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Volta, Corinthians! Bi mundial!

Há exatos 22 anos, no Morumbi, Neto e companhia (bem) limitada venciam o Brasileirão pela primeira vez. Iniciando o processo de (inter)nacionalização inexorável do Corinthians. Há quase 13 anos, o Maracanã e o mundo eram do Todo-Poderoso Timão. Hoje, e para sempre, o primeiro sul-americano bicampeão mundial (da Fifa) é o clube que há 102 anos nasceu no Bom Retiro paulistano. É a nação que é Corinthians. Que foi ao Japão e voltou (bi)campeã. Povo que pode bater no peito alvinegro e gritar que ninguém mais pode cochichar nada contra o que se conquistou no campo em um século de paixão.

A Libertadores demorou – mas veio invicta, como desde 1978 não se via na América do Sul. Se há como discutir a presença (e não a conquista) alvinegra em 2000, não há como colocar em dúvida a competência e a capacidade do campeão mundial de 2012. Superando o campeão africano na semifinal e o europeu na final duas vezes com a cabeça de Guerrero. Com a alma de guerreiros.

Um gol aos 23 minutos e 39 segundos que clonou aquele que, há 35 anos, encerrou 22 de jejum. O do Pé de Anjo de Basílio. O da Cabeça de Louco de Paolo. A do pulmão e pés hábeis de Paulinho, autor do lance sensacional que deu no gol e no título, depois de oito segundos após o toque de letra. Camisa 8 como Basílio. Camisa alvinegra como os campeões do mundo do Brasil em 2002. Da camisa amarela como a de Cássio. O goleiro que defendeu aquela bola de Diego Souza na Libertadores. O monstro que defendeu cinco bolas (duas impressionantes) em Yokohama contra o time do melhor goleiro do mundo. Mas não do campeão mundial de 2012. Muralha que só errou um lance no gol bem anulado de Torres. Zaga que bobeou no fim e levou um chute na trave na última bola do jogo. Só para deixar mais corintiana a decisão. Só para dar mais sabor ao amor campeão.

Quem torce ama. Quem deixou o coração em Yokohama torceu mais do que ninguém no mundo que é corintiano. Volta, Corinthians, agora para seu berço e para seu povo. Vai, Corinthians. A terra do gol nascente é sua. Vem, Corinthians. Se você não foi o Brasil todo, todo o mundo cabe no Parque São Jorge.

Para interagir com o autor: maurobeting@universidadedofutebol.com.br

*Texto publicado originalmente no blog do Mauro Beting, no portal Lancenet.

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Mini-entrevista: um pouco sobre categorias de base…

Final de ano. Muitos campeonatos estão "fervilhando" nas categorias de base pelo Brasil.

A "base" que tanto passou a ser falada depois que o FC Barcelona fez o que fez na final do mundial de clubes contra o brasileiro Santos.

Então, já que faz algum tempo, não trato de assuntos relacionados às categorias de formação, resolvi hoje trazer uma mini-entrevista com o treinador Leandro Zago, que trabalha com a categoria infantil no SC Corinthians, faz parte do Ciefut (vide grupos de estudo aqui na Universidade do Futebol) e é o gestor do www.futeboltatico.com.br.

Vamos lá:

1) Você começou como preparador físico de equipes sub-17, tornou-se treinador de uma equipe sub-13, e em seguida passou ao comando de uma categoria sub-15. Que peculiaridades destacaria, em termos de abordagem aos jogadores, intervenções e preocupações pedagógicas, que são típicas de uma categoria sub-15 em comparação as outras duas?

São bem diferentes as três categorias. Mudam as motivações para se jogar futebol e em alguns casos até as prioridades dos atletas, podendo inclusive colocar o que é essencial (jogar bem futebol o tempo todo) em segundo plano com o passar dos anos. O ambiente que os atletas do sub-13 vivenciam está bem distante daquele vivenciado pelos do sub-17, onde o caráter de negócio já está bem presente nesta relação clube-jogadores-comissão técnica. O sub-15 está no meio de tudo isso, com atletas amadores, porém já imersos nesse ambiente que envolve empresários, patrocinadores esportivos, etc.

Cabe ao treinador ter competência para convencer os atletas sobre questões fundamentais para o bom andamento do trabalho, como o comprometimento com o desenvolvimento individual e com o projeto coletivo da equipe e do clube (que levará o grupo de atletas a experienciar fases agudas dos campeonatos contribuindo com a construção de uma mentalidade vencedora). Em minha opinião, isso é fundamental, o restante é meio, cada treinador tem o seu caminho.

2) Em relação à dinâmica do jogo, como enxerga as possibilidades de desenvolvimento individual e coletivo dos jogadores sub-15?

Ainda limitada em algumas questões se compararmos com categorias maiores pelo momento do desenvolvimento biológico e cognitivo dos atletas.

E também acredito que nessa categoria há muito potencial a ser explorado dentro do processo de formação.

Portanto, entendendo essas duas idéias, parto da zona proximal de conhecimento "complexa" do atleta, ou seja, como ele expressa seu jogo do ponto de vista técnico-tático-físico-mental/cognitivo e procuro elevar até o último momento dele dentro do processo esse entendimento e expressão do seu jogo.

Do ponto de vista individual, o atleta deve aprender a ter vantagem nos confrontos de todos os tipos com igualdade e inferioridade numérica. E do ponto de vista coletivo, como construir essa vantagem o tempo todo integrado ao pensar coletivo que tem como referência a solução dos problemas do jogo.

3) Sob o ponto de vista das fases de desenvolvimento e crescimento humano, e sob o ponto de vista das fases sensíveis para melhora de certas capacidades e habilidades cognitivo-motoras, como você distribui os conteúdos de treino ao longo de uma semana de trabalho para a categoria sub-15 (fale sobre a frequência semanal, duração dos treinos, formato da sessão, etc.)?

Existe um modelo ideal e um modelo possível. Para me aproximar do modelo ideal, busco o melhor modelo possível. A adaptação ao ambiente é necessária.

Em período competitivo, com jogos aos sábados, a semana é, em grande parte das vezes, distribuída assim:

– segunda: jogos técnicos e/ou específicos;
– terça: jogos conceituais;
– quarta: 11 vs 11 (com regras condicionantes)
– quinta: jogos técnicos e/ou específicos
– sexta: jogos contextuais

Cada dia tem suas particularidades em relação ao espaço de jogo, à densidade (esforço / pausa), ao tempo de atividade, ao tipo de abordagem verbal, ao momento do ano, etc.

Um fator é comum à todos os dias: intensidade máxima numa perspectiva complexa sempre, o tempo todo, a cada ação. Assim, um componente que está permanentemente presente nas sessões de treinamento é a velocidade. Desde a expressão pura (na fase final de aquecimento, por exemplo) até nas tomadas de decisão e ação sob pressão de tempo e espaço (obviamente, a velocidade nesses casos está conectada com a qualidade, afinal estamos falando de inteligência humana).

4) Quais conteúdos você ensina e desenvolve na sua categoria, que são específicos dela?

Qualquer conteúdo que possa aumentar a autonomia do jogador. Ao propor um exercício, tenho uma expectativa sobre as possibilidades das respostas dos atletas e, em muitas oportunidades eles resolvem a situação problema dando uma resposta surpreendentemente criativa e eficaz. Essa é a ação que estimulo.
 

Tenho um modelo de jogo que atua como um norte para o processo, mas tem que haver uma flexibilidade para ajustes que vão se fazendo necessários com o tempo.

Os quatro momentos (organizações ofensiva e defensiva, transições ofensiva e defensiva) estão sempre presentes. Quero que os atletas vivenciem, em maior número de vezes e com a melhor qualidade possível, o jogo e, imersos nesse ambiente, deixem sua inteligência a serviço das soluções necessárias.

5) Apesar de saber bem a resposta da pergunta que vou fazer, acho importante que ela seja feita para despertar debates. Você aplica a Periodização Tática? Por quê?

Não, não aplico. Tive contato com a PT em 2006. Nesse mesmo período também estava iniciando de maneira mais específica meus estudos sobre as teorias da complexidade. Li muitos materiais sobre a PT. Hoje procuro por "soluções complexas" para os problemas que enfrento no dia-a-dia da equipe. Entendo a equipe como um sistema que evolui através do tempo em todas as suas variáveis e, a partir daí, preciso operacionalizar de uma maneira que atenda a todas as dimensões interferentes.

6) Você foi escolhido melhor treinador de uma importante competição sub-15 que acaba de acontecer em Belo Horizonte. Que tipo de características de jogo (ou de comportamento específico de jogo) sua equipe e seus jogadores apresentam hoje, que são evidentes e que chamam a atenção para ela, permitindo o reconhecimento do seu trabalho?

Basicamente, a velocidade de jogo, a capacidade de tomar boas decisões individuais e coletivas sob pressão de tempo e espaço.
A estruturação do espaço sem bola, da linha 1 a 5, a mobilidade com bola, a autonomia de jogo por parte dos atletas e algo que foi colocado no DNA da equipe: jamais abrir mão de tentar ter o controle da partida independente de ter ou não a bola e das circunstâncias da partida.

7) Como você vê o tra
balho dos treinadores e equipes sub-15 que enfrentou na competição em Belo Horizonte (equipes que são tradicionais no futebol brasileiro)?

Em geral muito bom. Digo isso em relação às equipes que enfrentei. Parece haver uma intenção por trás das propostas, uma organização para defender, atacar e realizar as transições. E isso não se constrói na preleção.

O talento não está sendo ceifado, mas estimulado. Muitos jogadores bons em situações de 1 vs 1 ofensivo aplicando suas habilidades com inteligência.

8) Qual o "peso" que você daria para as variáveis "qualidade dos jogadores" e "qualidade do processo formativo", para o sucesso desses jogadores e do êxito das suas equipes no decorrer dos anos de formação nas categorias de base?

Igualmente fundamentais. Um bom processo de formação aplicado em jogadores de baixa qualidade não levará à excelência. Um processo precário em jogadores com boa qualidade não trará resultados consistentes e nem explorará ao máximo o potencial humano ali existente.

Bons resultados de maneira eventual podem até acontecer. Para se atingir bons resultados de maneira crônica, faz necessário que esses dois pilares (jogadores – processo) caminhem lado a lado buscando um refinamento permanente. Estamos falando de alto rendimento, qualquer variável mal executada pode ser fatal (e provavelmente será) para o resultado final.

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Modelo de gestão das categorias de base

Poucos são os bons exemplos de gestão no futebol brasileiro. Como constatação, os inúmeros clubes em pré-temporada para os campeonatos estaduais que têm realizado pelo menos quinze contratações (em alguns casos contrata-se o elenco completo) para iniciarem os trabalhos, já ilustram o quanto somos ineficientes em princípios básicos da gestão empresarial.

Sendo assim, quando cases de sucesso surgem no mercado precisam ser estudados, compreendidos e divulgados a fim de que sirvam como referência para trabalhos que tenham objetivos semelhantes.

No Footecon 2012, Mário André Mazzuco, gerente de futebol do Coritiba Foot Ball Club, foi palestrante do tema "Modelo de gestão das categorias de base" e discorreu com propriedade sobre os elementos que compõem a gestão do futebol de formação do clube em que trabalha. Tais elementos serão discutidos na coluna desta semana.

Mazzuco iniciou a apresentação afirmando que um dos objetivos da gestão das categorias de base do clube é torná-la parte da macrogestão de todo o futebol do clube. Desta forma, o gerenciamento da base não ocorre de maneira dissociada do futebol profissional. Questão aparentemente simples, porém, a realidade nos clubes brasileiros aponta para um abismo significativo entre base e profissional, permitido por falhas gerenciais.

A missão e visão do clube, que assim como qualquer empresa devem ter as suas (e tal fato é ignorado por muitos de nossos gestores), são as seguintes:

Missão: Jogar um futebol competitivo, garantindo entretenimento e potencializando o orgulho e o amor de todo coxa-branca.

Visão: Ser um clube vencedor, reconhecido como força esportiva e referência de gestão. Neste cenário, é papel da gestão controlar o processo produtivo num ciclo que compreende as pessoas, as equipes, os problemas/soluções, os controles, os procedimentos e os resultados.

No tocante à equipe técnica, doze áreas multidisciplinares assessoram todos os atletas envolvidos no processo de formação. São elas: Psicologia, Assistência Social, Nutrição, Fisiologia, Musculação, Pedagogia, Captação e Seleção, Fisioterapia, Medicina, Observação Técnica, Scout e Escola-Coxa.

No projeto de formação, que se inicia no sub-11 e tem como um dos objetivos promover os jogadores formados à equipe principal, ou então, negociá-los, os conceitos que norteiam cada uma das seguintes categorias seguem abaixo:

Sub-11 e sub-13: Interação do atleta e início da formação geral;
Sub 15: Aprendizagem e preparação para carreira;
Sub-17: Correção e preparação profissional;
Sub-18 e sub-20: Aprimoramento, manutenção e adaptação ao profissional;
Profissional: Aprimoramento e alto rendimento.

Atualmente, a equipe paranaense conta com 57 funcionários e 170 atletas registrados. Destes, 75 são profissionalizados, 27 estão no departamento profissional e três atletas que foram formados na base são titulares na equipe principal.

Todos os jogadores são acompanhados no banco de dados do clube, que realiza uma avaliação de diferentes competências trimestralmente, onde cada atleta é avaliado e classificado num score que varia entre 1 e 5. Tal avaliação é denominada Radar Coritiba e é uma excelente ferramenta para acompanhar o desenvolvimento do jogador. Na palestra, Mazzuco afirmou que tal ferramenta foi embasada na avaliação do atleta realizada no Inter-RS e criada por Medina no início da década passada, na ocasião, coordenador do clube gaúcho.

Como parte da infraestrutura, o clube possui um CT com cinco campos de treinamento e tem como planejamento o desenvolvimento de um CT integrado para base e profissional. Sem dúvida, será mais um passo à frente da grande maioria dos clubes brasileiros.

Em um amplo processo de captação, os atletas chegam ao clube por meio de observações em Curitiba e região, observações da Escola-Coxa (são 32 no Brasil e um nos EUA), do futsal, através da captação de clubes formadores, visitas técnicas realizadas pelo departamento de captação e parcerias com clubes e empresários. Com esta rede de contatos, 2.000 atletas pré-selecionados são avaliados por ano no clube.

Caso o jogador captado não seja munícipe, ocupará uma das 52 vagas do alojamento. E é no alojamento que inicia a busca por um sonho. Nas portas dos quartos, fotos de ídolos do Coxa estão estampadas e na última delas (também a mais recente) a foto é a do volante William, formado nas categorias de base, com 23 anos e mais de 100 jogos pelo Coritiba. A frase pronunciada nos corredores do clube e que instiga os jovens sonhadores é: quem será o substituto de William na última porta?

Para dar sustentabilidade ao projeto, no departamento de observação, o Projeto Sombra aponta as formações de todas as categorias indicando onde estão as principais carências.

Mário Mazzuco encerrou a apresentação apontando os objetivos do trabalho na atual temporada. Além dos que foram indicados no início da coluna, o clube visa a disputa de todos os títulos regionais e o fornecimento de atletas à seleção brasileira.

Detalhes técnicos do trabalho de formação não foram apresentados até porque este não era o tema da palestra. Porém, com este modelo de gerenciamento, se o trabalho de campo estiver sendo adequadamente realizado, sem dúvida, em poucos anos o Coritiba irá colher os frutos do investimento na formação.

E, para concluir, destaco a preocupação do processo de formação feito no clube paranaense que além de preparar o futuro do jogador, prepara também o do não jogador, pois sabemos que um grande percentual de atletas submetidos à formação esportiva não chega ao profissional devido ao estreitamento natural da pirâmide.

Formar o homem e não só o esportista é demasiado utópico e desnecessário para quem ainda acredita que jogamos o melhor futebol do mundo. Parabéns ao Coxa!

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

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É hora de falar sobre a gestão de riscos no futebol

Esse é um conceito bastante antigo, remonta ao século XVII e à descoberta da teoria das probabilidades. No ambiente corporativo, há décadas passou a ser utilizado de forma abrangente para minimizar a exposição das empresas frente à eventos indesejados. Consiste em se estabelecer políticas que objetivam reduzir ao máximo os efeitos de potenciais perdas às pessoas e ao patrimônio e imagem das empresas, a partir da utilização de um conjunto de técnicas e ferramentas.

Como de costume, o futebol (e os outros esportes) passa longe das melhores práticas quando o assunto é gerenciamento de riscos. Aliás, não se fala nesse assunto nos clubes brasileiros.

A aplicação da gestão de riscos nos clubes se justifica por dois motivos. Primeiro, pela necessidade natural de qualquer empresa de se proteger, principalmente no que tange aos riscos financeiros e de imagem. Neste último caso é fácil ver o quão expostos estão os clubes, basta observar os efeitos que problemas de gestão e declarações de alguns dirigentes menos preparados acarretam sobre a marca de instituições centenárias. Aliás, não há nenhum guardião dessas marcas nos clubes.

O segundo motivo para implantação da gestão de riscos está no departamento de futebol em si. Além de lidar com decisões de grande incerteza (que por si só já justificariam a implantação de uma política de riscos), é nele que se concentra a maior parte do orçamento dos clubes.

Diariamente as áreas de futebol tomam dezenas de decisões relacionadas ao seu elenco profissional e suas categorias de base. Vão desde a contratação ou venda de um determinado jogador, à negociação salarial de outro, ou a dispensa de um garoto da categoria de base no qual o clube já investia há anos. Este conjunto de decisões impacta fortemente os orçamentos dos clubes, mas a grande maioria deles continua a tomar decisões utilizando processos o mais subjetivos possíveis, pessoas sem a qualificação necessária, e sem políticas e procedimentos claros nem ferramentas adequadas para isso.

Como se não bastasse, essas decisões não são tomadas de maneira planejada, com a utilização de cenários para quantificar os efeitos de uma estratégia eventualmente dar errada. Há muito de feeling e nada de empírico. É esse conjunto de aspectos que pode ser atacado com a implantação de uma política de riscos.

Não vou bancar o dono da crítica fácil, pois há profissionais de alto nível nos clubes (e não são poucos), mas como instituições, eles continuam com estruturas e práticas arcaicas.

Alguns exemplos: jogadores que são contratados e “não se adaptam”, contratos renovados fora de uma lógica de risco x retorno, promessas que não vingam e depois explodem em equipes rivais, multas milionárias pagas à técnicos por contratos encerrados antecipadamente, contratações feitas a peso de ouro para aplacar a insatisfação da torcida e conselheiros.

Vejam, as decisões de investir ou desinvestir em determinado atleta ou treinador equivalem às decisões que uma tesouraria de empresa toma diariamente para aplicar os seus recursos, com a diferença que estes utilizam um conjunto de ferramentas e seguem políticas bem estabelecidas para tomar essas decisões.

Neste momento alguns dirão a frase símbolo da simbiose incompetência comodismo: “mas no futebol é diferente”. De fato, uma decisão envolvendo jogadores é muito complicada, devido ao grande número de variáveis que precisam ser analisadas, mas isso é um argumento a mais para a implantação de políticas que identifiquem melhor os riscos envolvidos e aumentem a chance de sucesso das decisões.

Para interagir com o autor: fernando.ferreira@universidadedofutebol.com.br

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O abandono de partida na final da Copa Sul-Americana e suas implicações jurídicas

São Paulo e Tigre disputaram a final da Copa Sul-Americana de 2012 no estádio Morumbi e a equipe brasileira derrotou o adversário por 2 a 0 no primeiro tempo e faturou o inédito título da competição.

Após o término da primeira etapa, uma confusão generalizada tomou conta do gramado do Morumbi. Depois, no vestiário, o Tigre alega que seus jogadores foram agredidos por seguranças do São Paulo. Segundo relatos, os são-paulinos sacaram armas de fogo e provocaram pânico. Alegando medo, a equipe argentina não voltou para o segundo tempo.

No caso em questão aplica-se o disposto nos artigos 15 incisos 4 e 5, e 18, incisos 1, 3 e 4 da Copa Santander Libertadores.
Isto ocorre porque o regulamento da Copa Sul-Americana dispõe que "todas las demás disposiciones generales del torneo, disciplinarias, etc., serán basadas en la reglamentación vigente de la Copa Santander Libertadores de America".

O capítulo X da Copa Santander Libertadores de América que, conforme acima exposto, trata de questões disciplinares tem-se:
Artículo 15°

15.4 En caso de que un equipo abandonara el campo de juego negándose a finalizar el partido, perderá los puntos y será pasible de multa a criterio del Comité Ejecutivo de la Confederación.

15.5 Si por disposiciones nacionales o municipales, debiera procederse a reintegrar al público el valor de las entradas, el club que hubiera abandonado el campo de juego abonará el importe correspondiente y responderá por los gastos de organización y arbitraje que el partido hubiera originado.

Artículo 18°

18.1 La inasistencia injustificada, a criterio del Comité Ejecutivo, del club visitante a cualquiera de los partidos que le corresponda disputar dará origen a una multa de USD 100.000 (cien mil dólares) y la pérdida del partido. De la multa, USD 90.000 (noventa mil dólares) serán para el club local y USD 10.000 (dez mil dólares) para la Confederación.

18.3 En todos los casos el club que de forma injustificada no asista, será eliminado del Torneo y no podrá participar en los tres torneos de Conmebol siguientes para los cuales clasifique salvo causa de fuerza mayor que apreciará el Comité Ejecutivo.

18.4 La Asociación Nacional será responsable del cumplimiento por parte de su club de las sanciones económicas previstas en este Reglamento.

Na hipótese de terem sido verdadeiras as alegações do Tigre, o clube deveria ter se utilizado das prerrogativas dispostas no regulamento levando ao conhecimento do delegado oficial da Conmebol os acontecimentos e exigindo a suspensão da partida, nos moldes do artigo 16.6:

16.6 La Conmebol, através de su delegado oficial, podrá suspender un partido cuando se trate de hechos de suma gravedad cometidas ya sea por dirigentes, clubes, árbitros, árbitros asistentes, jugadores, personal técnico, personal auxiliar, o público asistente, antes o durante un partido, que afecten los principios de ética y puedan considerarse lesivos al prestigio deportivo del país al que pertenecen los presuntos infractores; las respectivas Asociaciones Nacionales quedan facultadas para aplicar las sanciones que establezcan sus propios reglamentos, ello sin perjuicio de las penas que haya impuesto la Confederación Sudamericana de Fútbol.

A tales fines, el Comité Ejecutivo remitirá por sí o a petición de la correspondiente Asociación, las actuaciones labradas. Dicho requerimiento deberá formularse mediante fax o carta, debiendo el Comité Ejecutivo Copa Santander Libertadores de América 2012 – Reglamento Confederación Sudamericana de Fútbol proceder a la remisión solicitada dentro de los 15 (quince) días siguientes a la recepción del mismo.

Assim, segundo o regulamento da competição a equipe argentina está sujeita às seguintes sanções:

a) Perda de pontos;
b) Multa, a critério do Comitê Executivo;
c) Ressarcimento aos torcedores (nos termos do Estatuto do Torcedor) e despesas da organização e arbitragem;
d) Ser eliminado da competição e proibido de participar dos próximos três torneios da Conmebol para os quais se classifique, salvo causa de força maior, a ser analisada pelo Comitê Executivo.

Ademais, de acordo com o Disciplinay Code da Fifa, artigo 56, incisos 1 e 2 o Tigre estará sujeito a:

a) Perder os pontos da partida (Artigo 31);
b) Sofrer multa de no mínimo 10.000 francos suíços;
c) Ser excluído competição, de acordo com a gravidade;
d) Ser o adversário declarado vencedor pelo placar de 3×0.

Senão vejamos os artigos 56 incisos 1 e 2 e art. 31 do CDF:
Article 31 Forfeit

1. Teams sanctioned with a forfeit are considered to have lost the match by 3-0.
2. If the goal difference at the end of the match in question is greater than 3-0, the result on the pitch is upheld.

Article 56 Abandonment

1. If a team refuses to play a match or to continue playing one which it has begun, it will be sanctioned with a minimum fine of CHF 10,000 and will, in principle, forfeit the match (cf. art. 31).
2. In serious cases, the team will also be disqualified from the competition in progress.

Observa-se ainda que o Tigre agiu sem observar o Fair Play que estabelece que os praticantes de todas as modalidades esportivas devem procurar se empenhar e disputar os jogos cumprindo as regras.

Urge destacar a possibilidade de haver ações de ressarcimento movidas pelos patrocinadores do evento que não tiveram o seu "produto" entregue integralmente e dos torcedores, nos termos do Estatuto do Torcedor.

Diante o exposto, não há dúvidas que está correta a decisão da Conmebol de declarar o São Paulo campeão da Copa Sul-Americana 2012. De toda sorte, os fatos devem ser apurados e, caso se comprove atos de violência da polícia paulista ou dos seguranças privados, o clube brasileiro deve ser punido administrativamente por estes atos.

Referências bibliográficas

CEVLEIS, http://cev.org.br/listas/legislacao-desportiva/ com acesso em 13 de dezembro de 2012.

DISCIPLINARY CODE – FIFA, http://www.fifa.com/mm/document/affederation/administration/50/02/75/discoinhalte.pdf, com acesso em 13 de dezembro de 2012.

REGLAMENTO DE LA COPA SUDAMERICANA, http://www.conmebol.com/export/sites/conmebol/Docs/Copa_Sudamericana/2012/Reglamento_Copa_Sudamericana_2012.pdf com acesso em 13 de dezembro de 2012.

REGLAMENTO DE LA COPA LIBERTADORES, http://www.conmebol.com/export/sites/conmebol/Docs/Copa_Libertadores/2012/Reglamento_Libertadores_2012.pdf com acesso em 13 de dezembro de 2012.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br

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Mas…

Eu tinha tudo preparado para fazer a coluna desta semana com um teor positivista. Às vezes me questiono se não deveria evidenciar mais as boas ações dos clubes em detrimento dos tropeços, até para reforçar o contínuo progresso que os mesmos estão buscando no desenvolvimento de melhores práticas de gestão e de marketing.

E tinha um elemento importantíssimo para tratar: a nova Arena do Grêmio. Um marco, que segue o padrão dos melhores estádios do planeta, antecipando-se ao perfil dos equipamentos que teremos na Copa do Mundo 2014. Uma estrutura ímpar que será capaz de gerar importantes receitas, ainda pouco exploradas pelos clubes brasileiros, tornando-se ponto de referência para relacionamento com o torcedor.

Um empreendimento que foi capaz de comercializar todos os camarotes em poucos dias, sendo um indicador factível de que estamos diante de um caminho sem volta: a transformação sobre a produção do espetáculo esportivo no país.

Mas… Mas… Mas…, nós não conseguimos entregar um evento de inauguração digno à modernidade e à imponência da Arena do Grêmio. Mais uma vez, cometemos velhos erros de precipitação, de falta de planejamento e de forma de tratamento do torcedor e adversário.

Elenquei três que mais me saltaram os olhos: (1) a falta de protocolos e treinamento prévio no belíssimo show de abertura, que precedeu o jogo entre Grêmio e Hamburgo; (2) o gramado em péssimas condições, o que nos leva a crer que o plano que culminou com a realização do jogo não foi bem executado; (3) a retirada de cadeiras de um setor do estádio para manter um modelo antigo de tratamento oferecido ao torcedor.

São detalhes que parecem pequenos, mas que podem ter consequências negativas no médio-longo prazo. O que os clubes precisam entender com as novas arenas é que é preciso fazer um ponto de corte bastante rígido entre a forma de se apresentar o jogo do passado para uma experiência única e inesquecível no presente, em todos os eventos a serem realizados por lá.

Certamente que o Grêmio colherá ótimos frutos com sua belíssima arena. Está de parabéns pela construção de um modelo de negócios ímpar no Brasil, tendo o apoio direto em parceria com a iniciativa privada, tratando todos os negócios como negócio de fato. E que possamos avançar para uma nova era do futebol brasileiro.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

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O bom anfitrião

Receber bem dá trabalho. Qualquer pessoa que já organizou um evento, independentemente do porte, sabe disso. Um churrasco, uma festa de criança ou um grande show têm preocupações similares. Entreter e causar boa impressão estão entre elas. E o futebol, infelizmente, ainda não assimilou isso.

Porque a proporção das coisas pode ser absurdamente diferente, mas o cuidado com quem vai a um jantar na sua casa não é diferente da preocupação que um clube deve ter com cada torcedor presente em um jogo. Nos dois casos, é fundamental incutir nas pessoas o sentimento de que viveram bons momentos. A ideia é gerar lembranças positivas.

Aí você pode interromper o texto e vociferar: "Ora, mas esse é um conceito básico". Sim, é claro que é. Dizer que um bom evento deve gerar experiência de vida e que o futebol brasileiro peca nesse aspecto é dizer platitudes. Qualquer um que tenha ido a um estádio pode enumerar os problemas que constroem um ambiente de desconforto e descaso – o que, aliás, já começa no ato da compra, muito antes da entrada no local.

"Então, se é tão básico, por que se preocupar com isso?", você pode perguntar em sequência. Porque a ideia de que o organizador do espetáculo precisa se preocupar com o público pode até ser básica, mas é comporta por uma série de iniciativas que muitas vezes são desprezadas ou relegadas ao último lugar na ordem das preocupações.

Sim, a comunicação faz parte desse conjunto de ações. Sim, pensar em comunicação é fundamental para um país que pretende inaugurar 14 novos estádios nos próximos anos, entre criações e reformas, com um custo superior a R$ 7 bilhões.

A primeira dessas novas arenas foi entregue no último sábado. Grêmio e Hamburgo reeditaram a decisão do Mundial de clubes de 1983, conquistado pela equipe gaúcha, e fizeram um amistoso para abrir oficialmente o novo estádio dos brasileiros. E o evento mostrou o quanto é necessário pensar em mais do que tijolos para proporcionar evolução consistente e criar experiências palatáveis.

Em campo, o Grêmio venceu por 2 a 1. André Lima marcou o primeiro gol do novo estádio. No entanto, o resultado e o que aconteceu dentro das quatro linhas são apenas coadjuvantes nessa história. O evento marcou o início de uma nova etapa no futebol brasileiro.

Construída em um novo tempo, a arena do Grêmio tem uma estrutura comercial condizente com a realidade atual. Os equipamentos internos são radicalmente diferentes da maioria dos estádios brasileiros, erguidos a partir de outros propósitos.

Hoje em dia, ao contrário da época que gerou a grande maioria das arenas brasileiras, a razão de ser de um estádio não pode ser apenas sediar bons jogos de futebol. Um estádio precisa criar experiências.

Na inauguração do novo estádio do Grêmio, o gramado gerou muitas reclamações. A mídia alemã criticou duramente o estado do campo, e o time gaúcho até emitiu uma nota oficial na última segunda-feira para se defender.

Mas esse não foi o principal problema. Houve confusão entre torcedores e a Polícia Militar (PM). E jogadores do Hamburgo reclamaram que não havia água para o banho no vestiário dos visitantes. Essa informação não foi confirmada, mas os alemães deixaram o local ainda de uniforme.

Por tudo isso, a mídia alemã (sim, novamente ela) chegou a chamar o amistoso de "jogo do caos". Ora, e a experiência positiva? E as boas lembranças?

Alemães não levaram boas lembranças do novo estádio, certamente. E a experiência dos torcedores que entraram em confronto com a PM também foi decisivamente conspurcada.

"E o que podia ter sido diferente em todo esse planejamento?", você pergunta. Para começar: como bem lembrou o mestre Erich Beting em texto sobre corintianos no aeroporto de Guarulhos, nossa sociedade carrega uma série de ranços de períodos em que a liberdade foi cerceada. Também tem arraigado um comportamento colonialista, infelizmente, mas isso é assunto para uma análise bem mais aprofundada. O que nos cabe aqui é constatar que a nossa polícia, mais opressora do que protetora, não serve para fazer a segurança interna de estádios de futebol (o texto do chefe está aqui, ó: http://tinyurl.com/a58s8yy).

E que fique bem claro: ninguém está dizendo que a culpa das confusões que acontecem dentro dos estádios é exclusivamente da polícia. O ponto é mais simples e prático: para um evento bem feito, é imprescindível que a segurança tenha treinamento específico e que seja parte de um organograma.

Pesquisas mostram, por exemplo, que seguranças são os funcionários que as pessoas mais procuram para pedir informações em lojas e shoppings. Se é assim, é fundamental que eles sejam treinados para responder sobre localização, serviços e outras coisas do gênero.

Não estive na inauguração do estádio do Grêmio, mas o que li e ouvi sobre o evento teve muitos elogios ao aparato. A análise aqui é geral e serve para todas as novas arenas: funcionários têm papel decisivo no conceito que os consumidores formam sobre qualquer provedor de serviços.

A preparação das pessoas que trabalham em qualquer empreendimento é um trabalho de comunicação. Empresas mais desenvolvidas têm equipes que se preocupam apenas com isso. O futebol pode demorar a perceber, mas necessita de uma estrutura assim.

Afinal, seguranças menos virulentos e funcionários mais preparados para dar informações são apenas dois aspectos. Também é importante padronizar o jeito de falar, mostrar os meios mais eficientes de vender e ensinar como lidar com o público. Se as redes de restaurantes fast food conseguem, por que um estádio não pode?

Outro aspecto é o tratamento dado aos convidados. Esse é mais um elemento que tem relação direta com o ranço que eu citei anteriormente: historicamente, visitantes, sejam eles jogadores, dirigentes ou torcedores, são tratados como inimigos no esporte brasileiro. Não são raras as histórias de times que saíram sob proteção ou que não conseguiram se concentrar adequadamente porque foram incomodados na concentração. Também são recorrentes os casos de adeptos trancados em estádios, no escuro, depois do término de um jogo.

Arenas mais modernas são a síntese de uma transformação no tratamento destinado ao público, que deixa de ser torcedor e se transforma em consumidor. E o visitante pode preferir outro clube, mas gastar como os adeptos locais.

Então, mais uma vez entra a comunicação: ninguém está falando em sepultar rivalidades, mas é
fundamental que os clubes eduquem. Tratar bem o público, na acepção mais ampla, é requisito para uma arena de sucesso.

De longe, parece que esse tratamento não foi destinado ao Hamburgo. E nem digo isso pela reclamação de que faltou água, mas por não ter sentido nos alemães um encantamento de visitas que são bem acolhidas em qualquer casa.

Por fim, para não me alongar demais, volto a uma ideia recorrente por aqui: TUDO comunica. Isso quer dizer que a comunicação precisa se ocupar do que acontece em campo, sim. E não apenas do jeito tradicional.

A Premier League fez uma pesquisa sobre o que as pessoas gostariam de ver em termos de entretenimento no campo. Constatou que o público desejava um jogo mais corrido e com menos bolas altas. A saída para isso foi forçar a aproximação entre os atletas, e os times foram obrigados a construir campos mais longos e estreitos.

Organizar um evento esportivo não é diferente de receber alguém em casa. É importante arrumar o ambiente, criar uma recepção acolhedora, oferecer serviços e pensar em atrações. É fundamental criar experiências.

Nesse aspecto, o esporte norte-americano sempre foi professor. Não é por acaso que o modelo do circuito de artes marciais mistas UFC funciona tão bem. Não é por acaso que o Brasil tem tentado versões locais disso, com shows e até apresentações de comediantes.

Outras modalidades, como basquete e vôlei, também investem constantemente na criação de eventos. E o futebol brasileiro, infelizmente, ainda não tem bons anfitriões.

Para interagir com o autor: guilherme.costa@universidadedofutebol.com.br

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O treinador e as intervenções verbais: risco de causar dependência?

Recentemente, trouxe para debate alguns dados sobre uma atividade de treino no formato de jogo (um jogo 5 contra 5).

Esses dados referiam-se especialmente ao número de passes realizados e também às distâncias percorridas por jogadores de futebol em um “mini-jogo” organizado em um campo “quadrado” de 35 metros de lados.

Neste campo, equipes distintas, com cinco jogadores cada, se enfrentavam durante 10 minutos, com objetivo principal de realizar o maior número de passes possível sem interrupção por parte do adversário – sendo que cada oito passes valia um ponto.

Pois bem.

Gostaria nesta semana, a partir dos mesmos dados, e a partir de uma questão proposta pelo fisiologista Bruno Pasquarelli, de me focar em um ponto diferente daquele mirado no texto anterior.

Então, para facilitar o entendimento sobre esse “ponto diferente”, trago novamente (com outra roupagem) a tabela com os dados que apresentei.

Vejamos:

Para “refrescar a memória”, vale salientar que a ideia geral da atividade era observar se, com a mudança da intervenção verbal por parte do treinador (condutor da atividade), as variáveis analisadas no jogo (aqui, no caso, distância percorrida e número de passes) sofreriam algum tipo de mudança.

Pois bem.

Algo bastante interessante apareceu com os resultados: independente da intervenção verbal orientada aplicada pelo treinador, tanto distância percorrida quanto volume de passes foram mais altos quando houve uma intervenção, do que quando não houve uma intervenção direcionada.

Em outras palavras, quando o treinador apenas arbitrou e conduziu o jogo para fazer valer suas regras, os jogadores percorreram distâncias menores e trocaram menos passes durante a atividade.

E é aí que entra uma questão importante levantada pelo professor Pasquarelli – pois se a intervenção verbal interfere de certa forma na dinâmica do jogo, não poderia ela também condicionar os jogadores a ficarem dependentes dela?

Sob o ponto de vista da complexidade, quando pretendemos gerar hábitos e comportamentos específicos de jogo, e nos utilizamos para isso de atividades na forma do próprio jogo de futebol – jogo regido por regras específicas que a curto, médio e longo prazo podem fazer emergir os comportamentos e hábitos desejados – devemos saber exatamente que tipo de resposta esperamos ter à determinada estimulação.

Então, conforme já mencionado, o “feedback” verbal do treinador quando conduz a atividade de treino, interferirá de alguma forma na resposta dos jogadores e na dinâmica do jogo.

Em geral, se bem programadas e bem controladas, as intervenções verbais podem melhorar as respostas dos jogadores durante os treinamentos. Porém, se mal organizadas dentro do processo, poderão sim gerar “dependência” por parte dos jogadores às verbalizações direcionadas do treinador.

Assim, se determinado comportamento precisa ser gerado, é adequado para a sua construção que se conheça bem qual tipo de “feedback”verbal pode ser útil como ferramenta. Mas é preciso também entender em qual dose, magnitude, frequência e momento essa ferramenta deve ser utilizada.

A dependência à fala do treinador pode representar fracasso dos jogadores e de suas equipes durante jogos formais 11 contra 11. Ao mesmo tempo, determinados “feedbacks” podem servir como “gatilhos” para que o treinador faça correções ou eleve o nível de desempenho de alguma variável durante um jogo.

Devemos buscar, dentro de uma ideia sistêmica de treinamento, que os jogadores sejam capazes, cada vez mais, de “ler” melhor as situações do jogo, tomar melhores decisões e especialmente, que sejam capazes de ser autônomos para agirem no jogo de maneira inteligente.

Criar dependência verbal é um problema porque, principalmente, não permite desenvolvimento de uma autonomia de jogo e não contribui para a melhor leitura dele.

Se considerarmos como correta a ideia de que cada dia de treino e que cada jogo formal em competição é uma oportunidade de aprendizagem, independente do nível competitivo, devemos aceitar também que a dependência verbal diminui o potencial que tem o jogo como ambiente de aprendizagem e desenvolvimento individual e coletivo.

Criar dependência verbal é tão grave quanto gerar comportamentos e hábitos de jogo inadequados, que não contribuam em nada com êxito em jogos de futebol!

Criar dependência verbal é tão grave quanto não compreender que as intervenções verbais direcionadas podem ser positivas para o processo (e também dentro do próprio jogo formal 11 contra 11)!

Então, de maneira geral, precisamos saber utilizar os “feedbacks” verbais a favor do processo. Isso quer dizer que eles não são problema; problema é a sua utilização indevida.

Você programa como deve orientar seus jogadores em treino?

Por ora, acho que é isso.

Até a próxima!

 

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

 

 

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Footecon 2012 e as novas perspectivas para o treinamento técnico-tático

Aconteceu entre os dias 4 e 5 de Dezembro o IX Fórum Internacional de Futebol idealizado e coordenado pelo atual diretor técnico da seleção brasileira, Carlos Alberto Parreira.

Nos dois dias de evento, temas relevantes foram discutidos com o objetivo de fomentar transformações em nosso futebol. Como exemplos, a excelente palestra sobre a formação do treinador europeu, ministrada por Eduardo Tega, diretor executivo da Universidade do Futebol e Sandro Orlandelli, professor universitário e ex-scouter do Arsenal-ING; ou então, a temática metodologia de treinamento do futebol brasileiro, que teve como palestrantes Ricardo Drubscky, técnico que conquistou o acesso para a série A do Campeonato Brasileiro com o Atlético-PR, Rodrigo Leitão, colunista deste portal e técnico do sub-18 do Corinthians e Vinicius Eutrópio, técnico do América-MG.

Ainda relacionada às questões metodológicas da modalidade, numa plenária de menor dimensão (mas não menos importante), tive a honra de participar como palestrante numa apresentação que tinha como tema as novas perspectivas do treinamento técnico-tático nas categorias de base. Foi um privilégio compor a mesa com dois grandes treinadores das categorias de base do futebol brasileiro: Sérgio Baresi, técnico do sub-20 do São Paulo e Marcelo Veiga, técnico do sub-20 do Fluminense.

Aproveito a coluna semanal para compartilhar o conhecimento exposto na palestra, com o intuito de não torná-lo restrito somente a quem esteve presente no evento.

Segue, abaixo, alguns slides e os conteúdos abordados:

Com as conquistas recentes do Barcelona, o trabalho de formação no futebol ganhou sensível importância. No Brasil, muitas personalidades do futebol têm criticado o trabalho de base, pois é ele um dos responsáveis pelo baixo nível da grande parte dos nossos jogos.

Para comprovar tal afirmação, na sequencia, apresento a opinião de treinadores, imprensa e gestores sobre o trabalho de formação:

Diante disso, ressalto a fala de Mano Menezes pronunciada no Seminário das Categorias de Base, realizado este ano na CBF, que afirma sobre a necessidade de formar jogadores capazes de identificar os problemas do jogo.

E quais são os problemas do jogo no futebol moderno? Ao longo da palestra procurei evidenciar alguns deles.

O primeiro, referente à necessidade de abrir o adversário como uma das alternativas para criar espaços para a eficácia da ação coletiva ofensiva. Abaixo alguns exemplos de como grandes equipes do futebol mundial tentam resolver este problema e, comparativamente, como é feito por algumas equipes do Brasil em lances reais retirados do Campeonato Brasileiro de 2012:

Abaixo, uma ilustração de um jogo no Brasil correspondente a um comportamento muitas vezes observado:

Como segundo problema, a necessidade de formar um bloco ofensivo consistente, que facilite a criação de superioridade numérica e que facilite um comportamento agressivo de transição defensiva para buscar a recuperação da posse. As fotos de Bayern e Manchester United identificam bem a formação do bloco, com todos os jogadores de linha posicionados no campo de ataque:

Já numa equipe brasileira, o bloco ofensivo observado, na maioria das vezes, é semelhante ao do exemplo que segue:

O terceiro problema apresentado relaciona-se as equipes terem que fazer campo pequeno para defender, diminuindo os espaços importantes entre a bola e o alvo e, ao mesmo tempo, manter uma organização que favoreça a transição e organização ofensiva.

Nestas fotos de dois jogos da Champions, observe os exemplos:

Em contra partida, o bloco baixo da primeira linha e o combate desorganizado no portador da bola, espaçam as linhas defensivas da equipe brasileira como mostra a figura:

Outros dois exemplos forma utilizados. Um que identificava a distribuição das peças no campo de jogo, num determinado instante do jogo, de modo a ilustrar a quantidade de jogadores à frente da linha da bola para a construção da ação ofensiva e outro que quantificava o número de ocorrência de pressing na região em que se encontrava a bola para induzir o erro do adversário, logo, recuperar a posse. Obviamente que esses dois comportamentos não são bem realizados no futebol brasileiro.

Após estas constatações, foram mostrados exemplos de treinamentos tradicionais que não favorecem à aquisição de comportamentos coletivos.

Entre eles: treinos de fundamentos técnicos do jogo, treinos de finalização, treinos táticos 11×0 e treinos de jogos reduzidos.

As soluções apresentadas para reverter o cenário atual de formação dos atletas brasileiros todos que acompanham o site da Universidade do Futebol já conhecem. São jogos e mais jogos que contribuam para o desenvolvimento da inteligência coletiva de jogo. Para isso, jogos de futebol com manipulação das regras devem nortear o microciclo de treinamento.

Quaisquer das seis atividades que já publiquei no banco de jogos das minhas colunas servem como exemplo. Algumas das justificativas estão apontadas na seguinte imagem:

Para confirmar os resultados desta forma de trabalho, cases de sucesso foram apresentados para minimizarem as críticas e dúvidas desta maneira (que de acordo com as datas dos contributos teóricos não podemos chamar de nova) de conceber o treinamento em futebol.

Um tema polêmico e que seguramente será bastante criticado. Porém, com o apoio de profissionais do futebol e estudantes que buscam espaço e querem transformações no trabalho de campo, a sensação é de que estamos fortes para combater qualquer que seja a crítica.

Que cada vez mais discussões como esta ganhem espaço e também os campos do nosso imenso país. Sem d&
uacute;vida é uma das soluções para o nosso futebol!
 

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

 

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Vendas de ingressos para a final da Sul-Americana: direitos do torcedor violado

A temporada aproxima-se do fim, mas, ainda há o Mundial de Clubes e as finais da Copa Sul-Americana. Em ambas competições há clubes brasileiros. O Corinthians no Mundial e o São Paulo na Sul-Americana.

A grande finalíssima da Copa Sul-Americana será no dia 12 de dezembro de 2012 no Morumbi e os ingressos começaram a ser vendidas, pelo site ‘Total Acesso’, na noite do domingo (2/11), após a última partida do São Paulo no Campeonato Brasileiro.

Imediatamente, os torcedores começaram a reclamar em redes sociais que o site e não finalizava algumas vendas.

O São Paulo, em sua página oficial no Facebook, na madrugada do mesmo domingo para a segunda-feira (3/11), informou que "devido a problemas técnicos" a venda seria interrompida e os ingressos voltariam a ser vendidos a partir das 9h da segunda-feira.

A fim de atender ao princípio da transparência, no momento da interrupção o São Paulo informou que haviam sido vendidos apenas "mil ingressos antes da suspensão das vendas" e que havia "muitos lugares em todos os setores".

Não obstante isso, alguns torcedores comentaram nas redes sociais que conseguiram comprar ingressos durante a paralisação das vendas. Ademais, na segunda-feira, o site responsável pelas vendas permaneceu com instabilidade e sem finalizar a venda de vários torcedores.

Esse episódio apresentou três erros graves de desrespeito ao Estatuto do Torcedor e ao Código de Defesa do Consumidor: não houve a venda física, o processo não foi transparente e o torcedor não teve meios legítimos e seguros para comprar os ingressos.

Segundo o artigo 5º do Estatuto do Torcedor são asseguradas ao torcedor a publicidade e transparência na organização das competições administradas pelas entidades de administração do desporto, o que não foi observado pelo São Paulo.

Além disso, nos termos do artigo 20, § 5º, a venda de ingressos será realizada em, pelo menos, cinco postos de venda localizados em distritos diferentes da cidade. Assim, a venda exclusiva pela internet viola o Estatuto do Torcedor.

Os torcedores prejudicados podem e devem acionar o Poder Judiciário para pleitear indenização pelos prejuízos sofridos.
Constitui dever do Ministério Público e do Procon tomar as medidas previstas no artigo 56 do código de Defesa do Consumidor, uma vez que esta lei é aplicada subsidiariamente ao Estatuto do Torcedor.

Dessa forma, o São Paulo deveria ser punido com multa a ser graduada de acordo com a gravidade da infração, a vantagem auferida e a condição econômica do fornecedor serão aplicadas mediante procedimento administrativo nos termos da lei, revertendo-se o valor para o fundo de proteção aos direitos do consumidor.

É muito importante que os torcedores acionem os órgãos competentes a fim de assegurar o cumprimento de seus direitos, eis a cidadania somente atingirá sua plenitude pelo exercício reiterado.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br