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Estágio de evolução da equipe: a convicção no processo!

Crédito imagem: Robson Mafra/AGIF

A ideia de futebol coletivo ainda sofre resistência no Brasil. Há no inconsciente do torcedor uma certeza de que o melhor time é o que tem os melhores jogadores. Não que isso não possa acontecer. Mas não é regra.

Em um jogo disputado por vinte e dois atletas, com oposição, campo grande, alvo (gol) proporcionalmente pequeno, em que há momentos de ataque – com a bola – e de defesa – sem a bola – podemos até discutir quais de fato são os melhores jogadores. Os que atacam melhor? Ou os que sabem defender com mais eficiência? Por isso o conceito de equipe passa necessariamente pela junção de atletas que se complementem.

E formar um time eficiente e vencedor leva tempo. Há uma infinidade de variáveis. O que se sabe com certeza, porém, é que após essa análise inicial de características e perfis, vem as dinâmicas e os encaixes que dependem de repetição e de uma certa “química” que vem do campo, da bola, dos treinos e dos jogos.

E isso tende a não brotar do nada, da noite para o dia…

Diante disso, me incomoda as cobranças em cima do atual elenco do Corinthians, sobretudo após as derrotas para Atlético-MG e Flamengo. Ambas fora de casa!!! O técnico Sylvinho pode e deve ser criticado por algumas estratégias e escolhas. Afinal, qual técnico do mundo é perfeito e não comete falhas?! 

Mas aqui precisamos falar de processo. De tempo, de maturação. De conjunto! Como colocar os atuais times de Corinthians, Flamengo e Atlético-MG no mesmo estágio de evolução?! É impossível! Basta um recorte mínimo da temporada passada: Flamengo e Galo brigaram por conquistas e o Corinthians lutou contra o rebaixamento. E se for para individualizar, Willian, o melhor reforço corintiano, não joga há cerca de um mês.

Entendo a paixão do torcedor e não pretendo que quem está na arquibancada use a razão para interpretar o que se passa dentro de campo, analisando tudo de maneira contextual e sistêmica. Mas espero que quem esteja no comando não tenha essa mesma passionalidade e compreenda que nenhum grupo se torna vencedor sem um trabalho constante, coerente e perene.

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Principal diferença entre a aula e o treino de futebol

Crédito imagem: Marcio Vieira/ATN

No processo de iniciação esportiva, considero importante os professores perceberem que dão aulas, e não treinos. Por que me importo com isso?

Alguém pode dizer, talvez, que, comercialmente, seja mais interessante chamar minha aula de treino, para que as crianças e, especialmente, seus pais sintam um clima do tão idealizado sonho de estar em um clube de futebol profissional. Se for apenas para simular uma situação que está no imaginário tanto dos pais quanto das crianças, até entendo, embora tenhamos que conscientizá-los de que há grandes diferenças que precisam ser respeitadas.

O problema é quando não há a devida distinção por parte dos professores. Eles mesmos se enxergam como treinadores de equipes adultas e não professores de crianças ou adolescentes em etapa de iniciação. Não quero de maneira nenhuma desmerecer a categoria de professores de futebol. Pelo contrário! Quero enaltecer que para ser professor(a) de iniciação e dar uma boa aula de futebol, precisamos saber coisas diferentes daqueles que dão bons treinos de futebol para jovens e adultos. Às vezes, pode ser até o(a) mesmo(a) profissional com competência para atuar nas diferentes etapas do processo de formação, caso ele ou ela entenda que a sua postura, didática, estímulos e feedbacks devem se alterar coerentemente ao público que está trabalhando. 

Entretanto, não é apenas a questão da idade do público-alvo que diferencia se daremos uma aula ou treino, concorda? A principal diferença está no processo de ensino-aprendizagem ao qual esse momento de interação entre o educador (professor ou treinador) e educando (aluno ou atleta) está inserido. Para entendermos em qual processo estamos inseridos, precisamos nos perguntar: (1) qual é a quantidade e a qualidade de prática que o(a) aprendiz necessita para ter uma aprendizagem efetiva? (2) quais variáveis posso conduzir e controlar dessa prática no meu trabalho de educação esportiva?

Vamos utilizar o exemplo do processo de ensino-aprendizagem do futebol. Muitas vezes, os alunos e alunas que apresentam um melhor nível de jogo nas escolas de futebol são aqueles(as) que, sempre que damos a oportunidade de terem tempo e espaço livres, querem brincar de bola ou certas brincadeiras tradicionais (que também ajudam de alguma forma para as habilidades aplicadas no futebol). As crianças que frequentam escolas de futebol, e apenas possuem esse tipo de experiência lúdica nesses espaços formais, costumam ter uma aprendizagem muito aquém daquelas que brincam em ambientes informais também. Se a escola for boa, ela contribuirá para a aprendizagem efetiva dos dois tipos de crianças. Contudo, sabemos que aquelas que chegam ao alto rendimento são as que praticaram uma quantidade de horas muito além daquelas fornecidas pelas escolas de futebol.

Este exemplo nos faz pensar no papel que as aulas de futebol têm para as crianças aprenderem efetivamente o jogo. A frequente prática informal de jogos de bola com os pés (Scaglia, 2003) pode ser muito eficaz na aprendizagem do futebol, como foi extensamente observado na história do futebol mundial, sobretudo brasileiro. Então, qual a contribuição que eu, como professor de futebol, posso dar aos meus alunos e alunas para que aprendam e melhorem na prática do futebol? Posso utilizar a minha aula para ensinar coisas importantes para a vida, que reverberarão no futebol, posso ensinar a gostarem de futebol e jogos relacionados a ponto de quererem praticá-los sempre que puderem, posso ensinar a pensarem o jogo e seus componentes de uma maneira diferente da que pensavam antes da aula e, com isso, conseguirem enxergar soluções para jogar que não viam anteriormente, posso ensinar a terem bons ídolos e referências de aprendizagem, posso ensinar que podem aprender e como aprender o jogo ou qualquer outra coisa. Como irão utilizar esses aprendizados? Não posso controlar, pois não fico tempo suficiente com meus alunos e alunas para isso. Eu ensino para autonomia plena, para que façam do futebol aprendido o que quiserem.  

Agora esse cenário muda um pouco de figura quando estou inserido em um processo de treino. O treinamento esportivo tem princípios que precisam ser respeitados, são eles (Lussac, 2008):

  • Princípio da individualidade biológica.
  • Princípio da adaptação.
  • Princípio da sobrecarga.
  • Princípio da continuidade/reversibilidade.
  • Princípios da especificidade.
  • Princípio da variabilidade.
  • Princípio da interdependência de volume/intensidade.
  • Princípio da saúde.
  • Princípio da interdependência dos princípios.

Alguns deles devem ser respeitados em aulas de escolas de futebol, porém outros, são mais difíceis. Especialmente o princípio da sobrecarga e da continuidade são dificilmente atingidos pelo fato de as crianças normalmente passarem muito poucas horas semanais na escola de futebol, cerca de 2 a 4 horas, tendo em vista a quantidade de conteúdos e adaptações orgânicas que o futebol demanda para que a criança o aprenda efetivamente. Se ela não tiver uma prática extra fora da escola, ela evoluirá vagarosamente e não conseguirá chegar a um grande nível de aptidão para a modalidade. Além disso, o princípio da especificidade deve ser relativizado na etapa de iniciação para que não haja a especialização precoce.

Em processos de treinamento, todos os princípios devem ser respeitados e controlados dentro da periodização, almejando a performance esportiva crescente. Este deve ser um objetivo claro de ambos, educador(a) e atleta. Não é à toa que em determinada etapa do processo de formação de atletas de futebol, eles ou elas são impedidos(as) de praticarem a modalidade fora do ambiente formal do clube. Sempre que há um treinamento por conta do(a) atleta, este trabalho deve ser bem coordenado com a comissão técnica responsável pelo seu treinamento dentro do clube. Quanto maior a estrutura de suporte à comissão técnica, mais variáveis importantes para o desempenho devem ser controladas: estímulos, adaptações, alimentação, sono, repouso, estresse, entre outras.

Esta distinção entre a aula e o treino pode ser aplicada a qualquer contexto. Para garantir a aprendizagem efetiva de um instrumento musical, de um novo idioma, de liderança, de uma nova área de trabalho etc., se a pessoa não tiver o comprometimento de organizar as variáveis de desempenho para canalizá-las à sua performance, ela não chegará ao alto nível. Em etapas de iniciação a qualquer atividade, não é momento de haver uma preocupação tão grande com todas as variáveis que interferem no desempenho, mas sim, na relação construída entre o indivíduo e a atividade. Por exemplo, construindo uma relação de que o indivíduo se sinta bem e feliz naquela atividade e queira estar fazendo-a sempre que possível. Esta tarefa do(a) educador(a) é extremamente importante e difícil, pois cada indivíduo traz consigo uma série de medos e inseguranças sobre o desconhecido. Além do mais, sobretudo quando a pessoa começa uma atividade (etapa de iniciação a qualquer coisa), ela e ninguém sabe bem o que representará essa atividade para a vida dela. É recomendado, inclusive, que a pessoa experimente coisas diferentes para, só depois, saber em qual delas ela realmente quer dedicar mais energia e se tornar boa.

Enfim, se me permitem dizer algo aos professores e treinadores de futebol, é que todos saibamos em que etapa estamos trabalhando para identificarmos as reais necessidades de estímulos à aprendizagem efetiva e o desenvolvimento integral do indivíduo, seja o(a) aluno(a) ou o(a) atleta.  

________________________________________

Scaglia, A J. O futebol e os jogos/brincadeiras de bola com os pés: todos semelhantes, todos diferentes. Tese de Doutorado, Unicamp, 2003.

Lussac, R. M. P. Os princípios do treinamento esportivo: definições, possíveis aplicações e um possível novo olhar. EFDeportes.com – Ano 13, n. 121, 2008.

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Vou falar de arbitragem. Mas só hoje…

Crédito imagem: Washington Alves/Cruzeiro

Evito falar de arbitragem. Em minhas tribunas, prefiro campo e bola. É isso que decide campeonatos. Os árbitros podem até interferir em um jogo ou outro – normal, porque são seres humanos e estão passíveis de equívocos. Porém no médio prazo, em um torneio, principalmente de pontos corridos, ganha sempre quem mereceu. Quem foi melhor.

Ao passo que me incomoda técnicos e dirigentes que culpam quem apita por tudo de ruim que lhes acontece, não gosto de usar este nobre espaço para falar disso. Só abro esta exceção por conta dos últimos acontecimentos. Não posso me calar ao ver quem comanda (!) trocar pessoas, mas manter esse modelo amador falido e a falta de união dos clubes diante de tudo isso.

Como pode o árbitro não ser profissional?! Em uma indústria que movimenta milhões, até bilhões de reais, quem apita é amador. Não é possível mesmo pagar um salário mensal e oferecer toda a preparação necessária para quem vai definir a justiça no placar?! E me refiro aqui aos árbitros de campo e também a quem opera o VAR. Por melhor que seja a tecnologia ela ainda é manuseada por seres humanos. 

Quando não está apitando, esse indivíduo não tinha que estar em um outro emprego, que ele é obrigado a ter para poder entrar no quadro de árbitros. Ele deveria estar fazendo a preparação física específica para os movimentos necessários no campo de jogo, tendo uma preparação psicológica voltada para a pressão que é encontrada dentro das quatro linhas, assistindo aulas, reforços e palestras sobre recomendações e interpretações das regras, enfim, se o jogador atua no domingo e faz toda a preparação nos dias seguintes, porque o árbitro tem que ser amador e realizar outra atividade laboral?!

E chego aqui em outro ponto crucial que faz com que tudo isso vá se perpetuando por décadas a fio: a falta de união dos clubes. O individualismo e o egoísmo que vemos são absurdos! Se há um erro contra mim, grito, esperneio e faço uma pressão. Se sou “favorecido” me calo cinicamente. Não há a menor intenção de discutir o todo, o sistema. E sim pressionar para a próxima partida…

Não sei a quem interessa uma arbitragem não profissional…aos clubes é que não… mas eles estão muito ocupados, fazendo força nos bastidores tentando evitar, por exemplo, que um árbitro que seja de um estado que tenha algum clube brigando pelo mesmo objetivo, não apite seus jogos… triste futebol brasileiro…

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Entendendo o jogo de hoje

Crédito imagem: A2M/CBF

A evolução do futebol nos obriga a também sermos melhores em vários pontos: entendimento, comunicação, análise etc. Se o jogo já não é mais o mesmo de vinte, trinta anos atrás, obrigatoriamente temos que compreender o que de fato acontece nas quatro linhas contemporâneas, sob pena de vermos o fenômeno atual com um óculos míope de um passado que só existe em nossas memórias afetivas.  

Um ponto interessante para refletirmos é a posição e função de cada jogador em campo. Como uma visão simplista do papel individual nos leva a leituras coletivas distantes da realidade: temos como um padrão cultural no mundo todo a necessidade de definir esquemas nas escalações; as próprias transmissões televisivas precisam de um desenho inicial para melhor apresentar os onze titulares. Me refiro aqui ao 4-4-2, 4-3-3, 3-5-2 etc. Porém são raras as equipes que mantém uma ocupação rígida do espaço durante os noventa minutos. Com a bola há uma formação, se a posse está com o adversário há outra, sem falar das transições que também pedem desenhos táticos específicos. Soma-se a isso a necessidade de se rotular cada jogador por características ‘universais’: volante marcador, lateral ofensivo, meia de chegada, centroavante matador e por aí vai… o problema de tudo isso? Acreditar que um time pode estar defensivo demais por ter ou três zagueiros ou dois volantes. Ou o oposto: achar que ao escalar vários atacantes um time estará sendo ofensivo e agressivo…

Ao invés de olharmos plataformas de jogo (os 4-4-2 e adjacentes), vamos observar comportamentos e ideias, ou seja, quais os padrões da equipe para atacar e defender – e isso vai muito além da simples ocupação do terreno de jogo. Ou quem sabe ainda sairmos do clichê de que zagueiro tem que ‘zagueirar’ e atacante não pode ajudar na marcação porque assim não terá fôlego (?) para chegar na frente. Todo jogador pode ter um perfil com e sem a bola. No momento ofensivo todos atacam, incluindo o goleiro, e no defensivo todos defendem, inclusive o centroavante. Um viés mais sistêmico e completo é o que pede o jogo atual de alto nível.

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Como a subjetividade do futebol nos apaixona

Crédito imagem: Felipe Oliveira/EC Bahia

Há vários argumentos, teorias e explicações sobre o porque de o futebol ser o esporte mais apaixonante, assistido e comentado do mundo. Todas as teses são válidas e corretas. Sabe por que? Por ser imprevisível, não há certo ou errado no futebol. Até o bonito e o feio são particulares, próprios de cada um. E é aí que está a graça do negócio! 

Com um terreno de jogo de grandes dimensões, o alvo (os gols) pequeno, vinte e dois jogadores manipulando a bola com os pés – mais difícil por essa ser a parte do corpo mais distante do cérebro (tente escovar os dentes com os pés para comprovar a dificuldade!) – enfim, esses são alguns poucos, mas há vários outros elementos básicos do futebol que o tornam uma verdadeira caixinha de surpresas.

O jogo tem evoluído absurdamente nos últimos trinta anos. A tecnologia está tornando tudo mais veloz e dinâmico não só dentro, mas também fora das quatro linhas. As informações são globais, gerando um intercâmbio mundial de ideias que também contribui para o aumento da qualidade.

Apesar de tudo isso, tenho certeza que se esse texto fosse escrito daqui cem anos, mesmo com a tecnologia chegando a patamares inimagináveis para a nossa geração, eu continuaria afirmando que o futebol é algo imprevisível e aleatório.

Estudamos ao máximo todas as vertentes do jogo e mesmo assim há variáveis eternamente incontroláveis. Existem inúmeras formas de se aumentar as probabilidades de sucesso. Mas nenhuma certeza. Técnicos, analistas e os próprios jogadores podem se preparar da melhor maneira possível que mesmo assim a vitória não é certa. Há quem garanta, inclusive, que em um jogo de futebol há mais possibilidades de acontecimentos do que há átomos no universo!

Encerro, com base em tudo isso, trazendo exemplos práticos que estão acontecendo neste final de 2021 no futebol brasileiro: 

  • mesmo o Flamengo sendo o mais rico ele não vai ganhar tudo.
  • o time flamenguista de Jorge Jesus nunca mais vai existir, mesmo se estiverem reunidos todos aqueles jogadores e o próprio Jesus. Porque não foram só as pessoas que fizeram aquele futebol arte. Foram as pessoas e suas circunstâncias. O que é bem diferente…
  • a Chapecoense, mesmo virtualmente rebaixada, pode tirar pontos de quem está em cima da tabela.
  • o Grêmio pode ser rebaixado, mesmo com um time repleto de craques.
  • Marinho jamais voltará a ser no Santos e em clube algum o craque que foi em 2020.
  • Benitez, meia do São Paulo, é craque, mas não consegue jogar. Não compensa tê-lo no elenco, mesmo sendo craque, repito.
  • o Corinthians mesmo com quatro excelentes reforços vai oscilar. Lembra que estamos falando de algo coletivo e subjetivo?! E o técnico Sylvinho tem culpa quase nula nessa natural oscilação…

Enfim, o futebol é um eterno comparativo entre a ilusão da expectativa e a gestão da realidade… o torcedor continuará sofrendo esperando certezas em algo total e prazerosamente imprevisível!

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Quando aspectos psicológicos determinam o favoritismo

Crédito imagem: Gilvan de Souza/Flamengo

Há poucas semanas atrás, duas das três principais equipes do futebol brasileiro de 2021, Flamengo e Palmeiras, apresentavam desempenhos e ambiente de trabalho que colocavam o Flamengo como forte favorito ao título da Copa Libertadores. Por um lado, o Palmeiras oscilava e perdia pontos para equipes tradicionalmente menos expressivas e que possuem investimentos muito menores. Nos quatro primeiros jogos disputados neste mês de outubro, somou somente 2 pontos, dentre 12 possíveis. Por sua vez, o Flamengo vinha sendo arrasador e atropelava seus adversários com seguidas goleadas. No mesmo intervalo, foram 10 pontos conquistados, dentre 12 possíveis, e 10 gols marcados.   

Enquanto estes resultados colocavam o Palmeiras em crise, já que passou a sofrer com fortes críticas da mídia esportiva e pressão da torcida com manifestações de insatisfação – por exemplo, a pichação do muro do clube com ataques à diretoria, jogadores e treinador – do lado do Flamengo eram só elogios à equipe do treinador recém-contratado, Renato Gaúcho.

Neste momento, qual era a equipe favorita ao título da Copa Libertadores numa eventual final: Palmeiras ou Flamengo? Indiscutivelmente, o Flamengo.

Bem… passemos a abordar, então, a influência dos aspectos psicológicos neste favoritismo. À época das semanas de jogos exemplificados nas linhas acima, era a equipe flamenguista que aparentava melhores condições psicológicas. A palavra “aparentava” deve ser ressaltada, pois, na psicologia, sobretudo no âmbito dos processos de grupo, há conteúdos explícitos e implícitos, que operam tanto no nível consciente, quanto inconsciente. 

Infelizmente, no futebol (mas também em outras modalidades esportivas), costuma-se lembrar da psicologia do esporte somente para apagar incêndios, em situações adversas e de derrotas. Mas a equipe do Flamengo, mesmo sem a presença de um(a) psicólogo(a) esportivo(a) em sua comissão técnica, mostrava-se (aparentemente) autoconfiante, auto eficaz, concentrada, com níveis de ansiedade e motivação equilibrados e com bom funcionamento grupal. Por sua vez, o Palmeiras mostrava sinais de ansiedade elevada, tensão, nervosismo e, sobretudo, baixa autoconfiança. O treinador Palmeirense, em entrevista, disse que a equipe sofria com questões de ordem mental e confiança para o jogo. Vale destacar que se tratam somente de suposições. E suposições levantadas com base na observação dos atletas e comissão técnica nos jogos e entrevistas na mídia televisiva. Ou seja, desconheço a rotina de treinos e vestiário de ambas equipes. Tampouco tenho dados de análises e testes psicológicos desenvolvidos em ambas equipes, algo fundamental no trabalho da psicologia esportiva.    

Cabe, nesse momento, fazermos a seguinte indagação: as condições psicológicas determinaram o desempenho de ambas equipes ou o desempenho determinou as condições psicológicas? Ou seja, foram as vitórias que fizeram do Flamengo, semanas atrás, uma equipe mais concentrada, confiante e equilibrada emocionalmente, por exemplo, ou tais condições psíquicas que fizeram da equipe flamenguista vencedora?   

As duas questões levantadas podem estar corretas. Ou seja, ao mesmo tempo que uma equipe melhor preparada emocionalmente terá melhores condições de vencer as partidas, ao vencê-las, ela tenderá a manifestar melhores condições psíquicas. A vitória, o gol, assistências, boas defesas, trazem, ainda que momentaneamente, maior confiança, equilíbrio emocional e melhor ambiente de trabalho aos jogadores e comissão técnica da mesma forma que a confiança, por exemplo, possui relação direta com a performance do jogador. Sim… qualquer um(a) que tenha jogado futebol pode confirmar esta afirmação, mas vale ressaltar que as pesquisas produzidas no campo da psicologia esportiva confirmam cientificamente essa relação.  

Confirmada então esta relação, voltemos à questão do favoritismo. Se no início de outubro o Flamengo era amplamente favorito ao título da Libertadores numa eventual final com o Palmeiras, será que hoje ainda pode-se dizer o mesmo? Jogadores profissionais de futebol não desaprendem a jogar num espaço de tempo tão curto, não é? Por sua vez, bastam poucas derrotas para elevar o tom das críticas e aumentar significativamente o nível da pressão que atletas e treinadores recebem e, consequentemente, todas as condições psicológicas que antes eram favoráveis, se tornam adversas. Quero dizer, com isso, que ao mesmo tempo que uma derrota num clássico e uma eliminação nas semifinais da Copa do Brasil são capazes de desiquilibrar emocionalmente uma equipe, três vitórias consecutivas são capazes de fazer uma equipe retomar sua confiança e performar em suas melhores condições técnicas, táticas e físicas.

Semanas atrás, o Palmeiras sofria com as críticas e grande pressão da mídia e de torcedores. Hoje, é o Flamengo que vivencia tais condições. Entretanto, há duas diferenças que influenciam, no meu entendimento, o favoritismo para o lado palmeirense: 1) O treinador Palmeirense, mesmo no momento adverso, e com afirmações que tenham explicitado certas fragilidades, jamais demonstrou falta de confiança no seu trabalho e no grupo de atletas. O treinador flamenguista, por sua vez, ao entregar o cargo à diretoria, explicita não confiar que é capaz de levar sua equipe ao título da Libertadores, questionando a competência de ambos, dele e dos jogadores; 2) Estar bem preparado psicologicamente não significa que as derrotas não acontecerão, mas sim que elas não serão capazes de desarticular e estereotipar o grupo frente à sua tarefa. O Palmeiras, que conta com uma profissional da psicologia do esporte na comissão técnica, demonstrou estar preparado para lidar com as adversidades e retomou o equilíbrio e as vitórias. Entretanto, tenho dúvidas se o Flamengo e seu treinador, sempre adversos à presença deste profissional no clube e reticentes quanto à importância da psicologia esportiva no futebol, estão também preparados para superar o momento delicado que estão passando.

Ainda assim, se faz necessário também mencionar o fato de que as equipes não costumam ser bem preparadas para lidar com o favoritismo. Afinal, se por um lado o favoritismo pode fazer dos atletas mais auto eficazes e autoconfiantes, por outro, ele eleva a já exacerbada pressão pela vitória.  Para finalizar, vou direto ao ponto. Tecnicamente, acho a equipe do Flamengo superior. Psicologicamente, o Palmeiras me parece melhor preparado. Como os aspectos psicológicos podem determinar o desempenho (técnico, tático e físico) de uma equipe, arrisco dizer que o favoritismo mudou de lado e coloco, neste momento, o Palmeiras como provável campeão da Copa Libertadores. Entretanto, tenho clareza dos riscos de tal palpite, afinal, a psicologia não se trata de uma ciência exata e o jogo possui, dentre outras virtudes que o tornam fascinante, a imprevisibilidade.

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Estrutura ganha jogo?! Mas que estrutura?

Crédito imagem: Pedro Souza/Atlético

O resultado de uma equipe dentro de campo é fruto de tudo o que o clube produz na sua totalidade. Claro que alguns departamentos tem uma influência maior do que outros. Mas todos que trabalham em uma instituição esportiva tem a sua parcela de contribuição no que acontece dentro das quatro linhas.

Fixar os olhos apenas no campo e na bola pode ser perigoso. Principalmente se esse olhar for o do dirigente. Investir, por exemplo, quase que a totalidade do orçamento em salários para jogadores e desprezar outros profissionais que talvez não tenham a mesma visibilidade e relevância para o torcedor, mas que são fundamentais para potencializar a performance pode ser um erro fatal.

Vamos a uma situação hipotética, mas que é muito frequente no Brasil: um clube médio declara que ainda não tem verba para criar um departamento minimamente estruturado e aparelhado de Análise de Desempenho e Mercado. Esse mesmo clube, porém, gasta milhões para contratar um jogador baseando-se apenas no “olhar clínico” de algum dirigente estatutário “abnegado” e “apaixonado” pelo clube. E em muitos momentos esse mesmo caro jogador pode se machucar (o que faz parte) e demorar além do necessário para se recuperar. Se voltarmos o olhar para o departamento médico, talvez esse clube possa estar defasado em termos operacionais e estruturais. E quando esse jogador volta, mesmo que tardiamente, pode ser que ele fique um certo tempo sem jogar bem, apesar de estar clinicamente recuperado. Buscando o staff da instituição não encontramos um psicólogo, para auxiliar o jogador na parte mental. Mais alguns meses e esse clube começa a atrasar salários porque as despesas estão maiores do que as receitas…já viu um filme parecido?

Perceba que o analista, o médico e o psicólogo não são agentes famosos para o mundo externo do futebol, não podendo servir de muletas para alguns dirigentes no famigerado argumento de ‘dar uma resposta para a torcida’ na primeira crise, mas esses profissionais são extremamente importantes para a performance esportiva. E eu poderia citar inúmeros outros profissionais que não têm visibilidade, mas são pessoas fundamentais no sucesso esportivo. Ou se o advogado não for competente o clube não pode perder pontos por alguma irregularidade?! O gerente de logística não pode prejudicar a recuperação dos atletas escalonando mal voos, hotéis e campos para treinar em jogos fora de casa?!

Não estou aqui pregando que o torcedor conheça todos os funcionários do clube que ele torce. Meu foco está nos gestores. Nos tomadores de decisão. Esses têm que entender de todo o processo, entender da complexidade que é o jogo de futebol e saber que a vitória começa fora de campo. 

A torcida resta desconfiar do processo e da estrutura se na primeira crise for contratado um medalhão… a felicidade momentânea pelo reforço pode virar frustração lá na frente…

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Jogar futebol e brincar no espaço da rua: experiências de vida e aprendizagem para além da prática

Crédito imagem: Marinho Ramos/Semcom

O encontro de duas ou mais crianças no espaço da rua configura um rico cenário de aprendizagens motoras, afetivas, intelectuais, sensoriais, morais e sociais que nem sempre são percebidas num primeiro momento, mas são experiências que devem ser observadas no processo de desenvolvimento humano. Então, podemos dizer que a partir da experiência vivida nas situações das brincadeiras da rua, as crianças constroem conhecimentos cognitivos e relacionais que ao longo do seu desenvolvimento ampliam sua confiança e participação nas atividades individuais e coletivas, que acontece a partir da curiosidade própria da experimentação, da criatividade, da interação e da própria prática da brincadeira.

O espaço da rua é entendido aqui como aquele ambiente no qual as crianças podem brincar, sem a interferência dos olhares dirigidos do adulto, ou seja, qualquer espaço que possibilite a oportunidade das crianças participarem de atividades motoras como: correr, pular, dançar ou de se divertir com a prática social que domina o imaginário de grande parte das crianças brasileiras: o futebol.

A experiência da criança em brincar de futebol com outras crianças no espaço da rua não se limita às aprendizagens dos conteúdos formais, mas se dirige à formação da criança inteira, preparando-a para atuar num mundo baseado em conhecimentos formais, relacionais e sociais. Isso porque, no momento do jogo, ocorrem vários tipos de aprendizagens simultaneamente. Ao mesmo tempo em que aprendem a jogar, logo, a terem controle sobre seus movimentos, a fim de alcançarem um determinado objetivo, também aprendem a se relacionarem com o grupo com as seguintes qualidades: respeito, sinceridade, solidariedade, autocontrole, autoconfiança, espírito de grupo, companheirismo, união, participação, responsabilidade, humildade e valorização do outro, elaboração de regras etc.

Dessa forma, o jogo de futebol ou qualquer outra brincadeira com outras crianças no espaço da rua, torna-se relevante durante a sua infância quando sabemos que o desenvolvimento humano não é um processo natural e sim produto de processos sociais mediados pela cultura, construídos na interação.

Então, a oportunidade de vivenciar experiências recreativas na rua se dá na relação entre o conhecimento cognitivo e as relações humanas, e neste caso, a presença do outro se torna fundamental.  O outro pode ser outra criança, o ambiente da rua, o outro que transforma na interação que constitui aprendizado em constante movimento que na maioria das vezes comporta mudanças, dificuldades, inovações e adequações, sem um saber previsto, ao contrário, com possibilidade de experimentar, criar, discutir, elaborar entre o grupo de crianças.

Essa interação no espaço da rua é um ambiente propício para aprendizagens, afinal, o saber da experiência não é o saber do objetivo previsto, ao contrário, é o desconhecido, é a possibilidade, é o experimentar. E isso, as crianças sabem fazer muito bem quando brincam, jogam e elaboram regras.

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Neymar, não ligue tanto pra internet…

Crédito imagem: AFP

Neymar ama jogar futebol. Isso é nítido. Toda vez que ele está em campo fica escancarado o seu amor por correr, driblar, chutar e etc. Porém, quando Neymar vem a público e diz que não sabe se terá “cabeça” para o futebol após a Copa do Mundo do ano que vem, também fica claro o quanto as críticas e as cobranças o abalam. Mas será que Neymar tem a exata noção do todo ou ele pega apenas o pequeno recorte das redes sociais para se sentir desta maneira?!

Tenho certeza que Neymar seria muito mais feliz e até produziria mais se ele não tivesse acesso à internet. Por maior que seja o impacto do mundo virtual (não nego e jamais negarei isso) ele não representa a globalidade de nenhum universo. A prova disso foi o carinho não só que Neymar recebeu, mas também Tite, Gabigol e toda a seleção brasileira, no jogo contra o Uruguai, na semana passada em Manaus. 

Neymar é um ídolo brasileiro. Um ídolo mundial. Se ele passear livremente por qualquer rua de São Paulo, de Paris e de Barcelona será ovacionado pela esmagadora maioria. Alguns pouquíssimos irão torcer o nariz e ficar de lado. Talvez justamente esses que pegam o celular e xingam pelas redes sociais.  Entretanto coberta pelo falso anonimato virtual essa pessoa é brava apenas digitando. Pessoalmente, mesmo que tivesse oportunidade, duvido que falaria ‘na cara’ o que escreve.

Neymar é disparado o melhor jogador do Brasil. Entendo que desde muito novo ele tem grandes responsabilidades. O dinheiro, talvez, já nem está mais entre as três, quatro, cinco principais prioridades. Que ele sinta o quão é querido. De verdade. Nas ruas. Nas estádios. Com ‘pessoas físicas’. Para que as poucas ‘pessoas virtuais’ não ganhem essa partida.

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O jogo lento brasileiro

Crédito imagem: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

É normal ouvirmos no mundo do futebol que os jogos no Brasil são mais lentos do que na Europa. Claro que isso não está relacionado à velocidade dos jogadores, já que se pegarmos as distâncias percorridas a maioria dos jogadores por aqui corre mais do que os que estão lá fora. Porém aqui muitos correm errado. Correm a toa. Mas, enfim, mesmo que equivocado, falar que o jogo aqui é mais devagar é mais específico do que o termo vazio e comum: ‘lá se joga outro esporte’.

A impressão de um jogo mais ágil se dá pelo volume de ações. Por exemplo, ao receber a bola um jogador pode pará-la, dar um, dois, até três toques antes da próxima ação. Ou ele pode já ter escaneado tudo a sua volta e assim que a bola chega já executar a ação seguinte. Essas frações de segundos somadas em um esporte coletivo criam a sensação de um jogo mais dinâmico para quem está assistindo.

E nisso entra um outro elemento ainda incipiente no Brasil: o jogar sem a bola. Por aqui ainda é difícil incutir a ideia de que longe da bola não quer dizer longe do jogo. Dentro do exemplo que citei de a ação com a bola ser executada rapidamente, se houve uma marcação curta, agressiva e atenta, quem tem a posse será levado automaticamente a ser mais rápido, sob pena de perder a bola.  Se a marcação é frouxa e distante, inconscientemente o portador também será levado a uma ação mais lenta. 

Perceba como o jogo é um todo. Todas as fases e elementos estão conectados. O todo é maior do que a soma das partes. Uma marcação distante incentiva a uma posse mais lenta, com muitos toques “inúteis”, antes de a próxima ação concreta ser de fato realizada. E vice-versa. O jogo brasileiro ainda tem muitos momentos em que nada acontece. Se antes a cadência do meio-campista brasileiro encantava a todos, hoje isso é visto como falta de intensidade. O alto nível é jogado em pressão de tempo e espaço. O jogo é mais rápido no decidir, agir e recuperar. Enquanto ainda ficarmos discutindo e lamentando a escassez dos clássicos ‘camisas 10’, o jogo europeu de alto nível ganhará ainda mais velocidade em comparação com o nosso.