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Sessenta milhões e quinhentos mil euros. Aproximadamente cento e cinqüenta milhões de reais.
Esse é o total da dívida dos clubes espanhóis da primeira e segunda divisão com jogadores. Como uma boa parte dos clubes devedores pediu falência, isso significa que uma parcela significativa desse montante não será pago.
Tudo isso lá na Espanha, país de primeiro mundo e recém-expoente do mundo esportivo, seja pela Olimpíada de Barcelona ou pelo Real Madrid, Barcelona, Nadal e Alonso. Apesar de isso por vezes suscitar que a Espanha é um modelo esportivo a ser seguido, esse fato indica que não.
Não que isso seja um fenômeno isolado do futebol espanhol. Acontece também, e muito, na Inglaterra. Clubes não conseguem arcar com as dívidas, contraídas principalmente por culpa da necessidade de contratar e pagar jogadores, e acabam decretando falência.
Lá na Inglaterra, isso acontece muito porque os custos de disputar a Premier League. Para que um clube recém promovido consiga ter um mínimo de esperança em se manter na PL do ano seguinte, ele necessita investir pesado em jogadores. Obviamente que esse investimento muitas vezes não é sustentável. Quer dizer, quase nunca é sustentável. Aí, como o time está num mercado de transferências com certa escassez de talento, ele acaba fechando contratos longos com os jogadores. Mas aí, quando o clube volta pra Segundona, ele tem que arcar com as despesas de salário do ano anterior. Como a diferença de receita da Premier League pra Championship League, a Segundona, é absurdamente grande – principalmente por causa do contrato de TV, ele não tem como arcar com os custos, e aí decreta falência.
Esse problema ficou tão grande que a Premier League teve que tomar duas medidas: 1) Institui o chamado ‘pagamento pára-quedas’ para amenizar o impacto do rebaixamento. Com esse pagamento, o clube que cai de divisão tem direito a uma pequena parcela da receita dos clubes da PL, de forma que ele tenha menos dificuldades para lidar com a nova realidade. Com isso, a PL consegue evitar que os clubes rebaixados quebrem tão facilmente e torna o negócio um pouco mais sustentável. E 2) Qualquer plano de recuperação falimentar precisa priorizar o pagamento dos jogadores. Antes de qualquer outro credor, quem recebe a grana de uma futura reestruturação do clube, o pelo menos daquilo que estiver sobrando no bolso, para pagar jogadores. Com isso, a PL dá condições, ainda que mínimas, para evitar o problema que acontece hoje na Espanha.
Isso é um processo natural, uma vez que, em um mercado de competição, com grandes somas de dinheiro vêm grandes desigualdades.
É aquela velha história. Existem males que vêm para bem. E bens que vêm para mal. E males que vêm para mal. E bens que vêm para bem.
Enfim, você entendeu.
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Sem intenção
Eu dormia quando senti baterem em meu ombro. Acorda! Esfreguei os olhos e lembrei a Oto, meu morcego de estimação e confidente, que não gostava de ser acordado durante os jogos amistosos da seleção. Era quando eu tirava os atrasos de sono.
“Mas é importante”, guinchou o morceguinho. “Também dormi e só acordei agora, quase no fim do jogo”.
“O que é então?”, perguntei, e ele contou que teve um pênalti marcado pelo juiz no começo do segundo tempo e o comentarista da TV disse que não o apitaria porque o zagueiro não teve a intenção de derrubar o atacante.
“Ah, Oto! Isso não tem a menor importância”, respondi sonolento. Aquele assunto me aborrecia, pois eu não suportava essas conversas de comentaristas de arbitragem. Dei uma desculpa qualquer e voltei a me concentrar no sono.
Mas o morcego continuou tagarelando no meu ouvido: “Como é que a gente pode saber qual é a intenção do outro? O juiz consulta o jogador antes de apitar?”.
Oto tinha razão: aquilo não fazia sentido. De qualquer maneira o quiróptero não me daria trégua mesmo, a TV passava os melhores piores lances e resolvi acordar de vez. “Vamos ao dicionário”, convidei.
Fomos ao Houaiss, que nos foi de pouca ajuda. Disse-nos que intenção é aquilo que se pretende fazer. É um propósito, um plano, uma idéia, uma coisa que está lá dentro de cada pessoa. Se é assim, como podem os juízes e os comentaristas de futebol saber o que se passa dentro dos jogadores? Ainda mais no tempo tão curto de uma jogada. O léxico nos sugeriu ainda saltar da página 1631 para a 2692: lá estava o antepositivo tend, que quer dizer dirigir-se para, tender para, inclinar-se. De forma que a tarefa do juiz seria perceber qual a inclinação do jogador quando ele toca a mão na bola dentro da área, por exemplo, ou qual a sua tendência.
Quem sabe suas excelências, os senhores árbitros de futebol, não possuam uma competência inata de ler nas expressões faciais, nas torções corporais ou tensões manuais dos jogadores suas intenções de cometer ou não penalidades?
O pior é que quando uma coisa entra na minha cabeça ela só sai quando fica resolvida. O sono não voltaria mais enquanto a intenção estivesse ocupando meu cérebro. Decidido, chamei o morcego: “Vamos ao Merleau-Ponty”, eu disse.
“Quem?”, perguntou o morcego.
“Aquele do livro grosso, vermelho, que fica ao lado direito da minha escrivaninha”, respondi.
O filósofo da fenomenologia da percepção não é fácil. Deu-nos trabalho garimpar o que havia nele para nos ajudar a entender melhor nossos queridos comentaristas especializados e juízes de futebol quando julgam as ações dos jogadores pelas intenções (ando desconfiado de que essa coisa de julgar intenções é mais dos comentaristas que dos juízes). Valeu a pena, mas nos causou uma enorme surpresa: o pessoal da TV tem razão e fui eu que os julguei mal. De fato, há uma intenção contida em tudo que desejamos. Portanto, ao observador meticuloso talvez não escape a intenção por trás de um chute, de um esbarrão, ou de um carrinho dado por um jogador de futebol. Sei que não é fácil perceber isso no átimo de tempo que dura uma jogada decisiva, mas essa dificuldade acomete somente a nós, simples mortais; aos especialistas da bola, escudados por seus microfones e apitos, é perfeitamente possível.
O Sr. Merleau-Ponty ainda nos disse, trocando em miúdos, que tudo aquilo que nós explicamos sobre alguma coisa é verdadeiro, pois pensamos de acordo com nosso ponto de vista. Portanto, todas as vezes que o juiz e o comentarista julgarem a intenção do ato cometido pelo jogador, eles acertam. Não há como errar, pois, na verdade, eles estão julgando suas próprias intenções e não as dos jogadores.
A essa altura Oto se descabelava, ou melhor, eriçava todos os pelos da sua cara de rato. Demorei a tirá-lo do estupor: “Vamos, Oto, vamos falar com Aurora, nossa reserva de sabedoria”.
“De jeito nenhum!”, retrucou o morcego. “Aquela megera de rapina quer me comer com rodelas de batata! Bem sei”.
Com muito custo, levei-o à entrada da caverna e chamei a coruja. Ela nos atendeu, sempre gentil, Oto escondido no bolso de minha camisa, e lhe contei o que nos atormentava.
“Tenho uma idéia”, ela disse. “Em minha toca mantenho um aparelho de TV aparentemente igual aos outros, mas que pode ser sintonizado em um canal diferente de todos os demais. Ele realiza na tela nossos desejos. Quase nunca o assisto porque ele sempre me causa decepções profundas”.
“Decepções com quem?”, perguntei.
“Comigo mesma”, respondeu Aurora.
“Pois eu gostaria de ver um jogo apitado por um juiz segundo as intenções dos jogadores”, eu disse. “Só tem um detalhe: eu queria levar Oto comigo, mas ele acha que na primeira oportunidade você vai transformá-lo em banquete”.
“Bobagem!”, ela disse. “Ele é cismado comigo. Eu jamais faria mal ao seu melhor amigo”.
Consultei Oto, ele concordou, e lá fomos nós para o buraco de Aurora. Esgueirei-me com dificuldade pela abertura da toca. Lembrei-me que preciso diminuir a cerveja e aumentar as caminhadas. Lá dentro, para minha surpresa, abria-se um amplo e confortável salão. Ao lado de um sofá florido estava o televisor, aparentemente normal, até que a coruja sintonizou o canal Z33. Um jogo de futebol começava. De um lado uma equipe toda de vermelho, do outro uma de amarelo, no centro, o árbitro, de negro.
No começo, nenhuma novidade: bola para cá, bola para lá, a partida seguia morna, até mesmo enfadonha. De repente um dos alas da equipe vermelha cruzou a bola na direção da área adversária e ela tomou rumo inesperado. O goleiro esticou-se todo, mas a redonda alojou-se caprichosamente no canto superior direito. Gol! Não, o juiz apitou somente tiro de meta.
Vaias da platéia, protestos dos jogadores de vermelho, uma confusão danada, mas não teve jeito. Segundo sua excelência, não era intenção do ala fazer o gol, mas sim cruzar; o goleiro, sem dúvida, teve a intenção de defender a pelota.
Nova saída, bola do time amarelo e o volante avançou pela direita. Ele serviu o centroavante, que, na hora de fazer o giro na direção do gol, foi travado pelo zagueiro. Pênalti claríssimo! Mas o juiz mandou a jogada seguir. A confusão foi maior ainda. Teve torcedor invadindo o gramado, veio a polícia, mas não adiantaram os protestos. Segundo sua excelência, a intenção do zagueiro era apenas pegar a bola, jamais o adversário.
No seguimento da jogada, a equipe vermelha, com três toques, deixou o meia-atacante na cara do goleiro. O afoito volante de contenção dos amarelos veio correndo por trás, desceu-lhe o sarrafo e não acertou nada. O meia passou pelo goleiro e saiu com bola e tudo pela linha de fundo. “Pênalti!”, assinalou o austero juiz.
Passo seguinte, ele foi cercado pelos jogadores de amarelo, tomou três ou quatro empurrões e, imediatamente expulsou um zagueiro que nem se aproximou dele. N
ão se aproximou, mas, segundo sua excelência, tinha a intenção clara de dar-lhe um soco, via-se em seu semblante. E, sem qualquer sombra de dúvida, o volante amarelo premeditou a falta na área; só não a concretizou por falta de habilidade, mas seu comportamento traduzia com perfeição suas más intenções.
ão se aproximou, mas, segundo sua excelência, tinha a intenção clara de dar-lhe um soco, via-se em seu semblante. E, sem qualquer sombra de dúvida, o volante amarelo premeditou a falta na área; só não a concretizou por falta de habilidade, mas seu comportamento traduzia com perfeição suas más intenções.
Nem a penalidade foi cobrada, nem o jogo prosseguiu. Sua excelência saiu de campo escoltado pela polícia, aos berros e aos chutes dos jogadores de ambas as equipes, e sob uma chuva de celulares. Ao todo, a partida durou exatamente 13 minutos. Fora do estádio a polícia prendia todos os torcedores que, segundo ela, tinham a intenção de criar algum tipo de confusão.
Eu e Oto estávamos aos berros, possessos, decepcionados.
“Esse juiz é louco”, gritava o morcego. “O seu Merleau-Ponty diria que, num caso desses, o juiz estava era apitando suas próprias intenções. Assim não há torcedor que agüente!”.
E já nos preparávamos para sair quando percebi que Aurora se mantinha estranhamente calada. Esgueirando-se, aproximara-se e estava a menos de um passo de mim. Oto, confiante nas garantias oferecidas pela coruja e excitado pelo jogo, saíra de meu bolso e, depois de esvoaçar pelo salão, pousara em meu ombro esquerdo. No exato instante em que eu me levantava do sofá, Aurora deu o bote.
Só deu tempo de eu me virar para a direita e colocar minha mão entre o bico da ave e o pescocinho do quiróptero. A bicada furou-me o dedo. Com o sangue escorrendo, investi contra Aurora. Peguei-a pelo pescoço e gritei: “Você disse que eu podia confiar em você. Oto poderia estar morto não tivesse eu percebido suas malignas intenções”.
“Desculpe-me”, disse a coruja. E recolheu-se ao fundo da toca.
Eu entendia, não era a intenção de Aurora bicar Oto, mas era sua natureza. Contra isso ela nada podia fazer. Lá fora a lua terminava seu passeio. Os primeiros clarões anunciavam um belo dia que eu não veria do fundo de minha caverna.
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* Bernardo, o eremita, é um ex-torcedor fanático que vive isolado em uma caverna. Ele é um personagem fictício de João Batista Freire.
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Falta de estudo
Na última década, o futebol brasileiro assistiu à consolidação da presença da assessoria de imprensa no dia-a-dia de um clube. Até o final dos anos 90, o torcedor estava acostumado a ver qualquer jogador do time dando entrevista após um treino, falando como quisesse, para quem lhe conviesse.
Aí vieram os grandes investimentos, as contratações a peso de ouro e a europeização do relacionamento jornalista-atleta. Foi quase na virada do milênio que começamos a ver os primeiros “assessores” de imprensa nos clubes. Preocupados com a informação e, principalmente, com a maneira como a informação ia de jogadores e treinadores para os veículos de imprensa.
Os primeiros anos desse relacionamento foram turbulentos. Brigas, jogadores e treinadores brigando com jornalistas mais “abusados”, assessores ganhando a fama de vilões. Agora, porém, o equilíbrio na relação parece que começa a ser atingido. E o problema é que, com isso, entramos na era do emburrecimento da cobertura do futebol.
Assessoria de imprensa começa a significar para o jornalista ter todo tipo de informação à mão, sem precisar de esforço, sem ter de se preocupar em correr atrás da notícia. É só reparar. Portugal, até hoje, é para mim o exemplo mais claro dessa pasteurização da informação.
O país tem quatro grandes veículos dedicados exclusivamente ao esporte. E é praticamente raro você ler qualquer notícia diferente num dos quatro. O jornalismo sempre se baseia nas declarações pós-treino. Como sempre são os mesmos jogadores a falar para toda a imprensa, a situação não muda muito de figura de um jornal para outro.
No Brasil, ainda temos muito a cultura de buscar uma notícia exclusiva, de tentar encontrar algo diferente dentro da mesmice que é um treino. Mas geralmente isso só acontece quando se fala de todo o clube, e não especificamente de um único atleta. Por quê?
Porque a preocupação de estudar um jogador não está no dia-a-dia de um jornalista. Ele quer esmiuçar tudo do clube, mas não do atleta. E aí é que vemos o quanto a falta de estudo ajuda para a pasteurização da cobertura.
Nas próximas semanas veremos jogadores chegando e voltando da Europa, com a janela de transferências para o exterior em franca atividade. E, com isso, atletas que já foram ídolos em um determinado clube desembarcarão agora numa agremiação rival.
Em vez de lembrar o passado desse jogador e procurar, dentro dessa história, alguma coisa diferente para destacar, o jornalista vai esperar a apresentação do atleta para então, baseado nas suas respostas, produzir o noticiário que irá ao público.
“Fulano diz que não comemorará gol contra ex-clube”
“Cicrano diz que respeita ex-clube, mas celebrará o gol”
Sim, ainda veremos, nos próximos dias, algumas manchetes edificantes como os dois exemplos acima. Por incrível que pareça, aquela frase despretensiosa dita por Edmundo no ano 2000 virou hit para quando um novo atleta é apresentado após passagem num grande rival.
Romário e Edmundo foram bons protagonistas de histórias assim. Marcelinho Carioca, toda vez que joga contra o Corinthians, tem de passar por semelhante périplo. Da mesma forma que Tinga teve de se explicar bastante depois de ter sido campeão da Copa do Brasil pelo Grêmio e ganhar a América no Inter.
Falta estudo sobre o jogador para não cair na mesmice de sempre. Falta vontade ao jornalista de não pensar no trabalho apenas no período em que está dentro da redação. E falta mais vontade ainda de “driblar” a assessoria, não se contentando com a informação que esta lhe manda.
Do contrário, o jornalismo esportivo no Brasil caminha para a mesma pasteurização de Portugal.
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Invencível armada
Para a Uefa, o craque da ótima Euro-08 foi o volante-meia (meia-volante?) espanhol Xavi; para a torcida da campeã da Europa, o cabeça-de-área Marcos Senna foi o destaque da Fúria; para este que vos tecla, depois de assistir a todos os jogos, fico com o meia-atacante (mais atacante que meia) David Villa (que não jogou a final e mais da metade da semifinal por estar machucado).
Casillas poderia ser listado entre os bambas da campeã (embora tenha sido o menos acionado dos goleiros da competição); por conta disso, Puyol e Marchena, que se superaram na zaga, também merecem menção; Sergio Ramos, na lateral direita, foi o melhor da posição. Capdevilla mostrou ser o melhor lateral-esquerdo espanhol com seguras atuações. Os wingers (ou interiores, esterni, carrilleros, como queiram) Iniesta e David Silva mandaram muitíssimo bem, saindo dos lados para articular pelo meio, e trocando constantemente de posição; Torres foi um perigo constante; e o craque dessa geração, o jovem Fábregas, de apenas 21 anos, era reserva!
Melhor reserva de qualidade de um time que teve todos os melhores números do torneio e merecidamente ficou com o título. Com um futebol de craques.
Mas sem um craque. Talvez a maior lição desta Euro que não deixou lições além dos 90 minutos.
Fábregas é quem mais se aproxima dos requisitos do ISSO 9000 para o certificado de craque de origem controlada. Mas ele foi reserva do ótimo meio-campo espanhol. Insisto: um time sem uma estrela. Mas com poucas pontas nebulosas.
Talvez o maior legado da Euro tenha sido esse. Um grande futebol sem graaaaaandes jogadores. Algo possível com qualidade (claro), mas, também, com intensidade, aplicação, e grande quantidade de passes bem executados pela melhor Espanha que vi desde 1974. Desde que vejo futebol. Na melhor Eurocopa que vi desde 1984.
Os desenhos mostram os esquemas básicos da Espanha na Euro. Algo difícil de definir. Na estréia, o mais próximo possível na goleada sobre a Rússia foi um 4-1-3-1-1. Estranhos nos números, mas muito prático em campo: Marcos Senna blindou a entrada da área, liberando o múltiplo Xavi para criar com Iniesta e Silva (que trocavam de lado todo o jogo). Villa chegava próximo a Torres, mas era mais um atacante que um meia.
A movimentação e a variação tática foram determinantes para o excelente jogo espanhol. Um time que superou barreiras psicológicas, como o trauma das quartas-de-final, e não saber ganhar uma disputa de pênaltis. A Itália que o sofra.
Da primeira à última vitória, a Espanha solidificou o 4-2-3-1 que pode ser apresentado como o esquema-base sem a bola. Porque o segundo volante pela esquerda (Xavi), quando a Espanha a retomava (e ficava com a pelota mais que qualquer outra seleção), se juntava aos meias abertos pelos cantos, e fazia a transição com graça e eficiência.
Sem Villa, na final, o encarregado a pensar o jogo foi Fábregas. Com o meia do Arsenal em campo, o treinador Luis Aragonés adotou um 4-1-4-1; ele e Xavi formando o meio-campo, e Senna ainda mais preso à zaga. Mas sempre com a saída rápida e precisa de jogo.
Muito mais que os números do meio-campo e ataque, os nomes espanhóis ganharam a Euro pela qualidade técnica e pela precisão ao fazer o jogo que gostam de posse e passes. Futebol que apreciavam, mas não conseguiam jogar até o inesquecível verão de 2008.
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Tática de jogo e tática no jogo
No futebol ainda há a velha máxima de que “jogo é jogo e treino é treino”. Ainda que já tenhamos discutido isso em outros momentos, trago à tona agora uma reflexão sobre outro ponto dessa perspectiva.
Em 90 minutos de jogo gerir gama tão grande e ímpar de variáveis (cada jogador, equipe, adversário, estratégias de defesa-ataque e transição, árbitros, torcida, ritmo de jogo, desempenho, egos…) é de fazer inveja a grandes executivos de grandes empresas multinacionais.
A pressão do tempo e resultado é inigualável. 90 minutos para acertar ou errar. 90 minutos para transformar o rumo de uma equipe e de um clube.
Pois bem. Como jogo é treino e treino é jogo (e não como a velha máxima), a perspectiva dos treinamentos de uma equipe deveria preconizar a evolução processual de um jogar/treinar cada vez mais rico em alternativas e soluções; desenvolvidos e especializados no treinar/jogar.
Muitas vezes (muitas mesmo!) a intervenção dos treinadores durante as partidas de futebol acabam por não surtir o efeito desejado.
Isso pode ocorrer, basicamente por três motivos:
1) pela incapacidade de sua equipe em cumprir uma estratégia determinada (diferente daquela previamente combinada e treinada),
2) pela capacidade da equipe adversária em neutralizar rapidamente a estratégia proposta (através de uma contra-estratégia),
3) ou por fim, pela má avaliação do treinador a respeito da melhor alternativa para dar solução a um problema do jogo.
Os motivos 1 e 3 dizem respeito às atribuições do treinador. O motivo1, porque a incapacidade de uma equipe em cumprir determinada tarefa tem relação direta com o treinar/jogar; ou seja, a execução bem feita de algo que seja determinado durante o jogo tem grande dependência do “saber fazer” por parte da equipe. E por sua vez o saber fazer, grande relação com o bem treinar.
O motivo 3, tem relação com a atribuição do treinador pelo fato de estar nele o centro gestor da equipe durante o jogo (para indagar, propor, solucionar). Como é dele que comumente parte o comando para novas estratégias de jogo, é dele também comumente a responsabilidade do acerto ou do erro (partindo ou não dele a estratégia).
O motivo 2 não tem relação direta com a ação do treinador durante o jogo, mas a tem com o motivo 1 e 3. Isso que dizer que há uma dependência indireta entre a ação do gestor da equipe e o motivo 2.
É claro que no futebol, diferente do basquete, vôlei e outros esportes, o treinador tem sua ação limitada a comandos breves (muitas vezes aos berros) na beira do gramado. Não há a possibilidade de parar o jogo para uma conversa informacional com os jogadores. A gestão da situação deve superar a dificuldade de comunicação.
Uma das grandes atribuições do treinador em um jogo de futebol é a de “mudar tendências”.
Se o jogo está desfavorável alguma coisa deve ser feita. E é no jogo muitas vezes que as decisões corretas acabam por não obter êxitos, pelo simples e grande motivo de que muitas vezes a equipe não está preparada para essa ou aquela nova dinâmica. E isso simplesmente quer dizer que o trabalho semanal, o planejamento e o processo têm grande importância na ação do treinador durante o jogo; e que o êxito de suas decisões de jogo está intimamente ligado ao seu trabalho nos treinos.
Ora, mas há quem diga que uma boa conversa no intervalo de um jogo pode transformar a forma de uma equipe jogar (treinar por quê?)!
E realmente pode, principalmente se a transformação pender para uma nova forma já conhecida da equipe.
Óbvio que existem decisões que exigem mais, ou menos elaboração na forma do jogar e que portanto, ao se necessitar de uma mudança estratégica e tática, deve levar-se em conta qual é a solução “ideal” e qual é a “melhor” solução para o problema do jogo.
Quando a melhor solução é também a ideal, não há dúvidas de que aumentam potenci
almente as chances de êxito. Quando a ideal está muito distante da melhor (sendo a melhor aquela que a equipe é capaz de fazer bem, mas que pode não resolver), é nela (na melhor) que a maior parte da energia deve ser concentrada.
Óbvio também que quando a melhor solução possível não resolve, ainda há uma tendência a ser mudada, e que mais vale o risco de se tentar mudá-la através do “ideal” mal feito, do que aceitar passivamente a tendência aflorada no jogo.
A tática de jogo, trabalhada então ao longo do processo de treinos do treinador (construída desde o primeiro dia de trabalho, e colocada à prova por vezes três dias depois) terá sempre relação direta com a tática alterada no jogo. Quanto mais a tática de jogo contemplar as táticas no jogo, maiores as chances das intervenções do gestor de campo (o treinador) surtirem o efeito desejado.
Se houvesse no futebol o tempo técnico (como há em outros esportes), não tenho dúvidas senhores, cada vez mais o joio estaria separado do trigo.
Por isso, termino hoje com uma citação que me faz refletir no porque muitas vezes as pessoas parecem não querer separar o joio do trigo:
“A complexidade refere-se à condição do universo que é inerente mas que, no entanto, é demasiado rica e diversificada para compreendermos a partir das perspectivas mecanicistas ou lineares comuns. A complexidade trata da natureza da emergência, inovação, aprendizagem e adaptação”. (Santa Fé Group, 1996)
Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br
Caros amigos da Universidade do Fubebol,
Como sabemos, o futebol atingiu na atualidade um nível muito alto de popularidade em todo o mundo. Em raríssimas exceções como nos Estados Unidos e Índia o futebol não é o esporte mais praticado e assistido pela sociedade.
E foi justamente por conta dessa popularidade que o esporte ganhou contornos comerciais relevantíssimos. Os melhores jogadores recebem altos salários, direitos de imagens são vendidos a preços aviltosos para empresas de mídia, e empresas pagam verdadeiras fortunas para estarem nos melhores lugares das melhores competições e clubes.
Quando o esporte chega a esse nível, o grande desafio passa a ser a manutenção da posição. Novos desafios passam a existir, ameaçando a atual situação de popularidade e comercialização do esporte.
Um deles, que gostaríamos de abordar nesta coluna, é a indústria das apostas e as atividades irregulares de manipulação de resultados. Esse problema se alastra pelo mundo. De diversas formas. A Juízes, jogadores, e, por vezes, a times inteiros, são oferecidas quantias e benefícios para distorcerem o desfecho natural de uma partida.
No Brasil tivemos recentemente descoberto um grande esquema de arbitragem e manipulação de resultados. Na Italia idem. Em Portugal, o famoso “processo do apito dourado” também está estampado em todos os jornais esportivos. O Caso do FC Porto é destaque atual (vide comentário abaixo).
Enfim, todos esses problemas causam um descrédito por parte de torcedores, telespectadores, etc, causando, em efeito cascata, um descrédito por parte de empresas patrocinadoras, meios de comunicação. Ao final das contas, é um “vírus” que pode levar a uma queda da popularida de futebol e uma perda econômica generalizada.
Vejam que as apostas ilegais conseguem ter piores efeitos do que outros problemas, como o doing por exemplo. Neste, os atletas tomam medicamentos irregulares para, ao menos, vencerem as competições (que é o princípio básico das competições). Naquele, os desvios de conduta levam atletas e times a perderem jogos, o que desvirtua completamente o esporte.
Com essa visão sobre a importância deste problema, na Europa diversas medidas já estão sendo tomadas. Uma delas, acontece na organização em que atualmente estou envolvido. A Associação das Ligas Profissionais Européias vai assinar na próxima segunda-feira, uma cooperação com a ESSA (empresa que trabalha com segurança em apostas esportivas na Europa).
De acordo com esse acordo, qualquer irregularidade em padrões de apostas, ou qualquer conflito de interesses identificado nas casas de apostas, será imediatamente comuncado aos órgãos desportivos competentes para que, eventualmente, possa ser suspensa uma partida em que sejam constatados elementos suficientes para indicar “apostas irregulares”.
Essa é uma das iniciativas. Mas outras também podem ser pensadas, com base na cultura e costumes de cada país. No Brasil, as apostas são detidas pelo Estado, e não são como na Europa.
O importante não é “como fazer”, mas sim “efetivamente fazer”. Para que o futebol continue representando um importante elemento na vida da grande maioria das pessoas que habitam este planeta.
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Viagem peculiar
Fui a Manaus por uns dias, e acabei me deparando com algumas coisas muito curiosas, em especial no dia que fui fazer um pequeno city tour pela cidade.
Vale a visita. Manaus é uma cidade peculiar. Primeiramente porque é quase uma metrópole e fica no meio da floresta amazônica, o que por si só já dá diversos subsídios para a compreensão dessa peculiaridade. Um segundo fato é que o único jeito de chegar de carro por lá é indo até Belém, pegar uma balsa e subir o rio com ela por cerca de cinco dias. Isso também torna Manaus uma capital bastante peculiar.
Mais interessante, porém – pelo menos para aquilo que interessa essa coluna, é a relação entre a cidade e o futebol. Não há dúvidas de que o esporte desempenha um importante papel na cidade. O como que ele faz isso é que é passível de discussão.
Eu tenho o estranho costume de, sempre que possível, comprar, ou pedir, camisas de clubes de menor expressão nacional. Foi assim que minha coleção pôde contar com réplicas do uniforme do Francisco Beltrão – PR, Juventus-SP, Jabaquara-SP, ABC-RN, entre outras. Uma das minhas missões em Manaus era conseguir uma camisa de algum time de lá, embora eu já tivesse a do Nacional, eu acho. Talvez seja a do São Raimundo, não lembro bem. A minha preferência era por uma camisa do Fast, mas qualquer outra tava valendo.
Parei em uma loja de esportes grande e fui pesquisar. O vendedor falou ‘Time daqui? Tem nada não. ‘ E não tinha mesmo. Nada. Aliás, em Manaus quase não há resquício do futebol local. Futebol lá é com os times do RJ, em especial o Flamengo. Chega a impressionar. Tudo bem que a fase do Flamengo ajuda, mas o número de pessoas vestindo a camisa do clube e as bandeiras espalhadas por toda a cidade poderiam fazer um turista geograficamente mais desorientado acreditar que o Rio de Janeiro estava logo ali, assim como a África do Sul, que também é logo ali.
As razões para esse fenômeno são variadas, mas principalmente pela disseminação do clube nos anos 70 e 80 como força nacional e também pelo fato de lá o futebol ser essencialmente um produto televisivo. O futebol local, fora o Peladão que é outra história, quase inexiste.
Assim como inexistia a camisa do time de lá. O vendedor acabou me indicando uma outra loja, algumas quadras além, em que pude encontrar uma bela réplica da camisa do digníssimo Atlético Rio Negro Clube. O interessante é que a loja vendia um monte de camisas do mundo inteiro, tudo pirata, e colocava a marca de um patrocinador, o mesmo que no modelo adquirido estampava a camisa do Rio Negro. O patrocinador do Rio Negro era o mesmo que o patrocinador do Milan, do Flamengo, do Olympique e até da Seleção Italiana.
Basicamente, o cara aproveitou que era tudo pirata mesmo e estampou a marca de uma determinada empresa. Imagino que essa empresa tenha pago pra isso. E isso configura uma nova forma de patrocínio/marketing de emboscada jamais vista antes. Pelo menos eu não tinha visto. E, diga-se, é uma forma bastante peculiar. Assim como Manaus. Nada mais justo.
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A arte do discurso
“Agora é o momento de especulações. Kaká, Ambrósio, Pedro ou Paulo. Agora é o momento”.
Em 40 minutos, os jornalistas ingleses puderam conhecer o estilo Felipão de ser. É o perfeito casamento. Na terra em que se pratica o jornalismo mais sensacionalista do mundo, está o mais carismático treinador de futebol dos últimos tempos.
É isso que espera Luiz Felipe Scolari em sua aventura inglesa. E serão com esses Pedros, Paulos e Ambrósios que os jornalistas terão de rebolar para conseguir tirar algo que não tenha sido milimetricamente calculado por Felipão em alguma entrevista ou “deslize” do treinador.
Sim, porque embora o passado revele entreveros de Felipão com a imprensa, o presente mostra a cada dia um treinador mais preparado para lidar com a pressão e muito mais consciente de que é um mal necessário à fama ter os jornalistas no seu encalço.
Quando li, em sites de todo o mundo, o relato do que havia sido a primeira entrevista coletiva de Felipão no Chelsea, senti aquela ponta de inveja. Inveja dos tempos em que ouvíamos e líamos Felipão com freqüência nos jornais, seja no Grêmio, Palmeiras, Cruzeiro ou seleção.
A habilidade de Felipão com as palavras tornou-se ainda maior nos tempos de Palmeiras, quando a imprensa paulistana caiu matando e teve de aturá-lo por três anos ganhando quase tudo o que tinha direito. Depois, os mineiros jogaram-se aos pés de Scolari, que em seguida calou a boca do país. Ou melhor, tirou o grito de pentacampeão mundial da garganta brasileira.
E, em seu primeiro dia na Inglaterra, Felipão se saiu com essa quando perguntaram se Kaká estava próximo de Stamford Bridge. Imaginei, na hora, como o tradutor para o inglês estaria se virando para falar “Peter, Paul and Ambrosio”, com o mais carregado dos sotaques para pronunciar uma palavra latina por excelência como Ambrósio.
Ledo engano. Felipão, já para ganhar a simpatia necessária, arranhou um inglês macarrônico para conquistar mais ainda a exigente imprensa britânica.
É o mesmo que amarrar cachorro com lingüiça. Ou, então, enfrentar Bambalas da vida. Na última semana, foi a vez de Felipão rechaçar qualquer rivalidade com Fabio Capello, o italiano que dirige a seleção inglesa. A pergunta, com a acidez costumeira dos britânicos, era sobre a não-classificação da Inglaterra para a Eurocopa. E a resposta? Bem, essa daí, mais felipônica impossível…
“Não sei o que aconteceu, porque não estava trabalhando com esses jogadores, não trabalho para a seleção inglesa. Mas eu gosto do time da Inglaterra e quero o melhor para ele, porque eu quero o melhor para Capello. Eu gosto muito dele, ele é um dos meus melhores amigos”.
Poderia ter parado por aí. Mas não, Felipão não é apenas politicamente correto. Se ele gosta, ele gosta. E faz questão de explicar o porquê.
“Ele me deu confiança quando comecei a jogar com três zagueiros e, no Brasil, queriam me matar. Eu o encontrei em Roma e ele disse: ‘siga sua idéia’. Eu disse: ‘eles querem me matar’. Ele retrucou: ‘não há problemas. Siga a sua idéia’. Eu gostei dele porque ele me deu confiança quando precisei”.
Mais Felipão impossível. E, com essas e outras, começa a hora de Scolari se transformar no Big Phill inglês, reconhecido e idolatrado por todos. A começar pela imprensa mais exigente do mundo…
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A velocidade tática no futebol
Comecemos hoje com o conto do “Macaco que queria ser mais rápido do que o Guepardo”.
“Depois de muitos anos sem se ver (havia pelo menos três, desde a última conversa no zoológico), o “Macaco da Floresta” e o “Guepardo das Savanas” marcaram de se encontrar. Já na época do zoológico, os bichos mais chegados viviam desafiando os dois amigos a provar quem era o mais rápido. O guepardo, famoso pelas arrancadas nos descampados do zôo, nunca se incomodou; sempre teve claro para si que era o mais rápido. O macaco, por sua vez, acreditava que nenhum outro animal poderia ser mais rápido do que ele nos emaranhados labirintos de árvores da mini-floresta em que vivia.
Meio-dia era o horário do encontro; mas faltando cinco minutos, lá já estavam os dois a conversar. Falaram do passado, das saudades, da boa e velha amizade e (impossível não resgatar o assunto!) sobre o “desafio da velocidade”.
Os dois perceberam que se esperassem mais algum tempo, com a idade chegando, já não estariam aptos a desenvolver as grandes velocidades que os faziam famosos no zoológico. Como não sabiam quanto tempo mais levariam para se encontrar novamente resolveram enfim colocar em prova o desafio.
O guepardo, sem hesitar, logo propôs uma corrida de 300 metros numa savana próxima dali. O macaco, reflexivo, não gostou muito da idéia e disse que o melhor mesmo era que corressem por um trecho de 500 metros por uma floresta que os humanos chamavam de Amazônia.
Como não chegavam a um consenso, sabiamente resolveram fazer duas provas: uma na savana e uma na floresta.
Sem avisar os outros bichos (só a águia ficou sabendo), prepararam o desafio. No primeiro dia iriam à savana, e no outro à floresta.
Na savana, com mais de 15 segundos de diferença, o guepardo venceu tranqüilo e sorridente. O macaco, por mais que tenha se esforçado, não conseguiu chegar nem perto.
Na floresta, não teve jeito. O guepardo acelerava e logo dava de frente com uma árvore. A cada um ou dois segundos precisava desviar de um obstáculo. Resultado: com mais de 15 segundos o macaco chegou na frente.
Embaraçados e sem saber quem era o mais rápido, consultaram a velha e sábia águia, que sem pestanejar logo concluiu: vocês dois são os mais rápidos. Cada um no seu ambiente específico; cada um naquilo que faz diariamente no seu habitat.
O guepardo, insatisfeito com a conclusão da águia, resolveu consultar uma equipe de bichos fisiologistas acostumados a trabalhar com atletas. Depois de algumas fotocélulas e alguns “tiros” (leia sprints) de 30, 40, 100 e 400 metros a conclusão (os fisiologistas foram taxativos!) chegou nua e crua: o mais rápido era o guepardo.
Como o macaco e o guepardo eram amigos e não queriam ficar discutindo o assunto, foram até a casa do macaco na floresta beber uma “seiva”. E foi aí que ocorreu uma tragédia. Depois da queda de um balão a floresta ficou em chamas e o fogo rapidamente começou a se alastrar. Quando o macaco e o guepardo perceberam já era tarde e precisaram sair correndo (estavam a uns 30 segundos da clareira mais próxima).
Tinham que correr; rápido, 30 segundos talvez não fossem tempo suficiente. E realmente não foi. O macaco conseguiu escapar (em 10 segundos estava livre do fogo). O guepardo, pressionado pela necessidade de ser rápido e desorientado pelas mudanças de direção que fazia para não bater nas árvores, acabou virando cinzas junto com elas.
Ainda que isso tudo seja somente um “conto”, me traz boas reflexões a respeito do jogo de futebol.
Em um passado recente, o futebol fora dominado pelo raciocínio de que a “supremacia” física seria (além do fim do futebol arte) a solução imediata para conquistar êxitos nos resultados dos jogos. Jogadores mais fortes, velozes e resistentes levariam vantagem sobre seus pares não tão avantajados, e esse deveria ser o novo norte da preparação do jogo.
Sem a intenção de tornar essa discussão mais polêmica do que ela já é, discutirei esse raciocínio na perspectiva da velocidade do jogo; ou melhor, no quanto o jogo veloz pode ser vantajoso.
Já diria Verkhoshansky há mais de 20 anos que a velocidade é a variável mais importante no desporto de alto rendimento. Vence aquele que consegue realizar ações eficazes mais rapidamente. Então, no xadrez, vencerá aquele competidor que tiver maior velocidade para tomar decisões acertadas contrapondo o jogo adversário. Nos 100 metros rasos do atletismo, vencerá aquele que cumprir a tarefa de correr em linha reta em um tempo menor do que o dos adversários.
E no futebol, que velocidade é essa?
No futebol, assim como em outros esportes coletivos, ser mais veloz não significa correr mais rápido. Também não significa apenas pensar mais rápido. Nesse nosso artístico esporte, ser mais veloz significa ler muito bem e rapidamente o jogo (compreendendo sua lógica), tomar decisões rapidamente (em “milissegundos”) e transformar em ação o pensamento que apontou solução à situação-problema.
Pois bem. Muito do que se tem hoje como prática do treinamento desportivo é herança das práticas concebidas e desenvolvidas para serem aplicadas no atletismo. Muitos cientistas do desporto, preparadores físicos e treinadores de futebol (dentre tantos outros) passaram (e muitos permanecem até hoje) décadas transferindo para esportes como o futebol, conteúdos e conhecimentos nascidos no atletismo.
O problema, porém, é que tal transferência decorreu da preocupação com o treinar desvinculado do jogar. Em outras palavras, fracionaram o jogo nos elementos que o compõe (corridas, trotes, sprints, cabeceios, chutes, saltos, etc. e tal), na tentativa de ao juntá-los ter o jogo de futebol como resultado.
Como o argumento inicial de se trabalhar as partes com a finalidade de melhorar o todo fora incisivo, pontual e sedutor, acabou por contaminar diversas áreas viventes no entorno do futebol; ganhou forças e hoje custa a ser desconstruído.
Ainda hoje, tornar um jogador de futebol veloz é sinônimo de fazê-lo correr mais rápido. Alguns até já evoluíram dessa etapa, mas acabaram por recair na generalidade de tornar o ato motor mais rápido, seja ele qual for.
Pois bem. Pelo menos desde 1960 existem trabalhos científicos apontando que a possibilidade de melhora do tempo de reação em ações motoras que envolvem reações simples (sem tomadas de decisão que exijam qualquer nível de reflexão) pode chegar a 18%. Já àquelas que exigem análise para posterior tomada de decisão, cerca de 40% (dados das pesquisas de Simkin (1960), Hollmann, Hettinger (1980), Tanaka (1999), Shaff (2006)).
As pesquisas têm mostrado que o tempo total de uma ação motora (da percepção do estímulo até a ação propriamente dita) sofre acréscimo de meio segundo em exigências de decisão simples e de aproximadamente 1,5 segundos em ações que envolvem exigências complexas.
No jogo de futebol, a dinâmica tática coletiva traz intensa e grande complexidade às situações-p
roblema. Então, a tomada de decisão do jogador tem grande influência no tempo total da sua ação. Não que a manifestação física da sua tomada de decisão não seja importante (não é isso!). O fato é que se atingindo medianamente níveis de manifestação da velocidade da “ação física”, ter-se-á aptidão para cumprir outras manifestações da velocidade no jogo.
roblema. Então, a tomada de decisão do jogador tem grande influência no tempo total da sua ação. Não que a manifestação física da sua tomada de decisão não seja importante (não é isso!). O fato é que se atingindo medianamente níveis de manifestação da velocidade da “ação física”, ter-se-á aptidão para cumprir outras manifestações da velocidade no jogo.
O futebol é tático-técnico-físico, e há de se entender como isso se manifesta no jogo.
Aumentar a velocidade do jogo não significa correr mais rápido, porque sob o ponto de vista tático não é necessário correr mais rápido; é necessário chegar primeiro.
Correr nas savanas não tem nada a ver com correr na floresta. Ser mais rápido nas savanas não significa ser mais rápido nas florestas.
Correr de um ponto a outro do campo de jogo em maior velocidade não significa ser rápido para jogar futebol.
“Penso que tem de haver no fundo de tudo, não uma equação, mas uma idéia extremamente simples. E para mim essa idéia, quando por fim a descobrirmos, será tão convincente, tão inevitável, que diremos uns aos outros: Que maravilha! Como poderia ter sido de outra maneira?” (John Archibald Wheeler)
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Palavras do presidente…
Caros amigos da Universidade do Fubebol,
Ontem o mundo do futebol ouviu as palavras do Presidente da FIFA Sepp Blatter na Sky Sports, sobre o caso da possível transferência do atacante português Cristiano Ronaldo do Manchester United para o Real Madrid.
Segundo Blatter, o Manchester não pode segurar o jogador caso não seja sua vontade permanecer no clube. Além disso, sugeriu haver uma “escravidão moderna” dos jogadores com relação a seus clubes.
Essas declarações são, no mínimo, surpreendentes. Desde o caso Bosman, e suas consequências no mundo das transferências de jogadores, todos os clubes reclamam ter havido uma abertura excessiva das transferências, uma vez que se extinguiu com o chamado “passe” do jogador. O final dos contratos, os jogadores poderiam trocar de clubes livremente e sem qualquer pagamento ao clube anterior.
Mais do que isso, com o recente caso Webster, exaustivamente comentado na mídia e inclusive por nós, os jogadores que ultrapassarem o chamado “período de proteção”, que varia de dois a três anos contados da data da assinatura do contrato de trabalho, dependendo da situação específica do jogador, podem ser transferidos sem que se aplique qualquer sansão desportiva, mediante o pagamento de apenas os valores pendentes para o término do contrato.
Agrega-se ainda o fato de que poucos clubes conseguem efetivamente indenizações justas por formação de jovens talentos, uma vez que as leis e regulamentos são de difícil execução prática. O que normalmente acontece é a tomada hostil desses jovens talentos por parte de clubes com maior poderio econômico.
Com todos esses eventos, os clubes devem fazer uma verdadeira ginástica jurídica para serem recompensados pelos gastos efetivamente empenhados na formação e manutenção de seus atletas. E por melhor que seja sua administração, por conta da forte concorrência e enorme pressão existente, é praticamente impossível para um clube profissional de futebol manter um balanço positivo.
É justamente com esse cenário que o Presidente da FIFA alega ainda existir uma escravidão moderna dos atuais jogadores de futebol profissional. Ouvir é fácil. Difícil é concordar.
Caso FC Porto
Está marcada para a próxima segunda-feira o julgamento, no Tribunal Arbitral do Esporte, o caso envolvendo a participação do FC Porto na Liga dos Campeões, edição 08/09.
Nossa próxima coluna trará o desenrolar desse caso, que pode também trazer conteúdo emblemático em futuros casos similares, tratando de questões de suma importância para o futuro do nosso esporte, tais como corrupção e manipulação de resultado de jogos.
Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br