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Problemas daqui e problemas de lá

Tudo aconteceu no último fim de semana: na Europa, a Europol desmantelou um esquema de manipulação de resultados em diferentes competições de futebol; nos Estados Unidos, uma queda de energia paralisou durante mais de 30 minutos o Super Bowl, jogo que decide a liga profissional de futebol americano (NFL); no Brasil, falta de água corroborou uma extensa lista de defeitos do reformado Mineirão, reinaugurado no domingo. Independentemente de lugar, perfil ou proporção, todo evento é suscetível a contratempos.

O que diferencia as realidades (e as consequências delas, obviamente) é como os responsáveis se comportam. Problemas acontecem, mas uma comunicação eficiente pode evitar que eles reverberem.

No Super Bowl, por exemplo, o serviço de comunicação do estádio em Nova Orleans deu constantes satisfações sobre a queda de energia. Foram 36 minutos de paralisação, mas ninguém que estava no local ficou abandonado ou desinformado.

O público em casa, que via pela TV o duelo entre San Francisco 49ers e Baltimore Ravens, também recebeu constantes informações sobre o prazo até o jogo ser retomado. Ainda assim, houve vaias no estádio e críticas fora dele.

Na manhã de segunda-feira, Eric Grubman,vice-presidente de negócios e operações da NFL, concedeu entrevista coletiva para falar sobre o Super Bowl. E o apagão, é claro, foi um dos principais temas. "Nós fomos rápidos para determinar que não era algo definitivo e que seria possível arrumar o problema em pouco tempo", minimizou o dirigente.

O roteiro no Brasil foi bem diferente. Atlético-MG e Cruzeiro disputaram clássico no Mineirão, estádio que foi reaberto depois de reforma para receber a Copa das Confederações de 2013 e a Copa do Mundo de 2014. Houve enorme confusão na venda de ingressos, e o equipamento estava claramente inacabado. Além dos problemas comuns em um primeiro evento, houve um aspecto mais grave: faltou água em banheiros e bebedouros.

A reação imediata foi uma multa à concessionária Minas Arena, empresa criada para gerir o novo Mineirão. Mas não houve, antes, durante ou depois do jogo, uma comunicação voltada a minimizar as críticas. Não houve sequer um pedido de desculpas aos torcedores que foram maltratados no estádio reformado.

O caminho na Europa é ainda mais moroso. A Europol desmontou um esquema de manipulação de resultados em jogos oficiais de futebol, mas isso ainda não gerou comoção. A investigação já citou mais de 300 jogos, mas há uma crença de que a crise pode ser maior e mais abrangente.

Não há nada mais importante para comunicação do que planejamento. É importante que os responsáveis por um evento tentem prever problemas, falhas e erros. É importante que eles estejam preparados para isso. Mas quando as coisas fogem do script é que o talento desses profissionais é realmente testado.

Isso não vale apenas para o esporte, evidentemente. No entanto, o esporte tem um componente diferente de outras searas. Por ser mais emocional e mais passional, o segmento acompanha reações bem mais exacerbadas. A repercussão é maior.

Os exemplos do último fim de semana são extremos, mas não é preciso chegar a isso. Qualquer crise ou sequência de resultados negativos oferece no esporte a chance de uma comunicação que contenha crises. Para isso, é fundamental seguir o roteiro do Super Bowl: blindagem, informações com perfil oficial, satisfação ao cliente e respostas contemporizadoras.

E por falar de futebol americano, um jogador da NFL deu uma aula de como usar a mídia para consolidar idolatrias. A história foi protagonizada por JJ Watt, que defende o Houston Texans.

Tudo começou com uma garotinha, em um vídeo que os pais dela publicaram no Youtube. A menina diz que gostaria de ter 25 anos, e a mãe pergunta por quê. Ela responde que quer se casar com Watt.

O vídeo repercutiu e chegou ao jogador dos Texans, que resolveu responder. Watt pediu ajuda nas redes sociais para localizar a garota. Na última semana, encontrou-se com ela e a pediu em casamento "de mentirinha", com direito a flores e anel.

Nos maus e nos bons momentos, a comunicação eficiente depende de uma dose alta de preocupação com quem está do outro lado. Watt não seria menos ídolo da garotinha se tivesse ficado calado, mas tornou-se ainda mais importante para ela por ter respondido de forma tão carinhosa.

Oportunidades aparecem constantemente para quem trabalha em comunicação. Para quem tem capacidade de improviso e competência, até uma crise pode ser motivo para se aproximar do público.

Afinal, quando manifesta amor ou quando vaia uma queda de energia, o público é a verdadeira razão de o esporte existir.

Para interagir com o autor: guilherme.costa@universidadedofutebol.com.br

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Futebol e dialética

Leio, ainda, sem tê-lo finalizado, a biografia “The King of the World”, sobre Muhammad Ali.

Em português, encontra-se a versão “O Rei do Mundo”.

Escrito pelo ganhador do Prêmio Pulitzer nos EUA, David Remnick, o livro busca abordar a importância de Ali como grande ícone social, cultural, político e, obviamente, esportivo, no país.

Mais do que se preocupar com situações comezinhas da vida do lutador, conhecido como The Greatest (“O Maior”), a narrativa desconstrói o papel dos boxeadores na sociedade, o racismo, luta pelos direitos civis, suas relações com a máfia que controlava o esporte, e o protagonismo de Ali, como representante de transformações a partir de sua carreira profissional vitoriosa.

E o autor adotou um caminho muito interessante para alcançar esse desafio.

Inicia o livro descrevendo os dois grandes lutadores que antecederam Ali como número dos Pesos-Pesados do boxe mundial: Sonny Liston e Floy Patterson.

Sonny cumpria o papel de o “Negro Bom”. Essencialmente, isso significava que era tido como bom moço pela opinião pública; que ascendera socialmente através do esporte; que não se envolvia em polêmicas dentro ou fora dos ringues; que não contestava esse papel, pois com ele se conformava.

Já Patterson era o “Negro Mau”. Infância e juventude turbulentas; problemas e desajustes familiares; delitos como agressão, porte ilegal de armas; perfil agressivo com a imprensa; revoltado com a sociedade que lhe criara dessa maneira; envolvimento umbilical com a máfia que controlava o esporte.

Um deles poderia ser a tese do que se deveria esperar de um boxeador na teia social. O outro, a antítese, não apenas no aspecto moral, mas como grande diferença que havia em comparação ao seu par.

E Ali surge para ser a síntese dos dois lutadores, transcendendo a figura de cada um deles para se tornar o maior.

Consciente de sua influência, ele foi contestador das desigualdades e dificuldades sociais, raciais e religiosas nos EUA; combativo politicamente, particularmente ao defender a luta pelos direitos civis; provocador dos seus adversários; domador da imprensa enlatada que cobria o esporte à época; desafiador do Estado que lhe queria impor o serviço militar no Vietnã; insurreto junto à máfia.

Jamais se curvou perante alguém. Defendeu ativamente seus pontos de vista, suas decisões e suas ações.

Esse foi seu grande e inspirador legado, já há algum tempo muito bem administrado e compartilhado pelo Ali Center, fundação em Louisville, Kentucky.

Resumidamente, a transcendência representada por Ali, em sua trajetória, pode ser bem compreendida pelos “seis princípios básicos para inspirar jovens e adultos para alcançar a grandeza em suas vidas, comunidades e países”:

1. Confiança: acreditar em si, em suas habilidades e em seu futuro;

2. Convicção
: firme crença que lhe dá coragem para sustentá-la, apesar da pressão para fazer o contrário;

3. Dedicação
: o ato de devotar toda energia, esforço e habilidade para determinada tarefa;

4. Doação
: agir voluntariamente sem esperar nada em troca;

5. Respeito
: estima, ou senso de valor e excelência, por si e pelos outros;

6. Espiritualidade
: senso de veneração, reverência e paz interior, inspirado por uma ligação com toda a criação e/ou com aquilo que é maior que a si mesmo.

Convido a uma reflexão a respeito do que poderíamos extrair como exemplo, ou, até mesmo, criar, construir, em nosso futebol.

Penso que o ponto de partida seria seguir tentando chamar a atenção, criticamente, para o importante papel do futebol como meio de transformação social no Brasil e no mundo.

A partir disso, construir teses que, por sua vez, provocariam o surgimento de antíteses, sintetizando a evolução social. Que se converteriam em novas teses.

Num contínuo processo dialético em que o futebol seria protagonista.

Já passamos por períodos “bons” e períodos “maus”.

Podemos começar a imaginar um cenário que os transcenda.
 

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

 

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A formação, o futsal e a especificidade

Dia após dia, a discussão sobre a formação de atletas no Brasil vem ganhando força. Do viés administrativo, relacionado à necessidade de investimentos de infraestrutura e aperfeiçoamento gerencial, ao técnico, correspondente à qualificação do corpo técnico e consequente evolução dos métodos de treino, é nítida a movimentação de pessoas, clubes e instituições que buscam e aplicam novos processos no futebol de base.

Diante deste cenário (que não será modificado mesmo com exemplos recentes de incompetência), dentre os inúmeros temas, um sempre gera calorosas discussões: a importância do futsal na formação de atletas.

A corrente de profissionais que defende a prática deste esporte nas idades iniciais da formação, entre 11 e 15 anos, é vasta. Como argumentos a favor da modalidade, referem-se à grande quantidade de ações com bola devido ao menor número de jogadores que o futebol de campo, a necessidade da tomada de decisão mais rápida e o ambiente propício ao surgimento de jogadores habilidosos em função das resoluções de problemas em espaços reduzidos.

Os argumentos utilizados seriam inquestionáveis se não estabelecessem comparativos com o futebol de campo. Ou seja, praticar futsal pode proporcionar um bom número de ações com bola, melhorar a tomada de decisão e favorecer o aparecimento de jogadores habilidosos, porém, comparar o efeito da prática desta modalidade com o futebol significa desconsiderar o princípio básico do treinamento esportivo: a especificidade.

As competências exigidas para jogar bem futsal são distintas das exigidas para jogar bem futebol de campo. Para exemplificar, a frequente pisada na bola para recepcionar um passe e a ausência da regra do impedimento são dois dos elementos que diferenciam, significativamente, um jogo do outro.

Sabemos que um dos objetivos das categorias de base é aumentar o nível de inteligência de jogo dos praticantes de acordo com as tendências do futebol moderno, para que, concluído o período formativo, o atleta esteja apto a jogar em alto nível no futebol profissional. Se, durante o referido período de formação um atleta concorre à aprendizagem do futebol de campo com a prática do futsal, horas preciosas para a expertise serão perdidas.

Então, se o futsal é prejudicial (ou menos benéfico) na formação de atletas, qual é a solução?

A solução consiste em adaptar o futebol formal (alterando regras, número de jogadores, espaço, forma de pontuar, etc) criando jogos que favoreçam a aquisição de competências específicas do futebol. E isso é bem diferente de jogar futsal…

Dos 11 aos 15 anos, os atletas devem aprender sobre o funcionamento da unidade complexa (equipe) progressivamente, se aproximando do 11×11. Sendo assim, quanto melhor a compreensão do jogo coletivo, melhor a manifestação das competências essenciais (relação com a bola, estruturação do espaço e comunicação na ação). E tal manifestação deve compreender elementos incomuns no futsal; eis alguns deles: reposição do goleiro com os pés; sair jogando com goleiro, linha de defesa e volantes; circular a bola com volantes, meias e atacantes; defender e atacar em bolas paradas; variação das plataformas de jogo com três linhas de jogadores, além do goleiro; realização de ações táticas de ultrapassagem, penetração e tabelas; organização ofensiva e defensiva em cruzamentos; cumprimento de uma posição no campo de jogo (que não é fixo, ala ou pivô).

O processo de ensino-aprendizagem-treinamento é maximizado se os atletas são submetidos a estímulos adequados. A aplicação destes estímulos exige um profundo conhecimento teórico-prático de quem assume o compromisso pedagógico de, como afirma João Batista Freire, ensinar bem futebol a todos.

Para os críticos que defendem que o surgimento de inúmeros craques brasileiros advém do futsal, não esqueçam que durante a iniciação esportiva (até os 10 anos de idade), todo e qualquer ambiente que seja possível brincar de bola com os pés é enriquecedor para o aprendizado do futuro esportista e, passada esta faixa etária, na transição da iniciação para a especialização, para formarmos grandes jogadores de futebol, precisamos de praticantes de futebol. Se muitos craques vieram do futsal, imaginem quantos mais não teríamos na atualidade se ensinássemos melhor o próprio futebol de campo?

A mínima fração de tempo que envolve a precisa tomada de decisão do craque aliada à capacidade de resolver problemas imprevisíveis circunstancialmente deve ser muito estimulada. No futsal, os estímulos são de outro jogo, que exige outras competências e, acima de tudo, tem outra lógica! Que façamos como muitos clubes, pessoas e instituições e não desperdicemos o precioso tempo da formação!

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

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A tragédia em Santa Maria e as lições para os eventos esportivos

A semana começou nebulosa com a morte de quase três centenas de jovens em razão de um incêndio ocorrido em casa noturna da cidade universitária de Santa Maria, Rio Grande do Sul. As autoridades ainda estão no início das investigações, mas, algumas causas são bem evidentes e relacionam-se com a falta de medidas de segurança adequadas.

Sabe-se que o Brasil está na iminência de organizar a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 e, para tanto, está construindo novos cenários esportivos e reformando os antigos.

Um grande evento esportivo é capaz de reunir em um curto espaço mais de dez vezes mais pessoas que havia na boate de Santa Maria e, uma tragédia poderia ser ainda maior. Por essa razão, os cenários esportivos devem seguir padrões internacionais de segurança, atentando-se com medidas anti-incêndio, anti-violência, dentre outros.

As construções devem permitir que um estádio de futebol ou um ginásio seja esvaziado em, no máximo, oito minutos em caso de alguma necessidade. Ademais, deve haver acesso aos gramados/quadras, razão pela qual as fossas devem ser extirpadas.

Considerando que as escadas e corredores constituem vias de acesso e, portanto, devem ficar desobstruídas para que, em caso, de tumulto ou necessidade de escoamento, os caminhos estejam livres.

Os portões dos cenários desportivos devem abrir para o exterior e ser passíveis de serem abertos sempre por dentro, a fim de se minimizarem os riscos de emperramento.

Finalmente, as escadas devem ser rodeadas de corrimãos e de com mecanismos anti-fogo, como extintores e canos de água acionáveis por calor.

Para que tudo seja cumprido é imprescindível que o poder público, ao contrário do lamentável caso de Santa Maria, exerça a sua função constitucional de poder de polícia administrativa, fiscalizando todos os cenários esportivos e aplicando-se as penalidades cabíveis àqueles inadequados para que tragédias como as do Rio Grande do Sul, ou as de São Januário (2000) e da Fonte Nova (2007) sejam extirpadas eternamente de nosso país.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br

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Para atender a demanda

Estádios vazios, jogos ruins e atletas de pouca expressão. Não, não estamos falando de alguns dos famigerados campeonatos regionais pelo Brasil. O caso é o da Copa Africana de Nações, que está sendo realizada na África do Sul, servindo como alerta para o futuro país da Copa do Mundo.

A projeção de estádios que atendem demandas pontuais não costumam ser balizadores para as demandas futuras. A sustentabilidade de arenas não significa apenas construir estádios “verdes”, com captação de água da chuva, energia solar ou coleta seletiva de lixo.

Pensar estrategicamente e conceber arenas implica em projetar uma demanda modulada, que permita flexibilizar o espaço para suportar pequenos, médios e grandes eventos, conforme o calendário, o crescimento da torcida e da população de abrangência, a qualificação do espetáculo etc.

E chegamos novamente ao caso africano: se o tamanho dos estádios de 2010 para a Copa do Mundo estava adequado, o mínimo seria imaginar a redução de sua capacidade para atendimento dos eventos de futebol daquele país e de outras competições internacionais de menor expressão.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

 

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O futebol precisa de antagonismos

Como negócio, o esporte ainda precisa evoluir em vários aspectos. Poucos são tão latentes, contudo, quanto o respeito à rivalidade. O segmento ainda tem parcos exemplos de uso eficiente das dicotomias que ele mesmo cria.

Compare com a ficção, por exemplo: no cinema, no teatro ou na literatura, o desenvolvimento de um bom antagonista é trecho intrínseco na criação de qualquer personagem. Um herói é tão grande quanto os desafios que supera ou as reações que suscita.

A provocação no bar pode ser mais saborosa quando o time rival fracassa, mas até para que isso exista é fundamental que o adversário seja relevante. Não há rivalidade que sobreviva a um abismo.

É isso que acontece na Espanha. O rival local do Barcelona é o Espanyol, mas não há como sustentar um embate entre os dois catalães. A distância entre os faturamentos colocou as duas equipes em mundos absolutamente diferentes.

Hoje em dia, o adversário do Barcelona na Espanha é o Real Madrid. “Os dois disputam um campeonato à parte”, é o que se costuma dizer sobre o cenário de uma das principais ligas de futebol do planeta.

O patamar criado por Barcelona e Real Madrid tem uma série de explicações. Os dois faturam mais porque têm penetração em mais mercados e porque vendem mais, por exemplo. Mas nada desequilibra mais a conta do que a mídia.

Os direitos de mídia do Campeonato Espanhol são comercializados individualmente. Cada time é dono das partidas que faz como mandante, e também é responsável por vender essas imagens dentro e fora do país.

O resultado mais óbvio desse modelo é que os jogos de Barcelona e Real Madrid, times que têm mais relevância internacional, são mais interessantes e vendem mais – os dois respondem por mais de 50% do faturamento nacional com mídia. No curto prazo, isso não causa diferença relevante. Com o passar do tempo, contudo, há uma acentuação contundente no abismo financeiro entre os gigantes e os outros.

Os direitos de mídia incluem negociações com TV, internet e uma série de outras plataformas. Se um time ganha muito mais em cada uma dessas searas, sempre vai poder contratar os melhores atletas. E se contratar os melhores atletas, sempre vai ser tecnicamente mais forte. E se for tecnicamente mais forte, sempre vai gerar mais interesse. E se gerar mais interesse, sempre vai vender mídia por valores maiores. É um ciclo que limita muito as rivalidades.

Parece uma lógica muito simples, mas o esporte nem sempre se preocupa com o que é simples. Em vez de fortalecer a cadeia econômica, o importante é superar o rival. O que vale é ter assunto para a provocação no bar.

Na Espanha, Barcelona e Real Madrid polarizam títulos nacionais desde 2005. O campeonato nacional não é tão ruim quanto alguns insistem em dizer, mas os dois estão muito acima do restante da tabela. Isso cria uma indelével sensação de que não há competição.

O abismo entre os gigantes e o resto tem sido ainda mais problemático nos últimos anos. A economia espanhola enfrentou problemas, e os times locais precisaram buscar dinheiro em outros locais. Barcelona e Real Madrid venderam mídia e cotas comerciais em outros países, mas equipes menores não conseguem seguir esse caminho. E a distância só aumenta.

Na outra ponta está a Premier League. O torneio nacional da Inglaterra vende mídia coletivamente. Metade do montante amealhado é repartida igualmente, e a outra fatia é dividida de acordo com desempenho em campo (25%) e aparições na TV (25%).

A venda de mídia é apenas um aspecto em que a Premier League foi buscar inspiração no esporte dos Estados Unidos. As principais ligas norte-americanas vendem mídia em negociações coletivas. O dinheiro é dividido em porções parecidas, sempre priorizando a competitividade.

Até o draft, instituição tão presente no esporte norte-americano, é voltado à manutenção do equilíbrio. Os piores times de uma temporada são os primeiros a escolher atletas para o ano seguinte. Na teoria, isso faz com que todos tenham condições técnicas parecidas e que exista alternância de forças no torneio.

Com mais equilíbrio, qualquer jogo passa a ser mais interessante. Resultados são mais imprevisíveis, e rivalidades acabam acentuadas.

Na América do Sul, o futebol brasileiro é a Espanha. O país pentacampeão mundial adotou um modelo individual de negociação de mídia. Cada clube tem direito de fechar com a emissora que julgar mais conveniente.

Em primeiro lugar, isso esbarra em um absurdo legal. No Brasil, as duas equipes envolvidas em um jogo são donas da imagem. Portanto, se uma tiver acordo com a emissora X e outra fechar com o canal Y, o jogo depende de um acordo entre todas as partes para poder ser exibido.

Esse cenário bizarro só não aconteceu no Brasil porque todos fecharam com a Globo. A proposta da emissora carioca inclui qualidade técnica das transmissões, alcance nacional e índices de audiência.

Mas também incluiu, a partir da adoção da venda individual, uma enorme valorização do produto. O valor pago por mídia no futebol brasileiro disparou nos últimos anos, mas a evolução não foi igual para todas as equipes. Aliás, aconteceu exatamente o contrário.

Se os times souberem equacionar dívidas e trabalhar ativos locais (categorias de base, por exemplo), a tendência é que o futebol brasileiro comece a acompanhar um processo semelhante ao da Espanha. Quem fatura menos pode equilibrar as coisas em um ano ou dois, mas quem ganha mais sempre tem estabilidade no topo.

O que torna esse cenário ainda mais enfático é a comparação com o principal mercado concorrente. A Argentina mudou em 2009 o modelo de venda de mídia do futebol. A TV estatal pagou 600 milhões de pesos (cerca de R$ 300 milhões) por um contrato de dez anos com o campeonato nacional, e esse total foi distribuído entre as equipes.

Não é por acaso que o Campeonato Argentino se tornou imprevisível e equilibrado. Não é por acaso que as equipes nacionais rapidamente perderam força em disputas com os brasileiros.

A discussão em torno de venda de mídia não é nova, mas serve como gancho para analisar duas novas gestões em dois dos maiores clubes do futebol brasileiro. Flamengo e Palmeiras iniciaram em 2013 com presidentes neófitos, esperanças renovadas e discursos bem diferentes.

Flamengo e Palmeiras estão entre os maiores contratos de mídia do futebol brasileiro. Por consequência, faturam muito mais do que os rivais. Ainda assim, não frequentam o tal panteão dos ricos.

É claro que o equilíbrio no futebol mundial também pode ser explicado por fatores externos. Times como Chelsea, Manchester City e Paris Saint-Germain não estavam entre os maiores faturamentos da Europa, mas receberam injeções de mecenas e se tornaram fortes.

No entanto, o mais comum é a r
ealidade do dinheiro prevalecer em médio e longo prazo. Se eu ganho muito mais do que você, sempre vou ter condições de desequilibrar a competição entre nós.

O prazo para a criação desse cenário depende apenas de organização. Não adianta um clube faturar mais se o dinheiro estiver totalmente comprometido com contas e contratos de períodos anteriores.

O desafio de Flamengo e Palmeiras, portanto, é arrumar a casa. Se os dois forem bem geridos, a tendência é que o mercado os empurre. Ambos têm potencial para muito mais do que fizeram nas últimas temporadas.

O problema é que não há um modelo a ser seguido. O Corinthians, exemplo mais recente de evolução no futebol brasileiro, saiu do limpo com um planejamento baseado no varejo. Além do impulso da TV, a equipe do Parque São Jorge fatura mais porque vende mais produtos.

Flamengo e Palmeiras até poderiam tentar o mesmo caminho, mas teriam um risco enorme causado pela desaceleração da economia. O Brasil pode não entrar em crise nos próximos anos, mas não dá sinais de que manterá o ritmo de ascensão.

O grande mérito do Corinthians foi montar um modelo que era perfeito para o momento econômico do Brasil. O time alvinegro aproveitou o cavalo que passava encilhado. Flamengo e Palmeiras ainda precisam de muitos ajustes internos antes de pensarem em oportunidades. Mas quando estiverem prontos, a dúvida é qual mercado eles encontrarão.

Para interagir com o autor: guilherme.costa@universidadedofutebol.com.br

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As “linhas de 5”

Relatórios e imagens das últimas oito Copas do Mundo Fifa de Futebol mostram que a preferência por uma linha de defesa de 4 jogadores (linha de 4) está presente em todas elas. Relatos sobre Copas anteriores apontam para o mesmo.

Ainda que tenham surgido e ainda sujam por vezes, em uma ou outra seleção nacional uma opção diferente (linha de três zagueiros, por exemplo), é fato o predomínio das “linhas de 4”.

Nos principais campeonatos nacionais na Europa e América do Sul, equipes espalhadas por diversos países também mantêm a tendência pela composição da linha defensiva com quatro jogadores.

Claro, também há exceções, como por exemplo a Juventus, de Turim, na Itália, que vem nos últimos quase dois anos (com bons resultados), jogando em um 1-3-5-2 zonal que transforma sua defesa em “linha de 4” quando atacada pelos adversários.

O Brasil segue a tendência.

Uma tendência que vem ganhando força nos últimos três anos, que também diz respeito a linha de defesa, e que tem como representantes, principalmente equipes da Espanha, Portugal e Alemanha (além de algumas inglesas) é a estruturação de “linhas de 5”.

As “linhas de 5” no geral são circunstanciais, mas com padrões bem definidos de organização e composição. Sua formação normalmente está associada a presença da bola, em posse do adversário, entre a linha de fundo defensiva e a linha cinco do campo de jogo, nas faixas laterais (conforme a figura).

São diversos os motivos que têm levado as equipes a optar por formação de linhas de cinco jogadores em circunstâncias como a descrita. Porém, as mais marcantes e comuns delas dizem respeito a:

a)possibilidade de ter mais jogadores fazendo coberturas uns dos outros em jogadas de linha de fundo do adversário, sem precisar ficar tirando os zagueiros de perto da pequena área defensiva;

b)ter uma linha mais comprida nos cruzamentos, alinhada com a bola, otimizando a gestão do espaço, e especialmente em bolas de 2ª trave.

Na última Copa do Mundo de Futebol, a seleção da Suíça, com uma equipe de pouca expressão, conseguiu sofrer apenas um gol na competição (mesmo tendo em seu grupo a seleção da Espanha, que foi a campeã do Mundial) – utilizando-se do expediente da “linha de 5”.

E é no campeonato nacional espanhol que mais equipes têm essa prática no seu desenho tático.

No geral, os times que adotam a “linha de 5” acabam precisando resolver um problema que surge em decorrência da sua formação.
Para se ter um jogador a mais na linha de defesa, é preciso perder um jogador que poderia fechar a circulação de bola adversária pelo meio (normalmente é o volante que entra na “linha de 4” para transformá-la em “linha de 5”).

Isso quer dizer que, se pensarmos em coberturas, dobras de marcação e fechamento de circulação da bola pela faixa central do campo, é plausível aceitarmos a idéia de que com um jogador a mais na linha de defesa, ou diminuímos a eficiência das dobras, ou do fechamento da circulação central da bola.

E se nenhuma dessas ocorrências for uma opção aceitável, será necessário trazer jogadores da linha de ataque para auxiliar na estruturação defensiva do espaço.

Mas, aí, outro problema emerge: o balanço ofensivo para organizar contra-ataques ou desafogar a defesa ficará numericamente prejudicado.

A tendência às linhas de cinco jogadores nasce, então, de uma dificuldade defensiva, principalmente para enfrentar equipes tecnicamente bem qualificadas, em campos de largura considerável, que para ser eficiente no que se propõe, pode desencadear sérias dificuldades para se chegar ao gol de ataque (dificuldades ofensivas para quem se defende com ela) – ou ao menos, maior gasto energético para isso.

Por hoje é isso…

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

 

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Banco de Jogos – jogo 7

Se a comissão técnica não estiver atenta, facilmente os atletas podem diminuir o nível de concentração numa sessão de treino de bolas paradas.

Com a excessiva repetição das ações num ambiente que simula o jogo, mas não tem suas principais características, elementos importantes como as organizações de balanço defensivo e ofensivo, comportamentos coletivos de transição ofensiva e defensiva, o interesse dos atletas em cumprir as ações com eficácia e a própria competição, inerente ao jogo, são desconsiderados (ou deixados em segundo plano) e refletem negativamente nos jogos oficiais.

Então, com o objetivo de proporcionar maior competitividade à sessão de treino e consequentemente aproximá-la das situações reais de jogo, a coluna desta semana propõe uma atividade para aperfeiçoar o Modelo de Jogo do treinador no que tange as cobranças de bolas paradas, afinal, as mesmas têm definido muitas partidas do futebol mundial.

Jogo Conceitual em Ambiente Específico de Bolas Paradas

– Dimensões do campo oficial. ~ 100m x 70m;
– Campo dividido em 5 setores em torno da grande área;

 

Regras do Jogo

1.Cada equipe tem direito a 5 bolas por setor, além de 5 escanteios de cada lado, totalizando 35 bolas por equipe;
2.As mudanças de equipe que ataca ou defende são feitas a cada série de 5 bolas;
3.Cada bola é jogada por, no máximo, 20 segundos;
4.Após cada bola, pausa de 40 segundos;
5.Se na cobrança a bola for desperdiçada pela equipe que ataca, o treinador repõe a bola em jogo para a equipe que defende;
6.Se na cobrança a bola for desviada pra fora pela equipe que defende, o treinador repõe a bola em jogo para a equipe que ataca;
7.Gol = 6 pontos
8.Ultrapassar o meio campo em transição ofensiva = 2 pontos
9.Ultrapassar o meio campo após reposição do treinador = 1 ponto
10.Gol após reposição do treinador = 3 pontos
11.Gol de transição ofensiva = 10 pontos

Assista aos vídeos com os exemplos de algumas regras:

Regra 7


 

O jogador número 10 da equipe listrada faz a cobrança de uma falta lateral e o jogador número 8 faz o gol. Esta ação vale 6 pontos para a equipe listrada.

Regra 8


 

O jogador número 10 da equipe listrada faz a cobrança de uma falta lateral e o jogador número 7 da equipe verde intercepta o cruzamento. Em um contra ataque, a equipe verde ultrapassa o meio campo com o jogador número 10. Esta ação vale 2 pontos para a equipe verde.

Regra 10


 

O jogador número 8 da equipe verde faz a cobrança de um escanteio e o jogador número 6 da equipe listrada desvia para fora. Após a reposição feita pelo treinador o jogador número 8 da equipe verde cruza e o jogador número 4 faz o gol. Esta ação vale 3 pontos para a equipe verde.

Aguardo dúvidas, críticas e sugestões. Abraços e bons treinos!

 

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

Leia mais:
Banco de jogos – jogo 1
Banco de jogos – jogo 2
Banco de jogos – jogo 3
Banco de jogos – jogo 4
Banco de jogos – jogo 5
Banco de jogos – jogo 6
 

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Campeonato Catarinense sem público?

As partidas de estreia do Campeonato Catarinense correram o risco de serem disputadas sem a presença da torcida, eis que por recomendação do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), todos os jogos das duas primeiras rodadas do Estadual de 2013 deveriam ser disputados com os portões fechados.

Tal situação se deu em razão dos clubes não terem cumprido o prazo determinado para a entrega dos laudos necessários para a liberação dos estádios, descumprindo, assim, o que estabelece o Estatuto do Torcedor.

Destarte, o Regulamento Geral da Federação Catarinense de Futebol (FCF) define que a Federação deve fazer o controle dos laudos e decidir sobre a proibição de público quando descumprido o regulamento.

O Estatuto do Torcedor, por seu turno, prevê a obrigatoriedade de entrega, pelos clubes, dos Laudos: de Segurança, de Engenharia, de Prevenção e Combate de Incêndio e de Condições Sanitárias e de Higiene.

Segundo a Promotoria o ponto relevante não seria a mera entrega dos laudos e as consequências pelo descumprimento dos prazos, mas a proteção à vida e à integridade física dos torcedores, além do próprio dever geral de respeito à lei.

Assim, o Ministério Público de Santa Catarina (MP/SC) vetou a presença de público em todos os estádios nas duas primeiras rodadas da competição baseando-se em um Termo de Cooperação Técnico, assinado em 2010, com a Federação Catarinense de Futebol (FCF), Associação de Clubes, Polícia Militar, CREA, Corpo de Bombeiros e Vigilância Sanitária Estadual, que solicitava que os laudos técnicos dos estádios fossem encaminhados à FCF em até 35 dias antes do início da competição.

Ressalte-se que tanto o art. 15 do Regulamento Específico do Campeonato Catarinense de Futebol Profissional da Divisão Principal de 2013 como o art. 114 do Regulamento Geral obrigam os clubes de futebol a encaminharem à FCF, no prazo de 35 dias antes do início da competição, os laudos técnicos. Ato contínuo, o art. 115 do Regulamento Geral estabelece que a FCF não poderá autorizar a realização de partidas oficiais, com a presença de público, em estádios de futebol nas competições que vier a organizar, quando o estádio não possuir todos os laudos de segurança ou forem entregues fora do prazo ou, ainda, elaborados em desacordo com as diretrizes da Portaria n. 238/2010 do Ministério do Esporte.

Contra tal situação a Associação dos Clubes de Futebol Profissional de Santa Catarina postulou junto ao Tribunal de Justiça Desportiva de Santa Catarina (TJD/SC), cujo Presidente analisou a liminar da Associação para liberação de público nos estádios catarinenses na primeira e segunda rodada do Estadual. O TJD/SC deferiu a liminar pleiteada, com a base na análise dos laudos técnicos apresentados.

A decisão da Justiça Desportiva Catarinense restabelece a intenção do Estatuto do Torcedor que deve prevalecer ante o excesso de formalismo. O torcedor possui o direito de segurança e acesso aos estádios de futebol, independentemente da anterioridade que apresentem os laudos. Portanto, o princípio que deve ser adotado é o da proteção integral dos direitos do torcedor e não o formalismo exacerbado.
 

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A escolha de Guardiola

Em 2003, Josep Guardiola havia decidido que deixaria o futebol da Itália. Revelado pelo Barcelona, time em que construiu grande parte da carreira, o volante defendeu Brescia e Roma no país do calcio. Durante semanas, o nome dele recheou listas de notícias sobre mercado – as especulações mais frequentes eram sobre uma mudança para o Manchester United. E o jogador espanhol escolheu o Al-Ahli, do Qatar.

Dez anos depois, uma decisão de Pep voltou a causar furor. Ele estava em período sabático depois de uma vitoriosa passagem como técnico do Barcelona, e o nome do espanhol passeou por projeções sobre o futuro de algumas das maiores e mais ricas equipes da Europa. E Guardiola escolheu o Bayern de Munique, da Alemanha.

As duas histórias têm pouco em comum, mas mostram que Guardiola nunca teve receio de arriscar na carreira. A própria mudança para o Brescia, quando ele tinha 30 anos e havia acabado de terminar um longo contrato com o Barcelona, é um exemplo disso.

Como técnico, Guardiola começou no Barcelona B. Ele ascendeu ao time principal em 2008 e comandou um dos períodos mais vitoriosos da história da equipe catalã. Foram 18 títulos em quatro anos, com três troféus do Campeonato Espanhol e dois da Liga dos Campeões da Uefa.

Mais do que os títulos, Guardiola incutiu no Barcelona um jeito de pensar futebol. Ele resgatou conceitos que fazem parte da história do clube, como a profusão de passes curtos e a prioridade total à posse de bola. O time de Pep marcava no campo de ataque, mudava posições constantemente e usava muito bem os deslocamentos em diagonal – marcas, aliás, que permanecem na equipe a despeito da saída do treinador.

As vitórias e o encantamento que Guardiola produziu no Barcelona transformaram o espanhol na maior aposta do futebol mundial em muito tempo. Em 2012, quando deixou o time catalão, ele iniciou um período sabático. Longe do mercado, Pep fomentou especulações. Equipes tradicionais, novas ricas, seleções e torcedores… O mundo queria o treinador.

O primeiro aspecto a ser considerado na decisão de Guardiola, portanto, é o que isso representa para a carreira dele. O espanhol assumirá o Bayern de Munique no início da temporada 2013/2014, quando terminar o tal ano sabático.

Na temporada 2010/2011, segundo estudo da consultoria Deloitte, o Bayern de Munique foi o quarto time europeu que mais faturou. O time alemão amealhou 321,4 milhões de euros, montante que foi superado apenas por Real Madrid, Barcelona e Manchester United.

Outro estudo, feito pela consultoria Brand Finance, aponta a marca do Bayern de Munique como a segunda mais valiosa do futebol mundial em 2012. O clube foi avaliado em US$ 786 milhões, evolução de 59% em comparação com a temporada anterior. Perde apenas para o Manchester United (US$ 853 milhões).

O Bayern de Munique tem dinheiro. O Bayern de Munique tem uma marca poderosa. Mas o time bávaro também tem um elenco forte, que decidiu a Liga dos Campeões contra o Chelsea na temporada passada – o time inglês foi campeão.

Guardiola encontrará no Bayern de Munique um elenco forte, com jogadores rápidos e um meio-campo muito habilidoso. De cara, o espanhol terá três enormes desafios: criar uma hegemonia nacional na Alemanha, liga que tem sido uma das mais imprevisíveis entre as grandes da Europa, voltar a vencer a Liga dos Campeões da Europa e encantar. A sombra do Barcelona, belo e eficiente, estará sempre à caça do treinador.

Sobretudo porque o Barcelona pós-Guardiola é igualmente forte. O time catalão segue dominando a bola, acuando adversários e vencendo. Apesar de ter sofrido um revés no último fim de semana, registrou o melhor início na história do Campeonato Espanhol. Além disso, a equipe de Tito Vilanova está viva na Copa do Rei e na Liga dos Campeões da Uefa.

Há vários desafios para Guardiola no Bayern, mas o maior deles é pessoal: mais do que vencer ou encantar, o espanhol precisa mostrar que não é apenas um produto da estrutura e da qualidade do Barcelona.

É aí que a decisão de Guardiola começa a se mostrar acertada em termos de planejamento de carreira. O técnico não escolheu um novo rico ou um time em que a participação dele seria teria de ser mais incisiva. Pegou uma equipe ajeitada, com dinheiro, torcida e estrutura, mas que não conquista o título nacional há duas temporadas.

O atual bicampeão alemão é o Borussia Dortmund. O Bayern não passava duas temporadas sem erguer a taça nacional desde o intervalo de 1994 a 1996, quando o Dortmund conquistou outros dois títulos. Na temporada 2012/2013, porém, esse hiato deve acabar. A nova equipe de Guardiola lidera com folga, com 45 pontos em 18 jogos – o segundo colocado é o Bayer Leverkusen, que tem 36.

A equipe que chegará às mãos de Guardiola, portanto, também deve estar mais leve por ter acabado de conquistar um título. Ou mais de um, já que o Bayern de Munique também está na disputa da Liga dos Campeões da Uefa.

A trajetória desta temporada mostra que vencer não será suficiente para Guardiola. Não foi suficiente para Jupp Heynckes, o atual comandante do Bayern de Munique.

Guardiola precisa ser no Bayern de Munique o combustível que ele representou no Barcelona. Os dois times têm várias similaridades, como o bom uso das categorias de base.

Para isso, a comunicação terá papel fundamental. José Mourinho, técnico do Real Madrid, chegou a dizer certa vez que nunca trabalharia na Alemanha porque o idioma seria uma barreira intransponível para ele. No Barcelona, Guardiola trabalhava com uma base de espanhóis, com participações de vários sul-americanos.

Além do idioma, Guardiola terá de aprender as diferenças culturais entre Espanha e Alemanha. Se tivesse assumido um time da Itália, por exemplo, poderia aproveitar a vivência como atleta.

A escolha de Guardiola reuniu qualidade, dinheiro, força de marca, atual momento, características do clube e até o tamanho do desafio. O espanhol precisa criar numa equipe diferente, com um idioma diferente e com jogadores de perfis diferentes, um modelo parecido com o que ele instituiu no Barcelona.

Se a informação que circulou na mídia alemã estiver correta, o caminho de Guardiola já começou bem. Jornais germânicos disseram que o contrato do espanhol com o Bayern de Munique estava fechado desde o ano passado, mas a equipe soube blindar a notícia e anunciou para público, imprensa e elenco apenas quando julgou conveniente.

A comunicação correta começa por saber quando falar. A decisão de Guardiola é totalmente compreensível, mas só os resultados dirão se foi um acerto tão grande quanto a condução do negócio.

Para interagir com o autor: guilherme.costa@universidadedofutebol.com.br