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“O time não jogou bem”. “Não conseguimos fazer o que o treinador pediu”. “Faltou planejamento para a temporada”. “Cheguei para somar a uma grande equipe”. Se você acha que apenas o futebol brasileiro tem de conviver com esses jargões que falam tudo e não dizem nada, fique tranqüilo.
A praga das entrevistas evasivas não respeita nem mesmo os Estados Unidos, em que o desenvolvimento do esporte como negócio é tamanho que o país é tido como o exemplo a ser seguido no mundo todo.
Nos EUA, a gestão de carreira de atletas é tão evoluída a ponto de Hollywood usá-la como tema central em filmes. Mas, mesmo assim, quando a câmera acende e o microfone é ligado, tudo se parece tal como cá.
Estive na última semana numa viagem para Portland, cidade que abriga a sede da Nike, a toda-poderosa fabricante de material esportivo. Mais impressionante do que a enorme distância que separa o Brasil dessa cidade no estado de Oregon foi constatar a mesmice da cobertura esportiva na TV.
Sim, o astro do time de basquete diz o mesmo que o Finazzi depois do jogo do Corinthians. E o comentarista na TV fala as mesmas abobrinhas que o colega tupiniquim. O árbitro errou ou acertou, se aquela bola tivesse entrado, se no início da temporada o presidente do clube estivesse atento ao planejamento, se todos não fossem tão amadores…
Enfim, nada muda. A não ser a bola. Ela deixa de ser redonda e se torna oval.
Na semana do Superbowl, a superfinal do futebol americano, os jornais mal falam de outra coisa, a TV parece que não tem tempo de pensar em outro esporte…
E, tal como cá, a overdose de informação leva à bestificação coletiva. Nos EUA a mesa-redonda não é uma regra. Mas a fórmula “apresentador-comentarista”, tão decantada pela ESPN aqui no Brasil, parece ser a via de regra na terra do Tio Sam. Nem mesmo o calhamaço de estatísticas sobre atletas consegue fazer a discussão mais interessante.
Antes do Superbowl, a dúvida em todo o território americano era sobre Tom Brady. Será que o bonitão craque do New England Patriots e namorado da Gisele Bündchen, não necessariamente nessa ordem, estaria apto para disputar a decisão contra o surpreendente Giants e assegurar a inédita conquista invicta?
De fato ninguém sabia, mas todos se deliciavam em comentar sobre isso. Aliás, gostavam tanto que a decisão foi a mesma de todos os domingos à noite: desligar a televisão.
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Ganhar o jogo ou jogar bem?
O que significa jogar bem?
Muitos de nós, acostumados com os “jargões do futebol” responderia que jogar bem significa “jogar bonito”, “dar espetáculo”.
Rotineiramente é possível que nos deparemos com discussões em torno do tema. Seja para defender o “futebol espetáculo”, seja para alardear que o importante é ganhar o jogo e não jogar bonito, é comum que tais discussões sirvam de “camuflagem” para direcionar ou justificar direções tomadas que levaram a esse ou a aquele resultado em um jogo.
Tradicionalmente tomamos como sinônimo o “BEM” do jogar, com o “ESPETÁCULO” do futebol.
Façamos algumas reflexões.
Toda vez que é enunciada a palavra jogo, é comum que nosso pensamento seja remetido aos “jogos” que são assim chamados, porque assim popularmente são conhecidos. Sem que nos aprofundemos no tema, destaco que existem na Ciência áreas que estudam o “Jogo” como elemento complexo de um “complexo sistema” – transcendendo aquilo que é comumente tido ou conhecido como jogo.
O jogo, por ser jogo, é imprevisível. Ele possui uma lógica interna que lhe diz respeito. Dominar a lógica do jogo é um passo adiante no caminho da compreensão das variáveis que o envolvem.
Porém, temos aí um grande paradoxo, que repercute diretamente nas táticas e estratégias empregadas em partidas de futebol. Se dominar a lógica do jogo significa conhecer e dominar mais (e melhor) as variáveis do jogo, então quanto mais próximo do domínio de sua lógica e de suas variáveis, mais “previsível” estaria se tornando o próprio jogo. Como ele (o jogo) é imprevisível, aproximar-se da previsibilidade representaria distanciar-se do jogo.
Se as coisas fossem exatamente assim, transferindo ao futebol, seria como, se dominar as variáveis do jogo garantisse sempre a vitória, de tal forma que os resultados das partidas fossem “previsíveis” ao seu início.
Obviamente, o futebol é um jogo de grande complexidade e enorme número de variáveis interferentes. Buscar entender e dominar a lógica neste caso significa tentar controlar o maior número de variáveis possível (e controlar o maior número de variáveis possível não significa garantir a vitória no jogo).
A imprevisibilidade está no jogo. Portanto buscar a previsibilidade deve ser uma forma de torná-lo menos imprevisível, e não mais previsível.
Como o jogo não vai deixar de ser jogo, haverá sempre algo imponderável que garanta sua identidade. Então, no paradoxo que fora apontado anteriormente o erro está em acreditar que o domínio das variáveis e lógica do jogo o tornará previsível. Dominar as variáveis e lógica do jogo significa compreender a imprevisibilidade como elemento inerente ao jogo.
E aí, volto à questão inicial desse texto: o que significa jogar bem?
Diferente do que comumente se aponta, o significado do “jogar bem” deveria estar associado ao domínio das variáveis do jogo. Em outras palavras, o bom jogador é aquele que compreende o jogo, interage bem com ele, e assim joga bem.
Jogar bem, não é jogar bonito (ainda que uma coisa não elimine a outra). Jogar bem é dominar e compreender bem a lógica e as variáveis do jogo; e no caso de uma equipe de futebol isso deve ser ampliado ao contexto da equipe e não somente do jogador de forma individual.
No futebol, ter domínio sobre a lógica do jogo transcende o “eu jogador” e mergulha no “nós jogadores-equipe”.
Então, nessa perspectiva sobre o jogar bem, o grande apontamento é que “jogar bem não garantirá a vitória no jogo, porém maximizará as chances para que isso aconteça”.
Portanto, a antena dos treinadores e especialistas do futebol deve estar ligada e atenta a isso. Com raras exceções, é comum treinos técnico-táticos-físicos que caminham na direção errada. Ao invés de se buscar diminuir a imprevisibilidade, busca-se tornar o jogo previsível. Ao invés de se preparar atletas para entender o jogo, busca-se “programar” homens-máquinas (tutelados como sempre e cerceados do direito-dever de pensar).
E aí meus amigos, o de sempre. Alguns vão continuar perdendo sem saber porque perdem, fazendo “gambiarras” na direção errada. Outros vão continuar ganhando também sem saber porque (e quando perderem não saberão o que fazer).
Certo mesmo é que todos vão ter que abrir os olhos para perceber que alguns poucos ganham sempre. E que continuar acreditando que isso é sorte, é o mesmo que ficar sentado na poltrona da sala contando as horas para “o mundo passar”.
DIAGNÓSTICO
E para aqueles que acreditam na sorte e precisam abrir o olho, abram rápido para o trabalho realizado nas categorias de base do Figueirense.
Observando a média distância a equipe sub-17 e de longe a equipe que disputou a Copa São Paulo Jr em 2008 não tenho dúvidas: o trabalho que lá vem sendo realizado é diferenciado. E não se trata aqui apenas de títulos (isso é conseqüência). Falo aqui de observações e condutas em jogos (de jogadores e comissão técnica), e de comportamentos e estratégias (enfim, planejamento!).
Parabéns ao Figueirense.
E para aqueles que estão começando a abrir os olhos: olho no SUB-17 deles…
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Leia também:
Entrevista com João Batista “Abelha”, superintendente técnico das categorias de base do Figueirense
Caros leitores,
Ontem encerrou mais uma janela de transferências de jogadores na Europa, e em vários outros países de outros continentes. Para o mercado brasileiro, náo foi uma janela muito movimentada.
Alguns nomes esperados, como o atacante Josiel, artilheiro do Campeonato Brasileiro, e Breno, zagueiro revelação da competição, deram adeus à nossa liga doméstica. Outras tantas promessas e nomes certos a serem transferidos, no entanto, permaneceram, tais como o meia Valdívia, do Palmeiras.
Na realidade, e como todos nós sabemos, a janela mais importante é a do meio do ano, em que os clubes europeus procuram reorganizar suas equipes findas as suas temporadas.
Do ponto de vista legal, ou, ao menos, regulatório, é importante mencionar que essa janela foi criada para proteger os clubes dos assédios a jogadores que clubes e empresários faziam ao longo das temporadas.
Impondo essas duas janelas por ano para cada federação nacional, a Fifa consegue evitar que times sejam prejudicados com transferências indesejadas e não planejadas.
Por outro lado, a contratação de jogadores não fica absolutamente impedida pelos clubes ao longo da temporada.
De acordo com os regulamentos da Fifa, jogadores livres (em outras palavras, jogadores que tiveram seus contratos de trabalho expirados e não renovados com seus clubes) podem ser contratados fora das janelas.
O mesmo acontece com aqueles jogadores que tiveram seus contratos rescindidos por acordo de ambas as partes durante o período da janela. Para esses casos, a Fifa considera tais atletas jogadores passíveis de assinarem contratos de trabalho durante a temporada.
A única precaução, para essas exceções, é que os clubes deverão observar os regulamentos das competições que disputam, de modo a ponderar uma contratação no curso da competição. Muitas vezes tais regulamentos vedam a inclusão de novos jogadores, ainda que permitida sua contratação pela Fifa.
Enfim, agora vamos acompanhar a evolução de nossos jogadores no exterior, e desejar sucesso a eles. Afinal de contas, somos os melhores do mundo e temos mostrado isso com o sucesso de nossos atletas.
E somos melhores do mundo também em carnaval.
Bom feriado a todos.
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Você nunca andará sozinho
Um grupo de torcedores do Liverpool irá apresentar ainda hoje (quinta) uma proposta para comprar o clube.
Como todos sabem, clubes de futebol na Inglaterra são instituições de capital privado e possuem donos. E os donos, que afinal são donos, fazem o que bem entendem com aquilo que eles possuem. No caso, donos de clubes de futebol fazem o que bem entendem com clubes de futebol. Para ser dono de um clube de futebol inglês, porém, é preciso bastante dinheiro, e geralmente quem investe tanto para adquirir um clube quer ganhar ou mais dinheiro, ou o público que acompanha o clube.
Em alguns casos, é evidente a intenção do dono em adquirir um clube como forma de melhorar sua imagem. Os casos mais notáveis são o do Abramovich com o Chelsea e o do Shinawatra com o Manchester City. Ambos são cheios da grana e não precisam de mais dinheiro, mas precisam – e muito – conquistar o apreço de outros seres humanos de bom coração, afinal ambos são acusados de diversas atrocidades em seus países de origem. Para tanto, mudam-se para a Inglaterra, levam seu dinheiro e compram um clube de futebol. Dessa forma, criam uma legião de seguidores e conseguem, de certa, forma, fazer com que sua notoriedade diminua a possibilidade de ataques contra a sua honra e, principalmente, contra a sua vida.
Em outros casos, notadamente o dos norte-americanos, a idéia de comprar o clube é ganhar dinheiro, seja em cima do torcedor, da televisão, ou de uma futura revenda. E os americanos têm apostado bastante nisso, como mostram os Glazers e o Manchester United, Lerner e o Aston Villa, Hicks e Gillett e o Liverpool, e a recém acordada compra do Derby County pela GSE.
Obviamente que um processo como esse último sempre gera uma certa rejeição. Afinal, a aquisição de um clube de futebol por algum investidor em geral significa preços de ingressos e de produtos inflacionados e exclusão dos torcedores das camadas mais baixas da população. E quando um investidor compra um clube, não faz muitas contratações de peso, não consegue ajeitar o time e começa a brigar com o técnico que é amado pela torcida, aí a rejeição estoura.
Foi o que aconteceu com o Liverpool, Hicks, Gillett e Benítez.
Quando começaram a surgir boatos de que os novos donos do clube pensavam em trocar de treinador, a torcida ficou do lado mais fraco, e muitos torcedores de longa-data anunciaram que deixariam de ir às partidas e de comprar os pacotes para a temporada caso o espanhol deixasse o clube. Os novos donos foram ameaçados pelos seus consumidores com um boicote econômico. Obviamente, daí para a frente, a situação só piorou.
E agora o conflito chegou ao clímax. Às cinco horas inglesas da tarde de hoje, tradicional hora do chá – ainda que essa seja uma tradição falaciosa, um grupo de torcedores anunciará a intenção de comprar o Liverpool, e transforma-lo em um clube propriamente dito, de propriedade de seus associados. Espelham-se em clubes da Espanha, principalmente Real Madrid e Barcelona, e em clubes da Alemanha. A idéia do grupo chamado de “Share Liverpool FC” é conseguir 100.000 sócios e levantar 500 milhões de libras, algo em torno de 2 bilhões de reais, para comprar o clube e construir um estádio.
Caso consigam, poderá ser iniciado um novo processo de aquisições de clubes por torcedores, o que mudará significativamente o processo comercial desses clubes, resultando numa completa transformação da indústria como um todo, inclusive do Brasil.
Se isso vai acontecer ou não, já é outra história. Mas que pode, pode. E vai depender muito do sucesso dos torcedores do Liverpool. Talvez não seja a coisa mais ideal do mundo apostar no sucesso do time atual em uma partida, afinal o clube não anda muito bem das pernas em campo. Mas se for pra apostar na força da sua torcida, aí sim é possível colocar algumas fichas na mesa.
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Quem tem rádio é rei
Matéria nesta Cidade do Futebol da última sexta-feira dá conta do enrosco em que se meteu o futebol catarinense. A associação das emissoras de rádio está na Justiça para ter os direitos de transmitir, sem qualquer contrapartida, os jogos do Estadual (veja mais aqui).
O resultado final está longe de sair e provavelmente só acontecerá depois que o campeão catarinense tiver sido decidido. E do jeito que é Justiça, talvez seja o campeão de 2010… Mas o fato é simples: os clubes começaram a acordar para um problema grave de ausência de receita.
A popularização do futebol no Brasil aconteceu nos anos 30 e 40 graças às ondas do rádio, que levavam aos torcedores a emoção do campo para dentro do lar. Só que foi exatamente por conta dessa origem da transmissão do esporte que o futebol hoje vive um de seus maiores problemas.
Quando folclóricos narradores, comentaristas e repórteres de campo tinham de subir no telhado de casas para poder narrar os jogos aos ouvintes, obtínhamos excelentes histórias para contar. Só que, ao cederem à insistência dos empresários da comunicação, os clubes criaram um monstro.
As rádios encontraram o caminho para a audiência e, conseqüentemente, para o faturamento publicitário, a partir da transmissão do futebol. Os clubes, no início, tentaram coibir o ganho elevado de dinheiro das emissoras proibindo-as de transmitir as partidas. O receio, à época, era perder dinheiro com a bilheteria. Quando perceberam, porém, que o público ia ao estádio mesmo com o jogo transmitido pelas ondas do rádio, os dirigentes baixaram a guarda. E aí que começou o problema.
Hoje, com o recurso da televisão, nem mesmo ir a uma partida é necessário. As narrações acontecem de dentro de um estúdio, ou até mesmo da sala da casa. Outro dia, aliás, em plenas férias do futebol no Brasil, o Real Madrid de Robinho era irradiado pelas ondas da AM paulistana.
A maior fonte de receita da Fifa na atualidade é a venda dos direitos de transmissão de seus eventos, em especial a Copa do Mundo. São quase US$ 2 bilhões em receita com a venda para mais de 200 países. Só que os direitos não se limitam à televisão. A rádio paga, e muito, para poder exibir ao vivo os 64 jogos do Mundial. E não chia.
Por que as rádios brasileiras continuam achando que é possível transmitir o futebol sem ter de pagar por isso? Os clubes ainda querem apenas como troca espaço na poderosa mídia da rádio. Mas nem isso os empresários parecem dispostos a ceder.
Só que, o que as emissoras não percebem, é que cada vez mais os clubes acordam para o aumento na fonte de receitas e nas estratégias de marketing para arregimentar torcedores e, a partir disso, dinheiro.
Na terra de cego, quem tem uma rádio é rei. Por enquanto.
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Futebol brasileiro ou europeu?
Dia desses me perguntaram por que eu gosto tanto de falar sobre o futebol inglês e italiano, suas peculiaridades táticas e modelos de jogo e por que insisto em dar exemplos de equipes européias como referências para determinado aspecto da complexidade do jogo. As indagações vieram seguidas da afirmação de que as equipes brasileiras têm levado vantagem sobre as equipes européias nos últimos anos em jogos internacionais (e que, portanto, o futebol brasileiro é melhor tecnicamente e taticamente do que o europeu – vide e acrescente na argumentação o número de títulos mundiais da seleção brasileira).
Vivemos no “país do futebol”. E se isso é verdadeiro, é verdade também que nossas crianças tendem a nascer com o “dom para a coisa” (já nascem sabendo jogar).
Que pretensão! Deus realmente deve ter criado um selo especial para isso – fico só imaginado o Todo Poderoso na linha de produção (digo na fila de pessoas a nascer) dizendo: É brasileiro? Selo amarelo nos pés… Próximo…
Obviamente, ninguém nasce sabendo jogar futebol; assim como ninguém nasce sabendo sambar ou falar português. Falar português, sambar e jogar futebol são habilidades adquiridas no ambiente em que se vive. Não nascemos com maior tendência a falar português, sambar ou jogar futebol porque a dádiva natural do nascimento ocorreu em terras brasileiras. Claro, ao nascer aqui (ou não), sofrendo influência das “ocorrências” do meio daqui, estaremos adquirindo a cultura DAQUI!
Estranho ou trivial?
A menos que realmente acreditemos que o samba, o nosso idioma e/ou o futebol sejam obras divinas. Aí teremos obrigação de crer na teoria de que nós brasileiros já nascemos jogando futebol e que o Todo Poderoso, com tantas preocupações; duzentos e tantos países para cuidar, guerras, doenças… Ainda tem de atribuir habilidades para jogar futebol, dançar samba (tango, salsa, flamenco!?), cuidar de cada idioma a ser falado, sem nos esquecer ainda dos pedidos emergenciais dos nossos seres bons humanos…
O fato é que, por vezes, cegados pelo brilho de nossas crenças, nos tornamos incapazes de ver além do comum.
Certamente o futebol brasileiro tem coisas a ensinar taticamente. A questão é que vivemos no Brasil um paradigma diferente daquele que alguns países europeus tomam para seguir. Não porque ultrapassamos o paradigma alheio e já vivemos outro momento. Muito pelo contrário.
A questão aqui é que a maior parte dos treinadores e “especialistas” do futebol ainda vêem o jogo em fragmentos, atentando ao jogador fora do contexto coletivo da equipe. É como se para mudar uma tendência, corrigir um problema ou acentuar um desequilíbrio vantajoso em um jogo, a melhor e única solução estivesse sempre atrelada a substituição de um jogador que não está a render satisfatoriamente, e colocar em seu lugar outro que, quiçá, poderá ter desempenho melhor.
E como o jogador é parte do todo (que é a equipe), espera-se que a intervenção no “pedaço” resulte em grandiosas e positivas transformações no “bolo” (o todo).
Não que na Europa tenhamos o modelo “ideal”, o exemplo a ser seguido. Mas existem lá focos de outra visão sobre o jogo, sistêmica, que leva em conta a complexidade do futebol e que compreende que qualquer alteração em qualquer variável do sistema pode gerar amplificadas e transformadoras respostas no todo (e que portanto, não é necessariamente a substituição de um jogador a solução para os problemas).
E se é fato que o brilho de nossas crenças pode nos cegar, posso eu, ao invés de não estar vendo, estar enxergando brilho demais. Importante salientar que nossa vantagem (vantagem do futebol brasileiro em confronto com o europeu) não é tão grande assim (nos últimos cinco jogos contra equipes européias estamos à frente: 3 x 2). Será que o brilho nos deixa enxergar isso?
Mas como o assunto é futebol (e não “o brilho”), não posso deixar de escrever que o jogo, por ser jogo, é imprevisível; e jogar bem (que é diferente de dar espetáculo) não significa necessariamente ganhar (significa “somente” aumentar as chances).
E para quem ainda acredita que nossos bebês nascem fazendo gol, nada melhor do que intensificar as preces ou caprichar mais no “ato reprodutor”.
Para quem não acredita, melhor que os óculos escuros estejam sempre à disposição. Caso contrário, há sempre o risco de um brilho desavisado atrapalhar a visão…
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Fifa e seu próximo desafio
Como já comentei neste espaço algumas semanas atrás, o caso Bosman representou para a Fifa um grande (e desagradável) surpresa, uma vez que teve que reconhecer expressamente que não pode ficar à margem da justiça comum. Foi o primeiro grande caso em que uma decisão judicial (promovida pela ECJ – European Court of Justice) interferiu em seus negócios, dando liberdade aos jogadores desde que não tivessem contratos em vigor com os seus clubes.
Muito bem. Recentemente, tivemos uma decisão muito importante, e que deve, em nossa opinião, representar o próximo grande embate da Fifa, dessa vez com os os clubes de futebol.
A decisão a que me refiro, proferida administrativamente pela Fifa, deu mostras de que a entidade pretende ceder e auxiliar os clubes de futebol a serem ressarcidos pelo envio de seus jogadores às seleções nacionais de seus respectivos países.
De fato, foi celebrado um acordo entre Fifa e Uefa para que ambas juntem um total de US$ 252 mil para o pagamento das indenizações a clubes europeus. Esse acordo foi fruto de uma pressão em torno do caso Charlero/Albdelmajid. Atualmente em curso perante o Tribunal Arbitral do Esporte, o clube belga cobra da Fifa uma indenização pela contusão de seu jogador ocorrida enquanto ele defendia a seleção de Camarões.
O acordo firmado com a Uefa está longe de resolver o problema. Antes de mais nada, ainda restam ser definidos os critérios e as formas de pagamento desses valores. Mas, pior do que isso, ainda precisa ser definido como essa regra passará a valer em nos outros continentes.
Gostaria de analisar essa questão sob dois prismas. A questão de direito, e também a questão do desdobramento desse acordo na prática.
Em termos legais, essa é uma questão inserida em um contexto da especificidade do futebol como negócio. Sabemos que, a cada dia, o futebol se aproxima de um negócio como outro qualquer. Porém, existem peculiaridades que devem sempre ser respeitadas e relevadas para a tomada de determinadas decisões.
Jogadores de destaque representam hoje um grande patrimônio para os clubes. Eles custam caro, mas também podem gerar rendas fabulosas aos clubes. É nessa medida que os clubes não gostariam de serem ressarcidos por uma eventual desvalorização do jogador que atua por sua seleção. Aparentemente, um pleito legítimo.
Mas precisamos olhar por outro ângulo. Esses jogadores somente ganham notoriedade e passam a ser valorizados, quando atuam pela seleção nacional. Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, passou a ser conhecido não porque atuava no Grêmio, mas sim porque fez belíssimas atuações pela seleção brasileira.
Assim, entendemos que faz parte do “pacote” desses jogadores a participação nas seleções. Em outras palavras, é um risco que o clube deveria assumir. É uma situação bastante peculiar com relação ao esporte. Mas entendo haver elementos que sustentariam uma defesa da Fifa contra os clubes.
Porém, como a questão ganha contornos políticos (mais relevantes do que os jurídicos), acredito que a Fifa cederá, como aliás já o fez no acordo com a Uefa.
Com relação aos contornos práticos da questão, existe um grande problema nesse processo, no desdobramento em continentes como a África. Certamente a Confederação Africana de Futebol – CAF, não conseguirá suportar (ainda que com ajuda da Fifa) as indenizações que seriam devidas a grandes clubes como Barcelona, que possui em seu elenco o Camaronês Samuel Eto’o.
Haverá um grande impasse, não tenho a menor dúvida. E o grande receio é que, em uma provável interferência da justiça comum, haverá uma grande descapitalização da Fifa para atender aos interesses desses clubes.
A tendência é que os clubes comecem a se organizar para pleitear individualmente essas indenizações. E quando isso acontecer, a Fifa e as Confederações Continentais vão ter que se movimentar.
A partir daí, vamos ver qual é o lado mais fraco da corda.
E então essa discussão poderá representar o próximo caso emblemático da FIFA, depois do caso Bosman.
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Política de resultados
No fim do ano, pouco tempo depois de Adriano ter sido confirmado como reforço estrelar do São Paulo, os jornais de São Paulo estamparam em suas manchetes mais uma polêmica em que o jogador havia se metido, após sofrer um acidente de carro no Rio de Janeiro.
Em linhas gerais, todos diziam a mesma coisa. Adriano já começa o ano aprontando. São Paulo já vive primeira crise com Adriano. Polêmica volta a rondar a vida de Adriano.
Na última semana, após pouco mais de uma semana de trabalho, Adriano finalmente estreou com a camisa 10 tricolor. Contra o Guaratinguetá, fez os dois gols da magra vitória de virada do São Paulo. No dia seguinte, a capa não poderia ser outra:
“O Imperador está de volta!”.
Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno.
Adriano fez uma boa estréia, mas nada que surpreendesse. Da mesma forma que Alex Mineiro estreou no Palmeiras com dois gols contra o Sertãozinho. Assim como o Corinthians venceu bem o Guarani. Resultados e desempenhos absolutamente dentro do normal e que de maneira alguma podem revelar uma tendência do jogador ou do time para a temporada.
Afinal, Adriano e Alex Mineiro tiveram atuações medianas contra Rio Preto e Santos, respectivamente, e o Corinthians perdeu para o São Caetano no ABC.
Ou seja, nada de novo. Até mesmo no comportamento da imprensa, que a cada dia que passa se revela passional e dependente do resultado dentro das quatro linhas, tal qual o torcedor da arquibancada.
É impressionante como o jogador não pode ter oscilações na visão tacanha da cobertura jornalística. E o pior é que o fenômeno (não o Ronaldo, muito menos o bom Alexandre Pato) é mundial, vide o que os jornais da Itália mandaram de repórteres para Guaratinguetá!
O trabalho de Adriano no São Paulo é impossível de ser avaliado. Não existe, em nenhuma profissão, um empregado que em uma semana de trabalho já tenha obrigação de dar plenos resultados. O cara teve um bom começo, mas isso não significa que ele seja a solução daquela empresa.
Imagine se dentro das redações o ambiente de exigência fosse o mesmo do que os jornalistas impõem aos atletas, treinadores e dirigentes dentro das quatro linhas. Ia ter estagiário virando chefe numa semana e editor sendo demitido a cada erro produzido ou atraso na entrega do material…
A política de resultados da imprensa atrapalha o futebol. É ela quem faz o dirigente mal preparado ceder à tentação das análises emotivas e botar tudo a perder numa contratação, demissão, decisão, etc. Ou a imprensa mostra frieza e capacidade analítica no que faz, ou continuaremos a ter heróis e vilões a cada rodada, sem sair da superfície.
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Um “Serviço de Inteligência” é em geral um departamento de governo voltado para a defesa do “Estado” (de sua sociedade, poder e soberania). Seu trabalho se dá através da captação, interceptação e aquisição de informações que podem auxiliar em ações inteligentes que garantam maior eficácia e sucesso na atuação do próprio “Estado”. Alguns Serviços de Inteligência ficaram muito famosos através da indústria do cinema (exemplos disso são o Serviço de Inteligência dos Estados Unidos (a CIA) e o da antiga União Soviética (a KGB)).
Ter posse de certas informações é privilégio e obrigação que nenhuma nação pode abrir mão. Por isso, seja a Abin no Brasil, a CIA nos Estados Unidos, a Mossad em Israel, ou MI6 no Reino Unido, não há nos dias de hoje “Estado”, que ao buscar soberania, autonomia e ordem possa abrir mão de estruturar um Serviço de Inteligência.
E se a informação é importante aos Estados, também é para qualquer instituição em diversos e diferentes níveis de operação. E como não poderia deixar de ser, é crucial e determinante também no futebol (necessidade máxima!).
Mas será que as equipes, em especial no Brasil, estão preparadas para tal necessidade?
Será que estão estruturadas para coletar, interceptar e adquirir informações? (e mais: será que, antes mesmo de ter a informações, as equipes de futebol estão preparadas para receber tais informações?)
Bom, existe no futebol um discurso de que não mais é possível preparar estratégias para surpreender os adversários, pois “nesse mundo globalizado, com internet e transmissões de jogos e treinos ao vivo tudo se sabe”. No máximo um “treininho a portas fechadas” para ensaiar jogadas secretas.
É por isso que no futebol, antes mesmo de se pensar em um “Serviço Futebolístico de Inteligência” é preciso encontrar pessoas inteligentes (que vão atuar no campo, nos vestiários, no departamento de finanças, marketing, etc.) para saber quais informações buscar e como aproveitá-las de maneira, digamos, inteligente (e como a inteligência é algo circunstancial, ainda tenho esperanças…).
Não adianta ter a CIA a disposição se não houver capacidade de entender que informação é “inteligência” e não “produção de relatórios coloridos impressos para serem deixados sobre a mesa” – algo comum, e que talvez só perca para a pequena confusão que se faz entre serviço de inteligência (ou informação) com serviço de informática – fico só imaginando; ao invés de Agência Central de Inteligência (CIA), “Agência Central de Informática”, ou ao invés de Agência Brasileira de Inteligência (Abin), “Agência Brasileira de Informática”. É só ter alguns computadores sobre a mesa, uma impressora e telefone que logo o que deveria ser serviço de inteligência e informação se transforma, aos olhares desavisados, em serviço de informática.
Nada contra a informática, pelo contrário, mas confundir uma coisa com a outra é a mesma coisa de apertar parafuso com o dedo e rosquear botão de “power” com chave de fenda.
Interessante como o mundo evolui e o futebol, sob algumas perspectivas, teima em não acompanhar (“a gente tá na lanterna, do tempo que virá”). É claro que isso não cabe para todo mundo. Mas como poucos entendem realmente porque essa ou aquela equipe vence, ou porque esse ou aquele projeto dá certo, cada vez mais quem vence e dá certo vencerá mais e dará mais certo. Quando os outros acordarem, já terão levado embora a mesa do café da manhã e do almoço.
Muitas são as informações que em diversas esferas podem colaborar para o sucesso de uma equipe dentro de campo (e fora também).
Imaginemos por exemplo, um treinador, que ao entrar em campo sabe detalhes longitudinais de avaliações físico-técnico-táticas-mentais dos jogadores adversários, seus históricos e características; imaginemos a possibilidade de que seus jogadores possam conhecer exatamente o perfil do árbitro responsável pela partida, suas características, comportamento e padrões, e a partir disso definir certas estratégias de atuação; imaginemos que ele (o treinador) possa quase que prever quais serão as condutas do treinador adversário de acordo com cada situação do jogo, decisões e alterações; e que ele (o treinador) ainda conheça tudo sobre o ambiente do jogo e saiba exatamente o que dizer nas entrevistas pré e pós partida, de maneira planejada, e de forma que isso possa se reverter a favor de sua equipe. Quanto amplificadas ficariam as chances de vencer?
Seja qual for a esfera; do Gerente Executivo na sala de administração de um departamento profissional ao jogador de futebol dentro do campo, a informação privilegiada é fator determinante do êxito ou do fracasso.
Hoje, o VENCER o jogo dentro de campo taticamente começa fora do campo, com inteligência, com informações que “evitem tiros e economizem balas pegando o bandido antes dele agir”.
E para não parecer apenas um devaneio, posso dizer que os Serviços de Inteligência no futebol já existem (ainda que sejam pouquíssimos). E com maior ou menor competência e “inteligência” têm colaborado para que os êxitos de algumas equipes nas competições e na sua saúde financeira não sejam “anarquias do acaso”.
UMA DEIXA
Tive o privilégio de acompanhar de perto o trabalho do mais competente, inteligente e criativo Serviço de Inteligência voltado para o futebol que existe no Brasil (não tenho dúvidas que em breve será o mais completo e inteligente dentre todos de todos os continentes, com um banco de informações fabuloso – não estou exagerando – será o MI6 do futebol). Logo vamos ouvir falar dele.
Porém, por enquanto, como todo Serviço de Inteligência que se preze, faz um trabalho quase secreto (e também por enquanto, vai ficar assim).
Como está no futebol, obviamente, com freqüência é confundido com serviço de informática. Mas como ressaltam os “agentes” “Dyandrady”, “O B
ald” e “Sugarfree” (do mencionado Serviço de Inteligência), faz parte da estratégia permitir essa “confusão”.
ald” e “Sugarfree” (do mencionado Serviço de Inteligência), faz parte da estratégia permitir essa “confusão”.
É que no final eles sabem que o que precisam mesmo, é repassar a informação para quem pode recebê-la. E quem pode sabe bem a diferença entre o que é importante e o que é relevante, entre o que é prioridade e o que é emergencial, entre inteligência e informática.
Então como canta Lulu Santos; “Olha meu bem o céu; Vê quanta luz, quanta estrela; Quase todas mortas; Só não é chegado para nós o tempo que se apagarão; A gente tá na lanterna, do tempo que virá”.
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A Timemania e a isonomia dos clubes
Como já é de amplo conhecimento dos leitores da Universidade do Futebol, este ano está previsto o lançamento da loteria federal conhecida como Timemania, que auxiliará, dentre outras coisas, os clubes de futebol a saldarem suas dívidas com a Receita Federal, INSS e FGTS.
Como também já explicamos anteriormente, de acordo com o Decreto n. 6.187/07, determinados clubes foram escolhidos com base em um critério objetivo criado pelo Governo Federal para que cedessem suas imagens, logo, hino, etc, ao governo, em troca de percentual na arrecadação da loteria.
Também foi facultado aos clubes parcelarem suas dívidas com aquelas autoridades públicas (Receita, FGTS e INSS) em até 240 meses, o que possibilitaria a obtenção das necessárias Certidões Negativas (ou positivas com efeito de negativas).
Diante desse cenário, tivemos a oportunidade de opinar acerca da possibilidade de outras agremiações terem acesso à Timemania, além daquelas já elencadas no Decreto.
Entendemos que, pelo princípio da isonomia, os clubes poderiam pleitear eventual possibilidade de parcelamento de suas dívidas da mesma forma que os clubes elencados pelo Governo Federal. A princípio não existe diferença suficiente entre o grupo de clubes da Timemania e os demais clubes brasileiros que permitissem o Governo de realizar essa distinção.
Ressalte-se que, em nossa opinião, uma vez tendo sido estabelecido o critério, os demais não teriam o direito de participar da loteria, mas, tão somente, do benefício do parcelamento de débitos previsto no decreto em questão.
Aliado a essa opinião legal, transmito também minha discordância com o critério estabelecido pelo Governo. Nitidamente, a escolha foi feita de forma que os clubes que possuissem mais dívidas (aqueles tradicionais) fosse incluídos, não beneficiando, portanto, aqueles novos clubes, organizados, e com suas contas em dia.
De toda forma, em termos legais, temos que os clubes que não preenchem os requisitos legais, não teriam efetivamente chances de participar do concurso.
Essa semana, foi noticiado na mídia um caso envolvendo o Brasil de Pelotas que, aparentemente, teria pleiteado em juízo a inclusão na Timemania sem preencher os requisitos legais.
Em sede de liminar, o Superior Tribunal de Justiça indeferiu o pedido do clube. Segundo foi veiculado, o STJ, na pessoa do Ministro Raphael de Barros Monteiro Filho, não entendeu que existiam os pressupostos para a concessão da liminar. A linha de argumentação do ministro, bem como o exato pedido do clube gaúcho, entretanto, não foram divulgadas.
Caso o clube tenha pedido a inclusão do clube no prognóstico, temos nossa opinião confirmada pelo STJ. Resta saber se o clube também pedirá, de forma alternativa, a inclusão no benefício do parcelamento, e qual será o posicionamento do Judiciário.
Temos que acompanhar com atenção esse desenrolar, para informar aos nossos leitores as tendências de nossos tribunais com relação a essa questão.
Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br