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A função da imprensa

Pelé disse que não falou aquilo. Robinho disse que tudo bem. E a imprensa no mundo todo noticiou a “reconciliação” entre o Rei do Futebol e seu súdito mais notório, pelo menos dentro da Vila Belmiro.

Na semana passada, uma troca de farpas entre Pelé e Robinho ocupou boa parte do noticiário em todo o mundo. Tudo porque, numa palestra, o ex-camisa 10 do Santos deu a entender que Robinho teria feito uso de drogas e, com isso, manchado a sua imagem.

O ex-número 7 do mesmo Santos ameaçou processar Pelé num texto publicado em seu site oficial. Depois da repercussão do episódio, que forçou o Rei a cancelar um evento (com a devida cobertura da imprensa) que teria com o presidente mundial da Puma, o recuo veio na mais manjada das desculpas:

“Não foi bem aquilo que eu disse. A imprensa deturpou o que eu falei”…

Menos, Pelé, menos. Não só porque o seu passado de frases antológicas o condena, mas porque você, mais do que ninguém, tem de saber muito bem qual a função da imprensa no cotidiano de um esportista, ainda mais alguém tão famoso quanto Pelé.

Qualquer evento que tenha Pelé terá a presença de pelo menos um representante da mídia. E qualquer frase que ele disser será estampada nos jornais, sites, revistas, canais de TV, emissoras de rádio, sinais de fumaça ou qualquer outro meio de comunicação existente.

Porque Pelé é notícia. Em qualquer circunstância. Por isso mesmo ele deve ter dito o que disseram que ele disse na semana passada. E depois quis jogar a culpa na imprensa “sensacionalista”, que busca sempre “vender jornal”.

Ora, a essência do ser humano é sempre retratar aquilo que foge do comum quando encontra um conhecido. No caso de vermos um acidente na rua, logo saímos contando, nos mínimos detalhes, aquele fato que nos tirou do cotidiano.

A imprensa é o termômetro disso. É a fuga do cotidiano repetitivo das pessoas. E, para alguém como Pelé, ou mesmo Robinho, qualquer deslize pode ser “fatal”.

Não cola mais dizer que a imprensa deturpou uma frase, colocou-a fora do contexto ou qualquer coisa do gênero. Não porque de uma hora para outra a mídia se tornou o exemplo mais bem acabado de racionalidade e correção. Muito pelo contrário. Porque Pelé já sabe há 50 anos o que é ser o alvo da mídia durante 150% do seu tempo.

O esporte tem de saber começar a usar a imprensa a seu favor, em vez de criticá-la depois de uma frase fora do eixo ou de um comportamento infeliz. Se não for a mídia dando atenção para um atleta ou uma modalidade, muitas vezes o ostracismo chega para engoli-los. 

Com um pouco de preparo e muita atenção nos atos e frases, Pelé não correria nunca o problema de ter de desmentir algo que fez. Pelo contrário, sempre seria visto como uma pessoa infalível, ganhando ainda mais poder de barganha em diversas coisas que faz.

Robinho poderia, por exemplo, aprender com atos bonitos do maior ídolo do futebol mundial. E não sair facilmente transferindo a culpa para a “imprensa”, como se não fosse também dela uma parte da responsabilidade do grande sucesso que essas duas figuras tiveram.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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Scout analfabeto

 

Hoje, vou mais uma vez falar um pouco sobre “scout quantitativo”, ou melhor, das ferramentas quantitativas que são utilizadas por equipes, especialistas e mídias envolvidas de alguma forma com o futebol.

Infelizmente, ainda tem se tentado explicar o jogo de futebol por meio de números que representam um diagnóstico “do mundo da lua” e que pouco se relacionam com a realidade da complexidade inerente ao jogo.

Partidas são vencidas e perdidas sem que os sintomas das ferramentas quantitativas apontem o caminho concreto daquilo que os gerou.

Obviamente a culpa não é dos números, e sim, como chamaria John Allen Paulos, de um “analfabetismo em matemática” e de uma – como eu completaria – falta de entendimento do jogo como fenômeno complexo.

Vivemos num país em que o futebol faz parte do dia-a-dia dos cidadãos, onde sua força está impregnada com muitas fincas na cultura do povo. Seu papel na sociedade vem ao longo do tempo tomando formatos diferentes, mas sua presença nunca andou um milímetro para trás. Milhões de brasileiros adotam a postura de “entendidos do assunto” e vestem a cada partida de suas equipes a camisa de treinador (perspicaz, que para tudo têm solução). Os treinadores, os “verdadeiros”, de profissão, têm então junto de si, a sombra dos companheiros de trabalho e daqueles que se colocam como donos da verdade (os milhões de “torcedores-técnicos”), que bem ou mal, fazem parte de uma máquina (que funciona como uma cadeia alimentar) que gera informação, necessidade e consumo.

O mau entendimento do jogo leva muitas vezes então, não só a intervenções equivocadas por parte de quem atua profissionalmente no futebol, mas também em todas as dimensões que de maneira direta ou indireta, próxima ou distante interferem nele.

E é aí que o que deveria ajudar, acaba por vezes atrapalhando mais.

Especialistas, imprensa, equipes e treinadores usualmente acabam por dispor da ferramenta que chamam de “scout”, e através de índices estatísticos tentam entender e relacionar desempenho de jogadores e equipes. Há muito tempo estes índices vêm sendo usados. Não existe um padrão definido para formatação dos dados que esse tipo de ferramenta oferece, e o que se observa é sua representação feita de acordo com as preferências de quem o faz ou utiliza.

Como os números, de maneira mal trabalhada, podem nos induzir a conclusões não verdadeiras, não é incomum que emirjam e predominem muitas vezes as conclusões “não verdadeiras”.

Paulos (1994, p.69), usa um exemplo muito interessante para descrever as ciladas que os números, colocados de maneira errônea, podem nos pregar. Este exemplo está descrito em seu livro “Analfabetismo em matemática”. Vejamos:

“Suponha que um teste para câncer que tem precisão de 98%, isto é, se uma pessoa tiver câncer o teste será positivo 98% das vezes, e, se não tiver, o teste será negativo 98% das vezes. Suponha, além disso, que 0,5% – uma em duzentas pessoas – realmente tem câncer. Agora, suponha que você fez o teste e que seu médico lhe anunciou lugubremente que seu teste deu positivo. A pergunta é: qual deve ser o seu nível de preocupação? A resposta surpreendente é que você deveria ficar cautelosamente otimista. Para descobrir por que, vamos dar uma olhada na probabilidade condicional de você ter câncer, dado que seu teste foi positivo.

Imagine que 10 mil testes para câncer são realizados. Destes, quantos são positivos? Na média, cinqüenta dessas 10 mil pessoas (0,5% de 10.000) terão câncer, e assim, uma vez que 98% delas terão teste positivo, teremos 49 testes positivos. Das 9.950 pessoas que não têm câncer, 2% terão teste positivo, para um total de 199 positivos (0,02×9.950=199). Portanto, do total de 248 testes positivos (199+49=248), a maioria (199) são falsos positivos, e assim a probabilidade condicional de se ter câncer dado que o próprio teste é positivo é somente 49/248, ou cerca de 20% (este percentual relativamente baixo deve ser comparado com a probabilidade condicional de se ter um teste positivo dado que se tem câncer, que por hipótese é 98%)“.

Numa análise inicial, realmente nossa tendência em acreditar nos números sem entendê-los é muito grande, e por muitas vezes eles nos servem de argumento indiscutível para afirmações que fazemos. Muitas vezes nos deixamos levar por eles, em uma súbita necessidade inconsciente de termos uma explicação plausível para dado acontecimento. No esporte em geral, e particularmente no futebol isso acontece bastante.

Se a proposta de uma ferramenta como essa (o scout) é dar informações relevantes sobre o jogo, deveria ela antes de mais nada garantir alta correlação com o comportamento das equipes e jogadores enquanto jogam, de maneira que possa expressar não o volume de ações ou eventos e sim seus significados.

Caso contrário, corremos o risco de mergulhar não mais somente num analfabetismo de números, mas também em um rio de analfabetas verdades, que não são reais, simplesmente porque não existem…

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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O poder dos grandes clubes – Parte 2

Caros amigos da Universidade do Futebol,

Na coluna da semana passada discutíamos o poder dos grandes clubes de futebol, em vista dos últimos acontecimentos no mundo do futebol profissional na Europa, nomeadamente as reuniões do conselho executivo da Fifa e da Uefa, e dos rumores na mídia sobre uma eventual criação da chamada “super league”, uma liga independente dos principais clubes europeus.

Discutíamos também qual seria o efeito prático da criação de uma liga independente das federações. Quem teria mais poder?

Essas discussões são bastante teóricas, e muito longe de um acontecimento real, na prática. Isto porque, em nossa opinião, nenhum dos dois lados da balança (clubes de um lado e federações do outro) dariam um primeiro passo nesse sentido, o que certamente traria consequências negativas para muitos envolvidos, atletas e torcedores, entre outros. O risco seria muito grande.

O fato é que, coincidência ou não, tivemos um anúncio público ontem, entre Uefa e ECA (Associação dos Clubes), em que foi externado um aumento das verbas a serem repassadas aos clubes com relação às receitas da Liga dos Campeões. 

As verbas que aumentam são, especificamente, para clubes que não participam da competição e também àqueles que são eliminados na fase de grupos. 

Quem ganha é o futebol como um todo, já que clubes menores terão maior acesso (ainda que pouca coisa) a verbas da competição para melhor estruturarem suas categorias de base.

Ao final das contas, vemos que clubes e federações na Europa continuam cooperando, o que distancia ainda mais qualquer hipótese de “super league”.

De toda forma, há que se ressaltar a força dos clubes no anúncio em questão. Afinal, os rumores tiveram uma motivação específica? E tiveram o sucesso esperado? Ou foi tudo mesmo coincidência?

Perguntas que ficarão sem respostas.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

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A consequência da violência para os clubes de futebol

Nessas duas últimas semanas muito tem se discutido sobre a violência nos estádios de futebol. Ótimo. É um sinal da sociedade clamando por mudanças, que – mesmo que sejam implementadas imediatamente – possivelmente ainda tardarão a apresentar resultados mais visíveis.

Isso porque há um claro desentendimento nos discursos apresentados. Cada um corre para um lado, sem que haja um consenso nas causas, medidas e consequências sobre o assunto. De um lado, o governo fala uma coisa. De outro, a federação. Noutro, os clubes. Em ainda outro, a mídia. E, se não bastasse, ainda tem os torcedores. Em um assunto onde deveria haver um consenso linear, o que se vê é um complexo poligonal com pequena tendência de convergência.

Quem tem falado mais alto, até o momento, é o governo. Até porque a violência dentro dos estádios, e é preciso frisar a delimitação do espaço ao estádio de futebol, parece ser assunto de segurança pública. Mas não é. Ela é um assunto que ganha contornos massificados pela onipresença esportiva do futebol no país. Só que, fazendo as contas, ela interessa muito menos à totalidade da população do que pode parecer.

Considerando que a média de público por jogo da Série A do Campeonato Brasileiro de 2008 foi de aproximadamente 17 mil torcedores e da Série B 6 mil, e que cada uma das competições tinha, na maioria das vezes, dez jogos por final de semana, pode-se concluir que os estádios de futebol do Brasil receberam aproximadamente 230 mil torcedores por rodada, o que representa apenas 0,12% da população brasileira. Longe, portanto, de ser considerado um problema que assola todo o país ou que deva despertar tanta atenção do poder público.

Os maiores interessados em resolver esse problema são os clubes e suas consequentes associações, seja uma federação ou uma liga, uma vez são eles que tem no futebol a sua principal razão de existência. A violência nos estádios deveria importar muito mais a eles do que ao governo, portanto. Mas não é o que aparenta acontecer.

O problema é que o efeito da violência e da insegurança nas receitas dos clubes é avassalador. Todos, absolutamente todos os canais de receita são, com maior ou menor intensidade, afetados. Vamos a eles:

Dia de jogo

Nesse canal de receita, os efeitos são os mais óbvios. Quanto menor for a segurança e maior for a violência dentro do estádio, menos pessoas vão aos jogos, seja na arquibancada, na cadeira, ou no camarote. Aqueles que vão, o fazem ciente dos riscos e, portanto, tendem a não estender a sua estada dentro do estádio, o que – em conjunto também com uma menor disposição do indivíduo a levar maiores somas de dinheiro – limita o poder de consumo, seja de comida, bebida ou outros produtos. Com o sentimento de insegurança generalizado, existem também as proibições da venda de bebidas alcoólicas, que, depois do jogo em si, é o principal produto de consumo em uma partida.

Receita de patrocínio

Um dos principais motivos que levam empresas a patrocinar um esporte, no caso o futebol, é a oportunidade de conectar sua marca a uma imagem de saúde e bem-estar, benefícios da prática esportiva. Quando a marca de uma empresa aparece no momento de uma briga, a empresa acaba transmitindo uma imagem oposta àquilo que ela deseja. Logicamente que esse risco tende a afastar patrocinadores, principalmente os mais conservadores, o que diminui a concorrência e, consequentemente, o valor do patrocínio.

Receita de licenciamento

A maior parte da receita de licenciamento de um clube vem da venda de camisas oficiais. A insegurança e a violência inibem a venda de camisas, uma vez que usá-la no estádio ou fora dele se torna um risco à integridade do torcedor. Como produtos licenciados são essencialmente bens simbólicos – eles valem muito mais por aquilo que eles representam do que por aquilo que eles fazem – o torcedor pode vir a substituir a camisa por produtos mais reservados, como xícara e chaveiro, que são também muito mais baratos e com distribuição bem mais limitada.

Receita de transferência de jogadores

Mais violência e menos dinheiro significa menor poder de competitividade no salário de jogadores, o que tende a reduzir o poder de barganha do clube na negociação com outros clubes que queiram contratar seus atletas. Além disso, a insegurança pode motivar o atleta a querer deixar o clube, o que também influencia no valor final da venda e, possivelmente, na sua performance em campo, que acaba também diminuindo o seu valor.

Receita de direitos de transmissão (televisão, internet, etc.)

Com estádios vazios e sem atmosfera, com poucos jogadores importantes e com patrocínios escassos, o valor do futebol como entretenimento televisivo é bastante reduzido. As matérias veiculadas pela imprensa em geral também denigrem a imagem do jogo, o que também acaba afetando o seu valor. Com a diminuição do valor televisivo de um campeonato, poucos canais se dispõem a disputar a exclusividade dos seus direitos, o que também diminui substancialmente o montante arrecadado com a venda de um campeonato.

Como é possível perceber, o peso da insegurança e da violência na arrecadação de um clube de futebol é enorme. Daí, portanto, a razão pela qual os grandes interessados em acabar com ela devem ser os clubes, e não tanto o governo. Cabe ao Estado fiscalizar e incentivar a idéia, mas não cabe a ele puxar a responsabilidade toda para si. Seria possivelmente muito mais efetivo que o governo enrijecesse o controle fiscal sobre os clubes para que eles começassem a perceber o quanto que a insegurança afeta na sua própria arrecadação, e consequentemente na sua performance esportiva, e tomar medidas práticas e constantes que busquem a melhoria das estruturas dos seus estádios e o maior controle sobre o comportamento da sua própria torcida.

Enquanto o governo for o único a se mexer e os clubes não perceberem o quanto esse processo afeta o seu próprio bolso, o futebol brasileiro estará fadado a enfrentar ciclos de ações contra violência com prazo de validade bastante limitado.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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Sempre com a bola nos pés

Assisti neste fim de semana, nos arquivos do ESPN 360, fantástico site dos canais ESPN, a entrevista de Jorge Valdano para o programa “Bola da Vez”.

Valdano não chegou a ser craque, mas teve uma carreira exitosa como jogador da seleção argentina, campeã mundial em 1986 e, principalmente, nas fileiras do Real Madrid.

Tornou-se craque, sim, fora de campo, como treinador do Tenerife, da Espanha, e diretor de futebol o clube merengue, onde permanece à frente do programa de MBA em Gestão Esportiva oferecido em conjunto com Universidade Européia em Madrid e que acaba de chegar ao Brasil, em parceria com a Anhembi-Morumbi de São Paulo.

Na estupenda entrevista, Valdano, um fora-de-série na mediocridade de idéias e posicionamento que ainda impera entre nossos atletas e ex-atletas, relata um episódio ocorrido ao longo da campanha vencedora da seleção argentina em 1986, envolvendo Maradona.

O treinador da equipe, Carlos Bilardo, defendia a tese de que “o jogador sempre deveria estar com a bola nos pés, pois nunca deveria deixar de se aperfeiçoar em seus fundamentos”. 

Não importava onde. Para Maradona, nem como…

Maradona, ao que parece, teria dado ouvidos ao mestre e, desde sempre, conta Valdano, preparava-se arduamente para ser o melhor jogador do mundo.

Eis que Maradona, em tom de brincadeira, resolveu percorrer todo o trajeto de seu quarto ao restaurante do hotel, controlando uma bola nos pés. Passou pelo elevador, corredores, saguão, até chegar aos companheiros no restaurante.

Ao avistar a cena, Bilardo disse a todos, rindo e premiando o pupilo: “Vê, é por isso que ele é o Maradona…”.

É mais do que surrada a noção de que a prática conduz à perfeição. No futebol, diria que tanto dentro quanto fora de campo, nos respectivos exemplos de Maradona e do próprio Real Madrid, esse aforismo é ainda mais visível e acompanhado por todos.

A evolução em ambos os casos jamais se deu ou dará espontaneamente, ao acaso. Isso é fruto de sucessivos esforços visando melhorias contínuas, ora imperceptíveis a olho nu que, somadas, em médio-longo prazo, explicam o porquê do sucesso de uns, dificuldades de outros.

Tome-se o exemplo de um ícone nacional, o São Paulo Futebol Clube. Os menos atentos podem achar que os seis títulos nacionais, três da Libertadores, e três Mundiais, sempre estiveram umbilicalmente ligados à sorte.

Engano. O clube, além de um elenco de jogadores valorizados e de alto nível, possui estádio particular muito bem servido, CT para a equipe profissional e para as categorias de base, o Reffis, além de departamentos de marketing, jurídico, administrativo e técnico extremamente competentes e atuantes, com profissionais de destaque em todas as posições – do cozinheiro ao ponta-esquerda, passando pelo presidente.

No meio disso tudo, o clube investe continuamente nos processos de gestão, que não costumam contar com a sorte para a tomada de decisão sobre o que foi planejado exaustivamente. 

A sorte, o aleatório existem sim. Mas, se pode passar uma vida inteira esperando por ela. Mas ela pode resolver se albergar na competência do vizinho.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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Zezinho do Scout analisando o técnico: Mano Menezes e as substituições

Olá amigo, ainda que todos estejam na onda do clássico, não vamos fazer uma análise do jogo Ronaldo x Neymar, ops… Corinthians x Santos.

Uma semana de muita divulgação, de criação de expectativas e da individualização no chamado duelo de gerações. Que pesem os exageros para ambos os lados e a qualidade de tais jogadores, o jogo demonstrou em si, para a tristeza dos noticiários da semana (ou não), que não era restrito apenas ao combate entre Ronaldo e Neymar.

– Os técnicos

Na análise de hoje, vamos fazer uma avaliação da atuação deles! Os tão badalados e comentados… técnicos! Sim, isso mesmo. Normalmente, nos atentamos especificamente às ações do jogo que muitas vezes decorrem da ação dos técnicos, mas, no texto de hoje, mudamos um pouco foco, vamos analisar os técnicos do ponto de vista da conservação de idéias, da filosofia de jogo e da atuação do ponto de vista de intervenção na partida com base sempre nos dados, em nada mais.

Vamos focar no trabalho de Mano Menezes. Vagner Mancini, que cada vez mais ganha minha admiração, será tema de outro texto, em breve.

Mano Menezes tem seu trabalho reconhecido pelo que fez no Grêmio e no Corinthians, mas adquiriu um recente estigma de não ganhar clássicos em São Paulo. O treinador mostra que tem um planejamento bem elaborado, mas apresenta algumas dificuldades (normais no decorrer de uma temporada) que ganham proporções diferenciadas em se tratando de Corinthians.

Sabemos que clássico tem impactos diferentes e repercussões mais significativas. O próprio Mano reconheceu isso na última semana, mas resolvemos fazer uma análise simples, crua, apenas como curiosidade sobre a ação do Mano, do ponto de vista de substituições e relação com o tempo do jogo.

Consideramos os três clássicos (Santos, Palmeiras e São Paulo) e outros três jogos do paulista (Santo André, São Caetano e Marília), fazendo uma observação no tempo das substituições.

Realizando uma média simples (lembrando que média pode ser muito enganosa, como, por exemplo, a história de que se um amigo comer dois bifes e o outro nenhum, na média comem um bife cada, porém, um ficará obeso e outro desnutrido), mas vamos lá: Mano, nos clássicos, demora mais a fazer uma intervenção direta no jogo por meio de uma substituição.

Veja o quadro das substituições e do tempo (em média):

 

1º substituição

2º substituição

3º substituição

Clássicos

57 min.

72 min.

79 min.

Outros Jogos

45 min.

64 min.

81 min.


A primeira substituição nos clássicos demora mais e a segunda substituição tem um intervalo ligeiramente menor em relação à primeira, o que não acontece nos  jogos contra os ditos pequenos.

Podemos questionar, indagar a validade da análise, a profundidade, e até mesmo a relevância para o jogo em si. Mas, o fato é que o Mano apresenta um padrão, uma filosofia de atuação e intervenção que apresenta diferenças entre um jogo “normal” e um clássico. Podem dizer os mais românticos que clássico é clássico e vice-versa. Enfim, é uma maneira de atuar do treinador, não queremos neste momento entrar no mérito.

No quesito qualidade das substituições, utilizamos o seguinte critério, avaliar a função do jogador que entrou em relação ao que saiu, resumindo as funções em zagueiro (englobando laterais), volantes, meias e atacantes. Definindo ainda como ação de recuo (entrada de um jogador mais defensivo em relação ao que saiu), manutenção (jogadores de mesma função) e avanço (entrada de jogador mais ofensivo).

 

 

Recuo

Manutenção

Avanço

Clássicos

2

4

3

Outros Jogos

4

1

4

 


Do ponto de vista comum, pode não representar muita coisa, mas à medida que um adversário, de posse dessas informações, aprofundando em volume de jogos, e, sobretudo, utilizando instrumentos mais adequados para a análise do que a simples média utilizada aqui, é possível antecipar algumas ações no jogo.

Ora, se consigo antecipar meu adversário, é uma vantagem que adquiro. E aqui vale uma explanação mais detalhada. Esse antecipar não significa agir antes do adversário no campo do jogo apenas, mas sim, antecipar estratégia, treiná-las, preparar os jogadores para possíveis alterações na dinâmica de jogo do seu adversário. Sim meus amigos, futebol é imprevisível, mas também é uma repetição em muitos momentos. Se consigo evitar me surpreender com o que já pode ser conhecido e antecipado do ponto de vista de treinamento, melhor. Não acham?

É nesse ponto que podemos transformar uma informação despretensiosa em intervenção estratégica.   Assim como um nadador dá atenção a cada item que pode diminuir atrito e melhorar a flutuabilidade. Assim como o boxeador estuda a sequência de golpes predominantes de seu oponente, compreender que o técnico adversário apresenta um padrão de substituição (lógico que em situações especiais existe a exceção, a imprevisibilidade), é adquirir informação diferenciada a respeito do jogo.

Mas ressalto, se é possível antecipar no treinamento as eventuais alterações do adversário que interferem na dinâmica do jogo, a chance de ser surpreendido com algo conhecido é menor. Ainda que possamos lembrar de Garrincha  que conseguia fazer o previsto ser imprevisto.

É um detalhe que se soma a outros, e pode trazer ou evitar outros detalhes como gol (detalhe difundido por Parreira, e muito mal compreendido pelos seus críticos).

Bom, existem muitos outros pontos para se estudar na atuação de um técnico, os quais traremos em breve, buscando o perfil de alguns treinadores para exemplificar como podemos utilizar a tecnologia da informação como aliada no estudo do adversário. E você o que acha?

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

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Estado de choque. De novo

O título não é original, tampouco já se fez presente em outras colunas por aqui. Mas mais uma vez não poderia deixar de ser lembrado depois das cenas assistidas em mais um clássico pelo país.

A pancadaria entre torcedores e policiais no estádio do Pacaembu, após Corinthians 1×0 Santos, é daquelas que dá raiva do ser humano. A que ponto chega a covardia, o abuso de autoridade e a falta de respeito?

Ânimos exaltados após a derrota no clássico, ao que tudo indica os santistas decidiram agredir verbalmente o presidente Marcelo Teixeira, que estava próximo da massa alvinegra. Do staff do dirigente máximo do Santos partiu um copo para cima dos revoltosos, e aí a coisa estourou.

Somando-se à brutalidade e à imbecilidade de ambos, chegaram policiais militares. Daí para o início de uma pancadaria generalizada, em que o que mais se via era a audácia dos torcedores e a covardia dos policiais, foi um piscar de olhos.

Mais uma vez um clássico entre grandes torcidas no país termina em briga. De novo, a confusão não envolve as torcidas dos dois times, mas torcedores de uma das equipes e os policiais militares.

Mas por que será que isso acontece?

Sem dúvida que um dos principais problemas está no tratamento que é dado ao torcedor quando ele vai assistir a um jogo de futebol. O que justifica o comportamento brutal dos policiais que em tese estão lá para dar amparo ao torcedor?

Talvez a melhor explicação esteja no tipo de policial que é responsável pela “segurança” nos estádios de futebol do país. Por definições que não se sabe quando aconteceram, os jogos de futebol contam com a “proteção” do Batalhão de Choque das polícias militares municipais. 

Bom, na essência, o batalhão existe para “agir em ações de Controle de Distúrbios Civis”. Ou seja. O policial destacado para cuidar do torcedor no estádio é aquele que tem, em seu treinamento diário, que estar preparado para as piores situações de descontrole social.

Evidentemente, é esse policial quem não está preparado para tratar o torcedor de futebol como uma pessoa, mas como um desordeiro. E, a partir desse princípio, sempre o que se vê é o torcedor “comum” receber uma série de pancadas em nome da “ordem”.

Na Inglaterra, berço da civilização do torcedor baderneiro, era também o batalhão de choque o responsável, lá no passado, em cuidar da segurança nos estádios de futebol. Até que, no início dos anos 90, os ingleses decidiram dar uma atenção específica ao fã que ia aos estádios. 

E foi assim que se criou uma polícia especial, preparada para lidar com as especificidades do torcedor que frequenta o estádio. Além disso, a polícia inglesa se preparou melhor para evitar que o torcedor já condenado por ter provocado distúrbios em outros jogos tivesse o direito de entrar numa partida de futebol pós-condenação. Com o tempo, o “hooligan” perdeu seu espaço dentro dos estádios britânicos. Não quer dizer que eles não existam mais, porém a sua força de atuação é cada vez menor.

Sem treinamento adequado e fiscalização eficiente, é muito difícil conseguir tirar os estádios de futebol do país do estado de choque permanente em que ele se encontra.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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O pensamento ético contemporâneo e o Desporto

Segundo Anthony Giddens, no seu livro As Consequências da Modernidade, o que caracteriza o nosso tempo é a sua descontinuidade, em relação às épocas anteriores. As transformações na tecnociência, na filosofia, nos modos de vida, nas mentalidades; a globalização do economicismo neo-liberal, bem expressa numa alta competição sem freios; confundir felicidade com a posse exclusiva de bens materiais: não deixam a este respeito um rasto de dúvida. 
 
No entanto, segundo Rawls, uma das “experiências fundamentais” da modernidade é a existência do fact of pluralism, ou seja, a existência de uma incomensurável pluralidade de valores, que reduz a cinzas qualquer unicidade normativa. Por isso, Habermas faz resultar a moral das condições e pressupostos da deliberação democrática, como se nela ressaltassem, límpidas, a dimensão moral, a ética e a pragmática, quero eu dizer: a complementaridade entre o direito e a moral.
 
Em Habermas, substitui-se o “imperativo categórico” por formas de comunicação e argumentação. E assim, melhor do que a minha proclamação de leis universais, devo antes submetê-las ao juízo crítico dos demais, para diálogo, discussão e aprovação final. Mas uma pergunta se levanta, imediatamente: e quem detém a palavra e nos dá garantias do bom uso da palavra? A realidade deve considerar-se sob a óptica de quatro níveis ou ordens distintos: a ordem das finalidades, a ordem dos comportamentos, a ordem jurídico-política e a ordem tecnocientífica. A competência tecnocientífica é a mais visível, embora as diferenças culturais e linguísticas. Nem um idealismo exaltante ou os preconceitos sentimentais escondem a falta de rigor, o charlatanismo, o desconhecimento dos temas em questão. Da ordem jurídico-político-organizacional ressalta a organização que dá força e sentido a quem a representa.
 
A qualidade do estrutural reflecte-se na qualidade das condutas individuais. Mas o comportamento também depende do “homem de bem” que se é. A lição diária dos factos ensina que, sem um rijo arcaboiço ético, há objectivos inadiáveis que não se alcançam. É preciso distinguir o bem do mal, para que o desejo do “bem comum” possa emergir de tudo o que se faz. Na ordem das finalidades, deve luzir, de facto, o “bem comum”, preparado e materializado pelo homem ao serviço do homem, para que todos os homens possam ser actores da sua história e da própria História.
 
Uma análise ontológica, mesmo que episódica, da prática desportiva diz-nos que o ser humano é um ser-de-relação. Ou em equipa, ou individualmente, o desportista normalmemte entra em competição, quero eu dizer: precisa do seu semelhante. E, se dele precisa, há-de respeitá-lo, ou seja, não pode fazer dele um instrumento de qualquer um dos seus objectivos. Há, aqui, um jogo de co-responsabilidade: no desporto, os adversários (e não só os companheiros da mesma equipa) são também, solidariamente, responsáveis uns pelos outros. E esta responsabilidade não resulta de uma escolha, de uma preferência individuais, porque sem ela não há desporto. Daqui se infere sem dificuldade que, no desporto (como em Levinas), a ética é a filosofia primeira. E, a este ângulo de visão, o praticante exemplar surge como alguém onde brilham excepcionais qualidades físico-motoras e psicológicas, específicas do desporto de alto nível, e simultaneamente admiráveis qualidades éticas.
 
A vontade de vencer é inerente à prática desportiva, mas o praticante, como ser-de-relação, há-de saber vencer e perder, que o mesmo é dizer: há-de saber respeitar e respeitar-se, como vencedor e como vencido, dado que a motricidade humana tem como objectivo primeiro o desenvolvimento de todos e de cada um dos seres humanos. O aprumo e a lealdade, no desporto, não podem significar, hoje, ausência de competição, mas recusa à instrumentalização, ao serviço da competição sórdida do economicismo triunfante, que alimenta, sem mérito nem vergonha, o “bellum omnium contra omnes” (guerra de todos contra todos). A competição, no desporto, é uma forma de diálogo fraterno, deverá ser, por isso, uma expressão corporal do primado da dimensão ético-política sobre a dimensão economicista. Assim, nasce a confiança mútua, que é indispensável à competição desportiva. “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti” poderá ser a regra de ouro a presidir ao comportamento dos atletas, dos técnicos (sem esquecer os técnicos de saúde) e dos dirigentes.
 
Mas há dois perigos que rondam o sistema desportivo: a barbárie e o angelismo. A barbárie, quando os atletas deixam de ser pessoas/cidadãos e passam a ser governados pelo “despotismo iluminado” de dirigentes corruptos ou mal informados. O respeito pelos atletas não pode provir tão-só de “ordens superiores”, ou da ordem jurídica estabelecida, mas de um imperativo moral. No desporto, há o primado absoluto da pessoa sobre a lei. O angelismo acontece, quando se pensa que uma lei, um manifesto, um discurso, as conclusões de um congresso resolvem, por si sós, uma situação concreta. O verdadeiro motor da acção, da motricidade humana, reside na consciência reflexiva e na vontade livre e responsável das pessoas (neste caso, dos praticantes). Não faltam tratados, congressos, publicações e todo um galante florilégio de conclusões sobre a ética no desporto e… a corrupção e a violência permanecem. Porquê? Entre outros motivos, porque não se preparam, pedagogicamente, os alunos e os atletas a serem agentes morais, para além de praticantes de admiráveis qualidades físicas e técnicas. Enganam-se os que pensam que os atletas são singelos títeres, nas mãos dos dirigentes e dos técnicos, ou das leis sem espírito (lembram-se do Espírito das Leis, de Montesquieu?).
 
O Homo Sapiens-Sapiens é um ser que sabe que sabe e sente, por isso, a necessidade imperiosa de criticar, isto é, de saber, em profundidade, quem é, onde está e para onde vai. Posto isto, podemos adiantar que não é o desporto o novo ópio do povo, o ópio do povo é o desporto institucionalizado pelo neoliberalismo dominante, que demasiadas vezes reduz as pessoas a coisas e os sujeitos a objectos. Já há 96 anos, Jaime Cortesão alertava, em A Águia (Outubro de 1912) que “não é o regime, nem a agricultura, nem a indústria, nem as finanças que verdadeiramente estão em crise – o que em Portugal, há alguns séculos, está em crise é o Português”. Enfim, há que preparar também as pessoas para que as estruturas se transformem.
        
Posto isto, propõe-se:
 
1. Que o desporto escolar inclua, no conteúdo das suas matérias, não a gramática epistemológica das ciências empírico-formais, mas a das ciências hermenêutico-humanas, onde toda a objectualização é ilegítima. E, por isso, onde uma cultura anti-dualista e anti-colonialista e anti-imperialista seja essencial e fundante.
 
2. Que o ensino universitário do desporto assuma, semsubterfúgios, um paradigma decorrente das ciências hermenêutico-humanas e onde o agente do desporto, como ser-de-relação, se estude como
factor de desenvolvimento da pessoa, do grupo, da sociedade.
 
3. Que a teoria e metodologia do treino não esqueça nunca os aspectos éticos e políticos da prática desportiva. Sem ética, o espectáculo desportivo pode transformar-se num espaço de violência e de corrupção, dada a alta competição em que decorre. Quando o treinador Jorge Jesus sustenta que “o fair-play é uma treta”, acentua que a ética movimenta-se com dificuldade num desporto que reproduz e multiplica as taras do economicismo triunfante.  
 
4. Que se reconheça, no atleta, o sujeito ou a pessoa, com um valor  incomensurável, em relação ao valor de todos os campeonatos e taçasdas federações internacionais ou dos Jogos Olímpicos. É o praticante a origem e o fundamento de toda a significação do Desporto. A expressão “jogo de vida ou de morte” deverá erradicar-se do vocabulário desportivo. A morte do ser humano é a morte do próprio Desporto.
  
E. Levinas, no seu Autrement qu’être ou au-delà de l’essence, acolhe com bons olhos a desconstrução do humanismo actual, pois este, ao rejeitar o Absoluto, “não é suficientemente humano”. Direi o mesmo do desporto actual que, ao articular-se absolutamente fora do sujeito, rouba ao praticante o estatuto de “primeira pessoa”, para transformá-lo em mera unidade intercambiável. A própria consciência reflexa não é mais, para os novos humanistas, do que o resultado do processo de interiorização de uma ordem que lhe é totalmente exterior. Só que o novo humanismo, ao diluir o ser humano num mundo onde a globalização neoliberal impera, põe o Desporto em questão. Este é um tema que nunca vi tratado pelas instâncias internacionais que se ocupam desta problemática. Falam tanto de ética desportiva, sem darem conta se ela é possível com as estruturas onde o próprio desporto assenta.
 
*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.
 
Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.
 
Esse texto foi mantido em seu formato original, escrito na língua portuguesa, de Portugal
 

Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br

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O poder dos grandes clubes

Caros amigos da Universidade do Futebol,

Esta foi uma semana conturbada no mundo do futebol na Europa.

A Fifa tem agendada para hoje e amanhã sua primeira reunião do ano do Comitê Executivo, do qual o brasileiro Ricardo Teixeira faz parte. Dentre os temas a serem debatidos, estão a discussão da regra do 6+5 (incluindo o estudo preparado pela Inea, conforme discutido há duas colunas passadas), e também a proteção de menores (e eventual revisão do artigo 19 do Regulation on the Status and Transfer of Players).

A revisão dos regulamentos deve versar sobre a regulamentação das academias privadas de futebol (sobre as quais também discutimos em colunas passadas), que não tem vínculo com clubes de futebol federados, mas que possuem grande responsabilidade na formação de menores.

Também nesta semana muito se falou na reunião do Comitê Executivo da Uefa, que será realizada no próximo dia 23. De acordo com a agenda divulgada pela Uefa, a reunião deverá tratar também da proteção de menores, além do chamado “financial fair play” entre clubes europeus.

Além disso, entre outros assuntos, os regulamentos das competições da Uefa deverão ser aprovados para a temporada 2009/10.

Bom, no meio desses acontecimentos, espalhou-se um rumor na mídia européia que os principais clubes deste continente, unidos e organizados através da sua recente criada organização denominada ECA (que veio a substituir o G14), estavam discutindo uma eventual separação da Uefa e o desenvolvimento de uma nova liga européia de clubes.

Essa notícia foi rapidamente desmentida por representantes da ECA, e também pelo presidente da Uefa.

Entretanto, apesar do aparente “fogo de palha” ou “falso alarme”, restou um interessante ponto a ser considerado: o poder dos clubes vs. o poder das federações. Quem venceria um embate desse nível?

Na hipótese de os clubes, algum dia, resolverem efetivamente levar a diante uma idéia como esta. Até que ponto isso seria bem sucedido? As Uefa, por exemplo, continuaria com a Liga dos Campeões sem os principais clubes?

E os jogadores, permaneceriam nos grandes clubes, ou optariam por migrar para os clubes menores para permanecerem dentro da família da Fifa? E como a Fifa intercederia nessa questão?

Como os canais de televisão se colocariam? E os torcedores?

São questões filosóficas e hipotéticas dentro do mundo do futebol profissional. 

Mas isso poderia mesmo acontecer na prática? Fica a questão no ar.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

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Por que a Inglaterra rejeitou a Carteira de Torcedor?

Antes de mais nada, não acredito que o projeto da Carteira do Torcedor será implementado. A rejeição à idéia e os empecilhos técnicos e práticos são tão grandes que acho difícil que o discurso passe da sua fase retórica. 

De qualquer maneira, é preciso aplaudir a intenção do Governo Federal. Pelo menos, mostram preocupação com o estado dos estádios do Brasil e com a integridade do torcedor. Tornar a ação de cambistas e os tumultos dentro do estádio em crimes, além de elevar o nível de exigência estrutural dos estádios, é salutar.

O cadastramento de torcedores, porém, pode ser um grande equívoco. E não estou dizendo isso baseado em um “achismo” qualquer ou considerando algumas variáveis soltas para a construção de um pensamento superficial. Não. Estou reproduzindo o que foi dito por um dos maiores responsáveis pela melhoria de segurança dos estádios britânicos, Peter Murray Taylor, também conhecido como “Lord Justice Taylor”.

Estudos sugerem que o hooliganismo sempre existiu no futebol britânico, mas começou a ficar em maior evidência a partir dos anos 60, atingindo seu ápice em 70 e 80. A escalada de violência nos estádios do Reino Unido foi tamanha que começou a afetar não apenas os residentes locais, mas também a ter consequências para a Europa continental. Por conta disso, o hooliganismo arranhou a imagem internacional do Reino Unido, que passou a ser visto por todos como um país de violentos arruaceiros. 

Não ajudou em nada a Tragédia de Heysel, uma briga generalizada entre torcedores do Liverpool e da Juventus em 1985, que resultou em 39 mortes. O problema para o Reino Unido foi que desses 39 mortos apenas um era britânico. Outros dois eram franceses, quatro belgas e, pasmem, 32 eram italianos. Foi um massacre britânico. Logicamente que o Reino Unido passou a ser mal-visto pelos seus vizinhos.

Insuflada por esse acontecimento, a primeira-ministra britânica Margareth Thatcher disse que o hooliganismo tinha se tornado “um problema crônico” na ilha. Algo precisava ser feito. E, condizendo com a sua própria ideologia da redução da liberdade individual e aumento do controle do Estado sobre o cidadão, a “Dama de Ferro” sugeriu a criação da carteira de identidade dos torcedores de futebol (National Membership Scheme) no Football Spectators Act (FSA), em 1989.

A reação da opinião pública foi imediata. O argumento principal contra a medida se baseava na crítica à ideologia da proposta, de identificar o cidadão perante o Estado. Afinal, por que o Estado precisa saber se você vai ou não a um jogo de futebol? Não fazia sentido.

Poucos meses depois da divulgação do FSA, aconteceu a maior tragédia do futebol britânico. Na partida válida pelas semifinais da FA Cup entre Liverpool e Nottingham Forest, no estádio de Hillsborough, do Sheffield Wednesday, 96 torcedores do Liverpool foram massacrados contra as grades que separavam a arquibancada do campo. A mídia tratou de achar culpados para o massacre. A culpa, dizia-se, era dos hooligans. Estava tudo fora de controle. Eles precisavam ser contidos. 

Para apurar de forma mais detalhada o que de fato havia levado 96 pessoas à morte, o governo lançou uma investigação que foi conduzida pelo supracitado “Lord Justice Taylor”. Ao analisar com profundidade os fatos, Taylor concluiu que o problema em si não era os torcedores, mas sim as estruturas que atendiam essas pessoas. Muito pior do que os hooligans, era a situação dos estádios britânicos. Como exigir que as pessoas possam se comportar de maneira civilizada em um ambiente que não oferece as menores condições de higiene e segurança?

Para evitar que novas tragédias como Hillsborough viessem a se repetir, Taylor elaborou um documento com uma série de recomendações, que ficou conhecido como Taylor Report. Dentre essas recomendações – que incluíam a obrigação da colocação de assentos para todos os lugares do estádio, a derrubada das barreiras entre a torcida e o gramado e a diminuição da capacidade dos estádios – estava o cancelamento do projeto da carteira de identificação dos torcedores. De acordo com Taylor, era bastante possível que a carteira de identidade viesse a aumentar o problema da violência, e não o contrário.

Além dos questionamentos sobre a real capacidade dos clubes conseguirem colocar em prática um sistema confiável de seleção de torcedores e sobre a confiança na tecnologia que seria utilizada, o argumento se baseava na idéia de que a carteira de identidade para torcedores não era uma ação focada na segurança, mas sim na violência. E as tragédias nos estádios não era uma questão de violência, mas sim de segurança. A própria polícia inglesa, que teoricamente seria a grande beneficiada com a carteira, rejeitou o projeto, que, por conta de tudo isso, foi abandonado.

E é aí que talvez resida o grande equívoco do projeto das carteirinhas do torcedor no Brasil. É lógico que o problema da violência é grande, mas muito pior é o problema da insegurança. Como exemplo, a última grande tragédia do futebol brasileiro, o buraco nas arquibancadas da Fonte Nova, só aconteceu porque o estádio estava literalmente caindo aos pedaços. Naquela situação, a carteirinha de identificação não teria salvado as vítimas. Uma melhor fiscalização nas reais condições do espaço e o fornecimento de uma estrutura apropriada para o público, certamente que sim.

É imprescindível que o Governo Federal busque maior aprofundamento para saber as reais consequências do estabelecimento da Carteira do Torcedor, sob risco de criar um monstro muito maior do que o atual.

Muitos dizem que, no Brasil, o torcedor é tratado como animal. E quem é tratado como animal, age como animal. Caso nada seja feito para melhorar a qualidade das estruturas e do serviço dos estádios do Brasil, o torcedor continuará sendo um animal, só que com uma carteirinha. Um animal oficialmente reconhecido pelo governo.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br