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Espírito olímpico
Trocando as bolas
Aurora
Uma questão de critério
a Freire.
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Espírito olímpico
Trocando as bolas
Aurora
Uma questão de critério
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Animado, o grupo começou a cantar: “Ô, ô, ô, ô! Libera o Marcão!”
O grito, acompanhado do bumbo da torcida organizada, tinha um endereço certo. O goleiro Marcos, que havia acabado de completar o jogo de número 400 com a camisa do clube paulista. Cerca de cinco minutos depois (e de insistentes gritos, alguns outros não tão simpáticos endereçado à imprensa), Marcos foi à beira do jardim suspenso palestrino e atirou a camisa para os torcedores, em mais uma mostra de simpatia e sintonia com a torcida.
O gesto do goleiro e hoje capitão do time palmeirense mostra bem o quanto um ídolo é importante para um clube e, também, para a mídia que vive do esporte.
Marcos ficou cerca de meia hora após o jogo concedendo entrevistas para repórteres dos principais veículos de mídia TV e rádio do país. Ele ainda teria de descer ao vestiário, tomar banho e, depois, dar mais entrevistas para outros jornalistas da imprensa escrita.
E esse “périplo” do santo palmeirense não era inédito, nem motivado pelo fato de que Marcão havia completado 400 jogos no time alviverde. Toda partida do Palmeiras no Palestra Itália tem essa rotina. Após o apito final, lá está Marcos conversando com os jornalistas, à espera do pedido de “alvará de soltura” dos torcedores, para então começar a descer os vestiários e voltar a dar entrevista para a imprensa.
Marcos é ícone, ídolo, referência. Num clube em que a maioria dos jogadores não tem nem três anos de casa, um atleta que há 12 anos fez sua estréia no time principal e participou das mais importantes conquistas da história do clube tem de ser naturalmente o porta-voz da instituição.
O comportamento da imprensa esportiva na cobertura do cotidiano é pautado pelo ídolo. Aquele cara que consegue atrair a atenção dos torcedores, que consegue ditar o ritmo das pessoas, é aquele que concentrará mais de 60% (em alguns casos, dependendo da fase do time e do atleta, 95%) das atenções da imprensa nos treinos e jogos.
A situação descrita acima é, com algumas modificações no enredo, repetida na maioria dos campos do país, com os mais diferentes jogadores. No mesmo Palestra Itália, ontem, Edmundo foi o último atleta a deixar o campo pelo time do Vasco. Assim como, no Morumbi, é Rogério Ceni quem fica até mais tarde para dar entrevista. Ou, no Mineirão, Marques explica vitórias e derrotas do Atlético Mineiro.
Sem um ponto de referência, torcida e imprensa não sabem como se comportar. Relatos de jogos sempre são feitos em cima de heróis. Seja ele eterno, como Marcos, ou passageiro, como o salvador do time naquela partida recém-encerrada.
Por isso que o futebol brasileiro, para resgatar seu prestígio em todas as esferas, do campeonato nacional à seleção, precisa se preocupar em formar mais ídolos. Eles movem a imprensa, que por sua vez contribui, ao reproduzir os feitos desse ícone, para que a paixão da torcida se transforme em consumo, gerando muito dinheiro e mais chances de formar novos craques. Sem isso, qualquer esporte está fadado a cair no esquecimento. Alguém lembra de outro ídolo no basquete masculino brasileiro depois de Oscar?
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A determinação da toda poderosa Federação Internacional de Football Association, FIFA, com relação à limitação das expressões de alegria em campo a meros cumprimentos formais, nas ocasiões de comemoração de gols, momento supremo do jogo de bola, é muito mais significativa do que desejam alguns que a defendem como instrumento coibitivo dos excessos, tais como os beijos e abraços, nas horas dos gols, posicionamento este no mínimo de alto significado machista.
Na verdade, está em jogo, nada mais nada menos do que a própria liberdade de expressão do indivíduo, de cunho, neste caso específico, totalmente popular, dada a presença do futebol como parte integrante da cultura popular brasileira.
Se, como era de se esperar, pronunciamentos das autoridades responsáveis pelo futebol nacional, não foram ouvidos (pois é lógico o interesse que a eles, o controle das manifestações populares, desperta, fazendo-as permanecerem sob seus domínios), é digno de aplausos os diversos depoimentos de atletas de destaque no cenário futebolístico brasileiro, que, com palavras, refutaram tal deliberação, dando na prática a verdadeira e merecida resposta a tão repugnante imposição:
Gols, cada qual mais festejado do que nunca!
Este recente episódio de autodeterminação dos atletas brasileiros nos reporta a um outro ocorrido nos idos de 1927, e detalhado no livro de Mário Filho, O negro no futebol brasileiro, e que pedimos licença aos leitores para, neste artigo, passar a narrar.
… Cinqüenta mil pessoas comprimidas nas arquibancadas gerais, de pé, batendo palmas para o Presidente da República. Era gostoso receber uma ovação daquelas, nada preparado, tudo espontâneo. Washington Luís descobria, ao mesmo tempo, a força e a beleza do esporte. Subitamente o jogo pára, não continua… O juiz tinha marcado um pênalti contra os paulistas, os paulistas iam abandonar o campo. Washington Luís fica sério, dá uma ordem a um oficial de gabinete. Era a ordem para o jogo continuar, uma ordem do Presidente da República.
E lá desce o oficial de gabinete… A notícia se espalha, Washington Luís tinha mandado acabar com aquilo… O jogo ia recomeçar. O oficial de gabinete entra em campo debaixo de palmas, vai até Amílcar e Feitiço. E de cara amarrada dá o recado: – O Presidente da República ordenava o reinício do jogo. A resposta de Feitiço, mulato disfarçado, que nem era capitão do escrete paulista, foi que o doutor Washington Luís mandava lá em cima – lá em cima sendo a tribuna de honra… Cá embaixo – cá embaixo sendo o campo – quem mandava era ele. E para mostrar que mandava mesmo, que não era conversa, fez um sinal, os jogadores paulistas saíram atrás dele. Washington Luís, Presidente da República, não teve outro remédio, senão ir embora, ofendidíssimo.
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[1] Publicado na seção opinião do diário O Jornal – São Luis, MA – do dia 14 de outubro de 1981, quinta feira.
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Sim, porque, após o insosso 0 a 0 contra a Bolívia qualquer tipo de paciência e coexistência pacífica do treinador da seleção com a imprensa se esvaiu.
A começar pelo “editorial” de Galvão Bueno na Globo, logo após o término do jogo. Para começar, a emissora-mor do país fez dois intervalos comerciais antes de encerrar oficialmente a transmissão direto do Estádio João Havelange, quando o normal é apenas um. Depois, Galvão pediu publicamente desculpas ao torcedor pelo péssimo futebol apresentado pelos jogadores brasileiros. E, quando começaram as críticas mais ácidas ao comportamento do Brasil, as imagens mostradas, quase sempre, eram de Dunga, e não dos jogadores nacionais.
Foi a senha da Globo de que a paciência com o estilo Dunga de comandar a seleção acabou.
No dia seguinte, jornais de todo o país seguiram a mesma linha. Na capital paulista, “Folha de S. Paulo” e “O Estado de S. Paulo” disseram que a vitória da semana anterior, sobre o Chile, havia sido a “exceção” a um time “medíocre”, “sem vibração”, “sem padrão de jogo”, “retrancado” e outras expressões enaltecendo Dunga e Cia. Da mesma forma no Rio de Janeiro, Minas Gerais e até Rio Grande do Sul o tom de crítica era o mesmo.
Mas será que é só o futebol de baixo nível que a seleção tem mostrado o responsável por tantas críticas? Em 2001, quando viveu seu pior momento na história, o time nacional era comandado por Luiz Felipe Scolari, que perdeu nas oitavas-de-final da Copa América para Honduras! Nem assim os pedidos para a saída de Felipão ecoavam em todos os veículos.
A explicação para a falta de paciência da imprensa com Dunga está na relação diária de trabalho. Dunga ainda se comporta, com os jornalistas, como se fosse o capitão do time, e não o seu comandante, o responsável pela nau que hoje, parece, está à deriva.
Desde o início, quando na primeira entrevista coletiva teve de se explicar, entre outras coisas, pela convocação de figuras bizarras como Jônatas, então no Flamengo (que depois de ir para a seleção saiu do Fla e depois voltou para lá), e Afonso Alves, que Dunga vive às turras com os jornalistas.
Até aí tudo bem. Provavelmente nem no café da manhã com a família ele faça questão de ser simpático com alguém. Mas o que Dunga não percebeu é que, para ser técnico da seleção, é preciso, antes de qualquer coisa, ser um bom político.
Felipão, que obteve um prestígio público pouco visto nos últimos anos e talvez na história da seleção, costumava dizer que o período em que esteve no Cruzeiro (97 a 2000) havia lhe salvado a pele no comando do time nacional. Dizia ele que o jeito mineiro de ser transformara sua maneira de se relacionar com os jornalistas, o que lhe deu mais habilidade para cuidar da pressão que é dirigir o Brasil.
Dunga, porém, faz exatamente o oposto. Não é hábil para manipular a informação, para deixar a imprensa preocupada com alguma outra coisa que não a ausência de um jogador, a presença de outro, ou o péssimo resultado do time. As bufadas de Felipão nas entrevistas eram estratégicas, para que ele pensasse numa resposta e desviasse o foco de atenção de câmeras e fotógrafos. Até o jornalista achava graça quando vinha uma interjeição. E se esquecia de que o mais importante, que era a resposta à pergunta, começava a ser deixada de lado…
Para piorar, Dunga faz questão de, na mínima vitória alcançada, jogar na cara dos jornalistas que é “pé-quente”, “vencedor”, que tem “garra”. Palavras que, sem dúvida, são importantes na carreira de um jogador. Mas que não podem ser tão utilizadas por um treinador. Ainda mais num cargo de tanta visibilidade e tanto choque de interesse como o de técnico da seleção.
E assim Dunga começa a encaminhar-se para o crepúsculo de dois anos à frente da seleção. Vitorioso, sem dúvida, mas apenas dentro de campo. A inexperiência sempre foi apontada como uma fraqueza do treinador. A sua falta de passagens anteriores por qualquer time era vista como uma chance de fiasco à frente do Brasil.
Só que ninguém contava que a diferença poderia ser feita na inexperiência e inaptidão de Dunga em tratar com a imprensa. Diz ele que o problema foi ter cortado privilégios da Globo, cada vez mais dona do time nacional. Mas o pecado mortal foi não ter percebido ainda que o jornalista não é um inimigo, mas um meio de fazer o seu ponto de vista chegar ao público.
Quanto mais briga com a imprensa, mais Dunga prepara o seu espaço no hall de “ex-técnicos” da seleção brasileira. Independentemente do resultado do time dentro de campo.
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A seleção brasileira de futebol é, em princípio, aquela no mundo do futebol, que comporta a maioria dos melhores jogadores de todo o planeta. Jogadores bem treinados, bem alimentados e bem remunerados. Muitos são unanimidades.
Dia desses a seleção brasileira (a melhor?!) jogou (pelas eliminatórias da Copa do Mundo FIFA/2010) contra a seleção da Bolívia.
A equipe boliviana que não goza do mesmo prestígio da sua adversária, teria em tese jogadores menos “talentosos” que os brasileiros.
Antes do jogo era dada como “quase certa” pela imprensa brasileira e pelas quinas futebolescas uma vitória da equipe do Brasil (alguns apostando em uma grande vitória).
Pois bem, equipes aos seus postos e lá foi o jogo terminar em zero a zero.
A equipe boliviana, de acordo com seu modelo de jogo, estabeleceu uma estratégia bem definida. O Brasil, com uma leitura aparentemente inadequada da organização de jogo da seleção da Bolívia acabou enredado, quase sem saber o que fazer. As principais características inerentes ao futebol brasileiro (o jogo de velocidade, os passes rápidos, as mudanças de direção das faixas do campo e os dribles) acabaram sucumbindo ao sistema organizacional da equipe boliviana (que não foi nenhum primor).
Entendamos as armadilhas do jogo.
Contra a velocidade brasileira a seleção da Bolívia distribuiu-se em campo de forma compacta. Estreitou verticalmente o terreno efetivo de jogo em aproximadamente 30 metros a partir da linha 3 (linha do meio-campo).
Com o campo efetivo reduzido, os bolivianos conseguiram manter seus jogadores sempre próximos uns aos outros (resultado: dificuldade brasileira em imprimir um ritmo rápido de jogo).
A compactação bem definida aproximou as linhas de marcação bolivianas. Isso dificultou bastante a realização de jogadas individuais (dribles e conduções de bola em direção ao gol) da equipe brasileira porque possibilitou um sistema de coberturas eficientes quase que a todo tempo no jogo – e quando as coberturas falharam; faltas táticas.
O que o Brasil conseguiu fazer (e bem!) no jogo foi a circulação horizontal da bola, da direita para a esquerda e da esquerda para a direita; principalmente nas regiões anteriores a linha 3.
E é aí que residiu o problema importante. A equipe da Bolívia se organizou ofensivamente para progressões rápidas em direção ao gol e defensivamente para impedir a progressão da posse da bola a partir do meio campo. Isso quer dizer que quando o Brasil recuperava a bola no seu campo de defesa, os jogadores bolivianos buscavam, antes de qualquer ataque à bola, uma recomposição rápida para trás da linha 3. Ali se fechavam compactos e basculavam de um lado ao outro, fechando os corredores laterais e centrais.
O que eles queriam?
Que o Brasil circulasse a bola de um lado para o outro.
O que o Brasil fez para furar o bloqueio boliviano?
Circulou a bola de um lado para o outro.
Isso quer dizer que a seleção brasileira, com a intenção de progredir à meta boliviana, acabou por apostar na manutenção da posse da bola (circulando-a de um lado ao outro) como solução ao seu problema (chegar a meta boliviana).
Em outras palavras, o Brasil se apoiou em um princípio de ataque para conseguir cumprir outro (confusão!). O pior, é que o princípio de defesa dominante da seleção boliviana, acabou por induzir a seleção brasileira a exatamente aquilo que lhe era conveniente (conveniente a Bolívia) – ou seja, aquilo que o Brasil tinha como solução (errada!) para o seu problema só fortalecia a defesa boliviana e aumentava ainda mais as dificuldades do ataque brasileiro.
A seleção boliviana talvez quisesse, antes de fazer um gol, evitar sofrê-lo. Isso não podemos dizer ao certo (só podemos fazer suposições). Certo sim, é que seu princípio operacional de defesa dominante foi adequado ao princípio operacional de ataque dominante da equipe brasileira.
Há ainda quem discurse em nome da dificuldade de se jogar contra equipes bem “fechadas”, que ficam atrás do meio-campo esperando, deixando o adversário trabalhar a bola, com tempo para pensar e tomar decisões…
Realmente deve ser mais “fácil” jogar contra equipes que pressionam, buscam o gol o tempo todo, brigam pela bola, sufocam as saídas de bola e deixam o jogo rápido; realmente…
O que posso afirmar, sem chances de errar é que, ou equipes e treinadores buscam entender a dimensão organizacional do jogo (para identificar, alterar e influenciar princípios operacionais de ataque e defesa dos adversários, jogo e equipe) ou ainda os “novos velhos” chavões do futebol continuarão seduzindo torcidas, especialistas e profissionais do “mundo da bola”.
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