Categorias
Sem categoria

Influência de "terceiros" nos direitos económicos dos jogadores

Caros amigos da Universidade do Fubebol,

Um dos grandes asuntos do momento é a preocupação com a interferência de terceiros no business do futebol profissional. Com “terceiros” queremos dizer investidores que não fazem parte historicamente do futebol e que, com uma série de evoluções desse mercado, resolveram investir de alguma forma “na bola”.

É claro que, antes de mais nada, é preciso dizer que novos investimentos são, e devem sempre ser, vistos com bons olhos. Como dissemos na coluna passada, “fresh money” faz a indústria crescer, gerar novos empregos, etc. Porém, atenção deve ser redobrada para que os princípios básicos do esporte sejam sempre mantidos.

Na coluna passada falamos sobre os novos investimentos na aquisição de clubes de futebol. Problemas da multi-ownership, conflito de interesses, etc. Hoje, vamos tratar de outra modalidade de interferência de terceiros: a aquisição dos direitos econômicos dos jogadores.

A essa modalidade de negócios (alienação de direitos econômicos pelos clubes a terceiros) é prática comum na América Latina. Mas ganhou dimensão internacional principalmente depois do caso Tevez na Premier League, quando o West Ham utilizou esse jogador, juntamente com Mascherano, que pertenciam, em parte, à MSI.

Por essa utilização irregular, o West Ham foi punido pela Liga. E esta semana, recebeu outra “pancada”. Deverá indenizar o Sheffield, que foi relegado para a segunda divisão daquela temporada por motivos diretamente relacionados com a atuações daqueles jogadores. O caso agora foi encaminhado ao Tribunal Arbitral do Esporte, em Lausanne, Suiça.

A Fifa reagiu ao tema, e neste ano alterou seus regulamentos para tratar da questão. Hoje, oficialmente, nenhum clube poderia celebrar acordo com terceiros que de alguma forma interferissem na no contrato de trabalho, independência ou transferência dos jogadores, sob pena ter ter contra si a imposição de uma pena disciplinar.

A legislações nacionais, incluindo a brasileira, não proibe o negócio. Nem poderia. Trata-se de um contrato que, em princípio, preenche todos os requisitos para ter sua validade no mundo jurídico.

Porém, entendemos que esse assundo deve recair dentro do escopo da especificidade do esporte e, por se potencialmente prejudicial, deve merecer um tratamento jurídico específico.

A questão ainda está se iniciando. Algumas ligas européias já tratam da questão em seus regulamentos, como a inglesa e francesa. Mas, na maioria dos casos, a questão ainda é omissa, recaindo apenas na proibição imposta pela Fifa. Mas como essa nova disposição dos regulamentos da Fifa ainda não foi aplicada na prática, resta saber se na prática vai “colar”.

No próximo mês, as ligas européias estarão reunidas em Londres para discutir diversos assuntos em sua assembléia geral. Este será certamente um deles.

Vamos acompanhar o andamento e manter nossos leitores informados, como sempre.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

O magro das pistas

Para os adeptos do uso de drogas, foi uma decepção: um magro ganhou a competição. Bolt, comprido e fino, não faz o modelito anabolizado dos sprinters; menos ainda o das ciências do esporte. E para os sisudos, sejam técnicos, pesquisadores ou dirigentes, outro recado: o esporte ainda diverte; o jamaicano Usain Bolt correu brincando. Nos próximos anos os laboratórios tentarão decifrar o fenômeno – ôpa, fenômeno não, dá azar e engorda, vamos chamá-lo de mago – que apagou a mancha produzida por seu compatriota Ben Johnson em Seul. Porém, como magia não é coisa de ciência, mas de inquisição, acho que vão deixar por isso mesmo. 

– Ele fez propaganda ostensiva da Puma –  interrompeu-me Aurora, e eu concordei.

– Foi isso mesmo, e daí? É a Puma que lhe paga o salário, e os artistas precisam de mecenas. Na Idade Média, o maior dos atletas foi Guilherme Marechal; o grande vencedor das justas terminou a vida dono de castelos – e Aurora ainda lamentou o futebol masculino, e eu lhe disse que não me causou surpresas.

– Foi o de sempre, letárgico, medroso, e nem deveria ser olímpico, tal o desinteresse que desperta, no público e nos jogadores; o feminino, ao contrário, é bonito de se ver.

Eu dizia essas coisas para Aurora, a coruja, que me ouvia com atenção olímpica, quando ouvi gritos entusiasmados no fundo da caverna; vinham de Arnaldo, o bagre cego. Surpreendi-o em lágrimas, sacudindo uma bandeirinha verde e amarela; na tela da TV a delegação brasileira desfilava no encerramento das Olimpíadas. Aguardei que o Ariidae se acalmasse e perguntei-lhe a razão de tamanha euforia.

– Porque somos uma potência olímpica – ele disse.

– Potência o quê? – insisti – ficamos pior que em Atlanta e Sidney. 

– Mas o Seu Nuzman disse que foi a melhor participação do país em toda a história – disse o bagre, agitando os bigodes. 

– Se houvesse competição de malabarismo o Seu Nuzman seria medalha de ouro – retruquei. 

– Mas temos que considerar – insistiu Arnaldo – os sacrifícios que nossos atletas fazem para chegar às Olimpíadas, verdadeiros heróis. Veja o número de participantes, um recorde. E as mulheres, cento e trinta e três. – e Arnaldo dizia isso brandindo a bandeirinha do Brasil. 

– Sabe Bernardo, a gente precisa aprender a reconhecer os méritos dos grandes dirigentes. 

– Mas, é só você olhar os números Arnaldo! Gastamos quase tanto quanto a Inglaterra e eles se deram bem melhor que nós – eu disse. Arnaldo, no entanto, não desistia, e com os olhos injetados despejou seus números. 

– Derrubamos o comunismo Bernardo. Em Pequim nossa delegação saiu-se melhor que Cuba, vencendo-os no ouro, e melhor ainda que a China, outro comunistão.

– Que a China? – indignei-me. 

– Sim, que a China – o bagre insistiu – para uma população de um bilhão e trezentos milhões de habitantes eles conseguiram 100 medalhas, uma para cada treze milhões de habitantes. Quanto ao Brasil, conseguimos 15 medalhas, uma para cada doze milhões e seiscentos mil habitantes. 

– Ora, mas se for para pensar assim – falei – a Jamaica arrebentou. Ganhou 11 medalhas para dois milhões e setecentos mil habitantes, basta fazer as contas. 

– E eu, que até chorei quando o Ciello chorou! – guinchou Oto, entrando na conversa.

– Ele vale nossas lágrimas, falei; a Maurren também. 

– Mas, e o futebol masculino, que vergonha! – indignou-se Oto. O Dunga não é técnico, não sabe mexer no time! 

– Sem dúvida – eu disse – ele é só um estagiário da CBF. 

– Estágio na seleção? – espantou-se Oto. 

– Sim – respondi – a CBF pensa no futuro. 

Nesse ponto notei, na expressão de Arnaldo, tons de entusiasmo misturados aos de loucura. 

– O que você me esconde? – perguntei-lhe. E ele me disse que era segredo, mas que para mim ele dizia, pois precisava reparti-lo com alguém; o bagre estava escrevendo, há algum tempo, a biografia do presidente da Confederação Brasileira de Futebol, seu ídolo, Sr. Ricardo Teixeira. Estupefato quis saber se ele ia escrever tudo, mas tudo mesmo sobre esse senhor, e ele disse que sim, que queria mostrar ao mundo a que ponto pode um homem se sacrificar pelo esporte de seu país. 

– Qual país? – perguntei ao bagre, mas ele nem me ouviu. Seu entusiasmo por essa tarefa era tanto que ele ainda me confessou que, motivado pelos feitos dos atletas brasileiros em Pequim, decidiu escrever também a biografia do Sr. Carlos Artur Nuzman, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro. E, em seguida, desfiou todas as virtudes desse senhor, suas façanhas, seus méritos e contribuições inesquecíveis para a grandeza do esporte brasileiro. Percebi, com pesar, a incrível confusão mental de meu amigo bagre quando ele, entre outras coisas, disse que o ministro do esporte, Sr. Orlando Silva, era funcionário do Comitê Olímpico Brasileiro. 

Por mais que eu insistisse, o bagre não cedia. Cansado, a noite avançava, meus olhos teimavam em se fechar, declinei do debate. Já me retirava quando lembrei de perguntar. 

– Mas você acredita mesmo em tudo isso Arnaldo? – e ele me respondeu, um tanto constrangido. 

– Não é que eu acredite Bernardo, é que eu preciso acreditar.

Para interagir com o autor: bernardo@universidadedofutebol.com.br

Leia mais:

Espírito olímpico
Trocando as bolas
Aurora
Uma questão de critério

Sem intenção

* Bernardo, o eremita, é um ex-torcedor fanático que vive isolado em uma caverna. Ele é um personagem fictício de João Batist
a Freire.

Categorias
Sem categoria

Uma questão de honestidade

Uma coisa que é amplamente difundida no Brasil e ninguém faz mais muita questão de esconder é a chamada ‘propriedade de terceiros’ de um jogador de futebol. Aquele esquema: o clube tem um pedaço, um agente tem outro, uma empresa tem outro. E assim por diante. É fácil achar declarações na imprensa sobre isso e até extensas matérias sobre o assunto. E ninguém reclama.

Essa prática foi utilizada, explicitamente, pela MSI, que comprou diversos jogadores e colocou no Corinthians, mas nunca chegou a dar ao clube a propriedade sobre esses jogadores. Logo, os jogadores do Corinthians eram propriedades de terceiros. E eles chegaram e foram embora quando a MSI bem quis, o mesmo acontecendo em diversas outras situações, envolvendo outros clubes e outras empresas.

Pois eis que os jogadores da MSI foram a Inglaterra, que – a princípio – não aceitava muito bem a idéia da ‘propriedade de terceiros’. A Premier League defende que ninguém além do clube deve ter o direito de dizer como, quando e por quanto um jogador poderá ser transferido. É a tal da regra U-18, que não adiantou muito, porque o Tevez e o Mascherano foram pro West Ham e acabaram salvando o clube do rebaixamento. Mais o Tevez do que o Mascherano, bem verdade. Tanto que o Tevez fez um dos gols que salvou a pátria.

Mas quando um não é rebaixado, outro é. No caso, foi o Sheffield United. Acho que eu já contei toda a história aqui antes, então não vale muito a pena cair em detalhes. Fato é, porém, que o Sheffield reclamou que o Tevez estava registrado irregularmente e que quem devia ser rebaixado era o West Ham, e não eles. A Premier League até aceitou os argumentos do Sheffield, mas disse que tava tudo muito perto do final do campeonato e que seria injusto punir os torcedores com o rebaixamento do West Ham, então aplicou uma multa de uns vinte milhões de reais pro clube, que pagou sem reclamar.

Mas eis que o Sheffield não se deu por satisfeito e buscou seus direitos na Federação Inglesa. Processou o West Ham em uns cento e poucos milhões de reais. E ganhou. Afinal, o jogador tem contrato com o clube, e este – e mais ninguém – tem o direito sobre este contrato. Pelo menos na Inglaterra é assim.

Obviamente que o processo ainda vai longe. Existem agora discussões sobre a jurisdição da corte, sobre os precedentes e assim por diante. O negócio ainda vai longe, mas certamente esse novo fato fomenta ainda mais a discussão sobre o modelo que tem tomado o mercado de transferências.

Obviamente, também, que muita coisa ainda acontece na Premier League por baixo dos panos. Alguns empréstimos de off-shores aqui, algumas hipotecas sobre os próprios jogadores acolá, e assim por diante. Muda na fachada, mas no fundo continua quase tudo igual.

Pelo menos nós por aqui somos mais sinceros.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

Árbitros e futebol x profissionalismo e tecnologia

A discussão do tema, não é novidade. Peço desculpas aos amigos por ocupar vosso tempo com mais um blá blá blá sobre a utilização, ou melhor, a não utilização da tecnologia pelos árbitros de futebol.

O problema é mais complexo. Supúnhamos que era falta de visão de nós brasileiros, e depois chegamos a conclusão que é tudo culpa dos velhinhos da International Board. Nossa esperança eram os modernos e dinâmicos gestores da Uefa, afinal, cá para nós do futebol, eles sempre trazem novidades. Falaremos delas num momento propicio.

“Mas eis que chega a roda viva” e num simples giro temos uma contradição com uma manchete do inicio do ano, extraída do próprio site da Uefa, na qual informam a decisão dos árbitros apoiando a questão da linha de meta inteligente (aquela que indicaria se a bola passou ou não a linha do gol) e posicionando-se contrários a utilização de imagens pelo quarto arbitro para dirimir as dúvidas.

Eis o trecho da notícia sobre o apoio a linha inteligente:

“Questionados acerca da possibilidade de a integração da tecnologia da linha de gol poder ser uma má idéia, nem um dos 51 árbitros respondeu que sim”.

Eis os argumentos de Andy Roxburgh (diretor técnico da UEFA) em apoio aos árbitros, que desaprovaram o uso das imagens:

“Aquilo que fazem (os árbitros), num sentido de liderança, pode ajudar o futebol a evoluir, pelo que são uma dimensão importante neste desporto”.

“O futebol é mais do que grandes treinadores e jogadores, é também um jogo com grandes árbitros”.

Complexo né! Não é uma questão de tecnologia, o problema é que os árbitros são seres humanos (ou deveriam ser considerados como tal) e, como seres humanos que são… Estão sujeitos a erros, não… Pelo contrario, não os árbitros do futebol, justo eles! A coisa é séria. Será que Freud explica? 

Calma, amigo. Esse “treco” é confuso mesmo. Acho que até Freud ia pedir replay para tentar explicar.

Que mal pode causar o uso de imagens para evitar lances duvidosos no futebol? O principal argumento é sobre a interrupção das partidas. Mas será que as interrupções necessárias para dirimir as dúvidas demorariam mais do que as atuais reclamações, ameaças, empurra-empurra por parte dos jogadores insatisfeitos com a marcação do arbitro? 

Eu hein! Cada vez que começo a refletir sobre a temática, a impressão que tenho é que estou num daqueles filmes de conspiração e que se eu continuar a pensar que é possível aplicar a tecnologia como instrumento de auxilio aos árbitros, que isso é benéfico e continuar defendendo essa idéia, seja bem capaz de aparecerem umas pessoas aqui de preto e ao soar de um apito, podem fazer com que eu desapareça.

Alias, tem alguém chegando, é melhor eu parar de defender a tecnologia como ferramenta do arbitro. E vou ver se consigo achar algum discípulo de Freud para me ajudar…

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

O ídolo e a mídia

Estádio Palestra Itália, São Paulo, por volta das 20h45 de domingo, dia 21 de setembro. Fazia cerca de meia hora que o Palmeiras, naquele mesmo estádio, havia derrotado o Vasco por 2 a 0, colocando-se a um ponto da liderança do Campeonato Brasileiro. Com o gramado ainda iluminado, cerca de mil torcedores ainda se aglomeravam num lado da arquibancada.

Animado, o grupo começou a cantar: “Ô, ô, ô, ô! Libera o Marcão!”

O grito, acompanhado do bumbo da torcida organizada, tinha um endereço certo. O goleiro Marcos, que havia acabado de completar o jogo de número 400 com a camisa do clube paulista. Cerca de cinco minutos depois (e de insistentes gritos, alguns outros não tão simpáticos endereçado à imprensa), Marcos foi à beira do jardim suspenso palestrino e atirou a camisa para os torcedores, em mais uma mostra de simpatia e sintonia com a torcida.

O gesto do goleiro e hoje capitão do time palmeirense mostra bem o quanto um ídolo é importante para um clube e, também, para a mídia que vive do esporte.

Marcos ficou cerca de meia hora após o jogo concedendo entrevistas para repórteres dos principais veículos de mídia TV e rádio do país. Ele ainda teria de descer ao vestiário, tomar banho e, depois, dar mais entrevistas para outros jornalistas da imprensa escrita.

E esse “périplo” do santo palmeirense não era inédito, nem motivado pelo fato de que Marcão havia completado 400 jogos no time alviverde. Toda partida do Palmeiras no Palestra Itália tem essa rotina. Após o apito final, lá está Marcos conversando com os jornalistas, à espera do pedido de “alvará de soltura” dos torcedores, para então começar a descer os vestiários e voltar a dar entrevista para a imprensa.

Marcos é ícone, ídolo, referência. Num clube em que a maioria dos jogadores não tem nem três anos de casa, um atleta que há 12 anos fez sua estréia no time principal e participou das mais importantes conquistas da história do clube tem de ser naturalmente o porta-voz da instituição.

O comportamento da imprensa esportiva na cobertura do cotidiano é pautado pelo ídolo. Aquele cara que consegue atrair a atenção dos torcedores, que consegue ditar o ritmo das pessoas, é aquele que concentrará mais de 60% (em alguns casos, dependendo da fase do time e do atleta, 95%) das atenções da imprensa nos treinos e jogos.

A situação descrita acima é, com algumas modificações no enredo, repetida na maioria dos campos do país, com os mais diferentes jogadores. No mesmo Palestra Itália, ontem, Edmundo foi o último atleta a deixar o campo pelo time do Vasco. Assim como, no Morumbi, é Rogério Ceni quem fica até mais tarde para dar entrevista. Ou, no Mineirão, Marques explica vitórias e derrotas do Atlético Mineiro.

Sem um ponto de referência, torcida e imprensa não sabem como se comportar. Relatos de jogos sempre são feitos em cima de heróis. Seja ele eterno, como Marcos, ou passageiro, como o salvador do time naquela partida recém-encerrada.

Por isso que o futebol brasileiro, para resgatar seu prestígio em todas as esferas, do campeonato nacional à seleção, precisa se preocupar em formar mais ídolos. Eles movem a imprensa, que por sua vez contribui, ao reproduzir os feitos desse ícone, para que a paixão da torcida se transforme em consumo, gerando muito dinheiro e mais chances de formar novos craques. Sem isso, qualquer esporte está fadado a cair no esquecimento. Alguém lembra de outro ídolo no basquete masculino brasileiro depois de Oscar?

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

O grito do gol

A determinação da toda poderosa Federação Internacional de Football Association, FIFA, com relação à limitação das expressões de alegria em campo a meros cumprimentos formais, nas ocasiões de comemoração de gols, momento supremo do jogo de bola, é muito mais significativa do que desejam alguns que a defendem como instrumento coibitivo dos excessos, tais como os beijos e abraços, nas horas dos gols, posicionamento este no mínimo de alto significado machista.

 

Na verdade, está em jogo, nada mais nada menos do que a própria liberdade de expressão do indivíduo, de cunho, neste caso específico, totalmente popular, dada a presença do futebol como parte integrante da cultura popular brasileira.

 

Se, como era de se esperar, pronunciamentos das autoridades responsáveis pelo futebol nacional, não foram ouvidos (pois é lógico o interesse que a eles, o controle das manifestações populares, desperta, fazendo-as permanecerem sob seus domínios), é digno de aplausos os diversos depoimentos de atletas de destaque no cenário futebolístico brasileiro, que, com palavras, refutaram tal deliberação, dando na prática a verdadeira e merecida resposta a tão repugnante imposição:

 

Gols, cada qual mais festejado do que nunca!

 

Este recente episódio de autodeterminação dos atletas brasileiros nos reporta a um outro ocorrido nos idos de 1927, e detalhado no livro de Mário Filho, O negro no futebol brasileiro, e que pedimos licença aos leitores para, neste artigo, passar a narrar.

 

… Cinqüenta mil pessoas comprimidas nas arquibancadas gerais, de pé, batendo palmas para o Presidente da República. Era gostoso receber uma ovação daquelas, nada preparado, tudo espontâneo. Washington Luís descobria, ao mesmo tempo, a força e a beleza do esporte. Subitamente o jogo pára, não continua… O juiz tinha marcado um pênalti contra os paulistas, os paulistas iam abandonar o campo. Washington Luís fica sério, dá uma ordem a um oficial de gabinete. Era a ordem para o jogo continuar, uma ordem do Presidente da República.

 

E lá desce o oficial de gabinete… A notícia se espalha, Washington Luís tinha mandado acabar com aquilo… O jogo ia recomeçar. O oficial de gabinete entra em campo debaixo de palmas, vai até Amílcar e Feitiço. E de cara amarrada dá o recado: – O Presidente da República ordenava o reinício do jogo. A resposta de Feitiço, mulato disfarçado, que nem era capitão do escrete paulista, foi que o doutor Washington Luís mandava lá em cima – lá em cima sendo a tribuna de honra… Cá embaixo – cá embaixo sendo o campo – quem mandava era ele. E para mostrar que mandava mesmo, que não era conversa, fez um sinal, os jogadores paulistas saíram atrás dele. Washington Luís, Presidente da República, não teve outro remédio, senão ir embora, ofendidíssimo.

Para interagir com o autor: lino@universidadedofutebol.com.br

 

 

[1] Publicado na seção opinião do diário O Jornal – São Luis, MA – do dia 14 de outubro de 1981, quinta feira. 

Categorias
Sem categoria

A devida atenção aos novos investimentos no futebol

Quem acompanha nossas colunas na Universidade do Futebol sabe que temos insistido muito com a importância do princípio da especificidade do esporte para o nosso mercado do futebol.

Temos que reconhecer, sim, que o esporte, e em especial o futebol, é uma atividade comercial comparada à qualquer outra, mas que possui especificidades que devem ser reconhecidas e respeitadas pelas diversas autoridades competentes, incluindo, mas não se limitando, ao nosso judiciário.

A indústria do futebol, para existir, necessita fundamentalmente de dois prinípios básicos: (i) a integridade do jogo dentro das quatro linhas, e (ii) a imprevisibilidade do seu respectivo resultado. Todas as interferências, de quem quer que seja, deve sempre ser balizada por regras e normas que protejam tais princípios.

Recentente acompanhamos grandes aquisições de clubes de futebol. Na inglaterra, por exemplo, temos investidoes americanos e russos e, recentemente, de árabes (sucedendo tailandêses). Mesmo no Brasil, tivemos experiências com MSI, ISL, etc.

É claro que investimentos são sempre bem-vindos. Porém, temos que ter cuidado com isso no que diz respeito a esse nosso mercado do futebol.

Em primeiro lugar, não podemos ter um conceito de “concorrência” no futebol comparado, ipsis litteris, com o de outros mercados. Como temos já previsto em diversos diplomas legais, inclusive no Brasil, temos que restringir a propriedade de clubes, para evitar que haja conflito de interesses (direto ou indireto, questão é de fato tênue), o que levaria a uma inevitável distorção dos princípios basilares acima mencionados.

Em segundo lugar, é preciso que se faça, já a nível regulatório, mas também com intereferência de autoridades públicas, um controle rigoroso e uma verificação de procedência criteriosa desses novos recursos entrando no futebol. Sabemos que o dia-a-dia de clubes de futebol, pela natureza das despeas e velocidade dos negócios, pode criar um ambiente favorável para envolvimento com atividades ilícitas.

Finalmente, devem ser revistas as atuais regras de transferências internacionais de jogadores, especialmente menores, para que sejam evitados (i) desvios de recursos; e (ii) abuso e exploração de talentos em troca de lucros à qualquer custo.

Fresh money para o nosso mercado é sempre bem-vindo, não importando a sua localidade de origem (não podemos cogitar em discriminação por nacionalidade). Porém, é preciso que esses recursos seja colocados dentro de um arcabouço jurídico apropriado, para evitar quaisquer prejuízos à imagem do nosso esporte.

Nessa medida é que o princípio da especificidade ganha grande relevância. Somente entendendo, reconhecendo e efetivamente aplicando corretamente esse princípio é que chegaremos (organizações desportivas e autoridades públicas) a um ponto de equilíbrio entre o ingresso de novos investidores no mercado e a manutenção da integridade do esporte e de seus resultados.

E finalmente teremos mais credibilidade no esporte, o que atrairá outros tantos investidores, gerando o devido crescimento sustentável. O futebol brasileiro anda precisando disso.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

Caótico, mas tranqüilo

Eis que agora quem patrocina o Manchester United são os Estados Unidos da América, literalmente.

Anteriormente, a influência estadunidense na equipe era privada, restrita a um investidor como dono e uma companhia como patrocinadora. Agora, porém, com a crise que assolou o mundo e particularmente a AIG, a patrocinadora do clube inglês, as coisas mudaram. Afinal, quem manda na AIG agora é o governo dos Estados Unidos da América. O nome por trás do patrocínio de uma das mais importantes equipes de futebol do planeta é ninguém menos do que George W. Bush, himself. Curioso, não?

Fica mais curioso se você considerar que o primeiro jogo pós Bush será contra o Chelsea, o símbolo de ostentação russa. De um lado, os EUA e sua mega-seguradora estatal. De outro, a Rússia e seus bilhões. Manchester United contra Chelsea será praticamente uma encenação daquilo que seria a Guerra entre EUA e Rússia, não tivesse ela sido fria. Obviamente que as distorções precisam ser relevadas. De um lado um comandante brasileiro. Do outro escocês. Os principais jogadores são portugueses, sul-americanos e africanos. De russo e de americano no campo, nada.

O contrato de patrocínio da AIG com o Manchester United prevê o pagamento de uns 190 milhões de reais ao longo de quatro anos. A princípio, o caos financeiro instaurado pelos irmãos Lehman e a pseudo-estatização da AIG não devem influenciar nesse pagamento. Até porque é um dinheiro que o Manchester United decididamente não pode abrir mão, principalmente com a recém aquisição dos seus vizinhos pelos petroleiros árabes. As declarações, por enquanto, são de calma e segurança. Mas com o mercado do jeito que está, vai saber. A grana da AIG responde por apenas uns 10% do faturamento anual do clube. Entretanto, a perda do montante pode colocar o clube em uma situação delicada. Ainda mais porque boa parte do dinheiro que permitiu a aquisição do Manchester pela família Glazer veio a partir de crédito bancário, cujas taxas também estão no olho do furacão desses últimos dias.

Mas não há razões para preocupação. Afinal, a segurança da torcida do Manchester United depende apenas do George W. Bush. O que pode sair errado?

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

Os atletas antenados do futsal brasileiro

 
Aproveito o embalo do Mundial de Futsal, que vem por ai, para falar um pouco desta modalidade pela qual sou um apaixonado, e que é muitas vezes tida como o sucesso do futebol brasileiro, tendo toda vez que esse assunto é tocado exemplos e mais exemplos de jogadores que tiveram sua origem nessa modalidade.

Mas, dribles curtos, raciocínio rápido e pura habilidade deixaremos para os amigos acompanharem no decorrer do Mundial, a reflexão que faço aqui é sobre a mentalidade e o trabalho de PC Oliveira, técnico da seleção brasileira.

Não vivencio o dia-a-dia do treinamento da seleção, apenas vou refletir em cima do que conversei com o próprio PC no fim do ultimo ano e pelo que acompanho por informações e inclusive algumas palestras do próprio professor;

Professor sim! Sem o tom pejorativo que pode às vezes adquirir nesse tão “profissional” futebol brasileiro. No Futsal PC Oliveira desenvolve um trabalho no âmbito da tecnologia que merece ser destacado e servir de exemplo maior.

Passando pelos clubes do Brasil a fora quando conversamos sobre o uso de tecnologia e o papel do atleta e treinador nesse processo, ouvi e não apenas uma ou duas vezes, mas uma quase unanimidade, de que o jogador não tem competência, não tem paciência , não deve em momento algum lidar com as informações extraídas dos recursos tecnológicos  (dados de scout, dados de testes físicos, dados nutricionais, evolução, desempenho, etc.) para não confundir-se.

Em outras palavras, me desculpem a franqueza, os profissionais do futebol tratam os jogadores como “burros”, justificando que por conta dessa “qualidade” não compreendem as informações, e que isso deve ser feito muitas vezes por pessoas com competência (ainda que a pessoa que julgam ter competência para isso tenha acabado de sair do gramado para comandar o banco). Mas isso são outros quinhentos. PC Oliveira também é um ex-jogador, mas alguma coisa de diferente ele procurou na carreira.

Dentre outras competências e habilidades do técnico da seleção de futsal destacamos a capacidade de lidar com a tecnologia, de incorporá-la no dia-dia da função. Análise tática, análise de scout, dentre outros tantos meios que utiliza. Mas o grande ponto que pretendemos referenciar é a interação que faz com os atletas, ou melhor, as condições que cria e exige para que lidem com o computador.

PC convoca a seleção e disponibiliza todo o planejamento de treino, as jogadas as seqüências para os atletas antes de se apresentarem. Os atletas manuseiam, criam novas situações e vão se acostumando com os sistemas, com a proposta, com os adversários, vão aprendendo a lidar com informação e as visualizam e transformam em prática posteriormente.

Certamente PC não deve considerar seus jogadores “burros”, nem tenta blindá-los de muita informação com o receio de perder o controle do seu trabalho. Acredita e isso faz parte de seu discurso que quanto mais reflexão e debate em cima do sistema de jogo, maior a compreensão, e nada como utilizar da tecnologia para criar e acelerar tais possibilidades.

Um dos argumentos do técnico é que se os jogadores têm competência para manusear os inúmeros aparelhos que compram imediatamente a cada novo lançamento (notebooks, ipods, DVDs players, palms, celulares), sem contar como lidam com internet, não seria um empecilho utilizar desses meios como ferramentas complementares na preparação da seleção, facilitando ainda mais a compreensão de jogo.

E outro ponto que PC Oliveira levanta é que se queremos desenvolver atletas inteligentes (pois afinal são eles que fazem a diferença) nada como estimular isso, e com os recursos tecnológicos é possível visualizar, criar, modificar, compartilhar, e aprender…

Como sempre ressaltamos, a tecnologia depende da capacidade de criar soluções por parte de quem usa. 

A sorte geralmente acompanha quem trabalha e busca o sucesso com seriedade e comprometimento. Boa sorte PC, e que possa colher os frutos e cada vez mais mostrar as possibilidades que um técnico tem para se diferenciar.

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

Pecado mortal

Dunga está cada vez mais próximo do adeus ao cargo de treinador da seleção brasileira. Pelo menos é isso que dá a entender a cada novo tropeço do time nacional. Na semana passada, o deus Dunga virou, de uma hora para outra, o adeus de Dunga.

Sim, porque, após o insosso 0 a 0 contra a Bolívia qualquer tipo de paciência e coexistência pacífica do treinador da seleção com a imprensa se esvaiu.

A começar pelo “editorial” de Galvão Bueno na Globo, logo após o término do jogo. Para começar, a emissora-mor do país fez dois intervalos comerciais antes de encerrar oficialmente a transmissão direto do Estádio João Havelange, quando o normal é apenas um. Depois, Galvão pediu publicamente desculpas ao torcedor pelo péssimo futebol apresentado pelos jogadores brasileiros. E, quando começaram as críticas mais ácidas ao comportamento do Brasil, as imagens mostradas, quase sempre, eram de Dunga, e não dos jogadores nacionais.

Foi a senha da Globo de que a paciência com o estilo Dunga de comandar a seleção acabou.

No dia seguinte, jornais de todo o país seguiram a mesma linha. Na capital paulista, “Folha de S. Paulo” e “O Estado de S. Paulo” disseram que a vitória da semana anterior, sobre o Chile, havia sido a “exceção” a um time “medíocre”, “sem vibração”, “sem padrão de jogo”, “retrancado” e outras expressões enaltecendo Dunga e Cia. Da mesma forma no Rio de Janeiro, Minas Gerais e até Rio Grande do Sul o tom de crítica era o mesmo.

Mas será que é só o futebol de baixo nível que a seleção tem mostrado o responsável por tantas críticas? Em 2001, quando viveu seu pior momento na história, o time nacional era comandado por Luiz Felipe Scolari, que perdeu nas oitavas-de-final da Copa América para Honduras! Nem assim os pedidos para a saída de Felipão ecoavam em todos os veículos.

A explicação para a falta de paciência da imprensa com Dunga está na relação diária de trabalho. Dunga ainda se comporta, com os jornalistas, como se fosse o capitão do time, e não o seu comandante, o responsável pela nau que hoje, parece, está à deriva.

Desde o início, quando na primeira entrevista coletiva teve de se explicar, entre outras coisas, pela convocação de figuras bizarras como Jônatas, então no Flamengo (que depois de ir para a seleção saiu do Fla e depois voltou para lá), e Afonso Alves, que Dunga vive às turras com os jornalistas.

Até aí tudo bem. Provavelmente nem no café da manhã com a família ele faça questão de ser simpático com alguém. Mas o que Dunga não percebeu é que, para ser técnico da seleção, é preciso, antes de qualquer coisa, ser um bom político.

Felipão, que obteve um prestígio público pouco visto nos últimos anos e talvez na história da seleção, costumava dizer que o período em que esteve no Cruzeiro (97 a 2000) havia lhe salvado a pele no comando do time nacional. Dizia ele que o jeito mineiro de ser transformara sua maneira de se relacionar com os jornalistas, o que lhe deu mais habilidade para cuidar da pressão que é dirigir o Brasil.

Dunga, porém, faz exatamente o oposto. Não é hábil para manipular a informação, para deixar a imprensa preocupada com alguma outra coisa que não a ausência de um jogador, a presença de outro, ou o péssimo resultado do time. As bufadas de Felipão nas entrevistas eram estratégicas, para que ele pensasse numa resposta e desviasse o foco de atenção de câmeras e fotógrafos. Até o jornalista achava graça quando vinha uma interjeição. E se esquecia de que o mais importante, que era a resposta à pergunta, começava a ser deixada de lado…

Para piorar, Dunga faz questão de, na mínima vitória alcançada, jogar na cara dos jornalistas que é “pé-quente”, “vencedor”, que tem “garra”. Palavras que, sem dúvida, são importantes na carreira de um jogador. Mas que não podem ser tão utilizadas por um treinador. Ainda mais num cargo de tanta visibilidade e tanto choque de interesse como o de técnico da seleção.

E assim Dunga começa a encaminhar-se para o crepúsculo de dois anos à frente da seleção. Vitorioso, sem dúvida, mas apenas dentro de campo. A inexperiência sempre foi apontada como uma fraqueza do treinador. A sua falta de passagens anteriores por qualquer time era vista como uma chance de fiasco à frente do Brasil.

Só que ninguém contava que a diferença poderia ser feita na inexperiência e inaptidão de Dunga em tratar com a imprensa. Diz ele que o problema foi ter cortado privilégios da Globo, cada vez mais dona do time nacional. Mas o pecado mortal foi não ter percebido ainda que o jornalista não é um inimigo, mas um meio de fazer o seu ponto de vista chegar ao público.

Quanto mais briga com a imprensa, mais Dunga prepara o seu espaço no hall de “ex-técnicos” da seleção brasileira. Independentemente do resultado do time dentro de campo.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br