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Riscos defensivos e o número de jogadores atrás da linha da bola

Existe uma ideia, quase um consenso, de que quando uma equipe de futebol está atacando, o número de jogadores que ela mantém atrás da linha da bola, pode definir o sucesso ou o fracasso de suas transições defensivas.

Em linhas gerais, o pensamento central é de que, mantendo um número maior de jogadores atrás da linha da bola, é possível, ao perder sua posse (da bola), correr menos riscos defensivos em um contra-ataque rápido, e até, recuperá-la mais rapidamente.

Ter mais jogadores na retaguarda da bola, porém, faz com que, necessariamente, menos jogadores estejam participando efetivamente do ataque da equipe.

A questão aqui é que com menos jogadores participando efetivamente do processo ofensivo, tanto o número de apoios absolutos, quanto as possibilidades de ação para retirar a bola de zonas de pressão (sem regredir no campo de jogo) diminuem.

Isso pode não ser um problema, se a dinâmica e movimentação criada pelo reduzido número de apoios absolutos compensar relativamente a menor quantidade de jogadores, aumentando o número de possibilidades de jogo, tanto na ocupação dos espaços (ou na indução do adversário a erros), quanto na vantagem nos confrontos 1vs1.

Há de se pensar, porém, se não seria vantajoso ter um grande número de jogadores à frente da bola, se esses forem capazes de aumentar exponencialmente o número de possibilidades de jogo dentro do processo ofensivo (sem perder minimamente os apoios de retaguarda).

Apesar de um quase consenso, de que aumentar o número de jogadores participando efetivamente dos ataques não significa aumentar as chances de que as sequências ofensivas de uma equipe resultem em finalização, proponho que relativizemos a questão.

Sob os óculos das teorias sistêmicas, ter mais, ou ter menos jogadores atrás, ou à frente da linha da bola, é apenas uma variável do problema; variável que, quando manipulada, traz a necessidade de compensações (que geram novos problemas, novas manipulações e, por fim, mais e novas compensações).

Quando o “risco” defensivo que se quer correr é o principal norteador do sistema, as decisões e os ajustes caminharão em certa direção. Se a orientação sistêmica for outra, outras também serão as decisões e os ajustes.

O fato é que o aumento ou a diminuição de riscos será sempre dependente das características dos jogadores e do tipo de jogo que pode ser construído a partir dessas características.

Posto isso, a capacidade de uma equipe em controlar o jogo sem que necessite de muitas compensações pode determinar a magnitude de seus riscos nas transições defensivas e definir as necessidades numéricas de jogadores atrás e à frente da linha da bola.

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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Sobre Naming Rights

Existe uma mística curiosa em torno da ideia do “naming rights” no Brasil. Por alguma razão, clubes tendem a acreditar que a venda dos direitos do nome de um estádio pode ser a plataforma principal de financiamento na obra. Não é. Nunca foi. Jamais será.

O conceito básico do “naming rights” é simples: um clube é popular e frequentemente aparece em diversos veículos midiáticos; como o clube manda seus jogos em um estádio, seu estádio também acaba aparecendo em muitos veículos; como uma empresa não pode normalmente comprar o nome de um clube, ela compra o nome do estádio, sendo que toda vez que o estádio aparecer na mídia, será o nome da empresa que estará sendo mencionado. Dessa forma, a empresa compra, na verdade, o direito de ter seu nome citado por incontáveis vezes em um determinado período de tempo.

Com estádios novos e mais modernos, porém, uma empresa pode acabar inserindo outros direitos na parceria, que vão além da simples troca de nomes. Ela normalmente vira dona de um dos principais camarotes do estádio, ganha uma quantidade razoável de ingressos para distribuir por jogo e pode usar as instalações do estádio para fins corporativos diversos, de simples reuniões a grandes convenções.

Tudo isso é muito bacana do ponto de vista mercadológico, uma vez que a parceria concilia interesses mútuos a partir do uso de uma boa quantidade de criatividade e inteligência. O problema é que para tudo isso dar certo, a coisa mais básica do processo tem que acontecer: os veículos midiáticos (e consequentemente o público que acompanha o esporte) precisam falar o nome da empresa.

Às vezes, isso fica um pouco complicado quando uma empresa compra os direitos sobre o nome de um estádio já existente, uma vez que é preciso um trabalho árduo para convencer as pessoas e as mídias a chamarem o estádio pelo novo nome. Para evitar isso, empresas tendem a buscar batizar estádios novos, que dessa forma não possuem outro nome qualquer.

Outras vezes, porém, alguns canais de mídia simplesmente se recusam a falar o nome da empresa, e chamam dão ao estádio um nome genérico. Isso acontece principalmente quando um determinado canal possui uma audiência dominante e pode se dar ao luxo de adotar essa postura sem se preocupar muito com eventuais retaliações dos donos do estádio. E esse, para o azar dos estádios, é o caso do mercado brasileiro, onde a Globo se dá ao luxo de cortar todas as asas possíveis da Red Bull, por exemplo.

Não existe uma explicação óbvia para imaginar que o “naming rights” é a salvação dos estádios brasileiros. Não existe sequer uma razão óbvia para acreditar que algum dos estádios novos do Brasil vai conseguir fechar um contrato de “naming rights” alto por um longo período de tempo.

Estudos sérios dão conta que empresas que pagam pelos “naming rights” dificilmente conseguem aumentar sua receita em um nível próximo ao investido na aquisição do nome. Isso nos EUA. No Brasil, em que ninguém vai falar o nome, imagine. Dos dez clubes mais ricos da Europa, só dois venderam o nome dos seus estádios. Na Copa do Mundo, a Fifa ignora o nome e manda tirar qualquer placa do estádio que não seja dos seus próprios patrocinadores.

Nesse cenário, não tem por que acreditar que o “naming rights” vai vingar no país. Tampouco que um estádio que usa ele como principal fonte de financiamento vai conseguir sair do papel.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br  

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Balanço entre o esporte e o capital

Caros amigos da Universidade do Futebol,

Recentemente o presidente da Fifa, Joseph Blatter, informou que a entidade máxima do futebol está estudando alterações nos regulamentos da Copa do Mundo para evitar excessivos empates nos jogos e a consequente monotonia e falta de gols para os espectadores.

Essa preocupação nos remete mais uma vez à discussão sobre a necessidade de os esportes, e no nosso caso do futebol, serem adequados para o seu melhor aproveitamento comercial e até que ponto essa adequação pode ser feita sem que os princípios fundamentais do esporte sejam colocados em um segundo plano.

Todos já sabemos que a Fifa sempre adotou uma postura conservadora com relação a eventuais mudanças no futebol. Sempre foi assim com relação à introdução de inovações tecnológicas na arbitragem, por exemplo. Nesse caso, para a Fifa, o erro humano da arbitragem faz parte da cultura do futebol, e, assim, não poderia deixar de existir.

Ocorre que, na última Copa do Mundo da África, erros capitais de arbitragem começam a prejudicar o espetáculo e a causar efetivos danos financeiros para diversas partes. É nessa medida que agora a Fifa já considera introduzir determinadas inovações de tecnologia para auxiliar e balizar a atividade dos árbitros.

No caso objeto desta coluna, inovações que visem aumentar a atratividade do jogo como ora divulgado pela Fifa, são, em nossa opinião, bem vindas. As constantes reduções na participação do goleiro no jogo são, por exemplo, algumas das iniciativas de sucesso para essa finalidade. No passado mais distante, a criação da disputa de pênaltis também veio nessa esteira, e também já faz parte integrante do espetáculo, sem que o futebol fosse radicalmente alterado.

O que não podemos aceitar é a pressão de patrocinadores e outras forças com grande poder financeiro no futebol para que algumas medidas que valorizem o espetáculo em termos financeiros altere as “cláusulas pétreas” do esporte.

Pequenos ajustes são sempre bem-vindos. Vivemos em uma sociedade dinâmica, e o esporte deve sim adequar-se para atender as demandas de cada época em que vivemos. E, ressalte-se, essa adequação é fundamental para que os investidores do futebol permaneçam interessados e continuem a garantir a viabilidade financeira do esporte.

Por outro lado, não podemos “vender” a integridade e a confiabilidade das competições de futebol, sem as quais o futebol não seria tão popular ao redor do mundo.

Encontrar a justa medida é difícil, mas necessária. E deve ser revista, caso a caso, sempre que houver a necessidade. Vamos aguardar as propostas concretas para alteração dos regulamentos da Copa do Mundo e torcer para que, se aprovadas, elas de fato viabilizem uma maior quantidade de gols por partidas e mais emoção aos jogos, que é o verdadeiro combustível dessa modalidade.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

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Quem são os stakeholders do futebol?

Saber quem se interessa pelos seus negócios e é afetado, direta ou indiretamente, pelas ações relativas à atividade econômica de um empreendimento é um dos passos fundamentais para o implemento de um posicionamento estratégico voltado para o mercado.

Os stakeholders são compreendidos pelos clientes, empregados (ou colaboradores), fornecedores, comunidade, investidores e outros de natureza análoga. São todos os agentes que de alguma maneira influenciam ou são influenciados pelas decisões de uma organização.

E a dúvida é: os clubes de futebol sabem quem são seu stakeholders? Quais são os clubes que possuem uma cultura alinhada e voltada para fora? Quais são os clubes que colocam na balança todas as hipóteses que acarretarão em melhorias para a sociedade em detrimento de uma tomada de decisão em nível gerencial?

Os negócios são compreendidos pelo relacionamento entre esses diversos grupos. O ambiente corporativo tem entendido muito bem tal premissa e aplicado na prática uma visão de fora para dentro, procurando adotar melhores práticas em benefício do todo, por um alinhamento bem estreito com os conceitos de responsabilidade social corporativa.

No caso dos clubes de futebol, os clientes são a gama de torcedores que consomem os produtos oferecidos pelo clube, seja em espécie (compra de ingressos, produtos licenciados e outros) ou mesmo o simples fato de acompanhar noticiários sobre o dia-a-dia da equipe e seus ídolos. Alimentar a paixão dessas pessoas não deixa de ser um papel importante dos clubes em um ambiente social.

Daí discorremos para os colaboradores, que são diretamente afetados por decisões e rumos de qualquer organização, valorizando-se neste quesito o componente da ética nos negócios e o cumprimento de pressupostos legais.

Os fornecedores, que fazem parte de uma cadeia grande de consumo e precisam receber em dia, como um exemplo bem simples daquilo que poderíamos tratar como elemento-chave neste relacionamento – o ciclo vicioso de inadimplência tem reflexo indireto em vários níveis sociais e econômicos de pessoas e empresas.

Investidores, que estão traduzidos no futebol pelos patrocinadores e demais parceiros comerciais, podem ter sua imagem arranhada ou glorificada em detrimento de conquistas e/ou derrotas de um clube, sendo ela alcançada dentro ou fora do campo de jogo.

Ignorar todos esses agentes ou boa parte deles pode ser um primeiro passo para a falência nos negócios. Trabalhar sob uma plataforma voltada para fora, sem aquele olhar míope de cuidar somente de seus problemas, tem se mostrado a melhor solução para as organizações e perfeitamente passível de aplicação no ambiente de negócios do futebol.

O desafio é: quem são os stakeholders de seu clube? Enumere, defina e aponte o canal de relacionamento entre o seu clube e eles para perceber até que ponto a organização está sendo um bom agente social.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

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São Paulo: sobre planejamento e troca de técnicos

Nas últimas semanas a discussão sobre a equipe do São Paulo foi intensa, muitos se perguntam o que teria acontecido com o clube mais planejador do país. A resposta mais simples que vi e que não deixa de ter sua verdade é que quando os resultados aparecem, o planejamento é bom, quando não, ainda que seja o mesmo, tudo foi por água abaixo, o planejamento não existiu.

O foco só no resultado absoluto de dois ou três jogos, ou mesmo de uma temporada única, não serve para avaliar um planejamento. Para aqueles que não concordam, basta olharmos os técnicos do Arsenal e do Manchester, as equipes não ganham todos os anos, e em alguns inclusive sofrem fortes decepções, inesperadas desclassificações em fases preliminares da copa dos campeões.

O São Paulo demitiu Muricy Ramalho, tricampeão brasileiro com o clube, com a justificativa das eliminações nas Libertadores de que disputou. Neste ano, Ricardo Gomes pagou pela eliminação na semifinal frente ao Internacional, que seria mais tarde campeão do torneio.

Enfim, se compararmos os últimos 5 anos das equipes mencionadas, acredito que possamos dar mais clareza a discussão.

O amigo poderia questionar minha crítica ao planejamento observando que o São Paulo mesmo com as trocas efetuadas, mantém um cenário de destaque, porém, o que gostaria de discutir, sem ficar na especulação de onde poderia ter chegado se tivesse mantido um determinado treinador, é justamente o perfil da relação clube-treinador no Brasil.

Existem temporadas que são de transição, para um elenco que vem de um período em alto nível competitivo é inevitável que se faça essa transição com a reformulação do elenco. Será que os técnicos brasileiros não conseguem fazer isso, ou os projetos não duram mais do que três anos porque é o prazo máximo no Brasil?

Sabemos que existe uma saturação entre o relacionamento técnico-atleta, porém a renovação pode ser feita paulatinamente, como o próprio São Paulo foi fazendo na era Muricy, ora mantinha a defesa, ora o meio ou o ataque, mas aos poucos havia uma renovação natural no elenco. O Corinthians vem na mesma perspectiva, basta ver que a escalação da equipe na serie B 2007 em relação à atual. Mudou, porém, paulatinamente, e na cabeça do torcedor e da imprensa é um time com a espinha dorsal mantida.

No Brasil, felizmente, alguns clubes já vem alongando a vida do técnico independente de resultados específicos de alguns jogos ou uma temporada, o Adilson Batista, hoje no Corinthians, ilustra isso com sua passagem longa (para os padrões brasileiros) no Cruzeiro.

A questão é perceber que a renovação de elenco não precisa passar necessariamente pela troca de técnico. Uma eliminação numa fase semifinal ou mesmo na final de uma Libertadores deve ser considerada como um resultado de fracasso? Chegar sempre nas fases decisivas de uma dessas competições é fracasso? Mesmo a oscilação que resulta numa eliminação precoce pode ser entendida se estiver alinhada com uma política de renovação mais forte no plantel, uma política de reconstrução do plantel.
Basta observamos que o quadro de resultados do São Paulo é muito similar ao do Arsenal e do Manchester, talvez o erro possa estar na obsessão que o título da Libertadores trás aos dirigentes brasileiros, que acaba por avaliar um trabalho como insuficiente com base na falta do título do torneio intercontinental.

Que nossos dirigentes, que já vem percebendo aos poucos a importância da manutenção de elencos e treinadores, comecem a perceber melhor o papel de suas equipes nos cenários nacionais e internacionais para e, a partir disso, avaliarem os cursos e percursos do planejamento da equipe.

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

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O treinamento técnico: da técnica ao jogador ou do jogador à técnica?

 Até pouco tempo atrás, quando participava de fóruns de discussão para debater sobre as novas perspectivas da preparação do futebolista, da base ao alto nível competitivo, uma das “barreiras” iniciais para se avançar em discussões, digamos, mais adiantadas, tratava da dimensão física do desempenho do jogador de futebol.

Para os possuidores de raízes mais profundas em um paradigma sustentado pelo conhecimento da preparação desportiva emergente na década de 1960, as propostas atuais, pautadas no desenvolvimento integral e total do jogador de futebol (a partir de meios e métodos integrais e complexos), sempre trouxeram à tona uma desconfiança sobre sua competência e efetividade para o desenvolvimento de capacidades físicas tidas como importantes para o bem jogar futebol.

Tal desconfiança ganhou força especialmente pela distorção feita por alguns treinadores e por alguns pesquisadores das Ciências do Desporto, sobre aquilo que o treinador português José Mourinho e seu inseparável adjunto Rui Faria vinham e vêm fazendo em grandes equipes da Europa.

O fato é que, após muitas e muitas mesas redondas, muitos e muitos debates, muitas avaliações fisiológicas, muitos jogadores formados e muitas vitórias, tanto a comunidade científica, quanto as grandes equipes do futebol mundial, se deram conta, de que a grande dúvida sobre aquilo que propõem as novas reflexões para a preparação do jogador, em busca da excelência, (com relação a sua capacidade de “condicionar fisicamente” o futebolista) estava sanada.

Porém, os caminhos para a sustentação de um novo paradigma, devem, para o bem comum, ser submetidos a uma diversidade de olhares e questões, para testar e atestar, suas possibilidades de contribuição para resolver problemas emergentes (e outros nem tanto).

Então, após quase findado o debate sobre a dimensão física, ganhou evidência aquele que diz respeito a dimensão técnica da preparação do jogador de futebol.

Pois é.

Hoje, nos mesmos fóruns, em que o debate sempre girou em torno de questões, digamos “físicas”, ganham, cada vez mais espaço, discussões que colocam à prova, a capacidade de meios e métodos de treinamento orientados pela complexidade, de promover o bom e melhor desenvolvimento da dimensão técnica daqueles que jogam.

Ora, ainda que seja saudável a discussão a respeito do tema, eu pergunto: de que “dimensão técnica”, se está a falar?

Daquela que é orientada por um “estereótipo” de gesto “perfeito”, em que se estabelece biomecanicamente o que é bom e o que não é, e se tenta “imitar” ou copiar? Ou daquela que é a expressão da autonomia e criatividade do indivíduo, para resolver problemas do jogo quando ele está ou não de posse da bola?

Se estivermos falando da primeira, em que a partir de uma “técnica perfeita” é construído o movimento do jogador, não gastemos tempo com argumentos; não os temos.

A técnica perfeita, ainda que alguns de meus amigos acadêmicos esbravejem, não é um desenho acabado, cheio de detalhes e verdades! Não é algo para ser copiado.

A técnica perfeita é aquela que se expressa circunstancialmente, de acordo com o problema, resolvendo-o.

Ela é individual, não é única para todos. Ela é aberta, não é fechada. Ela se manifesta, não é remotamente controlada. Ela não é gesto por gesto, é ação com significado.

Então se estivermos falando da segunda, não sei como pode ser mais óbvio, que a solução para o desenvolvimento de “habilidades técnicas” de um jogador em jogo, seja sua requisição, manifestação e expressão, no próprio jogo.

A “habilidade técnica”, que se expressa no jogo, melhora e se desenvolve perfeitamente quando se treina de maneira integrada e complexa.

Então, que tal esquecermos, de uma vez por todas, a padronização de gestos. Vamos investir em autonomia, em criatividade, enfim, em liberdade!

Para terminar hoje, trago em seguida, um trecho de um texto, que para os desavisados, pode parecer não ter nada a ver com futebol. Mas se tem a ver com a vida, tem a ver com o futebol, então de tão belo e didático, mesmo para os desavisados, digo que vale muito a leitura.

É o trecho de um texto do professor João Batista Freire, publicado por ele em seu blog.

Transportá-lo ao ensino e aperfeiçoamento no futebol? Esse é um dos exercícios…

“Para mim, o que decide os destinos de um povo, é a educação, para o bem ou para o mal, e em todas as circunstâncias em que ela pode acontecer. Uma pessoa se educa sozinha, por exemplo, quando uma criança brinca desacompanhada, se educa em família, se educa no quartel, na igreja, na escola, em contato com a natureza, vendo televisão, assistindo filmes, etc. Creio que os principais veículos de educação são a família, os meios de comunicação e a escola. A escola é a que reúne o sistema mais formal de educação. E para que nos educamos tanto? É porque a maior parte do que precisamos saber para viver não nasce com a gente, é preciso ser aprendido. De modo que podemos dizer que nos educamos para a vida. Ou seja, não aprendemos História ou Geografia para saber História ou Geografia apenas, mas para ampliar nossas chances na vida. Em princípio, saber viver poderia significar, por exemplo, eliminar animais, árvores e pessoas; muita gente faz isso. Acontece que os humanos são animais fisicamente frágeis; precisam do outro e da natureza para se manter. Portanto, não vale tudo, não vale eliminar o outro, não vale eliminar a natureza. Ser solidário é uma condição de vida. Ser caridoso, ser social, são requisitos básicos para viver. Tudo isso remete para a ideia de que a educação deve ser focada no princípio de aprender a viver, mas a viver eticamente”.

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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O futebol como Ciência ou o fenômeno Sporting

Na edição do jornal “A Bola”, do último dia 27 de Fevereiro, o jornalista e escritor Vítor Serpa levantava a interrogação seguinte: “Que ciência pode afinal vir explicar o último jogo europeu do Sporting?”. E continua: “Uma equipa aparentemente esfrangalhada, sem vestígios de autoestima, acossada por cães de fila sedentos de protagonismo (…), ressurge das cinzas, como fénix e explode numa festa de energia e de luminosidade exibicional, carregando com três festejados golos o peso de incredulidade inglesa”. Mas voltemos à questão que é a matriz deste oportuníssimo artigo: qual a ciência que pode explicar a exibição do Sporting, em Lisboa, diante do Everton?

Venho dizendo, há mais de trinta anos, que o desporto só como ciência social e humana se poderá entender e que portanto analisar a prática desportiva não se confunde com o determinismo e com as certezas do treino e da ciência, positivistas e tradicionais. No desporto (como no mais), o simples é aparência, o fundo do real é complexo. Com efeito, da termodinâmica à teoria da informação, da microfísica à biofísica, da informação à ciência das redes – a complexidade é o grande signo da nossa cultura e… a denúncia do logro que é o simples, a ordem, a lei, a certeza! Só a desordem, o acaso, o singular são processos genésicos, isto é, organizações nascituras.

Por isso, o treino há-de percepcionar-se como o uno em si mesmo múltiplo. Treinar não é só concretizar o que vem nos livros de técnica e táctica dos jogos desportivos (o simples), mas descobrir a dialéctica entre as chamadas “leis do treino” e a complexidade que é cada um dos jogadores que as interpretam. As leis surgem com uma exactidão deslumbrante. Ora, tudo o que é muito exacto não é humano e está errado.

O Vítor Serpa, um homem culto (eu tenho razões, para dizer do director deste jornal, isto e muito mais), percebeu, facilmente, que o problema dos “leões” não se resume a “um”, porque são “muitos” os problemas e é porque são “muitos” e em rede que o fenômeno Sporting é também desordem, caos, incerteza. Como escreve Lyotard, a ciência pós-moderna (actual, portanto) não passa do anti-modelo de uma ciência estável. Os “torcedores” (quem torce retorce e distorce), diante da desordem em que o futebol se manifesta e porque a desordem os confunde, descambam em atitudes demasiado emocionais, normalmente ao ritmo da mentira veemente, dos “slogans”, do oportunismo do instante de certas pessoas, com lugar de relevo na Comunicação Social.

O Marx tinha razão: “a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante”. Os treinadores sabem também que o futebol é desordem, no meio de toda a ordem inicial. Dutante um jogo, há por vezes a sensação que está por descobrir a ciência que o explica. Só que eles não desconhecem, como Aragon, que “a experiência nunca é transmissível; apenas o dogmatismo o é”. E dogmáticos só o podem ser alguns tontos cuja audiência está na razão directa da precariedade social, da perda de senso e de frustrações recalcadas. Por isso, as “massas associativas” os escutam, com tamanho deleite. O abrigo no irracional não exige muito esforço: basta não pensar!

Estou certo que, com José Eduardo Bettencourt, atual presidente do Sporting Clube de Portugal, pode desenhar-se, com nitidez, um novo Sporting e, portanto, com homens novos, capazes de aceitar, decifrar e dominar o incerto, ou seja, capazes de descobrir na desordem a necessidade de uma ordem nova.


 

Os cientistas de superior perfil, os mais notáveis dirigentes nunca o foram por obra exclusiva da razão, mas pela aventura da imaginação. Diria o mesmo dos treinadores mais conhecidos, como o sportinguista Mário Moniz Pereira, grande entre os grandes treinadores de atletismo que eu conheci.

Creio que foi o Francisco Varela a escrever que, antes da nossa consciência, está a inconsciência da nossa consciência. Que o mesmo é dizer, neste caso: antes da organização, está o sportinguismo; antes da causalidade, que se explica, está a “caosalidade”, que se compreende e donde brota a estrutura do sagrado e do numinoso. É verdade: nem tudo se explica. Só a morte é racionalidade total. Mas tudo se pode compreender, quando se tem o sentido do que se faz.

Qual o sentido último do Sporting Clube de Portugal? Que o digam os sportinguistas! E os “pseudocientíficos analistas da coisa da bola” não tentem explicar tudo. Porque não o podem fazer. Os golos, sim, esses é que explicam e justificam… tudo!


*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.

Esse texto foi mantido em seu formato original, escrito na língua portuguesa, de Portugal

Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br

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Arena sustentável do Corinthians

O previsível desfecho de ter o Estádio do Corinthians como sede da Copa em 2014 se concretizou nesta semana. A cronologia é interessante: eleições atribuladas no Clube dos 13; Andrés Sanchez como chefe de delegação da Seleção Brasileira na Copa da África; Geróme Valcke, secretário geral da FIFA, a afirmar ainda na África que o Morumbi estava fora em definitivo; as inúmeras conjecturas de espaços e ideias mirabolantes para uma arena em São Paulo até… chegar no tão sonhado Estádio do Timão.

Destarte as negociações de bastidores – que, aliás, são normais e não precisam ser vistas apenas como algo negativo. O lobby político faz parte de qualquer negócio e não poderia ser diferente no futebol, com ressalvas apenas para aqueles casos em que são utilizados artifícios antiéticos, ilegais, práticas de suborno e tantos outros mecanismos de corrupção.

Falando especificamente sobre o projeto do estádio, que ainda apresenta muitas indefinições, começo destacando o comentarista da ESPN, Paulo Vinícius Coelho (PVC), que pontuou muito bem na noite de segunda (30-ago, no programa Linha de Passe) e também em seu blog ao abordar a área em Itaquera, que foi doada ao Corinthians pelo então governo em 1978. Passados 32 anos, finalmente ocorre esse desfecho e, pelas palavras do próprio PVC, será que podemos acreditar no projeto agora?

O questionamento tem reflexo direto na falta de um plano. Deveríamos imaginar que o planejamento urbano, as instalações e a operacionalização da arena de forma sustentável está próxima da perfeição, tendo todo esse tempo para pensar, analisar, promover estudos de impacto social e ambiental, fazer benchmarking etc.

O problema que nossa cultura latina tem dificuldades enormes em projetar algo com tamanha antecedência e é por isso que, há menos de 4 anos da Copa, ainda não sabemos onde será o jogo de abertura da mesma.

Outro ponto que preocupa tem reflexo também na cultura das pessoas, em particular no Brasil e a relação com o futebol. A taxa de ocupação nos jogos do Corinthians no Estádio do Pacaembu neste Campeonato Brasileiro beira a casa dos 63% (é a melhor entre os 20 clubes da Série A). A média de público chega a 24.200 pessoas (2ª melhor), em um Estádio com capacidade para 37.950 espectadores – no ano passado o Corinthians recebeu em média 20.213 fiéis torcedores, comportamento este que se repetiu nos últimos anos, só superado pelo ano vitorioso de 2005, com média na casa dos 27 mil, mas que caiu vertiginosamente em temporadas de performance esportiva ruim, segundo estatísticas apresentadas no site da CBF.

A dúvida é: será que o torcedor brasileiro tem sensibilidade e irá a um estádio de futebol a partir do momento que possui uma arena de jogos moderna, confortável e segura? Os clubes possuem um plano de marketing que desvincule os resultados esportivos da percepção direta do consumidor e interesse pelo espetáculo, como plataforma de lazer?

Temos que lembrar que o custo de manutenção de uma praça esportiva, de acordo com especialistas, chega a 10% ao ano do valor investido no espaço. Estamos falando de cerca de R$ 35 mi por ano a partir da construção do Estádio, ou seja, aproximadamente 20% do faturamento do clube, utilizando números atuais.

Por isso, vejo como insana a ideia de fazer um espaço fixo para 65 mil pessoas e, em contrapartida, me parece plausível a ideia de 45 mil lugares (ou 48.800, com tem sido noticiado) pelos números apresentados acima.

O exemplo do Estádio Olímpico de Londres é fantástico: durante os Jogos Olímpicos serão 80.000 lugares, que prontamente se transformarão em uma arena para 25 mil pessoas logo após o evento, sendo que parte da arquibancada utilizada será redirecionada a outras praças esportivas, multiplicando o legado e fazendo chegar o esporte à população.

Para pensar em alternativas para rentabilização dos espaços, de maneira sustentada, eu não tenho dúvidas que o Corinthians possui e poderá contratar os melhores profissionais. A questão é o tempo atrelado ao projeto urbano e arquitetônico, que deve estar diretamente ligado e em constante relacionamento com a inteligência de marketing desde a sua concepção.
Mas o que nos deixa mais tranquilos, citando Oliver Seitz em sua coluna semanal aqui na Universidade do Futebol, é que, a priori, apesar do financiamento público, o investimento é totalmente privado – e isso é um grande alento.

Por fim, parabenizo o Corinthians pelos seus 100 anos de glórias e pela conquista da tão sonhada arena. Que o espaço traga boas energias, muitas alegrias à imensa torcida do clube e, principalmente, excelentes ações de marketing, com um modelo sustentável de gestão profissional e rentável no uso e exploração comercial de instalações esportivas.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

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Porque o futebol não gosta de mudança?

Olá amigos,

Hoje quero discutir com vocês algo que já comentamos em diversas situações: a dificuldade das pessoas, ou seria da instituição chamada futebol, em aceitar e lidar com as mudanças e com o novo.

Falamos essencialmente sobre a adoção da tecnologia na arbitragem, sobre a utilização destes recursos por parte de técnicos e dirigentes como ferramentas auxiliares. Refletimos ainda sobre tal receio ser observado não só com os recursos tecnológicos, mas com tudo que é novo em termos de processo e ações diferenciadas.

Comentamos ser, até certo ponto, natural do ser humano o medo de lidar com o desconhecido, como primeira reação antes de uma adaptação com ambientação e controle do novo. Mencionamos esse fato com o exemplo do dentista incorporado a seleção de 58 por Paulo Machado, que foi alvo de inúmeras críticas e hoje é reverenciado como o Marechal da Vitória, destacando dentre suas ações ter percebido a importância do tratamento das infecções dentárias dos jogadores para o desempenho naquela época.

Enfim falamos sobre o processo digestivo do impacto tecnológico, utilizando a expressão de Lima para compreender que é necessário um tempo para se digerir e acostumar com o novo.

Porém, o que observamos é que o mundo do futebol insiste em ir na contra-mão de todos os segmentos. E que me desculpem os mais conservadores, isso não é romantismo, isso é atraso.

Utilizo como referência o técnico interino Sergio Baresi do São Paulo. Na semana que vem farei novamente uma reflexão tendo como base o São Paulo, focando a questão de planejamento e troca de técnicos.

Em meio a todo o turbilhão que vive a equipe paulista, Sergio Baresi assumiu interinamente com a perspectiva e esperança que pudesse fazer o que Jorginho fez no Palmeiras na saída de Luxemburgo, e o que Andrade fez com Flamengo: se der certo vai ficando.

Porém, Sergio Baresi representa, comparando o que existe no mundo do futebol hoje, o novo. E como tudo que é novo, sofre com o impacto digestivo. E pior, não só dos costumeiros críticos de carteirinha, sofre críticas dos mais diversos segmentos, de dirigentes, de imprensa e dos próprios jogadores, pasmem.

Ilustram essas críticas, manchetes e reportagens que relatam que o técnico quis inventar num determinado jogo, um jogador que fala que demorou o treino inteiro para entender o que o técnico pedia, um dirigente que apóia sem apoiar. Enfim, na emergência recorre-se ao novo, porém, sem dar espaço para que ele possa desenvolver suas idéias, porque corre-se o risco do novo “contaminar” a estrutura velha e precária do futebol.

É assim com Baresi, é assim com a tecnologia, é assim com qualquer processo que traga inovação para o futebol, porque como diriam alguns: “processo é coisa de advogado e não do futebol.” Que os novos processos incorporados à prática e gestão do futebol possam inocentar-me.

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

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Clube de futebol falido

A expressão “clube de futebol falido” vem perseguindo o ideário deste esporte há muito tempo no Brasil.

Talvez o seu clube do coração já tenha padecido deste rótulo outrora.

Nesta semana, um deles foi à falência. Não legalmente, de direito, como se costuma dizer.

Mas de fato.

O Moto Club, de São Luís, no Maranhão, fundado em 1937, decretou o encerramento das atividades.

O clube venceu 24 campeonatos estaduais, mas já vinha sofrendo dificuldades financeiras e esportivas, confusões com a Federação de Futebol do Maranhão, o que o conduziu ao rebaixamento para a 2ª divisão estadual em 2009.

Atualmente, qualquer 2ª divisão estadual é uma penúria para os clubes…

Juridicamente, a falência decorre de um processo judicial de arrecadação dos bens do falido e verificação do passivo deixado pela empresa, tendo como finalidade o pagamento de credores e apuração de eventuais crimes falimentares.

Neste caso, foi mais uma declaração de autofalência proposta pelo clube do que algo perpetrado por terceiro.

Acredito que, realmente, a situação do clube deveria estar irreversível.

Na atividade econômica privada e com fins lucrativos, normalmente, antes da falência, tenta-se salvar a empresa e tudo aquilo que dela depende com um período antigamente chamado de concordata.

A concordata foi substituída pelos conceitos de recuperação judicial ou extrajudicial. São termos que expressam melhor o instituto jurídico que visa prolongar a existência de um empreendimento, beneficiando credores e trabalhadores, segundo parâmetros de saneamento legal-financeiro da gestão.

Seria benvinda uma força-tarefa, no futebol brasileiro, capaz de mapear e indicar soluções para a sustentabilidade da indústria, baseadas numa matriz de gestão, jurídica, financeira, econômica e de marketing.

À exceção de raros clubes e de raríssimas federações e, principalmente, da CBF, muita coisa chegaria à autofalência ou à declaração de falência, sem sequer ter fôlego para um processo de recuperação.

Triste, mas verdadeiro, pois o mercado do futebol no Brasil é demasiadamente saturado.

Mercados saturados costumam ter concentração de negócios visando à eficiência, ganhos de escala e sustentabilidade. Fusões e aquisições costumam ocorrer naturalmente entre empresas.

No futebol, fica quase impossível imaginar.

Difícil supor que o Moto Club fosse incorporado por ou fundido com o Sampaio Corrêa para se tornar uma força do futebol regional.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br