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Entrevista Tática – Guilherme Almeida, zagueiro do Verdy Tokio-JAP

Com o auxílio do treinador Rodrigo Bellão, companheiro de trabalho e com muita experiência em categorias de base, publico a coluna desta semana.

O atleta entrevistado teve boa parte de sua formação na Portuguesa-SP e, atualmente, defende o Verdy Tokyo pela segunda divisão do futebol japonês.

Ao longo da entrevista, algumas informações que confirmam aquilo que recorrentemente discutimos, como a importância do futebol de rua para a formação e a velocidade de jogo em outros centros, superior ao jogo brasileiro. Confira:

1 – Quais os clubes que você jogou a partir dos 12 anos de idade? Além do clube, indique quantos anos tinha quando atuou por ele.
Aos 13 comecei a jogar na Portuguesa-SP e fiquei lá até aos 17, quando me transferi para o Palmeiras-SP e joguei por dois anos. Com 19 anos fui para o São Paulo-SP e com 20 para o Avaí-SC. Hoje estou com 21 anos e jogo no Verdy Tokyo, do Japão.

2 – Para você, o que é um atleta inteligente?
Creio que existem vários conceitos para ser um atleta inteligente. Um deles é ter a mentalidade que nunca sabemos de tudo, que precisamos aprender a cada dia. Aquele que consegue absorver o máximo de aprendizado de cada dia de trabalho e no nosso caso a cada dia de treino.

3 – O quanto o futebol de rua, o futsal ou o futebol de areia contribuiu para a sua formação até chegar ao profissional?
O futebol de rua com certeza me ajudou muito, pois a minha infância toda foi ralando os dedos no asfalto. Isso me deu uma “malandragem” boa no “mundo da bola”. Já o futsal foi onde comecei a dar os primeiros passos até descobrir que era no campo que ia me encontrar como jogador.

4 – Em sua opinião, o que é indispensável numa equipe para vencer seu adversário?
Acredito que todos os jogadores, independentemente se titulares ou reservas, terem a mesma vontade, o mesmo entendimento tático, todos (como usamos no mundo do futebol) “comprarem a ideia do treinador”, se dedicarem a ela, e acreditarem que vai dar certo se tiver o entendimento e a entrega do grupo todo. Os talentos individuais, que decidem uma partida, só aparecem se o time estiver bem durante um jogo.

5 – Quais são os treinamentos que um atleta de futebol deve fazer para que alcance um alto nível competitivo?
Acho que individualmente treinar ao máximo em cima das dificuldades. Digo por mim que tinha dificuldades para usar a perna esquerda e me dediquei a treinar e hoje tenho facilidade para usar a mesma. Essa questão também se enquadra em uma das perguntas anteriores sobre ser um atleta inteligente. Trabalhar em cima dos “defeitos” também é uma qualidade de jogadores inteligentes!

6 – Para ser um dos melhores jogadores da sua posição, quais devem ser as características de jogo tanto com bola, como sem bola?
Ao meu ver, para ser um bom zagueiro é preciso ter uma boa saída de bola, conseguir sair da pressão com qualidade de passe e ter um bom cabeceio. Sem a bola ter uma boa recomposição e entender bem as movimentações das linhas, tanto a de trás como a da frente. E, é claro, ter o extinto de defensor: de se entregar na marcação para evitar a dádiva do futebol que é o gol.

7 – Quais são seus pontos fortes táticos, técnicos, físicos e psicológicos? Explique e, se possível, tente estabelecer uma relação entre eles.
É sempre difícil falar de si, mas por ter jogado de meio-campista e volante por um bom tempo tenho uma boa qualidade de passe. Taticamente, consigo entender bem as movimentações e mudanças de posição. Como não sou um zagueiro de força supro isso com a inteligência, concentração e outros quesitos.

8 – Pense no melhor treinador que você já teve! Por que ele foi o melhor?
Eu tive vários treinadores bons, mas teve um que marcou pois ele ajudou muito no meu crescimento. Ele me apontava os defeitos, me fazia trabalhar em cima deles e me ensinou a usar a minha inteligência ao meu favor. Ele era calmo, não usava palavrões, não gritava e não usava essas “armas” que normalmente são usadas por treinadores e que são comuns no futebol. Mesmo assim ele tinha o grupo nas mãos! Fez um time que não era tão bom tecnicamente, se entregar na parte física e tática e chegar a uma semi final de campeonato, onde poucos acreditariam que chegássemos

9 – Você se lembra se algum treinador já lhe pediu para desempenhar alguma função que você nunca havia feito? Explique e comente as dificuldades.
Na minha trajetória já joguei em varias posições. Comecei de meia, depois volante e hoje zagueiro. Nunca tinha jogado de lateral direito e teve um jogo que precisei fazer essa função. Nosso lateral foi expulso, tínhamos feitos as três substituições e precisei jogar. Com um jogador a menos mais defendi do que ataquei, mas por orientar demasiadamente o meu lateral direito quando jogo de zagueiro eu sei o que ele tem que fazer. Então não tive muita dificuldade para exercer essa função, só fiquei um pouco mais cansado, pois lateral corre demais.

10 – Qual a importância da preleção do treinador antes da partida?
A preleção é de suma importância, pois são acertados detalhes sobre o que faremos dentro de campo principalmente taticamente. Muitos confundem preleção com motivação. Eu discordo, pois se um jogador está no vestiário pronto pra entrar em campo e está desmotivado ele não é um jogador de futebol. Creio que não é preciso motivar nenhum jogador de futebol para jogar!

11 – Quais são as diferenças de jogar em 4-4-2, 3-5-2, 4-3-3, ou quaisquer outros esquemas de jogo?
Na minha posição muda a movimentação da linha, o jeito de se fazer coberturas, muda o modo de fechar para ser atacado, muda o jeito de subir a linha e dar o apoio para que outro jogador saia para dar combate.

12 – Comente como joga, atualmente, sua equipe nas seguintes situações:
• Com a posse de bola;
• Assim que perde a posse de bola;
• Sem a posse de bola;
• Assim que recupera a posse de bola;
• Bolas paradas ofensivas e defensivas

Com a bola somos muito agressivos e sempre procuram o jogo pra frente. Quando perdemos a bola a pressão é muito forte sobre a bola independente em que parte do campo ela se encontra. Quando recuperamos a posse, o primeiro objetivo é sempre pra frente, sempre procurar o gol.

Pecamos um pouco nas bolas paradas no começo do campeonato, mas estamos treinando forte em cima disso e já houve melhoras nos últimos jogos.

13 – O que você conversa dentro de campo com os demais jogadores, quando algo não está dando certo?
Procuramos achar o erro para acertar, pois quando conseguimos diagnosticar o que está err
ado é mais fácil acertar. Complica quando não conseguimos achar o erro, ou então, quando conseguimos achar tarde demais e o placar já está desfavorável.

14 – Como você avalia seu desempenho após os jogos? Faz alguma reflexão para entender melhor os erros que cometeu? Espera a comissão técnica lhe dar um retorno?
Eu sou um jogador que me cobro muito e procuro sempre corrigir o que errei e trabalhar em cima do que acertei para continuar acertando. Normalmente eu vou atrás dos DVD’s dos jogos para que eu tenha a visão de quem está de fora, que é totalmente diferente da nossa que estamos lá dentro.

15 – Para você, quais são as principais diferenças entre o futebol brasileiro e o europeu? Por que existem estas diferenças?
Vou comparar com o futebol japonês que é onde estou hoje. O futebol brasileiro é mais cadenciado, mais técnico, é um futebol mais bonito e mais clássico. Aqui no Japão o jogo é muito corrido, é o tempo todo em velocidade e com muita pressão sobre a bola. Não sei falar ao certo o porquê exatamente existem estas diferenças. Temos muito que aprender com eles e com certeza eles têm muito mais que aprender com nós, brasileiros, pois somos o pais do futebol independente de qualquer coisa.

16 – Se você tivesse que dar um recado para qualquer integrante de uma Comissão Técnica, qual seria?
Eu acho que comissão técnica tem que ser um amigo e não um inimigo do atleta. Tem que saber separar as coisas, saber a hora de cobrar severamente e a hora de conversar e saber o que está passando na cabeça do jogador. Ser jogador de futebol é uma mistura de sentimentos muito grande. Eu não vejo outra profissão que tenha esta mistura, pois você se sente ansioso, feliz, triste, motivado, preocupado, nervoso, tranquilo, cobrado, etc. Esta mistura de sentimentos às vezes atrapalha se não tiver pessoas para dar o suporte necessário. Nem sempre o jogador de futebol entende as coisas através de gritos, broncas e palavrões. As vezes uma conversa individual com um jogador pra mostrar onde ele pode evoluir é muito mais produtiva. Gostaria de dizer também que se a ele entregamos a confiança de conduzir nosso trabalho, esperamos que ele nos ajude a evoluir para que juntos possamos crescer, pois quando se ganha todos ganham e quando se perde todos perdem, inclusive a comissão.

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Copa do Mundo: tem que dar certo

Há 7 anos quando o Brasil (pediu) e conquistou o direito de organizar a Copa do Mundo de Futebol, o povo comemorou e o coração do brasileiro se encheu de ufanismo.

Eu nunca imaginaria que há menos de 50 dias para o Mundial, o pessimismo e o anticlímax nos roubassem o orgulho e o ufanismo.

Pululam movimentos e manifestações sob o slogan “não vai ter Copa”.

Esses movimentos estão sete anos atrasados, eis que eventuais manifestações contrárias deveriam ter sido realizadas quando o país se candidatou e não agora.

Naquele momento todos os movimentos sociais estavam animados com a ascensão ao Poder de um metalúrgico e estimulados pelo crescimento econômico-social quedaram inertes.

Agora, sete anos depois, criticam a Fifa como culpada pelo Brasil ser sede, pelos atrasos, pelos gastos, enfim, por tudo…

Se é que há um culpado, este culpado é o Governo Lula que teve índices recordes de aprovação e reelegeu sua, até então desconhecida, candidata.

Que precisamos de hospitais, escolas, segurança e infraestrutura não é novidade. Aliás, já era conhecido em 2007, mas, naquele momento, sobraram aplausos.

O Brasil que pediu à Fifa para organizar o Mundial, não houve imposição e as exigências legitimadas na Lei Geral da Copa foram aceitas pelo país ao candidatar-se, repita-se, por opção, no livre exercício do seu Poder Soberano de escolha.

Sob o ponto de vista jurídico, nos termos do artigo 6º da Constituição da República, o lazer é tão direito social quanto educação, moradia, saúde ou segurança.

Agora, deixemos de falar da metade vazia do copo e passemos à parte cheia.

A Copa do Mundo desencadeou a implementação da infraestrutura aeroportuária e de mobilidade urbana. As doze cidades que receberão os jogos tornaram-se um verdadeiro canteiro de obras.

O Brasil passou a ser notícia no mundo em virtude de seu potencial turístico. O “The New York Times”, por exemplo, tem veiculado matérias com atividades em 36 horas nas cidades-sede. Uma publicidade turística sem precedentes.

Temos um enorme potencial turístico adormecido, especialmente, se levarmos em consideração que a cidade de Cancún, no México, sozinha, recebe mais turistas que todo o Nordeste brasileiro.

O Mundial aumentou em 88% o turismo na Alemanha e, na África do Sul, 94% dos turistas mudaram sua concepção do país e recomendaria a visita.

Ademais, a Copa do Mundo injetou R$ 7 bilhões na economia alemã e R$ 22,3 bilhões na África do Sul, sendo que, no país africano o evento significou o acréscimo de 1% em seu PIB.

Ou seja, o Mundial pode devolver os investimentos realizados, basta que o Poder Público faça uma boa gestão dos seus resultados.

E para isso, mais importante do que criticar o evento, o cidadão brasileiro deverá dispor da maior ferramenta democrática, o voto, em outubro.

Movimentos contrários à Copa do Mundo neste momento não terão qualquer efeito prático, eis que o Mundial irá acontecer com ou sem eles.

O nosso papel agora é criar uma onde verde-amarela positiva, pintar o rosto, a rua, a casa, encher o peito e o coração de orgulho porque organizaremos o maior evento esportivo do Mundo.

A cada dia a expectativa aumenta e o coração bate mais forte e com todos os problemas existentes, temos que realizar um evento magnífico.

Não há mais tempo para volta, a palavra está empenhada e os investimentos foram feitos. Agora, batalhemos para colher os frutos.

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Um dos legados de Senna

Hoje esta coluna traz de certa forma uma homenagem e um reconhecimento a um atleta que apesar de não ser do futebol, foi ídolo nacional: Ayrton Senna.

Seu legado é maravilho, tanto no aspecto profissional quanto no aspecto social.

Quero comentar sobre um estado de plenitude que o atleta pode alcançar e que Ayrton conseguiu atingir durante sua carreira. Podemos perceber isso claramente numa declaração sua após um treino de classificação para o Grande Prêmio de Mônaco em 1998. Após ter feito algumas voltas de classificação absurdamente rápidas, Ayrton Senna deu a seguinte declaração:

“Eu já estava na pole e continuava a andar cada vez mais rápido. Uma volta atrás da outra, cada vez mais rápido. Em certo momento eu estava na pole, então tirei meio segundo, e então um segundo, e eu continuava assim. De repente eu era dois segundos mais rápido que todos os outros, inclusive meu companheiro de equipe com o mesmo carro. E de repente percebi que não estava mais pilotando o carro conscientemente.

Eu estava pilotando meio que por instinto, mas eu estava numa dimensão diferente. Era como se estivesse em um túnel. Não apenas no túnel debaixo do hotel, mas o circuito inteiro era um túnel. Eu continuava pilotando, cada vez mais. Eu estava muito além do limite mas eu ainda conseguia encontrar algo a mais.”

Essa sensação ricamente relatada por Ayrton é um exemplo real do que podemos definir como um estado de Flow. Um de seus legados foi a sua capacidade de estar em Flow e como este estado lhe proporcionou sempre atuar em alta performance e obter resultados extraordinários no esporte.

No futebol, pode-se aprender com esse exemplo real do estado de Flow. Esclarecendo um pouco mais, este é um estado mental de operação em que a pessoa está totalmente imersa no que está fazendo, caracterizado por um sentimento de total envolvimento e sucesso no processo da atividade. Proposto pelo psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, este conceito tem sido utilizado em uma grande variedade de campos, inclusive no esporte.

Mihaly afirmava que “você fica em um estado de êxtase de tal modo que sente que nem se quer existe mais.” Em suas pesquisas ele entrevistou diversas pessoas e percebeu que existem elementos comuns que indicam como atingir este estado de foco absoluto: envolvimento completo no que se faz, sentimento de êxtase, sensação de estar fora da realidade, clareza interna sobre o que e como fazer, sensação de serenidade e motivação.

O estado de fluxo pode ser reconhecido facilmente quanto estamos concentrados numa tarefa, que muitas vezes nem prestamos atenção no que acontece ao nosso redor. Ao atingir este estado o atleta apresenta uma performance que pode traduzir como a excelência de toda sua capacidade. Quando estamos em Flow a experiência que temos pode-se comparar com o que os orientais definem como “Nirvana”, tomamos decisões eficazes e eficientes, utilizando adequadamente todos os recursos que possuímos.

Para obter um bom estado de Flow é necessário o ajuste adequado entre a complexidade da atividade, a nossa capacidade e o valor que atribuímos ao nosso trabalho. Na prática o Flow pode ser identificado quando o atleta sente-se num estado de:

• Absorção pela tarefa/situação;
• Motivação intrínseca;
• Energia positiva;
• Felicidade;
• Sintonia entre corpo e mente;
• Ausência de noção de tempo;
• Conscientização e sucesso;
• Sentimento de recompensa.

Penso que o futebol é repleto de situações nas quais os atletas podem atuar de maneira tão concentrada a ponto de atingirem o estado de Flow, as situações são cada dia mais estressantes devido à pressão por bons resultados constantemente e por conquistas em todas as competições que os clubes disputam.

Esse legado da prática de sua atividade esportiva no máximo de sua capacidade e excelência serve de inspiração para os atletas de futebol busquem atingir seus estados de Flow e um bom Coach pode contribuir fortemente com a aplicação de um processo que promova o aprendizado e o desenvolvimento de novos estados de Flow por parte dos atletas profissionais.

Até a próxima e obrigado Ayrton Senna! 

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Saudoso Pacaembu e sofredor, graças a Deus!

Foi fim de abril. Dia 28. Mas de 1940.

Zico, Agostinho, Jango, Sebastião, Brandão, Dino, Lopes, Servílio, Teleco, Joane e Carlinhos foram escalados por Del Debbio para entrar pela primeira vez no gramado do estádio Municipal paulistano. O Bailarino Servílio marcou o primeiro gol alvinegro no campo de todos os paulistanos. Um pouco mais de todos os corintianos que ali viram os grandes times da primeira metade dos anos 1950. Deram a volta olímpica no IV Centenário da capital, no Paulista de 1954. Deram fim ao tabu sem vitórias em Paulistas contra o Santos, em 1968. Deram muitos murros no concreto. Derrubaram grades. Amaldiçoaram traves. Imaginaram sapos, porcos, peixes, todos os bichos enterrados. Viram uma fila do tamanho do amor ao Corinthians tirar outras voltas olímpicas até 2009. Quando o torcedor comemorou invicto o título paulista. Quando pôde, enfim, celebrar um estádio que foi “dele” por usucapião. Uso campeão mesmo sem título.

Quer algo mais corintiano?

O Pacaembu. Esse é mais que corintiano.

Mais que o velho campo da Ponte Grande. Que o Parque São Jorge. Que a Arena de Itaquera. O Paca é Corinthians. É “Saudosa Maloca” que vai tocar neste fim de semana contra o Flamengo. De despedida de uma casa que será sempre um pouco mais alvinegra.

Outro rival ganhou mais títulos no estádio. Mas pergunte a cada canto do mais lindo estádio de espírito do Brasil. A cada porta estreita que não tem cabimento para tanta paixão: quem é o “dono” daquilo ali?

Até quem não quer saber sabe. Ele vai dizer que não “pode” ser “dono” do Pacaembu quem ficou de 1954 a 2009 sem dar volta olímpica no estádio Paulo Machado de Carvalho (nome de enorme são-paulino…). Fato. Mas, desde que o Corinthians voltou a ser Timão, em 1977, foi na casa tricolor que o alvinegro encontrou o lar de conquistas brasileiras (três das cinco). As Copas do Brasil foram celebradas fora de São Paulo. O último Rio-São Paulo também foi no Morumbi. Os Paulistas, até 2009, fora do Pacaembu. Os Mundiais, fora.

Mas a Libertadores tinha mesmo de ser dentro. Lá onde todos diziam que “nunca serão” eles foram. E, mesmo se fosse do Boca para fora, ainda assim os corintianos seriam no Pacaembu o que eles são pela vida. Vencedores sem títulos necessários. Campeões por serem apenas o que são. Sem os dentes. Feios. Sem educação. Sem um monte de coisa, como adoram falar os rivais.

Mas com algo que é deles de tão público. Algo que é do povo que é tão deles. Vão dizer que Itaquera tem muita ajuda de todo o povo – e tem mesmo. Vão dizer que o Pacaembu também foi apropriado mas é de todo munícipe – e é mesmo.

Mas também por isso o povo é Corinthians. É público. É popular. É Pacaembu. É Corinthians.

Que as autoridades e movimentos de moradores que impediram o melhor negócio para todos que seria remodelar o estádio para ser eternamente corintiano agora convivam com o barulho silencioso da ausência de Corinthians no Pacaembu.

Os domingos serão mais tranquilos e seguros. O odor do filé miau das churrasqueiras de calçadas será outro. Aquela onda sonora de gols e uuuus! irá cessar. Aquela horda humana de gente de todos os credos e cores (ou melhor, apenas uma fé e duas cores) não estará mais pelas ruas que sobem e descem como a vida e o Corinthians.

Estará tudo mais pacífico. Harmonioso.

Menos vivo. Menos humano. Menos corintiano.

É o último jogo antes de o Corinthians ter, enfim, uma casa quase do seu tamanho.

É o primeiro jogo de uma saudade imensa de dias ali vividos, logo, sofridos.

Vai ficar em cada canto do campo um elástico de Rivellino, um calcanhar de Sócrates, uma sentada na bola de Luizinho, uma cabecinha de ouro de Baltazar, um cruzamento de Cláudio, uma antecipação de Domingos, uma falta de Marcelinho, uma celebração de joelho de Neto, uma gota de suor de Zé Maria, uma gota de sangue de Wladimir, uma bolada em Palhinha, uma ordem de Brandão, um dedo no time de Luxemburgo, uma mão na boca de Tite, uma ponte de Gilmar, uma espalmada de Ronaldo, um pênalti defendido por Dida, aquelA defesa do Cássio, aquela cabeçada do Paulinho, aquela mordida do Sheik, um desarme de Gamarra, um toque de Belangero, um lançamento de Zenon, um passe de Rincón, uma risada de Vampeta, uma careta de Tévez, uma chuteira branca de Casagrande, uma celebração de Viola, um coração de Idário, um gol de Teleco, o fenômeno Ronaldo, um pé de Basílio, um voto da Democracia Corinthiana. Um pouco de todo corintiano.

Um muito da vida desse bando que leva a loucura para Itaquera. Mas deixa na maloca do Pacaembu o que Adoniran escreveu com o coração alvinegro que tinha, e a sensibilidade de todas as cores. Um bardo que bradava pelas coisas de São Paulo. Uma voz que saberia preservar eternamente o Pacaembu.

Como cantou em “Saudosa Maloca”:

 

Si o senhor não “tá” lembrado
Dá licença de “contá”
Que aqui onde agora está
Esse “edifício arto”
Era uma casa véia
Um palacete assombradado
Foi aqui seu moço
Que eu, Mato Grosso e o Joca
Construímo nossa maloca
Mais, um dia
Nóis nem pode se alembrá
Veio os homi c’as ferramentas
O dono mandô derrubá
Peguemo todas nossas coisas
E fumos pro meio da rua
Aprecia a demolição
Que tristeza que nóis sentia
Cada táuba que caía
Duia no coração
Mato Grosso quis gritá
Mas em cima eu falei:
Os homis tá cá razão
Nós arranja outro lugar
Só se conformemo quando o Joca falou:
“Deus dá o frio conforme o cobertor”
E hoje nóis pega a páia nas grama do jardim
E prá esquecê nóis cantemos assim:
Saudosa maloca, maloca querida,
Dim dim donde nóis passemos os dias feliz de nossas vidas
Saudosa maloca,maloca querida,
Dim dim donde nóis passemo os dias feliz de nossas vidas.

 

Onde o corintiano passou dias felizes da vida. Até mesmo os infelizes.

Dia de pegar a páia nas gramas do jardim e plantar o coração na nova casa.

Que ninguém deixe ninguém mandar derrubar o Pacaembu.

Que todos mantenham o Pacaembu no lugar que ninguém vai tirar: aqui dentro.

*Texto publicado originalmente no blog do Mauro Beting, no portal Lancenet.
 

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O Placar Semanal e a Cultura de Vitórias

O jogo é o produto final de todo clube de futebol. São os 90 minutos (ou menos, em partidas das categorias de base) mais importantes da semana e, na maioria das vezes, reflexos daquilo que se construiu durante os treinamentos.

Há alguns anos, quando ainda trabalhava no Paulínia FC, sob coordenação de Lucas Leonardo, o Departamento de Pedagogia do clube criou uma planilha com o objetivo de escancarar o desempenho de cada uma das categorias em competição. Se para muitos controles do clube como scouts qualitativos e quantitativos (obtidos através de relatórios, outras planilhas, softwares e/ou filmagens) o objetivo era analisar o desempenho de cada categoria nos quatro momentos do jogo, esta planilha preocupava-se com a divulgação de uma componente muito importante e, culturalmente, maior que qualquer aplicação de um Modelo de Jogo: o resultado.

Poder visualizar após as rodadas do final de semana o desempenho (de resultado) de cada uma das categorias através de um Placar Semanal era um procedimento simples, mas que tinha o intuito de fazer com que cada equipe se sentisse inserida e relevante no macroprojeto do clube.

Alguns anos se passaram e a Planilha ganhou algumas modificações. A principal delas se refere à distribuição de pesos diferentes para cada uma das categorias. Sendo assim, do sub-11 ao Profissional a distribuição dos pesos de acordo com a importância subjetiva de cada equipe se dá da seguinte maneira:

• Sub 11: Peso 1
• Sub 12: Peso 1,5
• Sub 13: Peso 2
• Sub 14: Peso 2,5
• Sub 15: Peso 3
• Sub 17: Peso 4
• Sub 20: Peso 5
• Profissional: Peso 10

Abaixo, um exemplo da planilha desconsiderando as Categorias sub-12 e sub-14, não oficiais na Federação Paulista de Futebol:


Os campos Jogos, Gols Pró, Gols Contra, Saldo de Gols, Pontos Disputados, Pontos Feitos, Aproveitamento e Total, são completados automaticamente a partir do preenchimento das células correspondentes aos placares das partidas. Em caso de vitória, ocorrerá a alteração automática das células referentes aos pontos feitos. O mesmo para os casos de empate e derrota.

Os demais campos (Vitórias, Empates, Derrotas, Data, Competição, Rodada, Adversário e Local) precisam ser devidamente preenchidos.

Na sequência, um exemplo da planilha preenchida após uma situação hipotética de rodadas do final de semana:

O resultado de campo nunca deve ser a única variável analisada em um clube de futebol. Da mesma forma, em hipótese alguma (inclusive na formação), ele deve ser negligenciado. Jogar, na sua mais pura essência, nada mais é que uma constante busca humana pelo prazer, pelo vencer!

Que a planilha publicada na entrada do clube, que também pode ser divulgada nos e-mails de toda diretoria, conselho, funcionários, imprensa e, por que não, para a torcida através das redes sociais ou do site do clube, seja mais que um amontoado de números que promovam uma competição intercategorias. Que seja uma ferramenta que atue como um motor interno, que motive todo e qualquer funcionário na busca pelas vitórias. Afinal, o que realmente importa nos clubes de futebol não dura mais do que 90 minutos.

Aos interessados, o modelo de planilha apresentado na coluna estará disponível por e-mail.

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De Daniel Alves a Alan Kardec

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Portuguesa pode ser rebaixada por abandono de partida

A sexta-feira santa reservou um dos episódios mais surreais e lamentáveis da história do futebol brasileiro.

Um oficial de justiça interrompeu a partida de abertura da Série B entre a Portuguesa e o o Joinville, em Santa Catarina, aos 17 minutos do primeiro tempo.

A situação decorreu de uma liminar deferida pela Justiça paulista obtida por um torcedor da Portuguesa que a recolocava na Série A.

Assim, aos 17 minutos do primeiro tempo, o delegado da partida, Laudir Zermiani, informou o quarto árbitro da existência da liminar e o técnico da Lusa, Argel Fucks, pediu para que os jogadores saíssem do campo.

Os atletas do Joinville, por seu turno, permaneceram em campo e, após 30 minutos, período máximo de paralisação regulamentar, a equipe paulista informou que não retornaria ao gramado.

Antes do final de semana terminar, a liminar foi cassada.

Sob o ponto de vista jusdesportivo, a Portuguesa pode ser punida por abandono de campo com a consequente exclusão da Série B. A equipe paulista teria violado o artigo 69 do Código Disciplinar da FIFA que prevê penas de exclusão vitalícia, rebaixamento e eliminação.

Artículo 69 [único]
1. El que intente influir en el resultado de un partido contraviniendo los principios de la ética deportiva será sancionado con la suspensión por partidos o la prohibición de ejercer cualquier actividad relacionada com el fútbol y una multa en cuantía no inferior a CHF 15,000. En los casos graves se impondrá la prohibición de ejercer de por vida cualquier actividad relacionada con el fútbol.

2., En caso de influir ilícitamente en el resultado de un partido a través de un jugador o un oficial, tal como se menciona en el apartado 1, se podrá imponer una multa al club o a la asociación a la que pertenezca el jugador o el oficial. En los casos graves se podrá sancionar al infractor con la exclusión de una competición, el descenso a una categoría inferior, la sustracción de puntos y la devolución de premios

Sob o ponto de vista procedimental, a súmula foi encaminhada à Procuradoria do STJD que deverá oferecer denúncia ao Tribunal Desportivo, que será o órgão responsável pelo julgamento.

O Regulamento da FIFA dispõe sobre influência ilegal no resultado, assim, caberá à Portuguesa convencer o Tribunal de que tinha a intenção de jogar, mas que abandonou a partida para atender à Justiça Brasileira.

Diante do exposto, percebe-se que a Justiça Desportiva ainda terá significativo protagonismo na temporada 2014 do futebol brasileiro. 

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Liderando pela confiança

 Começa mais um campeonato brasileiro se inicia e alguns clubes começam a sentir os efeitos da troca recente da sua comissão técnica e isso não será um luxo destes, pois ao longo do campeonato será inevitável que outros clubes troquem de comando à beira do campo.

Como os clubes podem lidar com isso? De que maneiras os novos comandantes podem acelerar o impacto de seu método de treinamento e de sua forma de jogar?

Penso que um dos níveis de liderança de John C. Maxwell seja especialmente valioso para promover um ambiente de mais confiança entre o treinador e os atletas: o 2º nível da liderança, denominado de permissão.

Este nível se baseia inteiramente nas relações humanas, aonde quando um líder atinge este nível ele será seguido pelas pessoas porque elas irão querer segui-lo. Quando um líder gosta das pessoas com quem se relaciona e as trata como indivíduos que possuem valor, este começa a desenvolver uma forte relação de confiança entre elas. O seu ambiente de trabalho fica muito mais positivo, assim são construídas relações fortes e duradouras.

Todo treinador enquanto líder pode e precisa estar atento a seguinte frase: “Você pode gostar das pessoas sem lidera-las, mas não pode lidera-las sem gostar delas”.

Quando um treinador consegue ir além da falsa percepção de poder que sua posição proporciona e aprende a funcionar no nível da permissão as relações humanas mudam. Os atletas fazem mais do que seguir uma orientação, pois na verdade começam a seguir o treinador porque passam a querer isso. Neste momento os atletas sentem-se mais queridos, cuidados, incluídos, valorizados e confiáveis, criando uma situação de trabalho em conjunto com o treinador e com os demais atletas.

Este nível de liderança traz benefícios ao treinador que utiliza-lo, tais como:

• Tornar o trabalho de todos mais gratificante;
• Aumenta o grau de energia do grupo;
• Abre os canais de comunicação entre as pessoas;
• Concentra-se no valor de cada atleta;
• Alimenta a confiança.

Existem alguns melhores comportamentos para conseguir atuar no nível da permissão e vou compartilhar um destes contigo agora.

O treinador precisa tornar-se o principal incentivador da equipe
Enquanto o treinador da equipe existe muito poder para incentivar as pessoas, isso pode contribuir para que se cause impacto positivo nos atletas, pois as pessoas em geral valorizam afirmações de incentivo vindas daquele que a lidera. Palavras como “estou contente por você trabalhar comigo”, ajudar sensivelmente para que se construa uma equipe incrivelmente valiosa, desde que isto tenha vindo de alguém que genuinamente tenha os melhores interesses nas pessoas.

Assim, se um treinador deseja que seus liderados tenham sempre uma atitude positiva este necessita incentivá-los e com isso o treinador contribuirá efetivamente para que todos consigam trabalhar empenhados num resultado comum e atendendo as expectativas positivas de todos.

Até a próxima e treinadores mãos à obra, que o Campeonato Brasileiro apenas começou e tem muito trabalho pela frente!

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Luciano do Valle

Fim de tarde à beira da praia em Porto de Galinhas. As pessoas reconhecem Luciano e acenam. Tiram fotos. Ele olha para mim com aquela piscada de olho longa que era toda dele. Responde assim à minha pergunta se não estava com saudade da correria paulistana:

– Toda vez que me bate uma vontade de voltar, penso neste horário, quase seis da tarde, na Marginal Tietê… Aí eu fico aqui mesmo, em Porto de Galinhas.

2003. Estávamos na TV Record. Já tinha trabalhado com Luciano de 1997 a 2001 na Band. Ele e Juca Silveira tinham me levado para lá. Onde estreei em Araçatuba. Corinthians em campo no SP-97. Depois da transmissão, me disse que narraria a Copa da França, em 1998. A Olimpíada de Sydney, em 2000. E penduraria o microfone que desde moleque era dele. E foi de poucos com tamanha qualidade, intensidade, paixão.

Eu tinha um tipo assim em casa. Eu sabia que agora tinha mais um ídolo. Mestre. Colega. Amigo. Do mesmo jeito.

Apenas ri do comentário do Luciano. Eu e Osvaldo Pascoal já tínhamos ouvido isso. Ouviríamos algumas vezes em Copas do Mundo e América. Do Brasil. Brasileiro. Série A e B. Estaduais. De todas as divisões. Libertadores. Mercosul. Sul-Americana. Campeonato Italiano. Espanhol. Liga dos Campeões. Mundial de Clubes. Futebol feminino.

Tudo isso eu comentei ao lado dele. Muito, mas muito mais ele fez. Pelo vôlei. Basquete. Indy. Tantos esportes. Esporte total. Narrador total. Empresário total. Apaixonado total. Brasileiro total. Aquele cara que um dia narrou numa noite de sábado, 21h45, em Porto Alegre, um jogo de série A e, logo depois, madrugada adentro na churrascaria de POA, mal dormiu e, 11 da manhã de domingo, depois de pouso em Araraquara, narrou segunda divisão paulista em Matão. Com o pique que o comentarista dele (eu) não tinha.

Coloco aqui algumas das tantas lembranças pessoais por ser Luciano aquele sujeito que há mais de 40 anos frequenta nossa casa na hora do lazer e prazer. Todos têm momentos de alegria e tristeza trazidos pela linda voz de Luciano. Ele é da família. Ele nos contou quando fomos campeões. Ele narrou quando perdemos. Ele nos confortou quando apenas empatamos nesta vida que ele tanto venceu. Também por saber virar algumas derrotas.

Ele não parou em 2000. Não parou naquela tarde de 2003. Nem quando voltou para a Band, em 2006. Quando mal conseguia superar problemas de saúde para levantar da cama. E ainda assim levantava a audiência só de falar gol. Cesta. Ponto. Recorde. Record. Band. Bandsports. Globo. SBT. As rádios onde começou. As televisões onde implantou equipes de esporte. Onde criou ou recriou esportes. Onde inventou narradores, comentaristas, apresentadores, repórteres. Onde foi tão generoso com quem começava. Onde foi tão competitivo com quem tentava ser igual a ele.
 

 

Não conseguiram.

Ou, se dessem certo, ouviriam dele o respeitoso silêncio. Luciano era elegante. Quando discordava, silenciava. Quando gostava, gritava como se fosse gol.

Por isso ele é e será sempre referência. Merece ter toda transmissão da Band a ele dedicada. Ao menos um gol de Luciano por jornada esportiva. Um dos estúdios da Band em SP merece o nome dele. O do Show do Esporte, por exemplo, precisa ser chamado estúdio Luciano do Valle. Para não dizer ao menos um estádio. Um ginásio. Uma praça esportiva.

Luciano era o esporte. Qualquer esporte. Ele conseguiria inventar o Beach Basket. Ele narraria futebol de botão na TV. Ele faria qualquer coisa. Por saber fazer de qualquer coisa algo.

Sem bordão. Apenas emoção.

A mesma que, depois daquela conversa em Porto de Galinhas, por outros tantos motivos, o levou de volta aos centros mais agitados. Luciano não conseguia viver pelos ares.

Foi nos ares que sentiu o coração de tantas paixões. Pouco antes da Copa que tanto ele queria ver no Brasil. Não do jeito que será. Até por ter perdido muito da graça sem Luciano. Outro craque que deixa um mundial órfão. Como foi a Copa-06 sem Fiori, que foi dias antes. Como Pedro Luiz, mestre e descobridor de Luciano, nos deixou horas depois da final de 1998.

Como Luciano do Valle deixa órfão o microfone da Band. Ainda bem que os queridos Teo José, Nivaldo Prieto, Ulisses Costa, Oliveira Andrade, Carlos Fernando, Heverton Guimarães podem dar conta do recado.

Mas é claro que Luciano é o primeiro e único. Foi ele que fez da emissora o que ela é até quando ela não quis ser.

Bandeirantes, o Canal do Esporte. Tudo na conta de Luciano.

Esporte, o Canal de Luciano do Valle.

*Texto publicado originalmente no blog do Mauro Beting, no portal Lancenet.

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Os conteúdos de formação – parte I

É consenso que a boa formação é uma das soluções para o desenvolvimento do futebol brasileiro nos próximos anos. Para isso, investir nas Categorias de Base em todos os âmbitos, da capacitação profissional às melhorias de infraestrutura, do trabalho interdisciplinar às ricas experiências competitivas, é a opção que os clubes têm encontrado para valorizar seus atletas, agregar valor à marca e se destacar no cenário nacional.

Sob o viés da componente técnica da modalidade os avanços são cada vez mais significativos. Se há cerca de 10 ou 15 anos, as competências trabalhadas na formação centravam-se no desenvolvimento dos diferentes fundamentos técnicos do jogo, atualmente, clubes de ponta do futebol brasileiro têm currículos de formação bem definidos com conteúdos específicos a serem ensinados nas diferentes categorias.

Neste espaço, em outras publicações, foi discutida uma proposta curricular com Conteúdos e Temas relativos ao desenvolvimento de jogadores mais completos, inteligentes e que atendam às demandas do futebol moderno. Para lembrá-los, os Conteúdos são os seguintes: Lógica do Jogo, Competências Essenciais do Jogo, Referências do Jogo, Nível Estratégico-Tático do Jogo, Funções no Jogo e Relação com Companheiros. Além disso, é válido mencionar também que o Jogo (em sua essência e complexidade) é o método de ensino utilizado em todas as sessões de treino.

Nesta semana, a proposta da vez consiste na distribuição destes conteúdos com algumas especificações em relação aos temas e sub-temas nas diferentes faixas etárias e categorias.

Fase de Transição Esportiva / Categorias Sub 11, 12 e 13
Por se tratar das categorias iniciais do trabalho de formação, as atividades nas equipes de transição esportiva podem fugir à lógica do jogo de futebol (sem alvos, com excesso de alvos, com regras “anti-lógicas”, com exclusividade de uso do membro não dominante).

Nestas categorias os atletas precisam aprender alguns conceitos gerais sobre o que é jogar bem a modalidade. Para isso, vivenciar em ambiente de jogo as competências essenciais (relação com a bola, estruturação do espaço e leitura de jogo) é fundamental. Então, nos diferentes jogos que os atletas estiverem submetidos, recorrentemente eles deverão ser questionados se estão aplicando bem as competências essenciais do jogo. Em caso de resposta negativa, provavelmente, o jogo aplicado estará num nível anárquico, correspondente a um baixo entendimento coletivo, natural para estas categorias.

Conceitos como aprender a jogar longe da bola, procurar por espaços vazios e ter a própria meta como referência defensiva precisam ser amplamente estimulados. Espera-se que quanto melhores os estímulos, mais qualificadas fiquem as escolhas e antecipações das ações para as diferentes situações-problema.

Nesta faixa etária, julga-se importante o conhecimento de algumas referências do jogo de futebol. Sendo assim, a vivência das plataformas de jogo básicas, 1-4-4-2, 1-3-5-2 e 1-4-3-3, a aprendizagem das zonas de risco (favoráveis às finalizações e cruzamentos), das faixas e linhas do terreno de jogo, o mecanismo de abertura do campo quando em posse e fechamento quando sem bola, devem ser competências adquiridas no treino. É necessário também fazer reconhecer e estimular, didaticamente, que o jogo de futebol possui dois momentos que, estatisticamente, definem os jogos: os contra-ataques (ou transições se optarmos por dificultar a linguagem).

Nestas idades, os meios táticos devem ser vivenciados progressivamente com a ciência de que alguns deles (pressing, ultrapassagem, mobilidade com trocas de posição,) ainda não conseguem ser aplicados em ambiente específico devido ao nível de desenvolvimento dos jogadores e a compreensão que têm do jogo. Ainda assim, os jogos conceituais devem ser utilizados para o aprendizado dos diferentes meios táticos ofensivos, defensivos e de transição. Ênfase aos meios táticos apoio, desmarque, mobilidade sem trocas, fintas e dribles, equilíbrio, compactação, recomposição, flutuação. No período final da transição esportiva, já na categoria sub 13, tabelas, amplitude, profundidade, penetração, retardamento, balanços defensivo e ofensivo devem ser aprendidos.

É tema de trabalho neste período da formação a aprendizagem defensiva a partir de múltiplas referências. O fato de jogadores chegarem ao início da especialização sem conceitos básicos de defesa como a organização coletiva para a marcação a partir da bola, dos adversários, do local do terreno e dos companheiros, justifica a necessidade da compreensão (e aplicação) destes conceitos.

As bolas paradas decidem jogos. Ainda mais nas categorias de base em que, infelizmente, disputam-se partidas em dimensões oficiais. Como o cumprimento da lógica do jogo de futebol é o norte de todo o processo de formação, criar maneiras de manter ou recuperar a posse, proteger ou atacar o alvo a partir das diferentes situações de bola parada e reposições são temas a serem treinados. Jogadas ensaiadas e possibilidades de reposição de acordo com as diferentes circunstâncias do jogo devem ser estimuladas para evitar situações de perigo do adversário e potencializar as da própria equipe.

Ainda nesta fase um tema que não pode ser esquecido é a aprendizagem de uma posição. Detectar o perfil do jogador que está inserido no processo de formação do clube e estimulá-lo principalmente em uma função não significa que o mesmo estará submetido à especialização precoce.

Neste período, enquanto o atleta aprende a fazer uma função e é estimulado numa gama de regras de ação que amplie seus recursos individuais de participação no jogo, detecta-se o potencial de desenvolvimento do atleta para o exercício de outras funções, cobradas num outro momento ao longo do processo.

Para concluir, o último conteúdo preconiza uma ampla utilização de jogos em pequenos grupos, de até 3 vs 3 jogadores. Somente na categoria sub-13, as situações de treinamentos devem proporcionar uma maior utilização de jogos em médios grupos, até 7 vs 7 jogadores. Quanto menos elementos, menos imprevisibilidade e complexidade no sistema. Como todos os jogadores estão em níveis iniciais de aprendizagem da modalidade, jogar em menor complexidade facilita a compreensão além de aumentar a densidade de ações técnicas, que estão em período sensível para serem aperfeiçoadas em especificidade.

Na próxima coluna que trate o tema, a proposta de conteúdos para a Especialização Esportiva, do sub-14 ao sub-17.
Agu
ardo sugestões, críticas e comentários. Abraços e até a próxima semana.