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Nova polêmica no futebol carioca

De acordo com a mídia esportiva carioca, o Rio de Janeiro vive uma nova polêmica em seu futebol. Mais uma vez, a figura principal nesse caso é o folclórico dirigente do Vasco da Gama, Eurico Miranda.
 
Trata-se da questão envolvendo o jogador Conca, contratado pelo Fluminense para a temporada de 2008 e que, segundo Miranda, estaria atuando de forma irregular por não ter retornado à Argentina e, consequentemente, não ter renovado propriamente seu visto de trabalho.
 
Para situar o nosso leitor da Universidade do Futebol, é comum em casos de renovação de visto de trabalho na transferência de um atleta estrangeiro de um clube ao outro no Brasil, que o atleta retorne ao seu país nesse ínterim.
 
O tema envolvendo a concessão de visto de trabalho a jogadores de futebol estrangeiro no Brasil, que antes era tratado dentre os casos gerais de concessão de visto, foi regulamentado de forma específica pelo Conselho Nacional de Imigração do Ministério do Trabalho recentemente.
 
De acordo com a Resolução Normativa n 76, de 3 de maio de 2007, um dos requisitos para que o Ministério do Trabalho conceda o visto de trabalho ao atleta profissional de futebol é que haja o compromisso de repatriação do jogador chamado, bem como de seus dependentes, ao final de sua estada.
 
Pois bem. Após tal legislação, a questão passa a ser interpretativa. O que devemos considerar como “final da estada” do empregado, ou, nesse caso, do jogador? A estada poderia ser tanto cada um dos trabalhos no país, como também o período integral que ele aqui permanecer, após todas as transferências de clube para clube.
 
A tendência é sempre pela flexibilização de normas que visem apenas burocratizar situações corriqueiras. Em outras palavras, em nossa opinião, a exigência de que, a cada transferência o jogador retorne ao seu país, para novo ingresso no Brasil, não faz sentido do ponto de vista prático (mesmo porque esse trânsito pode ser conduzido perfeitamente através de atividades consulares em conjunto com o CNIg).
 
Nos países integrantes do Mercosul, essa exigência teria ainda menos sentido.
 
A flexibilização aqui proposta já teve início por conta dos Jogos Panamericanos, em que o Ministério do Trabalho relativizou a concessão de vistos de trabalho e a sua renovação a atletas participantes daquela competição.
 
Retornando ao caso do argentino Conca, sabemos que a polêmica patrocinada por Eurico Miranda também tem outra motivação, uma vez que o Vasco alega ainda ter algumas pendências a resolver com relação à sua liberação.
 
De toda forma, a polêmica é simples de ser resolvida. Basta que seja verificado o visto de trabalho do jogador, para saber se as exigências impostas pelo Conselho Nacional de Imigração foram cumpridas pelo Fluminense (que podem variar conforme a situação específica do jogador).

A questão objetiva de que o jogador teria que retornar ao seu país, por si só, não é relevante, caso essa não tenha sido um dos requisitos impostos a ele pelas autoridades competentes.
 
Mas essa verificação caberia apenas a uma fiscalização por parte das autoridades brasileiras, tal qual deveria ser feita com todos os demais trabalhadores estrangeiros atuando no nosso Brasil.
 

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Tudo muda o tempo todo

Acho que eu já disse mais de uma vez aqui que a indústria do futebol como conhecemos poderia mudar. Disse isso com o caso do Charleroi, com a eleição do Platini, com o discurso do 6+5 do Blatter, com o manual de licenciamento da Uefa, com a proposta de compra do Liverpool pelos seus torcedores, e uma imensidão de outras vezes. Nenhuma delas, porém, deve ter tamanha importância no contexto da indústria do que o caso que eu vou te contar agora.
 
Ok, o 6+5 do Blatter foi aprovado pela Comissão de Futebol da Fifa e deve ter algumas repercussões positivas e negativas, mas ainda há de ser aprovado em outros níveis para começar a valer. O caso que já foi aprovado pelo CAS, o tribunal arbitral do esporte, e que deve causar uma revolução no mercado foi o Caso Webster, um caso que só pode ser comparado em importância com o Caso Bosman, que aconteceu mais de uma década atrás.
 
Resumidamente, o defensor escocês Andrew Neil Webster mudou de clube, do Hearts da Escócia para o Wigan da Inglaterra. O Hearts queria receber o valor da rescisão do contrato, que estava estipulada em 4,6 milhões de libras. O Wigan disse que não ia pagar a rescisão, coisa que o CAS deu razão ao clube, porque ano passado a Fifa resolveu fazer um carinho na Comissão Européia e aprovou um compromisso, conhecido como Regulamento 17, que dizia que um jogador pode se transferir de clube ao pagar o montante restante de salários quando faltarem dois anos para vencer o seu contrato, mediante a um aviso prévio de 15 dias no fim da temporada. Com isso, ao invés dos 4,6 milhões de libras, o Wigan vai pagar ao Hearts apenas 150 mil libras, um trigésimo do valor requisitado.
 
Com esse precedente, clubes perdem ainda mais poder de retenção do contrato de jogadores. A idéia por trás disso é adequar a condição trabalhista de um jogador de futebol à condição de um outro trabalhador comum. Segue, portanto, a tendência já demonstrada pelo caso Bosman de dar mais poder ao jogador do que ao clube, além – é claro – de minar ainda mais o mercado de transferências. Em uma projeção feita pelo jornal inglês The Independent, grandes estrelas do futebol inglês, como Cristiano Ronaldo e Cesc Fabregas, poderão se transferir em 2010 por apenas 12 milhões de libras, o mesmo valor pago pelo Middlesbrough por Afonso Alves.
 
Com a indústria do futebol dando uma importância cada vez maior para o mercado de transferências, é certo que essa medida vai mudar as coisas um tanto. Os salários dos principais jogadores devem ficar cada vez maiores, o valor de transferência potencialmente menor e os contratos sendo renovados com mais freqüência.
 
Com menores valores de transferência, menos investidores terão interesse em participar dos direitos econômicos de atletas, o que pode eventualmente minar uma potencial fonte de receita de clubes brasileiros. Com isso, clubes formadores devem ter seu percentual de receita reduzido, o que pode acabar com uma série de projetos que estão sendo desenvolvidos atualmente no Brasil.
 
Ainda é muito cedo para dizer ao certo quais serão as conseqüências do Caso Webster para a indústria do futebol brasileiro e mundial. Mas que vai mudar, agora vai.
 

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Muda o canal!

“O time não jogou bem”. “Não conseguimos fazer o que o treinador pediu”. “Faltou planejamento para a temporada”. “Cheguei para somar a uma grande equipe”. Se você acha que apenas o futebol brasileiro tem de conviver com esses jargões que falam tudo e não dizem nada, fique tranqüilo.
 
A praga das entrevistas evasivas não respeita nem mesmo os Estados Unidos, em que o desenvolvimento do esporte como negócio é tamanho que o país é tido como o exemplo a ser seguido no mundo todo.
 
Nos EUA, a gestão de carreira de atletas é tão evoluída a ponto de Hollywood usá-la como tema central em filmes. Mas, mesmo assim, quando a câmera acende e o microfone é ligado, tudo se parece tal como cá.
 
Estive na última semana numa viagem para Portland, cidade que abriga a sede da Nike, a toda-poderosa fabricante de material esportivo. Mais impressionante do que a enorme distância que separa o Brasil dessa cidade no estado de Oregon foi constatar a mesmice da cobertura esportiva na TV.
 
Sim, o astro do time de basquete diz o mesmo que o Finazzi depois do jogo do Corinthians. E o comentarista na TV fala as mesmas abobrinhas que o colega tupiniquim. O árbitro errou ou acertou, se aquela bola tivesse entrado, se no início da temporada o presidente do clube estivesse atento ao planejamento, se todos não fossem tão amadores…
 
Enfim, nada muda. A não ser a bola. Ela deixa de ser redonda e se torna oval.
 
Na semana do Superbowl, a superfinal do futebol americano, os jornais mal falam de outra coisa, a TV parece que não tem tempo de pensar em outro esporte…
 
E, tal como cá, a overdose de informação leva à bestificação coletiva. Nos EUA a mesa-redonda não é uma regra. Mas a fórmula “apresentador-comentarista”, tão decantada pela ESPN aqui no Brasil, parece ser a via de regra na terra do Tio Sam. Nem mesmo o calhamaço de estatísticas sobre atletas consegue fazer a discussão mais interessante.
 
Antes do Superbowl, a dúvida em todo o território americano era sobre Tom Brady. Será que o bonitão craque do New England Patriots e namorado da Gisele Bündchen, não necessariamente nessa ordem, estaria apto para disputar a decisão contra o surpreendente Giants e assegurar a inédita conquista invicta?
 
De fato ninguém sabia, mas todos se deliciavam em comentar sobre isso. Aliás, gostavam tanto que a decisão foi a mesma de todos os domingos à noite: desligar a televisão.
 

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Ganhar o jogo ou jogar bem?

O que significa jogar bem?
 
Muitos de nós, acostumados com os “jargões do futebol” responderia que jogar bem significa “jogar bonito”, “dar espetáculo”.

Rotineiramente é possível que nos deparemos com discussões em torno do tema. Seja para defender o “futebol espetáculo”, seja para alardear que o importante é ganhar o jogo e não jogar bonito, é comum que tais discussões sirvam de “camuflagem” para direcionar ou justificar direções tomadas que levaram a esse ou a aquele resultado em um jogo.

Tradicionalmente tomamos como sinônimo o “BEM” do jogar, com o “ESPETÁCULO” do futebol.

Façamos algumas reflexões.

Toda vez que é enunciada a palavra jogo, é comum que nosso pensamento seja remetido aos “jogos” que são assim chamados, porque assim popularmente são conhecidos. Sem que nos aprofundemos no tema, destaco que existem na Ciência áreas que estudam o “Jogo” como elemento complexo de um “complexo sistema” – transcendendo aquilo que é comumente tido ou conhecido como jogo.

O jogo, por ser jogo, é imprevisível. Ele possui uma lógica interna que lhe diz respeito. Dominar a lógica do jogo é um passo adiante no caminho da compreensão das variáveis que o envolvem.

Porém, temos aí um grande paradoxo, que repercute diretamente nas táticas e estratégias empregadas em partidas de futebol. Se dominar a lógica do jogo significa conhecer e dominar mais (e melhor) as variáveis do jogo, então quanto mais próximo do domínio de sua lógica e de suas variáveis, mais “previsível” estaria se tornando o próprio jogo. Como ele (o jogo) é imprevisível, aproximar-se da previsibilidade representaria distanciar-se do jogo.

Se as coisas fossem exatamente assim, transferindo ao futebol, seria como, se dominar as variáveis do jogo garantisse sempre a vitória, de tal forma que os resultados das partidas fossem “previsíveis” ao seu início.

Obviamente, o futebol é um jogo de grande complexidade e enorme número de variáveis interferentes. Buscar entender e dominar a lógica neste caso significa tentar controlar o maior número de variáveis possível (e controlar o maior número de variáveis possível não significa garantir a vitória no jogo).

A imprevisibilidade está no jogo. Portanto buscar a previsibilidade deve ser uma forma de torná-lo menos imprevisível, e não mais previsível.

Como o jogo não vai deixar de ser jogo, haverá sempre algo imponderável que garanta sua identidade. Então, no paradoxo que fora apontado anteriormente o erro está em acreditar que o domínio das variáveis e lógica do jogo o tornará previsível. Dominar as variáveis e lógica do jogo significa compreender a imprevisibilidade como elemento inerente ao jogo.

E aí, volto à questão inicial desse texto: o que significa jogar bem?

Diferente do que comumente se aponta, o significado do “jogar bem” deveria estar associado ao domínio das variáveis do jogo. Em outras palavras, o bom jogador é aquele que compreende o jogo, interage bem com ele, e assim joga bem.

Jogar bem, não é jogar bonito (ainda que uma coisa não elimine a outra). Jogar bem é dominar e compreender bem a lógica e as variáveis do jogo; e no caso de uma equipe de futebol isso deve ser ampliado ao contexto da equipe e não somente do jogador de forma individual.

No futebol, ter domínio sobre a lógica do jogo transcende o “eu jogador” e mergulha no “nós jogadores-equipe”.

Então, nessa perspectiva sobre o jogar bem, o grande apontamento é que “jogar bem não garantirá a vitória no jogo, porém maximizará as chances para que isso aconteça”.

Portanto, a antena dos treinadores e especialistas do futebol deve estar ligada e atenta a isso. Com raras exceções, é comum treinos técnico-táticos-físicos que caminham na direção errada. Ao invés de se buscar diminuir a imprevisibilidade, busca-se tornar o jogo previsível. Ao invés de se preparar atletas para entender o jogo, busca-se “programar” homens-máquinas (tutelados como sempre e cerceados do direito-dever de pensar).

E aí meus amigos, o de sempre. Alguns vão continuar perdendo sem saber porque perdem, fazendo “gambiarras” na direção errada. Outros vão continuar ganhando também sem saber porque (e quando perderem não saberão o que fazer).

Certo mesmo é que todos vão ter que abrir os olhos para perceber que alguns poucos ganham sempre. E que continuar acreditando que isso é sorte, é o mesmo que ficar sentado na poltrona da sala contando as horas para “o mundo passar”.

DIAGNÓSTICO

E para aqueles que acreditam na sorte e precisam abrir o olho, abram rápido para o trabalho realizado nas categorias de base do Figueirense.

Observando a média distância a equipe sub-17 e de longe a equipe que disputou a Copa São Paulo Jr em 2008 não tenho dúvidas: o trabalho que lá vem sendo realizado é diferenciado. E não se trata aqui apenas de títulos (isso é conseqüência). Falo aqui de observações e condutas em jogos (de jogadores e comissão técnica), e de comportamentos e estratégias (enfim, planejamento!).

Parabéns ao Figueirense.

E para aqueles que estão começando a abrir os olhos: olho no SUB-17 deles…

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Leia também:
 

Entrevista com João Batista “Abelha”, superintendente técnico das categorias de base do Figueirense

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Fim da janela de transferências internacionais

Caros leitores,
 
Ontem encerrou mais uma janela de transferências de jogadores na Europa, e em vários outros países de outros continentes. Para o mercado brasileiro, náo foi uma janela muito movimentada.
 
Alguns nomes esperados, como o atacante Josiel, artilheiro do Campeonato Brasileiro, e Breno, zagueiro revelação da competição, deram adeus à nossa liga doméstica. Outras tantas promessas e nomes certos a serem transferidos, no entanto, permaneceram, tais como o meia Valdívia, do Palmeiras.
 
Na realidade, e como todos nós sabemos, a janela mais importante é a do meio do ano, em que os clubes europeus procuram reorganizar suas equipes findas as suas temporadas.
 
Do ponto de vista legal, ou, ao menos, regulatório, é importante mencionar que essa janela foi criada para proteger os clubes dos assédios a jogadores que clubes e empresários faziam ao longo das temporadas.
 
Impondo essas duas janelas por ano para cada federação nacional, a Fifa consegue evitar que times sejam prejudicados com transferências indesejadas e não planejadas.
 
Por outro lado, a contratação de jogadores não fica absolutamente impedida pelos clubes ao longo da temporada.

De acordo com os regulamentos da Fifa, jogadores livres (em outras palavras, jogadores que tiveram seus contratos de trabalho expirados e não renovados com seus clubes) podem ser contratados fora das janelas.
 
O mesmo acontece com aqueles jogadores que tiveram seus contratos rescindidos por acordo de ambas as partes durante o período da janela. Para esses casos, a Fifa considera tais atletas jogadores passíveis de assinarem contratos de trabalho durante a temporada.
 
A única precaução, para essas exceções, é que os clubes deverão observar os regulamentos das competições que disputam, de modo a ponderar uma contratação no curso da competição. Muitas vezes tais regulamentos vedam a inclusão de novos jogadores, ainda que permitida sua contratação pela Fifa.
 
Enfim, agora vamos acompanhar a evolução de nossos jogadores no exterior, e desejar sucesso a eles. Afinal de contas, somos os melhores do mundo e temos mostrado isso com o sucesso de nossos atletas.
 
E somos melhores do mundo também em carnaval.
 
Bom feriado a todos.
 

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Você nunca andará sozinho

Um grupo de torcedores do Liverpool irá apresentar ainda hoje (quinta) uma proposta para comprar o clube.
 
Como todos sabem, clubes de futebol na Inglaterra são instituições de capital privado e possuem donos. E os donos, que afinal são donos, fazem o que bem entendem com aquilo que eles possuem. No caso, donos de clubes de futebol fazem o que bem entendem com clubes de futebol. Para ser dono de um clube de futebol inglês, porém, é preciso bastante dinheiro, e geralmente quem investe tanto para adquirir um clube quer ganhar ou mais dinheiro, ou o público que acompanha o clube.
 
Em alguns casos, é evidente a intenção do dono em adquirir um clube como forma de melhorar sua imagem. Os casos mais notáveis são o do Abramovich com o Chelsea e o do Shinawatra com o Manchester City. Ambos são cheios da grana e não precisam de mais dinheiro, mas precisam – e muito – conquistar o apreço de outros seres humanos de bom coração, afinal ambos são acusados de diversas atrocidades em seus países de origem. Para tanto, mudam-se para a Inglaterra, levam seu dinheiro e compram um clube de futebol. Dessa forma, criam uma legião de seguidores e conseguem, de certa, forma, fazer com que sua notoriedade diminua a possibilidade de ataques contra a sua honra e, principalmente, contra a sua vida.
 
Em outros casos, notadamente o dos norte-americanos, a idéia de comprar o clube é ganhar dinheiro, seja em cima do torcedor, da televisão, ou de uma futura revenda. E os americanos têm apostado bastante nisso, como mostram os Glazers e o Manchester United, Lerner e o Aston Villa, Hicks e Gillett e o Liverpool, e a recém acordada compra do Derby County pela GSE.
 
Obviamente que um processo como esse último sempre gera uma certa rejeição. Afinal, a aquisição de um clube de futebol por algum investidor em geral significa preços de ingressos e de produtos inflacionados e exclusão dos torcedores das camadas mais baixas da população. E quando um investidor compra um clube, não faz muitas contratações de peso, não consegue ajeitar o time e começa a brigar com o técnico que é amado pela torcida, aí a rejeição estoura.
 
Foi o que aconteceu com o Liverpool, Hicks, Gillett e Benítez.
 
Quando começaram a surgir boatos de que os novos donos do clube pensavam em trocar de treinador, a torcida ficou do lado mais fraco, e muitos torcedores de longa-data anunciaram que deixariam de ir às partidas e de comprar os pacotes para a temporada caso o espanhol deixasse o clube. Os novos donos foram ameaçados pelos seus consumidores com um boicote econômico. Obviamente, daí para a frente, a situação só piorou.
 
E agora o conflito chegou ao clímax. Às cinco horas inglesas da tarde de hoje, tradicional hora do chá – ainda que essa seja uma tradição falaciosa, um grupo de torcedores anunciará a intenção de comprar o Liverpool, e transforma-lo em um clube propriamente dito, de propriedade de seus associados. Espelham-se em clubes da Espanha, principalmente Real Madrid e Barcelona, e em clubes da Alemanha. A idéia do grupo chamado de “Share Liverpool FC” é conseguir 100.000 sócios e levantar 500 milhões de libras, algo em torno de 2 bilhões de reais, para comprar o clube e construir um estádio.
 
Caso consigam, poderá ser iniciado um novo processo de aquisições de clubes por torcedores, o que mudará significativamente o processo comercial desses clubes, resultando numa completa transformação da indústria como um todo, inclusive do Brasil.
 

Se isso vai acontecer ou não, já é outra história. Mas que pode, pode. E vai depender muito do sucesso dos torcedores do Liverpool. Talvez não seja a coisa mais ideal do mundo apostar no sucesso do time atual em uma partida, afinal o clube não anda muito bem das pernas em campo. Mas se for pra apostar na força da sua torcida, aí sim é possível colocar algumas fichas na mesa.

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Quem tem rádio é rei

Matéria nesta Cidade do Futebol da última sexta-feira dá conta do enrosco em que se meteu o futebol catarinense. A associação das emissoras de rádio está na Justiça para ter os direitos de transmitir, sem qualquer contrapartida, os jogos do Estadual (veja mais aqui).
 
O resultado final está longe de sair e provavelmente só acontecerá depois que o campeão catarinense tiver sido decidido. E do jeito que é Justiça, talvez seja o campeão de 2010… Mas o fato é simples: os clubes começaram a acordar para um problema grave de ausência de receita.
 
A popularização do futebol no Brasil aconteceu nos anos 30 e 40 graças às ondas do rádio, que levavam aos torcedores a emoção do campo para dentro do lar. Só que foi exatamente por conta dessa origem da transmissão do esporte que o futebol hoje vive um de seus maiores problemas.
 
Quando folclóricos narradores, comentaristas e repórteres de campo tinham de subir no telhado de casas para poder narrar os jogos aos ouvintes, obtínhamos excelentes histórias para contar. Só que, ao cederem à insistência dos empresários da comunicação, os clubes criaram um monstro.
 
As rádios encontraram o caminho para a audiência e, conseqüentemente, para o faturamento publicitário, a partir da transmissão do futebol. Os clubes, no início, tentaram coibir o ganho elevado de dinheiro das emissoras proibindo-as de transmitir as partidas. O receio, à época, era perder dinheiro com a bilheteria. Quando perceberam, porém, que o público ia ao estádio mesmo com o jogo transmitido pelas ondas do rádio, os dirigentes baixaram a guarda. E aí que começou o problema.
 
Hoje, com o recurso da televisão, nem mesmo ir a uma partida é necessário. As narrações acontecem de dentro de um estúdio, ou até mesmo da sala da casa. Outro dia, aliás, em plenas férias do futebol no Brasil, o Real Madrid de Robinho era irradiado pelas ondas da AM paulistana.
 
A maior fonte de receita da Fifa na atualidade é a venda dos direitos de transmissão de seus eventos, em especial a Copa do Mundo. São quase US$ 2 bilhões em receita com a venda para mais de 200 países. Só que os direitos não se limitam à televisão. A rádio paga, e muito, para poder exibir ao vivo os 64 jogos do Mundial. E não chia.
 
Por que as rádios brasileiras continuam achando que é possível transmitir o futebol sem ter de pagar por isso? Os clubes ainda querem apenas como troca espaço na poderosa mídia da rádio. Mas nem isso os empresários parecem dispostos a ceder.
 
Só que, o que as emissoras não percebem, é que cada vez mais os clubes acordam para o aumento na fonte de receitas e nas estratégias de marketing para arregimentar torcedores e, a partir disso, dinheiro.
 

Na terra de cego, quem tem uma rádio é rei. Por enquanto.

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Futebol brasileiro ou europeu?

Dia desses me perguntaram por que eu gosto tanto de falar sobre o futebol inglês e italiano, suas peculiaridades táticas e modelos de jogo e por que insisto em dar exemplos de equipes européias como referências para determinado aspecto da complexidade do jogo. As indagações vieram seguidas da afirmação de que as equipes brasileiras têm levado vantagem sobre as equipes européias nos últimos anos em jogos internacionais (e que, portanto, o futebol brasileiro é melhor tecnicamente e taticamente do que o europeu – vide e acrescente na argumentação o número de títulos mundiais da seleção brasileira).
 
Vivemos no “país do futebol”. E se isso é verdadeiro, é verdade também que nossas crianças tendem a nascer com o “dom para a coisa” (já nascem sabendo jogar).
 
Que pretensão! Deus realmente deve ter criado um selo especial para isso – fico só imaginado o Todo Poderoso na linha de produção (digo na fila de pessoas a nascer) dizendo: É brasileiro? Selo amarelo nos pés… Próximo…
 
Obviamente, ninguém nasce sabendo jogar futebol; assim como ninguém nasce sabendo sambar ou falar português. Falar português, sambar e jogar futebol são habilidades adquiridas no ambiente em que se vive. Não nascemos com maior tendência a falar português, sambar ou jogar futebol porque a dádiva natural do nascimento ocorreu em terras brasileiras. Claro, ao nascer aqui (ou não), sofrendo influência das “ocorrências” do meio daqui, estaremos adquirindo a cultura DAQUI!
 
Estranho ou trivial?
 
A menos que realmente acreditemos que o samba, o nosso idioma e/ou o futebol sejam obras divinas. Aí teremos obrigação de crer na teoria de que nós brasileiros já nascemos jogando futebol e que o Todo Poderoso, com tantas preocupações; duzentos e tantos países para cuidar, guerras, doenças… Ainda tem de atribuir habilidades para jogar futebol, dançar samba (tango, salsa, flamenco!?), cuidar de cada idioma a ser falado, sem nos esquecer ainda dos pedidos emergenciais dos nossos seres bons humanos…
 
O fato é que, por vezes, cegados pelo brilho de nossas crenças, nos tornamos incapazes de ver além do comum.
 
Certamente o futebol brasileiro tem coisas a ensinar taticamente. A questão é que vivemos no Brasil um paradigma diferente daquele que alguns países europeus tomam para seguir. Não porque ultrapassamos o paradigma alheio e já vivemos outro momento. Muito pelo contrário.
 
A questão aqui é que a maior parte dos treinadores e “especialistas” do futebol ainda vêem o jogo em fragmentos, atentando ao jogador fora do contexto coletivo da equipe. É como se para mudar uma tendência, corrigir um problema ou acentuar um desequilíbrio vantajoso em um jogo, a melhor e única solução estivesse sempre atrelada a substituição de um jogador que não está a render satisfatoriamente, e colocar em seu lugar outro que, quiçá, poderá ter desempenho melhor.
 
E como o jogador é parte do todo (que é a equipe), espera-se que a intervenção no “pedaço” resulte em grandiosas e positivas transformações no “bolo” (o todo).
 
Não que na Europa tenhamos o modelo “ideal”, o exemplo a ser seguido. Mas existem lá focos de outra visão sobre o jogo, sistêmica, que leva em conta a complexidade do futebol e que compreende que qualquer alteração em qualquer variável do sistema pode gerar amplificadas e transformadoras respostas no todo (e que portanto, não é necessariamente a substituição de um jogador a solução para os problemas).
 
E se é fato que o brilho de nossas crenças pode nos cegar, posso eu, ao invés de não estar vendo, estar enxergando brilho demais. Importante salientar que nossa vantagem (vantagem do futebol brasileiro em confronto com o europeu) não é tão grande assim (nos últimos cinco jogos contra equipes européias estamos à frente: 3 x 2). Será que o brilho nos deixa enxergar isso?
 
Mas como o assunto é futebol (e não “o brilho”), não posso deixar de escrever que o jogo, por ser jogo, é imprevisível; e jogar bem (que é diferente de dar espetáculo) não significa necessariamente ganhar (significa “somente” aumentar as chances).
 
E para quem ainda acredita que nossos bebês nascem fazendo gol, nada melhor do que intensificar as preces ou caprichar mais no “ato reprodutor”.
 
Para quem não acredita, melhor que os óculos escuros estejam sempre à disposição. Caso contrário, há sempre o risco de um brilho desavisado atrapalhar a visão…

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Fifa e seu próximo desafio

Como já comentei neste espaço algumas semanas atrás, o caso Bosman representou para a Fifa um grande (e desagradável) surpresa, uma vez que teve que reconhecer expressamente que não pode ficar à margem da justiça comum. Foi o primeiro grande caso em que uma decisão judicial (promovida pela ECJ – European Court of Justice) interferiu em seus negócios, dando liberdade aos jogadores desde que não tivessem contratos em vigor com os seus clubes.
 
Muito bem. Recentemente, tivemos uma decisão muito importante, e que deve, em nossa opinião, representar o próximo grande embate da Fifa, dessa vez com os os clubes de futebol.
 
A decisão a que me refiro, proferida administrativamente pela Fifa, deu mostras de que a entidade pretende ceder e auxiliar os clubes de futebol a serem ressarcidos pelo envio de seus jogadores às seleções nacionais de seus respectivos países.
 
De fato, foi celebrado um acordo entre Fifa e Uefa para que ambas juntem um total de US$ 252 mil para o pagamento das indenizações a clubes europeus. Esse acordo foi fruto de uma pressão em torno do caso Charlero/Albdelmajid. Atualmente em curso perante o Tribunal Arbitral do Esporte, o clube belga cobra da Fifa uma indenização pela contusão de seu jogador ocorrida enquanto ele defendia a seleção de Camarões.
 
O acordo firmado com a Uefa está longe de resolver o problema. Antes de mais nada, ainda restam ser definidos os critérios e as formas de pagamento desses valores. Mas, pior do que isso, ainda precisa ser definido como essa regra passará a valer em nos outros continentes.
 
Gostaria de analisar essa questão sob dois prismas. A questão de direito, e também a questão do desdobramento desse acordo na prática.
 
Em termos legais, essa é uma questão inserida em um contexto da especificidade do futebol como negócio. Sabemos que, a cada dia, o futebol se aproxima de um negócio como outro qualquer. Porém, existem peculiaridades que devem sempre ser respeitadas e relevadas para a tomada de determinadas decisões.
 
Jogadores de destaque representam hoje um grande patrimônio para os clubes. Eles custam caro, mas também podem gerar rendas fabulosas aos clubes. É nessa medida que os clubes não gostariam de serem ressarcidos por uma eventual desvalorização do jogador que atua por sua seleção. Aparentemente, um pleito legítimo.
 
Mas precisamos olhar por outro ângulo. Esses jogadores somente ganham notoriedade e passam a ser valorizados, quando atuam pela seleção nacional. Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, passou a ser conhecido não porque atuava no Grêmio, mas sim porque fez belíssimas atuações pela seleção brasileira.
 
Assim, entendemos que faz parte do “pacote” desses jogadores a participação nas seleções. Em outras palavras, é um risco que o clube deveria assumir. É uma situação bastante peculiar com relação ao esporte. Mas entendo haver elementos que sustentariam uma defesa da Fifa contra os clubes.
 
Porém, como a questão ganha contornos políticos (mais relevantes do que os jurídicos), acredito que a Fifa cederá, como aliás já o fez no acordo com a Uefa.
 
Com relação aos contornos práticos da questão, existe um grande problema nesse processo, no desdobramento em continentes como a África. Certamente a Confederação Africana de Futebol – CAF, não conseguirá suportar (ainda que com ajuda da Fifa) as indenizações que seriam devidas a grandes clubes como Barcelona, que possui em seu elenco o Camaronês Samuel Eto’o.
 
Haverá um grande impasse, não tenho a menor dúvida. E o grande receio é que, em uma provável interferência da justiça comum, haverá uma grande descapitalização da Fifa para atender aos interesses desses clubes.
 
A tendência é que os clubes comecem a se organizar para pleitear individualmente essas indenizações. E quando isso acontecer, a Fifa e as Confederações Continentais vão ter que se movimentar.
 
A partir daí, vamos ver qual é o lado mais fraco da corda.
 
E então essa discussão poderá representar o próximo caso emblemático da FIFA, depois do caso Bosman.

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Política de resultados

No fim do ano, pouco tempo depois de Adriano ter sido confirmado como reforço estrelar do São Paulo, os jornais de São Paulo estamparam em suas manchetes mais uma polêmica em que o jogador havia se metido, após sofrer um acidente de carro no Rio de Janeiro.
 
Em linhas gerais, todos diziam a mesma coisa. Adriano já começa o ano aprontando. São Paulo já vive primeira crise com Adriano. Polêmica volta a rondar a vida de Adriano.
 
Na última semana, após pouco mais de uma semana de trabalho, Adriano finalmente estreou com a camisa 10 tricolor. Contra o Guaratinguetá, fez os dois gols da magra vitória de virada do São Paulo. No dia seguinte, a capa não poderia ser outra:
 
“O Imperador está de volta!”.
 
Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno.
 
Adriano fez uma boa estréia, mas nada que surpreendesse. Da mesma forma que Alex Mineiro estreou no Palmeiras com dois gols contra o Sertãozinho. Assim como o Corinthians venceu bem o Guarani. Resultados e desempenhos absolutamente dentro do normal e que de maneira alguma podem revelar uma tendência do jogador ou do time para a temporada.
 
Afinal, Adriano e Alex Mineiro tiveram atuações medianas contra Rio Preto e Santos, respectivamente, e o Corinthians perdeu para o São Caetano no ABC.
 
Ou seja, nada de novo. Até mesmo no comportamento da imprensa, que a cada dia que passa se revela passional e dependente do resultado dentro das quatro linhas, tal qual o torcedor da arquibancada.
 
É impressionante como o jogador não pode ter oscilações na visão tacanha da cobertura jornalística. E o pior é que o fenômeno (não o Ronaldo, muito menos o bom Alexandre Pato) é mundial, vide o que os jornais da Itália mandaram de repórteres para Guaratinguetá!
 
O trabalho de Adriano no São Paulo é impossível de ser avaliado. Não existe, em nenhuma profissão, um empregado que em uma semana de trabalho já tenha obrigação de dar plenos resultados. O cara teve um bom começo, mas isso não significa que ele seja a solução daquela empresa.
 
Imagine se dentro das redações o ambiente de exigência fosse o mesmo do que os jornalistas impõem aos atletas, treinadores e dirigentes dentro das quatro linhas. Ia ter estagiário virando chefe numa semana e editor sendo demitido a cada erro produzido ou atraso na entrega do material…
 
A política de resultados da imprensa atrapalha o futebol. É ela quem faz o dirigente mal preparado ceder à tentação das análises emotivas e botar tudo a perder numa contratação, demissão, decisão, etc. Ou a imprensa mostra frieza e capacidade analítica no que faz, ou continuaremos a ter heróis e vilões a cada rodada, sem sair da superfície.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br