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A tática da circulação da bola e as armadilhas bolivianas

 

A seleção brasileira de futebol é, em princípio, aquela no mundo do futebol, que comporta a maioria dos melhores jogadores de todo o planeta. Jogadores bem treinados, bem alimentados e bem remunerados. Muitos são unanimidades.

Dia desses a seleção brasileira (a melhor?!) jogou (pelas eliminatórias da Copa do Mundo FIFA/2010) contra a seleção da Bolívia.

A equipe boliviana que não goza do mesmo prestígio da sua adversária, teria em tese jogadores menos “talentosos” que os brasileiros. 

Antes do jogo era dada como “quase certa” pela imprensa brasileira e pelas quinas futebolescas uma vitória da equipe do Brasil (alguns apostando em uma grande vitória).

Pois bem, equipes aos seus postos e lá foi o jogo terminar em zero a zero.

A equipe boliviana, de acordo com seu modelo de jogo, estabeleceu uma estratégia bem definida. O Brasil, com uma leitura aparentemente inadequada da organização de jogo da seleção da Bolívia acabou enredado, quase sem saber o que fazer. As principais características inerentes ao futebol brasileiro (o jogo de velocidade, os passes rápidos, as mudanças de direção das faixas do campo e os dribles) acabaram sucumbindo ao sistema organizacional da equipe boliviana (que não foi nenhum primor).

Entendamos as armadilhas do jogo.

Contra a velocidade brasileira a seleção da Bolívia distribuiu-se em campo de forma compacta. Estreitou verticalmente o terreno efetivo de jogo em aproximadamente 30 metros a partir da linha 3 (linha do meio-campo). 

Com o campo efetivo reduzido, os bolivianos conseguiram manter seus jogadores sempre próximos uns aos outros (resultado: dificuldade brasileira em imprimir um ritmo rápido de jogo).

A compactação bem definida aproximou as linhas de marcação bolivianas. Isso dificultou bastante a realização de jogadas individuais (dribles e conduções de bola em direção ao gol) da equipe brasileira porque possibilitou um sistema de coberturas eficientes quase que a todo tempo no jogo – e quando as coberturas falharam; faltas táticas.

O que o Brasil conseguiu fazer (e bem!) no jogo foi a circulação horizontal da bola, da direita para a esquerda e da esquerda para a direita; principalmente nas regiões anteriores a linha 3.

E é aí que residiu o problema importante. A equipe da Bolívia se organizou ofensivamente para progressões rápidas em direção ao gol e defensivamente para impedir a progressão da posse da bola a partir do meio campo. Isso quer dizer que quando o Brasil recuperava a bola no seu campo de defesa, os jogadores bolivianos buscavam, antes de qualquer ataque à bola, uma recomposição rápida para trás da linha 3. Ali se fechavam compactos e basculavam de um lado ao outro, fechando os corredores laterais e centrais.

O que eles queriam?

Que o Brasil circulasse a bola de um lado para o outro.

O que o Brasil fez para furar o bloqueio boliviano?

Circulou a bola de um lado para o outro.

Isso quer dizer que a seleção brasileira, com a intenção de progredir à meta boliviana, acabou por apostar na manutenção da posse da bola (circulando-a de um lado ao outro) como solução ao seu problema (chegar a meta boliviana).

Em outras palavras, o Brasil se apoiou em um princípio de ataque para conseguir cumprir outro (confusão!). O pior, é que o princípio de defesa dominante da seleção boliviana, acabou por induzir a seleção brasileira a exatamente aquilo que lhe era conveniente (conveniente a Bolívia) – ou seja, aquilo que o Brasil tinha como solução (errada!) para o seu problema só fortalecia a defesa boliviana e aumentava ainda mais as dificuldades do ataque brasileiro.

A seleção boliviana talvez quisesse, antes de fazer um gol, evitar sofrê-lo. Isso não podemos dizer ao certo (só podemos fazer suposições). Certo sim, é que seu princípio operacional de defesa dominante foi adequado ao princípio operacional de ataque dominante da equipe brasileira.

Há ainda quem discurse em nome da dificuldade de se jogar contra equipes bem “fechadas”, que ficam atrás do meio-campo esperando, deixando o adversário trabalhar a bola, com tempo para pensar e tomar decisões…

Realmente deve ser mais “fácil” jogar contra equipes que pressionam, buscam o gol o tempo todo, brigam pela bola, sufocam as saídas de bola e deixam o jogo rápido; realmente… 

O que posso afirmar, sem chances de errar é que, ou equipes e treinadores buscam entender a dimensão organizacional do jogo (para identificar, alterar e influenciar princípios operacionais de ataque e defesa dos adversários, jogo e equipe) ou ainda os “novos velhos” chavões do futebol continuarão seduzindo torcidas, especialistas e profissionais do “mundo da bola”.

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

 

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O desastre em longo prazo

Caros amigos da Universidade do Futebol,

 

fechadas as janelas de transferência de jogadores de verão, as diversas questões que cotidianamente circundam o futebol profissional voltam a ser o objeto das diversas reuniões de comitês, conselhos e grupos de trabalho das autoridades competentes na Europa.

 

Uma delas, que gostaríamos de aqui tratar, é a cada vez mais precoce saída de talentos de seus clubes formadores, e a justa indenização a ser paga àqueles clubes que despendem seus preciosos recursos na formação desses jovens jogadores.

 

Como sabemos, a distribuição solidária de recursos entre clubes profissionais de futebol é uma necessidade não só para os clubes menores, que precisam de ajuda para sobreviver, como também para os grandes e poderosos clubes, que precisam de competição para atrair torcedores, patrocinadores e mídia.

 

Dessa forma, a saída “hostil” de jovens talentos de clubes formadores pode parecer um grande negócio para os grandes clubes. Mas no longo prazo, é um desastre, por não valorizar a sustentabilidade de todo o sistema.

 

A grande preocupação é que muitos dos que lucram com essas transferências não estão de fato preocupado com a manutenção a longo prazo do sistema. E é nessa medida que as autoridades desportivas, com a prerrogativa da legitimidade da auto regulação, devem intervir.

 

Algumas soluções já estão sendo implementadas. Na França, por exemplo, acaba de sair o novo regulamento da liga nacional, que obriga o jovem jogador a assinar seu primeiro contrato de trabalho com o clube formador. Foi um ato bravo por parte da Liga Francesa, mas que, como toda iniciativa pioneira, vai servir de cobaia para as demais. Alguns pontos fracos já podem ser vistos:

 

Em primeiro lugar, como o regulamento francês aplica-se tão somente a clubes daquele país (como não poderia deixar de ser), essa obrigatoriedade poderá ter como consequência prática o êxodo desses jogadores a outros países (aplicando-se, então, tão somente o Artigo 19 dos Regulamentos do Estatuto e Transferência de Jogadores da FIFA relativamente à proibição de transferências internacionais de menores de 18 anos).

 

Além disso, temos que observar que essa obrigatoriedade, caso seja levada ao judiciário francês poderá não ser exequível, pelo simples fato de que o sistema legal não admitir que seja válida uma disposição que obrigue qualquer pessoa a assinar contrato de trabalho com um determinado empregador.

 

Isso nos leva a crer que as soluções devem, em um futuro próximo, soluções devem ser alcançadas de forma conjunta pelos diversos países, através de seus representantes continentais ou mesmo internacionais. Para combater o mal pela raiz, somente ações com grande força máxima serão eficazes.

 

Pela proximidade com a sede da FIFA e a consequente facilidade no diálogo, as organizações sediadas européias sempre começam a apresentar as primeiras soluções. A UEFA, por exemplo, com a sua regra de home-grown player e a própria FIFA com o 6+5 são provas disso.

 

Temos que observar com atenção essas movimentações, e tropicalizá-las no Brasil. Isso porque se o problema existe no resto do mundo, no Brasil os reflexos são diretos. A qualidade da nossa competição nacional está em jogo.

 

Temos que manter os jovens jogadores no Brasil por mais tempo. O nosso futebol agradecerá, e os jogadores também. É claro que exceções vão sempre existir, e serão inevitáves. Mas a regra tem que ser outra. Menores de 18 anos, para dizer o mínimo, devem permanecer no Brasil.

 

Quem não for a favor dessa proposição, certamente não está preocupado com a sustentabilidade e perpetuação do nosso “beautiful game”.


Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

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Mudanças consolidadas

Fabio, Rafael, Rodrigo e Vitor. Esses são os nomes que simbolizam o estado atual mercado de transferências de jogadores brasileiros.
 

Foram, possivelmente, as mais importantes transferências internacionais do futebol brasileiro no ano. Os três primeiros para o Manchester United, e o último para o Liverpool. Saíram, respectivamente, do Fluminense (os dois primeiros), do Internacional e do Botafogo-SP.
 

Talvez você nem saiba quem são. E talvez por isso mesmo você ache que eles não são muito importantes.
 

Ok, talvez eles nem sejam realmente importantes, até porque os gêmeos Fábio e Rafael não chegaram a jogar uma partida pelo Fluminense, o Rodrigo Possebon também pouco apareceu no Internacional e ninguém jamais tinha ouvido falar do Vítor Flora do Botafogo de Ribeirão Preto. E é justamente por isso, pelo fato de eles serem muito jovens e jamais terem aparecido antes pro grande mundo da bola, é que a transferência deles é tão simbólica.
 

O Liverpool e, principalmente, o Manchester United, não são burros. Muito menos quando se fala de contratar jogadores. E, seguramente, os quatro não foram contratados a esmo. Todos eles têm talento. Uma pesquisa rápida na internet faz você mesmo perceber isso. E, aparentemente, não precisam estourar em um grande time profissional para comprovar isso.
 

Os grandes clubes de futebol do país sempre se fortaleceram com o mercado de transferências por serem uma vitrine para o mundo. Os jogadores que disputam partidas com as camisas desses times aparecem em diversos canais e massificam a exposição para diversos mercados. Um jogador do Palmeiras, por exemplo, vale mais do que um jogador do Guarani, mesmo que tenham exatamente o mesmo talento, porque a) ele é visto por mais compradores e b) porque o fato de ele jogar pelo Palmeiras dá uma espécie de certificado de qualidade que hoje o Guarani infelizmente não pode oferecer.
 

Entretanto, a qualidade desses dois jogadores, nesse caso, é a mesma. Mas o preço de uma marca infla, e muito, o valor de um deles. Atentos a isso, os grandes clubes começam a buscar o talento antes que o impacto da marca valorize o atleta. Com a evolução dos métodos de reconhecimento de talento, essa é uma prática cada vez mais comum, o que significa na evasão de atletas do mercado brasileiro antes que eles tenham que passar pelas categorias profissionais.

Anteriormente, isso acontecia de uma forma por vezes acidental, como é o caso do Eduardo da Silva, do Arsenal, e do Cribari, da Lazio. Agora, porém, há indícios de que seja um processo planejado. E isso é temeroso, porque é uma tendência que tem tudo para se consolidar, porque ela envolve um processo racional focado, principalmente, na redução de custos de um mercado super-inflacionado. E quando você descobre a solução para obter o mesmo produto por um preço menor, você também descobre um jeito de alterar o mercado.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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Google e o egoísmo no futebol brasileiro

O mundo da infoera tem se curvado as peripécias e ousadia dos rapazes que em 1998 não conseguiram vender um site de busca que haviam desenvolvido e resolveram montar uma empresa nos EUA de nome Google.

De lá para cá, os produtos e serviços que a Google desenvolve no mundo da internet têm dominado o mercado e muitas vezes tomado o espaço de concorrentes gigantescos como a Microsoft e o Yahoo. Qual o segredo desse sucesso? E o que isso tem a ver com tecnologia e futebol.

Muito mais do que se imagina, pelo menos sob o ponto de vista da estratégia e visão de futuro, que permitem a empresa lançar-se na frente das demais com atitudes e decisões que beiram a contradição, ao menos para os olhos de nós, leigos no mercado, e inclusive de alguns ditos experts.

Para quem não conhece Google além do nome da empresa é nome de seu pioneiro produto de busca na internet, aquele no qual procuramos tudo o que queremos e não queremos, é a empresa de servidor de email Gmail, do Orkut, do Youtube, do Google Maps, do mais recente lançamento Chrome, e por ai vai.

E todos eles são serviços gratuitos que, em boa parte, antes de seus lançamentos eram serviços privados de seus concorrentes. E quem nunca se perguntou diante dos fatos: Como a Google ganha dinheiro com serviços oferecidos gratuitamente e com praticamente nada de publicidade?

É um pouco dessa visão que falta aqueles que deveriam investir em tecnologia, e por que não no futebol profissional de maneira mais ampla. Não! Não significa buscar na gratuidade a solução, mas sim nas estratégias criativas que viabilizem projetos e auxiliem na captação dos recursos, tão escassos para questões sérias e importantes no futebol, haja visto que tal escassez torna-se abundância quando pensamos em outras finalidades.

Mas a Google poderia ensinar muito mais ao futebol. Numa recente disputa de mercado a sua concorrente Microsoft articulou a compra da também gigante Yahoo, que vinha em declínio e desvalorização, fusão essa que causaria grande impacto no mercado.

Quando todos esperavam um posicionamento forte da Google perante às leis para evitar o poderio que se formaria, a empresa mais uma vez viu de forma criativa uma solução. Através de um acordo, ofereceu à Yahoo o uso de seu mecanismo de busca, elevando as receitas de ambas as empresas. Essa valorização da concorrente fez com que a Microsoft esfriasse o interesse.

Oras, a Google poderia ter brigado e tentado impedir legalmente a junção, ou até mesmo pleitear adquirir a Yahoo, mas compreendendo que o investimento no mercado como um todo, ainda que gere lucros para os concorrentes (no caso a Yahoo) é também muito vantajoso para si mesmo.

Calma amigo, se não desistiu do texto até aqui, começo a deixar mais claro o que pretendi mostrar com esse exemplo.

A visão estratégica de uma empresa de tecnologia, que vê no crescimento do mercado e na concorrência, o espaço para o próprio crescimento, mostra ainda que  a capacidade de pensar, de utilizar a criatividade no uso dos recursos e da própria tecnologia é que faz a diferença.

Remeto imediatamente a um serviço prestado na Inglaterra para Manchester United e Chelsea. Cada equipe tem na sua arena um aparato tecnológico que permite acesso a um incomensurável número de informações técnicas, táticas e física dos jogos. De comum acordo, e com uma visão similar a do Google, de o que faz a diferença é o uso que se faz da tecnologia e não a tecnologia em si, abrem as informações quando jogam como mandante para que o adversário utilize da tecnologia em seu estádio.

Seria muito comum, se pensarmos no Brasil, um time mandante usufruir unicamente das informações, vetando o acesso a seu adversário. Mas estão errados os ingleses? Jogando fora, conseguem receber informações, ainda que tenham que abri-las quando jogam em casa.

É ai que mora a consciência do mundo moderno de informação e tecnologia, mais vantajoso é investir e  desenvolver o setor  como um todo. Os méritos ficam para quem usa melhor e sabe como transformar dados em solução prática.

Bom, nos resta esperar que alguns rapazes resolvam fazer uma Google no futebol brasileiro, e que estes não sejam vistos como loucos sem a menor noção do que estão falando…

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

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O deus Dunga

Se o resultado de Chile x Brasil tivesse sido outro que não os 3 a 0 para o time de Dunga, o título desta coluna precisaria substituir apenas o “o” pelo “a”. Sim, porque, para variar, a imprensa brasileira que já previa o adeus de Dunga antes da partida deu mostras de que, agora, o técnico do time nacional está mais próximo do Olimpo.

A bronca do presidente Lula durante a semana serviu, mais uma vez, para que os jogadores dessem garantias de manchetes à imprensa e ao mesmo tempo encontrassem a motivação perdida para mostrar pelo menos um pouco de vontade de defender a seleção. Com isso, obviamente, a vitória veio fácil, fácil, como há muito não se via.

Até mesmo a frustração de Ronaldinho Gaúcho de ser substituído por um lateral (!) quando o time tinha um jogador a menos será agora explorada como sinal de que a seleção voltou a ser uma Seleção, com S maiúsculo!

O problema existe desde que a imprensa começou a cobrir o futebol. A interferência dos jornalistas sobre a seleção brasileira nunca foi a exceção, mas a regra que ditava o bom rumo do time brasileiro. Que o diga a Copa de 1958, quando Paulo Machado de Carvalho usou um colegiado de profissionais da imprensa para ajudá-lo no comando do time campeão do mundo.

Só que, nos dias de hoje, a cobrança exercida sobre o treinador da seleção chega a ser fora do comum. Escalação, convocação, não-convocação, convicção. Tudo é motivo para crítica. Dunga perdeu pontos com o “fiasco” olímpico. Não se questionou que, com uma seleção remendada e sem treinamento, ele conseguiu levar o time ao pódio olímpico, mais ou menos como Klinsmann fez com a Alemanha na Copa de 2006 (e que credenciou Dunga a assumir o Brasil).

O trabalho do jornalista é pautado pelo resultado. E só. Nesta segunda e até quarta-feira, os colegas que estarão enfurnados na Granja Comary para os treinos até o jogo contra a Bolívia só vão perguntar o que Dunga fará com o trio que deu a vitória sobre o Chile: Diego, Robinho e Luis Fabiano.

E, daqui a pouco, o processo de canonização virá. Com direito a discussão se não é hora de barrar medalhões como Kaká do time, já que a palavra do “capitão do tetra” terá mais peso do que qualquer histórico recente na seleção.

Nesta semana ninguém mais vai questionar a seca de gols que existia, a falha em Pequim, ou as broncas do presidente Lula. Do adeus próximo, Dunga vira deus. Até a próxima rodada complicada que terá pela frente… Sorte a dele, pelo menos, que o furacão de enfrentar o Paraguai fora, a Argentina em casa e depois as Olimpíadas já passou.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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A velocidade tática e as fases sensíveis do desenvolvimento atlético

Avançar em conceitos e paradigmas com raízes profundas não é coisa fácil.

Um grande pensador e professor amigo meu costuma dizer que nós seres humanos quando nascemos somos como uma garrafa quase vazia. Muito espaço para ser preenchido, pouca coisa já bem estabelecida.

Nós (humanos!) vamos preenchendo-a por toda vida. Lemos, assistimos, estudamos,escutamos, experimentamos; a cada nova vivência, a cada novo estímulo, mais um passo em direção as verdades que vamos construindo.

Pois bem. Com tantas verdades sendo construídas, nada mais normal do que a existência freqüente e permanente de choques de idéias; ainda mais quando o assunto é futebol.

Um tema recorrente e já abordado por mim em pelo menos outras duas oportunidades “ressuscitou” nesta semana em uma “mesa redonda” (organizada por uma instituição de ensino superior em São Paulo) com estudiosos do treinamento desportivo.

Existe um grupo de pesquisadores/cientistas que acredita que jogadores de futebol precisam desenvolver de forma maximizada a velocidade cíclica. Defendem a idéia de que tal capacidade deve ser potencializada principalmente em sua fase sensível (segundo alguns autores aos 12 e 13 anos de idade).

O principal argumento é de que ela poderia potencializar a velocidade de jogo (e que mesmo que isso não fosse verdadeiro, sua melhora não traria prejuízo algum na forma desportiva do jogador de futebol). Outro argumento, talvez mais sedutor, trata logo de lembrar que se um jogador que estiver em processo de formação, tornar-se no futuro um zagueiro, precisará ter aproveitado desenvolver a velocidade cíclica em sua fase sensível – pois, por exemplo em um lançamento em um jogo, poderá necessitar “vencer” um atacante chegando na frente dele (correndo mais rápido do que ele!).

Sedutor, porém com um erro conceitual grave.

Antes de me explicar, posso afirmar que em mais de 500 avaliações físicas (avaliando sprints de velocidade) que presenciei ou tive acesso de alguma forma aos resultados, na maior parte delas os zagueiros foram e eram mais lentos em corridas de velocidade cíclica (em distâncias que variaram entre 15 e 45 metros) que os atacantes, laterais e meias. Os atacantes em geral eram os mais rápidos. Ou seja, os jogadores mais lentos acabam por confrontar em boa parte dos jogos os seus “pares” mais rápidos.

Destino cruel…

Então, claro, estariam certos meus amigos pesquisadores: como aos 12 ou 13 anos ainda não se sabe ao certo qual a posição esse ou aquele jogador assumirá no futuro, melhor mesmo é desenvolver o máximo possível a velocidade cíclica.

Gostaria então antes de mais nada relembrar mais uma vez que o futebol é um jogo em que a defesa sobressai ao ataque. Muitas seqüências ofensivas, muitas ataques, poucos gols. Diversos são os motivos. Não vou discuti-los hoje. Fato mesmo é que de alguma forma nossos jogadores “tartarugas cíclicas” (devo chamá-los assim?) têm conseguido levar vantagem sobre os nossos “papa-léguas”.

É óbvio que o zagueiro (ou qualquer defensor de uma equipe) precisa diversas vezes no jogo vencer os atacantes adversários; em muitas situações tendo que chegar na frente. Mas, volto a lembrar: chegar mais rápido (ou primeiro, ou na frente) não significa correr mais velozmente.

E aí está o ponto. Ao invés de potencializar a habilidade do jogador de ser mais rápido, independente da situação-problema do jogo (pela estruturação do espaço, pela comunicação coletiva na ação, pela fundamentação técnica; ou por alguma competência específica mal desenvolvida) a preocupação torna-se “física”.

É preciso que fique claro que não é necessário que se atinjam níveis elevados dessa ou daquela capacidade física isolada para se jogar futebol em alto nível de excelência. Pensa-se em melhorar a resistência física, a força física, a velocidade física. Dever-se-ia pensar em potencializar a resistência de jogo, a força de jogo, a velocidade de jogo; e quando escrevo jogo me refiro a algo muito mais amplo e profundo do que olhá-lo sob a perspectiva física ou do senso comum.

Jogar não é correr ainda que haja no jogo corridas. Jogar não é saltar ainda que haja no jogo saltos (tocar piano não é flexionar os dedos ou o carpo, ainda que haja no tocar piano flexão dos dedos e do carpo).

Preenchamos nossas garrafas. Muita atenção sempre com o que vai para dentro dela. E principalmente, cuidado para nunca esquecer que o nível sempre vai estar distante da boca; porque se acreditarmos que a garrafa ficou realmente cheia, teremos chegado ao fim, ao nosso fim.

è  Enchendo a minha garrafa

O autor do texto que vos escreve dá aulas de Bioquímica e Fisiologia do Exercício nos cursos de especialização da UGF. É professor de Teorias do Treinamento Desportivo e de Metodologia do Ensino do Futebol. Está terminando seu Doutorado em Ciências do Esporte. Aprendeu que o ser humano não é biológico, não é exato, nem sequer mesmo é “humano” (ainda que seja HUMANAMENTE DE BIOLOGIA (IN)EXATA, (IN)EXATAMENTE DE HUMANIDADE BIOLÓGICA, BIOLOGICAMENTE DE (IN)EXATIDÃO HUMANA). Não resolveu ser do contra, apesar de vez ou outra “cutucar” seus pares acadêmicos. Costuma dizer que sua garrafa ainda está vazia, mas que com empenho chega à metade até os 70. Depois sua humanidade biologicamente inexata é quem dirá…

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Ausência

Caro leitor,

Informamos que a coluna de André Megale não será publicada nesta sexta-feira e aproveitamos o espaço para pedir desculpas pelo infortúnio.

Esperamos que a situação seja normalizada na próxima semana e estamos trabalhando para isso.

Obrigado!

Equipe Cidade do Futebol

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Inesperado

Eis que, no apagar das luzes da janela de transferência, o mundo do futebol sofreu uma abrupta transformação.

E não, não tem nada a ver com a janela em si ou com a transferência de algum jogador em particular, até porque a janela foi fraca como há muito não se via. Basta ver que para boa parte dos maiores clubes, pouca coisa mudou. Apesar da contratação do Berbatov, a grande tacada do Manchester foi manter o Cristiano Ronaldo. Apesar também da contratação do Ronaldinho, a grande tacada do Milan foi manter o Kaká. O mesmo vale pro Arsenal, que não perdeu o Adebayor e nem o Fábregas, pro Liverpool, que manteve o Fernando Torres, e para o Werder Bremen, que segurou o Diego. A coisa só não é a mesma para a Inter, para o Chelsea e para o Bayer porque eles contrataram novos técnicos, e só.

O único clube que talvez tenha fugido da regra foi o Real, mas não porque contratou o Van der Vaart, e sim porque vendeu o Robinho. Robinho, aliás, que faz parte da mudança anunciada ali no primeiro parágrafo. Não o Robinho em si, entenda, mas sim o que motivou a sua contratação. No caso, a compra do Manchester City pelo Abu Dhabi United Group.

Essa ninguém previa. Não que o ADUG tenha aparecido do nada, muito pelo contrário. Afinal, eles já tinham tentado comprar o Liverpool, o Arsenal e até o Newcastle. O que ninguém imaginava é que alguém iria comprar justo o Manchester City do Shinawatra, que por sua vez está cada vez mais enroscado com a justiça.

Foi, de longe, a grande transferência da temporada. Grande mesmo. De um dia pro outro, o Manchester City virou o clube mais rico do mundo. Muito, mas muito mais rico que o próprio Chelsea, que já era rico. Perto dos xeiques árabes, Abramovich parece um mendigo. Basta comparar. A fortuna do russo é estimada em 20 e poucos bilhões de dólares. O Abu Dhabi Investment Authority, fundo que controla o ADUG, tem quase 900 bilhões. É tão superior que levou o Robinho, que já tinha quase tudo certo com o Chelsea. E Abramovich ficou de mãos abanando, coisa com a qual, convenhamos, ele não está muito acostumado.

Como todo novo rico do futebol, os árabes começaram a investir pesado. O primeiro da leva foi o Robinho, por 32 milhões de libras, a maior transferência da história do mercado inglês. Agora, já se fala em uma proposta de 135 milhões de libras pra fazer o Cristiano Ronaldo atravessar a rua e trocar o lado vermelho pelo lado azul da cidade. Quase 500 milhões de reais para contar com um jogador por 05 anos. Coisa de quem tem dinheiro e quer mostrar. Coisa de novo rico.

Os efeitos da entrada do ADUG na indústria podem ser bons ou devastadores. Pelo lado positivo, ele vai injetar mais dinheiro num mercado que estava se aproximando de uma grande crise. Por outro, ele vai inflacionar ainda mais os valores de transferência e o salário de jogadores. Robinho virou o jogador de futebol mais bem pago do planeta. E se eles contratarem o C. Ronaldo? E o Kaká?

Para piorar, o ADUG, ao contrário de alguns recentes donos de clubes, como os estadunidenses do Manchester United, não estão nem aí pra ganhar dinheiro. O que eles querem é ganhar respeito e notoriedade no mundo do futebol. E no mundo do futebol, tudo tem um preço, principalmente respeito e notoriedade. O futebol mundial tem um novo dono. Curvemo-nos ao Manchester City.

Nunca imaginei que um dia eu escreveria uma frase como essa.

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Querida encolhi os atletas! Chuteiras galácticas para os… ah! Os jogadores

Onde está a tecnologia no futebol? Em que aspectos ela está mais avançada? Ela inexiste nesse universo? Seria o futebol um vácuo, no qual a tecnologia não se propaga?

O futebol sem dúvida envolve uma gama de vertentes e variantes: o espetáculo, o business, a performance, entre outras. É símbolo daquilo que o historiador e sociólogo francês Pierre Bourdieu define como campo esportivo, gerador de tantas funções e interesses que despertam de sua prática – os atletas, os jornalistas, as empresas de material esportivo, os empresários, e por ai a diante.

O que mais me chama atenção é a estratosférica distância que se estabelecem nesses campos em torno do futebol em relação aos avanços tecnológicos. A tecnologia está presente no futebol, sim! E com muito investimento! – O amigo que acompanha os textos dessa coluna deve estar confuso e estranhando, já que tenho sido tão crítico a falta de tecnologia na nossa querida modalidade, mas é ai que mora o grande abismo.

A tecnologia atinge algumas dessas vertentes. Não temos dúvida dos recursos e investimentos que são gastos para o desenvolvimento dos uniformes, da bola, das caneleiras, luvas, e a estrela maior da indústria do material esportivo, nada mais nada menos que ela… a chuteira.

De fibras de carbono, a titânio, de borrachas especiais a couro inimitável, com flexibilidade inigualável, ajustada aos pés dos maiores ídolos, testados impacto a impacto, estudada biomecanicamente em função das ações especificas, permitindo caracterizar uma chuteira em função do estilo de jogo do atleta, se ele corre mais com a base do calcanhar, utiliza mais força para o chute, se é mais técnico na corrida, enfim a chuteira é desenvolvida considerando cada ossinho, músculo e tendão em movimento.

Mas o que nos preocupa não são esses avanços, nem tantos outros importantes que já ocorrem como a evolução da grama, sistemas de irrigação, sem contar sistemas de avaliação física que tem se aprimorado cada vez mais. Somos extremamente favoráveis aos avanços, desde que não se esqueçam de uma figura importante nesse processo.

Algumas dessas vertentes do campo esportivo, no caso mais especifico o futebol, às vezes esquecem “daquilo” que está justamente atuando sobre o outro campo, aquele verde no qual coexistem com chuteiras e uniformes o que nos acostumamos chamar de atleta. Ah! Acaba parecendo que encolhemos esses atletas e o que vemos é um futebol praticado por chuteiras e uniformes.

Mas o amigo pode achar uma injustiça, alegando que muitas das tecnologias aplicadas visam justamente a melhoria de performance do atleta e que outras tantas atuam diretamente no atleta. Em tempo, é necessário frisar que tanto umas como outras têm como foco a melhoria do desempenho, considerando o atleta simplesmente como um instrumento no qual devem ser aplicados recursos para otimizar o desempenho, seja direta ou indiretamente.

Partindo do conceito de tecnologia que fundamenta nossas idéias, relembrando, tecnologia é processo e recurso que buscam otimizar os objetivos, até parece-nos adequado os grandes investimentos em alguns campos específicos do futebol. Mas o fato é que alguns dos principais fatores que deveriam ser considerados acabam ficando relegados nessa corrida de inovação tecnológica desordenada no mundo do futebol.

O que determina um resultado do jogo? Ah se eu tivesse a resposta, estaria milionário! Mas tenho convicção que dentre as variantes que influem significativamente estão as questões técnicas e táticas. E quem é o grande responsável por essas questões? Tchazan! O atleta, o mesmo atleta que utiliza as chuteiras galácticas desenvolvidas pela tecnologia, sobre gramados milimetricamente elaborados e estudados, e sobre o qual são aplicados os recursos mais fantásticos para otimizar sua performance.

Mas onde está a tecnologia para otimizar aquilo que pode ser o grande diferencial de um atleta que treina as mesmas coisas, com os mesmos recursos tecnológicos que os outros, mas que o torna diferente, aquilo que permite a imprevisibilidade através de elementos técnicos e táticos. Que se busque valorizar tais questões na formação do atleta. Não mais apenas pela altura ou força, mas pela capacidade de compreender um jogo.

Alguns poderiam dizer que é loucura falar em tecnologia para as questões de inteligência e dom dos atletas. Concordo, ainda que a genética já esteja por ai e não imaginamos o que pode vir de positivo e negativo dela.

Mas o que já é possível falar sobre a tecnologia nesse processo (olha aí um dos termos que definem tecnologia), é uma das coisas mais valiosas atualmente: INFORMAÇÃO.  Alguém dúvida do que pode ser feito para armazenar, tabular, organizar, traçar tendências, identificar padrões, etc, etc, etc com a tecnologia que dispomos hoje? Eu não! Duvido apenas da capacidade dos homens do futebol (sempre há exceções, que não se sintam ofendidos aqueles que aqui se encaixam, nem que se considerem aqui presentes aqueles que não devem) de transformar tudo isso em informação.

Até lá torço para que nossos atletas mantenham suas técnicas e táticas bem armazenadas com os recursos tecnológicos presente em seus cérebros, para que não sejam encolhidos até o ponto do que uma vez Umberto Eco imaginou como o futuro das copas do mundo: um futebol de robôs, confrontando marcas, tecnologias…

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Marca forte

Um dos principais fatores para o fortalecimento da marca de um clube é, necessariamente, os ídolos que por ele passam. Jogadores que marcam a sua história no futebol e que reforçam momentos vitoriosos do clube são aqueles que, invariavelmente, elevam o nome da instituição onde quer que vão.

No último final de semana, a cidade de East Midlans, na Inglaterra, recebeu a abertura da Superleague Formula, competição entre carros que representam clubes de futebol. Foi o início do que pode se chamar de grande sacada esportiva, numa mistura de duas paixões mundiais: carro e futebol.

Mas do que adianta fazer uma corrida de carros de futebol se o que é mais precioso na história de um clube, que são os ídolos, não estiverem presentes. Foi assim que pensou o Milan, que faz parte da Superleague e que hoje é um dos mais avançados clubes em termos de marketing.

Em meio ao paddock, sala de imprensa e área VIP do autódromo de Donington, circulava entre as pessoas Franco Baresi. Sim, aquele zagueiro, que fez o Milan aposentar a sua camisa de número 6, aquele que Romário classificou como o jogador mais difícil que enfrentou durante toda a carreira.

Baresi estava lá, curtindo a prova, conversando com os jornalistas, sendo solícito aos pedidos para tirar fotos e dar entrevistas. Baresi cumpriu sua função como embaixador do Milan. Ajudou a reforçar a marca do clube na estréia milanista no automobilismo. E, também, ampliou a cobertura da mídia para o início da Superleague.

Por essas e outras que o futebol da Europa, cada vez mais, se assimila às ações de marketing das grandes ligas esportivas americanas. Em busca da massificação de um esporte, o Milan levou para a Inglaterra um dos jogadores que mais representa a história de seu clube. Foi o único, entre os 17 que participam da competição, a ter uma idéia parecida.

O Flamengo, em peso, esteve em Donington. Marcio Braga e Ricardo Hinrichsen, respectivamente presidente e vice-presidente de marketing. E Zico, Junior ou qualquer outro bom representante do clube Rubro-Negro?

O sucesso da estréia de uma nova modalidade que reúna clubes de futebol passa, necessariamente, pela exploração comercial das fortes marcas que são os clubes. Do contrário, será mais uma boa idéia jogada no lixo…

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