestão – o futebol nacional será uma sombra ideal projetada na caverna imaginada por Platão.

Lá fora, a realidade seguirá sendo cruel. E bem diferente.

E o desenvolvimento social pelo esporte, bem como o legado social do esporte, será apenas um tópico nos cadernos de encargos dos megaeventos.
 

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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Conclusões sobre infraestrutura e ações governamentais expostas durante o "Seminário de Seguridad en Escenarios Deportivos" (Quito/Equador)

Como mencionado na coluna da última semana, estive em Quito, no Equador, debatendo a segurança nos cenários esportivos.

Na última quinta-feira, realizei duas palestras. Uma pela manhã, sobre a infraestrutura dos estádios de futebol, e outra à tarde, sobre Governo, Segurança nos Estádios e Direito Comparado.

Na primeira intervenção destaquei a importância da infraestrutura nos cenários esportivos para brindar maior segurança aos torcedores.

Com base nas instruções da Fifa, no Relatório Taylor e nas Recomendações da Uefa, bem como nas experiências ruins que tem ocorrido ao longo da história ao longo do mundo e nos estudos realizados, conclui-se que a segurança pode ser alcançada como comodidade e respeito aos direitos do consumidor de eventos esportivos.

Recordei que a prioridade da Fifa é proporcionar segurança aos espectadores, princípio a ser seguido e superior à necessidade de faturamento.

Repassamos o caderno de encargos que a Fifa impõe para todos os cenários que recebam eventos esportivos. Trata-se de um manual bastante completo que trata além das questões do jogo de futebol, de transporte, logística, ecologia, segurança, comodidade, controle, etc; tudo focado no melhor funcionamento do cenário esportivo e do cuidado de todos os atores que participam do espetáculo.

Para trazer exemplos, foram trazidas recomendações para se analisar:

– Haver uma porta de entrada e uma de saída para cada mil pessoas. As portas de acesso e evacuação devem ser independentes e seu “hall” não pode ser compartido
– Contar como, no mínimo, para cada mil homens: três banheiros, seis mictórios e dois lavabos; e a cada mil mulheres: três banheiros e um lavabo
– Instalar assentos individuais e fixos com largura mínima de 50 cm e um encosto de 30 cm, e com separação de 85 cm entre a parte posterior do assento e o início do assento da fila imediatamente posterior
– Dispor de pontos de venda separadas das portas de acesso e que estejam disponíveis com antecedência mínima de 72 horas em, pelo menos, cinco pontos de venda espalhados pela cidade
– Dispor de sistema eletrônico para venda de ingressos e controle de acesso
– Em dia de partida, colocar dois filtros no perímetro do estádio. O primeiro mais distante, onde se realize um primeiro controle, com acesso exclusivo para dessoar com ingresso. Um segundo, com um controle mais cuidadoso de armas e objetos proibidos
– Contar com transporte público massivo que permita chegar às imediações do estádio
– Solicitar às autoridades locais manejo diferenciado do trânsito nas horas prévias dos espetáculos
– Promover a criação de unidade de polícia especializada no manejo de multidões em cenários esportivos
– Designar um médico, dois enfermeiros e uma ambulância a cada 10 mil pessoas presentes no estádio. Na medida do possível deve-se contar com heliporto para evacuação de feridos em caso de emergência
– Exigir dos organizadores a contratação de seguro para os espectadores

A exposição encerrou-se com a proposta de um princípio fundamental ampliado na segunda palestra e que foi complementado nas exposições de Catharine Ann Long -Premier League de Inglaterra- que é o paralelismo entre torcedor em um estádio e consumidor de outros serviços.

O organizador está obrigado a garantir respeito, comodidade, bons tratos aos seus clientes, pois, quem compra um ingresso o faz para viver uma festa e divertir-se.

Na segunda exposição destaquei que os governos nacionais e locais existem com o fim único de conferir bem-estar, segurança e comodidade aos cidadãos.

Ademais, a Constituição da República do Equador reconhece estes princípios pelo qual estão obrigados a gerar políticas e leis que assegurem tais ideais e também aos espetáculos esportivos.

Para deslinde, cita-se o Lord Taylor: “Há que humanizar e respeitar os torcedores, compartilhar as responsabilidades, criar a infraestrutura física e humana realmente capazes de receber multidões”.

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Uma palavra

“Uma vírgula muda tudo” era o slogan de uma campanha publicitária alusiva ao centenário de fundação da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

O material apresentava vários exemplos de como minúcias podem alterar radicalmente o significado de qualquer oração. Havia exemplos do quanto a pontuação podia atribuir valores (“23,4” ou “2,34”), instituir pausas (“Não, espere” ou “Não espere”) e até representar opiniões contraditórias (“Não queremos saber” ou “Não, queremos saber”).

Se o emprego da vírgula pode causar um estrago tão grande, usar uma palavra pressupõe responsabilidade ainda maior. Há muitos vocábulos cujas acepções são popularmente distorcidas. É o caso de “medíocre”, termo usado muitas vezes em contextos extremamente pejorativos, mas que significa “mediano”, “banal” ou “ordinário”.

A distorção semântica em torno da palavra “medíocre” veio à cabeça quando pululou na imprensa esportiva do Brasil o vocábulo “irrecuperável”.

O adjetivo foi usado pelo presidente do Santos Futebol Clube, Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro, em entrevista ao repórter Jamil Chade, de “O Estado de S. Paulo”. Em encontro na Suíça, o dirigente brasileiro foi interpelado pelo jornalista sobre a transferência do meia Paulo Henrique Ganso para o São Paulo.

“Vão ter de acompanhar com muito cuidado o jogador. Na minha opinião, o que ele tem é incurável”. Essa foi, ipsis litteris, a declaração de Luis Álvaro que o jornal paulistano publicou. Foi o suficiente para a condição física de Paulo Henrique Ganso ser dissecada em diferentes veículos de mídia.

Paulo Henrique Ganso, 23, chegou ao Santos em 2005, ainda nas categorias de base. No profissional, o meia tornou-se um dos alicerces do elenco que ergueu três taças do Campeonato Paulista (2010, 2011 e 2012), uma da Copa Kia do Brasil (2010) e uma da Copa Santander Libertadores (2011).

Canhoto, esguio e eficiente no passe, Ganso também chamou atenção por ter um estilo de jogo que atualmente é raro. Em poucos meses, passou a ser tratado como o favorito a vestir a camisa 10 da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2014.

A trajetória do meia, contudo, nunca teve consistência. Assim como a ascensão foi extremamente rápida, o bom momento físico e técnico foi efêmero.

Ganso sofreu uma intervenção cirúrgica no joelho – a segunda do atleta, que já havia sido operado quando ainda estava nas categorias de base. Todo o histórico de lesões virou lenha na fogueira que Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro iniciou com a entrevista a “O Estado de S. Paulo”.

Via site oficial do Santos, o presidente emitiu nota para desmentir o teor da declaração. “Gostaria de esclarecer de forma veemente que em nenhum momento afirmei que a contusão do atleta Paulo Henrique Ganso é incurável”, diz o texto de Luis Álvaro.

Não, nunca afirmou. Isso é axiomático. Dizer que “O que ele tem é incurável” é muito diferente de dizer que “a lesão dele é incurável”. Sabe a história de “uma vírgula muda tudo”?

A discussão que não apareceu é que as duas histórias podem ser verdadeiras. Luis Álvaro pode ter dito que a situação de Ganso é incurável, mas pode ter feito referência a algo muito mais amplo do que a condição física.

A saída de Ganso do Santos foi precedida por intenso desgaste. O grupo econômico DIS, que detém um percentual dos direitos do atleta, tinha um problema com a diretoria do clube alvinegro. A indefinição sobre o futuro do camisa 10 acirrou essa discussão a ponto de criar um ambiente hostil para o jogador.

Dizer que o ambiente hostil é apenas um reflexo disso, porém, seria um reducionismo complicado. O problema de Paulo Henrique Ganso sempre foi maior do que o físico, o técnico ou o emocional.
O grande drama dele é a comparação constante entre o que ele é hoje e o que ele tem potencial para ser. A frustração advinda desse choque é que pode ser realmente incurável.

Analisar sutilezas como essas é um dos trabalhos mais importantes para qualquer jornalista. Geneton Moraes Neto disse uma vez que a regra básica para uma entrevista é fazer a pergunta: “Por que esse cara quer me enganar?”. Não são raros os textos que comparam entrevistas e danças.

Mais importante do que a declaração de Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro sobre Paulo Henrique Ganso é o recado implícito.

Há vários subtextos possíveis, que vão desde um questionamento sistêmico sobre o rendimento do meia (como o que este texto apresenta, aliás) até um simples subterfúgio para amenizar a perda no elenco do Santos.

Limitar o debate à condição física é ficar apenas em uma camada de algo multidimensional. Quem mais perde com isso é o consumidor da notícia.

Para interagir com o autor: guilherme.costa@universidadedofutebol.com.br

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A visão sistêmica e o jogo

Aos leitores da Universidade do Futebol, minhas desculpas.

Não tenho conseguido cumprir pontualmente a produção dos textos. Cabeça de treinador é algo que só se conhece vivendo muito de perto. E às vezes ainda ficam faltando alguns pontos a se conectar. Mesmo assim, posso garantir que não deixarei de produzir algo, ainda que só para “encher o saco” de vocês.

A coluna atual vem dar complemento às duas anteriores: “O futebol total e o jogo brasileiro” e “O jogo e as táticas coletivas”.

Juntas, elas representam uma linha moderna de entendimento do jogo de futebol e uma forma diferente de se trabalhar e têm sido o norte das minhas ideias na atual fase profissional.

Conceber, construir, analisar e interferir no jogo de forma sistêmica!

O que seria isso?

É simples: o jogo só existe como jogo – dois times, de onze jogadores cada, que se opõem em uma área de aproximadamente 7.000 metros quadrados, 17 regras que regulam a sua dinâmica e com os pés sendo o instrumento principal de manejo da bola para a maioria dos seus participantes.

O produto disso é uma infinidade de circunstâncias táticas que o torna sui generis dentre os esportes em forma de jogo. Por isso também não há como entendê-lo por partes. Quando o dissecamos em setores e ou detalhes táticos, devemos fazê-lo com o cuidado de não perder a relação que as partes têm entre si e com o próprio jogo.

Parece óbvio dizer isso, mas os futebolistas em geral insistem em preponderar o método cartesiano para entender e trabalhar o jogo: depois juntam as ações e as partes, setores e ou estruturas, achando que vai se chegar ao entendimento do todo. Na verdade, é mais ou menos assim que acontece, mas não é bem assim.

Será que dá para entender? Vamos tentar explicar, mesmo porque será difícil quebrar paradigmas sem entender e aceitar o conhecimento da complexidade sistêmica.

Para começar, vamos empregar corretamente o significado do “juntar”, que na visão sistêmica existe como a ação de interagir partes indissociáveis que se transformam em um todo maior. Um jogo simplesmente emendado não é um jogo.

É sutil a diferença de interpretação do jogo entre as propostas moderna e a tradicional, mas, como toda sutileza, produz respostas incríveis. O jogo muda, o treino muda, a visão e a competência do treinador mudam. Trabalhar o jogo em todos os âmbitos sob a perspectiva da complexidade sistêmica é conceber o universo das táticas individuais, de grupo e coletivas como responsáveis mutuamente por quase todos os fenômenos de campo.

O que fazer, como fazer, quando fazer e por que fazer em ações individuais, de grupo e coletivas se completam no significado do jogo. Quando a gente entra nessa discussão, parecemos interpretar o cachorro “correndo atrás do próprio rabo”, e não vamos chegar a lugar algum.

É provável que até saia fumaça das nossas cabeças ao pensarmos sob a perspectiva sistêmica! Mas não quero complicar o entendimento do leitor.

Posso garantir que é plenamente viável e necessário traduzir para a realidade do futebol o conceito da complexidade sistêmica. Tudo se transforma como em passe de mágica em treinos na forma de jogos simples e inteligentes. Tenho exercitado isso há anos e a cada treino e jogo sempre descubro novidades interessantes.

Tem muita gente complicando sem necessidade a interpretação e o trabalho desta nova forma de pensar e construir o jogo de futebol.

Vamos aproximando aos poucos da “vaca fria”! Não há como entender esse jogo sem percebê-lo como um todo. Nessa visão, não existe “defesa fraca”, “meio-campo inexistente”, “ataque inoperante”. O máximo que podemos admitir é que “algumas peças” não estão conforme as necessidades do coletivo e ou funções táticas e, por isso, são passíveis de troca. Mas o jogo tem por obrigação, que apresentar uma dinâmica que segue princípios e usa as táticas, individuais, de grupo e coletivas, que o permita existir como jogo. As peças e/ou estruturas vivem indissociavelmente em função de um “sistema” denominado jogo.

O jogo pelo jogo, o jogo através do jogo! Entender e trabalhar o jogo pela dinâmica do próprio jogo! Este é o preceito básico da Periodização Tática, metodologia de treinos e concepção de jogo que está mexendo com a cabeça dos treinadores no mundo.

Grande maioria, dentre os técnicos de futebol, sabe intuitivamente do que se trata, mas não está consciente da sua complexidade e funcionalidade. Por isso não consegue manejá-la. É tudo muito mais simples do que parece. É só treinar jogando intencionalmente, desenvolvendo recursos táticos para o jogo da sua equipe.

Conceber e treinar taticamente o jogo não quer dizer desprezar valências técnicas, físicas e psicológicas. Mesmo por que o treino em forma de jogo tem “superpoderes” que tratam de desenvolver as plenitudes individuais e coletivas demandadas no próprio jogo. Ainda assim, concebo os ciclos de treinos no futebol perfeitamente capazes de absorver enfoques físicos, técnicos e psicológicos em suas sessões. Além dos táticos, é claro.

Um segredo importante da Periodização Tática como metodologia de treinos para os esportes coletivos é sempre usar os componentes táticos do jogo, ainda que como pano de fundo, em todas as sessões.

A escola brasileira precisa ir fundo nessa forma de conceber e treinar o jogo para resgatar a organização tática do seu estilo de jogar. De tanto valorizarmos o nosso talento em habilidades individuais no manejo da bola, nos esquecemos do próprio jogo. O jogo do toque de bola e ações coletivas se perdeu com a supervalorização do individual. E, ao contrário do que muita gente boa pensa, não adianta criticar e ou apenas pedir aos jogadores e treinadores que façam o jogo taticamente bem jogado.

Aprender as lições do Barcelona é entender os conceitos táticos que regem o seu jogo e transformá-los em forma de treinar e jogar considerando a complexidade sistêmica da sua dinâmica. Tudo contextualizado à realidade brasileira.

Já afirmei e o continuo fazendo: o jogo brasileiro tem condições de ser tão produtivo quanto o do Barcelona ou ainda melhor. Será preciso tempo e mudança radical nos procedimentos atuais de treino e concepção do jogo.

Valorizar o passe em detrimento do drible na maior parte das circunstâncias táticas do jogo é mudança que demanda competência e tempo na aplicação de conteúdos. E estamos falando apenas de um dos importantes conceitos táticos do jogo dos catalães.

Até a próxima resenha.

Para interagir com o autor: ricardo@universidadedofutebol.com.br

 

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Juiz no banco dos réus

Crise de organização, de criatividade técnica, de inovação tática, de formação. O estado moribundo também atinge a arbitragem.

Os árbitros têm sido protagonistas na maioria das rodadas do Campeonato Brasileiro de 2012. E, como a máxima do futebol, em minha opinião, se aplica perfeitamente, quando isso acontece é sinal de problema.

Empresto o título dessa coluna do jornal Zero Hora deste último domingo, que traz reportagem interessante sobre o tema, entrevistando árbitros brasileiros tarimbados.

Nela, as perguntas buscam encontrar causas e propor mudanças sobre a formação dos árbitros no país, a profissionalização da atividade, diferenças de estilos quando se apita fora do país, como na Taça Libertadores, o sorteio de árbitros.

Emito minhas opiniões específicas a respeito.

A profissionalização dos árbitros é mais do que bem-vinda. É necessária e já está atrasada em relação ao que se exigiu e se exige dos demais componentes da indústria do futebol.

A formação dos profissionais deve ser rigorosa e contínua. Obviamente que, para que seja atraente e justifique os investimentos, deve-se profissionalizar a atividade, para que a regularidade e qualidade da remuneração seduzam bons árbitros a ingressar nos quadros.

Não se pode considerar a arbitragem como algo secundário. Se assim for, os resultados dessa evolução exigida também serão, provavelmente, secundários.

Sobre o sorteio dos árbitros para os jogos, fui convencido, ao ler a reportagem, de que a imposição legal do Estatuto do Torcedor cria discrepância técnica ao tentar coibir manipulação e corrupção de resultados.

Isso pode acontecer com árbitros sorteados ou previamente escalados. E o Brasil é o único país que adota este procedimento.

Por fim, por que existem diferenças entre o estilo de apito dos árbitros brasileiros, no Brasil, e desses mesmos árbitros, nas competições internacionais?

Porque as circunstâncias são diferentes. Porque a cultura do futebol é diferente entre o Brasil e os demais países.

Como afirma Leonardo Gaciba, o desafio aqui é de ordem técnica. Os jogadores desafiam a arbitragem com simulacros, ludíbrios e desorientações. Inclusive má-fé e deslealdade.

Fora do Brasil, a dificuldade é de natureza disciplinar. Testar limites do árbitro para a violência e jogo duro, viril, truculento e, por vezes, desleal.

Não sei qual dos dois cenários é mais complexo.

Mas, como sou brasileiro, e vivi de forma diletante o futebol, dentro de campo – coisa que sigo fazendo – com maior ou menor grau de competitividade, prefiro analisar nossas circunstâncias do que jogar pedra nos vizinhos e hermanos.

Até no campeonato amador que disputo aqui, a animosidade e a agitação para com a arbitragem é excessiva.

E o excesso tem origem no comportamento dos jogadores que o disputam. Em geral, decorrente da falta de técnica, de condição física, e de sobra de frustrações acumuladas ao longo da semana.

Que não justificam o comportamento, embora expliquem por estarem amparados na condição humana.

Mas a condição humana também deveria levar, para dentro de campo, atitudes como à de Klose, que marcou um gol de mão, validado pelo juiz que, posteriormente, acatou o pedido do jogador para anulá-lo, num gesto de honestidade e caráter que vem desde fora do campo. Veja no link abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=HTfYDHFJwKg

A Lei de Gerson segue ecoando nas entranhas do futebol brasileiro e isso o impede de evoluir, rompendo com o que já não serve mais.

Além disso, a cultura da reclamação pura e simples, para se levar vantagem em detrimento da justiça e do bom senso representa, perigosamente, o que a sociedade brasileira, efetivamente, deseja para si.

Se o mesmo ímpeto fosse canalizado para protestos efervescentes nas ruas, como acontece na Espanha, contra a corrupção na política, tenho certeza que nosso futebol também estaria em outro estágio de civilidade e evolução.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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Banco de jogos – jogo 6

No jogo de futebol, algumas movimentações estão mais associadas à conservação da posse de bola do que a progressão ao alvo. Como o objetivo do jogo é fazer mais gols que o adversário, ações táticas mais agressivas, associadas à criação de superioridade numérica e aproximação da meta do oponente, são necessárias. Entre elas: a ultrapassagem, caracterizada pela progressão à frente da linha da bola, e a penetração, conceituada como a ocupação do espaço nas costas dos defensores.

Tais movimentações, capazes de gerar rupturas nas linhas de defesa, precisam ser treinadas se forem comportamentos esperados pelo treinador em seu Modelo de Jogo. Na sequência, um exemplo de treino que pode potencializar a ocorrência dessas ações.

Jogo Conceitual em Ambiente Específico de Ultrapassagem e Penetração

– Dimensões do campo oficial. ~ 100m x 70m;

– Campo dividido em 3 faixas horizontais (30, 40 e 30m);

– Demarcação de 2 linhas (tracejadas em azul), distantes 10 metros da linha do meio campo;

– Tempo de atividade, incluindo esforço e pausa, a critério da Comissão Técnica, em função dos objetivos desejados.

 


 

Plataforma de Jogo Equipe A (preta): 1-4-4-2 (duas linhas)
Plataforma de Jogo Equipe B (azul): 1-4-3-3



Regras do Jogo

1.Até a linha tracejada no campo defensivo são permitidos, no máximo, 2 toques na bola e passe somente pra frente;

2.Entre a linha tracejada defensiva e a linha 2 são permitidos, no máximo, 2 toques na bola;

3.Receber a bola de costas no campo de ataque e perder a posse de bola = 1 ponto para o adversário;

4.Receber um passe à frente da linha da bola a partir da linha 2, quando, no momento do passe o jogador que recebeu estava atrás da linha da bola = 1 ponto;

5.Receber um passe nas costas da linha de defesa adversária no campo de ataque = 1 ponto;

6.Receber a bola em situação de impedimento = 1 ponto para adversário;

7.Gol = 5 pontos;

8.Gol a partir de penetração ou ultrapassagem = 10 pontos

Assista aos vídeos com os exemplos de algumas regras:

Regra 4
 


 

O jogador número 2 da equipe preta recebe um passe do jogador número 11 e, antes do passe, encontrava-se atrás da linha da bola. Esta ação vale 1 ponto para a equipe preta.

Regras 3 e 5
 


 

O jogador número 11 da equipe preta recebe a bola de costas e o jogador número 4 da equipe azul recupera a posse de bola. Em seguida, após troca de passes, o jogador número 8 da equipe azul faz um passe nas costas do jogador número 6 da equipe preta e o jogador número 10 recebe a bola. Estas ações valem 2 ponto para a equipe azul.

Regra 8
 


 

Após a equipe preta ter pontuado (Regra 4), o jogador número 2 cruza para o jogador número 10, que faz o gol. Esta ação vale 10 pontos para a equipe preta.

Aguardo dúvidas, críticas e sugestões. Abraços e bons treinos!

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

Leia mais:
Banco de jogos – jogo 1
Banco de jogos – jogo 2
Banco de jogos – jogo 3
Banco de jogos – jogo 4
Banco de jogos – jogo 5

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Debates em Quito acerca da segurança nos estádios de futebol

O seminário tem por objetivo fomentar debates sobre a segurança em eventos esportivos e contará com a participação de jornalistas, empresários, diretores de clubes, torcedores e outros, para que, a experiência em cada uma das áreas do esporte, possa enriquecer o debate.

Nesta última quinta-feira foram proferidas palestras com participação dos convidados e, hoje [sexta], serão realizadas visitas a locais onde ocorrem os espetáculos esportivos em Quito, para conhecer in loco as necessidades para melhoria das condições.

Para o evento, além de mim, proferiu palestra a inglesa Ctharine Ann Long, diretora de serviços para os torcedores da Premier League (Head of Supporter Services at teh Premier League).

O mote para o evento foi a edição de uma Ordenanza (espécie de lei municipal) pelo Município de Quito fixando regramentos para a infraestrutura, acesso e segurança dos torcedores nos estádios da cidade.

Na primeira experiência da nova norma, durante a partida entre Equador e Bolívia, válida pelas Eliminatórias para o Mundial de 2014, não houve ocorrência de fatos violentos.

Por outro lado, a Associação Equatoriana de Futebol manifestou insatisfação em virtude da diminuição da capacidade do estádio.

Assim, durante o evento, na primeira palestra, apontei a importância da infraestrutura adequada nos estádios de futebol com fundamento nas recomendações da Fifa e da Uefa.

Depois, na segunda exposição, apontei as causas da violência, os principais pontos da legislação sul-americana, as experiências positivas de países europeus e, ao final, sugeri soluções para a violência nos estádios de futebol.

Nesta sexta, após a visita aos estádios de futebol da cidade, será redigida uma conclusão cujo conteúdo será objeto da coluna da próxima semana.

Diante de uma análise preliminar, constata-se a relevância acerca do debate do tema, eis que uma avaliação da legislação sul-americana demonstra que há muito o que evoluir, o que se pretende com este seminário promovido pelo município de Quito, que desde já parabenizo pela iniciativa.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br

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A Volkswagen e o patrocínio ao Neymar

Desde março deste ano, período em que foi assinado o contrato de patrocínio da Volkswagen ao atleta Neymar, a montadora alemã tem realizado ações de ativação estruturadas, com adequação à mensagem, e que apresentam continuidade, em um acordo de patrocínio que vai até 2016 (longo prazo).

A estratégia de associar a marca da empresa ao melhor atleta do futebol brasileiro e com maior evidência no país, principalmente em um período pré-Copa do Mundo no país do futebol, e promovendo ações relevantes para os consumidores, credencia a Volkswagen como um dos maiores patrocinadores esportivos do país.

Atualmente, o jogador participa de diversas campanhas publicitárias da marca, e usa modelos da Volkswagen no seu dia a dia. O modelo escolhido para o jogador promover foi o novo Gol, associando diretamente o produto da empresa com as características da modalidade patrocinada, bem como com a tarefa principal do jogador patrocinado em campo, mostrando a importância e a emoção do “Gol”.

Em uma das campanhas, o cenário escolhido para finalizar o comercial foi o Maracanã, estádio que está em obras para a Copa 2014. Neymar mostra que o primeiro gol do novo Maracanã é o da Volkswagen.

Além disso, a montadora é também patrocinadora da CBF e da seleção brasileira desde 2009. Esse conjunto de investimentos nas principais propriedades da plataforma futebol no Brasil faz com que a Volkswagen esteja presente na mente do consumidor com grande valor agregado.

Além da televisão, as campanhas estão sendo veiculadas em anúncios de revistas, nos aplicativos para Iphone e ações na internet, desta forma, integrando todas as mídias.

*Victor Lima é graduado em Ciência do Esporte pela UEL, e MBA em Gestão e Marketing Esportivo pela Trevisan Escola Superior de Negócios. Atualmente, é Co-Líder do Núcleo Futebol na BSB – Brunoro Sport Business.

Ele substituiu Geraldo Campestrini nas últimas três semanas na Universidade do Futebol, em virtude das férias do colunista.
 

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Bolas, laranja e gente

A proposta do presente espaço é fazer uma abordagem crítica e didática sobre o trabalho da mídia no futebol. Sem melindres ou adulações, a ideia é usar exemplos concretos para discutir conceitos de jornalismo esportivo e propor discussões que possam enriquecer o debate.

A história desta primeira coluna começa no dia 11 de setembro de 2012. O ex-jogador Paulo Cézar Caju, campeão do mundo com a seleção brasileira em 1970, publicou em seu blog no site do jornal O Estado de S. Paulo uma coluna intitulada “O fundo do poço se aproxima” (http://tinyurl.com/9xn585j).

No texto, Caju avalia o atual momento do futebol brasileiro a partir de diferentes aspectos. O colunista critica jogadores, árbitros, treinadores, dirigentes e até jornalistas.

“Por fim, ainda temos de aturar os analistas de computador, comentaristas que nunca chutaram uma laranja e ‘resolvem’ todos os problemas com uma arrogância irritante”, escreveu.

Criticar jornalistas é sempre uma seara intrincada. Poucas profissões lidam tanto com o ego. É extremamente difícil tomar partido em um grupo que vive de “publicar antes”, “apurar melhor”, “escrever com mais fluidez” ou coisas do tipo.

Jornalismo é competitivo por natureza, seja entre diferentes veículos ou mesmo no ambiente das redações, e incita posturas que muitas vezes resvalam até na arrogância.

Por isso, era de se esperar que Caju não ficasse incólume. A resposta mais célebre foi publicada no dia seguinte, no blog que o jornalista Leonardo Bertozzi mantém no site da ESPN (http://tinyurl.com/9etsdmz).

O post chamado “Sobre bolas e laranjas” tem um perfil muito mais emotivo do que a coluna de Caju. Bertozzi relata experiências pessoais como goleiro em campeonatos de escola e em jogos no condomínio. Também diz que brinca de chutar laranjas com a filha Laura, e usa tudo isso para falar sobre a relação que tem com o futebol.

A segunda coluna, até pelo tal perfil emocional e menos ranzinza, suscita empatia maior do que o texto inicial de Caju. Contudo, as duas publicações servem como mote para uma discussão um pouco mais abrangente: os requisitos inexoráveis para a formação de um jornalista esportivo.

O uso de ex-jogadores na crítica esportiva não é exclusividade do Brasil e nem do futebol. Aliás, não se trata sequer de uma prática recorrente apenas no esporte. No entretenimento, por exemplo, críticos são assiduamente rotulados como “cineastas frustrados”, “músicos frustrados” ou simplesmente “frustrados”.

Um dos grandes exemplos disso é a revista francesa “Cahiers du cinéma”, fundada na década de 1950. A publicação foi fundada por André Bazin, Jacques Doniol-Valcroze e Joseph-Marie Lo Duca, e posteriormente reuniu alguns dos principais nomes do cinema francês (François Truffaut, Claude Chabrol, Jean-Luc Godard e Eric Rohmer, só para citar alguns).

A revista chamou atenção por assumir posturas contundentes e por publicar críticas verborrágicas de gente que desejava mudar a cara do cinema. As análises pessimistas sobre a área eram oriundas de profissionais que estavam dispostos a provocar mudanças ou que militavam em busca de um modelo diferente.

O problema é quando a crítica é vazia, e isso leva a um primeiro ponto sobre a formação da crítica no esporte. Ataques à qualidade do jogo ou à qualidade do espetáculo são comuns – e muitas vezes pertinentes, diga-se –, mas não fazem sentido se forem simplesmente para tomar partido.

O também ex-jogador Tostão mantém uma coluna no jornal Folha de S.Paulo e lamenta frequentemente o atual nível técnico do futebol no Brasil. Mas usa isso como mote para falar sobre a formação de atletas e o trabalho de base que (não) é feito no país, e isso dá sentido à análise inicial.

Um jornalista precisa saber escrever. Parece redundante dizer isso, mas a proficiência no uso do idioma escrito é cada vez menos disseminada.

Um jornalista precisa saber fazer análises contextualizadas, que tentem perquirir determinado assunto e não reflitam apenas os gostos pessoais. Mesmo em espaços opinativos, um jornalista deve expor argumentos e embasar teorias. A opinião rasa não é relevante.

Isso nos leva a outro ponto: analisar demanda visão sistêmica. E visão sistêmica demanda entendimento. Isso não tem nada a ver com a vivência esportiva de quem produz o comentário.

Vivemos em um país de ranço tecnicista, que ainda ensina esporte com uma perspectiva militarizada e não fomenta o entendimento sobre o jogo. Independentemente da modalidade, o atleta baseia a eficiência em um misto de empirismo e instinto. É o famoso “fazer o certo sem saber por que fez”.

O atleta que não compreende o jogo pode até analisá-lo. Basta citar experiências e relacionar acontecimentos recentes com situações que ocorreram durante a carreira dele. Contudo, alguém que não sabe os meandros da modalidade não consegue colocar isso em perspectiva.

Isso mostra que a formação de analistas esportivos está intrinsecamente ligada à formação esportiva como um todo, e aqui eu não falo do alto nível competitivo. A visão sobre o jogo pode ser desenvolvida na escola ou no condomínio citados no texto de Leonardo Bertozzi.

Compreender o jogo, todavia, não é apenas saber como as peças se deslocam ou como os lances acontecem. O entendimento passa por algo básico, mas raro: notar que o esporte é feito de pessoas.

Pessoas são complexas, cheias de camadas e multidimensionais. Portanto, nenhuma análise é completa se não unir o viés técnico do esporte a um contexto pessoal.

Tostão escreveu certa vez que o comentarista ideal reuniria características diferentes de vários profissionais que estão na mídia esportiva brasileira atualmente.

Na minha opinião, o comentarista ideal teria de pinçar deles a visão técnica, o domínio do idioma e o entendimento do jogo. No entanto, só seria ideal se pudesse desenvolver também um conhecimento profundo sobre gente.

Para interagir com o autor: guilherme.costa@universidadedofutebol.com.br