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4-4-2 x 1-4-4-2 e o jogo de 'chutões'

No futebol, é comum e normal representar a plataforma de jogo (leia-se esquema tático) através de uma seqüência de três números. Da defesa para o ataque são então representados o 4-4-2, o 3-5-2, o 4-3-3 dentre tantos outros.
 
O goleiro não aparece, sob o típico argumento de que não é preciso representá-lo (porque ele vai ser o “1” que sempre estará ali).
 
Pois bem. Faz muito tempo que a função típica do goleiro em uma partida de futebol é defender a meta com qualquer parte do corpo; evitar o gol. Não tão óbvio quanto parece, esse pensamento (de que a função do goleiro é “defender a bola”) acaba por desencadear avanços e retrocessos táticos importantes na forma de jogar das equipes de futebol.
 
Basta assistir a alguns jogos da Uefa Euro 2008 para notarmos diferentes propostas trazidas pelas equipes para “o jogar” e o quanto parte dessas propostas estão atreladas ao goleiro.
 
Para trazer mais clareza a minha explanação vou reproduzir parte de uma pergunta feita a mim por um correspondente holandês depois de assistir a um jogo do Campeonato Paulista juvenil (sub-17):
 
“Em muitos momentos o jogo ficou feio de assistir. Muitos chutões por parte das duas equipes. Daqui alguns anos esses jogadores estarão em uma equipe profissional. Não é preocupante que os jogadores que estão sendo formados na base não consigam um jogo de toques de bola e precisem usar o tempo todo chutões para se livrar do perigo”?
 
Claro!
 
Que bom ouvir uma pergunta dessas de alguém que se relaciona com a imprensa esportiva (porque aqui no Brasil na grande maioria das vezes o nível dos comentários e perguntas dos “especialistas esportivos” na TV, no jornal, no rádio ou na internet são… bom, deixa “pra lá”).
 
Grandes equipes européias de sucesso estão a utilizar, já há algum tempo, o goleiro como 11º jogador de linha da equipe. E aí seja para controlar o jogo, defender com bola ou tirá-la da pressão em uma jogada qualquer, as alternativas e possibilidades se enriquecem bastante.
 
Com as seleções nacionais da Europa, a mesma coisa. Na Uefa Euro 2008 temos equipes que incorporaram em suas estratégias para o jogar a ação efetiva do goleiro como um jogador que além de ser bom com as mãos para defender é eficiente com os pés para participar da construção do jogo.
 
Como nossos “grandes comentaristas esportivos” devem gostar do jogo de chutões e devem estar enraizados no conceito de que o goleiro está ali para defender o gol e ponto final, acabam por se “desesperar” quando a bola é recuada para o goleiro. Como são formadores de opinião, não é incomum perceber o “frisson” das grandes massas e torcidas quando ocorre o fato e se está a assistir ao jogo ao vivo.
 
É claro que o chutão às vezes pode ser necessário. Se a melhor (mais inteligente, efetiva e eficaz) solução para uma situação do jogo for um chutão, é claro que ele precisa ocorrer. Mas garanto que na maioria das vezes ele não é necessário (principalmente no Brasil, onde o “pressing” é um conceito distante, e a “pressão” em grande parte das vezes é desorganizada e não-coletiva).
 
Porém, muitas vezes a sensibilidade de quem assiste ao jogo não dá conta de perceber essas coisas. E aí, reproduz-se o que sempre se reproduziu, pensa-se o que sempre se pensou.
 
E o que vale para o goleiro, vale para os zagueiros, laterais, volantes ou qualquer outro jogador pressionado em seu campo de defesa.
 
O problema é que talvez no Brasil a dificuldade para construir essa idéia se solidifique no ciclo vicioso criado pela disseminação de uma leitura sobre o jogo que muitas vezes se distancia do próprio jogo. Então, jovens jogadores nas categorias de base, contaminados pelo ciclo e gerenciados por treinadores já “viciados”, não conseguem se desprender do doente processo.
 
Investir em bons trabalhos, com pessoas realmente competentes é possível.
A partida que o correspondente holandês assistiu, felizmente foi atípica, pelo menos para uma das equipes (porque o chutão não é uma solução padrão para ela).
 
Porém, talvez seja uma das poucas remando contra a maré; e remar contra a maré é para os fortes (e esses não são muitos)!
 
Que o processo mude, e rápido, porque pelo menos para nós brasileiros se isso não acontecer, não estará longe o tempo em que ficaremos fora de nossa primeira Copa do Mundo (e longe ficará o tempo que entenderemos porque a França nos venceu em 1988 e 2006).
 
Por fim, que um dia o 4-4-2 e o 1-4-4-2 (ou o 4-3-3 e o 1-4-3-3, ou o 3-5-2 e o 1-3-5-2, etc. e tal) tenham realmente significados práticos diferentes, e que os nossos formadores de opinião da imprensa especializada, em geral, possam ver o jogo mais próximo do que ele realmente é.
 
Au revoir…

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O futebol e a proteção de menores

Muitos clubes do Brasil e do mundo reclamam reiteradamente a perda de seus jogadores das categorias de base, sem que tenham em contrapartida uma compensação justa. Essa tem sido uma constante no futebol brasileiro sendo, de fato, um pleito legítimo.

Desde a sentença do caso Bosman na Europa, e sua repercussão no resto do mundo (no Brasil com a extinção do instituto do passe), a transferência hostil, assim considerada a transferência sem o consentimento do clube de origem, principalmente de jovens jogadores, tornou-se muito comum.

Esta coluna pretende abordar essa questão, porém não do ponto de vista dos clubes. Pretendemos aqui tratar de intermediários que abusam de jovens atletas promovendo transferências prematuras na busca irrestrita pelo melhor negócio, sem observância da questão humanitária necessariamente presente.

Esse ambiente pós-Bosman fez com que esse mercado dos agentes de futebol fosse desenvolvido com grande agressividade.

Gostaríamos de esclarecer que existem no meio do futebol excelentes agentes, sem os quais muitos jogadores não teriam chegado onde chegaram. Os agentes são responsáveis, via de regra, pela tranqüilidade do jogador fora dos campos, para que ele possa desenvolver seu trabalho da melhor maneira possível.

Porém, sabemos que muitos oportunistas passaram a realizar grandes lucros com a indústria da transferência de jogadores, sem qualquer ética. Basta vermos os registros da CBF para perceber que muitos jogadores jovens, que poderiam estar atuando em clubes nacionais em prol do nosso campeonato pátrio, arriscam suas carreiras em mercados em desenvolvimento, ou subdesenvolvidos (sob o ponto de vista futebolístico). Esses atletas acabam muitas vezes abandonados por seus “agentes”, e vêem transformar seus sonhos em tristes ilusões.

E a cada ano, esses jogadores transferidos são cada vez mais jovens.

Diversas soluções já foram apresentadas em todos os níveis para tentar-se erradicar o problema. Regras para limitar transferências de menores, normas para obrigar o desenvolvimento de categorias de base, home-grown player, e mesmo a regra do 6+5 da Fifa.

Sob o prisma analisado, uma das soluções mais importantes é a regulação da atuação de agentes de futebol. Porém a aplicação dessa solução não é tão simples assim. Existe grande pressão para que a atividade não tenha qualquer restrição. Atualmente, por exemplo, há um pleito judicial de grande relevância por parte de diversos agentes na Bélgica para que as regras desportivas que limitam suas atuações fossem desconsideradas. A questão deve ser encarada com cuidado.

A regulação da atividade pela Fifa e por outros órgãos desportivos, em nossa opinião, é legítima. Não podemos simplesmente aplicar a lei comum a esses agentes de futebol, da mesma forma que ela é aplicada a agentes em outros ramos de atividade. Estamos a tratar de contratos envolvendo seres humanos (e não mercadorias). E, no caso específico do futebol, quanto mais jovem for o atleta, melhor pode ser o negócio, o que acaba promovendo esse abuso sobre jovens atletas.

Por essa razão, entendemos que os agentes de futebol devem ser controlados e que esse controle deva ser levado em consideração pelos legisladores, no Brasil e no exterior, para a definição de especificidade do esporte e da amplitude de aplicação da lei ao esporte.

Só desta maneira teremos dentre o rol de agentes de futebol, apenas agentes de futebol.

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Novos Mercados

Existem hoje, no Brasil, 87 jogadores estrangeiros registrados na CBF, dos quais 75% são sul-americanos. Não são muitos, afinal o número de jogadores brasileiros ultrapassa os 19 mil. No Brasil, do contingente total de jogadores, apenas 0,04% são estrangeiros. Muito pouco para causar qualquer preocupação comparável a das ligas européias, mais notadamente a da inglesa.

Mas esses números podem enganar. É cada vez maior a presença de estrangeiros nos níveis mais avançados do futebol brasileiro. Se antes um jogador não tupiniquim despertava atenção dos curiosos, hoje ele é figura presente em boa parte dos clubes da primeira e da segunda divisão. É fácil listá-los: Herrera, Acosta, Valdívia, Valencia, Ferreira, Perea, Hidalgo, Guiñazu, Conca, Maxi, e por aí vai.

Obviamente que, como os próprios números indicam, o Brasil está muito longe de ser um mercado importador de atletas, mas não se pode negar que esse é um movimento crescente. Com a decadência financeira e conturbações políticas reinante na América do Sul e a consolidação do oposto no Brasil, a tendência é que esses mercados se abram muito para o país, que tende a, na medida do possível, buscar alternativas que privilegiem principalmente a mão de obra mais barata em todos os setores da economia. No futebol não é diferente.

Já há, faz um certo tempo, uma concordância na maioria dos discursos de técnicos e diretores de futebol, reclamando que não existem mais bons jogadores brasileiros disponíveis no mercado. Dentro dessas condições, é natural que as organizações brasileiras busquem alternativas na vizinhança, principalmente por conta do desenvolvimento do esporte em países como Colômbia e Equador, e decadência dos clubes e ligas em países como o Uruguai. É natural, portanto, que o Brasil passe a importar mais jogadores.

Essa situação, como dito no começo desse texto, está longe de levantar a sobrancelha de qualquer pessoa, mas é uma tendência que tende a se fortalecer. Analisando friamente os dados e as situações dos mercados, o ambiente está muito favorável para este processo.

Ainda que não levante sobrancelhas, é bom, pelo menos, abrir o olho.

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Uma questão de critério

Lá pelas oito da noite, quando não tinha futebol na TV, eu dormia um pouco – até as dez, mais ou menos. Depois me levantava e andava até a entrada da caverna, principalmente se houvesse lua, quando então Aurora me fazia companhia, na maioria das vezes, sem me dizer nada, nem eu a ela. O sono só me pegava novamente depois da meia-noite, e nunca passava da aurora, quando eu gostava de encher o salão da caverna com os odores de um café de coador.
 
Estava eu olhando para cima, uma que outra estrela caía, quando Oto entrou apressado e se dirigiu ao salão central da caverna. Curioso, fui atrás dele. O morcego chegou e pousou no teto, bem acima do poço que brota de um rio subterrâneo, no meio do salão. Ouvi quando chamou baixinho, “Arnaldo, Arnaldo”, e logo em seguida meu bagre cego emergiu sonolento. A conversa que se seguiu eu a memorizei e a reproduzo por atenção à vossa curiosidade sobre o esporte bretão.

 
“Diga-me uma coisa, Arnaldo”, perguntou o morcego, meio falando, meio chiando. “Por que aquele rapaz, o Dunga, foi escolhido pela confederação de futebol para ser o técnico da seleção, se ele nunca tinha sido técnico antes? Não é um mistério?”.
 
“Mistério não”, respondeu Arnaldo. “Critério”. Arnaldo tinha a mania, enquanto falava, de soltar bolhas pelo canto direito da boca, como se estivesse babando.
 
“Como assim, critério, se o Dunga nunca treinou ninguém antes e lhe entregam na mão o que tem de melhor no mundo?”, retrucou o quiróptero.
 
“Ora, é porque você não conhece o presidente da Confederação”, prosseguiu Arnaldo. “Além de talentoso, não dá ponto sem nó. Se ele escolheu o rapaz, é porque o moço é o melhor. Mas para você, que é meu grande amigo, posso confidenciar uma coisa, apesar de ter jurado não revelar isso a ninguém”.
 
Nesse ponto, notei que Oto assanhou-se e a curiosidade ardeu: “O que é? Conte!”.
 
“Vou lhe dizer”, avisou o bagre. “Você sabe que tenho meus contatos – na verdade, uma linha direta com o presidente. Foi dele que recebi um recado tempos atrás, pedindo-me sugestões. Ele não queria que aquela pouca vergonha da Copa de 2006 se repetisse mais. Precisava de um técnico durão e sem os vícios da profissão. Para ser mais exato, ele me disse que queria o Dunga, mas precisava justificar sua convocação. Afinal, o moço nunca tinha sido técnico. Os outros técnicos, o sindicato, a imprensa, todo mundo faria um escândalo. O presidente me perguntou se eu podia reunir alguns argumentos que justificassem a escolha. Foi quando me ocorreu estabelecer certos critérios que tornassem impossível a qualquer outro treinador bater o Dunga na escolha. Era preciso premiar o caráter voluntarioso do jovem capitão e oferecer ao nosso querido presidente a oportunidade de apagar a mancha produzida na seleção canarinho durante aquela trágica efeméride de 2006. Fiz aquilo que todo brasileiro de boa vontade deveria fazer, que é colaborar com as autoridades que se sacrificam por nós dirigindo este país. Mas, veja bem Oto, conto com sua discrição. Ninguém, mas ninguém mesmo pode saber que tem meu bigode aí”.
 
Depois que Oto jurou beijando os dedos em cruz, jurou por Deus, jurou por sua mãe mortinha, Arnaldo, babando pelos cantos da boca como nunca vi, passou a desfiar seus tão secretos critérios.
 
“O critério número 1: nunca ter perdido um título regional: nenhum dos técnicos listados cumpriu esse critério; quer seja em São Paulo, Rio, Minas ou Pernambuco, um dia falharam e viram seus times derrotados. O único que, naquela ocasião ainda não falhara fora o heróico capitão da Copa de 94”.
 
Oto quase mordeu Arnaldo, que mergulhou estrategicamente para voltar segundos depois no outro lado do poço. Espumando tal qual um morcego hidrófobo, o vampirinho ciciou no ouvido do bagre que aquilo era um escândalo; o rapaz não era técnico nem aqui nem na China. Como podia ter perdido ou não perdido títulos? Ele não os disputava!
 
“Justamente”, respondeu o bagre. “Mas isso não importa, ele preenche o critério. E mais: será técnico na China, sim”.
 
“Como assim? Minha mãe também nunca perdeu um título, e nem por isso…”, argumentou Oto.
 
“Mas ela não estava na lista do presidente”, respondeu rapidamente Arnaldo. “Ele, criteriosamente, listou todos os convocáveis: o Luxa, o Muricy, o Autuori, o Mano. Estava na cara que o ex-capitão, por seus dotes, mais cedo ou mais tarde, seria técnico, portanto, por que não antecipar o evento? E agora, pare de me interromper, para que eu desenrole os demais critérios.
 
O número 2: nunca ter perdido um título nacional: nesse item, nosso jovem aspirante venceu disparado. Dos listados, vários sequer haviam disputado títulos nacionais. Nosso capitão, além de bravo, era um nunca antes derrotado.
 
O número 3: fidelidade aos clubes. Todo mundo conhece a ciranda dos técnicos. Alguns chegam a treinar dois a três times num único ano. Nenhum dos convocáveis guardou fidelidade. Lembra que o Leão abandonou o São Paulo às vésperas do Mundial? E o Luxa, o que fez no Santos? O Muricy parece fielzinho, mas não sei, não. Acho que o presidente confia nele tanto quanto no Rogério Ceni. Agora, nosso jovem capitão é outra história, tem a fidelidade do cão”.
 
“Mas assim não vale”, vociferou Oto. “Ele foi fiel apenas como jogador. Duvido que teria sido como técnico”.
 
“Cale-se”, interrompeu Arnaldo. “Cale-se ou chamo Aurora e você vai ver o que se faz com morcegos mal educados. Você não vê que pela primeira vez um presidente de confederação adota, para escolher seu técnico, critérios científicos?”. E prosseguiu sem dar mais ouvidos a Oto.
 
“O critério número 4: rigor”.
 
Oto não se conteve: “Aí o Muricy ganha de todo mundo”.
 
O bagre fez que não ouviu. “Por sua condição de capitão à frente do escrete, ele [Dunga] foi o escolhido. Na Copa de 1998 ele só não fez bater nos jogadores. Está certo que não jogou muita bola, mas foi tão bravo que chamou a atenção do presidente, que logo pensou: Esse rapaz, quando deixar o futebol, tem futuro como técnico. É de alguém assim que a gente precisa para moralizar aquela bagunça de cada um fazer o que quer. A Copa de 2006 deu razão ao presidente.
 
O número 5: não ser chamado de burro pela torcida. A voz do povo é a voz de Deus”, sentenciou Arnaldo. “Não sei se foi o Mahatma Gandi que disse isso, ou se foi alguém por aqui mesmo. O fato é que ninguém como o presidente respeita mais a voz do povo. Sempre que a galera se manifesta, ele anota os recados. O rapaz era o único, dentre os convocáveis, que não havia recebido tal veredicto das arquibancadas.
 
E, finalmente, o último e decisivo critério: não ter qualquer ligação de fundo sentimental ou monetário com clubes de futebol”.
 
“Não, assim não vale”, protestou Oto, quase em lágrimas.
 
“Olha aqui, seu vampirinho insignificante”, interrompeu Arnaldo, os bigodes em riste. “Você não conhece o president
e, por isso levanta tantas dúvidas. E, se o conhecesse, saberia que se trata de um homem respeitoso e de talento. O fato é que muitas seleções já afundaram pela promiscuidade com os interesses financeiros ou pelas seqüelas deixadas por sentimentos mal digeridos. Só, repito, só um entre as dezenas de nomes listados, atendia esse critério, portanto, o escolhido só podia ser ele”.
 
“Está bem, Arnaldo, não vamos estragar nossa amizade por causa de futebol. Só mais uma perguntinha, para terminar: Esqueça sua admiração pelo presidente; apelo ao seu sentido ético. A escolha desse jovem não ofende a profissão? Afinal, os demais convocáveis eram todos profissionais havia vários anos. A Confederação, com esse ato, não lhes passou um atestado de incompetência?”.
 
“Em hipótese alguma, Oto. Afinal, há um longo caminho a percorrer até a Copa do Mundo: muito, muito tempo para aprender”.
 
“Mas você acha mesmo, Arnaldo, que a seleção é um lugar para aprender?”.
 
“Claro que sim, meu caro amigo. Todos os lugares são bons para aprender. E, afinal, sempre teremos a oportunidade de ver em ação um jovem livre dos vícios e pecados da profissão, que todas os têm. Confie no presidente Oto. Nós, brasileiros, temos que aprender a confiar nas instituições”.
 
“Ma… mas”, gaguejou o morcego em tom esperançoso. “Você acha, Arnaldo, que teremos alguma chance em 2010 com esse rapaz à frente?”.
 
“Alguma não. Muitas! Porém, jogo é jogo, você sabe. Só o tempo dirá”.
 
Aguardei que nascesse o dia para sair um pouco da caverna e meditar sobre a conversa insólita ouvida por mim na noite anterior entre um morcego apaixonado e um bagre crédulo. Chamei Oto ao entardecer e perguntei se ele podia levar uma correspondência para o jovem João Paulo. “Hoje não dá”, respondeu o quiróptero. “Nossos informantes mandaram dizer que se aproxima uma verdadeira nuvem de mariposas suculentas. Amanhã, talvez”.
 
E, se vocês a lêem é porque a mensagem chegou. Aurora não se antecipou.

Para interagir com o autor: bernardo@universidadedofutebol.com.br

Leia mais:

Trocando as bolas
Aurora

* Bernardo, o eremita, é um ex-torcedor fanático que vive isolado em uma caverna. Ele é um personagem fictício de João Batista Freire.

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Estado de choque 2

Recentemente abordamos neste espaço o escandaloso tema que foi o vexame, ocorrido no Recife, do confronto entre policiais e jogadores do Botafogo após a trapalhada de André Luís. O caso parece ter levantado uma batalha que ultrapassa os limites da racionalidade e, finalmente, começa a gerar na imprensa o debate do papel do jornalista no esporte.

Desde o caos no Recife, uma batalha se espalhou pelos especialistas da imprensa. O ápice dessa disputa veio mais uma vez do You Tube, com o vídeo cada vez mais famoso em que Luciano do Valle desabafa contra colegas de emissora e dá uma banana para o bom senso cobrando, exatamente, racionalidade daqueles que trabalham com ele.

Luciano está acima do bem e do mal para muita gente. E o que ele fez foi colocar o dedo na ferida que, a cada dia, abre mais na entranha do jornalismo esportivo. Qual o senso de responsabilidade de quem empunha microfones ou dedilha as teclas de um computador?

É cada vez mais um senso comum entre os coleguinhas que falta um parâmetro para nortear o trabalho dos profissionais da imprensa esportiva. Ainda temos muitos ex-atletas no cargo que poderia ser ocupado tranqüilamente por um jornalista. E muitas vezes jornalistas que descumprem o juramento feito quando da sua formatura na faculdade.

O fato é que, finalmente, começa a ganhar corpo o debate para que seja criado um código de boa conduta (para não dizer um código de ética, mesmo) no jornalismo esportivo. Será que é possível usar o microfone para dizer sentenças definitivas sobre determinado tema sem que se tenha o mínimo de responsabilidade sobre aquilo que se fala?

Pode um profissional da imprensa esportiva falar o que quer e não ser punido por dizer o que não deve? Será que nunca vamos ter um termômetro para medir o impacto de uma declaração de uma pessoa numa emissora de TV, num jornal, na internet, na rádio, no bar da esquina no comportamento do torcedor?

Certamente não existe fórmula fechada sobre o exercício do jornalismo. Cabe ao jornalista seguir o seu parâmetro ético para nortear seu trabalho. Mas começa a ser cada vez mais evidente que, do jeito que está, não dá para ficar. O jornalismo tem cedido espaço ao achismo e, com isso, reforçado todos os preconceitos, de todos os lados.

O estado de choque em que ficou o futebol no jogo André Luís x Polícia de Recife não pode, sinceramente, voltar a chocar o país quando algo de mais grave acontecer em decorrência de insultos proferidos por pessoas irresponsáveis com sua profissão.

Ou começamos a pensar duas vezes antes de falar, ou veremos o profissional de imprensa não ter mais o direito de ter voz para falar. E aí o estado de choque vira estado de sítio.

PS: Pretendia abordar nesta segunda os reflexos de Paraguai x Brasil na cobertura da imprensa e no futuro de Dunga no time nacional. Até pelo fato de estar no Paraguai trabalhando no jogo pelo Bandsports. Mas o blecaute brasileiro deixa o céu de Dunga completo de nuvens. Só que, como Dunga é Dunga, a sorte é bem capaz de soprar a seu favor na quarta-feira. E o Brasil, de quarto colocado, salte para segundo. Impossível não é. Ainda mais tendo um rival que gosta de deixar o Brasil jogar como é a Argentina. E aí, para variar, a bola vai calar a crítica. E os problemas vão continuar…

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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Dimensão tática do jogo de futebol

“Vencer, perder, empatar… O que pesa mais ao trabalho de um técnico de qualquer esporte; a derrota determinada em um detalhe, ou a vitória representada numa seqüência de erros não aproveitados pelo adversário (e ao acaso; que talvez não exista; mas que resultou em um gol, cesta, ponto, enfim no êxito)? Certamente, muitos de nós pensamos apenas na importância do resultado final de um trabalho (vencer ou perder), ou pelo menos nos preocupamos demais com isso, sem nos atentarmos que a qualidade, a estrutura do que formamos para nossos atletas e equipes é a essência do êxito. O ideal então estaria em agrupar as duas coisas; construir um grande trabalho (o que já é parte da vitória), e a partir disso, buscar vencer. Para tal, poder cuidar de detalhes e ter acesso a variáveis que refletem o rendimento de uma equipe é algo muito valioso. No futebol profissional, vencer é mais do que um objetivo é uma necessidade para sobreviver”. (LEITÃO, 2004).

No mundo em que vivemos, seja nas grandes indústrias multinacionais, na sorveteria da esquina ou no esporte de alto rendimento, é cada vez mais importante a capacidade das pessoas e organizações de reconhecer, captar, decodificar informações.

Elas (as informações), têm “peso de ouro”. Ter a informação antes dos outros, ou saber melhor o que fazer com ela é essencial para o sucesso.

Não é por acaso que o Google, criado em 1998, transformou-se, segundo Vise e Malseed (2007), de uma ferramenta online de buscas, no maior império da internet, tornando-se em menos de uma década, imprescindível às pessoas e empresas ávidas por informação.

No futebol, é quase “praxe” que muitas vezes se peque pelo excessivo empirismo, onde eventos, fatos e acontecimentos sejam explicados por “achismos” descontextualizados e desvinculados das bases do conhecimento científico. Não é incomum também que quando não se deslize pelo empirismo, erre-se pelo cientificismo quantitativo, que transforma toda complexidade dos fatos em simplismos que também não explicam ou condizem com os fenômenos observados.

Há porém de se destacar que, talvez esteja na falta do conhecimento científico aplicado, a grande lacuna profissional do futebol, que permite, segundo Garganta (1997), que a “experiência funcione com argumento de autoridade“.

Então, buscar a informação, construída sobre as bases da Ciência, possibilitaria estruturar sólido “esqueleto” de conhecimentos.

“Em grande parte das modalidades desportivas a obtenção de diferentes tipos e níveis de informação pode ser o limiar entre uma preparação que leve ao êxito e outra que leve ao fracasso. No desporto de alto rendimento, em especial nos desportos coletivos, tem sido bastante empregados recursos que detalhem a técnicos e preparadores físicos características ligadas às qualidades físicas de atletas e equipes (as suas e as adversárias); o que não ocorre necessariamente com os aspectos táticos”. (LEITÃO, 2004)

 É claro que no universo desportivo alcançar o êxito é algo que depende de um grande número de dimensões que se integram e se relacionam. Isso significa dizer que são muitas as “faces do conhecimento” que precisam ser estudadas e compreendidas. Há porém de se destacar que a dimensão tática representa área importante dessa face, com grande expressão no resultado final de uma partida.

O fato é que talvez seja no futebol o ambiente onde a dimensão tática é mais intensamente negligenciada. Isso fica visível quando treinadores, especialistas e torcedores resolvem palpitar ou explanar sobre eventos táticos dentro de uma partida. Raras vezes ocorrem consensos, mesmo entre “profissionais gabaritados do mundo da bola” que acabam tendo explicações distintas para uma mesma ocorrência no jogo.

Como a dimensão tática não é encarada como uma possibilidade da ciência, com conhecimentos singulares a ela (o futebol como um todo tem dificuldade de aceitar a ciência), qualquer coisa que ocorra dentro desta dimensão é submetida ao crivo dos “achismos” baseados em verdades construídas a partir da reprodução mecânica e automática de treinos ou partes do jogo.

E recorrendo mais uma vez a Europa, é fato que lá as grandes equipes (Milan, Real Madrid, Barcelona, Internazionale de Milão, Liverpool, Chelsea, Manchester, etc) dispõem de serviços de captação de dados (que são transformados em informação) de jogos de suas equipes e adversários. Tudo é mapeado, discutido e levado para o campo nos treinamentos. Nessas equipes os treinadores têm obrigação de saber interagir com as informações (e profissionais que as coletam) e aproveitá-las no seu trabalho.

É, mas no Brasil ainda estamos engatinhando. Ousaria dizer que vivemos em um analfabetismo tático, onde quem sabe o “A-E-I-O-U” já sai na frente.

Enquanto acreditarmos que ciência é perfumaria e não faz gol, vamos ter que continuar sem entender porque o Brasil perdeu para a seleção da França em 1998 e 2006 (na Copa do Mundo de Futebol); ou melhor vamos continuar aceitando a idéia de que em 1998 o problema foi o Ronaldo e o seu mal súbito, e que em 2006 o problema foi o Parreira que não deu bronca na beira do gramado e o Roberto Carlos que abaixou a meia na hora errada.

É meus amigos… Mas apesar de ser futebol, no fundo tudo não passa de um problema simples: ou acreditamos que o “Elvis não morreu” e que Papai Noel vai chegar voando com suas renas na noite de Natal; ou que um dia crescemos e amadurecemos para compreender que a vida não era tão simples quanto parecia quando nossa maior responsabilidade era ir bem na escola.

Bibliografia

GARGANTA, J. M. Modelação tática do jogo de Futebol: estudo da organização da fase ofensiva em equipes de alto rendimento. 1997. 150 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física, Universidade do Porto, Porto.

LEITÃO, R. A. “Futebol: Análises qualitativas e quantitativas para verificação e modulação de padrões e sistemas complexos de jogo”. 2004. Dissertação de Mestrado (Ciência do Desporto): Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas.

VISE, D.A., MALSEED, M. Google: a história do negócio de mídia e tecnologia de maior sucesso dos nossos tempos. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.

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autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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Estabilidade contratual – benefício do atleta e do clube

Prezados amigos da Universidade do Fubebol:

Hoje é feriado em Lisboa. Dia do padroeiro da cidade, Santo Antonio, o santo casamenteiro. Inspirado nesse feriado resolvi escrever sobre o “casamento” entre jogador e clube, e a conhecida estabilidade contratual dos jogadores. Essa fundamentação jurídica para a existência da estabilidade contratual decorre do principio da especificidade do esporte, que tanto comentamos em nossas colunas e que o mundo do direito tanto busca para garantir maior segurança jurídica nas relações desportivas.

O atleta profissional de futebol não é um empregado normal, como já mencionamos anteriormente. Trabalha nos finais de semana, concentra-se antes dos jogos e se sujeita a um mercado de transferências diferente de qualquer outro ramo de atividade. Por essa razão, a Fifa criou o conceito de estabilidade contratual dos atletas de futebol, de forma que, por exemplo, o clube não pode rescindir unilateralmente seu contrato de trabalho. Isso dá maior segurança para que o atleta profissional possa exercer suas atividades.

A intenção da Fifa foi de, justamente, reconhecer que o jogador é o lado mais fraco da relação, via de regra, e, portanto, merece proteção adicional para os casos de abusos de clubes. É preciso entender, por outro lado, que a regra acaba aplicando-se também aos jogadores, que não podem rescindir com os clubes unilateralmente durante a temporada em prol da estabilidade contratual.

Opção de renovação do clube
 
Recentemente também, um novo entendimento importante parece ser consolidado em Tribunais na Europa. Em uma relação de trabalho na Liga Portuguesa de Futebol, foi estabelecido que o clube possuía uma opção unilateral para renovação da relação de trabalho. Assim, às vésperas do término do contrato o clube exerceu a opção de renovação, contrariamente à intenção do jogador.

O caso foi para as Cortes, que determinaram que a cláusula de opção exclusiva do clube era nula, por tornar o empregado excessivamente vulnerável na relação de trabalho desportiva. Interessante notar que, no Brasil, essa prática é bastante comum. No Rio de Janeiro, tivemos notícia do caso envolvendo o atleta Leandro Amaral e o Vasco da Gama.

Os clubes costumam adotar esse tipo de cláusula justamente para ter o critério exclusivo de determinar a continuidade ou não do jogador no clube. Mas essa prática de fato não me parece correta (a menos que o mesmo direito de opção seja dado ao jogador).
 
Reflexos do Caso Webster
 
Ainda no tema da estabilidade contratual, o ex-jogador brasileiro do FC Porto, Paulo Assunção, rescindiu unilateralmente seu contrato finda a temporada, alegando semelhança de condições com o caso recentemente decidido pela Corte Arbitral do Esporte – CAS. O jogador alega não poder ser punido além do valor residual do contrato uma vez que, por ter ultrapassado o chamado protected period, previsto para contratos em que a estabilidade contratual é ainda mais acentuada.

O Caso Webster trata justamente dessa questão. Não podemos julgar o caso sem antes sabermos de todos os elementos do caso, inclusive os termos do contrato de trabalho em questão. O importante é sabermos que o caso Webster não pode ser aplicado diretamente a todos os casos semelhantes, como aconteceu com o Caso Bosman. O Caso Webster ocorreu por conta de diversos fatores específicos, e que podem não ser os mesmos de outros casos, como esse do Paulo Assunção.

Vamos aguardar uma posição do Porto a respeito.

Para finalizar, entendo que a estabilidade contratual deve ser sempre buscada, em prol de melhores relações de trabalho e de uma melhor qualidade do futebol, como resultado final. Só assim o casamento entre atleta e clube estará a salvo. E sem a ajuda de Santo Antonio.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

 
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Paixão, não!

Hoje é Dia dos Namorados, como você deve bem saber. Afinal, são inúmeras mensagens te avisando sobre isso, sejam elas sendo emitidas pelas lojas, pelos shopping centers, pelas empresas de telefonia móvel ou pela sua mãe que não pára de te ligar falando que ta mais do que na hora de ela ter uma nora, ou um genro, de verdade.
 
E o que faz o Dia dos Namorados ter importância para esta coluna em questão e, mais especificamente, para o futebol? Aliás, o que é que o namoro tem a ver com o futebol?
 
A resposta é até meio óbvia. Ambos, dizem, são movidos pela paixão. É a paixão que serve como o combustível principal de uma relação amorosa, principalmente na sua fase mais frágil e irresponsável, o caso do namoro. Quando a paixão acaba, o namoro se esfacela. Afinal, ainda não vieram os filhos, as pensões e as divisões de bens, então não há muito com o que se preocupar quando a relação é rompida.
 
No futebol, dizem que o combustível essencial da relação entre o clube e o seu torcedor também é a paixão. É ela que faz com que os torcedores cometam loucuras pelo seu time, que chorem, que gritem, que esperneiem e que comprem produtos, seja lá quais esses forem.
 
Toda vez que alguém fala sobre alguma coisa de anormal no futebol, o discurso de justificativa tende a ser “Ah… Isso é a paixão do futebol…”. Aí, quando um clube vai trabalhar o seu público, dizem que ele precisa saber explorar a paixão do torcedor, que ele precisa conseguir capitalizar esse sentimento tão nobre.
 
O problema é que a referida paixão é só uma nomenclatura que simplifica diversos outros laços entre o torcedor e o clube de futebol. Ninguém é apaixonado por uma equipe. A paixão verdadeira, o sentimento amoroso desencadeado por reações químicas, inexiste na relação clube-torcida. O que há, de fato, são outras tantas variáveis psico-sociais que fazem a intermediação do processo. Estudos sérios enumeram diversas, que passam por sentimentos de identidade, de idolatria e de cultura familiar. A paixão não é citada em momento algum.
 
Enquanto clubes e torcidas acreditarem que a relação se resume à paixão apenas, os clubes terão dificuldades em ativar o seu público e seus torcedores não terão suas reais necessidades supridas.
 
Nenhuma relação entre clube e torcida deve ter sua sustentação baseada na paixão. Aliás, nem um namoro deve funcionar dessa forma.
Portanto, compre um presente.

Para interagir com o autor: oliver@cidadedofutebol.com.br

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Ausência

Caro internauta,
 
Informamos que o texto semanal do colunista Erich Beting não será publicado nesta segunda-feira.
 
Lamentamos o infortúnio e estamos trabalhando para que isso não se repita na semana que vem.
 
Agradecemos por sua compreensão.
 
Sem mais.
 
Equipe Cidade do Futebol
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Receita de bolo tática

Nos últimos dez anos, muitas foram as equipes que adotaram em seu modelo de jogo estratégias defensivas orientadas por ocupações de espaço que tiveram como regra básica a presença de nove ou dez jogadores atrás da linha da bola (mais o goleiro).
 
Ainda que mereça uma ou outra restrição e que não proporcione jogo tão atrativo em determinados momentos, não se pode negar que algumas dessas equipes, empenhadas na excelente execução do seu modelo de jogo, alcançaram resultados mais do que satisfatórios em jogos e campeonatos importantes.
 
Organizar o sistema defensivo de uma equipe tendo como norte ter o maior número de jogadores participando efetivamente das estratégias de marcação, atrás da linha da bola, não é de todo uma tarefa das mais complicadas.
 
Num jogo de futebol, o momento de maior perigo defensivo para uma equipe ocorre justamente quando ela ataca. Isso pode ser facilmente entendido se considerarmos que quando uma equipe está a atacar a maior parte dos seus processos sistêmicos está voltada para a construção de uma jogada, e uma “parte menor” simultaneamente para garantir que se acontecer algo de errado, a meta defensiva não estará demasiadamente exposta (balanço defensivo).
 
Como o balanço defensivo é uma estrutura do sistema defensivo orientada ao mesmo tempo pela evolução da jogada ofensiva (construída pela própria equipe) e pela ocupação espacial dada pelos jogadores da equipe que se defende, as possibilidades de, ao se perder a bola, correr riscos defensivos importantes são grandes.
 
Então ao se buscar o ataque, a maior parte do foco estará voltada para isso; e a “parte do foco” voltada para o balanço defensivo é orientada por nortes dinâmicos que podem potencializar as chances de erro.
 
Pois bem. Se maiores são os riscos defensivos que uma equipe sofre quando ela está atacando, maiores serão as chances de conseguir êxito em um jogo se esse momento de risco puder ser mais bem aproveitado pela equipe que está se defendendo.
 
E é aí que o “marcar” com maior número de jogadores possível atrás da linha da bola se torna uma estratégia promissora: quanto mais jogadores, em um espaço reduzido (meio campo defensivo), menos brechas e corredores para penetração adversária. A dificuldade de penetração induz a uma previsível circulação de bola de um lado ao outro do campo de jogo. A maior circulação horizontal da bola desencadeia maior número de “zonas de interceptação”, e isso, um maior número de interceptações. Mais interceptações, com uma boa estratégia de transição ofensiva pode levar a ataques rápidos e promissores na retomada da posse de bola.
 
Então (pela enésima vez), se no futebol a defesa sobressai ao ataque, adotar como plano de ação defensivo básico um grande número de jogadores atrás da linha da bola pode ser um reforço pouco elaborado, porém aparentemente eficiente para o sistema de defesa.
 
A eficiência desse modelo de jogo ganha forças na medida em que no futebol há uma identificação positiva satisfatória entre “treinador de sucesso” e “treinador que arma bem as defesas de suas equipes”. Então, sem muitas elaborações, garantir uma defesa que sofre poucos ou nenhum gol pode ser um “marketing” eficiente para treinadores e suas equipes.
 
Com relação às transições ofensivas, também nada muito complicado. Onze defendem, recuperam a bola e quatro ou cinco saem rapidamente no contra-ataque. A jogada deve terminar em finalização. Se houver perda da bola, interrompe-se a jogada imediatamente (falta); a equipe se reequilibra defensivamente, e começa tudo de novo.
 
Você conhece alguma equipe que joga assim? Abra o olho…

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br