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Treinando a transição defensiva

As melhores equipes do futebol mundial apresentam a grande capacidade de todos os seus atletas lerem o mesmo jogo, inclusive em circunstancias potencialmente caóticas. Um meio de aperfeiçoar a inteligência coletiva para estas situações é expor, nos treinamentos, os mais variados problemas em situações de jogo afim de que, em competição, a resposta pretendida pelo treinador seja eficazmente aplicada.

Mais do que abordagens, orientações e cobranças para os comportamentos de transição defensiva, criar jogos que, para vencê-los, seja necessário um bom nível coletivo de recuperação imediata da posse ou recuperação a partir de determinada(s) referência(s) do jogo (que são as duas referências operacionais possíveis) é indispensável. Com a criação de um ambiente imprevisível, aumentam-se as possibilidades de dar maior ordem à desordem que a perda da posse gera em uma equipe.

Para auxiliá-los na elaboração de treinamentos que enfatizem esse momento do jogo, a coluna desta semana irá apresentar algumas opções de regras que, como já foi abordado nas colunas anteriores sobre este tema, se bem distribuídas nas formas de pontuação do jogo, podem ser uma ótima ferramenta para construir o jogar pretendido.

Então, para treinar a recuperação imediata da posse de bola, as seguintes regras podem ser utilizadas para compor o jogo:

• Após a perda da posse de bola no campo de ataque, estabelecer um tempo entre 5 e 10 segundos para que a equipe que perdeu a bola recupere a posse caso contrário o adversário recebe uma pontuação. Esta regra faz com que a equipe que perdeu a posse busque-a novamente o mais rápido possível, além de proporcionar um ambiente de cobrança mútua uma vez que a não recuperação acarreta em ponto para o oponente. Na sequência da jogada, caso a bola saia para lateral ou linha de fundo antes do término da contagem, zera-se a mesma e o jogo segue sem que ocorra pontuação para esta jogada;

• Na medida em que este comportamento se aperfeiçoar a regra pode ser estendida para todo o campo com algumas adaptações. Caso a perda da posse ocorra no campo de ataque, inicia-se a contagem. Porém, o adversário só irá pontuar se, após o tempo pré-determinado, tiver ultrapassado o meio de campo. Se a perda ocorrer no campo de defesa, inicia-se a contagem, no entanto, só valerá a pontuação caso a posse de bola se mantenha no setor ofensivo. Estes ajustes fazem com que a equipe que recuperou a posse não adote um comportamento de retirada da zona de pressão que fuja à lógica do jogo.

• Outra sugestão é adotar um tempo menor para as perdas de posse de bola ocorridas no campo de defesa em comparação as ocorridas no campo de ataque;

• Dividir o campo em vários quadrantes e beneficiar com um ponto a equipe que perder a posse de bola no campo de ataque e conseguir recuperá-la no mesmo setor que havia perdido.

• Com o cumprimento desta regra em um nível ótimo, as regras do jogo podem evoluir para a pontuação somente se houver um grupo de dois ou três jogadores no setor em que se recuperou a posse, direcionando as abordagens para a importância de um mecanismo coletivo e não individual de transição defensiva. Em estágios avançados, com o campo dividido em faixas horizontais e verticais, a pontuação pode ser dada somente se a equipe conseguir fazer o “campo pequeno a defender” simultaneamente a tentativa de recuperação da posse. Para verificar o posicionamento coletivo que vale a pontuação, pode ser definido um número máximo de faixas verticais e horizontais consecutivas que os jogadores devem ocupar. É uma excelente regra para transmitir o conceito de unidade complexa (não precisa utilizar este termo com os jogadores) à equipe. Pressionar a região que se encontra a bola e diminuir os espaços no interior da equipe é muito eficaz desde que todos os jogadores compreendam quais são suas ações de acordo com o posicionamento da bola, adversário, alvo, região do campo e companheiros. Manter todos estes elementos e criar situações de jogo que valem ponto quando realizados os adequados comportamentos coletivos, reforçam as ideias de jogo do treinador.

Percebam a diversidade de jogos com níveis de complexidade diferentes que podem ser elaborados somente para um momento do jogo e, mais especificamente, referentes a um comportamento de transição defensiva. Para a recuperação a partir de outras referências do jogo existem várias possibilidades e que serão sugeridas em outra oportunidade.

Para concluir, muitos podem questionar qual das duas opções é melhor treinar. De acordo com alguns estudiosos do futebol, a princípio, não existe comportamento de transição melhor ou pior. Depende, somente, do jogo que você quer (ou pode) jogar.

Só não vá fazer como alguns treinadores que nas transições defensivas de suas equipes saem aos berros cobrando comportamentos que não treinou. No jogo pode ser tarde demais! Decida-se e treine. (com as regras certas que favoreçam a dinâmica do seu jogo).

Abraços e até a próxima semana!

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

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Futsal nos Jogos Olímpicos

No último domingo, a seleção brasileira de futsal conquistou o sétimo título mundial (para a Fifa são cinco, eis que a entidade não reconhece os mundiais de 1985 e 1989).

Na coletiva de imprensa da Copa do Mundo, em Bancoc, na Tailândia, o presidente da entidade, Joseph Blatter, revelou que a organização não vai medir esforços para alcançar o objetivo de incluir o futsal e o futebol de areia no programa dos Jogos Olímpicos.

No que se refere ao futebol de areia, o dirigente destacou que algumas instalações poderiam ser aproveitadas por diferentes esportes, assim como já acontece nas Olimpíadas.

Já o futebol de salão surgiu por volta de 1934, por meio do professor Juan Carlos Ceriani Gravier, da ACM de Montevideu, Uruguai com o nome de Indoor Football.

Em 1935, os professores João Lotufo e Asdrubal Monteiro, após se graduarem no Instituto Técnico da Federação Sul-Americana das ACM, trouxeram o esporte ao Brasil e introduziram o “Indoor Foot Ball” que passou a ser chamado futebol de salão.

Antes das regras serem estabelecidas, praticava-se futebol de salão com times de cinco a sete jogadores. A bola foi sendo deixada mais pesada numa tentativa de reduzir sua capacidade de saltar consequentemente, além de suas frequentes saídas de quadra. A “bola pesada” acabou por se tornar uma das mais interessantes características originais do futebol de salão.

Em 1957, surgiu a primeira iniciativa de se uniformizar as regras do esporte, por meio da criação do Conselho Técnico de Assessores de Futebol de Salão, por Sylvio Pacheco, então presidente da Confederação Brasileira de Desportes (CBD).

Em 28 de Julho de 1954, foi fundada a primeira federação do esporte no Brasil, a Federação Metropolitana de futebol de salão, atual Federação de Futebol de Salão do Estado do Rio de Janeiro. A Federação Mineira de Futebol de Salão seria fundada nesse mesmo ano, seguida da Federação Paulista, em 1955, e das Federações Cearense, Paranaense, Gaúcha e Baiana, em 1956, a Catarinense e a Norte Rio Grandense, em 1957, a Sergipana em 1959. Nas décadas seguintes, seriam gradualmente estabelecidas federações em todos os estados da União.

Em 14 de setembro de 1969, em Assunção, Paraguai, com a presença de João Havelange, presidente da CBD, Luiz Maria Zubizarreta, presidente da Federação Paraguaia de Futebol, e Carlos Bustamante Arzúa, presidente Associação Uruguaia de Futebol, foi fundada a Confederação Sul-Americana de Futebol de Salão (CSAFS).

Em 25 de Julho de 1971, em São Paulo, numa iniciativa da CBD e da CSAFS, com a presença de representantes do Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai, Peru, Portugal e Uruguai, foi fundada a Federação Internacional de Futebol de Salão – Fifusa, com o seu primeiro presidente do conselho executivo sendo João Havelange, que comandou de 1971 a 1975, mas devido seus compromissos com o futebol, tanto da CBD, como na Fifa, quem realmente dirigiu a Fifusa neste período foi o seu secretário geral, Luiz Gonzaga de Oliveira Fernandes.

Em 1982, no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, a Fifusa organizou o 1º Campeonato Mundial de Futebol de Salão, com a participação de Brasil, Argentina, Costa Rica, Tchecoslováquia, Uruguai, Colômbia, Paraguai, Itália, México, Holanda e Japão.

O Brasil venceu a final do Paraguai por 1 a 0, com gol de Jackson. Foram campeões neste mundial Pança, Barata, Beto, Walmir, Paulo César, Paulinho Rosas, Leonel, Branquinho, Cacá, Paulo Bonfim, Jackson, Jorginho, Douglas, Carlos Alberto, Miral, treinados por César Vieira.

O primeiro mundial foi um marco, a partir de então, o futebol de salão começou a despertar o interesse da Fifa, que começou a criar obstáculos para as competições patrocinadas pela Fifusa, eis que juridicamente somente a entidade poderia utilizar o “futebol”.

Em 1985, realizou-se, na Espanha, o 2º Campeonato Mundial de Futebol de Salão organizado pela Fifusa. Novamente o Brasil venceu, e, em 1988, na Austrália, ocorreu o 3º Mundial, com a vitória do Paraguai.

Em setembro de 1988, Álvaro Melo Filho, então presidente da CBFS, em razão das dificuldades da Fifusa e vislumbrando o futuro do futebol de salão, aceitou convite para encontro no Rio de Janeiro e iniciou negociações com o então Presidente da Fifa, João Havelange, e seu secretário geral, Joseph Blatter, que veio ao Brasil especialmente para tratar de futsal, visando que a Fifa encampasse a Fifusa e passasse a comandar, internacionalmente, o esporte.

Em janeiro de 1989, Álvaro Melo Filho autorizou a equipe do Bradesco a representar o Brasil na Holanda, quando aconteceu a 1º Copa do Mundo de Futsal da Fifa, oportunidade em que obteve o título de campeão mundial.

Em 2 de maio de 1990, o Brasil oficial e legalmente, desligou-se da Fifusa com o aval das 26 federações filiadas à CBFS, e, desde então, passou a adotar as regras de jogo emanadas da Fifa, tendo sempre como objetivo principal desenvolver o futsal no mundo.

A partir de 1992, as Copas do Mundo de Futsal da Fifa passaram a ser realizadas de quatro em quatro anos, seguindo o mesmo modelo adotado para o futebol. Além do título conquistado em 1989, na Holanda, o Brasil venceu as edições de 1992 (Hong Kong-China), 1996 (Espanha), 2008 (Brasil) e 2012 (Tailândia). Enquanto os espanhóis, maiores adversários brasileiros, levantaram a taça em 2000 (Guatemala) e 2004 (Taipei-China).

Estando o futsal totalmente organizado em âmbito nacional e internacional, é possível que se torne um esporte olímpico.

O conjunto de regras para a organização dos Jogos Olímpicos está previsto na “Carta Olímpica”, cuja última edição entrou em vigor em julho do presente ano. A Carta atribui ao Comitê Olímpico Internacional (COI) a missão promover o olimpismo pelo mundo e liderar o Movimento Olímpico.

Segundo a Carta, em seu art. 45.1, o programa dos Jogos Olímpicos é o programa de todas as competições dos Jogos estabelecido pelo COI para cada uma das edições. O art. 45.2 nos remete como é a divisão:

“2. O programa é composto por esportes, disciplinas e provas. Os esportes são regidos pelas federações internacionais referidas nos textos de aplicação das regras 45.1 e 45.2. Uma disciplina é uma especialidade de um esporte que compreende uma ou mais provas. Uma prova é uma competição num esporte ou de uma das suas disciplinas, que tem por resultado uma classificação e determina a entrega de medalhas e de diplomas.” (COI, 2011, tradução livre)* 

A escolha de todos os esportes do programa, bem como a determinação dos critérios e condições para a inclusão de qualquer esporte no programa, é de competência da Sessão, reunião geral dos membros do COI.

Nenhum esporte pode ser incluído no programa no ano de realização dos Jogos. O esporte deve ser admitido no programa com sete anos de antecedência.

Destarte, na 114ª Sessão do COI, em 2002, o programa dos Jogos Olímpicos limitou a um máximo de 28 esportes, 301 eventos e 10.500 atletas.

Em 2005, na 117ª Sessão do COI, a primeira grande revisão do programa foi realizada e excluiu-se o beisebol e o softbol do programa oficial dos Jogos de Londres 2012. Como não houve acordo para a inclusão de dois outros esportes, o programa de 2012 contará com apenas 26 esportes.

Os Jogos de 2016 e 2020 voltarão a ter o máximo de 28 esportes, com a adição do rugby sevens e do golfe.

Já a decisão de incluir uma nova disciplina ou prova para integrar o programa é de competência do conselho executivo, órgão responsável pela administração geral e da gestão do COI.

A iniciativa de incluir um novo esporte só pode ser tomada, até o dia da escolha da cidade que sediará o evento, de acordo com o art. 45 da Carta. Mas, a disposição geral do art. 45, em seu item 1.4, prevê que a inclusão de novas disciplina ou provas pode ser decidida pela comissão executiva do COI até três anos antes da abertura ofic
ial dos Jogos Olímpicos.

Assim, o futsal poderia ser incluído como disciplina do futebol e este prazo vence no Congresso do COI, que será realizado em setembro de 2013 em Buenos Aires (Argentina). Para tanto, é necessário o empenho da Fifa e de todos envolvidos no esporte.

Diante do exposto, quem sabe o Rio-2016 não marcará a estreia do futsal e do beach soccer nos Jogos Olímpicos?

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br

* The components of the programme are sports, disciplines and events. The sports are those sports governed by the IFs referred to in BLR 45.1 and BLR 45.2. A discipline is a branch of a sport comprising one or several events. An event is a competition in a sport or in one of its disciplines, resulting in a ranking and giving rise to the award of medals and diplomas.” Referência: COI. Olympic Charter (2011). Disponível em: http://www.olympic.org

Leia mais:
Como nasce um esporte olímpico

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Rebaixamento, momento de aprendizado e recomeço

A cada ano, vemos clubes de grande investimento do futebol brasileiro passando dificuldades em se manter na série A do Campeonato Brasileiro.

Neste ano não foi diferente e acabamos de ver o Palmeiras vivenciando esse momento delicado: o rebaixamento para a Série B do Nacional. Esta situação envolve uma pesada carga emocional para torcedores, jogadores, comissão técnica, gestores e executivos do clube de futebol sem contar com os prejuízos financeiros que podem ocorrer com o descenso. Imaginemos o que passa na cabeça destes após a concretização do risco de rebaixamento, todos pensam imediatamente o que fazer, por onde começar e como resgatar a imagem e credibilidade do clube nesta situação.

É fato que o rebaixamento pode e deve servir de grande aprendizado para o clube, visto que reconhecer os erros cometidos e as carências de gestão do clube é o melhor caminho a seguir. Neste tema é que desenvolvo a coluna desta semana. Precisa-se avaliar como o clube está sendo gerido e de que forma é possível implementar um modelo de gestão mais eficaz e que traga resultados sustentáveis para o clube.

Para se construir um modelo de gestão, é necessário ter uma liderança que tenha competência e vontade de fazer acontecer o modelo, um bom planejamento, uma missão, uma visão e os valores da organização ou entidade. Agregado a isso, é necessário o que chamo de “Pr2P”*, ou seja, Processos, Projetos e Pessoas.

Começo o racional do modelo de gestão pelo planejamento, sobre o qual podemos entender como um trabalho de preparação e organização de atividades, com objetivos determinados e diretrizes estratégicas claras. Ou seja, é um processo desenvolvido para o alcance de uma situação desejada, de um modo eficaz, aproveitando a melhor concentração de esforços e recursos da organização.

Para realizarmos um bom planejamento podemos utilizar a técnica do Planejamento Estratégico, pois este é participativo, monitora o ambiente externo e interno, trabalha as oportunidades, além de ser proativo, ágil, flexível e eficaz. Esta técnica pode ser definida como o processo administrativo que proporciona sustentação mercadológica para se estabelecer a melhor direção a ser seguida pelo clube, visando um otimizado grau de interação com o ambiente e atuando de forma inovadora e diferenciada.

Quanto a Missão, Visão e Valores devemos saber que elaborar ou rever estes itens é fundamental num momento de recomeço ou virada, necessário quando acontece um grande obstáculo para o clube que é o descenso.

A missão nada mais é do que a expressão da razão da existência de um clube como uma entidade. A visão é a explicação do que se idealiza para o clube. Ou seja, envolve os desejos onde se deseja chegar. Os valores são as crenças, ideais, lemas baseados em conteúdos da ética individual e coletiva. E complementando estes itens cabe mencionar também as políticas, que são as formas como o clube se relaciona com os seus diversos públicos.

Na proposta do “Pr2P”, no qual relaciono Processos, Projetos e Pessoas, ressalto a necessidade de termos os processos do clube desenhados, medidos, controlados e melhorados continuamente e com o objetivo de eliminarmos os diversos desperdícios que acontecem nas organizações.

A gestão por processos é fundamental para uma gestão executiva saudável do clube, pois processos enxutos é o reflexo de que todos os recursos estão sendo bem utilizados e que os clientes estão cada dia mais satisfeitos com a qualidade dos produtos ou serviços entregues pela entidade. É claro que o esporte tem uma variável diferente das organizações tradicionais, pois estamos tratando do produto esporte e devemos compreender esta nuance e o que representa em termos de gestão de riscos em nosso modelo de gestão.

Mas, se temos os processos sob controle e enxutos, como poderemos alavancar novos resultados que foram traçados na estratégia? A resposta a esta pergunta é a adoção da gestão de projetos no clube, para tratar novas iniciativas de produtos ou serviços como projetos, tendo o seu devido controle e administração para que possamos aumentar consideravelmente as chances de sucesso na entrega destes.

Para termos certeza que estamos colocando os investimentos nos assuntos apropriados conforme a estratégia do clube, devemos também incluir nessa iniciativa a implantação de uma gestão de portfólio, pois esta permitirá uma adequada priorização e seleção dos projetos que contribuirão com os resultados estratégicos do clube e conforme a disponibilidade dos recursos financeiros. Além da priorização e seleção de projetos, a gestão de portfólio também possibilita termos uma visão consolidada dos projetos de investimento, quanto ao avanço físico e financeiro destes e com isso proporcionando melhores tomadas de decisões para eventuais ajustes na rota em direção à visão desejada pelo clube.

O terceiro assunto do “Pr2P” são as pessoas, o principal ativo de qualquer organização e que faz toda a engrenagem de um modelo de gestão eficaz acontecer. Neste tema, alerto que os clubes necessitam de uma gestão de recursos humanos adequada, que possibilite a capacitação da liderança e dos profissionais, a seleção com critérios adequados de novos colaboradores, baseados em políticas que possibilitem a adequada gestão e o desenvolvimento das pessoas que atuam no clube, vencendo assim de maneira sustentável o obstáculo da falta de engajamento dos seus recursos humanos. As pessoas engajadas se constituem numa alavanca fundamental de realização de resultados em qualquer organização.

Bem, sabemos que o trabalho é grande após um rebaixamento, mas se feito com seriedade, profissionalismo e dedicação certamente colherá ótimos frutos a curto, médio e longo prazo para o clube. Esta reflexão de gestão não é exaustiva apenas para aqueles clubes que passam pelo trauma do descenso, mas sim a todos que queiram de alguma forma desenvolverem-se e caminharem cada dia mais na direção de seus objetivos estratégicos.

Sendo assim, mãos a obra!

* “Pr2P”, sigla desenvolvida pela Sociedade Brasileira de Coaching Esportivo® para a tríade da boa gestão de negócios esportivos: Processos, Projetos e Pessoas.

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Quem explica?

A relação econômica com os resultados esportivos, aos olhos da teoria, sempre caminham juntas. A linha é tênue. E é natural imaginar: quanto mais recursos financeiros, melhor estrutura de trabalho, melhores recursos humanos (atletas, treinadores, gestores, comissão técnica etc.) e, consequentemente, melhores resultados em campo.

Com o Barcelona foi assim: ao perceber que havia perdido espaço nas competições europeias e locais, olhou direto para as finanças de seus principais concorrentes. Teve que planejar uma estruturação ampla do clube, dentro de suas características, para poder voltar a figurar bem competitivamente – é, pelo menos, o que explica o livro “A bola não entra por acaso”, de Ferran Soriano.

No caso tupiniquim, vivenciamos novamente a queda do Palmeiras, a segunda em 10 anos. O 6º clube de maior faturamento do Brasil, de acordo com o balanço de 2011. Obteve 2,5 vezes mais receitas que o Botafogo, por exemplo, que até a última rodada ainda brigava por Libertadores.

Os números, como sempre, são frios. Na essência, convivemos com um clube defasado em sua gestão ao longo da última década. Um clube que teve mais de 20 treinadores no período.

Trata-se de mais um acontecimento que entra para a lista de temas de colunas anteriores, como o fato de não aprender com seus próprios erros nem acertos, que é preciso conhecer o fenômeno para gerir, que o ambiente de trabalho é fundamental para o alcance de resultados e que, portanto, a gestão profissional é um caminho sem volta – e que sirva de aprendizado e lição para os demais clubes do país.

 

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

 

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Aforismos

“Pouco se aprende na vitória, mas muito na derrota”. O ditado japonês pode parecer óbvio, mas impõe um grande desafio a cada revés: pinçar algo que seja efetivamente produtivo durante um momento de consternação.

Porque aprender com os erros é mecânica primitiva, mas também é extremamente doloroso. Para usar outros dois clichês, quedas fazem parte do aprendizado de conduzir uma bicicleta e enfiar o dedo na tomada é o jeito mais rápido de aprender o efeito de uma corrente elétrica. Entretanto, raramente paramos para assimilar o que aprendemos a cada tombo ou a cada choque. Não antes de lamentar, chorar e praguejar.

Também é assim no esporte. Erros em um jogo podem servir como aprendizado técnico, tático, físico ou mental, mas assimilá-los leva tempo. A primeira reação a cada derrota é lamentar. Lamentar muito.

O ex-tenista Fernando Meligeni teorizou certa vez sobre o desgaste mental que a modalidade dele provocava. “O tênis é um esporte de perdedores”, disse o atleta na época. A lógica dele é que há muitos torneios no ano, e mesmo o mais vencedor entre os esportistas acaba a temporada com mais reveses do que triunfos.

O que separa os medianos dos grandes, e isso não é exclusividade do tênis, é como eles lidam com as derrotas. A tristeza é reação natural a um tropeço, mas não pode virar resignação ou prostração.

Pensava em toda essa conversa com detestável aspecto de autoajuda durante a 36ª rodada do Campeonato Brasileiro de futebol, realizada no último fim de semana, mas fiquei ainda mais entretido com isso depois do término dos jogos que definiram o descenso do Palmeiras, a classificação do São Paulo para a fase preliminar da Copa Santander Libertadores e o número limitado de atrações da reta final do certame nacional.

A 40 jogos do fim, o Campeonato Brasileiro tem pouca coisa a ser resolvida. Há uma vaga aberta na zona de rebaixamento, uma possibilidade de troca entre o segundo e o terceiro colocado… E só.

E qual a relação entre a dor do Palmeiras, a falta de atrações das duas últimas rodadas do Campeonato Brasileiro e os cinco primeiros parágrafos do texto?

Comecemos pelo Palmeiras, elo mais óbvio com o tema. Porque a dor da torcida alviverde é latente e muito maior do que o resultado. O rebaixamento é triste, e isso é evidente, mas o que mais chama atenção é a reação a ele.

Porque um time rebaixado perde muito mais do que a vaga na elite; perde autoestima, respeito e projeção de futuro, atributos que, no caso de um time do tamanho do Palmeiras, são como alicerces de grandeza. E aí é fundamental que ninguém passe incólume por esse revés.

E ninguém é um conceito extremamente abrangente, mesmo. Porque o rebaixamento é drástico e precisa gerar reações drásticas. É hora de choro incontido, de reações exacerbadas e de não saber brincar.

Só que a diretoria do Palmeiras não pensa exatamente assim. A começar pelo presidente do clube, Arnaldo Tirone, que deu uma preocupante entrevista à “ESPN Brasil” antes do empate com o Flamengo. Na conversa, o mandatário disse que a situação complicada da equipe alviverde não era responsabilidade da diretoria, dos atletas ou da comissão técnica. Era mais do acaso ou de uma sucessão de infelicidades.

E na tarde de segunda-feira, para coroar o discurso de “ninguém é culpado”, Tirone foi flagrado pela revista “Veja” tomando sol em uma praia do Rio de Janeiro. Ora, ele estava de folga e tem direito de curtir folgas. Mas precisa lembrar que é o representante máximo de uma instituição e que esse tipo de atitude pode determinar direções para um momento de crise.

Na semana que antecedeu o descenso, Tirone preocupou-se com a transição. O Palmeiras terá eleição presidencial no início do próximo ano, e ele conseguiu uma coalisão de alguns grupos políticos para assegurar a permanência do técnico Gilson Kleina e estabelecer diretrizes para o departamento de marketing.

Tudo isso é mais do que necessário, sobretudo no atual momento do Palmeiras, mas não pode ser dissociado de um planejamento específico para a crise. Como símbolo, Tirone tinha de passar a noite no clube. Tinha de passar o dia no clube. Tinha de avaliar erros, consertar procedimentos e iniciar uma reação imediata.

Em vez disso, o Palmeiras preferiu oferecer ao torcedor um tempo para curtir a dor. E o risco que o clube corre nesse caso é o da resignação. Ninguém que acompanha um time com esse tamanho pode achar normal uma situação tão drástica. Nenhum adepto pode pensar que a vida segue normalmente ou que é possível aproveitar uma segunda-feira de sol.

Porque a resignação é um passo importante para o fim do amor ao clube. Aliás, é um pouco do que diz a coluna do jornalista Clóvis Rossi na edição de segunda-feira do jornal “Folha de S.Paulo” (o link, somente para assinantes, está disponível aqui, ó: http://tinyurl.com/bmjadyy). Em resposta, um amigo jornalista disse que “torcer dá trabalho”. Mas quantas são as pessoas que têm amor realmente incondicional por um time? Quantos são os que têm esse trabalho?

São poucos, infelizmente. E todos, torcedores doentes ou apenas simpatizantes, sentem falta de um Palmeiras grande. Querem que o clube incomode, que os rivais vibrem com seus insucessos. Querem que os reveses motivem mais do que segundas-feiras de praia.

Afinal, o que vai ser do Palmeiras nas duas últimas rodadas do Campeonato Brasileiro? Aliás, o que vai ser do Campeonato Brasileiro? Como evitar que a competição tenha um enorme astral de fim de festa?

Os detratores do sistema de pontos corridos correram para dizer que isso é um reflexo do formato de disputa. Eu retorno à autoajuda: dizer isso é resignação.

Quem já disputou uma prova de esporte individual entende um pouco mais. Um corredor amador, por exemplo, não vive de ganhar provas. Normalmente, vive de pequenas conquistas individuais – um tempo melhor ou uma evolução na condição física, por exemplo.

Se o campeonato determina apenas um vencedor, nenhum time pode achar que ser sexto é igual a ser décimo. Pequenas vitórias são fundamentais.

Posso ser um pouco repetitivo ao dizer isso, mas o Campeonato Brasileiro precisa repensar todo o plano de comunicação (se é que existe um, é claro). Só com uma promoção adequada a competição nacional pode estabelecer reais valores para os participantes. Cada posição na tabela deve ser valorizada, sim. Esse é um conceito que todos nós precisamos aprender, e aprendizado coletivo só acontece com comunicação adequada.

Há um texto que eu cito sempre, escrito pela Luciana Keiko, que é brilhante ao analisar isso (tá aqui, ó: http://tinyurl.com/cydorlb). Ela não fala de esportes, mas ensina muito sobre aprendizado. Aprender é um processo dispendioso, e ter consciência disso é um grande passo que todos nós podemos dar.

É assim com o Palmeiras, que vive agora um dos piores momentos de sua existência. É assim com os jogos inócuos do Campeonato Brasileiro. É assim com todo mundo que pensa em trabalhar com esporte ou que sofre muito com as intempéries do mercado. Porque, para usar outra citação, é como disse Carlos Drummond de Andrade: “A dor é inevitável. O sofrimento é opcional”.

Para interagir com o autor: guilherme.costa@universidadedofutebol.com.br

 

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Cartas aos netos palmeirenses

Meus netos,

Em 2012, seu avô e a mãe do Luca e do Gabriel se divorciaram semanas antes de o Palmeiras ser campeão invicto da Copa do Brasil, consagrando-se como o maior campeão nacional (duas Taças Brasil, dois Torneios Roberto Gomes Pedrosa, quatro Brasileiros, duas Copas do Brasil, uma Copa dos Campeões).

Em 2012, comecei a namorar e noivar a mãe do Ricardo, Luigi e Manoela, uma paixão de adolescência. Ganhei três novos filhotes e um amor pela vida meses antes de o Palmeiras cair novamente. Antes de se levantar para sempre, como vocês e os adversários estão cansados de saber – também neste século 21 que começou muito mal para o nosso time.

Segundo os maias, povo um pouco mais antigo que seu avô Mauro, o mundo acabaria em 21 de dezembro de 2012. Já que vocês estão lendo esta carta, sei que nisso eles erraram. Ainda mais quando previram o fim do planeta justamente para o dia do aniversário de 76 anos do bisavô Joelmir.

E olha que o Nonno (como sempre o chamaram o Luca e o Gabriel) passou um 2012 difícil… Teve problema no coração e logo se restabeleceu. Foi visitar as obras da Arena Palestra com os netos no Dia dos Pais e não se recuperou mais naquele ano. Ficou meses prostrado no hospital. Debilitado. Fraquinho.

Quem o via mal reconhecia aquele colosso de jornalista, aquele exemplo de vida. Melhor que tudo: aquele pai. Meu pai. O bisavô de vocês.

O Nonno parecia o nosso time. Um gigante que tinha ficado doente. Incapaz de se levantar sozinho. Mais caindo e caído que em pé. Em coração. Em Palmeiras.

Mas, com paciência, trabalho, seriedade, fé e amor, meu pai, o Nonno dos meus filhos, o bisavô de vocês, venceu todos os males.

Parecia o time dele em 2012. Ganhava uma, perdia quatro. Mas todos acreditavam na recuperação – ainda que lenta a tardia. Como eu me recuperei da separação de meus filhos em 2012 reencontrando um amor de adolescência. Ganhando mais amores pela vida. Fui rebaixado e ganhei um título. Tudo em meses. Tudo muda. Tudo vira.

Um grande não se rebaixa. Cai para poder se erguer. Mais difícil que a queda foi a ascensão em mais de 100 anos. Não é para qualquer um ser o clube Campeão do Século do país campeão do século no mundo. Não é para qualquer pai ser o profissional que o bisavô de vocês é. Não é para qualquer filho ter um pai amador da família e do trabalho. Com uma mulher maravilhosa como a dona Lucila para dar força e carinho.

Demorou, meus caros netos. Como demorou. Mas quando voltamos para nossas casas, quando pudemos ser Palestra e família em nossos lares (e seu avô em um novo lar com uma nova família), vi que nada é para sempre.

Mas que tudo que amamos é eterno.

Meus filhos e netos, amo vocês antes de terem nascido.

Meus pais eu amo desde que nasci.

Minha mulher eu amo até depois dos meus últimos dias.

Nosso Palmeiras não preciso dizer quando começou o amor. E menos ainda até quando e onde vai nossa paixão. Essa não se mede e nem se condiciona. É amor sem divisão. Só multiplica. Só cresce. Só ama.

Só Palmeiras.

O que senti pelo clube no fim de 2012 é o que sinto por vocês, filhos do Luca, Gabriel, Ricardo, Luigi e Manoela, desde o começo da vida desse meu time dos sonhos. É a vontade de pegar no colo e cuidar. Acalentar. Amar até perder o fôlego. Jamais a paixão.

Não os conheço, meus netos. Ainda não os reconheço. Não sei como vocês são, o que gostam, o que fazem. Não sei se vocês vão gostar de mim.

Mas sei que vocês são meus amores. A quem não peço nada. A não ser a Deus pela felicidade de amá-los sem condição.

Isto é amor. Isto sempre foi Palmeiras.

Amor incondicional.

Nem todos os que amam torcem. Mas todos que torcem amam.

Amo e torço por vocês, meus netos.

Torço e amo você, meu Palmeiras.

Para interagir com o autor: maurobeting@universidadedofutebol.com.br

*Texto publicado originalmente no blog do Mauro Beting, no portal Lancenet.

 

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Dez anos

O Partido Comunista, na China, escolheu e empossou seus novos líderes do país para os próximos 10 anos.

Isso mesmo. Na próxima década, o Grande Dragão terá os mesmos comandantes como responsáveis pelos rumos estratégicos nacionais.

São sete pessoas que compõem o Comitê Central, mas o grande protagonista é o chamado Secretário-Geral.

Em 10 anos, acontece muita coisa. Boa e ruim.

Em 10 anos, a estabilidade dentro de uma instituição pode servir para acomodar e escamotear práticas desastradas de gestão. Ou elevá-la a um patamar de crescimento e evolução.

Podemos mencionar alguns dos exemplos.

O SC Internacional dos últimos 10 anos.

Escapou do rebaixamento, num dramático jogo contra o Paysandu, na última rodada do Campeonato Brasileiro.

No meio desse período, foi bicampeão da Libertadores, campeão mundial e duas vezes vice-campeão nacional. Construiu um ciclo virtuoso.

O Palmeiras foi rebaixado em 2002. Perambulou pelo meio das tabelas das competições que disputou e, agora, está matematicamente rebaixado novamente. Não conseguiu se organizar como poderia e deveria.

Um caso interessante é o futsal. Não no Brasil, mas na Espanha.

Quando fui lá jogar, em 1995, no Deportivo La Coruña, com breve período no Egasa Coruña Futsal, o futsal já dava mostras de grande organização interna, contando também com jogadores brasileiros nas principais equipes profissionais.

Porém, ainda não havia grande protagonismo internacional e quase nenhum brasileiro naturalizado, bem como nenhuma conquista importante dos clubes.

Por outro lado, percebi, nitidamente, que a sede de aprender com o Brasil, berço do futsal mundial, era cada vez maior.

Abriram-se a portas, nos anos seguintes, ao intercâmbio técnico com nosso país.

Os resultados começaram a ser medidos de forma bastante objetiva.

Antes de ser derrotada pelo Brasil, neste domingo, na Copa do Mundo de Futsal, a seleção espanhola – que conta com dois brasileiros naturalizados – não perdia havia sete anos.

Ou, em 120 jogos, 107 vitórias e 12 empates…

E, dos 24 técnicos deste Mundial, cinco eram oriundos da Academia de Formação de Treinadores da Espanha.

O futsal espanhol foi pra escola em 10 anos. E, há 10 anos, vem fazendo escola.

Em 15 anos, foi cinco vezes campeão da Uefa. Bicampeão mundial e três vezes vice-campeão.

Deng Xiaoping, famoso líder chinês do século XX, profetizava: “Quando os nossos milhares de estudantes no estrangeiro voltarem para casa, vocês verão como a China irá se transformar”.

Hoje em dia, são 1,6 milhão de chineses estudando fora do país. Aprendendo com novas técnicas, culturas, processos, instituições.

Provavelmente, para depois ensinar bastante.

O futebol brasileiro sofre também de uma grave crise: a soberba da autossuficiência.

Se não soubermos aprender e promover intercâmbio de conhecimento, não saberemos ensinar.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

 

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Mais discussões sobre a Periodização Tática: por vezes, ela não se distancia do jogo?

Discutir a Periodização Tática no atual cenário futebolístico brasileiro é significativamente polêmico. Um grupo de profissionais do futebol tem aversão aos conteúdos científicos ou a quaisquer outros que necessitem muitas horas de estudo e leitura.

Então, mencionar essa expressão para este nicho, pode afastá-lo de um networking necessário no mercado. Outro grupo, influenciado pelas literaturas acadêmicas acerca do treinamento desportivo tradicional, não consegue compreender, devido a uma crença limitante, a dimensão física do jogo vista e treinada sob outra perspectiva.

Existe ainda o pequeno grupo que “bebeu da fonte” e pode aprender sobre esse modelo de periodização diretamente com o seu mentor, Vítor Frade, em Portugal e, por último, um grupo de profissionais, que mesmo do Brasil, tem acesso aos materiais publicados referentes à Periodização Tática e os utilizam para pensar a prática.

Ao compor este último grupo, fica o receio de abordar superficialmente o conteúdo teórico desenvolvido por Frade, que é objeto de estudos de muitos universitários portugueses, e ser duramente criticado por aqueles que são peritos na operacionalização da PT em seus cotidianos de trabalho.

Receio à parte, como estudioso do futebol (e não pesquisador) e treinador que busca a melhor atuação possível, preciso assumir o risco e propor novas discussões que permitam trocas de conhecimento, evolução da intervenção prática de todos e, consequentemente, melhorias futuras no futebol brasileiro (pois, no presente, muitos que estão à frente de grandes equipes do nosso país compõem o grupo dos que são avessos ao conhecimento científico).

Meus estudos aprofundados sobre a PT iniciaram em 2010 e, desde então, procuro correlacioná-los com minha prática, que tem grande influência dos estudos coordenados pelo doutor Alcides Scaglia e que evoluiu para o desenvolvimento da metodologia futebol arte. Tal metodologia é aplicada nas categorias de base do Paulínia-SP e, em 2012, também foi aplicada no profissional do Grêmio Novorizontino-SP.

Para a Periodização Tática, todo exercício de treino deve ser realizado em função do modelo de jogo pretendido. Sendo assim, de acordo com o dia da semana referente ao morfociclo padrão, estimulam-se os princípios, ou sub-princípios, ou sub-sub-princípios de jogo que, respeitando os princípios metodológicos, proporcionam o aumento de performance individual e coletiva.

Por tudo que vi e li acerca da PT, é possível afirmar que não são todos os exercícios que são jogos apesar de manterem a devida relação com o modelo de jogo.

Deixo, então, uma questão para discutirmos: se o futebol, em essência, é jogo (com todos os elementos que o constitui), quando a PT “abre mão” deste ambiente, criando exercícios analíticos, sem oposição, com pouco estorvo ou previsíveis, não está se distanciando significativamente do jogo de futebol?

Não pretendo com essa discussão privilegiar a metodologia futebol arte em detrimento da PT, uma vez que a primeira ainda dá seus primeiros passos com Alcides Scaglia e Cristian Lizana na Unicamp (campus Limeira), e enquanto a segunda possui muito material qualificado publicado. Pretendo, somente, provocar reflexões dos exemplos práticos que podem ser observados nas apresentações, congressos, blogs, livros, monografias e que “perdem força” quando analisados sob o princípio da especificidade.

Quando vejo um exercício analítico de finalização, por mais que mantenha a estrutura posicional dos jogadores e lhes orientem quanto ao posicionamento dentro da área, confronto-o com o jogo de futebol e os constantes desafios que lhe são impostos. Desafios estes inexistentes num treino de finalização como o mencionado.

Quando leio sobre um treino de um grande princípio de jogo, como o de circulação da posse, por exemplo, com troca previamente combinada de passes, questiono-me sobre a imprevisibilidade que é inerente ao jogo e também inexiste na atividade em questão.

São apenas dois exemplos de muitos outros que poderiam ser identificados, inclusive sobre os outros pressupostos para o ambiente de jogo: representação e desequilíbrio.

Não tenho dúvidas que o domínio conceitual da Periodização Tática é indispensável para uma boa atuação de qualquer gestor de campo. Sua fundamentação teórica emerge do pensamento complexo, o que justifica a necessidade de compreensão.

Que fique claro, também, que a PT não é o único modelo de periodização sistêmico. Rodrigo Leitão, com a Periodização Complexa de Jogo, a Periodização de Jogo que está sendo desenvolvida por Alcides e Cristian, ou até algum outro modelo de periodização ainda não sistematizado, mas que seja desenvolvido por algum treinador numa perspectiva ecológica, devem ser considerados.

Que as respostas e reflexões de vocês, leitores, sirvam para fomentar novas discussões como a que provocarei em algumas semanas com o tema “Combinação dos métodos de treino: necessidade ou dificuldade para planejar os treinos?”

Abraços e até a próxima semana.

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

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Direito Desportivo: cursos na área

Conforme já exposto na coluna “A Importância do Direito Desportivo”:

“O mercado do esporte movimenta bilhões de dólares. O futebol, por exemplo, movimenta, em média trezentos bilhões de dólares por ano, valor semelhante ao PIB (Produto Interno Bruto) da Argentina, e neste cenário há diversos interesses: torcedores, mídia, publicidade, transportes, hospedagens, materiais esportivos e um grande número de empregos diretos e indiretos.”

Por esta razão tem crescido a demanda por cursos na área e, apesar disso, há pouca oferta aos interessados.

A SATeducacional (www.sateducacional.com.br) oferece o curso à distância coordenado por mim de capacitação em Gestão e Direito Desportivo. Com um material didático excelente, trata-se de oportunidade para ingressar no direito desportivo e realizar intercâmbio com profissionais do mundo inteiro, pois já houve alunos portugueses e angolanos. Além disso, os ex-alunos têm conseguido inserção no mercado com publicação de livros, artigos e até mesmo direção jurídica de clubes.

Ainda na modalidade à distância, o Grupo Rede (http://www.portalrede.com.br/conteudos/conteudo/22 ) promove curso de pós-graduação em direito desportivo.

A UNIFIA oferece de forma presencial em São Paulo e à distância para Belo Horizonte e Ribeirão Preto a pós-graduação em Direito Desportivo (http://www.iidd.com.br/home/view.asp?paNumero=105&paCategoria=1). Leciono no presente curso e faço co-coordenação do núcleo Belo Horizonte. O curso traz um corpo docente excepcional, ao contar com exímios profissionais da área.

A Trevisan, conceituada escola de negócios, (http://www.trevisan.edu.br/educacaoexecutiva/1557/direito-desportivo) possui o curso de extensão em direito desportivo presencial em São Paulo. Além disso, eventualmente, a Trevisan ministra cursos de temas específicos relacionados à área, como Estatuto do Torcedor.

Ainda em São Paulo, a “Lex Magister” (http://www.lex.com.br/), realiza com bastante freqüência cursos de temas específicos como “marketing esportivo” e “advocacia esportiva”.

O INEJE– Instituto Nacional de Estudos Jurídicos e Empresariais (http://www.ineje.com.br/cursos/especializacao-direito-desportivo/8), sediado em Porto Alegre, oferece curso de pósg-graduação em Direito Desportivo e conta com professores renomados.

Além dos cursos direcionados ao Direito Desportivo, há cursos em áreas afins oferecidos por instituições já citas como a Rede e a Trevisan.

Inclusive, no Rio de Janeiro, o IAJ (http://www.institutoiaj.com.br/iaj/site.do;jsessionid=296FF052FE167030611E6D5B98DD47CC.iaj-arquimedes) possui curso de Gestão Desportiva ministrado por dirigentes e advogados dos grande clubes cariocas.

Ademais, outras entidades como a Fundação Getúlio Vargas ofertam cursos de direito desportivo em situações pontuais.

Portanto, para os interessados em ingressar no Direito Desportivo cabe analisar o curso que melhor coaduna com seu interesse, com a sua disponibilidade e mão à obra.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br

 

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A confiança como alavanca de resultados no futebol

Nos últimos dias, muito se falou sobre o título antecipado do campeão brasileiro de 2012, o Fluminense. Percebi que foram abordados alguns temas como da atualidade no futebol, a importância de se ter uma boa estrutura de gestão fora de campo, uma comissão técnica de alta qualidade, um grupo formado por atletas vencedores mesclados com atletas da base que têm identificação com o clube, um patrocinador forte e a elaboração de um bom planejamento e sua execução.

Concordo plenamente com todos os temas abordados acima e quero acrescentar mais um ponto que penso ser também um diferencial em equipes vencedoras: a confiança dentro do grupo de trabalho.

É possível conceituar a confiança como uma relação de aceitação voluntária e antecipada de investimento pessoal de risco, no qual se espera que a outra parte não haja de forma oportunista dentro do relacionamento interpessoal, pois este comportamento geralmente causa danos aos envolvidos na relação.

A confiança traz naturalmente essa ideia de assumir riscos, pois confiar em alguém significa colocar-se de maneira voluntária, vulnerável e dependente do outro, seja num relacionamento profissional ou pessoal. Se pensarem em suas vidas e nos seus relacionamentos, a forma como constroem ou construíram seus relacionamentos de confiança não passam pelo exposto aqui? Se pensarmos então numa equipe de futebol, existe inúmeras situações de relação de confiança, tais como dos jogadores com a comissão técnica, dos jogadores com os gestores do futebol, da comissão técnica com os gestores de futebol, dos gestores de futebol com os executivos do clube, dos membros da comissão técnica entre si e dos jogadores entre si. Parece complexo não é mesmo? E no fundo é complexo, pois gerir toda essa relação de confiança é um enorme desafio que grupos vencedores conseguem ultrapassar.

Em um ambiente aonde não temos uma atmosfera de confiança, a quebra desta pode contaminar uma equipe inteira, principalmente se essa prática for fomentada pelos profissionais hierarquicamente superiores. É aquele ambiente no qual as pessoas comentam: “cuidado, pois aquilo que você diz pode ser usado contra você”.

Neste cenário, o ciclo da desconfiança se instala e gera um tipo de relação baseada no medo e a cooperação só poderá ser alcançada parcialmente e através da coerção. Não é necessário nem dizer que este ambiente não se sustenta por muito tempo, ainda mais no futebol aonde os resultados são os indicadores de sucesso que possibilitam a permanência de técnicos e eventualmente até de jogadores dentro dos clubes.

Em oposto ao mencionado acima, em uma atmosfera de confiança a satisfação e a motivação aumentam consideravelmente, pois os membros deste grupo ou organização podem e desejam contribuir e partilhar seus problemas e ideias com mais liberdade, sem receio de comportamentos oportunistas por parte dos colegas ou por superiores e sem medo de repreensões. É um ambiente no qual a cooperação é espontânea e ela surge como elemento facilitador na execução das diversas tarefas de uma equipe.

A expectativa de confiança é formada por dois elementos: um emocional e outro cognitivo, que coexistem conforme as pessoas que interagem entre si e conforme a especificidade das situações envolvidas.

Um relacionamento de confiança somente pode ser sustentável se as pessoas envolvidas conseguirem perceber o benefício mútuo envolvido na relação, com isso o engajamento ocorre continuamente e todos passam a assumir mais riscos inerentes a estas relações. Este benefício compatível com as expectativas das pessoas que estão se relacionando pode ser um benefício financeiro, de reputação, de uma conquista ou apenas a manutenção de um laço de amizade valioso para ambos.

A promoção do interesse mútuo na direção de objetivos comuns em uma equipe de futebol pode constituir uma estrutura eficiente de incentivo para mobilizar os membros a perseguir metas compartilhadas, e nestas equipes que esta estratégia é adotada a probabilidade de promovermos o desenvolvimento de relações de confiança eficazes entre seus membros aumenta consideravelmente.

Deixo para você meu amigo leitor a reflexão, baseado no que foi comentado nesta coluna, de como poderia ser avaliado o nível de confiança nas relações nas demais equipes que disputam o campeonato brasileiro de 2012? Seria a confiança nas relações mais um precioso tema a se dedicar para alavancar os resultados nas equipes de futebol? Pense a respeito e tire as suas próprias conclusões.

Para interagir com o autor: gustavo.davila@universidadedofutebol.com.br